22 junho 2010
Galileu ensinado a miúdos de 13 anos
Folheei o livro para ver se estava tudo em ordem, e parei na página do Galileu:
"E contudo move-se"
Como Copérnico, também Galileu etc. telescópio mais potente etc. sistema heliocêntrico, publicação em 1610, discussões.
Na peça de teatro "Vida de Galileu", de Bertolt Brecht (1898-1956), diz um monge a Galileu:
... Eu sou filho de um lavrador e cresci na Campagna. São pessoas simples. Sabem tudo sobre oliveiras, mas do resto pouco sabem ...
Asseguraram-lhes que o olho divino paira sobre eles, ... que o grande teatro do universo se arma à sua volta, para que eles ... se possam sentir confirmados.
O que diria a minha gente se eu lhes contasse que se encontram num torrão de pedra que, sem parar de girar, anda no espaço vazio à volta de outro corpo celeste?
Para que serve então a Sagrada Escritura, que tudo explica ... e da qual se dirá agora que está cheia de erros ...
7. Observa atentamente a figura. Com que palavras poderia Galileu ter elogiado o seu telescópio?
8. Com a ajuda do texto de Brecht, descreve que angústias podem ter surgido nas pessoas devido às afirmações de Galileu.
9. Escreve a resposta que Galileu poderia ter dado ao monge.
Em 1633 julgamento etc., prisão domiciliária etc.
Em 1992, o Papa João Paulo II afirmou que Galileu revelou mais visão que os seus adversários teólogos.
10. Prepara uma carta ao tribunal eclesiástico na qual defendes a posição de Galileu.
***
Eu quero voltar à escola! Eu não vou vender este livro! Na próxima quinta-feira vou à escola do meu filho e compro todos os desta série!
(que diferença em relação aos livros pelos quais eu própria estudei História)
21 junho 2010
herdeiro meu
"mãe, depois disto, nunca mais voltas a pensar em me deserdar!"
e mostrou-se: calções verdes, t-shirt vermelha, uma bela bandeira portuguesa pintada na cara.
Depois tomou o pequeno-almoço e foi para a escola.
(A vantagem das raízes duplas é que vivem os campeonatos internacionais de futebol com o dobro da intensidade dos frenéticos normais.)
20 junho 2010
para quem diz que os alemães não têm sentido de humor...
Este filme, em que um grupo de estudantes faz uma paródia à Lena (a miúda vencedora do festival eurovisão da canção), transformando a sua canção num hino alternativo para a selecção alemã.
(Apresso-me a pôr isto no ar antes que seja tarde demais...)
(Na sexta-feira passada comovi-me um bocadinho ao ver a alegria dos sérvios nas ruas de Berlim. Se na Loja do Cidadão sabem disto, vão-me obrigar a pagar uma taxa extra para me concederem a nacionalidade alemã...)
2.
Quando contei ao Joachim que o Saramago tinha morrido, ele comentou: "os espanhóis devem estar muito tristes..."
18 junho 2010
quem tem medo das cartas aos luxemburgueses?
Acho o convite feito nesse e-mail muito acertado, e até o quero reforçar:
Caro luxemburguês,
embora não tenha competências para tanto, gostaria de o convidar a instalar-se ilegalmente em Portugal.
Em caso de doença e necessidade de recorrer aos cuidados médicos, pode dirigir-se aos serviços hospitalares públicos portugueses. Provavelmente será atendido tal como qualquer português, ou até melhor, e gratuitamente. Com certeza que todos os funcionários desse serviço tentarão falar numa língua que o senhor entenda.
Não se esqueça de pendurar uma bandeira do seu país à janela - nós gostamos do colorido da internacionalidade.
Se cometer uma infracção, trate de alertar imediatamente o agente da autoridade para a sua nacionalidade. É mais provável que esse facto jogue a seu favor que contra si.
Em Portugal, tudo isto é possível, não porque sejamos governados por idiotas politicamente correctos, mas porque o povo é mesmo assim: gosta de ser hospitaleiro, e nem se importa muito que abusem.
Adenda (que me ocorreu, sabe-se lá porquê, no momento do 1-0 no Sérvia-Alemanha): podemos escrever um convite assim porque é para luxemburgueses. Se fosse para - sei lá - brasileiros, ucranianos, cabo-verdianos...
um dilema grave
Acho que vou ao yoga. Perco duas horas, mas saio de lá como se estivesse no nirvana.
Emboramente: há um momento em que temos de repetir frases do género
"eu - digo o meu nome - conseguirei atingir os meus objectivos com determinação, calma e alegria"
"eu - digo o meu nome - sou capaz de ultrapassar todas as dificuldades que surgem no meu caminho"
- e eu, a propriamente dita, fico sempre mentalmente gaga, a pensar qual será o nome que devo usar. "Eu, Helena Araújo", ou "Eu, Helena," ou "Eu, Heleninha", ou "Eu, Lena", ou "Eu, Leninha," - e terei mais uma meia dúzia de exemplos, mas esses não conto, porque não são nomes de guerra.
Qual dos meus nomes é portador de projectos, tranquilidade e alegria?
Suspeito que este trabalho anda empatado só porque eu não me sei dar o nome exacto.
A ver se lá no ginásio também fazem sessões de yoga para asserção de identidade.
ainda se fosse para ver o Papa...
Neste país ninguém pensa em trabalhar?
A culpa é do Sócrates, claro.
Aquela tolerância de ponto por causa do Papa abriu um precedente que só podia resultar neste plano inclinado.
17 junho 2010
por causa daquele meu post sobre "cala a boca"
Parece que a censura é que está a dar.
and now for something completely beautiful:
O bem que me soube passear por aquelas fotografias que com tanta nitidez revelam a sensibilidade dos rapazes, o que gostei de saborear a simplicidade do texto e de rir com a já habitual surpresa dos seus murais.
E a confusão que me fez aquela fotografia das árvores: será mera realidade vista com olhos atentos? será uma ilusão de óptica, um mural muito bem conseguido?
(É só a mim que acontece isto? Quanto tenho realmente imenso que fazer, distraio-me pelo caminho.)
(Laura: obrigada pelo link no facebook!)
"norte-coreanos"
Mas afinal qual é o problema de um grupo de eventuais actores fazer fitas para as câmaras antes do início do jogo? Não me digam que acham que fenómenos de publicidade e criação deliberada de uma imagem não atravessam a fronteira das Coreias? (e nem sei dizer de que lado para que lado...)
Confesso que, da primeira vez que vi o filme, imaginei que estariam a treinar para saber estar em estádio à maneira ocidental. É que nunca se sabe como é que cada povo exprime a sua satisfação durante o jogo. Quem, como eu, já viu uma brasileira a saltar para cima de uma mesa ao lado do écran gigante, e levantar a t-shirt, virada para o público, só para festejar um golo, acredita em tudo e em muito mais. E é óbvio que a Coreia do Norte tem uma imagem a defender, que convém acertar e polir antes do início do jogo (quem nunca combinou participar em grupo num evento público exibindo determinados trajes ou comportamentos, que atire a primeira pedra). Mas depois reparei melhor no estádio vazio, e nas câmaras em frente a este grupo.
Se nos vamos incomodar com isto, e tirar conclusões sobre as condições de vida na Coreia do Norte, vamos ter de nos incomodar muitas mais vezes e tirar muitas mais conclusões sobre as condições de vida em todos os países do mundo. Quem é que permanece normal perante uma câmara de TV?
***
Esta pequena agitação internética lembra-me uma teoria que li algures, há já não sei quanto tempo, sobre a nossa sociedade da informação: nós não andamos informados - andamos em estado de permanente semi-excitação devido a pseudo-escândalos.
melhor ainda que falar de sapatos feios e de receitas culinárias (incluindo o fenómeno "Nutella Lawson")
Mais uma vez fica provada a estranha inconsistência das estatísticas.
Se fosse esta a maneira de chegar ao milhão de leitores, seria motivo de orgulho?
liberdade de expressão x liberdade de imprensa
(Para mais informações, carregar sobre a imagem.)
No entanto, o tema parece em parte ultrapassado, ou pelo menos incompleto: falta referir a internet, concretamente o novo fenómeno de grupos mais informais de fazedores de opinião e veiculadores de ruído informativo.
16 junho 2010
e então ela disse assim: "e se não estiver satisfeita, vá à Polícia" - e eu fui
Depois procuraram no computador, e disseram-me que não tinham recebido nada desse centro, além de acharem muito esquisito a rapidez com que despacharam uma coisa esquecida - que não é nada habitual, disseram eles. De modo que eu fui outra vez à loja do cidadão, ver se o casaco não teria caído para trás de algum móvel.
A senhora que me atendeu foi muito desagradável. Aquele tipo de mulher sobre quem se diz que tem "cabelos nos dentes". Disse-me com maus modos que não registam essas coisas sem importância, e que não tinha como provar ou verificar fosse o que fosse ligado a uma bagatela. E que dava o assunto por encerrado. Perguntei-lhe se não a incomodava a suspeita de ter havido um furto, perpetrado por funcionários do Estado, dentro de organismos estatais. Ela disse que não a interessava, e "se não estiver satisfeita, vá à Polícia".
E eu fui.
Disse na recepção ao que ia, e que até tinha vergonha de vir incomodar por causa de um artigo de tão pouco valor, mas que não gosto da ideia de haver furtos dentro das repartições públicas. Daí a nada chamaram-me para registar a queixa. Voltei a pedir desculpa por causa da bagatela, e a funcionária, muito simpática, cortou-me a palavra: que era o que faltava, que não se pode admitir uma coisa destas, aonde é que vamos parar se nem nos serviços públicos nos sentimos em segurança?, e que até o polícia da recepção ficou boquiaberto quando contei o sucedido.
Daí a nada estava a telefonar à barbuda dental, que voltou a dizer que não tinha nada com isso, e a polícia só fazia "hm-hm, hm-hm", e eu pensava "pronto, já foste bem embrulhada". Mas quando a outra acabou de falar, ela rematou: pois é, mas a senhora tem obrigação de registar tudo o que sai dessa casa, independentemente do seu valor, até para sua própria defesa, e teremos de dar início a uma investigação sobre a "subtracção de coisa perdida" ocorrida nesses serviços.
Já perdi a esperança de recuperar o casaco, e é pena, porque ainda estava a contar dá-lo a uma escadinha de três sobrinhos - a qualidade da "coisa perdida" chega para esses rapazes, e mais outros tantos. Mas que o esforço valha ao menos para que alguém naquela cadeia de serviços afaste para longe a ideia de que se pode servir impunemente à custa dos utentes.
(Sim, eu sei: a proceder assim, bem mereço um descontozinho nos tais 300 euros que custa o processo para obter a nacionalidade alemã)
cala boca Galvão!
O caso é simples, como conta o El País: twitteiros do Brasil começaram a twittar "cala boca Galvão", e fizeram-no com tanto empenho que num ápice a frase se tornou famosa.
Twitteiros do resto do mundo começaram a interrogar-se sobre o que isso queria dizer.
E aí, foi o disparate total: desde o filme acima, preparado a toda a velocidade, até ao boato que seria o novo vídeo da Lady Gaga, passando pelo Paulo Coelho a afirmar que se trata de um medicamento homeopático, o silentium galvanus.
Nada disso: era apenas um movimento de protesto contra o comentador brasileiro do mundial de futebol, Galvão Bueno.
Entretanto, já há um Galvao Bird's Foundation, e até o New York Times escreve sobre o caso.
Se eu fosse o Galvão Bueno, metia-me debaixo da cama e só saía de lá com nome falso e barba postiça.
Os desenvolvimentos do caso são divertidos, sem dúvida. Contudo, será que a algum destes twitteiros ocorreu que por trás do nome "Galvão" há uma pessoa de carne e osso e sentimentos? É o que me incomoda nesta história. Até estava a pensar criar um grupo no Facebook, algo como "estamos com o Galvão!" ou "Deixa-os twittar, Galvão, que quem muito twitta pouco acerta", mas informaram-me que afinal não é preciso. O Galvão Bueno leva o caso com humor, e até conta uma história lembrando o Ayrton Senna, que deve estar farto de rir.
Valente Galvão! Consegue cavalgar a onda da internet.
E no entanto...
...que mundo é este, onde é possível que uma multidão passe com toda a facilidade frases pouco abonatórias sobre uma pessoa concreta, e essa cadeia num instante atinja um nível global?
Para finalizar, o detalhe do erro gramatical: que mundo é este, onde é possível que uma multidão passe com toda a facilidade frases com erros gramaticais...?
***
Este post foi feito with a little help from my friends, brasileiros. Quando eu nem sabia ainda da história, já eles me estavam a explicar a sua desconstrução.
15 junho 2010
coisas da vida
Ainda não conseguiu parar de rir de si própria.
"A saltar à corda!", diz ela, "hihihi, a saltar à corda!"
***
Estou desde as seis e meia da manhã de serviço à família: passar uma camisa para o Joachim (como é que vocês fazem? eu de momento não me dá jeito nenhum passar a ferro, porque na tv só passa futebol), levar o Matthias à escola porque ontem foi vítima de um caso cartão vermelho no treino e agora anda a coxear, coitadinho, até parece o Ballack, depois ir para o outro lado da cidade em busca do casaco que o rapaz perdeu numa loja do cidadão, para saber que a loja do cidadão não enviou casaco nenhum para o centro de perdidos e achados, e eis senão quando me telefonam a dizer que tenho de regressar ao outro lado da cidade porque a Christina teve um acidente na escola. Enquanto isso, todo o trabalho que tinha previsto fazer hoje...
- Deixem-me trabalhar!
Como será que fazem as pessoas com filhos e trabalho das nove às cinco?
13 junho 2010
andamos a brincar a quê, concretamente?
Uns serviram-se pelo lado do "malditos judeus, sempre os mesmos!" outros optaram pela desconfiança barata "e seriam mesmo apenas alimentos e medicamentos que esses terroristas lá levavam?"
Uns dias mais tarde, os escombros estão a dar à costa: que Israel é o único país da região onde os homossexuais não são perseguidos, balhósdeus, e que realmente maus e desumanos são os outros. Daqui a nada temos sharia verus democracia. Óptimo, óptimo, este mundo avança tão depressa que é sempre bom quando a discussão não sai do sítio - aproveitamos para descansar um bocadinho...
E se, para simplificar, combinássemos alguns princípios de argumentação básicos?
Estes:
- Os erros dos outros não justificam os meus.
- O que eu faço de errado, é errado; o que eu faço de correcto, é correcto. Uma mão não lava a outra.
viva a Elvira!
Ontem tivemos bacalhau à beneditino seguido de bavaroise de morangos, hoje foi a vez de peito de pato com maçã e gratin dauphinois.
Não é só o recurso fantástico de poder procurar receitas a partir dos ingredientes que já tenho em casa. É muito mais: a Elvira tem uma maneira tão simples de descrever a confecção dos pratos, torna tudo tão fácil, que devia ganhar uma medalha da sociedade de psicanálise só pelo bem que faz à nossa auto-confiança (ou talvez medalha nenhuma: afinal de contas, acaba por esvaziar os consultórios dos psi da lusofonia).
Resumindo e concluindo: viva a Elvira!
(E muito obrigada!)
(A Nutella Lawson, ou lá como ela se chama, já era.)
Ah, quase me ia esquecendo de uma nota importante:
Para quem acha que eu, depois de me regalar com um litro de natas, devo estar gorda como sei lá o quê, aqui vai o meu truque: o escritório fica bem longe da cozinha. Enquanto vou preparando estas receitas, devo fazer umas vinte vezes o percurso (com gincana entre os móveis) entre o fogão e a internet. É quase tão tiro e queda como ter o frigorífico e a despensa três andares acima do sítio onde se come.
12 junho 2010
Vietname em Berlim
Para os visitantes de Berlim, aqui vai uma lista com quatro dos nossos preferidos (em todos eles é possível almoçar bem por cerca de 10 euros; e dificilmente o jantar ultrapassa os 20 euros, bebidas incluídas):
- Mitte - Rosenthaler Str. 38 (junto aos Hackeschen Höfe): Pan Asia - no verão é muito agradável usar as mesas do pátio. Sabores da cozinha vietnamita (e também tailandesa e chinesa) com um toque muito elegante e moderno. Não deixem de experimentar as bebidas especiais da casa.
- Mitte - Alte Schönhauser Straße 46: Monsieur Vuong - durante algum tempo foi aquilo a que se chama "um local para insiders", mas entretanto tornou-se um segredo de Polichinelo. Apesar de sempre cheio, e do consequente burburinho, vale a pena. Às vezes temos sorte, e o Monsieur Vuong vem ter connosco para conversar um pouco - enquanto fala solta as mãos num fino bailado, e nós até nos esquecemos de comer. As ruas à volta desse restaurante são muito agradáveis para passear, com lojas pequenas e originais, algumas delas muito engraçadas - literalmente.
(Pequeno truque: ao fim de semana, os berlinenses comem tarde. Para não ter de esperar muito nestes locais famosos, o mais fácil é chegar antes das 13 para o almoço e por volta das 19 para o jantar.)
- Neukölln - Hasenheide 10: Hamy Cafe Foodstore - simples, serviço incrivelmente rápido, pratos deliciosos, preços inacreditavelmente baixos. E quem, no fim da refeição, tiver ainda algum espaço livre no estômago, pode atravessar a rua e ir comer um gelado na gelataria Hennig.
Pequeno senão: o parque em frente, Volkspark Hasenheide, já no tempo da Christiane F. era famoso como local de tráfico de drogas. A situação tem vindo a escalar, com bandos africanos e árabes a lutar pelo domínio desse espaço. Aos visitantes dessa área (que inclui a Hermannplatz, ali perto) recomenda-se alguma precaução, sobretudo à noite.
- Charlottenburg - Leonhardtstrasse 7: My Hanoi. O Kiez da Leonhardtstrasse é um local muito especial em Charlottenburg: com larguíssimos passeios onde os cafés e restaurantes espalham as suas mesas à sombra das árvores frondosas, num cenário em estilo Art Nouveau muito bem cuidado. Um espaço para saborear a boa vida com todo o sossego. Num raio de uma centena de metros encontram-se restaurantes que vão da Espanha à Áustria, passando pelos inevitáveis italiano e indiano e, claro, pelo My Hanoi. Todos eles muito bons. No vietnamita recomendo especialmente as sobremesas. Todas elas.
Adenda
- Mitte - Münzstr. 3, entre Alexanderplatz e U Weinmeisterstr. : "Com Viet". É muito pequeno, mas a qualidade é muito boa e os preços são bastante acessíveis.
(a partir de um comentário do Francisco)
Mais uma Adenda:
(também por sugestão do Francisco)
ChénChè
11 junho 2010
uma praga
Aquele barulho contínuo de vuvuzela deixa-me a imaginar que seria tal e qual o que se ouviu no Egipto quando lhes caiu em cima a praga dos gafanhotos.
ainda o inquérito sociológico
(Viram que não escrevi nem Pimba nem Bimba? Hoje estou muito respeitadora das sensibilidades alheias.)
Os prémios são todos provenientes da feira de Barcelos, ainda do tempo em que os animais falavam (bem, pelo menos na aldeia da minha avó alguns cucos destravados* diziam "Ó Zé! Ó Zé!") - o que significa que nada sei sobre o teor de chumbo no vidrado, e essa é justamente uma das razões pelas quais estas coisas cada vez têm mais pó. Mas um pó muito cosmopolita, já deram a volta ao mundo. O que prova também que são resistentes, porque apesar de tanto passeio ainda não racharam.
Posto isto, cá vamos ao que interessa:
Primeiro prémio - panela grande com tampa
Segundo prémio - assadeira pequena
Terceiro prémio - castiçal
Prémio suplementar, ex aequo - a gratidão eterna do meu marido, por se ver finalmente livre destes trambolhos.
Este post vai sem comentários, porque estou a ver se chego aos 100 comentários no post anterior, sobre o mesmo tema...
**
Adenda, muitos dias depois, porque reparei que me esqueci de falar daquele "destravados*":
(*) Na aldeia da minha avó, há mais ou menos dois séculos, disseram-me que para destravar os pássaros, para eles poderem imitar os humanos, é preciso cortar-lhes alguma coisa sob a língua. Espero que isto não passe de uma brincadeira para enganar a miúda de 10 anos que eu era.
Mas talvez seja verdade: há mais ou menos dois séculos havia muita crueldade na maneira de tratar os animais. Por estas e por outras é que, se me dessem a escolher, gostaria de viver no futuro.
Cluny

Quando eu tinha dez anos, li no meu livro de História um relato sobre a Abadia de Cluny. Dizia-se: importantíssimo centro religioso medieval e maior mosteiro da Europa.
A partir daí, e embora viesse num livro escolar, lugar algo propenso a matar curiosidades e fascínios, habituei-me a imaginar a Abadia de Cluny como um lugar mítico, e sonhava um dia poder entrar nela e sorver na sua semi-penumbra o respirar dos séculos.
Qual não foi o meu espanto quando fui a Cluny e dei com o descampado onde ficava a Abadia. Apenas isso, e um torreão, e um moinho ou algo do género. Após a revolução francesa, o conjunto foi vendido e transformado na maior pedreira da Europa. Hoje em dia, os guias turísticos da cidade ganham a vida apelando à capacidade de imaginação dos visitantes.
Como nós cá não precisamos de pagar a ninguém para começar a imaginar coisas, passeámos pela cidade, sem guia turístico, em busca dos vestígios da gatunagem. Olhávamos para as fachadas, e debatíamos, feitos Sherlock Holmes da arquitectura antiga: de onde terão vindo estas pedras? Terão sido da abadia? Serão originais?



Cansados de levantar falsos testemunhos a meia cidade, dirigimo-nos para a antiga estação ferroviária, onde há uma loja que aluga bicicletas. Após a suspensão da linha, converteram a via em estrada para ciclistas, pelo que agora é possível atravessar a Borgonha de bicicleta em caminhos com pouca inclinação e risco nenhum, passando por lugares com nomes que de algum modo nos estão no ADN, como: Charolles, Givry, Beaune (enfim, talvez não seja tanto no ADN como no sangue. Na taxa de álcool no sangue...)
O dono da loja é uma simpatia, e um modelo de confiança. Entregou-nos as bicicletas sem exigir sequer que lhe mostrássemos o cartão crédito, ou algum documento de identificação. "Paga depois, quando entregar as bicicletas", disse ele.
Mesmo antes de a loja fechar, alugámos por uma hora um carro alto movido a pedais, e deu-nos um cadeado para o deixar fechado quando regressássemos.
"Se não está aqui quando regressarmos, como sabe que não vamos andar quatro horas pagando apenas uma?"
Encolheu os ombros. Deve estar habituado a gente honesta, nem lhe passa pela cabeça que alguém faça uma trafulhice. Abençoados clientes que vieram antes de nós!
Agradecemos, e saímos a pedalar paisagem fora. E voltamos ao fim da hora combinada, também por causa dos clientes que virão depois de nós.

10 junho 2010
10 de Junho
Do coração de Berlim mando um grande abraço para o meu país e para os mais-ou-menos-portugueses espalhados pelo mundo.
Não tendo mérito ou culpa no facto de ter nascido portuguesa, tenho a minha quota-parte de mérito ou culpa no Portugal que temos.
Devo pedir desculpa? Não, não perca eu tempo com isso: mais me vale arregaçar as mangas, e começar a varrer por dentro da minha casa. Mais o meu bocadinho de rua.
(A ver se um ano destes mereço uma medalhinha...)
08 junho 2010
inquérito sociológico
(como se chamaria a personagem do Herman José que fazia esta voz foleira? O que eu me ria com as cassettes que a minha amiga Paula gravava ardua e directamente do programa matinal da rádio. Quando havia engarrafamento na autoestrada, o pessoal todo parado e a fumegar, e eu a rir como parvinha, "olá minhas amigaaaas", e mais a entrevista à Greta Garfo, e mais aquele rufia que fungava entre cada duas palavras, e mais o outro que gostava de mulheres gordas porque se sentia muito aconchegado...)
(ainda não comecei, já estou outra vez a divagar)
Olá minhas amigas,
A pergunta de hoje é:
- Quem é que gosta da Bimby? Porquê?
- Quem é que não gosta da Bimby? Porquê?
Aceitam-se todas as respostas. Desde a da Rita (porque uma mulher que usa Bimby não percebe nada de erotismo) até à minha (porque Bimby, Pimby, Pimba - não quero em casa uma coisa com um nome tão rasca) passando por um eventualmente "bem, se ma dessem era uma vantagem, vendia-a logo na e-bay e comprava um trem de panelas de barro como deve de ser".
(Porque será que só escrevi frases negativas? Não me digam que tenho preconceitos?...)
Isto, em parecendo que não, é um concurso. O vencedor, ou a vencedora, ganha uma panelinha de barro da feira de Barcelos que é um mimo e me anda a atravancar a cozinha há mais de dez casas. Sim: uma panela muito viajada. Até já na Califórnia se encheu de pó.
O prazo fecha impreterivelmente amanhã ao meio-dia. Todas as frases serão publicadas (na caixa de comentários, pois está bem de ver). E será o estimável público a votar a frase vencedora, para não me acusarem de favoritismo.
E antes que desconfiem que a Bimby me paga para isto: *choro inconsolável* não, não paga! E se pagasse, depois daqueles argumentos ali em cima, deixava agora de pagar.
Não tenho jeito nenhum para o negócio.
desculpem que mal pergunte:
Vão lá ver, vão.
Por exemplo, o post "aculturação".
07 junho 2010
programa para um dia de verão em Berlim
Continuar caminho, até passar sobre dois canais. Daí a nada a estrada é visualmente cortada por duas linhas paralelas feitas com paralelipípedos, que indicam o local onde passava o muro - no caso, onde começava Berlim Leste. Um pouco atrás, junto a um parque, fica uma das duas torres de vigia que permaneceram após a queda do muro (aberta de Maio a Setembro, de quinta a domingo, das duas às sete da tarde).
Entre a rua e o rio Spree estende-se um dos locais mais abgefahren de Berlim:
- Ao longo do segundo canal, na sua margem esquerda, há um conjunto de barcaças transformadas em restaurante. Assim:
(foto tirada daqui)- Na margem direita do canal, na rua am Flutgraben, encontra-se o Klub der Visionäre, com concertos, DJ, e o mais que eles se lembrarem de inventar. Também alugam um barco com capacidade para 11 pessoas (mas não sei se exigem carta de patrão de costa, ou se serve para qualquer marinheiro de água doce).
- Um pouco mais à frente dos restaurantes fica uma empresa que aluga kayaks, nos quais se pode sair rio fora, e saborear Berlim de uma perspectiva completamente diferente.
- Ao fundo da Am Flutgraben fica a Kunstffabrik - pavilhão para uso de artistas. Ao lado, há um café com um terreno relvado onde espalharam bancos de jardim sobredimensionados (uma pessoa senta-se lá em cima, a metro e meio do chão, e percebe como é que os bebés se devem sentir quando sentados nos móveis dos adultos), e carros velhos cobertos com relva (Dali? tu por cá?).
- Virando nessa pequena rua à direita, chega-se ao rio Spree e encontra-se o Badeschiff (vale mesmo a pena seguir este link): um barco com piscina, onde se fazem concertos ao ar livre, aulas de yoga, e até se pode nadar "sobre" o rio. Contudo, nos dias quentes, o mais que se consegue é chapinhar, tanta é a gente que se junta naquela piscina.
- Logo a seguir fica a Arena Berlin, edifício industrial transformado em pavilhão para concertos. Com inúmeros concertos para jovens, e outros. Por exemplo: em Junho a Orquestra Filarmónica de Berlim costuma dar dois concertos da série Zukunft@BPhil. No próximo fim-de-semana vão tocar uma peça composta para esta orquestra por Wynton Marsalis, com Sir Simon Rattle a dançar de um lado da orquestra, e miúdos das escolas berlinenses a dançar do outro lado, segundo uma coreografia de Rhys Martin. Por oito euros.)
Para ocupar um dia, parece-me que já chega.
No entanto, turistas mais do meu género (daqueles que conseguem meter aceleradamente vários Rossios numa Betesga) podem ainda ir até ao cais de Treptow apanhar um barco para descer o rio, passando por Köpenick com destino a um lago mais a sul, o Muggelsee. Ou passear pelo parque de Treptow, apreciando o roseiral com as suas 25.000 roseiras e o Memorial dos Soldados Soviéticos - se acham que 25.000 roseiras é muita rosa, olhem para este número: foram 80.000 os soldados que morreram na conquista (ou libertação) de Berlim.
Antes de regressar, um must absoluto : depois de anoitecer, percorrer a ruela entre a Arena Berlin e a Kunstfabrik (junto ao café com bancos enormes). Sobre toda a rua penduraram candeeiros com lâmpadas vermelhas, e não digo mais que isto: é mágico.
pequeno dicionário de alemão: abgefahren

Adjectivo
abgefahren (comparativo: abgefahrener; superlativo: am abgefahrensten)
"Abgefahren" (2.) é o adjectivo que me ocorre para a ideia do Joachim: fazer uma festa de família no atelier de um amigo nosso, num edifício industrial tornado antro de artistas.
Imaginem as pessoas nos seus vestidos de festa, os sapatos chiques, e eu própria disfarçada de Isabel Preysler (mas mais nova, e sem fazer aquela expressão esfíngica das vítimas do botulismo) a avançar por este corredor, que de facto é uma galeria ao longo do rio Spree,

para um almoço numa sala assim:


Se acham a sala aceitável (obrigados, obrigados, trabalhámos muito para a pôr neste estado), vejam agora o corredor das casas de banho
e a propriamente dita (inlimpável, mas deu-se um jeito)

com esta janela toda partida, e uma vista fenomenal para o rio

Do programa constou também uma visita a uma torre de vigia na temível fronteira de Berlim, agora tornada museu e classificada como Património Mundial (não sei que me parece), e que fica mesmo ao lado do pavilhão dos artistas. O descampado por onde está a passar a bicicleta era o corredor da morte; as árvores muito frondosas por trás foram propositadamente poupadas, para que ninguém pudesse ver o que se passava junto ao muro.
Ao fim da tarde: um mergulho no Badeschiff, que é um barco transformado em piscina.
(Os convidados estavam avisados, levaram fato de banho - de modo que não houve cenas como daquela vez que estávamos num casamento principesco num antigo convento austríaco junto ao Danúbio e o tio da noiva se atirou à piscina, no meio do que fora o claustro, em cuecas)

Em suma: um lugar completamente abgefahren, para uma festa completamente abgefahren.
06 junho 2010
de balde debalde
Coitados dos leitores do Delito de Opinião. Chegam aqui, lêem, e põem cara de "será que o José Bandeira deve dinheiro à Helena?"
De modo que prometi lá que ia meter água aqui, para o caso de virem a este blogue debalde.
Para isso, repesco do fundo dos arquivos um delírio de uma noite de Inverno.
Ó, assim:
(senhoras: não leiam)
(cavalheiros: isto não fui eu propriamente dita, isto foi uma coisa que me aconteceu)
20.11.05
palavrões de sobra
Como é fim-de-semana, não há sol, não li o texto do MST e não me apetece falar sobre o caso das alunas do liceu de Gaia, e ainda por cima estou com um ataque de nostalgia, resolvo dar um gosto ao Mr.Hide que há em mim e contar que vivi quase 20 anos no Porto, onde tive oportunidade de aprender alguns dos muitos registos da ordinarice.
(Atenção: Ainda vão a tempo de parar por aqui!)
É todo um universo de alegorias e coloridos, uma espécie de dialecto bem-disposto, que permite
sínteses formidáveis
(como a do professor da faculdade de arquitectura do Porto que manda os alunos desenharem "com os tomates em cima do estirador")
insultos divertidos
(como a miúda da Ribeira, gritando ao rapazinho que se afasta amuado: "Olha, vai pela sombra! Ouviste? Vai pela sombra, que a merda ao sol seca!")
e até novos recursos para a luta de classes
(como esta cena a que assisti no Bolhão:
Cliente (uma senhora fina): A como são as rosas?
Vendedora: A 100 escudos.
Cliente: A dúzia?
Vendedora (muito alto, muito escandalizada): A dúzia?! A dúzia de rosas a 100 escudos?! A mulher está mas é maluca! Deve ser tarada sexual!!!)
O Porto é uma nação, já se sabe, mas eu fiz a pós-graduação do dialecto aos fins-de-semana, quando ia para a casa da avó, numa aldeia minhota.
É um mundo curioso, onde palavras como estrume ou porco são consideradas grosseiras, enquanto que aquelas que o resto do país considera palavrão são usadas com toda a naturalidade.
Foi lá que ouvi delícias do género: "fui buscar um carro de, com licença, estrume, mas a puta da roda partiu-se, a porra da carga espalhou-se na estrada e eu fodi-me todo."
A minha avó tinha uma empregada, a Ana, uma mulher muito bonita e de uma alegria contagiante, que pontuava as frases com palavrões espantosos - acho que até as vacas que ela mungia ("Chiça, hoje tens leite como um caralho!") coravam e ruminavam um muuuuh de desaprovação.
A vizinhança murmurava ("Ela até à frente da patroa fala assim!"), mas os meus irmãos e eu gostávamos imenso de andar de volta dela a aprender para a vida.
A Ana casou, e alguns anos depois fui visitá-la. Continuava bem-disposta e expansiva. Mostrou-me o filho, de ano e meio, gabou-o: "este rapaz é que é fino, fosca-se, olhe-me só para isto",
virou-se para ele, aos berros: "ó meu filho da puta, se te apanho fodo-te os cornos!"
e ele desatou a fugir com as perninhas muito rápidas, soltando gritos alegres
e ela corria atrás dele, insultava-o, ameaçava-o
e depois virou-se para mim: "Está a ver como o raio do rapaz é esperto? Fino como um caralho!"
Do fundo do corredor, o rapazito olhava para ela com os olhos muito brilhantes, ria-se, pedia mais.
A quem estiver interessado em conhecer este vernáculo, recomendo o camião da feira.
Espero que ainda exista: é um camião de carga onde, às quintas-feiras, instalam bancos precários sob a armação de lona, para levar pessoas para a feira de Barcelos. À ida, não há problema. As pessoas repartem-se pelas várias carreiras, vão ainda sonolentas, talvez a fazer contas de cabeça ao que querem comprar. À volta, é um sarilho: querem regressar todos no mesmo camião, atafulham o compartimento com dornas, masseiras, arados, ancinhos, sacos de milho, galinhas e leitões vivos, ajeitam-se como podem pelo espaço que sobra. Vêm bem-dispostos, comparam preços, contam anedotas e histórias das respectivas terras.
Foi num desses camiões que aprendi o meu chorrilho de antologia.
Vínhamos de regresso, todos eles muito faladores e eu muito calada a saborear aquela algazarra alegre, quando o camião parou para deixar sair uma passageira. Foi uma confusão, porque ela estava no fundo do compartimento e não tinha praticamente espaço nenhum para passar, mas com jeitinho e a ajuda de todos lá conseguiu passar sem estragar as mercadorias alheias, lá conseguiu descer do camião, juntar as suas compras, "e olhe aqui este saco, não se esqueça de o levar", "ah, muito obrigada, querem lá ver que me esquecia mesmo". Foi-se embora, o camião arrancou, e quando já íamos na aldeia seguinte uma mulher solta um grito:
"Ai! O caralho foda a merda, que a puta da mulher levou as minhas sardinhas!!!"
04 junho 2010
a culpa é dos jornalistas...
No Mar Salgado há uma ligação para um post no Portugal dos Pequeninos, que eu segui - para acabar incrédula a ler os comentários sobre o ataque do exército de Israel aos navios que queriam furar o boicote imposto por aquele país. Claro que não é caso único, mas é um bom exemplo do que está a correr mal nos debates sobre estes temas.
Na caixa de comentários do Portugal dos Pequeninos fica patente que o grande mal é as pessoas não estarem informadas. No fundo, e como alguns até o reconhecem, pura e simplesmente não sabem do que é que estão a falar. Não sabem quem ia lá, nem o que levavam nem ao que iam. Tomaram partido pró e contra, zangaram-se uns com os outros, insultaram-se, aproveitaram para bater nos judeus (uns) e nos árabes (outros), mas factos palpáveis que é bom, nada.
Em contrapartida, no dia em que o ataque ocorreu, o noticiário alemão entrevistou em directo alemães que vinham num dos barcos, e recolheu depoimentos de algumas das organizações alemãs que estavam por trás dessa iniciativa, para além de passar a Angela Merkel a questionar a proporcionalidade da acção. No dia seguinte, tinham uma das testemunhas no estúdio - a contar, entre outras coisas, que o exército israelita recolheu todo o material filmado e fotografado por quem vinha no navio, de modo que o que chegou à comunicação social é apenas a versão israelita dos factos; e a explicar que se tinham recusado a ir para o porto indicado por Israel porque o objectivo da missão não era apenas entregar as mercadorias mas protestar abertamente contra o boicote imposto por Israel. Etc.
Seria muito saudável para o bom entendimento entre os portugueses, e para o amadurecimento democrático, de um modo geral, que os noticiários passassem mais informação e menos espectáculo e suspense. Eu sei que é mais fácil e agradável para quase todos se a TV passar imagens da nova namorada do Ronaldo, ou assim, em vez de traduzir depoimentos de testemunhas e passá-los em tempo útil. Mas estamos a falar de informação - e o modo como em Portugal se discutiu o caso é um triste exemplo das consequências da má informação.
Luiza, e outros momentos da vida de cada um
Fala-se em Jobim, e eu lembro logo uma das exposições mais especiais que já vi. Estava no Rio de Janeiro, em 2002: "a arte e o som de Jobim".
Inspirada em cada uma de 80 músicas de Jobim havia uma obra de arte plástica. Ao lado, a letra da canção e os auscultadores com que se podia ouvir a música.
As pessoas paravam em frente a cada objecto, olhavam, cantavam com pouca voz e muito sentimento, arrebatadas para dentro de si próprias. Cada canção revelava o olhar de um artista e os muitos olhares das pessoas que paravam para soltar recordações, uma ou outra lágrima, sorrisos ternos.
Nunca vi uma exposição tão plena de sentidos e encontros - uma exposição feita sobretudo pelos seus visitantes.
03 junho 2010
chegou o sol!
Grande azar. Agora vê-se demasiado bem o sujo nas janelas.
E as visitas a chegar para a grande festa no próximo sábado.
Ai, que vou passar uma vergonha. A não ser que o Joachim lhes sirva o seu célebre mojito ainda na cama, a ver se já não vêem bem quando descerem para o pequeno-almoço.
- E porque não as limpas, Heleninha?
- Estão doidos? São mais de oitenta. Mais depressa mudava de casa...
E cá vou eu, a caminho da loja dos vietnamitas, para comprar quantidades industriais de menta.
02 junho 2010
ai que stress
Ai que stress.
De modo que não se surpreendam se de repente recomeçar a série EUA 2009.
Antes de mais, regressemos à Páscoa, e à Borgonha. Depois iremos ao Grand Canyon e redondezas, com passagem pelas sapateiras de Oregon e pelos museus de Washington D.C.
Talvez possa servir de ajuda a alguém para preparar as suas próprias viagens. E para calar a boca aos queridos clientes que me andam a atazanar sobre este assunto.
Ai! E ainda há aí alguém a pedir-me para traduzir um "und". E prometi que traduzia outro texto do diário da Ruth Andreas-Friederich, sobre a proibição de fazer abortos e a tragédia das berlinenses grávidas depois de terem sido violadas pelos soldados russos.
É o que vos digo: ai que stress.
E este fim-de-semana temos uma grande festa de família (a minha vida real atrapalha-me um bocadinho a minha vida internética...)
o problema é virem do Leste, só pode ser...
Os irmãos muçulmanos do Egipto tratam os irmãos muçulmanos da Palestina como leprosos.
Curiosa coincidência: no início do séc.XX, os judeus alemães tratavam os judeus vindos do Leste como leprosos.
E na viragem do séc.XX a Europa central olha para o alargamento a Leste como se de um mal se tratasse. Já para não falar do referendo da Suíça, que só por uma pequena margem aceitou a entrada no espaço de Schengen, apesar de saber que a não entrada teria brutais consequências económicas para o país.
Mesmo sem querer entrar em pormenores regionais como o do dossier para concorrer a um emprego na Alemanha, que veio devolvido do potencial empregador (uma empresa da antiga Alemanha Ocidental) com um grande "Ossi" escrito a vermelho na primeira folha.
***
Fora de brincadeiras: com o Egipto de um lado, e Israel do outro, o Hamas em cima e a mais profunda miséria por todos os lados, de que é que a Comunidade Internacional está à espera para ajudar realmente aquele povo a sair do beco sem saída?
A proposta de Reuven Moskowitz (judeu, israelita e que escapou por uma unha negra às câmaras de gás) é: desarmamento total da região, e capacetes azuis em quantidades fenomenais até a Paz ser possível.
01 junho 2010
Louise Bourgeois

Informação, para quem já estiver com saudades da Louise Bourgeois: em Berlim estará até ao dia 15 de Agosto uma exposição, a última realizada sob a sua férrea orientação.
No jornal onde li a notícia da sua morte fala-se do apartamento nova-iorquino, e da estranheza de uma das suas esculturas típicas, que o autor descreve como uma macabra prótese de perna pendurada do tecto. De onde se depreende que quem escreveu aquela notícia não sabia do problema físico da irmã de Louise, e de como o amor e o sofrimento atravessaram a sua arte e se revelaram tantas vezes em esculturas de corpos com uma perna de pau. Estas e outras coisas se aprendem na visita guiada (aos domingos, das 15:00 às 16:00 - também é possível marcar visitas noutras línguas, além do alemão).
(foto tirada daqui)
Adenda: sobre esta exposição, o núcleo museológico onde decorre, e umas coisinhas mais, já escrevi aqui.
cambada de umbiguistas!
Nem um "ai, parabéns, foi quase merecido..." nem um "ai, coitados, pobre Alemanha e pobre Angela Merkel!"?
Cambada de umbiguistas.
Sobre o Presidente da República, que se chateou pelo modo como criticaram uma afirmação dele, e saiu feito dama indignada "essas interpretações não são compatíveis com a dignidade do cargo que ocupo", lamento sobretudo que tenha escolhido tão mal o momento.
Quanto à afirmação propriamente dita, é das tais coisas: ele disse em voz alta o que todos fazem e pensam... Um dia hei-de conseguir compreender porque é que só se safa quem consegue ocultar melhor. Concretamente: neste momento há tropas alemãs no Oceano Índico a proteger aquela via comercial dos ataques piratas. Qual é o problema?
(para mim, o problema é não haver piratas e navios comerciais alemães a passar pelo meio do Darfur...)
Quanto ao Festival da Canção, vejam-me esta miúda:
É desconcertante.
Tem uma consciência de si própria e da sua dignidade como não é normal no mundo do espectáculo. Neste programa de televisão, trata o entrevistador por tu. Quando ele a trata por você, ela acusa logo: "Disseste "você"? Hã? Não me digas que também queres que te trate assim?" e acaba a trazê-lo para o campo dela, obrigando-o a que se tratem por tu. Quando ele lhe pergunta sobre a sua vida afectiva, ela diz que não é o primeiro a fazer essa pergunta, e que também ele ficará sem resposta. Da primeira vez que a quiseram interrogar sobre isso, respondeu que foi obrigada a casar aos oito anos de idade, e que o assunto ficara assim encerrado.
Mais à frente questiona o comportamento das pessoas perante a nova estrela que ela é: os que a chamam na rua como se se quisessem gabar de a terem reconhecido, ou os que, ao vê-la, sacam da câmara de filmar e toca de gravar tudo, sem respeito nem pudor, independentemente daquilo que ela esteja a fazer. Que acha muito estranho, diz ela.
A meio de uma frase diz "tenho um cabelo na boca", e ri, e continua a falar.
E conta que nunca aprendeu música, e que só tem experiência de palco devido a algumas festas na escola, "para o avô e a avó", e que achou graça a participar no concurso para selecção do cantor que iria representar a Alemanha em Oslo, mas que a vida dela continuou normal. Sim, normal: pelo meio fez o dificílimo exame final do ensino secundário.
- E como é que correu o exame, que sensação tens?, pergunta o entrevistador.
- Nenhuma, fiz questão de não ter nenhuma. Se achasse que correu muito bem, e no fim tivesse má nota, era desagradável. E se achasse que correu mal, ia passar um período de ansiedade até saber a nota, o que também não vale a pena.
- E como é que conseguiste estudar, apesar de teres a cabeça cheia de projectos bem mais interessantes?
- Ahem... estudei, simplesmente.
O entrevistador lembra o momento em que ela ganhou o concurso para ir a Oslo, e a enxurrada de calão juvenil que largou em frente à câmaras de televisão.
- E qual é o problema?! É esta a minha idade!
Se viram o Festival, no sábado passado, talvez tenham reparado num pormenor delicioso no fim do espectáculo: ela vem ao palco como vencedora, e o vencedor do ano passado rouba-lhe um beijo com aquele truque palhaciano de subitamente oferecer a boca no momento em que ela vai dar um beijo na face. Perante o público geral e os milhões de telespectadores, ela põe cara zangada e obriga o rapaz a vir dar um beijo como deve ser. Esta miúda não dorme na forma e não se deixa intimidar por nada!
E depois, tem uma capacidade fantástica de rir de si própria. Olhem só para isto (espero que dê para ouvir bem a pronúncia):
31 maio 2010
encantamento
Um daqueles dias em que tenho pena de Portugal estar tão longe, e de não poder partilhar estes momentos especiais com os amigos portugueses.
De manhã, o Lang Lang deu uma aula de piano para 100 pessoas. No palco da Filarmonia havia dois pianos de cauda e 49 pianos eléctricos, para "thousand fingers" tocarem uma peça de Schubert a quatro mãos. Cem alunos, dos cinco aos setenta anos.
O homem que entrou na sala, no meio de grande aplauso, surpreendeu-me: a cabeça demasiado grande para o corpo franzino, o cabelo espetado em estilo ouriço, a cara muito larga. Sapatos com reflexos metálicos, jeans. Que aspecto esquisito, pensei eu.
Mal começou a aula, esqueci todas essas incompatibilidades com os meus preconceitos.
Foram duas horas de boa disposição e beleza: Lang Lang a tocar com uma mão e a entoar a música com a outra, ou a andar de um lado para o outro explicando com o ritmo das passadas o que queria e não queria, ou a explicar que determinada frase devia soar como "um cão com febre"...
A meio da aula, uma surpresa para o pianista: passaram parte deste filme, que ele contou ter sido um dos seus preferidos quando era uma criança a começar a tocar piano, e que ainda hoje o considera muito inspirador.
E era vê-lo a tocar a quatro mãos com Tom, a rir, a fazer figura de criança outra vez.
No fim, houve votação: quem prefere o Jerry? Quem prefere o Tom?
Lang Lang prefere Tom, porque o Jerry faz batota. Hehehe, já temos uma coisa em comum.
A conversa continuou:
"Como é que conseguiu tornar-se famoso?", perguntou uma das alunas, por sinal muçulmana (não é que seja importante, mas foi bonito ver entre os pianistas uma miúda com o cabelo coberto por um belíssimo véu).
Lang Lang gagueja, a apresentadora vem em seu auxílio: "Porque é um pianista genial".
"Obrigado, obrigado por dizer isso. Não tenho sempre a certeza de que seja verdade." - e acrescenta, com um sorriso maroto: "Trabalhei muito. E um dia chamaram-me para substituir alguém que estava com febre. É esse o segredo para se tornar famoso: trabalhar arduamente, e esperar que alguém adoeça."
"E é, ou quer ser, um dos melhores pianistas do mundo?", pergunta outra adolescente.
"Quero ser o melhor possível de mim próprio. É esse o meu objectivo."
A conversa continua. Lang Lang fala do trabalho diário, aconselha os alunos a duplicarem o tempo de estudo ("se estudam 30 minutos por dia, passem a estudar uma hora; se estudam uma hora, passem para duas"), fala do horror das escalas e dos arpejos, de que ele não gostava nada e que os vizinhos pura e simplesmente odiavam (a sala solta mais uma vez uma gargalhada). E conta como trabalha, como se informa sobre a peça que está a estudar, e a imagina e recria. Fala longamente sobre a respiração da música, da necessidade de cantar a peça enquanto se toca, de respeitar as frases que pedem para inspirar e expirar profundamente, os momentos em que há que suster a respiração.
Vindo de um chinês, não admira: uma aula de yoga para pianos.
À tarde, é a vez de dois dos melhores alunos de escolas de música berlinenses. Uma educação do ouvido e do gosto. O aluno toca, e Lang Lang dança ao lado dele, para melhor exprimir o que quer. Ou toca ele próprio aquela frase (aaaahhhhhhh...). Ou diz: "nesta sequência, parecia que tinha uns copitos a mais".
Saí da Filarmonia com um sorriso de encantamento, que não havia maneira de passar.
aquele querido mês de Agosto
Como na sexta-feira passada: tive o gosto de ver "aquele querido mês de Agosto" pela mão do Miguel Gomes ("Migüel Gomésch", dizem os alemães).
Belo filme, bem melhor do que as cadeiras da sala, no Museu do Cinema.
Mas a sensação da noite, melhor ainda que aquela surpresa de filme, foi o Migüel Gomésch: simples, brincalhão, honesto, sem peneiras nem pedestais.
***
Uma amiga já me mandou a canção que dá nome ao filme, com a incumbência de a aprender de cor para fazermos um arraial. No próximo "Karneval de Kulturen" vai ser um sucesso!
29 maio 2010
vidas de PIGS
E já que estou em maré de dar conselhos: também haviam dar mais ouvidos ao que dizem os católicos (hehehehe), esses intrometidos fundamentalistas, que em vez de se bastarem com a missinha dominical gostam é de meter o bedelho na nossa vida. Por exemplo, estas considerações que encontrei no Ouvido do Vento:
Sobre o Programa de estabilidade e crescimento (PEC)
Posição do Grupo de Trabalho «Economia e Sociedade»
da Comissão Nacional Justiça e Paz
1. Considerando a importância de que se reveste o Programa de estabilidade e
crescimento (PEC) recentemente apresentado pelo Governo à Comissão
Europeia, o Grupo de trabalho «Economia e Sociedade» (GTES) da Comissão
Nacional Justiça e Paz (CNJP) considera seu dever e responsabilidade
manifestar a sua opinião sobre as orientações de política financeira, económica
e social constantes desse documento, em virtude das implicações que as
mesmas poderão ter na vida pessoal e colectiva dos portugueses, nos
próximos anos. Movem-nos preocupações pela construção de uma sociedade
mais justa, mais inclusiva, mais solidária e onde seja possível um verdadeiro
desenvolvimento humano.
2. Dada a situação financeira do País, e o modo como ela é apreciada pelo
mercado internacional e pelas instâncias comunitárias, mais cedo ou mais
tarde, haveria de surgir a necessidade de um programa de equilíbrio das
contas públicas e de contenção do endividamento dos portugueses, para dar
segurança aos credores, permitir o acesso ao crédito no mercado internacional
e conter o respectivo custo. Por isso, não subestimamos o esforço feito pelo
Governo para apresentar um programa de ajustamento credível, com recurso a
corte na despesa pública e aumento das receitas do Estado.
Esse esforço deveria ser acompanhado por uma activa procura de consenso
entre os partidos na aplicação de medidas incluídas, ou a incluir, no PEC,
manifestando a seriedade com que encaram a situação do país.
3. Ainda assim, o GTES quer expressar, desde já, as suas preocupações
quanto às possíveis consequências negativas que poderão decorrer da
respectiva execução, se, entretanto, não forem seguidos outros rumos e
tomadas outras medidas directamente votadas ao desenvolvimento sócioeconómico,
à contenção do desemprego, à correcção das desigualdades nas
suas várias vertentes e à erradicação da pobreza, que continua a atingir parte
significativa da população portuguesa.
4. Reconhecemos que é delicada a situação em que o nosso País se encontra
face aos mercados financeiros, nomeadamente no que respeita ao nível de
défice público, recentemente agravado pela necessidade de fazer face aos
efeitos da crise mundial; ao endividamento público e privado já alcançado e
correspondentes encargos com a dívida externa. Sabemos, também, como, no
actual contexto de liberalização do mercado financeiro, os credores adquiriram
e conservam tal poder que os torna particularmente exigentes em matéria de
garantias e de custo do dinheiro.
Em nosso entender, porém, o PEC sendo um esforço do Governo português
para ir ao encontro dessas exigências de credibilidade externa, não deve
esconder ou ignorar os verdadeiros problemas estruturais de um País que
enfrenta um processo de reestruturação acelerada do seu processo produtivo,
num contexto de globalização e financeirização crescentes e de crise mundial
por superar. Assim sendo, o problema português de conseguir o equilíbrio
financeiro não é uma situação singular que apenas diga respeito aos
portugueses, antes está correlacionada com o ambiente externo.
5. Por isso, o GTES denuncia a presente desregulação do mercado financeiro
mundial - que cria situações muito gravosas para as pequenas economias em
dificuldade - e desejaria que, particularmente no âmbito da União Europeia, se
fizessem os indispensáveis esforços para que, com a maior brevidade, se
encontrem caminhos de uma eficiente regulação financeira do mercado
mundial.
6. Por outro lado, consideramos que a União europeia e a sua moeda única só
terão viabilidade se vier a existir, a curto prazo, uma coordenação reforçada da
política económica e financeira de todo o espaço comunitário, a qual, em nosso
entender, deve visar objectivos de desenvolvimento humano sustentável (do
ponto de vista ambiental e de coesão social). Uma tal politica deverá vincular o
Banco Central Europeu (BCE), de modo a que a política monetária da
responsabilidade desta entidade esteja efectivamente ao serviço da economia
comunitária e seus estados-membros.
7. Também não aceitamos a brandura com que as instâncias comunitárias têm
agido em relação aos offshores ou o facto insólito de o BCE não dispor de
capacidade para apoiar os países em dificuldade financeira, obrigando estes a
ter de recorrer ao crédito dos bancos privados e a suportar juros abusivos e
demais condições não raro especulativas, e, por outro lado, consentindo que os
bancos privados se refinanciem junto do BCE a taxas de juro quase nulas.
8. Merece, igualmente, denúncia e reprovação o excessivo poder adquirido por
certas agências de rating e o papel que as suas classificações têm, de facto,
nas condições de acesso ao crédito e custo do mesmo. Não se compreende
que a União Europeia não se tenha ainda dotado de uma unidade
independente de avaliação de risco financeiro ao serviço de uma governação
comunitária.
9. Portugal, como País membro da União, deve usar da sua capacidade de
intervenção para que a U.E. disponha da competência e dos meios necessários
para aperfeiçoar os seus mecanismos de governação à escala comunitária e
de influência na construção de uma forma adequada de regulação democrática
do mercado global.
10. Relativamente às medidas preconizadas no PEC, cabe chamar a atenção
para algumas das suas possíveis consequências negativas que, ao longo da
sua vigência, deverão, do nosso ponto de vista, ser corrigidas, bem como
apontar caminhos que, em nosso entender, deveriam ser seguidos.
11. Quanto aos cortes nas despesas, estão contempladas no PEC metas
aceitáveis no que se refere à contenção de gastos gerais considerados
supérfluos, maior racionalização nas aquisições de bens e, principalmente,
uma redução significativa com gastos em consultadorias em outsourcing. É
fundamental que a Administração pública procure patamares de eficiência e
eficácia, aos menores custos.
12. Já no que respeita a reduções na despesa social, é oportuno lembrar que
aquela não pode ser vista como um custo: deve antes ser considerada como
um investimento no capital humano e, bem assim, como um instrumento de
coesão social e uma condição necessária para cumprir um dever de equidade
e solidariedade, sobretudo em tempos de crise económica.
13. Com as dificuldades que se avizinham, é fundamental que o Estado não
deixe de cumprir o seu papel de protecção social, em particular no combate à
pobreza e à protecção dos desempregados. De igual forma, deve assegurar a
oferta pública de bens e serviços essenciais, com destaque para a educação e
a saúde, com adequados padrões de qualidade.
14. Quanto ao previsto congelamento dos salários na administração pública,
entendemos que se trata de uma medida injusta e com previsíveis
consequências negativas do ponto de vista da desejada sustentação da
actividade económica, pelo lado da procura. Mesmo admitindo ser necessário
reduzir o volume total das despesas com pessoal, tal redução deverá fazer-se
de modo equitativo, aproveitando para consagrar um leque salarial mais justo e
restringindo o recurso a prémios, despesas de representação e outras de que
beneficiam os gestores e os quadros técnicos superiores. Nunca à custa de
redução indiscriminada de salários, pela via do respectivo congelamento. Não
pode esquecer-se que o padrão de remunerações da Administração Pública
serve de referência ao sector privado.
15. Idêntico reparo merece a intenção do PEC quanto à diminuição do emprego
na função pública, medida, também ela perigosa, dado que há sectores da
Administração e serviços públicos onde, já hoje, existem manifestos défices de
recursos humanos. Por outro lado, não pode esquecer-se o elevado nível de
desemprego existente no País e o papel que, nestas circunstâncias, o Estado
(Administração central e Autarquias) pode desempenhar na necessária
sustentação do emprego.
16. No que toca à despesa em investimento público, dado o seu impacto em
termos de incentivo à actividade económica e na criação de emprego, entende
o GTES que importa, sobretudo, apostar numa selectividade rigorosa e
orientada por critérios de satisfação de necessidades reais e de bem comum.
O PEC prevê a desaceleração em alguns projectos de investimento público, o
que parece sensato, mas não deveria descurar os investimentos públicos
destinados à melhoria da qualidade de vida dos cidadãos ou a servirem de
incentivo à modernização e reestruturação do tecido produtivo.
17. A este propósito, cabe lembrar que as pequenas obras públicas de
desenvolvimento local se apresentam com efeitos, directos e indirectos,
relevantes do ponto de vista da utilização dos recursos humanos locais e
absorção do desemprego, além de que se traduzem, imediatamente, no bem-estar
das respectivas populações locais, servindo, por isso, objectivos de
coesão social, que não podem deixar de ser contemplados em qualquer
estratégia de ajustamento. O incentivo à expansão da economia social e
solidária deveria merecer a devida consideração.
18. No que concerne ao aumento das receitas públicas, entendemos que na
execução do PEC não deve perder-se de vista a necessidade de corrigir as
grandes desigualdades na repartição da riqueza e do rendimento existentes no
País e aproveitar esta oportunidade para proceder a uma adequada reforma do
nosso sistema fiscal e de contribuição para a Segurança Social.
19. Julgamos que, neste período de ajustamento, seria admissível o recurso a
novas fontes de receita, como, por exemplo, a constituição de um Fundo de
emergência consignado a objectivos de erradicação da pobreza ou de criação
de emprego, com base num adicional de tributação a recair sobre espectáculos
e divertimentos ou bens considerados de luxo.
20. Do mesmo modo, considera o GTES que se impõe um esforço
complementar para acelerar a cobrança de montantes elevados de impostos
em dívida assim como a tomada de medidas de prevenção da fuga
considerável de receitas fiscais através de paraísos fiscais.
21. Prevê o PEC o recurso à alienação de participações do Estado num
conjunto de empresas estratégicas. Entendemos que abdicar dessas
participações é prescindir de uma certa margem de intervenção na economia,
além de que se trata de obter receitas imediatas de uma só vez, mas
prescindindo de receitas futuras.
22. No âmbito das parcerias público-privadas, é de desejar que se procedam a
reapreciações de cada situação concreta, de molde a procurar acautelar não só
a esperada qualidade dos bens contratualizados como também a partilha
equitativa dos correspondentes riscos financeiros.
23. Reconhece o GTES que não é da sua competência debruçar-se sobre
aspectos de ordem técnica implicados no PEC e na sua execução; tão pouco
considera que deva pronunciar-se em termos análogos à das diferentes
facções partidárias ou parceiros sociais. As considerações feitas neste
documento relevam de uma concepção de economia não divorciada de uma
ética social que tem como referenciais a dignidade da pessoa humana e o bem
comum.
24. É neste horizonte, que julgamos dever alertar para que a consequência
mais negativa que poderia decorrer deste PEC é ele alimentar a ilusão de que
constitui a chave para enfrentar os nossos problemas de desenvolvimento a
médio prazo. Com efeito, o País precisa de um rumo para um desenvolvimento
sustentável, do ponto de vista ambiental e de coesão social e não é um mero
crescimento económico que o permite alcançar.
25. O modelo de crescimento implícito no PEC parece sobretudo assentar nas
exportações. Ora, hoje é geralmente reconhecido que um tal modelo não é
garantia de real desenvolvimento e não assegura que sejam alcançados
objectivos, em nosso entender fundamentais, como sejam: a equitativa
repartição do emprego e do rendimento; um trabalho digno para todos; a
igualdade de oportunidades no acesso ao progresso; a prioridade da
erradicação da pobreza; a promoção da qualidade de vida dos cidadãos.
26. Como já em outras ocasiões a CNJP afirmou, insistimos em que a pobreza
não é uma fatalidade. Significa, apenas, que há necessidades básicas de uma
boa parte da população a que o mercado, nas actuais circunstâncias, não dá
resposta e, por conseguinte, a erradicação da pobreza deve ser considerada
um objectivo explícito de toda a política pública e não uma mera questão
residual ou hipotético efeito secundário de um qualquer crescimento
económico. É fácil demonstrar que pode haver elevado índice de crescimento
económico com agravamento da pobreza e da exclusão social.
27. Por outro lado, todos nós reconhecemos que há necessidades colectivas
no domínio da educação, da saúde, da segurança, da habitação, que estão por
satisfazer e cuja satisfação deve ser tida como objectivo a atingir por uma
estratégia de desenvolvimento que, para o efeito trace metas concretas, pois
estas não se alcançarão apenas com o mero crescimento económico entregue
a uma lógica do mercado sob a hegemonia dos interesses do capital financeiro
internacional.
28. Não pode, igualmente, esquecer-se que está por enfrentar o processo de
reestruturação do processo produtivo em curso e a passagem a uma economia
baseada no conhecimento. Há sinais positivos devidamente destacados no
texto do PEC, nomeadamente no domínio da expansão dos serviços e na
intensidade da componente tecnológica, mas há que traçar uma estratégia
clara de transição que permita fazer face aos custos sociais das indispensáveis
reestruturações e sua repartição equitativa.
29. Com esta sua tomada de posição, o Grupo de Trabalho «Economia e
Sociedade» da CNJP quer oferecer às comunidades cristãs e à sociedade civil
um estímulo para que reforcem o seu interesse e empenhamento na
construção de um mundo mais justo e por isso também mais feliz. Dirige-se,
igualmente, aos poderes públicos na perspectiva de um serviço de cidadania e
de responsabilidade democrática, que reclama maior empenhamento por parte
do governo e de outras entidades com participação nas instâncias comunitárias
no sentido de pugnar por uma construção europeia mais sólida e mais
respeitadora de valores éticos comuns.
O Grupo de Trabalho “Economia e sociedade”
27 Abril 2010
os gémeos, Lisboa, Berlim
Porque é que aquelas janelas estão tapadas com tijolos? Será que as casas estão simplesmente à espera de serem transformadas em terreno de construção?


Para entenderem melhor porque me horroriza tanto ver aqueles tijolos, aqui vai uma fotografia encontrada ao calhas na internet, sobre as ruas de Berlim:
28 maio 2010
maldito relativismo
Voltei ao ginásio, desta vez porque me ofereceram uma hora com um treinador pessoal.
(Como é possível ser tão ingénua?)
Começou bem, com simpáticas manobras de sedução para melhor cercar a vítima.
- E então, quais são os seus objectivos?
- Objectivos?
- Enfim, reforçar os músculos do tronco, talvez?
- Sim! Boa ideia, boa ideia.
- Então vamos lá.
Fomos.
Poupo os detalhes dos 45 minutos mais longos da minha vida.
Noutros tempos, bastaria mostrar estes meus músculos lacerados à Amnesty International, e o carrasco do ginásio ficava logo a saber como elas mordem. Mas por causa do maldito relativismo, tudo se aceita, desde que praticado por adultos livres.
***
Como se não fosse suficientemente mau, a minha filha comentou que as torturas a que fui sujeitada não passam de exercícios de aquecimento nos seus treinos de lacrosse.
Maldito relativismo infiltrado, que nem as crianças poupa!
26 maio 2010
deixa cá ver se este blogue é lido por algum berlinense...
(Rita, os teus estão cativos. Encontramo-nos às dez e meia, em frente à bilheteira da Filarmonia. Mais minuto menos minuto. Se uma portuguesa alta e morena meter conversa contigo, não sou eu. É a Maria, provavelmente desesperada para me tentar encontrar e me torcer o pescoço por causa de uns exageros que eu disse sobre a burocracia alemã.)
sol azul e céu radioso - ou talvez o seu contrário
Desta vez vou trocar as voltas ao destino: saio para a rua com o casaco comprido de fazenda. Prefiro suar de calor dentro das camisolas de gola alta, a lastimar o mau tempo neste fim de Maio.
E se na rua olharem para mim como se achassem que sou maluquinha, não me importo: eles não sabem nada. O que faz avançar o mundo são visionários como eu. Deviam era agradecer-me o sacrifício, cambada de ingratos.
Obscena
Entristece ver um projecto destes esmorecer, e dá vontade de começar logo a imaginar maneiras de casar melhor esta ideia com o mercado.
Foi você que pediu uma ideia?
Com quem se foi meter...
Devo dizer que com esse nome, e nos tempos que correm, não me espanta que tenha dificuldades.
Melhor seria que mudassem de vida: em vez de Obscena, chamem-lhe Escorreitinha, e vendam-na nos arquivos históricos do país. Sucesso garantido.
21 maio 2010
serviço público: o risco das vendas a descoberto explicado em palavras simples
O governo alemão proibiu as vendas vazias a descoberto sobre títulos da dívida pública de países da zona euro. Nem todos os países da UE aprovam esta decisão. Para que serve esta proibição?
O que são vendas vazias?
Quando precisam de fazer um empréstimo, os países vendem títulos da dívida pública, pagando juros aos detentores desses títulos. Quanto menos confiança houver no reembolso desse títulos, mais altas têm de ser as respectivas taxas de juro. E quanto mais altas as taxas de juro, mais baixa é a cotação do título, porque não há muitas pessoas interessadas em correr esse risco, ou seja, há poucos compradores. Estas variações na cotação podem proporcionar muitos ganhos a especuladores que pratiquem vendas vazias. Neste caso, eles "apostam" que os compradores estão a perder a confiança na capacidade de pagamento de um país, e que a cotação dos títulos da dívida pública deste vai continuar a descer.
Exemplo de uma venda vazia: B empresta a A uma determinada quantidade de títulos (por exemplo, Obrigações do Tesouro). Cada título tem o valor de 10 euros. Para receber o empréstimo, A pagará a B uma taxa de 1 euro por título. Uma vez na posse destes, vende-os na Bolsa, recebendo 10 euros por cada um. Ao fim de determinado período, A tem de devolver os títulos a B, e regressa à Bolsa para os comprar. Se o preço entretanto baixou para 8 euros, A tem um lucro líquido de 1 euro por cada título transacionado - sem ter investido um único cêntimo.
No caso da vendas vazias a descoberto, A nem precisa de arranjar títulos emprestados. Vende-os apostando na sorte, pois a Lei só o obriga a fornecer os títulos alguns dias após a realização do negócio. Ou seja: "apostando" que a cotação vai baixar, espera uns dias para comprar a um preço mais baixo os títulos que já vendera dias antes a um preço superior - embolsando essa diferença de cotações. O problema: se há demasiados actores a vender títulos que nem sequer detêm (vendas vazias a descoberto), pode acontecer haver muitos mais títulos à venda que os que existem de facto. E nesse caso a aposta dos especuladores resulta em cheio: a cotação dos títulos da dívida pública baixa rapidamente, provocando um grande aumento dos juros que esse país tem de pagar para conseguir empréstimos por meio da venda de títulos.
O que são credit default swaps?
Uma outra possibilidade de especulação é oferecida pelos seguros de falta de pagamento de dívidas, conhecidos por credit default swaps (CDS). Trata-se de seguros que permitem aos detentores de títulos da dívida pública garantir o reembolso do seu investimento caso o país não esteja em condições de pagar. Contudo, os especuladores podem comprar os CDS mesmo sem serem detentores dos títulos que estes pretendem segurar. Eles "apostam" que os detentores dos títulos vão perder a confiança naquele activo, e quererão fazer um seguro. Quantos mais CDS forem comprados, mais alto será o seu preço, pelo que os especuladores os poderão vender a um preço superior ao que pagaram. O problema: quanto mais caros os CDS, mais os investidores temem que o país não possa pagar o capital em dívida. O que faz com que as taxas de juro desses títulos disparem.
O que foi proibido?
Só detentores de títulos da dívida pública da Eurozona estão autorizados a comprar os respectivos CDS. A venda vazia a descoberto é proibida para esses títulos e também para acções de dez grandes institutos financeiros alemães (entre os quais o Deutsche Bank, o Commerzbank e a Bolsa Alemã). Relativamente a estes últimos, pretende-se evitar que os especuladores apostem contra a cotação das acções destes institutos, desestabilizando o sistema financeiro. Por enquanto não há uma lei, apenas uma medida de precaução tendo em conta a situação actual no mercado. As proibições são válidas até Março de 2011.
Alguns apontamentos:
Há quem aprove, há quem discorde. Uns dizem que é um sinal importante para os especuladores, outros temem que seja um sinal negativo para os investidores. Por outro lado, a maior parte desses negócios com títulos da dívida pública não são feitos na Bolsa, mas "over the counter", o que torna o controlo muito mais difícil.

