Esta manhã fomos passear pela extraordinária rua de St. Malo, que fica a poucos metros da nossa casa, e depois seguimos por um bairro próximo do nosso, gozando até ao fim o quilómetro que nos é concedido. Às tantas, a senhora que ia vários metros à nossa frente virou-se para trás e disse: "desculpem, mas estou a ouvir falar português - de onde são?"
E assim começou a conversa. Ela pediu de novo desculpa, mas "quando ouvimos falar português, uma pessoa até sente um calor diferente no coração, sentimo-nos quase como se estivéssemos em Portugal".
Daí a nada já estávamos a combinar que da próxima vez que o tamboril estiver com bom preço no Carrefour mas for demasiado grande eu lhe compro metade do bicho, e fazemos o arrozinho cada uma na sua casa. Também me disse onde é a loja de produtos portugueses de Brest, e contou-me as novidades mais recentes de Portugal: o pai que violou a filha de 14 anos no próprio dia da mãe. "Se eu apanhasse o meu marido em cima da minha filha, espetava-lhe uma faca nas costas! Então o homem não tinha mulher?!"
Portanto: esta manhã fui a Portugal num instantinho. Depois voltei para o apartamento francês, onde daí a pouco começou uma videoconferência com os miúdos: surpresa deles para o dia da mãe, que na Alemanha é hoje.
Em menos de uma hora estive em Portugal, na França, na Alemanha - e senti-me muito bem em todos esses países. Sou o grão de areia na engrenagem dos nacionalismos.
E não estou sozinha - há cada vez mais europeus que se sentem em casa em vários países diferentes. Venham eles: milhões de grãos de areia, uma duna sem fim para fazer titubear o passo aos nacionalismos.
PS. Caso estejam a morrer de saudades do Fox, ó aqui, fresquinho a sair do Whatsapp:
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10 maio 2020
30 outubro 2019
a caminho
Uma pessoa publica um post com imagens de uma bicicleta, põe-lhe o título "a caminho do correio", e no momento seguinte dá consigo a caminho do fim-de-semana do encontro anual da família, no país das bicicletas (na Holanda, lembro-me sempre do ar entusiasmado do Matthias há muitos anos, na nossa primeira viagem a Amesterdão: "as bicicletas têm sempre prioridade? Oh, mas isto é o país que me convém!").
De regresso a casa, descobre que tirou mais de 1000 fotografias. Um impossível, um milagre da multiplicação das imagens: como, se passou o tempo a conversar e a rir?
Começámos a fazer este encontro da família há quase um quarto de século.
Nessa altura morávamos todos no sul da Alemanha, e o destino era a
Borgonha. Em algum momento houve um interregno, e um recomeço em 2008.
Em cada ano o encontro é preparado por um grupo diferente, e temos tido
fins-de-semana lindíssimos - na Floresta Negra e na Holanda, na Alsácia
ou em Berlim. Já descobrimos que o melhor é alugar uma casa com espaço
para todos, numa região rural. As cidades dispersam-nos do mais
importante: estarmos uns com os outros.
Este ano pôs-se a questão da abertura do grupo aos namorados da geração mais jovem. Eu disse logo que sim, claro, que são eles quem me vai empurrar a cadeira de rodas e pagar o lar de terceira idade. Mas havia familiares da minha geração que preferiam manter o grupo como ele está, sem abrir a "elementos de fora". Ainda não se deram conta de que esses novos elementos do grupo são aqueles que se tornarão progressivamente as pessoas mais importantes na vida dos nossos filhos, e nos empurrarão a nós, os pais, para uma posição de "elemento de fora".
Ou talvez por isso mesmo? Talvez seja um reflexo de alguns para preservar uma constelação que sentem estar ameaçada?
Quando o Matthias tinha meia dúzia de horas no nosso mundo, a Christina pegou nele ao colo, apontou para o Joachim e disse: este é o pai. Tinha dois anos e meio, e já então nos dava lições sobre a capacidade de se adaptar a situações novas e redesenhar constelações, assumindo-se ao leme do seu espaço e do seu destino.
Estamos todos a caminho, e nem vale a pena gastar energia com a ideia de "armar três tendas" e parar o tempo.
Este ano pôs-se a questão da abertura do grupo aos namorados da geração mais jovem. Eu disse logo que sim, claro, que são eles quem me vai empurrar a cadeira de rodas e pagar o lar de terceira idade. Mas havia familiares da minha geração que preferiam manter o grupo como ele está, sem abrir a "elementos de fora". Ainda não se deram conta de que esses novos elementos do grupo são aqueles que se tornarão progressivamente as pessoas mais importantes na vida dos nossos filhos, e nos empurrarão a nós, os pais, para uma posição de "elemento de fora".
Ou talvez por isso mesmo? Talvez seja um reflexo de alguns para preservar uma constelação que sentem estar ameaçada?
Quando o Matthias tinha meia dúzia de horas no nosso mundo, a Christina pegou nele ao colo, apontou para o Joachim e disse: este é o pai. Tinha dois anos e meio, e já então nos dava lições sobre a capacidade de se adaptar a situações novas e redesenhar constelações, assumindo-se ao leme do seu espaço e do seu destino.
Estamos todos a caminho, e nem vale a pena gastar energia com a ideia de "armar três tendas" e parar o tempo.
Secção Culinária: descobrimos o gosto
Secção Foxxinho: odiou a viagem de carro. Na última etapa, sempre que o carro abrandava para uma rotunda, o Fox levantava-se ansioso, pensando que estávamos a chegar. Mas quando chegámos, foi uma festa: cavou a praia como se quisesse descobrir a passagem mais directa para a Austrália, cavou os diques como se quisesse sabotar o esforço dos holandeses acrescentarem a sua terra, encheu-se de caracoletas, encheu-se de areia, encheu-se de lama. Um cão feliz.
(não se esqueçam de reparar na folha estrategicamente colocada a tapar as partes,
para não incomodar o algorítmo)
01 setembro 2019
mais notícias do Fox
Aconteceu no facebook: publiquei um post a gabar o carácter do cãozinho que, com uma
crise de diarreia, se lembrou e se deu ao trabalho de saltar para dentro
da banheira para não sujar o chão da casa (se isto não é uma daquelas
histórias fantásticas de bichos que só se vêem no facebook, não sei o
que será!) mas os leitores repararam foi na questão da crise de diarreia, e
desataram a mandar as melhoras para o bichinho.
Mas que grande cambada de... de... empáticos!
Com leitores assim, não há maneira de conseguir que um post viralize...
Caso os leitores do blogue também sejam como os do facebook, aqui deixo um update: o Fox recuperou rapidamente. No dia seguinte já andava outra vez a fugir de mim no parque junto ao lago, e a obrigar-me a fazer as cenas tristes habituais ("ó Fox! ó Foooooooox! Anda cá! Olha uma prenda!")
Mas fiz-lhe na mesma o caldinho como me sugeriram, com frango, um fio de azeite e um pezinho de salsa para dar gosto, e premium japanese rice (deslarguem-me, era o que havia em casa), servi, chamei o Fox, e ele...
...comeu o frango, deitou o arroz para o chão, e ficou a olhar para mim com cara de "então? quando é que me dás aquela comida da lata, de que gosto tanto, hã?"
Biqueirinho do caraças, pá.
Mas que grande cambada de... de... empáticos!
Com leitores assim, não há maneira de conseguir que um post viralize...
Caso os leitores do blogue também sejam como os do facebook, aqui deixo um update: o Fox recuperou rapidamente. No dia seguinte já andava outra vez a fugir de mim no parque junto ao lago, e a obrigar-me a fazer as cenas tristes habituais ("ó Fox! ó Foooooooox! Anda cá! Olha uma prenda!")
Mas fiz-lhe na mesma o caldinho como me sugeriram, com frango, um fio de azeite e um pezinho de salsa para dar gosto, e premium japanese rice (deslarguem-me, era o que havia em casa), servi, chamei o Fox, e ele...
...comeu o frango, deitou o arroz para o chão, e ficou a olhar para mim com cara de "então? quando é que me dás aquela comida da lata, de que gosto tanto, hã?"
Biqueirinho do caraças, pá.
26 agosto 2019
um cão que vale mais que todos os gatos do facebook
Durante duas semanas o Fox vai ficar comigo, e parece que se está a dar mal com a comida nova que lhe comprei. Tem o aparelho digestivo meio avariado, coitadinho.
A meio da noite fui à casa de banho, e vi uma grande mancha castanha na banheira. Suspeitei que tivesse entrado mais um pássaro pela janela aberta, e tinha de ser um passarão, a julgar pela quantidade de porcaria que largara ali. Não me ocorreu que o Fox conseguisse a proeza de saltar para dentro da banheira para se aliviar de um ataque de diarreia - ou sequer se lembrasse de ter essa delicadeza para connosco. E nem quando vi outro "presente" junto à tigela dele me ocorreu que fosse o Fox. Perguntei-me apenas que passarão seria aquele, que fazia um cocó tão grande...
De manhãzinha estava na cama, perto de mim, a arfar e com o coraçãozinho a bater muito depressa. Levantei-me e levei-o logo à rua. Nem chegou à rua: foi a correr para o canteiro das árvores junto ao muro do jardim: mesmo aflito de diarreia, tem a delicadeza de não fazer cocó nos sítios onde passamos.
Sinceramente: não sei como nos aconteceu este amor de cão.
10 janeiro 2019
o palerma do Fox
Está uma pessoa descansadinha a trabalhar e toca o telemóvel:
- Boa tarde, estou a falar da Tasso. Tenho boas notícias: o seu Fox já foi encontrado...
(O quê?! estava perdido?!)
- ...andava a vaguear junto a um supermercado na Müllerstrasse
(Na Müllerstrasse?! Isso é longíssimo!)
- ...mas já o encontraram, e já lhe deram de comer, parece que estava cheio de fome, comeu a lata inteira num instante.
- Oh, não sabia que ele estava perdido. Agora vive com o meu filho, vou já ligar-lhe.
- Aparentemente já andava há muito tempo por ali...
(Ai que vergonha! A fazer figura de cão abandonado! Será que apanhou a porta aberta e fugiu sem ninguém reparar? Quando é que isso terá acontecido?)
- ...e uma senhora recolheu-o, deu-lhe de comer, e telefonou-nos. Vou-lhe dar o número de telefone dela, para o poderem ir buscar.
Telefonei ao Matthias. Devia estar em aulas, não atendeu.
Telefonei à Christina, para o caso de estar por perto da cena. Também nada.
Telefonei a uma vizinha do Matthias, que adora o Fox e costuma ir passear com ele. Atendeu, a gaguejar, muito nervosa:
- Já encontrei o Fox! Ai, que grande susto!
- Estás com a senhora que o encontrou?
- Sim! Fui passear com ele para o parque, e ele fugiu-me.
- E como é que conseguiste encontrá-lo?
- Quando não o vi em canto nenhum do parque, fui pelas ruas a gritar o nome dele o mais alto que podia, e a chorar. A senhora ouviu, e veio ter comigo.
Oh pá, Fox, meu palerma! Andas por Berlim a fazer figura de sem-abrigo, quase provocas um ataque de coração à tua maior amiga, obriga-la a fazer cenas dignas de um dramalhão, e ainda pões olhinhos de quem não come há mais de três quinze dias para te abarbatares com uma caixa inteira de comida!
E aposto que foste para casa com um arzinho todo lampeiro e satisfeito.
20 novembro 2018
18 novembro 2018
é com alegria que anuncio o regresso de... (um doce para quem adivinhar)
Não, não é o regresso do Outono glorioso. Podia ser, mas não é.
Também não é o regresso do Inverno: em pezinhos de lã, revelado nas pérolas de gelo que debruam as folhas do caminho. Não, não é bem isso.
O regresso que anuncio com alegria também não é o anoitecer no lago, pouco depois das cinco da tarde.
Era o que faltava, alegrar-me por estes dias tão curtos!
Não senhores. Nada disso.
O regresso que anuncio é o deste simpático. Voltou cá a casa por uns dias!
Recomeçaram os passeios, o vagar para reparar na luz das árvores de Outono contra o céu azul, nas folhas desenhadas pela geada, na lua do lago ao fim do dia.
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da minha vida vê-se um lago,
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27 julho 2018
e lá foi ele outra vez
Mais um jantar de despedida: ontem, na casa dele. Convidou os amigos, eu fiz carradas de comida vegetariana e levei para comermos juntos. Uma das coisas que me dá prazer em ser mãe destes filhos é a naturalidade com que juntam relações e gerações diferentes.
O Fox voltou para a nossa casa. Coitadinho.
E como de costume quando o Matthias voa, há problemas na sua rota. O avião saiu de Berlim com mais de uma hora de atraso devido a um temporal algures. Espero que ainda dê tempo para mudar em Londres (e comprar uma garrafinha de vinho do Porto para a família onde vai morar - sim, que o rapaz está a sair para dois meses, mas leva apenas bagagem de mão). E que não se esqueça de olhar pela janela à hora da eclipse da lua.
E que corra tudo bem.
03 julho 2018
a vida no Instagram tem muito mais charme
O Fox tem uma página (fechada) no Instagram, e eu estou um bocadinho viciada nos filmes, fotos e comentários engraçados que o Matthias e os amigos lá põem. De tal maneira que esta semana, apesar de ter o Fox comigo, volta e meia dei comigo a caminho de ir visitar a página dele no Instagram, para ver se havia novidades.
Um dia destes ainda me vêm pedir que entregue o meu cérebro à Ciência.
[Esta série de fotos podia chamar-se "à espera". As duas primeiras são à espera que eu acabe de regar o jardim, que está com as cores do Alentejo em Agosto; a última é já depois do passeio ao lago e da banhoca, à espera que eu acabe de fotografar o último damasco da colheita deste ano, antes de o dar ao Matthias.]
27 junho 2018
Tântalo
Hoje cruzámo-nos com duas cadelas que estavam no cio.
Pobre Fox, vai passar os próximos dias a passear preso na trela.
Já não lhe bastava estar outra vez na casa da madrasta, coitadinho.
(Sim, voltou. Voltei ao lago. Já nasceram os cisnes, depois conto.)
24 maio 2018
Fox! ó Fooooooox!
O Fox nunca me teve muito respeitinho. Mas agora que vive com o Matthias, e sabem ambos quem manda, é que não me tem mesmo respeitinho nenhum. Veio cá passar o fim-de-semana prolongado, e logo no primeiro dia fugiu-me duas vezes. Enfim, ele deve pensar que não está a fugir, está apenas a ir à sua vida, e que ninguém me manda parar a conversar com uma vizinha ou a tirar fotografias quando ele tem outros planos para o seu tempo.
De modo que toda a rua sabe em que dias o Fox está cá: é quando eu ando por aí a gritar "Fox! ó Foooooox!"
Valem-me os vizinhos, que avisam: foi por ali, foi por acolá, não passou aqui.
Vale-me ele saber o caminho de casa: depois de eu dar uma volta inteira ao lago à procura dele ("Fox! ó Foooox!"), vou encontrá-lo calmamente deitado na relva do jardim, à minha espera.
E vale-lhe eu regressar a casa já com o filme todo na cabeça ("ai, coitadinho do Fox, quem será que o levou e como o vão tratar, logo ele que é tão sensível, etc."), e ficar tão contente por o ver em casa que nem ralho nem nada. Ele vê-me chegar, abana a cauda - e eu, se cauda tivesse, fazia o mesmo.
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17 maio 2018
Fox News
Os dias têm estado lindos, mas sem o Fox acabo por não sair de casa para os gozar. Quando o Fox morava aqui eu tinha menos tempo, mas mais qualidade de vida.
Recentemente veio cá passar uns dias, e deu para ver que esta já não é a sua casa. Por saber que ele se sente feliz lá na sua nova casa, convivo melhor com o vazio enorme que aqui se fez.
E depois... we will always have instagram.:)
(Nesta última, gosta especialmente da cara dele a olhar para o fotógrafo com ar de "vai tu buscar aquela bola, que eu não me quero molhar")
03 maio 2018
sous les pavés...
Sous les pavés...
Num dos passeios com o Fox reparei por acaso que as pocinhas de água junto aos passeios nos davam a ilusão de haver outros mundos por baixo da rua. Por brincadeira, comecei uma série "sous les pavés". Publico-a hoje aqui - como homenagem ao Maio de 68, que por estes dias comemora o cinquentenário.
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