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24 outubro 2019

sorrir para não chorar

(foto e notícia: Guardian)

Encontrei esta foto no facebook, com a seguinte legenda:
Puppeteers in Syria.
When everything fails, love survives
.
 
A humanidade destes dois pantomimeiros lembrou-me um filme comovente que vi já há algum tempo. 



São
The Flying Seagull Project e precisam muito do apoio de todos para continuarem a desenvolver o trabalho importantíssimo que fazem em prol das crianças refugiadas e migrantes.
Quem quiser fazer uma doação, pode entrar neste site:
https://theflyingseagull.charitycheckout.co.uk/profile

10 novembro 2018

o meu 9 de Novembro de 2018


Ontem era o centenário da instauração da república na Alemanha, mas não ouvi falar disso, nem dos 29 anos da queda do muro - excepto no noticiário, onde mostraram partes da cerimónia no Parlamento. À minha volta, o tema do dia era a provocação descarada de um grupo de extrema-direita, que marcou para os oitenta anos do terrível pogrom nazi uma "marcha fúnebre pelas vítimas da política".

De modo que fomos para a rua: vários milhares de berlinenses de um lado, 140 do outro, e 1200 polícias entre os dois grupos. Estive apenas com a Christina, porque o Matthias e os seus amigos estavam numa manifestação que vinha de outro lado da cidade.

Antes disso fomos a uma cerimónia junto ao memorial da Levetzowstrasse, onde deram a palavra a Marian Kalwary, sobrevivente do gueto de Varsóvia, e a Horst Selbiger, berlinense e filho de um judeu, nascido em 1928.

Marian Kalwary, de 89 anos, pôs toda a gente a rir ao recusar uma cadeira dizendo que isso "é para gente nova!".


 

Depois leu com dificuldade o texto alemão que lembrava o que aconteceu há oitenta anos na Europa, e fez um pedido na qualidade de sobrevivente do gueto: vim de Varsóvia a Berlim urgir-vos para não esmorecerem na luta, e para não esquecerem nunca.

Horst Selbiger, numa voz muito clara, falou-nos do que viu naqueles terríveis dias.
E sublinhou: "Quem dorme em Democracia acorda em ditadura. Fascismo não é uma opinião, fascismo é um crime!"


Também respondeu à questão de que falei ontem, sobre o 9 de Novembro ser a melhor data para um feriado alemão, por agregar a maior vergonha e a maior glória.

"Não!", disse ele. "Ouço dizer que hoje em dia é possível combinar este dia da vergonha e da culpa com um feriado festivo. E assim deixam que se comemore no dia 9 de Novembro a unidade alemã. E assim se deixa cair no esquecimento a data da vergonha e da culpa. Se nós o permitíssemos! Erguei-vos!  Oponham-se a essas pessoas da extrema-direita! Ainda somos a maioria, e devemos aproveitá-la! E, por favor, não digam nunca mais "tem de ser possível encerrar este capítulo". É isto que vos digo: não podemos, e não o faremos. Não há esquecimento, não há perdão, e temos de pôr fim, de uma vez por todas, a esta transformação dos criminosos em vítimas."



As pessoas apinhadas na praça ouviam-nos em silêncio atento.


A seguir, uma banda cantou algumas músicas (entre outras: Donna donna donna, Ich wandere durch Theresienstadt, Bella Ciao - nesta, a primeira estrofe foi cantada em ritmo mais lento, mais ao estilo da música judaica) e eu fui comprar o livro do Horst Selbiger, que por acaso estava junto à mesa, e mo autografou - "para memória do 9 de Novembro de 2018" - por baixo da frase:

Façam-nos perguntas, nós somos os que restam!
Quando deixarmos de existir, só ficará a História em papel
.

Pusemo-nos a caminho. Largas centenas de pessoas, rodeadas por muitos polícias, alguns deles com câmaras de filmar. A Christina a ensinar-me os truques ("não vás demasiado à frente, se as coisas correrem mal é lá que complica primeiro" e "fica atenta ao pessoal todo de preto"), eu a dizer que achava mal as palavras de ordem tipo "nunca mais Alemanha!", ela a comentar que sentia um certo desconforto ao ver as bandeiras de Israel naquelas ruas de Moabit, que é um bairro onde moram muitos muçulmanos, eu a responder que as pessoas daquela manifestação também vão para a rua em defesa dos direitos dos muçulmanos. E perto de nós o carro de som, que avançava empurrado por alguns manifestantes, a passar a gravação da mensagem "nunca mais! para estes crimes, não há esquecimento e não há perdão" em várias línguas: alemão, hebraico, farsi, árabe.

Passámos por um prédio onde havia um homem à janela, junto a uma bandeira da Alemanha, que nos berrava insultos. O pessoal respondia em coro. E a polícia filmava, para verificar depois se estes tumultos ainda estavam dentro da ordem constitucional.

O cortejo parou junto à estação central de caminho-de-ferro, na barreira que a polícia tinha preparado para separar os manifestantes. Tudo tranquilo - excepto alguns turistas aflitos para apanhar o comboio. Deixei a Christina, e fui para a Filarmonia, para assistir a um concerto em memória das vítimas do 9 de Novembro de 1938. No metro, viajei ao lado de três miúdas vestidas de preto e com a cara tapada. Estariam com certeza a tentar furar a barreira policial, para chegar mais perto dos da extrema-direita. Passei a correr pelo memorial do Holocausto, estava tudo calmo. E daí a nada estava sentada na Filarmonia, a ouvir o concerto. Mas isso é tema para outro post.

Já em casa, vi os noticiários do dia. O discurso do presidente da República no Parlamento, afirmando que "quem despreza os direitos humanos e a Democracia, quem desperta de novo o antigo ódio nacionalista, esses não têm de modo algum direito ao preto-vermelho-ouro da bandeira", o aplauso dos deputados da AfD fazendo de conta que aquela mensagem não era para eles, e parte da cerimónia na sinagoga da Rykestrasse, da qual a AfD foi ostensivamente excluída. Angela Merkel referiu o alarmante crescimento do anti-semitismo na Alemanha, e o representante da comunidade judaica na Alemanha, Josef Schuster, falou da AfD sem dizer o nome, tal como antes o presidente da República fizera no Parlamento: "De novo somos confrontados com incendiários. Quero que reparem nestes números: em 2016 houve cerca de 1000 ataques a casas de refugiados, entre os quais mais de sessenta ataques incendiários. Mais de sessenta! São, em média, cinco ataques incendiários por mês a casas onde vivem pessoas que procuram refúgio entre nós."

Lembrei-me da conversa sobre a bandeira israelita nas ruas de Moabit: esta gente também seria capaz de desfilar para proteger os muçulmanos.

Portanto: no 80º aniversário do pogrom nazi contra os judeus, o representante dos judeus alemães tomou a palavra para lembrar as novas vítimas do ódio: os refugiados muçulmanos. E depois há quem se admire do meu optimismo.


26 outubro 2018

caramelos



No dia em que na Enciclopédia Ilustrada se falou de Beirute alguém mencionou o filme Caramel.

O primeiro a ver o filme Caramel cá em casa foi o meu filho, quando tinha uns 13 anos. Comentou comigo que "este filme é diferente, e dá que pensar". A música do filme passou a ser c
ompanhia certa nas nossas viagens de carro mais longas.
Uns anos depois, num encontro com os seus novos amigos sírios que agora moram em Berlim, o Matthias cantarolou "Mreyte Ya Mreyte", e uma das raparigas sírias desatou a chorar. Não esperava ouvir tão longe de casa um alemão a cantar esta canção. Entre lágrimas, contou ao Matthias que é amiga da cantora.
Uns meses mais tarde a minha filha começou a cantar com alguns desses jovens sírios, que são músicos e fugiram para Berlim porque na Síria chegaram a estar presos por se interessarem pela "música errada". Compôs com um deles uma canção usando esta letra.

O mundo é realmente muito pequeno. Quanto maior o tamanho dos corações, mais pequeno o mundo.


23 outubro 2018

o que há num sorriso



A miúda disse-me que fala muito bem alemão e inglês (e também árabe, francês e maltês porque viveu dois anos em Malta). Depois tirou o papel do bolso, e anunciou: "a minha família". Sorria, com olhos cheios de confiança.
A minha amiga Rita segredou-me: "a mãe e a irmã morreram".

Lembrei-me dos três miúdos, irmãos entre os 3 e os 8 anos, da naturalidade com que contaram à professora de música no centro de refugiados: "sabes? nós perdemo-nos da nossa mãe na Grécia, e viemos sozinhos até à Alemanha. Foi aqui que ela nos encontrou."

Lembrei-me do sorriso dos jovens sírios amigos dos meus filhos a comentar, depois de os ajudarem a fazer uma mudança, que a parte desse dia em que tinham viajado no compartimento da carga da carrinha "foi muito desagradável".

Não basta dar-lhes casa, pão, segurança. Há que entender por trás do sorriso. Pode ser a sua única defesa para não se deixarem dilacerar pelo horror.

[Roubei a foto à Rita. A miúda não lhe deu o desenho - só o queria mostrar.]


05 julho 2018

brincamos

Da Newsletter do Spiegel, hoje:

Uma breve explicação: os "centros de trânsito" que a CDU/CSU quer criar só existirão - se vierem a existir - em três pontos da fronteira da Baviera; uma rápida consulta ao smartphone permite a qualquer migrante evitá-los. Quem for parar a um desses centros pode regressar à Áustria, apanhar um táxi e deixar-se conduzir até à fronteira não vigiada mais próxima.

Tempos curiosos estes, quando os projectos do governo parecem fake news.

Num primeiro impulso, penso: "se este expediente servir para acalmar os AfD..."
Mas depois vejo a gravidade da questão: no centro da Europa - a tal Europa dos valores humanistas e dos direitos humanos - dois partidos do governo alemão discutem a possibilidade de criar campos de internamento de estrangeiros. Mesmo que estes centros não venham a ser criados, mesmo que não sejam tão estanques como o nome indica, o facto de se ter posto a hipótese de campos de retenção de refugiados é já uma derrota, porque instala a ideia de isso poder ser aceitável.

A AfD rejubila: água mole em pedra dura...



04 julho 2018

"quantos refugiados é que a Europa conseguirá acolher sem entrar em colapso?"

 Fonte: US Library of Congress, George Grantham Bain Collection  
"Syria - Aleppo - Armenian woman kneeling beside dead child in field "within sight of help and safety at Aleppo"



Ontem escrevi um longo comentário em resposta a um troll que perguntava quantos refugiados a Europa pode receber sem entrar em colapso. Suspeito que ele tenha apagado o seu comentário (e o meu) por não ter gostado da resposta.

Nota mental: nunca responder aos comentários dos trolls no próprio comentário do facebook. Responder sempre abrindo um novo comentário. Assim, se o troll resolver apagar o seu discurso de ódio, os meus comentários não serão automaticamente apagados.

Aqui está o que respondi (desculpem-me as pessoas que acompanham este blogue há mais tempo, e já conhecem estes factos):


No princípio do séc. XX a cidade de Alepo era quase exclusivamente muçulmana. Quando começou o genocídio dos arménios, em 1915, milhares de pessoas foram enviadas em autênticas marchas da morte na direcção de Alepo. A cidade acolheu os sobreviventes, que chegavam andrajosos ou nus, doentes, traumatizados, e sem absolutamente nada de seu. Em poucos meses, mais de 10% da sua população passou a ser constituída por cristãos arménios. Em 1921, quando a França entregou a Cilícia (importante região dos arménios) à Turquia, Alepo acolheu nova vaga de cristãos. Estes chegaram a ser 25% da população daquela cidade tradicionalmente muçulmana.


O século XX foi um período muito duro para a economia de Alepo. A cidade, que já começara a perder poder económico após a construção do canal do Suez (que deslocou a Rota da Seda para o mar), no fim da I GM perdeu parte importante do seu território a norte, que foi entregue à Turquia, bem como a linha ferroviária de ligação a Mossul. Nos anos 40 perdeu também o porto de mar. 


Apesar de lhe terem sido retirados uma área importante, a ligação ferroviária e o porto de mar, provocando uma situação de profunda crise económica, os refugiados estrangeiros cristãos não foram convertidos em bode expiatório. Quando a guerra civil síria começou, exactamente cem anos depois do início do genocídio dos arménios, a população muçulmana coexistia em boa paz com os seus vizinhos cristãos, que perfaziam cerca de 20% da população da cidade.
 

Para aqueles que agora vão dizer "ah, mas os cristãos são diferentes, são tolerantes, não incomodam as outras religiões" informo que para a maioria dos cristãos sírios o casamento com um muçulmano é considerado pecado grave. Casar com um ateu não é problema, mas com um muçulmano é um erro indesculpável, que em muitos casos leva ao repúdio por parte da família. 

Voltando à questão inicial, sobre o risco de a Europa entrar em colapso por receber tantos refugiados de outras culturas e outras religiões: se uma cidade em situação de gravíssima crise económica foi capaz de acolher 10% de refugiados em poucos meses, e se foi capaz de coexistir com os descendentes destes durante um século, porque é que o continente mais rico do mundo, o continente mais bem apetrechado em termos de apoio aos pobres, não há-de ser capaz de fazer a mesma coisa?

23 maio 2018

se isto é a Europa (2)

(fonte)

Marcaram para hoje o funeral da pequenina de dois anos que morreu na semana passada numa cena de perseguição a um veículo cheio de refugiados. Chamava-se Mawda, era curda, e a sua família estava a tentar passar de um centro de refugiados perto de Dunquerque para a Grã-Bretanha.

Ao fim de vários dias, finalmente deram a palavra ao pai da menina, que conta assim a sua versão dos factos: a carrinha estava a ser perseguida por quatro carros de polícia, dois atrás e um de cada lado. A família da menina estava sentada no banco da frente. As pessoas que iam na parte de trás da carrinha partiram os vidros da porta para mostrar à polícia que havia crianças entre elas. A bala que matou a menina foi disparada de um carro à sua esquerda, e era destinada ao condutor.

A polícia confirma que a matrícula do veículo foi motivo de suspeita, e que o condutor não respeitou a ordem para parar. Seguiu-se uma perseguição com vários carros de polícia por mais de 60 km. No momento em que o agente disparou, os carros iam a 90 km/h.

Depois de ler o dossier do caso, o advogado dos pais afirma que a versão destes é largamente confirmada, que os refugiados não tinham armas, e que a arma do polícia - ao contrário do que fora noticiado - não tinha sido disparada em autodefesa num momento em que o veículo estaria a carregar sobre os agentes de uma operação stop.

É este o ponto da situação hoje.

Nas primeiras notícias sobre esta tragédia, há seis dias, antes da autópsia, punham-se as hipóteses de a criança já estar doente ou até morta quando entrou na carrinha, de ter sido vítima da condução brutal durante a fuga, ou atingida por uma arma dos refugiados. Um porta-voz da procuradoria chegou a afirmar que a bala fatal não fora disparada pela polícia. Uma voluntária de um centro de refugiados disse que "é prática corrente deles usar crianças como escudo, para dissuadir os polícias da perseguição". E louvou-se a polícia, que tem a difícil missão de interceptar os traficantes. Disse-se ainda que os ocupantes da carrinha tinham sido detidos e estavam a ser interrogados, podendo vir a ser acusados de entraves de má-fé à circulação, de homicídio e de tráfico de humanos. Ou seja: perante uma tragédia destas, o primeiro impulso das instituições, dos políticos e dos jornalistas foi defender a polícia e tratar as vítimas como se fossem os criminosos. 

Essa reacção impulsiva tem lugar apesar de esta perseguição mostrar o absoluto desprezo dos agentes pela vida humana: mesmo sabendo que há muitas pessoas dentro da carrinha, fazem-lhe uma perseguição à maneira dos filmes americanos e disparam sobre o condutor de um veículo que vai a 90 km/h.

Por sua vez, as primeiras notícias põem a nu uma imagem dos refugiados que não nos custa aceitar: mentirosos e manhosos que levam uma criança morta e tentam disfarçar, violentos armados capazes de tudo, bárbaros que usam os próprios filhos para se protegerem da polícia. Façamos um pequeno exercício de imaginação: se tivesse sido uma carrinha cheia de europeus brancos perseguida por um gang, como reagiríamos se alguma autoridade do Estado ou um jornalista pusesse a hipótese de a criança já estar morta quando as pessoas entraram na carrinha, ou de ter sido usada pelos pais como escudo humano, ou de ter sido morta por algum dos outros passageiros?  

É isto que mais me choca e envergonha nesta história, nestas histórias: pessoas que fogem para longe do seu país para viver em segurança (*) e dar uma vida em segurança aos filhos, e acabam por ser vítimas da polícia e da política numa União Europeia que se diz muito respeitadora dos Direitos Humanos mas nem repara nos preconceitos que fazem o enorme muro entre "nós" e "eles".  


(*) E não tenho problema nenhum em incluir aqui a segurança económica porque, como já disse várias vezes, também nós, portugueses, andamos há séculos a emigrar para ter uma vida melhor. Não há como aceitar que somos um país de diáspora e negar aos outros a mesma oportunidade. 


18 maio 2018

se isto é a Europa


Aconteceu aqui, no coração da União Europeia: vários carros da polícia perseguem um pequeno autocarro com trinta refugiados curdos, entre os quais há quatro crianças, e disparam contra ele. As notícias que li não são claras. Uns falam de tiroteio (que entendo como "troca de tiros", mas já vi usar muitas vezes para casos em que só um dos lados está armado), outros dizem que a polícia disparou durante a perseguição, outros dizem que os tiros só começaram depois de o veículo estar imobilizado. No veículo há uma menina de dois anos morta, ou moribunda. A criança não terá sido atingida pelas balas, e espera-se agora o resultado da autópsia para saber a causa da sua morte.

Disparar contra um veículo cheio de refugiados?! São estes os famosos valores humanitários europeus, valores identitários dos quais tanto nos orgulhamos e que tão bem nos distinguem dos outros?


11 março 2016

a propósito de um concerto para refugiados e voluntários









O concerto de 1.03.2016 na Filarmonia de Berlim para os refugiados e voluntários já está disponível gratuitamente no Digital Concert Hall. Recomendo em especial o segundo andamento da sétima de Beethoven. E reparem na vertigem final no quarto andamento - um dia destes, o Simon Rattle ainda vai fazer com que os seus músicos caiam das cadeiras.
Esta sinfonia estreou-se em 1813, num concerto de beneficência para inválidos das guerras contra Napoleão, celebrando a libertação e a paz. Foi também a sétima de Beethoven que Barenboim escolheu para o concerto que os Filarmónicos ofereceram a cidadãos de Berlim Leste três dias após a queda do muro.

Ver o director da Filarmonia de Berlim a dar as boas-vindas em árabe arrumou comigo, e ainda o concerto não tinha começado. Vê-lo a convidar todos para no fim do concerto brindarem juntos ao futuro foi o golpe de misericórdia.
E mais comovida ainda fiquei quando o Daniel Barenboim se dirigiu àquele público com várias frases em árabe. Promessa de tempos melhores: um judeu no coração de Berlim a falar em árabe com o público que deveria ser o da sua West-Eastern Divan Orchestra. Até agora não tem sido possível: os países árabes boicotam esta iniciativa de diálogo entre árabes e judeus.

Foi Goethe quem inspirou o nome daquela orquestra, fundada em Weimar, et pour cause. Que diria o escritor se estivesse presente nesta sala cheia de alemães e árabes, cristãos e muçulmanos, e um músico judeu a tocar Mozart?

Talvez isto:

Gottes ist der Orient!
Gottes ist der Okzident!
Nord- und südliches Gelände
Ruht im Frieden seiner Hände.


É de Deus o Oriente!
É de Deus o Ocidente!
Setentrião, meridião
estão na paz da Sua mão.

Numa entrevista, o director revelou que 1800 pessoas naquela sala eram refugiados, e 600 voluntários. Houve pedidos para mais de seis mil bilhetes gratuitos. Ele estava impressionado com a quantidade de voluntários que, só em Berlim, se dedicam quotidianamente a ajudar estes estrangeiros, e comentou sobre falar-se tanto num punhado de neonazis que por exemplo em Clausnitz atacam um autocarro de refugiados, esquecendo sempre de olhar para os vários milhares de pessoas que inclusivamente mudam a sua vida para ajudar desconhecidos.

Era a segunda vez que estas três orquestras excepcionais de Berlim se revezaram naquele palco para darem um só concerto. A primeira ocorreu em Setembro de 2001, num gesto de solidariedade para com as vítimas do 9/11.

Uma amiga minha, que teve a sorte de arranjar um bilhete, comentou depois que o público - com as senhoras alemãs de meia-idade e tantos homens jovens com ar muito atinado - lembrava uma excursão escolar. Ela teria gostado de perguntar àqueles jovens a sua história, mas não se atreveu.

O concerto foi algo de notável, mas os músicos destas orquestras não se ficam apenas por isso. Muitos deles vão fazer música nos centros de refugiados, e o programa de coros infantis da Filarmonia alargou-se às crianças recém-chegadas.

Nas entrevistas que estão disponíveis no mesmo site, no final do concerto, Daniel Barenboim fala no poder da música para as culturas se darem a conhecer, e lembra as várias comunidades religiosas sírias na Argentina, bem como os três milhões de muçulmanos desse país que estão perfeitamente integrados.
Iván Fischer, o maestro húngaro à frente da orquestra da Konzerthaus, que no concerto também se dirigiu ao público falando em árabe e sem cábula, afirmou-se contra a velha Europa que ninguém quer voltar a ter, "nações contra nações, religiões contra religiões, exploração de colónias", e louvou o que vê hoje em dia: "uma transformação maravilhosa: o nascimento de uma Europa tolerante, na qual as pessoas abrem as suas portas e os seus corações."
Simon Rattle fala na oportunidade extraordinária que a chegada destes "novos europeus", com toda a sua riqueza cultural e diversidade, representa para a Alemanha e a Europa.

Poucos dias depois deste concerto, um punhado de países europeus reuniu-se para fechar a rota das Balcãs, e a Europa combina com a Turquia extradições sumárias. Quantas mulheres e crianças, familiares destes homens que aplaudiram entusiasticamente na Filarmonia, se puseram a caminho em pleno inverno por temer que as fronteiras da Europa se fechem definitivamente? Quantas delas estarão agora apanhadas na armadilha dos muros de arame farpado?

A música não basta. O coração generoso de muitos milhares de pessoas que abrem as suas casas para acolher quem luta pela sobrevivência e pelo futuro também não basta. O que está a acontecer na Europa é a falência dos valores que acreditávamos serem os nossos e fazerem deste continente um lugar especial.


04 fevereiro 2016

subway stories: tales from the underground

(foto)


No metro berlinense, a minha filha costuma meter conversa, ou pelo menos trocar sorrisos, com os refugiados que encontra. Um olhar de empatia para a mãe que não consegue acalmar o bebé, a oferta de mudar de lugar para todos os membros da família ficarem no mesmo banco, coisas simples.

Alguns tentam comunicar em alemão, e pedem desculpa por não falarem bem. Ela põe-nos à vontade:
- Oh, não se preocupem! A minha mãe está cá há um quarto de século, e também continua a ter problemas com o idioma.
Eles ficam muito aliviados.

Há dias decidiu ajudar um homem que ia no metro a aprender alemão numa lista de vocábulos em árabe e alemão. Sentada ao seu lado, a Christina ensinava-lhe a pronúncia. Às tantas ele chegou à palavra مول, leu

 E I N K A U F S Z E N T R U M 

e suspirou, chocado e desanimado:
- Oh, nooooooo! Really?!!!!

Pobres refugiados. Como se não bastasse a guerra, a travessia do Mediterrâneo, a rota dos Balcãs, a insegurança e a falta de perspectivas, ainda têm de aprender alemão...



02 fevereiro 2016

a cultura como refúgio




Ao ver as imagens aéreas da destruição de Homs, que têm sido divulgadas esta semana, lembrei-me de cenas semelhantes que vi numa reportagem sobre sírios que estão a regressar ao país para reconstruir as suas cidades. Vivem e trabalham em ruas como estas.
Em termos de imagens de ruínas, contudo, nada ultrapassa o efeito chocante das que passaram há meia dúzia de meses, num programa da televisão sobre os refugiados que chegaram à Alemanha: mostravam o antes e o depois. O antes: ruas bonitas e cheias de vida tranquila, com árvores e jardins bem cuidados.

(foto)

Foi nesse programa que conheci o coro Zuflucht, "refúgio", um projecto de integração que junta cantores líricos alemães e refugiados. O coro interpretou o Hino da Alegria, fundindo de forma muito bela a música de Beethoven com a tradição musical síria. Infelizmente apagaram o vídeo do youtube. Mas deixo aqui um outro (que já publiquei neste blogue), onde cantam "paraíso". O paraíso de onde vieram, esse "antes" que já não existe.



"Chamo-me Ahmed Osman, e sou de Homs, na Síria.
Estive meio ano na prisão, três anos em fuga, e estou agora na Alemanha com a minha mulher e os nossos três filhos.
Obrigado, alemães, por nos abraçarem e acolherem.
Temos uma mensagem para todo o mundo:
Basta de sangue! Acabem com as guerras!
[faz uma pausa antes de continuar, visivelmente emocionado]
"Janna" significa paraíso. A nossa canção sobre o paraíso fala das cidades belíssimas da Síria, de onde viemos, e agora estão reduzidas a ruínas.
Peço-vos, alemães: preservem a vossa Paz!"

Pesquisei mais trabalhos deste coro, e encontrei uma adaptação da ópera Zaide, de Mozart, à situação dos refugiados. "Zaide - uma fuga". Com música de Mozart, testemunhos de refugiados, um mapa do corredor para a Europa.


Neste filme, o presidente da Câmara conta como o seu cepticismo inicial deu lugar à confiança no projecto. Os espectadores dizem-se profundamente tocados pelos testemunhos, e louvam o trabalho dos refugiados. Uma jovem diz que já se habituou às imagens de refugiados que todos os dias aparecem na televisão, mas que esta encenação lhe lembra Brecht, porque a obriga a parar para pensar.
Eu comovo-me com tudo, particularmente com a alegria e a comoção deles no final, e ainda mais com este sinal do poder da cultura como refúgio de náufragos, palco de testemunhos e ferramenta de integração.


01 fevereiro 2016

a grandeza de um país

(foto)

O texto que escrevi, traçando um retrato da situação com os refugiados na Alemanha, e que foi ontem publicado no Observador, está a tornar-se um caso curioso de agradar a gregos e troianos. Escrevi-o como reacção a quem acusava certos países de estarem em "deriva nazi", porque me pareceu que não estavam na posse de todas as informações. Dou-me agora conta de que muitas pessoas treslêem o que relatei, para poderem confirmar aquilo que já defendiam antes: que a Europa tem de se proteger desta invasão que só traz problemas - ou, como alguém comentava no Observador: da "praga islâmica".

Recapitulando o que se está a passar na Alemanha: acolher um milhão de pessoas num só ano não está a ser fácil. O aparelho de Estado não estava preparado, e não se pôde reajustar ao ritmo exigido pelos acontecimentos. Cada uma destas pessoas que chegam à Alemanha precisa, para além da satisfação urgente das necessidades básicas, de quem as acompanhe, as ouça, lhes explique com paciência e empatia a diferença entre a sua cultura e a cultura alemã, e precisa também de ocupação e perspectivas de futuro. Há movimentos de extrema-direita que se manifestam, por palavras e por actos violentos, contra a vinda dos refugiados. O discurso no espaço público está a degradar-se: num país que se orgulhava da sua cultura de debate, multiplicam-se opiniões emitidas não a partir do cérebro, mas das tripas. Para evitar a propagação de lixo no espaço público, alguns media online fecham as caixas de comentários nas notícias relativas aos refugiados, e o governo alemão fez diligências junto do facebook para que persiga o discurso de ódio com o mesmo empenho com que persegue a nudez feminina.

Para os preocupados com "a praga islâmica": sim, os ataques de Colónia aconteceram mesmo (embora os números tenham sido empolados, segundo revela agora a polícia). Sim, há alguns delinquentes entre esta imensa massa de refugiados. Sim, muitos deles vêm de um contexto cultural muito diferente do nosso. Sim, a maior parte deles são muçulmanos. Sim, dois terços deste milhão são homens.

Para os preocupados com a "deriva nazi" e a "sombra do Holocausto": sim, há refugiados identificados com pulseira, para se ter a certeza de que é esse recém-chegado, e não outra pessoa qualquer, que recebe o auxílio humanitário mais básico enquanto espera para ser convenientemente registado. Sim, houve piscinas que vedaram temporariamente o acesso a todos os refugiados de sexo masculino. Sim, houve uma discoteca que aventou impedir a entrada a pessoas de certos grupos. Sim, há dois Estados a pensar em obrigar os refugiados a participar no pagamento das suas próprias despesas, tal como já se exige a cada alemão. Sim, houve uma responsável do partido "Alternativa para a Alemanha" que disse que a polícia devia atirar sobre os refugiados que tentam entrar no país, e que a seguir corrigiu "não se pode atirar sobre as crianças, mas pode-se atirar sobre as mulheres".

Perante estes problemas tão variados e complexos, o que faz a Alemanha? Acolhe, e corrige os erros. Não se deixa confundir pelo acessório, e continua focada no essencial - que é ajudar quem chega, debater abertamente as questões, procurar um rumo que seja fiel aos seus princípios fundamentais, sempre consciente da responsabilidade que advém da memória histórica.

A crise dos refugiados está a revelar a maturidade e a grandeza deste país. Apesar das lutas dentro da coligação governamental, que enfraquecem a posição da chanceler, e dos movimentos de extrema-direita que aproveitam a crise dos refugiados para conquistar mais espaço, a Alemanha não vacila nas questões fundamentais. Os refugiados continuam a chegar, e a ser ajudados. Na sequência dos ataques de Colónia, o Governo não deixou margem para dúvidas de que esses delinquentes só serão repatriados se houver a certeza de que no país deles não os espera a morte ou a tortura, e uma parte importante da sociedade alemã deu sinais claros de saber distinguir muito bem entre refugiados e actos de violência sexual. Multiplicam-se os debates na televisão e nos jornais. Ainda ontem, na Anne Will, que é o talkshow mais importante do país, se falou do medo e da desconfiança provocados por incidentes como os que aconteceram em algumas discotecas e piscinas. Alertou-se para a tentação de generalizar, e para o erro inadmissível dos castigos colectivos. Foram sessenta minutos de bálsamo para os espíritos atormentados, no qual se deu visibilidade aos refugiados que procuram a Alemanha porque querem ter o orgulho de fazer parte de uma sociedade que admiram, se falou do combate impreterível a comportamentos abusivos e à criminalidade. Houve palavras de compreensão para erros cometidos pela parte alemã, sinal de um certo atarantamento devido ao ritmo e à dimensão dos problemas, e palavras de compreensão para a situação difícil de alguns homens jovens, que passam meses à espera, sem família e sem qualquer perspectiva ou ocupação. Foi referido o generoso contributo da população, sem o qual o país não conseguiria fazer tanto, e concluiu-se que a integração é possível, desde que haja vontade e as regras sejam claras para todos.

Não está a ser fácil. Nunca ninguém disse que seria fácil. Quando abriu as fronteiras para acolher essa multidão que atravessava a Europa em condições catastróficas, lembrando o êxodo que aqui teve lugar no fim da segunda guerra mundial, Angela Merkel avisou que o esforço de acolher e integrar estas pessoas seria um desígnio nacional para as próximas décadas. As suas palavras encontraram terreno fértil no coração e no sentido de decência de um grande número de alemães. Apesar das dificuldades, apesar dos erros e dos mal-entendidos de parte a parte, apesar do cansaço, há muitos alemães que não desistem de ajudar o mais que podem, e mais alemães ainda que, em vez de se entrincheirarem por medo do desconhecido e repudiarem liminarmente essas pessoas, estão abertos para as ir conhecer, para falar e aprender com elas, para criar laços de amizade e solidariedade.

O nosso maior inimigo não é a "invasão muçulmana" - é o medo. É impossível parar este fluxo de seres humanos que fogem à guerra, à insegurança e à fome. Não tenhamos dúvidas: não há fronteiras estanques - e o muro de Berlim foi disso prova. Não vale a pena gastar energias a tentar parar o imparável. Mais vale olhar para o problema de frente, tendo consciência das nossas forças e responsabilidades.

O que vejo na Alemanha é a consciência de se estar a viver um momento histórico, e a vontade de, desta vez, estar do lado certo da História. O trabalho de décadas de consciencialização da responsabilidade herdada do passado está a dar frutos, que se revelam nesta atitude de não ceder ao medo do desconhecido e de outras culturas. O cristianismo e o humanismo secular que inspiram esta sociedade aparecem a trabalhar de mãos dadas para construir um quotidiano e um futuro baseados nos valores que lhes são comuns. Há muitos milhões de alemães - os que se preocupam com os refugiados e se aproximam deles, os que arregaçam as mangas e trabalham - que têm uma enorme confiança na capacidade da Alemanha para acolher e integrar estas pessoas, que acreditam que a integração vai resultar e que os valores de que se orgulham sairão reforçados. E sabem que, se optarem por jogar à defesa e fugir às dificuldades, o primeiro perdedor vai ser a Alemanha.

Este é um daqueles momentos difíceis e raros em que está na mão de cada um de nós contribuir para que se caminhe numa direcção de que os nossos netos se possam orgulhar. É também um momento revelador do muito que está a mudar para melhor na nossa sociedade. Tempos novos, estes, que se mostram das formas mais inesperadas. Como aconteceu há algumas semanas no Parlamento, quando um deputado do partido Die Linke defendeu a chanceler, que estava a ser muito pressionada pela sua coligação para pôr fim à vinda de refugiados, e o fez com estas palavras:

"Pois tive fome, e me destes de comer, tive sede, e me destes de beber; fui estrangeiro, e vós me acolhestes."


30 janeiro 2016

será que alguém em Portugal faz ideia do pandemónio que por aqui vai com os refugiados?


Tenho andado a conversar com algumas pessoas no facebook sobre a retórica usada para criticar as medidas de alguns governos para tentarem reduzir o fluxo de refugiados para o seu país, e começa a ser bastante evidente que as pessoas desconhecem partes importantes da realidade. Aqui deixo alguns apontamentos sobre mais alguns lados desta questão, a partir do que observo aqui em Berlim.

Todos os dias chegam à capital alemã centenas de refugiados. Os serviços estatais responsáveis pelos refugiados já estavam a trabalhar no seu limite antes de ter começado esta onda imparável de pessoas em terrível estado de necessidade. Centenas de pessoas diariamente, que é preciso registar, que é preciso controlar cuidadosamente (depois do 13 de Novembro em Paris foi imperativo aumentar as medidas de segurança; depois de Colónia acresceram as preocupações de identificar potenciais delinquentes misturados com o grupo), para as quais é preciso arranjar alojamento, comida, cuidados médicos (especiais e acrescidos para quem fez milhares de quilómetros em terríveis condições), e apoio psicológico (muitos estão profundamente traumatizados). É preciso arranjar tradutores de árabe.

Há um batalhão de voluntários a ajudar imenso. Alguns envolvem-se em disputas com os funcionários, há azedume e crítica de parte a parte. Os media dão uma e outra vez notícias de situações de grande desumanidade, por falta de organização dos serviços. As queixas nos tribunais multiplicam-se, e são sempre casos de muita urgência (geralmente pessoas que esperam semanas e meses para se registarem, porque só depois disso recebem ajuda do Estado), o que significa que se atrasam ainda mais os casos de alemães à espera de uma decisão sobre apoios da Segurança Social.

Esta semana um voluntário inventou a morte de um refugiado de 24 anos em Berlim. As redes sociais incendiaram-se em desabafos muito emocionais e em críticas duríssimas aos serviços ("quantos mais terão de morrer até eles começarem a fazer o que devem?", "mais valia acabar com o LaGeSo!"), até que se descobriu que era tudo mentira. Um ministro do governo regional berlinense criticou a chefe desse grupo de voluntários, e esta respondeu que se está nas tintas para a opinião do ministro.

Na semana passada os media russos divulgaram o caso de uma menina russa de 13 anos, vítima de rapto e violação colectiva por refugiados em Berlim. Um escândalo, acusações gravíssimas de a polícia estar a encobrir o caso para proteger a fama dos refugiados - e afinal tinha sido tudo invenção. Possivelmente haverá um grupo de extrema-direita por trás deste incidente, com o intuito de aumentar o medo e o sentimento de insegurança. E não é caso único. Multiplicam-se as queixas de violações cometidas pelos refugiados, as redes sociais agitam-se (acusando os media de serem mentirosos, porque ocultam estas notícias assustadoras) e no fim a polícia descobre que muitos desses casos são invenção. A polícia queixa-se: enquanto anda a investigar mentiras, perde tempo que era muito necessário para fazer o seu trabalho.

Os refugiados continuam a chegar, e são alojados em sítios inacreditáveis. Muitos deles escapam aos dormitórios colectivos e são acolhidos por famílias, o que deixa os apartamentos sobrelotados, os vizinhos e os senhorios inseguros e desconfiados. Quando pensámos alugar o apartamentozinho do Matthias a um casal de refugiados, ouvimos muita gente dizer: "cuidado, não se metam nisso, ao fim de uma semana têm lá dez pessoas!"

Fala-se em cancelar eventos importantes para dar lugar aos refugiados. Ou então leva-se mil refugiados de um armazém para outro ainda pior, para não ter de cancelar uma feira internacional.

Há bandos mafiosos árabes a ganhar muito com a situação, e a envolver refugiados numa rede da qual dificilmente se poderão libertar. Há casos de refugiados que vendem o cartão que recebem ao entrar em Berlim, para terem acesso a comida e aos transportes públicos, e vão pedir um novo. Para evitar este tipo de burla, dá-se uma pulseira às pessoas, como nos hotéis "all inclusive". O que cria um certo mal-estar. Pensa-se numa nova solução - cartões com um chip e a fotografia do portador. Entretanto os refugiados continuam a chegar às centenas, diariamente. Alguns imigrantes há muito instalados, e que ajudam a traduzir e a organizar, tentam usar esse poder de "interface" para instalar na sua área de influência uma certa ordem islâmica. O que tem como consequência, entre outros, haver refugiados cristãos que escondem a todo o custo a sua religião, com medo de sofrerem represálias dos outros. Isto passa-se no coração de Berlim.

Os media tentam dar uma perspectiva equilibrada da realidade, e evitar ao máximo - sem prejuízo dos seus deveres de informação - alimentar a xenofobia, mas são acusados de serem parciais e até de mentirem. Confesso que me incomoda que só mostrem imagens de crianças e famílias para ilustrar notícias sobre os refugiados, quando todos sabemos que a maior parte dos refugiados são homens jovens. Muitas pessoas sentem-se mais que incomodadas - sentem-se amordaçadas, obrigadas a engolir os seus medos para não ficarem mal na fotografia. Na intimidade das famílias e dos amigos multiplicam-se os desabafos e os boatos: os professores que se sentem incapazes de disciplinar adolescentes que se recusam a ficar sossegados a trabalhar como os outros, ou que não respeitam a professora por ela ser uma mulher; os casos de abuso sexual de que nenhum jornal quer falar; os refugiados que defecam nos jardins; os espertalhões que se portam como se tudo lhes fosse devido; etc.
Haverá com certeza entre um milhão de refugiados alguns que acham normal defecar num jardim, alguns adolescentes (traumatizados?) que se portam mal na sala de aula, alguns espertalhões que acham que podem tudo porque "foram convidados pela Frau Merkel". Mas no espaço reservado das casas e das mesas de café estes casos desenham o retrato robot do refugiado, e tudo o que os media possam fazer para o corrigir reforça a ideia de imprensa manipuladora e parcial.

Entretanto, as ruas da Berlim estão cada vez mais esburacadas, e em inúmeras escolas não há aulas de ginástica, porque os ginásios estão a servir de camaratas. Para dar apenas dois exemplos de problemas práticos. Isto, em Berlim - que nem é a cidade em situação mais difícil.

Noutras cidades já há grupos de cidadãos a fazer patrulhas nas ruas, porque sentem que a polícia é incapaz de responder a todas as necessidades. E há localidades onde de repente passou a haver mais refugiados que alemães.

O Estado de Direito está a rebentar pelas costuras, e os governos tentam responder adequadamente para que o país continue a funcionar em normalidade democrática. Entretanto a Áustria tenta ser apenas um corredor, a Alemanha sente-se aliviada por cada refugiado que resolve continuar caminho, a Dinamarca espera que eles sigam para a Suécia, a Suécia devolve-os à Dinamarca e insiste que é preciso respeitar Dublin.

O sentimento geral é de que estamos perante uma nova vaga de "invasões dos bárbaros" (em alemão diz-se Völkerwanderung, migração de povos - não tem o sentido pejorativo e ameaçador do português). Os alemães vêem o estado de necessidade das pessoas que aqui chegam e sentem que têm de ajudar, mas também estão apreensivos sobre o que isto possa significar de mudança nos hábitos e no nível de vida (nomeadamente as mulheres terem medo de andar na rua, ou uma redução drástica dos apoios sociais, nomeadamente os cuidados de saúde, devido a este enorme acréscimo de despesas). Apesar disso, continua a haver uma multidão de voluntários que sabem focar-se no essencial: ajudar estas pessoas, que precisam tanto. O país olha para elas com gratidão. Em 2015 contaram-se cerca de 800 ataques contra os refugiados. Ninguém contou os gestos de acolhimento, mas são milhões.

Amanhã, dia 31 de Janeiro, mais de 80 instituições culturais da cidade abrem as portas aos voluntários, oferecendo gratuitamente a entrada em museus e exposições, visitas guiadas, peças de teatro e concertos para os que ajudaram a acolher 70.000 refugiados em 2015. Berlin sagt Danke!
E na segunda-feira chegarão mais autocarros. E na terça, e na quarta, ...
Ninguém sabe quantos milhões entrarão na Alemanha em 2016.


29 janeiro 2016

"pulseiras brilhantes identificativas"


A notícia vem no Sapo, com o título: Refugiados obrigados a usar pulseiras brilhantes identificativas no norte de Inglaterra. A empresa que distribui os alimentos quer que os refugiados usem a pulseira, porque facilita o trabalho de identificar quem tem direito a receber as três refeições diárias. 

Onde é que já vimos algo semelhante?
Nos festivais, nos hotéis com regimes diferentes pensão completa/meia pensão, coisas assim. É muito prático, e ninguém se queixa.
Também vimos há uns anos uma coisa deste género. Em França. Era um cartão que os sem-abrigo deviam trazer consigo, com a sua história clínica, para serem mais facilmente ajudados. Também era uma ideia muito prática, mas teve tantos protestos (não ajudou especialmente ter um triângulo amarelo desenhado num dos lados) que foi rapidamente abolida.
Façamos então um coro de protestos para que esta "brilhante" ideia de identificar os refugiados com pulseiras seja também rapidamente abolida. Ser refugiado não é o mesmo que ter direito a entrar num festival ou a servir-se de todas as bebidas de um hotel. Não se pode dar tratamento igual ao que é diferente. Por muito prático que seja. E que se repita o aviso para todos os que trabalham na área de ajuda aos refugiados: é preciso ter muito cuidado, muita sensibilidade, e não esquecer nunca o permanente estado de necessidade em que vivem. A identificação, necessária para terem acesso a determinados apoios, tem de ser feita de outro modo. O Estado e as organizações que ajudam os refugiados não podem contribuir de modo algum para aumentar ainda mais a sua exposição, exclusão, e fragilidade. Os refugiados têm de ser ajudados e protegidos, e não servidos de bandeja à xenofobia que, infelizmente, existe em cada país.

(Mas confesso que não percebo a parte em que se queixam que os camionistas vêem as pulseiras e os insultam. Quem quer insultar refugiados, não precisa de uma pulseira para os identificar.)

(Já a outra parte da notícia, a "polémica à volta da cor vermelha com que se pintaram as portas das casas onde vivem requerentes de asilo em Middlesbrough", é um triste sinal de mau serviço de informação. Calhou de os refugiados terem sido alojados em casas devolutas da empresa Jomast, cujas portas são todas iguais e de cor vermelha - há vinte anos que são assim. Fazer disso um caso nacional e comparar imediatamente com as estrelas amarelas dos judeus é um triste sinal dos tempos de histeria que vivemos.)  


28 janeiro 2016

dando agora a palavra à Dinamarca

Recebi no facebook um texto onde se explica a posição da Dinamarca. Divulgo-o aqui, por me parecer bastante esclarecedor. Mas faço-o com uma ressalva, porque há nesta argumentação algo com que não posso concordar: um refugiado pobre é muitíssimo mais frágil que um dinamarquês pobre. O dinamarquês tem, apesar de tudo, uma história e uma rede social no seu país. Tem amarras. O refugiado não tem nada. Não basta dar-lhe casa, pão, educação e saúde. É preciso ter sensibilidade e empatia para perceber o estado de alienação absoluta em que se encontra.

(E uma segunda ressalva: o inglês parece aquele das cartas do advogado do nosso primo que morreu na Zâmbia e nos deixou uma herança de vários milhões, mas dá para entender o essencial.)

 «Well, because I read many unrelated to rush to accuse Denmark regulating voted to confiscate the money immigrants over EUR 1,200 to finance their stay in the country should be aware of all that:
-> Denmark has the same setting for all Danish citizens claiming / eligible for assistance from the state.
-> For example, when a Danish citizen wants to get unemployment benefits from the state (not by professional fund), the state wants to liquidate all assets that arthrizoun amount over 1200 euro.
-> So if you have deposits over 1200 euro, is not entitled to assistance from the state.
-> If you have a car, own house etc. NOT entitled to state aid.
-> The help goes only to whoever does not have anything over 1,200 euro as the purpose is to help really poor.
-> In this case, give them shelter (a small apartment), unemployment benefits, help for children, education for work etc.
-> The same applies to immigrants and refugees.
-> The setting passed essentially passes the conditions applicable for Danish citizens and refugees.
-> The money is not confiscated, they do not go to the Danish state, but EXCLUSIVELY used to finance the refugees who have neither the 1200 euros with them. One more thing:
-> The benefits gives refugees the Danish state include:
- Provision of housing (furnished apartment with heating, clothing and food)
- Providing comprehensive health care
- Living allowance equal to the basic unemployment benefit
- Child allowance
and many others which are the same as those offered by the State for all Danish citizens have no means to support themselves.
Please much then, before rush to play the stupid who believe that a country with a strong welfare state and widespread social sensitivities which for years receives immigrants from many Muslim and African countries, offering them equal opportunities and benefits as other citizens, suddenly went mad and became a massive neo-Nazi, show a little attention and learn better.»