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26 maio 2020

"paciência"

A frase de um colega da Enciclopédia Ilustrada sobre a #paciência de Job, que foi "testado por Deus, que se aliou ao Diabo para confirmar a sua fé", é uma excelente síntese do que me incomoda no Livro de Job.

Bem sei que este texto marca uma evolução importante na intuição do divino, deixando para trás a ideia de um Deus da lógica simples ("se te acontece alguma coisa má, algum pecado grande hás-de ter feito", ou o seu inverso, nas palavras irónicas de um amigo: "o Deus no qual nem sequer acredito gosta muito de mim") e passando para um Deus de misteriosos desígnios que não podemos entender nem devemos ter a veleidade de tentar interpretar.
Ou seja: um Deus independente das mesquinhices dos humanos.

Mesmo sabendo isso, e mesmo sabendo que se trata de uma construção literária, o início do livro irrita-me: Deus a fazer apostas com o diabo?! Arre!

Descobri um valor mais profundo para esta paciência de Job ao ler o cartão que informava sobre a morte de um tio do meu marido. Quando soube que tinha um cancro fez ainda com a mulher todas as viagens que pôde, lutou contra a doença e ao mesmo tempo preparou-se para morrer. Foi ele quem preparou o seu próprio cartão, no qual se vê uma pintura de um artista alemão contemporâneo: Job, de costas, com a pele coberta de pústulas, erguendo os olhos e os braços para o alto. E a pergunta sobre o sentido do que lhe acontece: "porque me envias este sofrimento, meu Deus?"

Não sabes. E nunca saberás. É essa a mensagem do Livro de Job (esquecendo a parte da aposta): a vida é isso mesmo - em algum momento seremos apanhados por um sofrimento que sentimos não ter merecido nunca. Não é Deus a ajustar contas connosco, é simplesmente o imprevisível, o inexplicável e a parte mais cruel da nossa condição de vivos a acontecer.

Fazer o quê? Em certos casos, o único paliativo é a paciência.

E porque é que Deus criou um mundo onde há sofrimento inexplicável?, perguntarão. Ora bem: ninguém se lembrou ainda de escrever esse livro, que provavelmente é o mais difícil de todos.
Mas escreveram o segundo mais difícil, o que nos dá a regra para estar no mundo tal como ele é: "ama cada um dos outros, certo de que ele é, como tu, um filho de Deus"
(hã? que me dizem desta síntese?)
O terceiro livro mais difícil é este de Job: perante aquilo que não compreendes e não podes mudar, só te resta a paciência.

(Ultimamente, a paciência tem sido trocada pelas teorias da conspiração: perante aquilo que não compreendes e não podes mudar, aderes a uma teoria qualquer que identifica um culpado simples e te dá, por consequência, a sensação de que tens a chave para a resolução do problema. Mas isso seria tema para outro post.)


15 maio 2020

Fátima 2020


 (Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo) 



(Foto © Renascença)

Provavelmente fui a última pessoa a dar-se conta desta entrevista excelente com o D. António Marto (aqui), mas paciência: quando é para ter alegrias, mais vale tarde que nunca. E esta entrevista só me deu alegrias: o cuidado que ele teve de, ao falar sobre as celebrações em Fátima, reconhecer que há uma diferença entre estas e as comemorações do 25 de Abril e do 1º de Maio; a preocupação de garantir o pagamento dos salários dos funcionários; a firmeza com que assumiu que a Igreja tomou as suas decisões sem ser pressionada pelo governo; a simplicidade com que explicou a sua posição: "Eu não queria ficar na história como o bispo responsável pelo agravamento da pandemia a nível nacional".

Aqui está, em toda a sua grandeza, um exemplo do que deve ser um cristão: o respeito pela vida humana e o uso da palavra para construir a paz entre as pessoas.

Impedidos de ir a Fátima, muitos católicos acenderam velas junto às janelas da sua casa, ou acenaram com lenços brancos à imagem da Virgem que algumas paróquias levaram em carrinhas pelas ruas do bairro. Não é o mesmo que ir a Fátima e tomar parte num momento de transcendência com muitos milhares de pessoas. Mas é, ainda assim, participar numa ponte entre a vivência pessoal da Fé e um espaço simbólico de celebração comunitária.

Por sua vez, os muçulmanos também tiveram de tomar decisões muito difíceis. Como informa o Sete Margens, a mesquita de Lisboa decidiu permanecer fechada mesmo no período do Ramadão - o mês sagrado dos muçulmanos. 

Infelizmente assistimos - e não apenas em Portugal - a alguns episódios entre o triste e o ridículo: reacções com tiques de luta de poder nuns casos, egoísmo puro e duro noutros casos, e ainda algumas situações nas quais a empatia e a atenção às necessidades das pessoas levou alguns responsáveis a perder a noção do risco em que estavam a colocar terceiros.

Mas o panorama geral que o mundo religioso português me dá durante esta crise é o da grande maturidade dos crentes e dos representantes das organizações religiosas, bem patente nas decisões que tomam e nas declarações que fazem.
E isso tem de ser dito.


14 maio 2020

"dogma"

Durante muito tempo pensei que #dogmas eram pedaços da doutrina decididos há mil anos, quando ainda era preciso fazer ajustes ao edifício católico. Por isso fiquei muito surpreendida ao dar-me conta de que o dogma da Imaculada Conceição só foi estabelecido em 1854. Ora, isso é quase na altura em que os meus bisavós estavam para nascer, ou seja: ali à esquina da minha própria história.

Sim: em 1854 a teologia da Igreja Católica ainda andava a discutir se a mãe de Jesus tinha nascido sem mácula. E não pensem - como outras pessoas que eu cá sei... - que com isso quer dizer que também a mãe dela, aquela santa mulher, não andou a fazer malcriadices com o santo do seu marido. Não, senhores. Imaculada Conceição quer apenas dizer que Maria nasceu, ao contrário de todos nós, sem pecado original. Porque parecia mal o filho de Deus encarnar no corpo de uma mulher em pecado. Involuntário, pois claro, porque já vimos ao mundo com ele, mas pecado na mesma.

É uma pena decidirem estas coisas sem me perguntarem a opinião. Dizia-lhes logo: tirem daí a ideia, porque essa jogada é desmoralizadora: se tiram o pecado a Maria, dizendo que era tão pura que até foi concebida sem pecado original, afastam-na dos comuns mortais, transformam-na numa extraterrestre mais para lá que para cá. Deixa de ser uma de nós, deixa de ser como nós: não precisa de se debater quotidianamente - como nós - para se erguer acima da lama da qual nasceu. E criam um problema à figura de Jesus Cristo, que passa a ser humano só por parte dos avós maternos. 

Como se não bastasse, em 1870 o Vaticano ainda se saiu com o dogma da infalibilidade papal, que quer dizer: em caso de dúvida, o papa tem a última palavra.

Mas o que é realmente grave é isto: no século XIX, quando a classe operária - um grupo cada vez maior de pessoas a viver em terríveis condições decorrentes da revolução industrial - se estava a afastar a passos largos da Igreja, em Roma discutiam-se bizantinices como o pecado original da mãe de Jesus e os critérios para estabelecer as verdades da Fé naquelas partes mais complicadas que os mandamentos de Cristo.

Será que o Vaticano aprendeu com o estrondoso falhanço junto da classe operária do século XIX, e, já agora, com o falhanço junto da classe intelectual do século XVIII? Pois parece que não: em 1950, cinco anos depois de Auschwitz, e pouco antes de eu nascer, ainda se saíram com o dogma da ascensão de Maria ao céu não apenas em alma, mas também de corpinho bem feito.

Mas escusam de se rir: por causa disso têm um feriado em Agosto. Respeitinho, vá.

(De repente lembrei-me de um padre da minha comunidade, a da Serra do Pilar, a desancar o pessoal que enchia a igreja no dia 15 de Agosto: "Porque é que nunca vos vejo aqui ao domingo? Que religião é a vossa, que só vos traz à missa neste dia?")


20 abril 2020

ai, e tal, os cristãos não puderam celebrar a Páscoa mas o Parlamento pode celebrar o 25 de Abril...

Um dos argumentos mais usados por quem critica as celebrações do 25 de Abril é o da Páscoa: então os cristãos não puderam celebrar a festa maior do Cristianismo, e o Parlamento pode celebrar o 25 de Abril? Então as regras não são iguais para todos?

Facto é: o Parlamento não deixou de trabalhar. O que seria estranho era o Parlamento abrir todos os dias para legislar, mas fechar no dia 25 de Abril.

Imaginem que a Igreja Católica tinha continuado a ter missas diárias, cumprindo determinadas regras de segurança, durante todo o mês de Março e no princípio de Abril, mas na Semana Santa suspendiam tudo por causa da covid-19. Qual era a lógica disto? Nenhuma. Ninguém aceitaria fechar as igrejas justamente na Páscoa, caso tivesse havido missas nas semanas anteriores.

A mesma lógica se aplica ao Parlamento: porque é que devia fechar no dia maior da Democracia portuguesa, se tem estado a trabalhar todos os outros dias?

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Podíamos discutir os critérios para fecharem as igrejas e manterem o Parlamento aberto.
Boa questão - houve até uma paróquia berlinense que levou o caso a tribunal, alegando que o fecho das igrejas era um atentado à liberdade religiosa. O tribunal não lhe deu razão, e as igrejas permanecem fechadas.

No que diz respeito ao Parlamento, parece-me que ninguém põe em causa a sua importância: é essencial à sociedade e deve ser equiparado aos serviços fundamentais que não podem ser suspensos.

No que diz respeito à religião: por um lado, não é possível garantir que todas as pessoas das assembleias comunitárias tenham um comportamento rigoroso de prevenção de contágio (se nos supermercados já é o que se vê, quanto mais em lugares que são, por excelência, espaços de proximidade); por outro lado, pergunto se a celebração em comunidade é essencial para os cristãos sentirem a presença do Espírito Santo.

Desenvolvo um pouco mais: um padre meu amigo comentou recentemente que ouviu muitos católicos afirmarem que nunca viveram a Páscoa de modo tão profundo como em 2020. Aqueles para quem a Páscoa é realmente a festa maior do Cristianismo foram capazes de a recriar no confinamento do seu lar. A Igreja saiu dos templos, e entrou na casa das pessoas; em vez de decorrer como tradicionalmente na comunidade, este ano a celebração da Páscoa nasceu do coração e dos gestos de cada crente que a quis celebrar com verdade. Essas pessoas sentiram a presença do Espírito Santo nelas, e por isso disseram que nunca tinham vivido uma Páscoa de forma tão intensa.
 
Esta enorme crise, que tanto sofrimento tem causado, pode oferecer às Igrejas algo muito positivo: a oportunidade para os crentes se reinventarem como sujeitos da sua própria Fé e para, quando melhores tempos vierem, regressarem ao seio da comunidade revestidos de uma nova consciência de si próprios e da sua responsabilidade na casa comum.