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11 novembro 2019

histórias do muro de Berlim no verão e no outono de 1989



(foto de autor desconhecido, fotografada numa das exposições comemorativas do 30º aniversário da queda do muro)


Este fim-de-semana o meu coro saiu de Berlim para preparar intensamente o concerto do Requiem de Mozart que vamos ter daqui a duas semanas. Estava fora de causa não participar nesta saída, mas aceitei contrariada. Logo na altura em que Berlim comemora os trinta anos da queda do muro!

Para não se perder tudo, sugeri que as pessoas se apresentassem dizendo não apenas o seu nome, mas também onde estavam no dia 9.11.1989. E depois regalei-me a ouvir as histórias deles: na fila para o jantar, no café, nos passeios, ao pequeno-almoço...

Tentando repetir de memória o que me contaram, começo pela cantora que na altura tinha cerca de cinquenta anos e vivia em Berlim Leste: um dos seus três filhos já estava na Alemanha ocidental, e a filha tentou também a sua sorte pela Hungria. Antes de partir, disse à mãe que não podia mexer nas poupanças que tinha no banco, para não levantar suspeitas, mas que mal desse sinal de estar em segurança a mãe devia ir buscar esse dinheiro e comprar aquele casaco muito caro com que sonhava há anos. E assim se fez. Passados uns tempos, a própria mãe começou a pensar ir juntar-se à filha. Mas sentia uma certa relutância, porque ainda tinha em Berlim Leste um filho e uma nora prestes a serem pais. Eles riram-se: "vai para o outro lado, até nos dá jeito ter uma avó que sabe bem aquilo de que precisamos, em vez de nos mandar farinha e outras palermices como fazem os outros parentes que lá temos". Ela pediu um visto para ir fazer férias na Hungria, combinou com a filha um ponto de encontro nesse país, e deu ao filho a televisão e outras coisas mais valiosas, porque sabia que o Estado ficaria com todo o recheio da casa. Na véspera de sair para as férias uma colega avisou-a em tom jovial que o chefe tinha comentado que ela ia à Hungria e não voltava. Soube ler nas entrelinhas - "eles estão de olho em ti!" - e meteu na mala apenas o indispensável para os dias de férias que estavam previstos na documentação. Conseguiu sair da Alemanha, encontrar-se com a filha que a viera buscar de carro, e pedir ajuda na Embaixada em Budapeste. Alguns dias mais tarde faziam parte de uma enorme coluna de autocarros que levava todas aquelas pessoas para a Áustria. Quando viram o helicóptero da imprensa por cima delas, a condutora acelerou quanto pôde para escapar ao grupo e às câmaras dos jornalistas. Como o seu carro era de marca ocidental e matrícula alemã, conseguiram passar sem serem filmadas nem entrevistadas. Não queriam nada disso.
Os primeiros tempos na Alemanha Ocidental foram muito duros. Ninguém lhe queria dar trabalho, e ela teve de aprender a jogar com regras novas. Quando finalmente arranjou um emprego - para o qual era claramente sobre qualificada - e um apartamento na casa de uma senhora de idade que queria ter por perto alguém de confiança com conhecimentos médicos, pensou que podia finalmente refazer a sua vida. Mas por pouco tempo. Os vizinhos começaram a comentar e criticar tudo o que ela fazia, e eram tão invasivos e verbalmente agressivos que ela rapidamente concluiu que tinha de sair dali o mais depressa possível.
Entretanto o muro caíra, mas ela não teve pressa de voltar a Berlim Leste. Sabia que os vizinhos e muitos dos seus conhecidos estavam ressentidos com ela por ter abandonado o barco de todos.
Entretanto, o seu apartamento em Berlim acabou por não ser esvaziado pelo Estado, mas pelo próprio filho. No verão de 1989 havia tantas dessas moradas abandonadas na RDA que o Estado não conseguia tratar de tudo. Ainda agora, trinta anos mais tarde, se calha de ela abrir um armário na casa do filho, depara com algumas das melhores louças que vieram da casa dela. "Mas nem pensar em pedir-lhes que mas devolvam!", rematou.

Umas semanas antes da sua fuga, outra colega do coro, na altura com 19 anos, decidiu acompanhar a mãe e o irmão na tentativa de passarem a fronteira da Hungria. Os pais eram divorciados, e a mãe proibiu-os de contarem ao pai. Na véspera da partida, este encontrou-se com os filhos para combinarem as férias que iam fazer uns dias mais tarde, e ela mentiu o melhor que pôde. Depois de se despedirem, passou a noite a chorar com vergonha daquela traição. Em Budapeste, pediram ajuda na Embaixada e foram enviados para um campo de acolhimento de pessoas em fuga, onde ficaram alguns dias. Uma manhã descobriram que em todos os carros da RDA havia um folheto no pára-brisas informando que ia haver junto à fronteira um piquenique para a paz. "Só pode ser uma armadilha da Stasi", pensaram eles, alarmados, e decidiram fugir quanto antes. Apenas com uma bússola e a roupa que tinham no corpo, atravessaram florestas e campos em busca da fronteira com a Áustria. Além de ser uma caminhada extenuante, temiam ser apanhados por polícias húngaros, feitos prisioneiros e repatriados. Finalmente conseguiram entrar na Áustria. A sensação de alívio deu rapidamente lugar à de indigência: "é horroroso estares num país estrangeiro e só teres de teu a roupa e os sapatos que levas". Telefonou ao pai, para contar onde estavam, mas ele já sabia: tinha-os visto na televisão.
Odiou a RFA. Um enorme choque cultural - e a sua sensação de estar no lado errado do mundo viria a reforçar-se quando foi passar umas semanas nos EUA, em Los Angeles. Sentia uma saudade enorme do pai e da vida que tinha sido a dela no Leste. Começou a meter os papéis para poder ir visitar o pai em Berlim Leste, mas recebia sempre resposta negativa. Até que - finalmente! - recebeu autorização para entrar na RDA, com data marcada para o dia 11 de Novembro.
No dia 9 de Novembro estava no seu apartamento em Berlim Ocidental, mas não foi para a rua. Ficou em casa, junto ao telefone, à espera que o pai lhe dissesse por onde ia entrar. Mas o pai ligou a um irmão seu, em vez de ligar aos filhos. De modo que ela passou a noite toda em casa, sempre à espera.
(Mas já lhe perdoou há muito.)

Mais algumas das histórias que me contaram:

O filho de uns amigos, que tinha 18 anos, e tentou atravessar sozinho a fronteira da Hungria. Conseguiu, mas quando chegou à Áustria ficou cheio de saudades dos amigos que deixara para trás, e - "coisas que se fazem aos 18 anos" - resolveu regressar. Foi aí que o apanharam, o prenderam e o repatriaram: para as longas garras da Stasi.

O marido de uma das minhas colegas de coro vivia em Kreuzberg e trabalhava em Wedding (ambos bairros de Berlim Ocidental). O muro obrigava-o a dar uma volta enorme pela cidade. Uns dias depois do 9 de Novembro, ele próprio rebentou uma porta no muro que ainda estava fechada, para poder ir trabalhar pelo caminho mais directo.

Duas pessoas do coro, da Alemanha Ocidental, não sabiam onde estavam nessa noite. Uma porque tinha um desgosto de amor tão grande que apagou todo o resto. Outra porque não captou o significado histórico do momento. Lembra-se bem onde estava quando começou o massacre de Tiannamen ou quando começou a primeira guerra do Golfo, mas não tem nenhuma ideia sobre o que estava a fazer no dia 9.11.1989.

Já outra, também de Berlim Ocidental, sabe muito bem: estava a dormir. No dia seguinte, ao acordar, o marido comentou que cheirava a Trabi. Ligaram o rádio, e foi assim que ficaram a saber.

Uma outra era estudante em Berlim Oriental. Soube da queda do muro, mas ficou em casa a estudar. "Primeiro, o dever!", comentou ela com um sorriso de auto-ironia. No dia seguinte estava na Universidade como habitualmente às oito da manhã, mas as salas estavam praticamente desertas. "Bem, sendo assim, vou também..." - e foi.

O testemunho mais inesperado e que mais me deu que pensar foi o de uma mulher de Berlim Leste que contou que no dia 9 de Novembro tinha a filhinha a dormir, e resolveu ficar em casa. No dia 10 de Novembro, que era sexta-feira, também não sentiu grande necessidade de ir espreitar o Ocidente. No dia 9, um casal conhecido dela deixara o filho de três anos em casa a dormir, e fora durante a noite ao outro lado. O miúdo acordou, viu-se sozinho, e saiu para a rua escura e deserta, para ir pedir ajuda a uma tia que morava umas casas à frente. Gagueja desde então. Ela e o marido só uns dias mais tarde atravessaram o muro. Foram recebidos por um grupo de pessoas de Berlim Ocidental que ofereciam bananas aos do Leste, e sentiu-se insultada. Como se eles não tivessem bananas do outro lado do muro, como se precisassem daquelas esmolas... "Como quem atira bananas aos macacos no zoo?", perguntei eu. "Ora, no zoo já eu me sentia há muito. Morava muito perto do muro, e sempre que ia com a minha mãe à padaria havia alguém do outro lado a espreitar-nos usando binóculos. A minha mãe comentava que faziam de nós macaquinhos no zoo."
Ouvia, e comecei a juntar peças: morava perto do muro - algo geralmente possível apenas para as pessoas mais fiéis ao regime -, não tinha vontade de ir espreitar o outro lado, e sentia como insulto o que os do Ocidente faziam...
Por outro lado, pensei no que eu própria fiz quando visitei Berlim na Páscoa de 1989: também eu observei despudoradamente as pessoas do outro lado. A imagem dos animais do zoo era muito certeira, e espelhava bem a minha atitude de então.

Algumas colegas de coro tentaram adivinhar quem era wessi e quem era ossi. Chegada a minha vez, decidiram: europeia!
Mas tive de as desenganar. Na Alemanha sou wessi. Tenho socialização de wessi, e tenho comportamento de wessi. Até sou uma daquelas pessoas que compraram na antiga RDA uma bela casa meio em ruínas, a arranjou e foi viver nela.

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Regressámos a Berlim ainda a tempo de passar pela Porta de Brandeburgo. O "céu sobre Berlim" estava muito mais baixo que quatro dias antes, e as pessoas andavam numa azáfama alegre a escrever a sua mensagem naquelas fitas.





9 de Novembro. O que há numa data? E num nome?


Este texto sobre os vários 9 de Novembro da Alemanha foi publicado no 7 Margens em Novembro de 2018. Para minha memória futura, publico-o aqui agora por extenso:


A queda do muro de Berlim (em 1989), que deu origem ao processo de reunificação da Alemanha dividida após a Segunda Guerra Mundial, seria a melhor das razões para fazer do dia 9 de Novembro o feriado nacional alemão. Mas o 9 de Novembro está também marcado pela terrível sombra do pogrom nazi de 1938, pelo que a data escolhida para o feriado nacional acabou por ser o 3 de Outubro, dia da entrada oficial dos cinco Estados da RDA na República Federal da Alemanha.


O que há numa data?
Para além do pogrom nazi e da queda do muro, esta data está marcada por outros acontecimentos históricos importantes:

– 9 de Novembro de 1848: a execução de Robert Blum em Viena marcou o início do fim da Revolução de Março nos Estados alemães (que exigia – entre outros – uma Constituição para limitar o poder monárquico, a extinção dos laços que mantinham os agricultores presos aos senhores das terras, e mais direitos para os trabalhadores);

– 9 de Novembro de 1918: proclamação da República em Berlim (levando ao fim da Primeira Guerra Mundial, que desembocou tragicamente no tratado de Versalhes e na criação do contexto dramático que permitiria a ascensão dos nazis);

– 9 de Novembro de 1923: golpe do Hitler, em Munique, com o objectivo de tomar o poder e instalar uma ditadura nacionalista; o golpe falhou, o partido NSDAP foi proibido, Hitler foi condenado a cinco anos na prisão, aproveitou esse tempo para começar a escrever Mein Kampf, e dez anos depois estava a tomar o poder por via democrática.

Pelo que retomo a questão de fazer do 9 de Novembro o feriado nacional alemão: haveria algo de extraordinariamente inovador num feriado nacional que lembrasse tanto os feitos gloriosos como as vergonhas e os passos em falso da História – porque os países são feitos de tudo isso: glória, fracasso e vergonha.

O que há num nome?

Há apenas oitenta anos (já as minhas avós eram adultas, já os meus pais começavam a frequentar a escola) os nazis organizaram um ataque contra os judeus em toda a Alemanha. Para dar a aparência de uma certa legalidade, mascararam o ataque de “fúria popular”. Os paramilitares iam vestidos à civil, e Goebbels fez saber que a polícia não impediria os populares de darem livre curso à sua fúria justificada pelo recente assassinato de Ernst von Rath, em Paris. Por seu lado, as ordens dadas às SA eram muito claras: deitar fogo às sinagogas apenas se não houvesse a possibilidade de alastrar a outras casas; destruir as lojas dos judeus mas não permitir que fossem pilhadas; cuidar da segurança das lojas dos não judeus.

O ataque foi realizado com toda a eficiência, e permitiu testar a população alemã: ao assistir sem nada fazer, mostrou que permitiria acções ainda mais violentas contra os seus vizinhos judeus. 
Durante décadas chamou-se a este ataque “Noite dos Cristais”. O nome resultou naturalmente dos montes de vidros espalhados pelos passeios das cidades (que no dia seguinte, em mais um sinal do cinismo do regime, as vítimas foram obrigadas a remover, porque “dava mau aspecto à rua”), e assim foi usado de forma acrítica até aos anos oitenta do século passado.

Só nessa altura surgiu o debate que alertava para o eufemismo e até a glorificação do feito subjacentes à expressão “Noite de Cristal” ou “Noite dos Cristais”. Ainda hoje não há acordo sobre o nome correcto a dar a este momento, e é lamentável, porque se trata de uma fenda na História da civilização europeia. Alguns nomes propostos: Noite do Pogrom do Reich, Noite do Pogrom de Novembro. 

Por mim, seria este: Noite do Pogrom Nazi. 

Erich Kästner, jornalista e escritor, testemunhou assim os acontecimentos da noite de 9 para 10 de Novembro de 1938 no Kurfürstendamm (a avenida mais importante da abastada parte ocidental da cidade):

Naquela noite apanhei um táxi para regressar a casa, que me levou pela Tauentzien e pelo Kurfürstendamm. Dos dois lados da rua havia homens que batiam com barras de metal nas montras das lojas. Por todos os lados o vidro quebrava e espalhava-se em estilhaços. Eram homens da SS, com calças de montar pretas e botas de cano alto, mas com chapéu e casaco à paisana. Faziam o seu trabalho calma e sistematicamente. Dava a impressão que cada um estava encarregado de quatro ou cinco casas. Levantavam a barra de ferro, batiam várias vezes e avançavam depois para a montra seguinte. Não se viam outras pessoas na rua. Só mais tarde, contaram-me no dia seguinte, terão aparecido serventes de bar, empregados de mesa nocturnos e prostitutas, para saquear as lojas.
Três vezes fiz parar o táxi. Três vezes quis sair do carro. Três vezes surgiram de trás de uma árvore agentes da polícia que me deram ordens peremptórias de voltar a entrar no táxi e continuar a viagem. Três vezes lhes retorqui que ainda posso sair de um carro quando me apetece, e particularmente num momento como este, quando em público se praticam – passe o eufemismo – actos impróprios. Três vezes disseram com maus modos “polícia judiciária!”. Três vezes bateram a porta do carro. Quando quis parar pela quarta vez, o condutor recusou-se. “Não adianta”, disse ele, “e além disso está a resistir à autoridade do Estado!” Só parou quando chegámos à minha casa.

(Erich Kästner: Notabene 45. Ein Tagebuch, Frankfurt/M 1983, Pg.140)


9 de Novembro de 1989

Pouco haverá a acrescentar para quem – como quase todos nós – assistiu à História em directo pela televisão. Pelo que me limito a dois relatos que ouvi a mulheres que conheci em Weimar, cidade da antiga RDA, no dia em que a pergunta foi “onde estavas no 9 de Novembro?”

– Naquela noite, estava num restaurante com a minha família. Era o jantar de despedida do meu irmão, que tinha conseguido um visto para abandonar o país. Estávamos todos muito tristes, porque não tínhamos a menor ideia do que seria a vida dele na Alemanha Ocidental e de quando nos poderíamos voltar a encontrar. Às tantas, um empregado chegou à nossa mesa cheio de pressa para pagarmos o jantar porque se queria ir embora, e anunciou “abriram a fronteira!”
Nós respondemos-lhe que a última coisa de que precisávamos era de gracinhas de mau gosto.

– Não me dei conta de nada nessa noite. No dia seguinte, na universidade, alguém contou que tinha andado a passear no Kurfürstendamm. Eu ouvia a história, à espera do momento em que viria a frase “e estendi a mão e bati na mesinha de cabeceira”, mas nunca mais vinha. Até que me dei conta que era verdade. Corri para uma rua que me tinham indicado, reparei pela primeira vez que nessa parte do muro havia uma porta, e que estava aberta. Juntei-me ao grupo enorme dos que queriam passar. Eram tantos, que os meus pés quase não tocavam o chão. Os guardas já nem se davam ao trabalho de olhar para os passaportes. Mas o tempo todo eu temia que fechassem a porta mesmo à minha frente. Algo tão fantástico não poderia tornar-se verdade. Finalmente consegui atravessar a fronteira, e passei o resto do dia a entrar em lojas de florista para ver e cheirar todas aquelas flores que não conhecia. 





30 anos de Alemanha: tão longe e tão perto

A propósito dos 30 anos da queda do muro, que coincide com os meus 30 anos na Alemanha, foi publicado um texto meu no 7 Margens. Conto lá praticamente toda a minha história na Alemanha. Enfim, de facto é só mais ou menos 1% da minha história toda. Os mais cuscos podem ler aqui.

07 novembro 2019

comemorações em Berlim nos trinta anos da queda do muro












Entre 4 e 10 de Novembro, Berlim comemora os trinta anos da queda do muro. Dias de festa e de louvor aos cidadãos da RDA que souberam levar a cabo uma revolução pacífica contra um dos Estados mais totalitários da época.
Podem encontrar mais informações aqui (em inglês).

Ontem demos uma grande volta por Berlim para ver algumas das instalações.
Infelizmente vou sair da cidade este fim-de-semana. Se pudesse, passava os próximos 3 dias na rua: a ver demoradamente as exposições, a ver os filmes, a assistir a alguns dos 200 eventos - desde conversas com testemunhas da época a concertos, de sessões de poesia a filmes, de debates a workshops para jovens.

Da colheita de ontem, aqui deixo imagens da Alexanderplatz:





Do museu da Stasi:
(chovia tanto que não fomos ver a exposição, vimos apenas uma parte dos filmes)



Da East Side Gallery:













Na parte de trás do novo palácio do Kaiser, onde dantes ficava o Palácio da República da RDA:
(as fotografias não estão boas, mas eu estava fascinada com o efeito daqueles espectadores, por acaso alinhados nas cores da bandeira alemã)




Da Porta de Brandeburgo:
(pediram às pessoas que escrevessem frases curtas - "Your vision in heaven over Berlin" - e o resultado são 100.000 tiras suspensas e esvoaçantes ao vento. Em frente à Porta de Brandeburgo projectam-se algumas dessas frases num globo luminoso.)







Para terminar, a confirmação do que já toda a gente sabe: Berlin rocks! ;)





21 junho 2019

mais um episódio da série "a História em cada esquina"



Ontem fui à Komische Oper ver Petruschka de Strawinsky e L'enfant et les Sortilèges de Ravel, com encenação de Suzanne Andrade e Esme Appleton e animação de Paul Barritt. Antes de ir ao tema deste post, aviso já: isto seria um bom motivo para decidir a data de uma visita a Berlim (infelizmente não sei quando voltará a cartaz).

Quando esperava na fila para a bilheteira, onde queria comprar o bilhete mais barato (que esta deve ser a quinta ópera das últimas quatro semanas, e uma conta bancária não é de ferro), apareceu um senhor a vender o bilhete da esposa, que estava doente. Daí a nada estava sentada ao lado dele a meio da plateia, e ele a reclamar do sistema de pequenos écrans no encosto da cadeira da frente, para lermos o texto da ópera. Que na Deutsche Oper é muito melhor, porque projectam as frases para o espaço por cima do palco, não temos que andar com os olhos em pingue-pongue entre o palco e a cadeira da frente, dizia ele. E acrescentou: com Petruschka não tenho problema, porque falo fluentemente russo, mas o francês do Ravel é que é um sarilho.
- Russo?, perguntei eu. Cresceu na RDA?
Sim, crescera na RDA, e estudou tão bem russo que até o mandaram passar um ano em Moscovo a aprofundar os conhecimentos. Francês é que nem por isso, ao contrário de mim, que cresci em Portugal, e...
- Em Portugal?, interrompeu-me ele, muito empolgado. O meu cunhado viveu em Portugal! Esteve lá a construir o monumental órgão da Sé do Porto.

Alguma coisa não batia certo, porque lembro-me bem de o famoso órgão da Sé do Porto ter sido feito em 1985 por um organeiro bávaro. O meu vizinho de lugar explicou: o cunhado dele, irmão da sua mulher, fugiu da RDA dois dias antes de o muro ter sido construído. Deve ter pressentido o que se estava a preparar, e fez como todos faziam naquele tempo: entrou com a mulher no S-Bahn como quem vai ali tomar um café, com pouquíssimo dinheiro e sem qualquer objecto pessoal para não levantar suspeitas, de comboio atravessaram a fronteira berlinense, e de Berlim Ocidental voaram para o sul. Recomeçou a vida como afinador, e uma década mais tarde estava a comprar uma empresa de construção de órgãos em Regensburg. Nos 28 anos da existência do muro, os irmãos só se viram uma vez, quando ela conseguiu autorização para ir a uma festa importante da empresa de Regensburg. "Mas não me deixaram ir com ela, claro", acrescentou, "não fosse dar-se o caso de nós ficarmos também por lá."

Lembro-me do entusiasmo com que o Porto acolheu este organeiro bávaro em 1985. Olhávamos para ele como o portador de uma enorme experiência e tradição, uma eterna solidez alemã. Nunca me passou pela cabeça que podia ser uma pessoa com a vida atravessada por um terrível muro, um antes e um depois, as tantas saudades de tudo: a família e a terra do lado de lá, o dialecto berlinense, a culinária, os hábitos. Quanto sofrimento não terá passado pelos tubos daquele órgão do Porto!

Em 1995 Georg Jann passou a empresa de Regensburg para o seu segundo filho, e instalou-se em Portugal. Dez anos mais tarde entregou a empresa portuguesa ao seu filho mais velho, e foi pra o Brasil, onde construiu alguns órgãos (entre os quais o do Mosteiro de S. Bento em Vinhedo, quando já tinha 77 anos). Morreu em Fevereiro passado.




12 novembro 2014

queda do muro de Berlim - 25 anos (3)

Bem sei que a semana já vai na quarta-feira, e não interessa nada o que eu fiz no domingo passado, mas deixo aqui na mesma, para minha memória futura:

Depois da celebração ecuménica, saímos do Mauerpark e começámos a descer para a Bernauer Strasse. Junto à rua havia um ecrã gigante que passava imagens históricas, e vi um avô que desceu da sua bicicleta para explicar ao neto: "ali era a rua tal, ali era a fronteira, nós passámos acolá..."






Memorial do muro, na Bernauer Strasse:




 


Desta vez, a cerimónia oficial foi no lado oriental do muro, e não no lado virado para a capela da reconciliação. Os políticos deixaram uma rosa na ranhura entre os blocos do muro, em vez de pôr coroas de flores no chão.

No memorial para as vítimas do muro também havia flores:




Na East Side Gallery (que era um segmento do muro todo do lado oriental, na parte em que o rio servia de fronteira, pelo que o betão estava nu até à implosão da RDA, e agora é pintado e repintado e trepintado segundo a vontade de cada um, para irritação dos primeiros artistas que tomaram posse):








Não nos deixaram entrar na 17 Juni, porque já estava sobrelotada. Que pena! Queria muito ver o que se passava no palco. Fomos para trás do Parlamento esperar a largada dos balões junto ao rio. Havia um ecrã gigante que passava imagens históricas. Mas o que nós queríamos era saber o que se passava no palco! A ver se para as comemorações do centenário me convidam a mim para organizar isto, a ver se fica um bocadinho melhor.




 




O muro mesmo junto ao Parlamento:




O muro a avançar na direcção da porta de Brandenburgo:


O muro junto ao nosso posto de observação:





Quando pouco faltava para começarem a largar os balões, apareceram uns barcos que se puseram à nossa frente. O pessoal desatou aos gritos e assobios. Ao meu lado, uma senhora dizia: "eles pagaram, podem", e eu respondi "Não podem tirar a vista às pessoas que estão aqui à espera há várias horas!". Ela insistiu: "Se pagaram..." e eu teimei: "O dinheiro não pode comprar tudo!"
Os gritos e os assobios não paravam, e os barcos foram para mais longe, para a parte em que não ficavam entre as pessoas e o muro de luz.
Um momento de Berlim no seu melhor - que ninguém pense que pode fazer dos berlinenses parvos!

Fiquei a pensar no argumento da senhora: a que propósito é que aceitamos que quem tem dinheiro passe por cima das normas mais básicas de civismo? Seria ela de Leste, resignada a deixar que quem tem dinheiro (os Wessis) faça o que lhe apeteça?




O Wowereit fez o seu discurso, lembrou a imensa coragem das pessoas que ousaram protestar, lembrou outros muros que ainda têm de cair. E os balões começaram a subir na noite.




A princípio foi muito bonito. Os holofotes em frente à porta de Brandenburgo iluminavam-nos bem, e eles largavam a bom ritmo. Mas em algum momento a coisa começou a travar. Nem todos os "padrinhos" do balão conseguiam soltá-lo à primeira, e nem todos tinham a presença de espírito de dizer aos do lado "vão largando vocês, que este daqui a nada também vai". De modo que o processo parava, ficava tudo à espera, o desgraçado do padrinho com um stress monumental de volta do pedestal...
Os nossos amigos portugueses criticavam a má organização. Portugueses! Nunca estão satisfeitos com o que se faz em Berlim...

Uma das vantagens de assistir a estas coisas no meio dos berlinenses é que uma pessoa é arrastada pelo humor deles. Daí a nada já estavam a aplaudir entusiasticamente cada balão renitente que finalmente levantava voo, e um pouco mais tarde, quando o processo parou por demasiado tempo, começaram a gritar a uma voz "Die Mauer muss weg! Die Mauer muss weg!" ("O muro tem de desaparecer!"). Rimos todos, claro, mas acho que um ou outro largou a sua lagrimita.
A boa disposição continuou: foi uma festa quando alguns balões ficaram presos debaixo da pala da biblioteca do Parlamento, e o pessoal quase soprava com força para os ajudar a escapar.




Regressámos a casa cansados e contentes, apostando que, ao ritmo a que isto (não) avançava, ainda íamos ver os últimos balões na televisão. Ao chegar perto do carro vimos que muitas pessoas levavam os pedestais para casa. "Pode-se levar?", perguntei eu. "Pode! Vão ser todos reciclados amanhã."
Trouxe um. Estou a pensar usá-lo como candeeiro de pé alto na sala.
Depois li no jornal que os criadores deste muro de luz se sentiram muito honrados por a população berlinense se apropriar da sua obra. Ora essa, de nada, de nada.

***

Algumas das fotografias que aqui estão foram feitas por um dos meus amigos portugeses. Como não me apetece estar a discriminar, ficamos assim: as melhores foram feitas por ele. Ou então pelo Joachim.

Há muitas mais, e muito boas, aqui e aqui.