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14 fevereiro 2020

faça-se então um desenho (3) (e último)

 
Quando andava à procura de trabalhos do Vasco Gargalo para escrever os dois posts anteriores deparei com este, alusivo ao escândalo provocado pela abstenção de Joacine Katar Moreira no Parlamento relativamente ao voto apresentado pelo PCP de "condenação da nova agressão israelita a Gaza e da declaração da Administração Trump sobre os colonatos israelitas".

Este cartoon aparece em inúmeros sites de combate ao anti-semitismo, acompanhado por comentários irados. É óbvio que as pessoas não conheciam os factos a que o cartoon aludia, e fizeram uma interpretação primária, com base nas suas experiências pessoais e na convicção prévia de que Vasco Gargalo é anti-semita. Um desses críticos chegou a ler neste cartoon uma acusação de que os judeus torturam os negros.

Um trágico mal-entendido, que me fez sentir uma enorme empatia por Vasco Gargalo: cercado de ódio devido a interpretações erradas de um desenho que só faz sentido no contexto de um determinado momento da vida política portuguesa.

Também entendo facilmente que esse desenho tenha sido mal interpretado. É que - mais uma vez - insere-se numa construção imagética anti-semita por demais conhecida: a vítima no centro da imagem, rodeada por judeus. Exemplo disso são desenhos insinuando que os judeus faziam sacrifícios humanos, maltratavam os seus criados e eram sádicos com os animais.

 
(Representação do alegado ritual de sacrifício de Simão de Trento em 1475, 
da Crónica Mundial de Hartmann Schedel de 1493)

 (Página do livro "o Cogumelo Venenoso" - tradução para inglês aqui)

Apesar de não haver a menor intenção de anti-semitismo naquele cartoon, a imagem de uma negra vestida de palhaça (o símbolo do Livre é desconhecido no plano internacional) e crucificada numa estrela de David tem tudo para ser mal entendida e, pior, tem tudo para se instalar na memória colectiva do anti-semitismo como mais um exemplo da perfídia dos judeus.

(A sério: pobre Vasco Gargalo!)

Como evitar mal-entendidos como este?

O primeiro passo é tomar consciência de que estamos perante um povo que tem vivido com teorias de conspiração como libelo constante na sua história milenar - desde a morte de Jesus Cristo aos Protocolos dos Sábios de Sião, passando pela peste negra que seria resultado do envenenamento dos poços de água dos cristãos. E que, por isso mesmo, reage com particular sensibilidade a tudo o que possa parecer uma acusação.

O segundo passo é ter consciência de que todos os elementos alusivos ao povo judeu são material explosivo, e redobrar as cautelas.

Depois, fica com a consciência de cada artista decidir se quer correr o risco de criar material que possa enriquecer o arsenal dos anti-semitas, e de ser considerado como um deles.



12 outubro 2019

ah, é apenas a minha opinião, e tenho direito a ela...

Amanhã vai haver uma marcha em Berlim contra o anti-semitismo e o racismo.
Muito simbolicamente começa na Bebelplatz: a praça no centro de Berlim - entre a universidade, a biblioteca, a ópera e a catedral católica - onde os nazis queimaram os livros em 1933.

Alguns dirão: pois, lá está - queixam-se da fogueira de livros dos nazis, mas querem fazer o mesmo. Querem impedir os outros de dizer o que pensam.

Quem assim fala ainda não percebeu que não se trata de uma questão de simetria. "Racismo" e "respeito pelo ser humano" não são opiniões de valor igual e que merecem igual respeito. Não é uma questão de concordar em discordar, e muito menos de tentar encontrar um consenso - trata-se de respeitar valores básicos para a coexistência pacífica entre todos.

Lembram-se do Walter Lübcke, o político que foi assassinado este ano?
Eis a história completa (pode-se ler mais aqui e aqui, em alemão): em 2015, na altura em que os refugiados sírios entravam no país aos milhares por dia, foi necessário criar rapidamente centros de acolhimento para todas essas pessoas. Em cada região foram identificados edifícios devolutos que pudessem ser usados para esse fim, e fizeram-se sessões de esclarecimento com os cidadãos. Numa dessas sessões, no dia 14.10.2015, Walter Lübcke tentava explicar às pessoas o que ia ser feito, mas o seu trabalho estava a ser muito dificultado por agitadores de extrema-direita que se tinham espalhado por toda a sala, que o interrompiam gritando "Estado de merda" e "governo de merda" e atiravam perguntas provocatórias e polémicas. A certo momento, Walter Lübcke louvou o trabalho das escolas, do voluntariado e das instituições que trabalham em conjunto para transmitir os valores essenciais desta sociedade, disse que dá gosto viver num país que se identifica com eles, e - irritado com os gritos e as provocações - rematou: "e quem não defende estes valores, está à vontade para se ir embora do país se não concordar".
O vídeo deu a volta pela internet com títulos como "ser alemão não é crime".
Quatro dias depois festejava-se em Dresden o primeiro aniversário da Pegida, e um dos oradores comentou, a propósito deste incidente, que haveria com certeza outras maneiras de tratar os alemães que não concordam com a política de integração, mas infelizmente os campos de concentração estavam momentaneamente fora de serviço. Mais tarde foi obrigado a pagar uma multa por discurso de ódio.
Entretanto, um vídeo manipulado (onde se ouve esta frase sem o contexto provocatório em que ocorreu) multiplicava-se pela internet, acompanhado por inúmeros comentários violentos. O blogue  "Politicaly Incorrect" publicou a morada, o número de telefone e o endereço de e-mail de Walter Lübcke. Ao longo dos anos seguintes, políticos de extrema-direita divulgaram este vídeo repetidamente numa estratégia de auto vitimização. Até que no dia 2 de Junho de 2019 um homem se dirigiu à casa de Walter Lübcke e o matou com um tiro. Era o homem que no fim deste vídeo se ouve a gritar "Verschwinde!) ("desaparece!")
A notícia do assassinato do político foi acolhida em certas partes da internet com comentários de júbilo: "uma ratazana nojenta a menos!", "agora só faltam os outros todos", "a guerra ainda mal começou".




Aqui está o comunicado do convite para a manifestação de amanhã em Berlim, em inglês. Sublinhados meus.



#KeinFussbreit (= não ceder)

Antisemitism and racism kill. Right wing terrorism is threatening our society.

The right-wing terrorist attack in Halle leaves us stunned and makes us angry. We commemorate the victims. Our thoughts turn to all members of the Jewish community, all affected people, relatives of the victims in and around the snack bar and at the further targets of the attack, as well as to all those who have long since ceased to feel safe.

Two people were killed in the terrorist attack. The members of the Jewish community have only just escaped a massacre. By now it is evident, that the perpetrator acted based on antisemitic and racist motives. He may have committed the crime alone, he is therefore not a lone perpetrator - the crime stands in the following context:

Jews, Muslims, People of Colour and all those who don’t fit into the inhuman conception of the world of the (extreme) Right, can no longer feel safe and secure
• More than 200 people have been killed by right-wing violence since 1990 in Germany
• Consolidated militant Nazi structures, the NSU network and right-wing networks in German security agencies
• Lack of willingness to elucidate and bring about justice, as recently experienced in the NSU Complex and in other radical right acts of violence
An unceasing trivialisation of the right-wing danger and a defamation and obstruction of democratic, civil society and antifascist engagement
and an advancing normalisation of antisemitic, racist and inhuman mindset in parliaments, media and the general public

We view this act as an attack on our society! A society in which we are committed to defend social and human rights and in which all people should be able to live a self-determined life free of fear.

Antisemitism, racism and any form of group-based discrimination are not mere opinions that a democratic society must endure. They lead to inhumanity, humiliation, discrimination and violent crime. We stand united and oppose this resolutely.

In this difficult hour, we stand together in solidarity and above all: indivisible!
We demand a consistent and complete resolution of all right-wing criminal acts of violence!
We call on everyone to show solidarity!
We will not allow ourselves to be played off against each other.
Together we express our grief, anger and compassion. On Sunday, October 13th we will walk from the Bebelplatz in Berlin-Mitte to the New Synagogue in the Oranienburger Straße.

This call was initiated by people, activists and organisations from the #Unteilbar alliance. We invite all people, groups and alliances who are committed to the demands and principles of the call to join us. The demonstration was registered together by #unteilbar and the Jewish Forum for democracy and against antisemitism – JFDA.

11 outubro 2019

o poder das palavras e a violência de extrema-direita (1)

Traduzo e partilho aqui algumas frases importantes do debate que neste momento decorre na Alemanha sobre o poder das palavras e a violência de extrema-direita, no contexto da tentativa de massacre numa sinagoga alemã a 9.10.2019.

Destaco uma delas, que é um elemento fundamental neste debate:

"Em Halle houve um atentado realizado por um homem só, mas que não estava sozinho. O simples facto de ter um capacete com uma câmara revela que estava a comunicar com um público real na internet."

Um atirador a filmar um massacre em directo para a internet mostra que esta é muito mais que apenas um espaço de opinião. O lugar de verbalização é simultaneamente o lugar de formação de comunidades de tal modo sólidas que há quem decida criar factos (massacres!) para servir o sangue de que essa comunidade se mostra sedenta.

Se isto não é um convite - melhor dizendo: um ultimato! - a repensarmos todas as nossas teorias sobre a liberdade de expressão, não sei que mais será necessário para finalmente abrirmos os olhos.

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Dirk Kurbjuweit: Há espaços do pensamento e da fala que estão ou abertos ou fechados. É melhor que alguns fiquem fechados, porque entrar neles é indecente ou, por vezes, perigoso. Nos últimos anos políticos da AfD têm feito muito para abrir dois destes espaços e atrair outros para entrarem neles.
Esses dois espaços de pensamento estão ligados a este atentado. O primeiro é o desprezo e a falta de consideração por quem é entendido como "outro". (...) O segundo é a banalização do nacional-socialismo. (...) Abriu-se de novo um espaço no qual já não é tabu dirigir um olhar suave ou aprovador ao período mais terrível da História alemã, um período de assassínios em massa.
O atacante de Halle movia-se nestes dois espaços, que estão ligados: há algumas coisas boas no nazismo, acredita que o Holocausto é um boato, os judeus são para ele "os outros", que ele odeia. E então, fez algumas armas e começou a disparar.
Estes espaços já existiam antes da AfD. Umas vezes as portas estavam mais bem fechadas, outras vezes pior. De momento estão escancaradas, e tem muito a ver com a AfD.
É esta a responsabilidade deste partido no atentado de Halle.

Marina Weisband: Nós começamos por falhar na tarefa de impedir a violência verbal. Na internet, no parlamento, em debates na televisão. (...) Há que lutar contra a teimosia de afirmar que o anti-semitismo é sobretudo muçulmano - não aceito que as minorias sejam jogadas umas contra as outras. (...) O nosso inimigo é o ódio. Não lhe podemos dar palco."

Max Czollek: A seguir ao ataque, Annegret Kramp-Karrebauer falou em "sinal de alarme". Mas isto não é um caso de alarme, isto é uma catástrofe. "Sinais de alarme" era quando deixavam metades de porco em frente a sinagogas, quando ofendiam pessoas nas ruas, e quando um político disse que o III Reich não passou de uma caganita de pássaro na História alemã. Aquilo a que agora assistimos é a tempestade sobre a qual temos andado a avisar. Nós, os que andámos há anos a chamar a atenção para o perigo do terrorismo de direita: os sinais que recebemos da célula neonazi NSU, do assassinato de Walter Lübcke, dos êxitos da AfD, da caça ao homem em Chemnitz e dos centros de refugiados em chamas. (...) Em Halle houve um atentado realizado por um homem só, mas que não estava sozinho. O simples facto de ter um capacete com uma câmara revela que estava a comunicar com um público real na internet.  O nazismo e o ódio, que passam facilmente da cruz eleitoral para a aniquilação do "outro" são parte deste país. (...) Os judeus também estão no radar destes novos-antigos racistas. Quem quer uma Alemanha sem muçulmanos também a quer sem judeus. (...) A nossa direita, da qual a AfD é um sintoma, representa uma ameaça para todas as pessoas que não forem entendidas como "alemãs". (...) A ideia de que o antifascismo e o antiracismo são elementos básicos do interesse nacional da Alemanha após 1945, ou seja, que a esquerda e a direita não estão à mesma distância do centro político pós-nacional-socialismo, não corresponde à atitude política actualmente dominante. Mas devia.
Porque se, em 2019, este país não se baseia num consenso antifascista - então, não sei em que se pode basear.



10 outubro 2019

ataque terrorista em Halle - vídeo com legendas em português



Hoje ensinaram-me a descarregar vídeos, experimentei alguns programas e depois passei mais umas boas horas a pôr as legendas em português.
Estou a ter muito trabalho com esta peça, mas ela merece-o: eis o jornalismo que assume o seu papel de esteio fundamental da Democracia e de uma sociedade com sentido de decência.

 (Se as legendas não aparecerem automaticamente, basta carregar na respectiva caixa, na base do filme.)

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Entretanto, se quiserem saber mais detalhes do que aconteceu ontem (sintetizando e traduzindo rapidamente do Spiegel):

O atacante gravou tudo num vídeo de cerca de meia hora. Inclusivamente os tiros e as pessoas a morrer. Ou as tentativas de arrombar a sinagoga, as exclamações "fuck!" e o nome "loser" que chamou a si próprio. Carregou um Golf alugado com armas e explosivos, matou um homem e uma mulher, feriu outras pessoas, foi ferido pela polícia mas conseguiu fugir. Passou do seu carro para um taxi, e foi apanhado na sequência de um acidente provocado por ele.

Na internet foi encontrado um manifesto com o plano detalhado do ataque, que se acredita ser autêntico. Estava num fórum da extrema-direita. O manifesto anuncia que ele pretende matar "de preferência" judeus. 

Stephan B. vive com a mãe em Benndorf, os vizinhos dizem que é muito reservado e nunca cumprimenta, e que estuda em Halle.

A polícia recebeu as primeiras chamadas a pedir ajuda pouco depois do meio-dia. Nas primeiras imagens do vídeo, num parque de estacionamento, ouve-se a sua voz irritada por as máquinas não estarem a funcionar como ele quer. Quer que o vídeo seja visto no mundo inteiro, e por isso de vez em quando fala em inglês. Faz um discurso de negação do Holocausto, põe o capacete e começa a conduzir. Ouve-se música rap.


Em frente à sinagoga agarra numa das muitas armas que estão no carro e parecem ser artesanais. A seguir tenta arrombar a sinagoga, lança alguns explosivos e mata pelas costas uma mulher que está a passar. 

Desiste ao fim de alguns minutos. Regressa ao seu carro, e cruza-se com um homem. Trocam algumas palavras, e o atacante dispara a sua arma, mas não sai nenhum tiro. O homem consegue entrar no seu carro e fugir.

Mais à frente, o atacante atira um explosivo para dentro de uma tasca de döner, mata um homem que está lá dentro, e atira sobre pessoas que tentam fugir na rua. Depois esconde-se atrás do seu carro e dispara contra os polícias.




ataque terrorista em Halle

Para terem uma ideia de como o atentado terrorista neonazi a uma sinagoga foi hoje tratado na televisão alemã, traduzi (muito a correr) o noticiário Heute Journal de 9.10.2019, que podem ver aqui.

ADENDA: dado que este post continua a ser partilhado, incluo aqui o vídeo já com legendas em português




[0:18 - Reportagem, voz off]
Leipzig, esta noite. Trinta anos depois da noite em que tudo podia ter acontecido, quando 70.000 pessoas temeram que as forças armadas estatais atirassem sobre os manifestantes - o que não aconteceu. A revolução pacífica tornou-se imparável.

[0:43 - Claus Kleber]
Boa noite. No dia que devia ser para celebrar o melhor da Alemanha, foi o pior da Alemanha que dominou as notícias: dois mortos, e pelo menos dois feridos em Halle an der Saale. O plano do autor do atentado era muito pior: o seu alvo era a comunidade judaica de Halle, na sua sinagoga, na festa mais importante do ano judaico, desprotegida e à mercê do assassino e da sua arma automática.

[01:13 - Imagens do ataque, voz off]
A meio do dia ouvem-se tiros em Halle. No bairro St. Pauli, que normalmente é muito tranquilo, uma mulher é morta a tiro perto da sinagoga. Dentro do edifício encontram-se entre setenta e oitenta pessoas. Os judeus comemoram hoje a sua festa maior, Yom Kipur, a festa da reconciliação.

[01:34 - Testemunha]
Atirou primeiro com a caçadeira, depois pegou na outra, que tem um som diferente. (...) Parecia equipado como um polícia, com o equipamento completo de combate, capacete, roupa de protecção, caçadeira, arma automática, granadas que atirou contra as paredes...
- Também ouviu explosões?
- Sim.

[01.56 - Imagem aérea]
A sinagoga é o alvo do ataque. O atacante, um alemão de 27 anos, tenta penetrar no edifício, e filma os seus actos. No vídeo, que decidimos não exibir, nega o Holocausto, fala com desprezo sobre estrangeiros e mulheres. Depois do fracasso deste ataque, mudou de alvo, dirigindo-se a uma loja de döner kebab a cerca de 600 m da sinagoga. Aqui, um homem é morto a tiro.

[02:22 - Porta-voz da polícia de Halle]
O atacante fugiu de carro, saiu de Halle. A polícia conseguiu detectar o carro e prender o homem.

[02:32 - Reportagem, voz off]
Também há disparos numa localidade vizinha, Landsberg. A polícia não confirma uma ligação aos acontecimentos em Halle, mas durante toda a tarde fala de uma "situação de amok". A polícia faz várias buscas domiciliárias em Landsberg. Entretanto o caso já está nas mãos do Procurador-Geral Federal, e a ministra do Interior publica um comunicado: "o que sabemos neste momento aponta para, pelo menos, um atentado de carácter antisemita. Segundo a avaliação do Procurador-Geral Federal, há indícios suficientes de uma possível motivação de extrema-direita."
O presidente de Sachsen-Anhalt interrompeu uma viagem ao estrangeiro e aterrou em Berlim ao anoitecer.

[3:14 - Reiner Haseloff, CDU]
Duas pessoas foram assassinadas, e o objectivo era matar muitas mais. É horrível ter de descrever um acto destes. Para mim é horrível ver esta motivação anti-semita que já se revela, saber que uma comunidade religiosa, concidadãos nossos, não se sentem em segurança, e que alguém os queria matar.

[3:41 - Reportagem, voz off]
A polícia fala de um único atacante, com motivação de extrema-direita, que queria entrar na sinagoga para provocar um banho de sangue.

[3:51 - Claus Kleber]
Já aqui se referiu a existência de um vídeo do ataque. O atacante - supõe-se que à semelhança de quem lhe serviu de modelo - transmitiu os ataques live na internet. Na redacção vimos este vídeo e  analisámos os factos que contém, mas decidimos não mostrar absolutamente nada dele. A vontade de se encenar a si próprio e de auto glorificação é também um dos motivos para estes actos de violência, e não queremos contribuir para isso. Está fora de causa!

[4:22 - Jornalista no exterior ]
- Annegret, ao longo do dia não era certo se se tratava apenas de um ou mais atacantes. Agora já se sabe?
- Ainda não há confirmação oficial, mas tudo indica que se trata de um homem isolado. Pode ter acompanhantes, pessoas que estavam ao corrente do seu plano, mas sobre isso ainda não sabemos nada. O vídeo que ele fez e está agora a ser analisado pela polícia mostra que não tinha mais ninguém com ele, ninguém a usar armas e a atacar a sinagoga. É um alemão de 27 anos, de Sachsen-Anhalt, que vive em Halle.
- Hoje vimos imagens de Halle. A comunidade judaica dá nas vistas? E a sinagoga?
- A sinagoga fica perto do centro antigo de Halle, e é bastante visível. É uma rua aberta, a sinagoga não está escondida. Uma habitante do bairro contou-nos há pouco que passa por lá frequentemente de bicicleta e nunca viu polícia a proteger o edifício. Pergunta-se porque é que justamente hoje, o dia mais importante da comunidade judaica, não havia ali polícia - de momento, esta ausência é objecto de grande crítica.

[6:25 - Claus Kleber]
Ontem à noite teve lugar em Berlim uma conferência dos serviços de segurança e do ministério da Justiça sobre os riscos da extrema-direita e do anti-semitismo, com o título "Justiça e sociedade contra a violência de extrema-direita". H. Funke fez a palestra principal.
- Boa noite, prof. Funke. A partir do que sabemos neste momento, que conclusões pode tirar sobre o contexto e as motivações do atacante?
- Antes de mais, um anti-semitismo assassino. No seu cerne está a ideologia da extrema-direita e dos neonazis na Alemanha e no mundo inteiro, como há um ano em Pittsburgh com um terrível resultado, vinte pessoas de religião judaica assassinadas, ou em Christchurch, onde atacaram uma mesquita e mataram a tiro cerca de cinquenta pessoas. É este o cerne.
- Este atacante, depois de não conseguir entrar na sinagoga, foi para outro lugar, para uma loja de döner, e matou um homem que em princípio não seria judeu. O que parece errático e tresloucado.
- Aparentemente, sim. Mas o cerne é monstruoso: é a misantropia que se revela em ideologias como o anti-semitismo, ou na raiva contra refugiados, ou na raiva à loja de döner e aos árabes.
- Como é que uma sociedade se pode proteger de um delírio que começa por ser praticamente invisível mas acaba por desembocar nesta violência assassina?
- De duas formas: os serviços de segurança - e ontem falou-se muito sobre isso - têm de estar mais conscientes da existência de novos riscos, redes que estão profundamente ramificadas, e em parte são terroristas, ou, como é provavelmente este caso, que trabalham com desvios de comunicação, influência e actos de imitação. Essa é uma questão. Mas a outra questão é que temos de acabar com o discurso de ódio, por exemplo o de um Björn Höcke, que no seu livro programático afirma que quer expulsar milhões de pessoas deste país para fora, e o quer fazer com - cito - "uma crueldade bem doseada, bem afinada". Ou seja: com sadismo. Isto não pode ser, não se pode admitir no espaço público, nos media. Isto destrói não apenas o sentido da moral, mas também a sociedade.
- Se bem entendi, coloca esta acção de um homem isolado em Halle an der Saale, ou seja, na província alemã, no mesmo nível de ataques que vão da Austrália à Noruega.
- É o lado negativo da internet. Uma pessoa vê, e encontra elementos que quer imitar. Este caso lembra Christchurch, mas lembra também Pittsburgh.
- A sociedade vai conseguir resolver o problema desta Hidra e das suas muitas cabeças?
- Ainda não é uma Hidra. Mas está a crescer. Temos o caso do 1 de Setembro de 2018 em Chemnitz, quando houve um encontro partidário nacional que juntou militantes da extrema-direita e hooligans, onde alguns gritaram "Hitler", temos o grupo Revolution Chemnitz, e temos o assassinato de um político, o primeiro cometido pela extrema-direita na História da República Federal Alemã. São tempos perigosos, e temos de lutar contra isso. Ambos: os serviços de segurança, e a sociedade. Só assim conseguiremos controlar o problema, e espero que isso aconteça.

[10:37 - Claus Kleber]
Em situações de perplexidade como estas, os símbolos e os gestos têm um grande significado. A chanceler esteve hoje com a comunidade da Grande Sinagoga de Berlim.

[11:00 - Entrevista com Josef Schuster,  representante do Conselho Central Judaico da Alemanha]
- Herr Schuster, devíamos ter previsto que isto iria acontecer?
- É certo que temos vindo a alertar para um certo temor dos desenvolvimentos e desvios na direcção da extrema-direita, e de um extremismo com potencial de violência. No entanto, não contava com um ataque concreto a uma sinagoga como o que hoje aconteceu.
- Será que nós, a sociedade alemã, o governo alemão, subestimámos alguma coisa, ou falhámos algo nos últimos tempos?
- Já chamei a atenção para o que tem acontecido ultimamente: há linhas vermelhas que estão a ser ultrapassadas, ideias que as pessoas tinham mas não se atreviam a dizer em público começaram a ser aceitáveis. E às palavras seguem-se actos - isto é um facto conhecido, que hoje, infelizmente, se verificou mais uma vez. 
- Frases dessas têm sido alvo de protestos claros por parte do governo, dos media, da maior parte da sociedade, mas aparentemente não está a ser suficiente.
- Não está a ser suficiente, e a isso junta-se um elemento novo em Halle, que foi o que mais me chocou: o atacante não conseguiu entrar na sinagoga graças a uma porta resistente, mas em dias como estes deve haver forças da polícia a proteger as comunidades judaicas. O que é algo que lamento, mas se tivesse estado ali um carro da polícia podia ter-se evitado pelo menos a segunda morte.
- Perguntas que os media e a opinião pública com certeza se farão nos próximos dias. Para além disso: o que é que a sociedade terá de fazer no dia seguinte a este atentado?
- A sociedade tem de fazer algo que é independente deste atentado, e que é fácil - mas se calhar muito difícil. É o conceito de coragem civil. Começa no nível mais simples: quando num café alguém fizer afirmações anti-semitas, racistas, xenófobas, alguém tem de se erguer e dizer "reparaste no que acabaste de dizer? pensas mesmo isso que disseste? parece-te que o que disseste é aceitável?" - é a isto que chamo coragem civil. E se for claro que estas afirmações, que estas opiniões são rejeitadas, é um passo muito importante.

[14:36 ]
O noticiário passa de novo para Leipzig, onde as pessoas celebram os 30 anos do início da revolução pacífica que levou à queda do muro um mês depois. Informam que o horror de Halle esteve no centro dessas celebrações. Mas não vou traduzir, porque isto já vai muito longo.

04 maio 2019

O Ricardo Araújo Pereira e a Liberdade de Expressão (2)

Trago de novo do facebook um comentário do Lutz Brückelmann sobre o texto partilhado no post anterior:

Uma reflexão muito oportuna e boa mas que, talvez mesmo por ser rica em argumentos e referências, me soube a pouco. Ou melhor, me lembrou que eu próprio ainda não clarifiquei as minhas ideias sobre isso o suficiente. Concordo a cem por cento com a crítica ao RAP, e é uma lástima, quase tragédia, que o seu merecidíssimo prestígio como humorista sirva para validar as suas posições proferidas como "public intellectual" preguiçosas e inteletualmente indigentes. Ainda mais por serem proferidas como são, não distinguidas dos produtos do seu génio humorístico. Mas o exemplo do RAP é apenas um sintoma - muito influente em Portugal - dum consenso alargado entre pessoas da sua geração e mais novos que receio não estar bem classificado como "antiquado". Embora compreenda o que o Miguel Monteiro quer dizer. Sim, a última década, com o sucesso dos propagandistas do ressentimento e dos mentirosos sem escrúpulos, tem demonstrado que a ideia de que tudo pode ser dito, porque o diálogo aberto e sem freios sempre conduz ao entendimento e à verdade, é infelizmente falsa. O diálogo conduziria, se entendemos que nele esteja inerente um consenso mínimo sobre valores, boa fé e compromisso com a verdade. Mas no debate que temos no lugar do diálogo, nas redes sociais e na comunicação social, estas bases estão ausentes.
Mas "antiquado" só seria a palavra certa se posteriormente ao consenso da geração do RAP, que identifico como sendo parte do pensamento liberal e neoliberal que dominava a blogosfera que encontrei quando nela entrei em 2003, se tivesse encontrado e estabelecido, pelo menos em hipótese, uma nova forma de diálogo ou debate público.
Não vejo isso. Só vejo que, quando alguém, indivíduo ou grupo profere uma barbaridade, nós gritamos "escândalo" e eles conseguem vitimizar-se, dizendo-se agredidos na sua liberdade de expressão. Infelizmente funciona muito bem. E funciona tanto melhor quanto tentamos punir, na prática, tais manifestações. O sucesso da extrema direita nos EUA, de personagens como Milo Yiannopulos, Ben Shapiro e Jordan Peterson deve-se em grande parte a isso.
Agora, o que é nossa resposta não "antiquada"? Continuar a gritar "escândalo", como fazemos, não é nada de novo. Proibir mesmo? Obrigar - mais realista seria dizer pedir - ao Facebook e ao Twitter para banir figuras destas? Acho bem que a Facebook tenha banido finalmente o Milo e o Alex Jones, mas não acredito que isso seja a solução do problema. Estes são apenas os casos extremos que, no fim, foram suficientemente inábeis para terem dado matéria de sobra para o justificar. Casos como o Peterson, Shapiro, e muitos políticos europeus, de Farage e Salvini a Orbán e Gauland não são assim apanháveis.
Vou continuar a esforçar-me, mas ainda não encontrei a forma "moderna", em contraste com a "antiquada" do RAP, para lidar com manifestações de desumanidade no espaço público. Entretanto posso e devo continuar a chamar o RAP idiota, quando, num caso como o "Pedras para os Zucas" entende que o foco deve ser dado à "ameaça" à liberdade de expressão em vez da violência racista inerente.

O Ricardo Araújo Pereira e a Liberdade de Expressão

Miguel Monteiro escreveu num post do facebook o que eu gostava de ter sido capaz de dizer sobre o assunto, mas nunca conseguiria explicar tão bem. Partilho aqui, porque me parece que é um texto indispensável para o debate sobre a liberdade de expressão, e merece um palco mais permanente que o que é dado pelo facebook.


O Ricardo Araújo Pereira e a Liberdade de Expressão

Miguel Monteiro


Nesta história do Alcoholocausto, uma referência que quase todas as pessoas à baila trazem é o Ricardo Araújo Pereira [RAP], devido à sua conhecida e mediática opinião sobre a Liberdade de Expressão. Posicionando-se algures entre a reflexão académica, o "public intellectual", e o comentador político, ele faz uso da sua notoriedade mediática para advogar por uma visão segundo a qual o direito a falar é virtualmente absoluto (uma visão que tem o Kant do seu "O que é o Iluminismo?" como antepassado intelectual directo, onde é formulado um dos mais cogentes e influentes argumentos sobre a liberdade de imprensa).
Por "virtualmente absoluto" ele entende que nada a não ser ameaças de morte directas podem ser condenadas. Mobiliza consequentemente o "direito a ofender" contra o seu grande alvo, que é o dito "politicamente correcto". Tendo em conta o facto de ter um grande púlpito graças à sua presença mediática, e tê-lo ainda mais devido ao facto de ser um humorista genial com muita piada, muitas pessoas que opinam sobre o tema fazem-no baseadas unicamente nele. Como eu escrevia noutro comentário, ele é muitas vezes tratado como um oráculo cujas palavras têm de ser reveladas a nosso favor, em vez de, como fazenos com as restantes vozes do discurso público, aceitar simplesmente que às vezes, ou mesmo muitas vezes, não há truque: ele está simplesmente enganado.
Em concreto sobre a liberdade de expressão, ao contrário do que os seus defensores acham, a verdade é que o RAP tem uma opinião antiquada sobre todo o assunto: "Antigamente" as pessoas achavam que esse tipo de ideia maximalista sobre a liberdade de expressão era realmente a recta via habermasiana para combater a extrema direita etc, e a expressão popular da crença de que "é a falar que a gente se entende".
Digo antiquada porque os factos histórico-políticos deixaram-no para trás. A ascensão da extrema-direita e o colapso de um discurso cívico baseado numa ideia, por muito hipócrita que fosse, de decência, vieram mostrar que não é mesmo a falar que a gente se entende, e ouviu-se falar pela primeira vez em larga escala do tal "paradoxo da tolerância" que várias pessoas têm vindo a citar.
Foi em grande medida a eleição do Trump que precipitou tudo isto, embora já tivesse sido antecipado antes. Mas gradualmente o mundo vai despertando para o facto de que essa visão maximalista da liberdade de expressão é pouco mais que masturbação ética. Ao invés do que prometera, não impede, aliás fomenta o crescimento da extrema-direita. Como alguém acima disse ficar a saber quem são os parvos não é de grande consolo se eles detiverem já as rédeas do poder. Em Itália, nos EUA, etc, isso acontece já.
O mundo vai, dizia eu, despertando para a falácia desse argumento pobre & podre, e é esse despertar que protagoniza decisões recentes como a do Facebook de banir das plataformas online o Alex Jones etc de forma a privá-los de uma plataforma e de oxigénio.
O RAP está antiquado porque ainda não se apercebeu que as suas bonitas ideias são "uma arma elegante para uma era mais civilizada que esta". O mundo mudou, e nós ou mudamos com ele ou arriscamo-nos a que ele nos devore. A sua posição desculpabilizante sobre o caso recente das "pedras para os zucas" da UL revela o quão senil se tornou a sua posição ética e inútil para nós nos nossos novos problemas. Tem de ser abandonado.
Abandonado em prol de uma visão mais desencantada, menos iluminista, menos crente na racionalidade humana, e mais pronta a aceitar a situação de cerco em que estamos. Mais preparada para tomar decisões que desagradem a quem quer arrasar os limites do discurso público, expandindo os limites para tipos de discurso de ódio mais em geral ou para apelos em abstracto (não apenas práticos e directos) à existência de grupos específico. Esse tipo de discurso, pela forma banal como acaba por banalizar, inclusive por meio do humor, o desprezo pela vida de pessoas pertencentes a esses grupos, gera o ambiente intelectual e emocional que normaliza a crítica à existência de grupos específicos e é o primeiro passo duma longa corrente cuja coroa é o extermínio.
Esta visão é difícil porque exige uma postura de convicção ética que a simplicidade formal do RAP não precisa. "Só se estiver a ameaçar de morte", ou então, "Mas quem és tu para dizer que isto é ofensivo?", ou ainda finalmente, "Ai o politicamente correcto!", são respostas fáceis, abstractas, mas em última instância carecem de solidez moral e serão incapazes de nos ajudar a resistir às trevas que se amontoam.

03 dezembro 2017

pequena achega para o debate sobre o politicamente correcto

 
O Centro da Comunidade Judaica, na Fasanenstraße, em Berlim, foi construído no local onde havia uma sinagoga, que foi destruída no ataque que o III Reich conduziu contra os judeus a 9 de Novembro de 1938. O edifício é um projecto muito simples dos anos 50, com a excepção de um elemento na fachada destinado a realçar um pórtico recuperado da antiga sinagoga.

A inauguração foi em 1959, e o telegrama enviado pelo presidente da República, Heinrich Lübke, mostrava claramente o muito caminho que, 14 anos depois da guerra, ainda faltava andar no trabalho de confronto dos alemães com o horror do Holocausto. Escreveu ele (sublinhado meu):



"Felicito a comunidade judaica em Berlim pela inauguração de seu centro comunitário, que foi reconstruído na Fasanenstraße. O meu antecessor no cargo, o nosso respeitado Professor Dr. Theodor Heuss, afirmou na carta que escreveu a esta comunidade que o desgraçado 9 de Novembro de 1938 foi um dia de crime e violação da legalidade. A reconstrução deste centro é um sinal encorajador da consolidação crescente das novas comunidades de nossos cidadãos judeus. Associo ao retorno da comunidade judaica à Fasanenstraße a esperança de que a nossa convivência volte a ser tão natural como aquela proximidade entre alemães e judeus de que Berlim era justamente um símbolo, antes de ambos os povos terem sido atingidos por um período bárbaro da História.

1. "ambos os povos" - como se os judeus alemães não fossem alemães;
2. "um período bárbaro da História" - o III Reich como uma espécie de catástrofe natural, algo exterior aos alemães;
3. "ambos terem sido atingidos" - por inacreditável que pareça, em 1959 o presidente da República Federal Alemã punha criminosos e vítimas no mesmo plano.

O politicamente correcto, hoje em dia tão criticado, nasceu da necessidade de olhar atentamente para as palavras, especialmente para a sua carga iníqua e ideológica. Aquela frase do presidente seria impensável na Alemanha actual. A quem se queixa da ditadura do politicamente correcto, porque "há sempre alguém que se ofende com o que foi dito", pergunto se preferia que continuássemos no tempo em que se falava do nazismo como um período bárbaro da História que atingiu tanto o povo alemão como o judeu.

É só um exemplo. 


25 agosto 2017

liberdade de expressão

Amanhã vai haver uma manifestação de white supremacists em San Francisco. Estou a pensar que tenho de participar na antimanifestação, e estou a morrer de medo do que possa acontecer. Em Charlottesville mostraram até onde são capazes de ir para defender a sua estratégia de conquista de poder.
(Lembram-se daquela anedota do "primeiro aviso"? É aí que estamos.)

Quanto mais olho para o nosso tempo, melhor entendo como foi possível pessoas normais terem deixado o III Reich instalar-se.

Li no San Francisco Chronicle entrevistas a moradores da área de Crissy Field, onde vai decorrer a manifestação dos neonazis. As respostas põem a tónica nos direitos individuais de quem vê a sua vida alterada devido à manifestação. Frases como "por causa de gente que defende este tipo de valores, não posso fazer o meu jogging matinal" ou "não posso passear o cão" ou "as lojas vão estar todas fechadas". Na Alemanha seria mais "é inadmissível que gente que defende este tipo de valores possa fazer uma manifestação" (ou, como diz a minha filha, "não podemos deixar que esta merda castanha volte a ocupar as ruas alemãs") (castanho era a cor associada aos nazis).

Da próxima vez que me falarem das "imposições ideológicas de carácter estalinista" que alegadamente estão em curso na Europa, vou lembrar-me disto: um país onde a liberdade de expressão permite que os neonazis saiam à rua, um povo que não tem uma matriz de valores comum à qual recorrer para analisar, criticar e impedir o que está em curso.

Tudo o que existe é válido e livre de acontecer. A História nunca existiu, e os países não têm de aprender com ela.