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21 fevereiro 2020

em estado de exaltação

Faz hoje 3 anos que escrevi este apontamento:

Hoje esteve um dia lindo. Nuvens enormes entrecortadas de sol e céu azul. Aquela luz maravilhosa que antecede o temporal. Andei por aí, de lago em lago, a fotografar em estado de exaltação e a perguntar-me que bem terei eu feito na vida para merecer isto tudo. Foram 330 fotografias, depois mostro algumas.

Ao regressar a casa a vizinha viu-me e convidou-me para um café, e levei bolo de chocolate que tinha em casa. Daí a bocadinho vimos passar o Fox com a sua cauda farfalhuda espetada no ar - tão querido, o Fox. O Matthias apareceu a seguir, ia levá-lo ao lago. A vizinha abriu a porta e perguntou ao Matthias se também queria um café, e ele respondeu da rua que não podia, obrigado, etc. - parecia aquelas conversas calorosas de aldeia, da rua para dentro de casa. Foram, voltaram, o Fox parou em frente ao portão a olhar para nós ainda de volta do café e do bolo, "então, não me querem deixar entrar?"

Combinei com a vizinha que um dia destes marcamos uma data para todas as pessoas da rua porem à porta os rebentos do jardim que não quiserem, para os vizinhos levarem para o jardim deles.
Disse-lhe que já estou toda contente a pensar nas batatas azuis que vou ter, nas framboesas, nos tomates, nas abóboras. Ela disse:
- Ainda demora algum tempo.
- Mas já estou contente agora. 


Vivo no centro de Berlim ocidental, rodeada de lagos, numa aldeia. Numa bolha.


Cuidado comigo, hoje estou hipersensível. 

Garanto que nunca na vida fiz tanto bem para merecer isto tudo.

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Foi na altura em que a água dos lagos gelava e degelava, criando texturas incríveis. Alguns exemplos da colheita desse dia:
 




 
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A meio da tarde, sentada à minha mesa, olhei para o lado e dei com estes dois.
A colheita do dia foi boa, mas esta semeadura é do melhor.



16 fevereiro 2020

olhos de mosca



Assistir à versão praticamente completa do Metropolis de Fritz Lang, com a orquestra do cinema dirigida pelo maestro Marcelo Falcão, no Babylon - a sala que vem do tempo do cinema mudo, com o respectivo órgão cheio de recursos para a sonoplastia, ambos já a caminho dos cem anos.

Como se não fosse pouco, assistir na fila da frente, a menos de um metro do maestro.

(Uma pessoa não dá vazão: ele é o filme, ele é a música, ele é os músicos, ele é o maestro... Se me inventassem uns óculos tipo olho de mosca, para poder olhar ao mesmo tempo em todas as direcções, isso é que era!)

21 janeiro 2020

vida boa



Hoje esteve um dia glorioso em Berlim. Fui à Filarmonia comprar bilhetes para o concerto da sexta-feira, e não consegui impedir-me de tirar as fotografias possíveis dentro do S-Bahn e do autocarro. Clic-clac, clic-clac, clic-clac - um dia destes ainda arranjo sarilhos com os outros passageiros, por causa da barulheira que faço a tirar fotografias (escusam de tentar ensinar-me como se faz para silenciar o telemóvel: tem esse botão avariado - mas obrigada na mesma).

A fila estava enorme - o dobro da semana passada. Comecei a conversar com o senhor atrás de mim, que também estava surpreendido com tanto público. Revelou-me que na semana anterior tinha conseguido comprar bilhetes para o Blomstedt um dia antes do concerto. "Suspeito que as pessoas não saibam o prodígio que é ouvir o Blomstedt", acrescentou. E daí a nada estava a falar da veneração que os músicos da orquestra têm por este maestro de 93 anos, e de como isso se nota na música que fazem com ele. Elogiou a sua agilidade apesar da artrose avançada, "está melhor que o Karajan". Confirmou o que já digo há anos: os lugares por trás da orquestra são os melhores. E no caso do Petrenko, mais ainda: "o Petrenko é tão expressivo que quase nem era preciso a orquestra tocar - a música já está toda estampada no maestro", disse ele. Revisitámos a 4ª de Bruckner da semana passada, as expressões de felicidade no rosto do Blomstedt nas passagens especialmente bem conseguidas, o solo de trompa do Stefan Dohr a abrir a sinfonia como se fosse fácil, "imagine que aquilo corria mal - lá se estragava a sinfonia toda!", os músicos que eu vi a chorar no fim do concerto. Trocámos cromos sobre os nossos melhores concertos naquela casa (mas ele ganhou: era amigo do primeiro violino no tempo do Karajan, ia a todos os concertos que queria). E recomendou-me muito ouvir as introduções aos concertos quando são feitas pelo Götz Teutsch, que já foi o primeiro violoncelo da orquestra, e fala das peças com intimidade e prazer de amante. 

Finalmente chegou a nossa vez, e consegui os bilhetes que queria. Esperei para ver se ele também teria sorte (teve) e à despedida ele comentou: "às vezes é uma sorte haver filas compridas na Filarmonia. Esta hora a conversar consigo passou num instante. Muito obrigado!"

Então é assim: esta cidade tem mais de 3,5 milhões de habitantes, e não sei como, mas arranjo de passar a vida a cruzar caminhos com os mais simpáticos deles todos. 






  

02 janeiro 2020

virtualmente excelente

Socorro, agora até o meu telemóvel me dá a impressão de que tenho uma vida ainda melhor que a real!
Espreitei o resumo de Dezembro que fez a partir das minhas fotos, e estou aqui verdinha de inveja de mim própria.




Exposição de naturezas mortas de Van Gogh no museu Barberini:
 
O bom neto à casa torna:



O dia em que pus alemães a fazer-me as sobremesas de Natal, hihihihi
(e cantámos "oh hibisquinho, oh hibisquinho, como são verdes as tuas folhas!) (que por acaso devia ser "como são verdes e por vezes amarelas"):


 Lua cheia sobre Berlim:

A festa de Natal dos portugueses em Berlim - com os fantásticos bombos da fantástica associação 2314:


Jardim do Max Liebermann junto ao Wannsee
(e couves de Bruxelas enregeladas):


Mercado de Natal em frente ao palácio Charlottenburg:

19 dezembro 2019

mais notícias da minha aldeia

Estou (mais uma vez) a pensar que Berlim tem quase 4 milhões de habitantes, e eu me sinto numa aldeia.

Há dias, por exemplo: no regresso do ensaio do coro, no centro da cidade entrei no autocarro onde vinha uma vizinha nossa (o mais interessante desta coincidência: é a chefe de um projecto da Siemens com um orçamento de 3 mil milhões de euros; claro que tinha dinheiro para pagar o táxi, mas usar o autocarro é menos mau para o clima. No caminho para casa contou-me que tem um híbrido com capacidade de bateria suficiente para levar a filha à escola, ir trabalhar, e voltar para casa - é quanto basta; e estão a pensar vender o carro do marido porque a família não precisa de dois carros).

Ou ontem, por exemplo: tentei comprar bilhetes para o Oratório de Natal na Kammermusiksaal, no dia 23, e já estavam praticamente esgotados na venda online. Em desespero de causa telefonei para o escritório da agência. Apresentei-me com o apelido do Joachim, porque os alemães ficam um bocado à rasca quando ouvem "Araújo" ao telefone, e a senhora riu-se: "ah, que bom ouvi-la de novo! Somos vizinhos do Matthias!", e eu "em Wedding?" e ela "não, em Zehlendorf" - estava a falar do ex-marido de uma prima do Joachim. O apelido é raríssimo (não deve haver mais de 50 deles na Alemanha inteira) e em Berlim há logo dois com nomes iguais.

Hhavia bilhetes, e até a um preço bem aceitável.
Já disse que Berlim me parece uma aldeia? Eles mandam os bilhetes para casa das pessoas, juntamente com a factura para pagar.


O que se segue já não é sobre Berlim ser uma aldeia, mas também é importante: agora que já comprei os 8 bilhetes que queria, em lugares bons e a preços entre 14 (crianças e estudantes) e 19 euros, aviso quem estiver em Berlim que o melhor do vosso Natal pode começar já no dia 23 de Dezembro às 15:30. Cantam os Cantores Minores e o Monteverdi-Chor Berlin, e também a minha queridíssima solista soprano Marie Luise Werneburg.
O telefone é: 030 80908070
(Não me pagam comissão, mas deviam)

 

16 dezembro 2019

tudo o que cabe num domingo

Ontem estava um domingo extraordinariamente bonito para o Dezembro berlinense. Só faltava mesmo a neve a cobrir tudo, mas essa senhora há 3 anos que não dá grandes ares da sua graça por aqui.

Tínhamos amigos de visita por cá, e levámo-los a uma voltinha clássica dos dias bonitos: o lago Wannsee.



Começámos pela casa de Max Liebermann. Estamos quase no Natal, mas não há sinais de a neve ter alguma intenção de vir até Berlim. No jardim havia um carreiro de couves de Bruxelas, por sinal bem viçosas. Ao lado de outro, de couves com folhas avermelhadas. Jardim de pintor é assim: uma paleta de cores.

(nota mental: da próxima vez fotografo do jardim para a casa, para não apanhar aqueles carros estacionados na rua)



Não se vê bem, mas a casa foi desenhada de modo a que quem se senta no banco branco atrás da fotógrafa deixe que o olhar vagueie pelos canteiros - que no verão transbordam com as cores das flores, dos frutos e dos legumes - até ao fundo deste caminho, e atravesse a casa de encontro ao deslumbrante azul do lago.



No meio do caminho havia bétulas, havia bétulas no meio do caminho - sei há anos que estão ali, e surpreendem-me sempre.


Esta fotografia não presta para nada, mas a cena era bonita: os cormorões ao fundo do quintal a saborear o sol de Dezembro.



Esta fotografia não presta para nada, mas a cena era bonita: um humano ao fundo do quintal a saborear o sol e a luz deste domingo de Dezembro.









A exposição que está neste momento na casa do Liebermann não é grande coisa. Admito que, ao fim de dez anos a tentarem encontrar temas para exposições que tenham a ver com o Liebermann ou com o Wannsee, o material comece a escassear.
Distraí-me a fotografar o jardim a partir da janela de uma das salas.


Deste lado do lago Wannsee fizeram uma urbanização de luxuosas mansões com jardim até ao lago e embarcadouros privados.


Da casa do pintor judeu Max Liebermann à casa da Conferência de Wannsee é um passeio curto. Costumamos levar os amigos a ambas. Mas descobrimos ontem que a casa da Conferência de Wannsee está em obras. Reabre no dia 20 de Janeiro, com a exposição inteiramente remodelada.
"E a foto da Leni Riefenstahl?", perguntei eu.
"Não sei. A exposição vai ser muito interactiva, é tudo o que me disseram", respondeu a senhora da recepção.
Mania de mexer em equipas que ganham, pá!

Subimos ao andar de cima, o do centro de documentação, porque havia lá uma pequena exposição. Enquanto subia, reparei pela primeira vez no trabalho de ferragem das escadas. Um trabalho de luxo, numa mansão de luxo.

Em Janeiro de 1942 decorreu aqui uma reunião com representantes de vários departamentos, com o objectivo de "afinar agulhas" para o Holocausto. Em vez de uma convocatória autoritária, os participantes receberam um convite para um aprazível pequeno-almoço numa mansão junto ao lago Wannsee: o luxo como isco para predispor as pessoas a colaborar no Horror.
A pequena exposição que está no primeiro andar da Casa da Conferência de Wannsee é sobre Joseph Wulf: um tema que merece um post só para ele.



O meu restaurante favorito no Wannsee tem uma inovação que lhe tirou toda a graça: um enorme toldo iluminado sobre o terraço junto ao lago.
Dizem que não há amor como o primeiro, mas que fazer quando o primeiro amor já não é quem era?



Um bocadinho de kitsch no Ku'damm.
(que seria do Natal sem o kitsch?...)
(um tempo mais sossegado, diria eu)


 
Para terminar o domingo em grande: Kammermusiksaal.




François-Xavier Roth e a Mahler Chamber Orchestra (que, se percebi bem, é a extensão adulta da Gustav Mahler Youth Orchestra; quando algum músico desta chega àquele ponto em que nem com a melhor das boas vontade se lhe consegue chamar "jovem", pode ir reviver os bons velhos tempos na orquestra dos seniores)


Havia Haydn, mas como não há almoços grátis tivemos de gramar também com um Ligeti. E um Martinu, mas essa peça tinha uma energia muito boa, passou-se bem.

Além de que tivemos direito a solo do Stefan Dohr: Des canyons aux Étoiles, de Olivier Messiaen.



30 novembro 2019

parece Natal


Alegria, alegria: o Ku'damm já tem a iluminação de Natal.
Se fosse numa terra mais a sul, não era tão importante. Mas aqui onde vivo, quase à esquina do Pólo Norte, começa a anoitecer pouco depois das três - e uma pessoa precisa de luzinhas para atravessar o túnel do inverno. 

Passei no Ku'damm há dias, e tirei algumas fotografias: no andar de cima do autocarro, na fila da frente - e com muita chuva, que é óptima para os efeitos especiais.  


 
 





23 novembro 2019

e então, Heleninha, que fizeste no teu aniversário?




Dei um saltinho a Portugal, ali no centro de Berlim. Havia magusto. E feijoada e pastéis de bacalhau, e Sagres e Super Bock para agradar a gregos e troianos. E uma concertina, e cantares brejeiros do Minho. E bombos.

Passei a tarde a conversar com amigos, a trocar informações sobre tudo e nada (inclusivamente esta, que vale ouro: um empreiteiro de confiança na zona de Ponte de Lima, Yeeeeey!), a rir em português. Ali no centro de Berlim.

(Foi uma sorte o Pacheco Pereira não morar numa daquelas casas em frente, e não escrever uma crónica a falar dos estrangeiros "que aos domingos invadem as nossas praças com os seus costumes diferentes" - como uma vez se referiu aos muçulmanos de Bruxelas. De cada vez que participo num magusto ou numa sardinhada de portugueses no centro de Berlim, lembro-me daquela crónica do Pacheco Pereira a rejeitar os estrangeiros no centro de Bruxelas.)


[ PS. Uma vez que falei dos bombos, aproveito para informar que a Associação 2314 dá aulas gratuitas de bombos às terças-feiras em Neuköln. Trata-se de um projecto financiado pelo MNE. ]