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21 julho 2020

"unissexo" (3)

Um tema fracturante dos nossos dias são as casas de banho públicas #unissexo.
Habituados a um mundo binário - menino ou menina, homem ou mulher, azul ou cor-de-rosa - não nos apercebemos do sofrimento daqueles que não cabem nestas categorias.

Há tempos traduzi no meu blogue um texto que me sensibilizou para esta questão. Se quiserem ler, está aqui.

Em Portugal já vi, curiosamente, casas de banho unissexo em vários centros de encontros da Igreja Católica. Parece que o futuro, além de possível, é tranquilo.

Já em França tenho visto várias casas de banho públicas que separam homem/mulher, mas têm os urinóis na parte comum, onde estão também os lavatórios.

Ora bem: urinóis na parte comum, antes de separar por sexos, é mais ou menos como usar máscara contra o coronavírus e deixar o nariz de fora...


20 julho 2020

"unissexo" (2)

Partilho o post da Ana Martins, uma das colegas da Enciclopédia Ilustrada:


A roupa #unissexo surge nos EUA nos finais dos anos 60. Estava na moda a ideia da juventude rebelde que quebra padrões - e nada mais jovem e mais rebelde que quebrar as barreiras de idade, género e classe social. Juntando a isto as roupas que dois jovens actores, Dean e Brando, usavam no grande ecrã na década anterior, assim surgiram as duas primeiras peças unissexo, as T-shirts e os jeans.
Todo um novo conceito de liberdade estava aqui implícito. "No sentido óbvio, unissexo significava libertação do género, mas, mais importante, a sua associação com o futuro - ao rejeitar as hierarquias tradicionais e as atitudes antiquadas - fez dele uma importante força motriz da moda".
Um dos designers que mais promoveu a noção de unissexo, querendo retirar a noção de vergonha e de sexualização do corpo humano que, segundo ele, tirava o foco do essencial, o humano que o habitava, (não há como não gostar deste homem!), foi Rudi Gernreich, um jovem judeu austríaco que fugiu com a mãe para L.A. no início da II GG.
Uma crítica de moda escreveu que Gernreich "tinha dois objectivos para os seus projectos: um era criar roupa moderna 'para o século 20 e além' e o outro tornar-se 'um comentarista social, que apenas passou a trabalhar no meio de roupas'. Bom, no primeiro falhou redondamente. Melhor, falhámos nós enquanto sociedade: já estivemos lá, já estivemos no caminho certo, mas decidimos voltar bem atrás no caminho e escolher a via da diferenciação, o que alegremente nos levou a estereótipos de género que hoje cultuamos (como somos burros!!!)
Foto: Outra das (muitas) inovações dos anos 60 foi o futurismo, e como se imaginava a evolução do Homem depois da conquista da Lua. Os modelos unissexo de "Espaço 1999" foram criação de Gernreich.


"unissexo" (1)

Alguns apontamentos sobre vestuário #unissexo:

1. Na época em que eu era adolescente, o hábito de usar roupa #unissexo deu imenso jeito aos meus pais: com cinco filhos entremeados rapaz/rapariga, a roupa passava directamente de uns para outros sem maiores apertos da carteira: calças da ganga e de bombazine, t-shirts e camisolas, camisas velhas do pai, kispos - assunto resolvido. 
A roupa servia apenas para vestir. Não tinha exibições parolas de marcas, não era statement de nada. E aparentemente os adolescentes não precisavam de se escorar na roupa para descobrirem qual era o seu género.

1 bis. Por causa da última frase lembrei-me daquela anedota dos bebés na maternidade:
- Tu és menino ou menina?
- Eu sou menina. E tu?
O outro levanta o cobertor, olha para baixo, e diz:
- Sou menino.
- Como é que sabes?
- Tenho meias azuis.

2. Não vai há muitas décadas, as crianças vestiam-se todas de igual até determinada idade. Nas fotografias antigas não dá para ver, naquela ranchada de crianças de caracóis e vestido, quais são os rapazes da família. O #unissexo das crianças de antigamente era mais feminino ("feminino" para os critérios de hoje)

3. Vá-se lá saber como, em algum momento começou a ser de novo importantíssimo separar a roupa em termos de menino e de menina. O estilo "decorativo" instalou-se na secção da roupa para meninas, e o estilo "aventura e acção"na secção dos meninos. Nos EUA, então, o fenómeno é avassalador: as diferenças chegam ao ponto de, nos palcos das festas dos infantários e das escolas primárias, as meninas estarem todas vestidas de bonecas pirosas, com sapatos de verniz ou quejandos, e os rapazes estarem em estilo "tá-se bem" e com sapatos de desporto.
O vídeo que partilho mostra uma miúda a queixar-se do sexismo contido nessa diferença de vestuário: "os rapazes têm t-shirts a dizer "think outside the box", e nós temos t-shirts a dizer "Hey". Qual é a parte de Hey que é inspiradora?"

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Não sei - não sei mesmo - mas admito que esta separação crescente seja resultado dos interesses do mercado: criar produtos diferentes e tendências novas para as famílias comprarem cada vez mais. E não é apenas a roupa: os quartos das crianças também têm linhas para o menino (camas em forma de carro ou de barco, papel de parede com riscas azuis, etc.) e linhas para a menina (se vos falasse dos quartos de menina que vi em famílias americanas... A perversão total: móveis de plástico a imitar a linha de móveis da Barbie, como se a menina que cresce naquele quarto fosse ela própria a boneca de formas inspiradas em fantasias pornográficas).

A perversão vai, obviamente, muito além do mundo das crianças e das roupas. Há alguns anos a Bic criou uma esferográfica para mulheres, "bic for her" - igual à esferográfica unissexo, mas um pouco mais fina e com um aspecto "feminino" e, claro, mais cara. Os comentários que os clientes da Amazon fizeram a essa produto foram um excelente momento de humor.


4. Há tempos a Zippy criou uma colecção de roupa infantil sem género: prática para se movimentar e brincar, fácil de passar de irmãos para irmãs e vice-versa. Grande escândalo: a Zippy a fazer ideologia de género e marxismo cultural!
Não dá para acreditar, mas aconteceu.
As pessoas que acusam a Zippy de estar a perverter os costumes com uma linha infantil unissexo não se dão conta de que esses costumes são relativamente recentes, por um lado, e de que, por outro lado, impor cores e formatos (de enfeites para elas e de roupa prática para eles) também é uma formatação e uma violência para a individualidade das crianças.

5. Para reduzir despesas às famílias e para acabarem com as tensões do exibicionismo de marca na escola, algumas escolas alemãs decidiram aderir a colecções de vestuário escolar com peças de corte e cores diferentes, que permitem a cada aluno vestir de forma personalizada. À excepção das saias, são peças unissexo.
Um exemplo: https://bit.ly/2BdAYtU

6. As calças já não são "roupa de homem" - transformaram-se em roupa unissexo. Gostava que, do mesmo modo, um dia destes as saias também passassem a ser unissexo. Tanto mais que, pelos vistos, usar calças pode afectar a fertilidade dos homens. E ninguém diga que um homem de saias é menos homem. É ver os escoceses, é ver os punks, é ver os árabes de djellaba. 


09 julho 2020

"volta"

No dia em que a palavra mágica foi "volta", escrevi este texto a mostrar um pouco dos bastidores da aventura que é o grupo "Enciclopédia Ilustrada" do facebook:

Então? Então? Então? Na Enciclopédia Ilustrada a palavra do dia é #volta, e ninguém se lembra de falar das voltas ao alfabeto que andamos a dar vai fazer agora cinco anos?

Do Júlio Verne lembraram-se todos, mas das nossas voltas ao mundo... tsss tsss tsss, são tão século XIX, vocês!

Só escapa o colega Cristovam, que falou na Volta ao Dia em 80 Mundos: fantástica definição do que aqui fazemos.

E agora, muito rapidamente porque o tema #volta já passou o seu prazo de validade, partilho algumas recordações pessoais desta aventura:


Não sei quando é que o Vítor me passou a criança para as mãos, "ai, é só escolher uma palavrinha por dia, pronto". Lembro-me do fascínio do primeiro dia: propus uma palavra, e dezenas de pessoas escreveram posts muito bons sobre aquele tema. O fascínio, e a descoberta da minha responsabilidade. Lembro-me da paciência da Sónia a ensinar-me o b-a-ba disto (obrigada, Sónia!). Lembro-me - com muita vergonha - daquela vez em que decidi ser engraçadinha e num dia D propus "des-" (des-culpem! des-culpem!). Lembro-me da aflição repetida de encontrar uma palavra que começasse por determinada letra tendo simultaneamente algo a ver com a efeméride importante do dia (K no dia dos oceanos; krill?) - até ao momento glorioso em que decidimos que podíamos escapar ao totalitarismo do abecedário, e fazer "especiais". Ah, as efemérides: mais uns aninhos disto, e começo a saber de cor essa parte da wikipedia...

Com o tempo comecei a ganhar um certo calo: já consigo avaliar melhor as palavras que vão correr mal (por exemplo: que vão dar azo a posts escritos por impulso, sem pensar se é uma publicação que enriquece o grupo; ou que são demasiado complexas e não vão dar muitos posts), e as palavras que têm tudo para correr muito bem. Mesmo assim, ainda me surpreendo quando corre tudo ao contrário do que tinha previsto ou temido (como Wittgenstein ou Yardang, que foram dias excelentes). Lembro-me de a fase W X Y Z ser uma dor de cabeça já na altura em que entrei para o grupo dos que propunham a palavra do dia - e, espantosamente, depois de tantas voltas ao alfabeto ainda conseguimos propor palavras interessantes começadas por estas letras impossíveis.

Entretanto os antigos administradores foram-se afastando, e outros colegas ofereceram-se para ajudar a continuar as nossas voltas. Discretamente, um grupo "secreto" de colegas generosos encontra-se virtualmente quase todos os dias para fazer sugestões para o dia seguinte. Lembro alguns dos debates que temos tido, tais como polissemia versus tema único, ou sobre a melhor forma de propor os quinhentos anos da circum-navegação do Fernão de Magalhães. Lembro alguns momentos de muita risota, especialmente quando se aproxima sábado, dia de alguma brejeirice. Lembro em particular aquela semana em que nos permitimos um alinhamento malandro - Sexo / Trio / Ui - e quando chegou ao V ganhámos juízo e escolhemos Vagem em vez de Vulva. Enfim: aquele "ganhámos juízo" é uma maneira de dizer... Ainda dentro deste tema, lembro um Dildo que só não saiu num sábado porque tinham entrado recentemente muitos novos, e o tema podia dar barraca.

E assim vai a vida.

Desculpem repetir, mas o que tem de ser tem muita força: este grupo é um fenómeno. Um oásis de gratuidade, atenção aos outros e respeito mútuo para contrariar a época de egoísmo, utilitarismo, competição, e optimização do tempo. E a volta ao alfabeto parece o milagre da multiplicação dos peixes: quantas mais palavras servimos, mais palavras encontramos para servir. Mesmo as das malditas letras W X Y e Z.

(A última frase foi um arroubo poético, não liguem.)



08 julho 2020

"imitação"

0. Para não escrever muitos disparates fui investigar a diferença entre #imitação e falsificação, e de extra deram-me também os conceitos de cópia, contrafacção e pirataria.

(Aqui)

1. Os três irmãos Posin, russos que moram em Berlim, são conhecidos como os melhores falsificadores do mundo. Mas não são falsificadores – fazem (geralmente por encomenda) excelentes cópias de quadros famosos cujos autores morreram há mais de 70 anos, e assinam o seu próprio nome por trás da tela. Falsificação ou cópia?

Penso que, no caso, se trata de imitação, já que no processo da pintura eles tentam entrar na pele do artista, servindo-se do muito que aprenderam na Academia das Artes de São Petersburgo sobre os pintores e a respectiva época. Um deles chegou a aprender a pintar com a mão esquerda para imitar um artista canhoto. Nas palavras de um deles: “cada uma das nossas cópias tem de ter uma alma. Não copiamos simplesmente a superfície e as cores. Queremos entrar no artista e trabalhamos ao mesmo ritmo que ele. Por isso, vemos nas nossas pinturas uma obra que nasceu de novo.”

O resultado (cópia? imitação?) é tão bom que já têm um museu com cerca de cem quadros em Großräschen, Brandeburgo. O dono do museu, grande apreciador dos irmãos Posin, detecta-lhes a “alma russa” nas dobras das pinceladas. Mas diz-se que mesmo os profissionais têm alguma dificuldade em distinguir certas cópias do respectivo original.

Em todo o caso: a fama é tanta que o museu chega a receber visitantes vindos de Dresden que estão interessados em comparar a Madonna Sistina dos Posin com a “sua”, a original de Rafael, que está na Galeria dos Mestres Antigos da Pintura.

(Agora estou aqui a pensar: em 2032 fará setenta anos sobre a morte do Yves Klein. O seu Azul dava um belo presente para o meu próprio 70º aniversário. Será que posso encomendar uma imitação, ou aquela história da patente é mesmo a sério? Estava capaz de trocar todos os quadros que tenho em casa pelo Azul do Yves Klein interpretado pelos Posin. E vocês?)

(Oooops! Joachim, aquele “estava capaz de trocar todos os quadros” é uma maneira de dizer, OK? Tu não me faças uma leitura literal do que aqui escrevo, que não me dava jeito nenhum passar o resto da vida a dormir no sofá.)

Neste link encontram um filme curto sobre os artistas imitadores.


2. Há tempos comprámos dois quadros que andaram no mercado da arte como originais, e afinal eram falsificações. Gosto dos quadros, que me lembram Kirchner, e gosto ainda mais do suplemento de rocambolesco: não é qualquer um que consegue entrar no mundo de um determinado artista a ponto de fazer quadros inéditos que passam por originais. Infelizmente não me consigo lembrar do nome do falsificador e do nome da artista que ele imitou. Um dia que volte a Berlim, e a palavra do dia seja Alzheimer, conto-vos o resto da história.

Na mesma altura hesitei em comprar um conjunto de peças de óleo e colagens que lembravam imenso os trabalhos do Amadeo de Souza-Cardoso. Hesitei, é como quem diz: h€$it€i... Quando ganhei corag€m e lá voltei, um mês mais tarde, já só encontrei o lugar vazio na parede.

Fiquei com pena: o que me interessava não era o nome, mas a beleza da composição – mesmo que tomada de empréstimo a um génio alheio.


3. Digam vocês: uma imitação bem conseguida já vos fazia felizes, ou só vos serve o original?

(Será que os Posin nos faziam preço de grossista se encomendássemos vários Azuis do Yves Klein? Ou seria melhor encomendar essas imitações na China?)

(Ai! Com licencinha: vou ler de novo a definição de “pirataria”.)

(E a de “palermice”, já agora.)



06 julho 2020

"Douro" (4)



Na linha do Douro há uma estação chamada Alegria.
A verdade é que, para quem passa feito turista - como eu -, Alegria é o nome do meio de todas as estações da linha do #Douro.
O próximo almoço da Enciclopédia bem podia ser lá - que dizem? Saímos de Porto-São Bento, a estação com magníficos azulejos (íamos meia hora antes, para os doutos colegas tecerem considerações sobre aquelas cenas), e fazíamos a linha do Douro até à penúltima estação: Mós - Freixo de Numão. É a que fica a seguir à Quinta do Vesúvio (sim, a estação do Vesúvio é sobre a Quinta, junto ao rio - uma paisagem digna de um filme do Manoel de Oliveira...). Dávamos um mergulho no rio, que ali faz uma curva larga no meio da vinha, e depois almoçávamos no restaurante Bago d'Ouro: peixinhos do rio e naco de vitela (eu telefono sempre a pedir puré de batata - o puré de batata daquela cozinheira de Freixo de Numão é quase como o arroz de favas de Tormes).
Se tivermos sorte, no fim dão-nos um cesto de figos da terra.
Depois do almoço voltamos de comboio até ao Tua, e daí descemos em barco rabelo até ao Pinhão. Devagarinho, a saborear o rio.
Estão abertas as inscrições.

---

Quando soubemos que iam fechar o último troço da linha do Douro, meti-me com os meus irmãos no comboio, num sábado de manhã, e fomos até à fronteira espanhola, em Barca de Alva. Almoçámos no restaurante da estação as inevitáveis febras com batatas fritas a escorrer óleo, e havia galinhas que entravam e saíam à vontade, depenicando o que encontravam no chão e deixando em troca o que lhes aprazia, passe o eufemismo.
Foi há trinta anos, ainda a ASAE não tinha começado a modernizar o país com mão de ferro.
Apanhámos o mesmo comboio de volta, eu de olhos escancarados e o cérebro a mil, sonhando para aquelas quatro ou cinco estações um aproveitamento turístico ligado por ciclovia, sei lá. Na altura era muito visionária. Hoje em dia, isto era bem capaz de se vender a bom preço às gentes que querem fazer férias para parar realmente. Passe a contradição de usar estações e linha de comboio para "parar realmente".
Ai, isto não é uma contradição, é uma triste metáfora do que aconteceu às ligações ferroviárias do interior do país...


03 julho 2020

"Douro" (3)

Sobre as três pontes que a Régua sobre o #Dourouma para cada época, vou contar a minha versão (se for errada, agradeço que me corrijam):

A primeira ponte, de pedra e ferro, com o chão em traves de madeira, foi feita na segunda metade do século XIX, e servia lindamente para os peões e os carros de bois.

Umas décadas mais tarde a Alemanha perdeu a Grande Guerra, e teve de pagar reparações aos países inimigos. Portugal também recebeu a sua parte, nomeadamente um ponte para fazer a ligação ferroviária da Régua a - salvo erro - Lamego. A ponte dos alemães fez-se logo, a linha de comboio pelos montes e vales é que ainda hoje continua por concluir. E como aquela bela ponte de alvenaria estivesse à espera do dia de São Nunca à Tarde, e a ponte de chão de madeira não apresentasse segurança para os novos veículos que precisavam de atravessar o rio, a CP emprestou a sua ponte à JAE. No entanto, por ser ponte de comboio, ficou sem iluminação eléctrica.

A terceira ponte é a da auto-estrada, já com uma boa década de existência. Uma obra lindíssima, apesar de ser um elemento muito estranho naquela paisagem da vinha.

Pessoalmente, a auto-estrada que mais me incomoda naquele sítio é a dos fios eléctricos, que passa os montes na zona de Parada do Bispo e Valdigem. As pessoas que trabalham na vinha queixam-se que às vezes até apanham choques. E convenhamos que não beneficia muito a imagem deste nosso património mundial.

Essas duas aldeias, Parada do Bispo e Valdigem, estão unidas por uma animosidade antiga. Histórias de casamentos que não foram do agrado de todos - se bem percebi, no caso foi o pai da noiva que não gostou do noivo, e passou a malquerença à aldeia toda. Aquilo eram uns tempos de muita solidariedade e empatia...
Eram, e são: ainda hoje se diz em Parada que "Valdige é a terra que Deus não quije".
Não sei o que dirão os de Valdigem em troca, porque, como já devem ter suspeitado, eu dou-me é com os de Parada do Bispo.

Em todo o caso: uma ponte entre as pessoas de Valdigem e as de Parada do Bispo é que parece estar mais difícil de fazer.
(Ou se calhar já fizeram, e esqueceram-se de me informar.)


"Douro" (2)

O texto de uma colega enciclopedista sobre os Meninos de Ouro da Agustina fez-me ir de passeio até aos meus tempos de universidade:

Uma colega de curso, a Eva, vinha de uma aldeia perto de Miranda do 
#Douro, vivia num quarto minúsculo numa residência de estudantes, e tinha de se organizar para não deixar nunca exames para Setembro, porque nessa altura estava retida num século anterior: a sua aldeia ainda vivia em regime comunitário, e na época das colheitas iam todos juntos fazer a colheita de um vizinho, depois a de outro, e assim sucessivamente.

Quando as aulas da faculdade recomeçavam, ela despedia-se da sua terra nos confins do mais lá longe de tudo, despedia-se dos penhascos de um Douro tão diferente daquele que chegava ao Porto (ou talvez lhe dissesse "até já!"), e aparecia-nos com as mão calejadas, os olhos verdes muito brilhantes, as exclamações mais abertas, o sotaque ligeiramente carregado de música mirandesa.

A Eva cantava-nos o "por bailar o pingacho", contava histórias hilariantes do irmão a pôr o capacete da mota para aprender as danças no seu grupo pauliteiros, falava com imenso orgulho das tradições da sua terra.

A determinada altura, começou a citar com entusiasmo frases de um livro que andava a ler: os Meninos de Ouro, da Agustina. Eu ouvia-a, fascinada por aquela imensa ponte que ela era: entre um Portugal duplamente longínquo - no espaço e no tempo - e uma das mais desafiantes leituras da literatura portuguesa contemporânea.


"Douro" (1)



Por este rio acima....

1. Em finais dos anos oitenta do século passado


(nota mental: da próxima vez, hei-de fazer por nascer no princípio do século, que é para não contar estas histórias da juventude como se fossem de outro século e até de outro milénio, porque é assim que uma pessoa se põe velha)


fiz com a minha família uma viagem inesquecível no #Douro internacional. Só mais tarde me apercebi de que aquilo que, para mim, era "apenas" uma viagem formidável, para o meu pai era trabalho. Na altura ele estava a preparar o Programa para o Aproveitamento Turístico do Vale do Douro, e aproveitou as férias para experimentar o potencial da região. Deve ter sido por isso que em cada município se arranjava o milagre de haver sempre um barquinho que nos levava a conhecer a natureza pouco explorada, rio abaixo e rio acima. A águias e os penhascos impressionantes em Miranda do Douro. Os abutres e os grifos. As cegonhas pretas do Mogadouro - especialmente duas, muito curiosas, que nos acompanharam durante toda a viagem, voando sobre as nossas cabeças para avaliar bem estes bichos estranhos que invadiam o território delas.


2. Também no âmbito desse programa, os técnicos da CCDRN, onde eu trabalhava, tiveram a oportunidade de fazer uma excursão de quase uma semana para conhecer melhor a região sobre a qual iriam tomar decisões. Em cada concelho éramos recebidos pelo presidente da Câmara, que nos apresentava a região e nos servia um almoço ou um jantar, conforme a hora. Como cada concelho nos queria servir o melhor que tinha, andámos aqueles dias todos a almoçar e a jantar cabrito assado no forno com batatas. Um melhor que o outro, ça va sans dire, mas o que é demais é exagero.


(Também inesquecível: o presidente da Câmara que, dentro do autocarro, nos ia apontando as aldeias das freguesias e dizia "esta tem 230 eleitores, esta tem 120 eleitores...")


3. Numa das viagens de trabalho que fiz num barco do rio Douro (sim, há vidas muito duras), deparei com um animador turístico da velha guarda, muito consciente da importância da sua missão. Em determinado momento mandou parar todas as conversas, insistiu quase ao ponto da má-criação com duas senhoras que continuavam animadamente a sua conversa ("Silêncio! Minhas senhoras! Estou farto de dizer que têm de fazer silêncio!"), e quando finalmente até essas se calaram, ele pôs a voz em tremolo e anunciou: "admirem, senhores e senhoras, o espectáculo da criação divina. Olhem para a beleza destas margens!"

E depois deixou-nos continuar as conversetas.

Aaaah, já não se fazem animadores como antigamente!


4. Se alguém passou em Julho de 2017 pela Ribeira do Porto e viu uma grande animação minhota num dos barcos que lá faz o circuito das seis pontes, era - desculpem! - eu e o Joachim a festejar com família e amigos as nossas bodas de prata. Tínhamos previsto um jantar e umas voltinhas no barco, mas os amigos da nossa aldeia trouxeram os bombos e a concertina, e já entraram no barco a fazer música de romaria minhota. De modo que esta foi a segunda festa da minha vida na qual já estávamos a dançar mesmo antes da primeira bebida...

(A primeira festa onde isso nos aconteceu foi o casamento: organizei o catering tudo fantástico, mas fiz mal as contas do horário. Ou então fomos nós que nos despachamos muito a casar e a dar os beijinhos ao pessoal. Chegámos com uma hora de adianto à casa onde íamos fazer a festa, e o pessoal recusou-se a servir as bebidas, porque só tinha ordens para começar uma hora mais tarde. Um tio do Joachim escapuliu-se para a taberna mais próxima para comprar cervejas (o que se tornou um running gag da família nos anos seguintes). Os outros foram para o belo terraço da casa da Cruz Vermelha, ali em Massarelos, por cima do Douro, e puseram-se a dançar a seco. Ou isso, ou conversar.)


5. Ao amigo enciclopedista que hoje, a propósito do Douro, disse que "ai não sei quê mas o Tejo é que", eu queria perguntar se alguma vez viu passar no Tejo um barco cheio de foliões a dançar ao som de bombos minhotos. Não viu? Então pronto, ficamos conversados. E mainada. 



06 junho 2020

"diáspora"

Trinta anos a viver em #diáspora, e é isto:


1. Não sei a que terra pertenço. Gosto das duas. Ando entre uma e outra, e em ambas me sinto em casa e, simultaneamente, fora de casa. Na Alemanha sou a portuguesa, em Portugal sou a "alemoa".


2. Na diáspora os portugueses mantém os bons e os maus hábitos de casa. Já me aconteceu de uma "tia" portuguesa que vive em Berlim me ter olhado de alto a baixo com todo o descaramento para decidir em que nível do sistema português de castas me arrumava. Arrumou-me numa casta bem mais baixa que a dela, e passou a tratar-me de acordo com isso. Ora, isto devia ser um perfeito disparate em qualquer lugar do mundo - e numa sociedade descomplexada e igualitária como a berlinense, é-o ainda mais. E dá nas vistas: bem me lembro do choque de um amigo meu, alemão, quando a viu a começar a falar com outra pessoa enquanto eu ainda estava a meio da resposta à pergunta que me fizera. "Mas que grande falta de chá!", comentou ele, perplexo. Coitada da tia, não imagina a péssima impressão que deixa nas pessoas quando não está no seu habitat da Linha.


3. Quando fui morar para a Alemanha, há trinta anos, telefonava para os amigos portugueses para "rir em português". Era o que mais falta me fazia - mais ainda que o mar, ou o bacalhau.


4. Quando já falava algum alemão fui viver em casa de uma amiga, que tinha um filho de 3 anos. O miúdo adorava-me, mas ao mesmo tempo tinha algumas reservas em relação a mim, porque eu não sabia coisas básicas. Por exemplo, não sabia o que era um melro.
- Mãe, ela é tão burra! Nem sabe o que é uma "Amsel"!
- Não é burra - disse a mãe. É portuguesa.


5. Não conhecer as palavras foi um problema enorme, a princípio. Uma pessoa fica prisioneira dentro de si própria, incapaz de comunicar com o mundo. Incapaz de dizer o que pensa. Com muito trabalho entendia o tema da conversa, compunha uma frase para participar, dizia-a - mas entretanto o tema já tinha mudado. Eles ficavam a olhar para mim como se fosse, digamos, um bocadinho limitada.


6. Desde há quase uma década que participo na organização da sardinhada do 10 de Junho (ou por volta dessa data) para os portugueses que vivem em Berlim. O pessoal gosta imenso de passar a tarde num parque a comer sardinhas assadas em cima de broa, a conversar com amigos e conhecidos em pequenos grupos à volta de mantas de piquenique. É sempre coisa para várias centenas de pessoas. E depois, há a animação: o workshop de bombos, o grupo de folclore, os fados e guitarradas...
É tudo muito bonito, mas: imaginem a paciência dos alemães que moram nas vizinhanças do parque. O cheiro a sardinha, a barulheira toda a tarde, o parque cheio de gente.
Este ano não há sardinhada portuguesa em Berlim por causa da covid. E para o ano tenho de rever isto. É que algumas pessoas da vizinhança já têm protestado. Se fôssemos árabes ou turcos, talvez já tivéssemos tido problemas com a polícia e com os jornais. Mas por enquanto vamos escapando pelo meio dos pingos da chuva. Vou ter de fazer a minha parte e arranjar um local diferente para a sardinhada, para não desgraçar a fama dos portugueses da diáspora.
(Era o que faltava começarem agora a dizer que não é por sermos portugueses, é mesmo por sermos burros...)



03 junho 2020

"biciclista"

Alguns apontamentos sobre #biciclista:


1. Muito gostava eu de perceber porque é que nos dicionários online infopedia e priberam aparecem tanto "biciclista" como "ciclista", com praticamente a mesma definição, mas sem serem sinónimos um do outro. Alguém consegue explicar?


2. Só cá para nós, que ninguém nos ouve: devia ser "ciclista", eu sei. Mas - que querem? - hoje é o dia mundial da bicicleta. E como essa palavrinha já saiu...
(Um dia destes perco este tacho, só por causa disto e daquilo, e não sei que vai ser a minha vida sem o stress quotidiano do princípio da manhã...  )
[Nota, para quem não sabe: na maior parte dos dias, quem propõe o tema do dia na Enciclopédia Ilustrada sou eu.]


3. Em Berlim, os biciclistas fazem há mais de quarenta anos uma "Fahrradsternfahrt" no primeiro domingo de Junho (sempre por volta do dia mundial do Ambiente) com dezenas de milhares de participantes. Atravessam a cidade toda, e andam inclusivamente na autoestrada AVUS. Este ano não fizeram, por causa da covid-19.


4. Em compensação, uma vizinha disse-me que nunca como nos últimos 2 meses se viram tantos biciclistas em Berlim. O medo de ser contagiado nos transportes públicos levou as pessoas a preferir deslocar-se de bicicleta. "A ver se a moda pega de vez", rematou a minha vizinha. No caso dela, já pegou há séculos: vai para o trabalho de bicicleta, faça o tempo que fizer. E trabalha a 10 km de casa.


5. Também vi disso na Holanda: uma mulher que até era quadro superior numa organização internacional, e ia para o trabalho de galochas, capa e calças da chuva. Quando chegava ao escritório trocava as galochas por sapatos finos.
Também vi disso numa empresa de software na qual trabalhei. Os meus colegas e os seus chefes - muitos deles milionários porque a empresa tratava mesmo bem as suas galinhas dos ovos de ouro - iam para o trabalho de bicicleta.


6. Não sei como foi em Portugal, mas vi que tanto em Brest como em Berlim aproveitaram o confinamento para reforçar a rede de vias para transportes públicos e bicicletas na cidade toda.

O pessoal saiu do confinamento, e - pufff - tinha as ruas transformadas, e muito menos espaço para carros.


7. O meu Tio Zé, que de facto era tio do meu pai, ia para todo o lado na sua bicicleta. Fazia aqueles montes minhotos ó pra cima e ó pra baixo como se fosse essa a maneira mais certa de andar no mundo. Mas não se pode dizer que fosse um biciclista - quando muito, era um xicolateirista, porque toda a gente chamava xicolateira à coisa que o levava de cá para lá. Lembro-me bem dele num dia de chuva, em cima da sua máquina, com o guarda-chuva pendurado no colarinho. A minha mãe enervou-se muito com a cena da gola esticada para trás, fazendo a chuva cair pelas costas. É estranho como me lembro tão bem de algo que aconteceu há quase cinquenta anos: o Tio Zé misturado com a paisagem verde e a chuva, e eu sem saber se era uma imagem de desamparo, de palermice ou de liberdade.


8. Por essa altura aprendi a andar de bicicleta. O início da minha carreira de biciclista, ora pois! Foi depois da escola: a caminho de casa dei com um grupo de miúdos a brincar no passeio largo, e havia por ali uma bicicleta sem rodinhas que me deixaram experimentar. Quando finalmente tomei o jeito à coisa apareceu a minha mãe de carro, assustadíssima por eu ainda não ter chegado para o almoço. Percebi a borrasca, e tentei remendar, anunciando feliz da vida: "já sei andar de bicicleta!" Mas nem isso a demoveu. Já tinha decidido que o meu atraso merecia uma dúzia de bolos com a colher de pau. Lá os levei (que remédio!...) mas ou ela não bateu com força ou eu estava anestesiada pela alegria maior de já ser como os grandes.


9. A minha mais recente peripécia de biciclista foi na segunda-feira passada: lembramo-nos de pedalar até uma ilha daquelas que se pode conquistar a pé enxuto quando a maré está baixa. O problema é que a maré já estava a encher. Para lá bem fomos - a água só passava uns 5 cm acima da estrada. Para cá, tive de arregaçar a saia e carregar a bicicleta aos ombros. Do lado de lá estava um homem no barco a olhar para nós os dois. Devia estar a tentar decidir se aquilo era uma imagem de desamparo, de palermice ou de liberdade.
Moral da história: no fundo, no fundo, ainda sou como os pequenos.



"aparência"


Havia na Casa da Conferência de Wannsee um cartaz de propaganda nazi que me deixava sempre perplexa. O cartaz estava dividido em duas áreas, uma com retratos de candidatos de esquerda, outra com retratos de candidatos nazis, e uma frase que dizia algo como “basta olhar para a cara deles para sabermos ao que vêm, e em quem podemos confiar”. 

O meu problema é que, mesmo com a informação sobre o partido a que pertenciam, eu não saberia decifrar na cara deles nem o carácter nem as intenções. Faltava-me, provavelmente, o treino do olhar que seria próprio daquela época. 

(Infelizmente não fotografei esse cartaz, para o partilhar agora aqui, e não sei se ainda consta da exposição na Casa da Conferência de Wannsee, que foi recentemente reformulada.) 

Pergunto: será que as aparências enganam, ou será que somos nós quem “engana” as aparências? Quer dizer: será que a #aparência é algo subjectivo, criado pelas informações ou pelos preconceitos que nos levam a distorcer inconscientemente o que vemos, focando-nos apenas nos traços que queremos ver? 

No registo oposto ao do cartaz nazi, a história de um rapazinho branco que quis fazer o mesmo corte de cabelo do seu melhor amigo para que no infantário não fosse possível distingui-los um do outro. Um caso extremo – e comovedor – da capacidade de construir a aparência dos outros a partir do que nos vai no coração.





26 maio 2020

"paciência"

A frase de um colega da Enciclopédia Ilustrada sobre a #paciência de Job, que foi "testado por Deus, que se aliou ao Diabo para confirmar a sua fé", é uma excelente síntese do que me incomoda no Livro de Job.

Bem sei que este texto marca uma evolução importante na intuição do divino, deixando para trás a ideia de um Deus da lógica simples ("se te acontece alguma coisa má, algum pecado grande hás-de ter feito", ou o seu inverso, nas palavras irónicas de um amigo: "o Deus no qual nem sequer acredito gosta muito de mim") e passando para um Deus de misteriosos desígnios que não podemos entender nem devemos ter a veleidade de tentar interpretar.
Ou seja: um Deus independente das mesquinhices dos humanos.

Mesmo sabendo isso, e mesmo sabendo que se trata de uma construção literária, o início do livro irrita-me: Deus a fazer apostas com o diabo?! Arre!

Descobri um valor mais profundo para esta paciência de Job ao ler o cartão que informava sobre a morte de um tio do meu marido. Quando soube que tinha um cancro fez ainda com a mulher todas as viagens que pôde, lutou contra a doença e ao mesmo tempo preparou-se para morrer. Foi ele quem preparou o seu próprio cartão, no qual se vê uma pintura de um artista alemão contemporâneo: Job, de costas, com a pele coberta de pústulas, erguendo os olhos e os braços para o alto. E a pergunta sobre o sentido do que lhe acontece: "porque me envias este sofrimento, meu Deus?"

Não sabes. E nunca saberás. É essa a mensagem do Livro de Job (esquecendo a parte da aposta): a vida é isso mesmo - em algum momento seremos apanhados por um sofrimento que sentimos não ter merecido nunca. Não é Deus a ajustar contas connosco, é simplesmente o imprevisível, o inexplicável e a parte mais cruel da nossa condição de vivos a acontecer.

Fazer o quê? Em certos casos, o único paliativo é a paciência.

E porque é que Deus criou um mundo onde há sofrimento inexplicável?, perguntarão. Ora bem: ninguém se lembrou ainda de escrever esse livro, que provavelmente é o mais difícil de todos.
Mas escreveram o segundo mais difícil, o que nos dá a regra para estar no mundo tal como ele é: "ama cada um dos outros, certo de que ele é, como tu, um filho de Deus"
(hã? que me dizem desta síntese?)
O terceiro livro mais difícil é este de Job: perante aquilo que não compreendes e não podes mudar, só te resta a paciência.

(Ultimamente, a paciência tem sido trocada pelas teorias da conspiração: perante aquilo que não compreendes e não podes mudar, aderes a uma teoria qualquer que identifica um culpado simples e te dá, por consequência, a sensação de que tens a chave para a resolução do problema. Mas isso seria tema para outro post.)


17 maio 2020

"gramofone"




O Joachim andava há que tempos a sonhar com um #gramofone. Viu uma loja deles em Dresden, e desde então tinha aquele sonho. Mas eram caríssimos. Ele fazia as contas: se juntasse o presente dos anos, mais o do Natal, mais o da Páscoa...

Andavamos nisto até que, no outono passado, fizemos uma viagem à Holanda para o encontro habitual da família. A passear numa cidadezinha amorosa chamada Zierikzee, entrámos por mera curiosidade numa loja de velharias. Em cima de um armário descobrimos um gramofone. Ou se calhar foi ele que nos descobriu a nós, porque estava ali a rir-se, muito simpático, todo oferecido. O dono da loja garantiu que funcionava sem problema. E uma das primas comentou que tinha visto uma loja de discos antigos duas ruas à frente.

Eu disse ao Joachim: faz de conta que é Natal. Enquanto ele ia em busca dos discos, eu comprei o gramofone e vim esperar para o meio da praça central de Zierikzee, onde de um momento para o outro me vi rodeada de pessoas fascinadas a sorrir imenso e a fazer perguntas.
(Nota mental: um dia que me sinta sozinha e triste, basta-me ir passear o gramofone um bocadinho.) 

De regresso a Berlim, o Joachim descobriu uma oficina de gramofones, onde comprou um saco de cem agulhas, porque é preciso mudar da agulha ao fim de cada disco ouvido. O dono da loja disse-lhe que o nosso gramofone é uma mistura de peças de vários aparelhos diferentes (aha! por isso foi tão mais barato que os de Dresden!), mas nós continuamos a gostar muito dele.

Está empoleirado ao cimo das escadas, e usamo-lo para pôr à prova a amizade de quem nos visita: quem aguentar aquele som estridente até ao fim - especialmente quando começa a perder o ritmo e fica ainda pior -, é amigo do peito e para a vida toda.


14 maio 2020

"dogma"

Durante muito tempo pensei que #dogmas eram pedaços da doutrina decididos há mil anos, quando ainda era preciso fazer ajustes ao edifício católico. Por isso fiquei muito surpreendida ao dar-me conta de que o dogma da Imaculada Conceição só foi estabelecido em 1854. Ora, isso é quase na altura em que os meus bisavós estavam para nascer, ou seja: ali à esquina da minha própria história.

Sim: em 1854 a teologia da Igreja Católica ainda andava a discutir se a mãe de Jesus tinha nascido sem mácula. E não pensem - como outras pessoas que eu cá sei... - que com isso quer dizer que também a mãe dela, aquela santa mulher, não andou a fazer malcriadices com o santo do seu marido. Não, senhores. Imaculada Conceição quer apenas dizer que Maria nasceu, ao contrário de todos nós, sem pecado original. Porque parecia mal o filho de Deus encarnar no corpo de uma mulher em pecado. Involuntário, pois claro, porque já vimos ao mundo com ele, mas pecado na mesma.

É uma pena decidirem estas coisas sem me perguntarem a opinião. Dizia-lhes logo: tirem daí a ideia, porque essa jogada é desmoralizadora: se tiram o pecado a Maria, dizendo que era tão pura que até foi concebida sem pecado original, afastam-na dos comuns mortais, transformam-na numa extraterrestre mais para lá que para cá. Deixa de ser uma de nós, deixa de ser como nós: não precisa de se debater quotidianamente - como nós - para se erguer acima da lama da qual nasceu. E criam um problema à figura de Jesus Cristo, que passa a ser humano só por parte dos avós maternos. 

Como se não bastasse, em 1870 o Vaticano ainda se saiu com o dogma da infalibilidade papal, que quer dizer: em caso de dúvida, o papa tem a última palavra.

Mas o que é realmente grave é isto: no século XIX, quando a classe operária - um grupo cada vez maior de pessoas a viver em terríveis condições decorrentes da revolução industrial - se estava a afastar a passos largos da Igreja, em Roma discutiam-se bizantinices como o pecado original da mãe de Jesus e os critérios para estabelecer as verdades da Fé naquelas partes mais complicadas que os mandamentos de Cristo.

Será que o Vaticano aprendeu com o estrondoso falhanço junto da classe operária do século XIX, e, já agora, com o falhanço junto da classe intelectual do século XVIII? Pois parece que não: em 1950, cinco anos depois de Auschwitz, e pouco antes de eu nascer, ainda se saíram com o dogma da ascensão de Maria ao céu não apenas em alma, mas também de corpinho bem feito.

Mas escusam de se rir: por causa disso têm um feriado em Agosto. Respeitinho, vá.

(De repente lembrei-me de um padre da minha comunidade, a da Serra do Pilar, a desancar o pessoal que enchia a igreja no dia 15 de Agosto: "Porque é que nunca vos vejo aqui ao domingo? Que religião é a vossa, que só vos traz à missa neste dia?")


09 maio 2020

"Ypres"


Otto Dix, Abensonne (Ypern) [Evening Sun (Ypres)], 1918


Ontem andei o dia todo a pensar que ainda havia alguma coisa para dizer sobre #Ypres. Sabia que vários artistas alemães passaram pelos horrores dessa guerra, sabia que havia pinturas inspiradas nos campos de batalha do centro da Europa, mas não conseguia lembrar-me de um em particular.

Até que me lembrei de Otto Dix, do seu extraordinário tríptico sobre a guerra, que está na Galerie Neue Meister, em Dresden,e do quadro "A Trincheira", que desapareceu no turbilhão nazi (pode ver-se aqui uma fotografia dessa obra, a preto e branco).

Otto Dix que se alistou voluntariamente no exército da primeira guerra mundial, e que numa carta a um amigo escrevia sobre "a sensação de espetar a baioneta no ventre de um homem". Otto Dix, que no fim da primeira guerra mundial pintou este "Sol do Entardecer (Ypres)".

Hoje, quando se festeja o #dia_da_libertação, traduzo uma parte da wikipedia em alemão sobre a perseguição de que este pintor foi vítima. Há elementos do discurso da época que infelizmente recomeçamos a ouvir hoje em dia em certos países - e até no Parlamento português. O dia 8 de Maio de 1945 não trouxe a libertação de um regime desumano para todo o sempre. Temos de estar atentos aos sinais dos tempos, e evitar atempadamente que a História comece a enveredar por trincheiras antigas.

Da wikipedia:

"Em 1933, Otto Dix foi um dos primeiros artistas a perder o seu trabalho como docente e a ser excluído da Academia. Bettina Feistel-Rohmeder, nazi, artista e crítica de arte, difamou-o afirmando que troçava dos heróis. Já em 1933 foi realizada no pátio da Câmara de Dresden uma "exposição da vergonha". Organizada por Richard Müller, viria a ser a precursora da exposição itinerante "Arte Degenerada". Entre as obras de Dix encontrava-se também "A Trincheira", proveniente do Museu de Dresden. Além de Goebbels e Göring, também Hitler visitou esta exposição, e comentou sobre Dix: "É pena não poder prender esta gente". Na brochura da exposição sobre a "arte degenerada", o quadro "A Trincheira" aparecia com o título: "Sabotagem da defesa em forma de pintura do artista Otto Dix". Um excerto do texto da brochura: "Aqui a "arte" entra ao serviço da propaganda marxista a favor da objecção de consciência. A intenção é clara: o espectador deve ver no soldado o assassino ou a vítima insensata de uma "ordem mundial capitalista", no sentido da luta de classes bolchevique. […] O facto de não apenas os judeus, mas também os "artistas" de sangue alemão criarem sem que ninguém lhes tivesse pedido obras de arte vis que reafirmam a posteriori a propaganda do inimigo sobre os horrores da guerra, e que já na altura foi desmascarada como sendo uma teia de mentiras, permanecerá para sempre uma mancha na história cultural alemã."


08 maio 2020

"dia da libertação" - 2

Partilho outro post publicado na Enciclopédia Ilustrada. Este é da autoria do Lutz Brückelmann, que é alemão:

No dia 8 de maio de 1985 o então presidente da República Federal de Alemanha, Richard von Weizsäcker, fez no parlamento um discurso histórico. Falou na cerimóna em que o Bundestag comemorava o 40º aniversário do fim da 2ª Guerra para a Alemanha, da derrota do regime nazi e da capitulação incondicional da Alemanha. Pela primeira vez um político alemão num alto cargo chamou o 8 de maio #dia_da_libertação. Mas não esqueceu referir que também era outra coisa, não só libertação. O discurso tinha um impacto enorme, quer no país quer fora dele. Havia vários aspetos que acrescentavam carga ao discurso que Weizsäcker tinha preparado durante 4 meses, falando com representantes de vários quadrantes da sociedade alemã, de organizações dos deslocados – vítimas da limpeza étnica nos antigos territórios alemãs no leste, até aos judeus ainda residentes na Alemanha. Acrescentou ainda um sentido especial ao discurso o facto de Weizsäcker era filho de um alto diplomata ao serviço do regime nazi, e que tinha defendido no julgamento de Nuremberga, como jovem advogado.

Hoje é fácil ver o 8 de maio como dia da libertação também para os alemães – demasiado fácil até – mas se olhamos para os alemães que viveram a 2ª Guerra e a derrota, percebemos porque isso não foi tão fácil para esta geração.

Para todos que sofriam sob o jugo da ocupação, sob o terror da Wehrmacht, da SS e da Gestapo fora da Alemanha, é uma data de indiscutível regozijo, em que se festeja a vitória, a perspetiva dum futuro melhor, em todo o caso muito menos mau.

Para os alemães foi diferente. Só para uma minoria, os relativamente poucos que se empenharam na oposição ao nazismo, isto era uma vitória, para os que ficaram no exílio ou que foram presos nos campos de concentração, os familiares dos assassinados, os que viveram na clandestinidade. Para os outros, a “maioria silenciosa” bem como os apoiantes assumidos do regime, o 8 de maio foi o dia da derrota, o dia da capitulação, o dia da total impotência e de começo dum futuro muito incerto, de um possível ou real castigo muito pesado. Onze milhões de soldados foram feitos prisioneiros de guerra, muitos, especialmente os que foram presos pelo Exército Vermelho, nunca regressaram dos campos.

Mas também para os civis o que se seguiu ao 8 de maio foi duro. Todas as estruturas, até as mais elementares que sustentaram a vida da população colapsaram e foram substituídas por um regime burocrático das potências de ocupação que durou 3 anos e durante qual morreram mais civis alemães do que com os bombardeamentos durante a guerra. A atividade económica contraiu até a um nível residual, praticamente só sobrava o que era a economia paralela. As senhas para a alimentação distribuídas pelas potências ocupantes permtiam a ingestão diária média por pessoa de menos de 1000 calorias, o que não chegava para sobreviver. Especialmente nas cidades morriam as pessoas que não tinham relações com o mundo rural ou uma horta ou um quintal. Os citadinos, como o meu pai de 13 anos, faziam viagens de “hamster” em telhados de comboio ou em vagões de mercadoria para o campo, onde trocaram as pratas da casa, carpetes persas, violinos e o mais que havia de “inútil” e não comestível por uma dúzia de ovos ou um quilo de manteiga. (Um ódio dos citadinos aos agricultores manteve-se durante décadas depois destes tempos.) O Cardeal de Colónia emitiu uma absolvição sumária para todos que assaltavam os comboios nas curvas, onde andavam suficientemente devagar para poderem ser abordados e lhes ser tirado carvão. O seu apelido “Frings”, deu origem a um novo verbo da língua alemã que descrevia essa atividade: “fringsen”.

Mesmo assim, só no “inverno da fome” 1946/47 morreram pelo menos 300.000 pessoas, de fome e de frio. Outros falam de 500.000. 

Já no último inverno da guerra, na frente do leste, tinha ocorrido a grande limpeza étnica que resultou na deslocação da Polónia duzentos quilómetros para oeste. Entre doze e catorze milhões de alemães que viveram a leste do rio Oder e nos territórios do Sudetenland foram obrigados a deixar as suas casas e terras. Um milhão não sobreviveu a caminhada. Um outro milhão de mulheres foi violado pro vingança, principalmente por soldados do Exército Vermelho (que fizeram o que os soldados da Wehrmacht tinham feito nos anos anterior às suas mulheres), muitas suicidaram depois.

Nos anos da “Besatzung”, entre 1945 e 1948, procedeu-se a desmontagem sistemática da indústria alemã. Fábricas inteiras foram desmanteladas e transportadas para longe, para a França e a União Soviética, para servir como – objetivamente ainda assim flagrantemente insuficiente – reparação dos danos causados pelos agressores.

Isto só terminou, por ironia do destino, graças ao surgimento da Guerra Fria. Os aliados ocidentais num lado, a URSS no outro, entenderam que precisavam de Alemanhas fortes, industrializadas e poucos anos depois também militarizadas, para servir de frente contra o novo inimigo.

Não conto isso para relativizar ou desculpar uma única das atrocidades cometidas por alemães e em nome da Alemanha Nazi, atrocidades no total ainda muito maior, e cometidas por centenas de milhares de Alemães, com o apoio e o conhecimento mais ou menos voluntário de outros milhões. 

Por isso ser assim, chamar o 8 de maio 1945 dia de libertação é problemático, porque pode fomentar a falsa ideia de os alemães foram tal como os libertados dos outros países, apenas vítimas de uma minoria de criminosos, e não também, muitos, colaboradores no crime mais ou menos comprometidos.

Von Weizsäcker sabia isso e abordou o tema no seu discurso. Recusou por um lado a noção da culpa coletiva. Um alemão, mesmo desta geração, nunca podia ter culpa dos crimes do nazismo só por ser alemão. A culpa é individual, e qualquer alemão terá uma culpa individual ou não, na medida em que colaborou com ou ficou a faltar oposição ao regime nazi. Mas por outro lado, realçou que nós alemães, devido a história, temos uma responsabilidade coletiva, um dever de memória e um dever de assumir o nosso passado coletivo.

Eu como alemão, tenho me debatido toda a minha vida com essa questão complicada, a tensão entre uma liberdade individual por um lado, o meu direito de, como indivíduo, ser identificado e julgado como indivíduo e não ser identificado com os assassinos que agiram em nome do meu país. Mas por outro, assumir a minha cidadania e pertença a esse país, e como seu membro e representante dar a cara pelos valores que o meu país não soube respeitar.