01 julho 2019
no comboio descendente
- Podem parar de falar? Nem com tampões nos ouvidos consigo escapar a esta barulheira! Estão aí a palrar o tempo todo, incomodam a carruagem inteira!
- Não é proibido falar no comboio!, responde uma delas.
- Esta carruagem é a do silêncio!, insistiu ele. Calem-se de uma vez por todas!
- Não se pode telefonar, mas pode-se falar!, teimava a outra.
O Joachim não ouviu nada, porque estava a trabalhar num artigo e a ouvir música com os phones. A rapariga ao lado dele estava tão incomodada como eu, e meteu-se na conversa:
- Atenção! A mim não me incomodam nada! Podem falar quanto quiserem.
Quem exige tanto dos outros não merece ser poupado, pensei eu. Levantei-me, fui ter com ele e pedi para me deixar passar para o meu lugar. Desfez o lótus, arrumou o saco dele, eu sentei-me à janela e ele sentou-se com os pés no chão, como todos os outros passageiros. E foi então que eu me dei conta de toda a obscenidade do que tinha acontecido uns minutos atrás: duas das quatro mulheres sentadas à mesa, ao nosso lado, tinham deficiência mental. O homem atrevera-se a ser desagradável com deficientes e as suas acompanhantes.
Disse ao Joachim para tirar os phones, e contei-lhe o que tinha acontecido. Em voz relativamente baixa e em português, falámos quanto nos apeteceu. Depois rimos, mostrámos fotos no telemóvel. Como se estivéssemos na nossa sala de estar.
Nunca me fiz tão gorda num transporte público como naquele comboio ontem. Nunca fui tão fria e antipática com uma pessoa sentada ao meu lado. E de cada vez que ele pegava na garrafa de água entre o assento dele e o meu e tocava inadvertidamente na minha perna eu franzia o sobrolho com o ar empoderado de #metoo e de "você está-me a incomodar!"
Quando ele saiu da carruagem por uns momentos, começámos todos a falar:
- Inacreditável!, disse eu.
- E a si é que ele não se atreveu a mandar calar!, respondeu uma das mulheres, e acrescentou: estive quase a chamar o guarda do comboio para o meter na ordem.
(Tem graça: nunca me ocorreu que fosse pessoa de impor respeito seja a quem for. E muito menos na Alemanha, onde me atribuí uma espécie de carta marcada por ser estrangeira. Talvez tenha chegado a altura de repensar quem sou neste país, em vez de me remeter por tique crónico a uma posição de low profile.)
E assim foi a viagem: um homem a passar quatro horas de incómodo, rodeado por pessoas que lhe tinham desprezo e não tinham a menor intenção de lhe oferecer sequer uma simpatia de anónimos.
Foi merecido. Mas depois destas coisas fico sempre a pensar que falhei, porque não fui capaz de encontrar a palavra certa que desarmadilhasse a situação e permitisse que todos se olhassem com respeito mútuo e de cabeça levantada.
05 dezembro 2017
a manipulação das redes sociais para minar as relações nas sociedades democráticas
Dois exemplos da manipulação a que estamos sujeitos:
I.
Jan Fleischhauer, redactor do Spiegel, bastante conservador, contou recentemente num debate na ARD (pode-se ver aqui, a partir do minuto 53) que entrou no Facebook com um nome falso, escreveu a meia dúzia de líderes da AfD com actividade nessa plataforma - o que permitiu ao algoritmo identificar as "suas" simpatias políticas -, e começou a ler as notícias que o Facebook lhe mostrava. Citando Fleischhauer: este é o serviço de informação favorito de um número crescente de alemães. O seu público pensa que é um serviço de informações igual para todos os utilizadores do Facebook. Nada mais errado! Na realidade, este serviço de notícias é desenhado segundo as inclinações e as antipatias de cada um. As notícias escolhidas para "Fleischhauer, simpatizante da AfD" mostraram-lhe "um mundo onde não entra a menor réstea de sol". Começou com um vídeo recebido pela manhã no qual se via um grupo de rapazes que falavam árabe a bater num homem que gritava "socorro! socorro!" em alemão. Continuou com a notícia de um quiosque na estação ferroviária de uma pequena localidade que deixou de vender salsichas grelhadas e já só tinha espetadas de carne halal. E assim por diante, o dia inteiro. Claro que isto tem consequências nas pessoas: começam a sentir que o seu país está sob ocupação dos muçulmanos. Esses consumidores de notícias via Facebook, que estão convencidos que essas notícias correspondem à realidade do país, ao dar pela ausência destas matérias na televisão e nos jornais sérios concluem que estão a ser enganados pelos media - estes estarão com certeza a esconder deliberadamente do povo a realidade do que se passa no país.
II.
Já não há a menor dúvida de que empresas de social media ligadas à Rússia puseram a correr nas redes sociais dos EUA diversos materiais com o objectivo de desestabilizar aquela sociedade, aumentar o fosso ideológico e instalar o caos nos debates públicos.
Nas palavras de Jackie Speier, democrata californiano com assento na Câmara dos Representantes:
“America, we have a problem. We basically have the brightest minds of our tech community here and Russia was able to weaponize your platforms to divide us, to dupe us and to discredit democracy.”
Em números:
- Twitter: identificou 37.000 contas automáticas com provável origem russa. Nos três meses que antecederam as eleições nos Estados Unidos, essas contas emitiram 1,4 milhões de tweets que terão chegado a 288 milhões de pessoas.
- Facebook: entre 2015 e 2017, fontes russas terão colocado os seus materiais, sob a forma de comentários e posts, na cronologia de 126 milhões de utilizadores do Facebook.
Mais concretamente: a empresa Facebook recebeu 100.000 dólares para anúncios emitidos por agências russas. Entre Junho de 2015 e Maio de 2017 foram identificadas 470 contas russas que puseram cerca de 3.000 anúncios. Muitos deles não mencionavam os políticos - o seu objectivo era aumentar a cisão relativa a temas como tensão entre etnias, imigração ou porte de armas. Os anúncios mais ligados à política terão sido na ordem dos 2.200, pelo preço de 50.000 dólares.
- Instagram: identificou, só em 2016, 120.000 casos de materiais com objectivos de manipulação provenientes de fontes russas, que terão alcançado 20 milhões de pessoas nos EUA.
- Google: tal como o Facebook, identificou actividade da Internet Research Agency, que tem sede em São Petersburgo e ligações ao Kremlin. A empresa Youtube, que pertence à Google, encontrou e bloqueou 18 canais que estavam provavelmente ligados à campanha russa. No conjunto, eram 1100 vídeos em inglês, que tiveram 309.000 clicks nos 18 meses que antecederam a eleição de Trump.
O site UsHadrons oferece a compilação mais completa destes materiais, organizados por tema.
Repasso algumas das imagens colocadas por agências russas nas redes sociais (que, juntamente com os números atrás referidos, encontrei nos seguintes artigos: Russia-Financed Ad Linked Clinton and Satan, These Are the Ads Russia Bought on Facebook in 2016, Plötzlich sind Google und Facebook ganz kleinlaut, Russische Drahtzieher sollen bei Facebook Anzeigen geschaltet haben).
Nestas imagens, o que mais me choca é reconhecer que teria sido capaz de partilhar muitas delas. Lembra-me uma discussão antiga na casa do meu marido, durante a sua adolescência: o pai dizia-lhe que as manifestações pacifistas nas quais ele participava com tanto empenho se inseriam numa estratégia de manipulação da União Soviética. O Joachim ria-se: "pois é, lá nas manifs até costumam distribuir espumante da Crimeia e caviar...". Anos mais tarde engoliu em seco perante a revelação, depois da queda do muro, de que muitos dos grupos activistas da RFA eram liderados por elementos da Stasi.
Eis o grande desafio: como continuar a defender as causas nas quais acreditamos, sabendo que esta nossa luta está a ser instrumentalizada por inimigos da nossa Democracia?
25 abril 2017
e livres habitamos a substância do tempo ?
O 25 de Abril foi há 43 anos, e ainda temos muito que trabalhar para chegar ao quarto verso do poema da Sophia:
esta é a madrugada que eu esperava
o dia inicial inteiro e limpo
onde emergimos da noite e do silêncio
e livres habitamos a substância do tempo
--
Se me concedessem dois desejos para inventar caminhos que nos levem ao quarto verso, seriam estes:
- Aceitar que não há soluções únicas, perfeitas e a contento de todos: viver em liberdade é viver em diálogo, negociação e respeito mútuo.
- Saber escutar os outros com atenção. Sim, que aquela frase atribuída a Voltaire, "seria capaz de me deixar matar para que tu possas dizer a tua opinião" está ultrapassada. Se é para morrer, que seja para libertar a liberdade de expressão do prostíbulo onde a obrigam a servir os monólogos autistas e surdos que enchem de ruído o nosso mundo. Dialogar é preciso.
(A propósito, conto um episódio que me aconteceu no facebook: escrevi um texto tomando determinada posição sobre um tema. Foram surgindo comentários com dados que eu desconhecia e outras perspectivas. À medida que conversava com os comentadores ia percebendo cada vez mais o erro da minha posição, e escrevi um ou outro comentário a dar nota de um reajustamento. Às tantas, um comentador zangou-se:
"- É impossível conversar consigo! Você começa por dizer uma coisa e acaba a dizer outra!"
"- Desculpe", respondi eu. "Chama-se a isto: pensar.")
(Fantástico resumo sobre a arte do diálogo no nosso tempo: não vale a pena conversar com quem repensa a sua posição em função daquilo que os interlocutores dizem.)
08 maio 2015
dia da libertação - 70 anos depois, em Berlim
Nem tudo terá sido libertação. Que o digam as mulheres violadas (as mulheres com sífilis, as mulheres grávidas de sabe-se lá que soldado inimigo num país que proibia a interrupção voluntária da gravidez, as mulheres que se suicidaram por estarem desonradas - e foi apenas há 70 anos, num país desenvolvido no centro da Europa), que o digam as vítimas de bombardeamentos deliberadamente selvagens sobre cidades cheias de refugiados, que o digam os museus assaltados e o património cultural que era da Humanidade e foi destruído com o objectivo de descoroçoar os alemães, que o digam as empresas saqueadas pelo plano Morgenthau e pela União Soviética, que o digam os dois lados da Alemanha rasgada, ocupados durante mais de quatro décadas por potências inimigas. Nem tudo terá sido libertação, mas a ideia de exércitos libertadores, em vez de vencedores, tem uma grandeza que remete para lá das tragédias concretas dos dias. Às vezes a História precisa de palavras enormes para avançar.
Outras vezes, contudo, há palavras enormes que atiram a História para lugares terríveis. III Reich, Guerra Santa. Como destrinçar umas e outras? Pelos valores que lhes estão subjacentes, e pelos frutos que dão.
A palavra "libertação" tem dado frutos bons. Como o que acontece este fim-de-semana em Berlim. Na Breitscheidplatz, junto à "Igreja da Memória" (para não zarparem já em maravilhosas metáforas esclareço que o nome completo é "Igreja da Memória do Imperador Guilherme") há uma Festa da Paz com debates, workshops e concertos. O programa diz tudo sobre os valores que animam esta festa: lembrar as vítimas, ousar caminhos para a paz, festejar a diversidade.
Do site da Festa da Paz (e em tradução rapidíssima):
Ambos foram testemunhas do seu tempo, Adolf Hitler e Mohandas Karmachand Gandhi. Ambos se referiam a Deus, agiam sob o símbolo da suástica, e eram considerados o exemplo personificado da amplitude das qualidades humanas. Um deles na destrutividade da sua megalomania, o outro na modéstia da sua sabedoria tranquila.
A análise destes dois actores da História devia ajudar os políticos de hoje a este entendimento essencial: só uma mudança de paradigma para uma cultura da não-violência pode permitir escapar à loucura da competição mundial dos megalómanos. Só aqueles que agem com empatia e altruísmo serão capazes de pôr em prática, a favor das gerações futuras, o espírito das Nações Unidas e do Direito Internacional. É preciso muita coragem para ultrapassar os mecanismos da pretensa "masculinidade" e para trazer a solidariedade, a cooperação, a honestidade e a sabedoria para o centro do nosso agir.
Setenta anos depois daquele terrível período, é disto que se fala em Berlim.
Hoje, sexta-feira, às cinco da tarde, haverá um concerto com Esther Bejarano & Microphone Mafia. Já falei aqui sobre a Esther Bejarano e a sua banda. Da entrevista à mulher que tocou na orquestra de Auschwitz, que traduzi nesse post, retiro a sua apresentação da banda:
"Na Microphone Mafia encontram-se três gerações e três religiões num palco. Entre outros temos um muçulmano, um católico – e eu e o meu filho, que somos judeus. Queremos ser um exemplo para todos os que pensam que as pessoas que têm raízes diferentes não podem viver em harmonia umas com as outras. Nós entendemo-nos lindamente."
O programa da festa está aqui (em alemão). A quem estiver em Berlim por estes dias aconselho vivamente uma passagem pela Breitscheidplatz.
03 dezembro 2014
coragem cívica
* Há tempos a escola do Matthias castigou duramente os finalistas desse ano porque durante os festejos habituais do final do ensino secundário resolveram pregar uma partida de muito mau gosto: espalhar fezes à porta da escola. A direcção da escola decidiu que nesse ano não haveria entrega festiva dos diplomas, castigando todo o ano - porque, se foi feito apenas por alguns, os outros viram fazer e não os impediram. Quando explicou isto aos pais, o director de turma do Matthias lembrou que ainda há setenta anos as pessoas viam e deixavam acontecer, e que isto não pode repetir-se nunca mais: a História alemã espreita permanentemente as consciências.
* Um grupo de bêbedos entrou no metro e desatou a fazer estardalhaço. Quando um deles começou a urinar dentro da carruagem, um cunhado meu resolveu intervir - e levou uma tareia.
* O Matthias estava a passear o Fox no Ku'damm quando reparou que uns homens sentados na esplanada do restaurante grego começaram a fazer comentários em voz demasiado alta sobre o aspecto físico de duas miúdas que iam a passar. Ao passar por eles disse "das war jetzt unnötig" (em português, algo como "não havia necessidade"). O empregado de mesa, que também tinha participado no regabofe, desculpou-se dizendo que eles estavam bêbedos e não faziam por mal. "Talvez fosse boa ideia não beberem tanto", disse o Matthias, e continuou o passeio.
* A Christina estava numa manifestação contra a extrema-direita quando um neonazi veio meter-se no meio do grupo dela. Os antifas desataram a bater no neonazi, e a Christina começou a puxá-los para trás e a gritar: "se lhes batemos não somos melhores que eles!"
* Um amigo meu, num retiro espiritual, assistiu a uma cena muito embaraçosa durante o almoço, quando alguém começou a falar de Brahms e, perante a ignorância do seu interlocutor, exclamou em voz muito alta, muito chocado:
- O quê?! Você não sabe quem foi Brahms?! Como é possível?!
Fez-se silêncio em toda a mesa. A agressão contida na pergunta deixara todos estupefactos e inibidos. Até que alguém disse:
- Eu também não sei, mas vejo que o senhor é um especialista. Por favor, conte-nos mais sobre ele, parece muito interessante.
* Ia eu descansadamente pela rua a meio do dia, quando vi que no passeio em frente três rapazes batiam numa mulher. Sem pensar, larguei um "hei!" e atravessei a rua. A poucos metros deles enchi-me de medo, entrei numa loja pedindo que chamassem a polícia, e depois continuei a andar - enfim, devagarinho... - na sua direcção. Como não sabia nenhuma frase assertiva para lhes dizer, perguntei o que é que se passava ali. Um deles veio falar comigo, e começou a explicar. Em síntese: a senhora trabalhava na loja em frente à qual eles estavam a conversar, e saiu da loja para os mandar para outro lado. Eles chatearam-se, começou uma discussão, e às tantas um deles deu-lhe uma bofetada. Concedi que ela não tinha agido bem, mas nesse preciso momento um dos outros cuspiu na cara dela, e eu acrescentei: "mas isto também não se faz!" Ele concordou, foi ter com os outros e desapareceram os três.
Quando contei esta história mais tarde, todos me diziam que eu era maluca, que devia ter chamado a polícia e ter ficado longe. Sim, arrisquei-me a apanhar umas bofetadas - mas a verdade é que mantive uma certa distância de segurança: foi um dos rapazes que veio conversar comigo, não fui eu que me meti entre eles e a mulher.
A propósito da trágica morte da Tuğçe Albayrak tem-se falado muito em coragem cívica, como se isso fosse coisa que não existe. Contei aquelas histórias para mostrar que na Alemanha este já era um tema importante antes de ter acontecido a tragédia de Offenbach, e que o quotidiano está cheio de exemplos de pessoas que se arriscam, em maior ou menor grau, para prestar auxílio a outros. Falei de casos que me são próximos porque não conheço os outros - estas histórias não costumam vir nos jornais. Mas podia contar diversas histórias ocorridas com amigos nossos ou dos nossos filhos.
Acredito que todos, ou quase todos, temos um forte sentido de justiça e queremos ser cidadãos responsáveis e participativos. É certo que muitas vezes podemos ser tolhidos pelo medo da violência bruta (e não vou atirar pedras a ninguém, que bem conheço o estado dos meus telhados), ou travados pela preguiçosa esperança de que outra pessoa se ocupe do caso. Também sabemos que há por aí uma violência muitas vezes letal, e que ninguém pode ser obrigado a arriscar a sua própria vida para ajudar outros.
Hoje, dia em que esta vítima de uma violência tão descontrolada quanto gratuita vai ser enterrada, gostava de olhar para o debate sobre a coragem cívica a partir de outra perspectiva: como ajudar sem nos tornarmos nós próprios uma vítima?
Temos de aprender maneiras de gerir estas erupções de violência sem aumentar o risco da situação. As nossas acções têm de ser gestos de Paz. É essencial sabermos encontrar a palavra justa e pacífica que acalme os ânimos, em vez de humilhar, excitar e/ou irritar ainda mais o agressor.
A Tuğçe Albayrak morreu vítima de um brutamontes de cabeça perdida.
É fundamental ensinar a outras Tuğçes como agir nestas situações. Para que, a par dessa enorme e muito louvável generosidade, tenham estratégias que permitam travar a espiral de violência, em vez de a acelerar.
A frase do Matthias é um bom exemplo - passa pelos grunhos e, sem chegar a parar, deixa um pequeno comentário que os obriga a pensar. No caso da minha intervenção naquela rua de Weimar, o que ajudou a resolver o conflito foi eu não me sentir suficientemente segura em alemão para os insultar como queria (é um trauma antigo: eu a ralhar aos meus filhos, e eles a corrigirem-me a gramática...) - de modo que fiz perguntas simples, que permitiram que os rapazes sentissem que podiam ser ouvidos. Num livro sobre diálogo não-violento encontrei um exemplo completamente inesperado: um homem vai violar uma mulher que está a fazer o turno da noite numa loja, e ela diz "você está mesmo zangado!" Ele fica estupefacto com a empatia, e ela continua sempre no mesmo registo "deve ser tramado sentir-se assim" (nem pergunta porquê, nem dá conselhos - limita-se a mostrar empatia). Acabam a conversar, e ele vai-se embora mais pacificado. No Evangelho também há exemplos interessantes. Refiro apenas um: quando a turba que quer apedrejar a mulher adúltera espera uma resposta de Jesus, este curva-se sobre si próprio e começa a escrever na areia.
Também há uma história deliciosa com o Ricardo Araújo Pereira: ao passar por dois homens furiosos, que se insultavam mutuamente "seu palhaço!" / "palhaço é você!", já prestes a passar a vias de facto, disse-lhes: "alto lá! o palhaço sou eu!"
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Enquanto escrevo isto, penso nos casos de jovens violadas durante as queimas das fitas, e imagino que o que se passou na casa de banho daquele McDonald's seria uma situação algo semelhante: todos (eles e elas) embriagados, alguns rapazes lembram-se de...
15 agosto 2011
13.08.1961 - 13.08.2011 (14)
são mortos antes de nascer
- ao abrigo da lei -
não se fala aqui!
e do outro lado:
Incomodava muito, pois está claro que incomodava muito. A maior parte dos assistentes fez de conta que não via, ignorava o homem ostensivamente. Alguns tentaram falar com ele:
Uma pessoa gritou: "O senhor está a incomodar todos. Não é o lugar nem a hora para tematizar esse assunto. Leve o seu cartaz para outra rua."
Em vão. Ele retorquiu que neste país há liberdade de expressão, e continuou a avançar em direcção ao palco, onde começou a fazer uma pequena palestra justamente à hora de começar a conversa com testemunhas da construção do muro.
Muitos desviaram o olhar. Alguns começaram a vaiá-lo. E eu com eles, claro - Buuuuh! Buuuuuh! -, no que fui secundada pelas pessoas à minha volta.
Sentia-me invadida. Sentia-me profundamente agredida pelo sarcasmo daquelas aspas: "pobres vítimas do muro". Não queria ouvir o que aquele homem fazia questão de me dizer. E por isso gritava bem alto:
- Buuuh! Buuuuh!
Ele acabou por se ir embora. Uma rapariga, com a cara desfigurada de raiva e escárnio, ainda lhe atirou pelas costas: "Já cá faltava a hipocrisia da nossa sociedade!"
Eu fiquei, um pouco envergonhada: não teria sido mais civilizado ignorá-lo ostensivamente enquanto falava? Talvez olhar para trás, conversar com a pessoa ao lado? Com o meu Buuuh!, que se ateou aos alemães que estavam perto de mim, contribuí para o avanço e amadurecimento da Democracia, ou para um pequeno retrocesso?
Que isto de civil courage e tal é muito bonito, mas o verdadeiro desafio é corrigir situações que consideramos incorrectas sem humilhar ou interpelar agressivamente o antagonista.
16 março 2010
PÁSCOA, UMA ESPERANÇA ESTIMULANTE
Tal como a Primavera nos confirma a revitalização cíclica da natureza, a celebração anual da Páscoa reafirma a confiança na emergência da vida mais forte do que a morte.
Os recentes desastres naturais e a persistência de uma terrível crise económica, deixando milhares de famílias destroçadas pela praga do desemprego e da pobreza, lembram-nos, de forma dramática, que a paixão de Cristo assume um negro realismo nas imagens da morte e do sofrimento, regularmente actualizadas. Celebramos a Páscoa numa altura em que nos confrontamos com acontecimentos de tristeza e de desolação, sejam os que decorrem dos gritos de dor, no Haiti como na Madeira, no Chile como no Afeganistão e Turquia, sejam aqueles que corporizam os vergonhosos casos de pedofilia em instituições católicas ou que mostram o desespero dos que foram mais vitimados pela crise financeira.
Nuns casos, a destruição saiu à rua pela força dos elementos da natureza, lembrando ao homem a sua condição frágil, magnificamente retratada por Camões nestes versos de Os Lusíadas: Onde pode acolher-se um fraco humano / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme e se indigne o céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno? Noutros casos, as forças da morte foram provocadas pela crise do sistema neo-liberal, assente numa lógica que está a sobrepor-se à própria razão do homem. O aumento das assimetrias sociais, tornando os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, é a denúncia clara de um «progresso» que não põe a pessoa humana no centro. O messianismo secularizado, depois de ter visto as consequências desastrosas do mito da crença no progresso indefinidamente crescente, pretende agora afirmar-se através do mito do imperativo absoluto da revolução técnico-científica, ao serviço de um Estado omnipresente e das elites que o compõem e o perenizam. Este modelo de progresso, cujos benefícios de revelaram efémeros e enganadores, está agora a ser travestido na exaltação de uma tecnologia que robotiza e serializa, mostrando como a frieza da técnica está a impedir a eclosão de um mundo mais humanizado.
Felizmente que, ao lado das funestas notícias diariamente propaladas pela comunicação social, também há muitas alegrias celestes nesta terra, ainda que não detectáveis pela voracidade dos media. Um olhar atento poderá testemunhar realidades bem luminosas a acontecer diariamente. A corrente de solidariedade na sequência dos desastres ocorridos no Haiti e na Madeira revelam bem que no coração humano não está atrofiada a bondade. Muitas mais provas disso se verificam no anonimato quotidiano. O estilo de vida simples, o espírito de partilha, a capacidade de renunciar ao ter em nome da felicidade do outro e uma relação inteligentemente respeitosa com a natureza são exemplos de gestos que fazem diminuir o sofrimento e que incrementam relações humanas mais harmoniosas. Manda, por isso, o realismo que não podemos minimizar a gravidade do momento presente, acreditando ingenuamente que um mundo novo possa nascer da desordem actual. Mas também não devemos abandonar a esperança numa sociedade melhor, com a desculpa de que todas as utopias falharam. As previsões catastróficas em relação ao futuro, em vez de suscitarem alertas preventivos, vão-nos preparando psicologicamente para aceitar a inevitabilidade da desgraça. Pelo contrário, a capacidade de encarar o porvir com esperança pode transformar a presente crise numa bênção mobilizadora de energias. Todavia, as dificuldades tornam-se intransponíveis se deixarmos morrer a confiança, já que, como intuiu Picasso, a nossa maior perda não é a morte, mas aquilo que morre em nós enquanto vivemos.
Os cristãos acreditam que continua a avançar na história o sonho de Deus sobre a humanidade e sobre o cosmos. Esse sonho pareceu brutalmente interrompido na cruz, mas foi aí que se manifestou verdadeiramente a força da vida para lá da morte. Não há nada de contraditório, quando os cristãos, em nome desta esperança estimulante, se comprometem na transformação concreta da sociedade, sem caírem no logro das consolações fáceis.
15 janeiro 2009
já todos sabemos como é que um cardeal não pode falar...
Mostrem o que valem e escrevam um post que comece assim:
"Uma miúda da minha família disse-me que está a pensar casar com um muçulmano (ou um árabe, ou um turco dos confins da Anatólia, ou um cristão de uma zona rural libanesa, ou um...) , e eu dei-lhe a seguinte resposta: "
A ver se os blogues servem para um debate realmente construtivo.
09 julho 2007
transportes públicos e outras emoções
Enquanto faço horas para ir conhecer a portuguesa mais luminosa daquela capital, entro no comboio que dá a volta à cidade e vou olhando pela janela. Os telemóveis tocam, as pessoas atendem. Em turco, espanhol, italiano. Que diferença em relação a Weimar (onde, como dizia um miúdo francês, "são todos loiros")!
No metro, à hora de ponta, entra um homem de negócios pendurado no telemóvel. Fala muito alto, tem de tomar decisões urgentes. Pergunta "Consigo tenho esta segurança durante três dias?", e outro passageiro responde "Comigo, não..."
Despede-se: Tschüß!. Os outros passageiros também: Tschüüß! Tschüüüß! Tschüüüüß! Tschüß!
Gargalhada geral.
Acho que vou gostar desta cidade.
Apanho o comboio para Wannsee.
A carruagem está quase vazia. Sento-me a uma janela, espero.
Uma mulher cheia de energia entra, atira-se para um dos bancos, parece um terramoto. Olho para ela: sapatos de salto alto muito elegantes, bermudas e trench-coat, tudo ton sur ton. Penso na minha filha: vai adorar esta cidade.
O comboio começa a andar, o telemóvel da chiquérrima toca. Deve ser uma chamada de longa distância, porque se fosse de Berlim, com aquele vozeirão bastava-lhe abrir a janela e falar - metade da cidade ouviria facilmente.
Daí a pouco entram dois rapazes, talvez turcos. Um ouve música no seu MP3, o outro encosta o aparelho ao ouvido. Vamos rodando ao som de uma música oriental (não sei como definir, o Edward Said que não me ouça).
A energética chiquérrima levanta-se e dirige-se ao rapaz em tom autoritário e agressivo:
- Ponha os auscultadores!
- Não tenho auscultadores, responde ele calmamente.
- Então desligue isso!, grita ela.
O rapaz baixa o som, a energética volta para o seu lugar e comenta com a senhora da frente que isto é impossível, que é um abuso obrigar toda a gente a ouvir aquela música horrível, que isto e que aquilo.
Observo a cena, incrédula. Uma alemã disfarçada de senhora a ter comportamento de terrorista, e um jovem, talvez turco, extremamente educado e muito mais pacífico do que eu seria se estivesse na situação dele.
Já não há respeito pelos meus preconceitos?!
Fico com uma vontade enorme de dizer à mulher que estava a achar a música agradável, muito mais agradável que os urros dela ao telemóvel, e que ela não tinha nada que estragar os prazeres dos outros. Quero dizer ao rapaz - que entretanto já desligou o gravador - o quanto aprecio a educação e o civismo dele. Mas não digo nada. Preparo-me para sair, sorrio ao rapaz (espero que ele tenha percebido que era um sorriso tipo "oh pá, paciência, ele há malucas" e não tipo velha gaiteira com tendências pedófilas, "olá, bonitão!").
Saio para a chuva a pensar qual será a melhor maneira de intervir em situações de conflito como esta.
Penso numa história que me contaram há anos: num convento que organiza retiros e encontros de reflexão teológica, durante um almoço alguém começou a falar com o vizinho da frente sobre música clássica. O da frente não conhecia Brahms, e o especialista admirou-se de tal maneira que todo o refeitório ouviu: "O quêêêê?! Você não conhece Brahms? Mas como é possível?!"
Um silêncio incomodado na sala, o visado muito vermelho, o musicólogo perplexo.
Da outra ponta da mesa, uma voz agradável: "Estou a ver que o senhor sabe imenso sobre Brahms. Pode contar-nos algumas coisas sobre ele?"
Quem me dera saber fazer assim.















