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18 dezembro 2015

pura vida - um crocodilo perto de si

[Continuação da série "pura vida", começada em Maio, sobre uma viagem feita em Abril. Por este andar, talvez em 2017 escreva sobre as férias de 2013 na Bolívia e no Peru, e termine em 2019 a série "EUA 2009", para comemorar a passagem da década...]







O Matthias perguntou no hotel se podíamos tomar banho no rio que há no caminho das praias.
"Sim", foi a resposta, "tem alguns crocodilos, mas são boa gente. No máximo tiram-te uma perna ou um braço". O Matthias riu-se, eu achei que o humor tipo pura vida era muito engraçado, agarrámos nos fatos de banho e no piquenique e pusemo-nos a caminho. Eles entraram na água, eu tive preguiça de descer pelas pedras íngremes e de subir de novo. Brincaram debaixo da ponte, subiram o rio para além da curva na floresta. Depois regressaram com os pés feridos pelas rochas finas, e ficámos por ali a saborear a beleza da paisagem. Até que apareceu um casal para pescar à linha, e sentaram-se ao pé de nós. Contaram que pescam ali todos os dias e que precisam de iscos diferentes para cada tipo de peixe, e que desta vez traziam camarões frescos, apanhados no mar com uma folha de palmeira ("é muito fácil: mergulhas a folha no mar por uns vinte minutos, e depois tiras repentinamente - vem cheia de camarões"). Eu só me perguntava para que é que estavam a pescar se já tinham os camarões, mas entretanto lembrei-me do ceviche de pescado, e optei por ficar calada. Depois falaram do crocodilo que vivia ali, que tem um metro e oitenta, e que no dia anterior tinha passado a tarde toda no espaço verde a seguir às rochas. E que há mais alguns, serão cinco ao todo. Não costumam atacar os humanos porque encontram no mar todo o peixe de que precisam para matar a fome.
"Não costumam", disse ele. Gulp.







07 maio 2015

pura vida - pairando sobre o mundo



O que mais se vê na Costa Rica são cartazes onde se lê "canopy". Isso, e letreiros escritos por Deus, do género:

If you want to curse, please use your own name, 
God 

    ou 

we need to talk, 
God

(que pena não me ter lembrado de tirar fotografias, ia dar uma grande série para o facebook)

Recados de Deus, e anúncios de canopy: a felicidade de pairar sobre o mundo.
Às tantas é mais ou menos a mesma coisa.

Será mesmo felicidade? Nunca percebi porque é que as pessoas pagam para sofrer (a montanha russa, essas coisas) e pareceu-me que não precisava de pagar um dinheirão (ainda e sempre o trauma dos preços naquele país!) para ir morrer de medo sobre a selva costa-riquenha.
De modo que não fui. Eles foram, e regressaram felizes.


 

pura vida - o paraíso sempre alhures





Ao pequeno-almoço, no pavilhão aberto sobre o mar, o Matthias contou que na noite anterior tinha estado a falar com o chefe do hotel, e que ele lhe oferecera um emprego para as férias: alojamento + alimentação + 100 dólares por mês. O Matthias já se via a arranjar amigos que o levariam de graça a fazer snorkeling e a conhecer praias perfeitas, mas eu torci o nariz: o meu filho de luxo, que fala fluentemente quatro línguas, a ganhar 25 dólares por semana? E a ficar metido naquele fim-do-mundo em vez de ir passear pelo Brasil e pela Colômbia? Quase lhe contei a anedota do homem que estava no céu e quis ir ver como era o inferno, mas ele interrompeu-me, zangado, e dizendo que sou desmancha-prazeres.

Só lá para o fim das férias, depois de muitas imersões em pura vida, me dei conta do meu erro: porquê procurar mais longe, quando já se encontrou o paraíso?







06 maio 2015

pura vida - o bafo desta terra



Nestas férias lembro-me muito das descrições do García Márquez: a humidade, a pele viscosa do calor que nos entorpece a alma, a roupa da praia que deitamos a secar ao anoitecer e acorda impregnada pelo bafo desta terra.
Não é literatura, é a triste vida. A nossa roupa fede que tolhe.


pura vida - o barquinho



Na encosta sobre a baía de água turquesa, num hotel de cabinas com janelas de rede em vez de vidros, ouvindo os ruídos da floresta e o mar que nos embala o sono.
Podia ficar aqui o resto da minha vida, sem mais metafísica que o cérebro a cantar "o barquinho" em repeat.











pura vida - snorkeling na Isla Caño








6:30 da manhã: já de malas feitas, tomámos um pequeno-almoço delicioso na cozinha da dona Hermínia, levámos as nossas coisas ao hotel que o Matthias conseguiu arranjar na véspera, e partimos para a praia, onde zarpámos com rumo à Isla Caño. No mar da baía há golfinhos - e baleias, em certas épocas do ano, mas não agora. Os golfinhos apareceram, poucos e e de má vontade. A rir, comentámos que foi por não termos pago os 10 dólares extra para golfinhos. A verdade é que os preços na Costa Rica e a exigência de pagar cada extra nos estavam a traumatizar.

A Isla Caño é assim chamada - diz o nosso guia - porque tem muita água potável. Não sei se acredite. E se acreditar, não sei se ache bem. Uma ilha onde encontraram misteriosas pedras esféricas, algumas pesando várias toneladas, que para ali foram levadas em tempos pré-colombianos não se sabe como nem porquê, recebe agora um nome tão banal como esse? Que soberbo colonialismo, que tacanhice, pensei eu.

De momento não se pode passear na ilha, mas o snorkeling nas suas praias de água clara e transparente vale bem a pena. Para além dos peixinhos de estampados alegres e das raias, algumas das pessoas do grupo chegaram a ver tubarões. Eu cá, vi-me aflita: a ondulação enjoou-me de tal maneira que devolvi ao mar todo o pequeno-almoço - o arroz de feijão, os ovos mexidos, as bananas fritas, as frutas diversas. Talvez aquela história que os nossos pais nos contavam, e nos arruinava os dias na praia, seja verdade: convém fazer a digestão antes de entrar na água.

Voltei para terra, deitei-me à sombra de um coqueiro. Até que reparei nos cocos em cima de mim, me pus a imaginar o que seria um deles cair-me na cabeça, e resolvi ir fazer fotografias pela praia, em corridas repentinas entre a sombra e o mar para não queimar os pés nus na areia a arder. A minha vida em férias até parece os desenhos animados da minha infância...

No regresso almoçámos numa praia da península, junto a uma fazenda abandonada. Do lado de cá da sebe uma praia lindíssima, do lado de lá a ferida aberta a fogo, e a selva a tentar recuperar o que lhe foi roubado. Ao passear na Costa Rica reparei muito nessas cicatrizes na Natureza, que sentia como um atentado. Mas depois lembrei-me que a Europa é praticamente uma única cicatriz. Não posso atirar pedras ao telhado dos outros quando tenho um telhado de vidro do tamanho de um continente. E escuso de falar do colonialismo dos outros quando padeço do mesmo mal - este paternalismo bem-intencionado que é uma afronta à autodeterminação dos outros países.








(bem queria trazer para casa este bocadinho de coral que estava na praia, mas o tal "maldito inquilino" pôs-se a gritar-me ao ouvido "leave only footprints, take only pictures!" e...)




A praia onde almoçámos:








05 maio 2015

pura vida - baía Drake





Drake fica entre uma baía de água turquesa e a floresta tropical que se estende sem emenda sobre o parque Corcovado. Nas suas ruas de areia e pedras quase não há carros ou motorizadas, poucas pessoas se vêem, e na praia nem sequer há cais: o colectivo chegou o mais perto que lhe foi possível, descalçámo-nos, esperámos um intervalo adequado entre as ondas, e saímos do barco de calças arregaçadas e sacos erguidos à altura da cabeça.

Ninguém conhecia a casa onde íamos ficar. Sempre prestável, o piloto do barco telefonou para a sua empresa, mas nem aí conheciam a Casita Hermi. Fomos subindo a encosta, parámos numa loja com um letreiro que dizia "informações para os turistas", e a dona suspeitou que fosse a casa de uma vizinha, a dona Hermínia. Era. Veio buscar-nos no seu andar tranquilo, e levou-nos à Casita Hermi: a sua própria casa, onde arranjou uma sala para receber turistas, inventou uma espécie de duche e uma espécie de sanita, pôs cortinas à frente desses dois cubículos e ao longo das paredes nuas, e tratou de oferecer a ilusão na internet por uns 60 dólares por noite. O Matthias estava decepcionado, porque ao reservar lhe parecera que a casa tinha vista para a baía. Combinámos com a dona Hermínia o pequeno-almoço do dia seguinte para as seis e meia da manhã ("com bananas fritas", pedimos), numa agência marcámos a saída de barco para a Isla Caño às sete, e saímos para a praia quando já anoitecia.

Antes de jantar metemo-nos no mar de ondas doces, sob o céu cheio de estrelas ("de pernas para o ar", notaram os filhos), olhando a lua que se levantava muito luminosa e cheia sobre a confusão da selva.

Fomos em fato de banho à procura de um restaurante onde aceitassem o cartão de crédito, porque ali não havia caixas automáticas, e tínhamos de pagar em dinheiro a Casita Hermi e o colectivo de volta a Sierpe. Encontrámos um, o único que aceitava cartões de crédito, e passou a ser o nosso restaurante favorito em Drake - tinha um ceviche maravilhoso. O arroz também não era mau, mas quem começa o dia com gallo pinto (arroz de feijão) não precisa de o terminar mais ou menos da mesma maneira.

Depois do jantar eles ficaram a jogar às cartas, o Matthias ainda foi procurar o hotel que sonhara para nós, e eu fui para o que tínhamos. Adormeci no meio de ruídos estridentes de animais desconhecidos. De um sono só, como se fosse essa a minha casa.


  


03 maio 2015

pura vida - o caminho para o paraíso é o paraíso



As funcionárias do hotel em Uvita foram amorosas: telefonaram para Sierpe para nos poderem informar sobre a passagem para a baía Drake. Disseram-lhes que era preciso apanhar um colectivo em Sierpe, e que o carro podia ir no ferry, e que custava 24 dólares, e que o último ferry partia às quatro da tarde. Partimos para esse trecho de cinquenta quilómetros muito seguros e cheios de certezas: Drake ali tão perto.

Sierpe é uma localidade tonta de sono no fim da estrada que dá acesso à península de Osa. Alguns quilómetros a sul começa o parque natural Corcovado, o maior e mais famoso da Costa Rica. O rio Sierpe desenha a aldeia numa península, e nós desenhámos nela elipses várias enquanto procurávamos o cais do ferry. Debalde. Não havia ferry, apenas um barco para uma dúzia de passageiros. Com quem é que as funcionárias do hotel teriam falado? E porque é que elas não faziam ideia de como se vai de Sierpe para Drake, apesar de viverem apenas a uma hora de distância dali?
Deixámos o carro com a maior parte da bagagem num parque vigiado, e partimos no colectivo. Para evitar os 10% de sobretaxa por usar cartão crédito, pagámos em dinheiro. Na Costa Rica há sempre surpresas dessas: o pequeno-almoço não incluído, a taxa aleatória por usar o cartão crédito, os impostos surpresa (para levar o carro de aluguer, ou os 20 dólares para poder sair do país, por exemplo) - haverá sempre algum motivo para pagar mais do que estava escrito.

A viagem de barco é pelo meio do Humedal Nacional Terraba Sierpe - um intrincado complexo de rios, riachos, canais e estuários, ora mais amplos ora mais estreitos, rodeados pelos magníficos mangues, árvores de raízes expostas. Os dois colectivos faziam o seu caminho a uma velocidade vertiginosa, parando apenas para deixar ou receber alguma encomenda de habitantes do manguezal, que estavam à espera no meio do rio em pacientes canoas. Abrandámos na travessia dos canais rodeados de mangues, chegámos a parar para ver um ou outro grupo de macacos, uma ou duas patas e um pouco da cabeça de algum bicho da preguiça. O rio ia alargando para a foz, e o dia escurecia à medida que o sol se punha por trás das montanhas costeiras. Mais à frente passámos por entre as rochas que marcavam a entrada no mar, o dia clareou de novo, seguimos ao longo daquela costa rica a caminho da baía de Drake.

Nos dias seguintes a baía viria a revelar-se um paraíso. Como já fora o próprio caminho para ela.







(parecia aquelas cenas de filme "por favor, siga aquele táxi")





"Ó mãe, e se te pusesses a olhar para as árvores em vez de as fotografar?"




(bem sei que o horizonte está inclinado, mas quero ver quem consegue 
manter o horizonte direito num barco aos saltos sobre a rebentação da foz de um rio)




(a baía de Drake ao anoitecer)