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18 junho 2018

ontem não teria querido estar em nenhum outro sítio

Ontem assisti ao penúltimo concerto de Simon Rattle na Filarmonia. Melhor dizendo: haverá outros, mas ele será então o maestro convidado, e não o director da orquestra. Na próxima semana ainda há a sexta de Mahler (dizem que está esgotadíssima), e no domingo 24 terá a despedida na Waldbühne, após 16 anos à frente dos Filarmónicos de Berlim.

É uma espécie de fim do mundo. Do mundo como me habituei a ele: foi Simon Rattle quem iniciou o Digital Concert Hall, o programa Tapas (encomendas a compositores contemporâneos para peças marcantes mas de curta duração), o Education Program (que me permitiu cantar duas óperas sob a sua direcção), o Late Night. Foi ele que recriou com Peter Sellars as Paixões de Bach de tal maneira que me pergunto como eram elas antes dessa invenção. Foi ele que pôs uma das melhores orquestras do mundo a trabalhar com crianças dos extractos sociais com menos acesso à cultura. Foi ele que abriu aquela casa a projectos de acolhimento e integração de refugiados. E paro por aqui, sem saber se me brotam lágrimas de alegria e gratidão, ou de saudade antecipada, ou ambas. 

Ontem havia dois concertos: um às sete da tarde, dirigido por Simon Ratlle, seguido de um Late Night muito especial, com um programa surpresa preparado pelos músicos para oferecer ao seu maestro.

Tinha bilhetes para os lugares por trás da orquestra para o concerto das sete da tarde ("The age of Anxiety", de Bernstein, seguida de estreia de três "Tapas" encomendadas a Lindberg, Norman e Dean, "Tom and Jerry" - sim, isso mesmo! - de Bradley e "The adventures of Robin Hood", de Korngold). Saí de casa tardíssimo, e cheguei à Filarmonia apenas cinco minutos antes das sete. O problema é que tinha um bilhete para vender, e àquela hora os interessados já estavam servidos, ou tinham desistido. Atirei-me a uma senhora que ainda por ali andava. Ela estava muito indecisa: viera de Frankfurt para o open air com Barenboim e a orquestra da Staatsoper na Bebelplatz, tinha bilhete para ir ao Late Night, e achava que três concertos num dia só era demasiado. Além disso, não estava vestida para ir à Filarmonia - mas ela própria reconheceu que em Berlim isso não era importante. Finalmente, acabou por se decidir a comprar-me o bilhete, e levei-a comigo para os lugares atrás da orquestra, que ela não conhecia. No intervalo toda ela se desfazia em sorrisos, dizendo-me da sua felicidade por estar de frente para o Simon Rattle, e tão perto que quase se sentia parte da orquestra.



Ouvir ali a Sinfonia de Bernstein foi uma experiência única. Houve momentos em que a percussão fez saltar as pessoas na primeira fila. No final, o pianista Krystian Zimerman depôs o seu ramo de flores junto à partitura do Bernstein, em homenagem ao compositor que teria feito 100 anos em Agosto. A seguir disse meia dúzia de piadas e tocou uma peça dedicada a ele, na qual misturava a Sonata ao Luar de Beethoven ("um holandês", disse o brincalhão) e o Happy Birthday. Mas o mais inesperado estava para vir: os três músicos que faziam os efeitos especiais do Tom e Jerry tinham vindo sentar-se entre nós, nos bancos por trás da orquestra, e fartaram-se de fazer palhaçadas ali mesmo. Foram tão divertidos que fiquei com um sorriso preso à cara que durou até ao final do Robin Hood. Se tiver azar, vou ficar para todo o sempre no arquivo do Digital Concert Hall a ouvir o Korngold com cara de muito divertida.

No final, o público aplaudiu ainda mais que de costume. Depois da saída dos músicos, quando as pessoas já avançavam em direcção às portas, Simon Rattle voltou ao palco como faz habitualmente. A sala rebentou de novo em aplausos. À minha volta, algumas pessoas começaram a chorar.


Saí, encontrei-me com a Christina, entrámos para o Late Night. Por uma incrível sorte, tinha conseguido bilhetes na primeira fila do bloco A. Tudo fantástico, excepto as câmaras do Digital Concert Hall viradas a nós, que estávamos a fazer de público. A Christina avisou-me para não coçar o nariz, e treinámos um bocadinho a posição das pernas para parecermos senhoras elegantes. O concerto começou. Sarah Willis, encantadora como sempre, agradeceu a um Simon Rattle - sentado algumas filas atrás de nós - por se ter dado ao trabalho de vir assistir ao concerto que lhe queriam oferecer. Começaram com uma peça escrita por John Adams especialmente para essa noite, "Rattle my Cage". Ao ver o nome projectado na parede, fiz sinal à Christina: "olha, rest my case!", e ela respondeu com um olhar zangado. Alguma vez chegaria o dia em que a minha filha me havia de chamar a atenção como eu lhes fazia quando eram miúdos e não estavam em silêncio absoluto na Filarmonia. E foi logo no dia em que estávamos sentadas na primeira fila do bloco A, com as câmaras viradas a nós. Cá se fazem, cá se pagam...
Depois de Adams, os "Sir Simon all stars" subiram ao palco: os cantores Mark Padmore e Christian Gerhaher, os pianistas Ohad Ben-Ari e Mitsuko Uchida. Magdalena Kozená viria juntar-se a eles pouco depois, levantando-se do lugar ao lado do marido com um berro que se tornou música - uma peça sobre feminismo que termina de modo surpreendente. O dueto de Brahms "die Meere", cantado por Padmore e Gerhaher, foi para mim o momento mais poético da noite: pela melodia, pela perfeita harmonia das duas vozes, e pela delicadeza da interpretação de Mitsuko Uchida, em cujo rosto se reflectia a música que lhe saía dos dedos.

A orquestra entrou em palco, e Sarah Willis explicou que queriam tocar a peça favorita de Simon Rattle, mas não tinham conseguido perceber qual era, pelo que tiveram de arranjar outra solução. Dirigidos por Daniel Harding, um maestro que iniciou a sua carreira pela mão de Rattle (e depois Abbado), tocaram uma rapsódia de temas que fizeram história nesta era de Rattle em Berlim, com arranjo de Aurélien Bello. Eu a ouvir, e a lembrar os momentos em que aquelas músicas se entrelaçaram na minha vida: lembro-me tão bem da surpresa ao receber bilhetes de um casal amigo para irmos ouvir o Sacre du Printemps, ou daquela noite em que o Matthias chegou a casa tarde, depois do seu trabalho na Filarmonia, e me quis mostrar o solo das trompas no final da quinta de Sibelius que ouvira na transmissão para o foyer, mas a versão do Bernstein não o convenceu - disse: "oh, os nossos tocaram isto muito melhor!" ("os nossos"!). Lembro-me tão bem do ar encantado de Simon Rattle no ensaio geral da Paixão segundo São Mateus ao ouvir o violino solista a tocar "Erbarme Dich, mein Gott".





E agora tenho ainda mais para lembrar: o rosto doce de Mitsuko Uchida, sentada no palco, e o seu corpo a ondular suavemente como uma alga no fundo do mar ao som daquele mesmo solo de violino. 

Por essa altura do concerto já tinha a certeza de que não quereria estar em nenhum outro sítio do mundo naquele momento, senão naquela sala, naquele lugar. E a Barbara Hannigan ainda não tinha entrado em cena para dirigir e cantar simultaneamente "Crazy Girl" de Gerschwin. Vertiginosa, tudo. Desde a voz, de nuances ricas e muito segura, até à coreografia enérgica da direcção. Dança moderna, da melhor. E depois, os seus dedos esguios largados no ar, aquela roupa, o pormenor da esfera junto ao tacão das botas. Só visto. Estava a acontecer a meia dúzia de metros de mim, e eu ia ficando sem olhos, de tanto os esbugalhar.

A "Crazy Girl" terminou com um olhar de matador na direcção de Simon Rattle, o público quase saltava das cadeiras por aplaudir com tanto entusiasmo, e os músicos concentraram-se em semicírculo no centro do palco, para o último ponto do programa. A Sarah Willis comentou que há duas coisas que músicos profissionais nunca devem fazer em público: cantar e dançar. "Fiquem descansados, não vamos dançar", disse ela. Abriram as partituras, e cantaram a vozes uma canção criada especialmente para agradecer a Simon Rattle estes 16 anos de entrega, e também „We learned from you/our English knowledge too“. Alguns deles não conseguiam esconder a emoção.

No final houve festa para as pessoas da casa, e por ser o meu dia de sorte, de super-sorte, convidaram-me como acompanhante. De modo que andei por ali no meio de tantos músicos que me fascinam, assisti ao entusiasmo de uma senhora do sector administrativo a contar que tivera finalmente a coragem de ir agradecer ao Simon Rattle tê-la feito gostar de música clássica, e este lhe ter dado um abraço apertado, assisti aos discursos (e à Angela Merkel a aplaudir quando se falou do trabalho da orquestra com os refugiados), à entrega do presente muito especial que a orquestra encontrou para aquela despedida, e a um Simon Rattle comovido, feliz e sem palavras. Depois um grupo da América Latina começou a tocar salsa e outras latinadas, e quando dei por ela eram três da manhã.

Foi uma noite tão extraordinária que até me esqueci que era a despedida do Simon Rattle de Berlim, e que isto é uma espécie de fim do meu mundo. Vim para casa a levitar.

13 maio 2018

trocar as voltas à insularidade


Hoje foi dia de trocar as voltas à minha insularidade: Portugal na Filarmonia!
Um solista português, o tenor Paulo Ferreira, a cantar o Requiem de Verdi. E eu ali, no bloco B, a ouvir encantada o tenor cuja voz enchia com força e beleza a sala enorme. Um momento inesquecível! 

No fim do concerto fiz as contas a esta minha vida: à parte alguns bolseiros portugueses da Orchestra Academy (que agora se chama Karajan Academy), portugueses naquele palco ainda só tinha visto a pianista Maria João Pires e o maestro Cesário Costa. E agora o Paulo Ferreira.
Que venham mais! Para nos dar a alegria de ver aqui reconhecido o valor dos nossos compatriotas.

E para que ninguém se queixe de eu andar a açambarcar tudo o que é bom, Paulo Ferreira e Filarmonia ao mesmo tempo, uma boa notícia: o Paulo Ferreira vai cantar este requiem em Lisboa em Novembro. Estejam atentos.

(Pela minha parte, agora já só falta mesmo trocarem as bretzeln por pastéis de nata nos bares da Filarmonia de Berlim. Aí é que deixava mesmo de poder fazer o choradinho da insularidade! ;) )


13 abril 2018

regresso ao futuro

Ontem regressei à Filarmonia para espreitar para o seu futuro: vi pela primeira vez Kirill Petrenko a dirigir a orquestra que o escolheu para substituto do Simon Rattle.
A primeira peça foi o "poema dançado" La Péri, de Paul Dukas. O Kirill Petrenko dançou-o tão bem que até me esqueci de olhar para os músicos. Nem me lembrei de reparar no Ottensamer! - é só para verem como o Petrenko dançou bem.




A segunda peça foi o concerto nº 3 para piano de Sergej Prokofjew, e a Yuja Wang tocou-o tão bem que até me esqueci de reparar no Petrenko. Não consegui tirar os olhos dos dedos vertiginosos da pianista - e, concedo, das suas costas nuas no vestido também vertiginoso (podem ler mais abaixo, na secção Caras). Ocorreu-me que quem devia estar sentado no lugar do concertino era o Michelangelo, a apreciar o jogo dos músculos sob a pele enquanto ela se entregava àquelas extraordinárias acrobacias no teclado.



A terceira peça foi a quarta sinfonia de Franz Schmidt. Por essa altura já eu estava habituada ao estilo do maestro, e sem a Yuja Wang na sala, pude concentrar-me inteiramente nesta obra (e às vezes no Ottensamer).
Traduzo do programa: Schmidt terminou esta peça em Novembro de 1933, na sua casa nos arredores de Viena. A sinfonia reflecte a sua trágica biografia: em 1919 a sua mulher fora internada na psiquiatria (onde viria a ser assassinada em 1942 no âmbito do programa de "eutanásia" nazi), e a filha de ambos, Emma, morrera em 1932 após um parto. Schmidt chamou a esta sinfonia "requiem para a minha filha". 
Como será possível escrever algo tão belo a partir do turbilhão do sofrimento pessoal e daquele tempo?



Durante todo o concerto lembrei-me do comentário de um dos músicos, ao dar a conhecer a decisão da orquestra. Contou ele que a princípio foi muito difícil escolher o substituto de Simon Rattle, mas quando o nome de Kirill Petrenko veio à baila deram-se conta de que os poucos concertos da orquestra com ele tinham sido momentos realmente especiais. Depois do concerto de ontem, só posso acrescentar: acredito, e não me admiro.

Conclusão: parece-me que estão reunidas as condições para, mesmo depois da saída de Simon Rattle, continuar a ser muito feliz na Filarmonia.

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Secção CARAS deste post:

A pianista Yuja Wang é também conhecida pelos vestidos que usa em concerto. Já a vi num que era uma aflição, tudo tão résvés que sabia-se lá o que podia acontecer se ela tocasse mais uma notinha que fosse sem estar na partitura. Mas dessa vez correu tudo bem, e o concerto foi inesquecível.
A verdade é que todos os concertos da Yuja Wang são inesquecíveis, e não é por causa dos seus vestidos.
Desta vez trazia um vestido como nunca vi num palco destes. Vermelho, de rendas fugazes sobre a pele e muitos brilhantes. Se não fosse comprido - comprido mas transparente, claro, que estamos a falar do estilo Yuja Wang - era mais tipo patinagem artística. Pude apreciar o conjunto com calma durante a sessão de autógrafos: o tule transparente sobre a pele, o desenho das rendas, e os sapatos de salto tão alto que ela ainda se arrisca a não receber indemnização do seguro caso caia dali abaixo e parta uma mão. Também pude apreciar o seu estilo: simpática, despachada, desenrascada a resolver os problemas de quem não sabia como tirar uma selfie com ela.






22 fevereiro 2018

notícias da Berlinale e, para não variar muito, daquelas palavras começadas por F


Este ano não vi muitos filmes da competição, mas estava capaz de apostar que o documentário Eldorado, do suíço Markus Imhoof, vai levar o Urso de Ouro.
Outro filme que me correu bem hoje foi Becoming Astrid, de Pernille Fischer Christensen, sobre a Astrid Lindgren. Encantador. Encantadora.
O último do dia é que estragou tudo: pensava eu que ia ver um Bollywood, com cores e danças e tudo, e saiu-me uma espécie de catálogo de experiências sexuais queer, e de uma agressividade atroz. Garbage! Já nem no cinema indiano se pode confiar?...

Salvou-me o Simon Rattle, que nunca falha. E também o Barenboim ao piano, no concerto nº1 para piano e orquestra de Béla Bartók. Gostei imenso do diálogo entre o seu piano e a percussão, no segundo andamento (no vídeo: começa a 10:03).
Para que conste: no dia 22 de Fevereiro de 2018 Barenboim tocou como encore "La Fille aux Cheveux de Lin" na Filarmonia de Berlim, e não houve uma única pessoa a tossir na sala. Se isto não é um sinal sério do fim do mundo...

Depois do concerto fui a toda a velocidade para casa, para ir passear o Fox. Sim, voltou! Mas só por um dia. No autocarro, uma amiga comentava que as fotos do post anterior davam a entender que o Fox se tinha ido embora definitivamente. Não, nada disso. Eu é que estou a reagir à maneira de cão: de cada vez que ele se afasta, sinto-me como se fosse para sempre.

Daqui a nada levanto-me para ir dar a primeira voltinha do dia com ele, e depois, à hora a que o sol aparece ao fundo da Westfälische Straße, saio para a correria dos filmes. Quem corre por gosto...








29 dezembro 2017

morte lenta

Se é mesmo verdade que na hora da morte o filme da nossa vida passa por nós, espero ter - daqui a muitíssimos anos, claro - uma morte tão lenta que dê tempo para ouvir a Joyce DiDonato a cantar canções de Richard Strauss.
Como cantou hoje. Sublime.

O concerto de ano novo da Filarmónica de Berlim vai passar na Arte no domingo, 31.12., a partir das 17:40 (hora portuguesa), e na radio RBB (Kulturradio, livestream) passa a partir das 16:25. 






12 dezembro 2017

bela por fora e por dentro


 
Três concertos em dois dias: Maria João Pires, Late Night com Simon Rattle ao piano, e voltar no dia seguinte aonde fui feliz, para ouvir o mesmo concerto da pianista.

Simon Rattle toca piano com a mesma energia que põe na direcção da orquestra. O seu pequeno concerto teve graça, mas convenhamos que é preciso coragem (ou inconsciência) para se sentar ao piano pouco depois de a Maria João Pires ter estado naquela sala.
Tocou a sonata em sol menor de Debussy com Daishin Kashimoto, e o Quatuor pour la fin du temps, uma peça que Olivier Messiaen escreveu num campo de prisioneiros de guerra dos alemães. A sorte de Messiaen (e nossa) foi ter-se deparado com um tal de Franzpeter Goebels como comandante do campo. Este Goebels, um músico chamado a cumprir serviço militar na guerra de Hitler, deu a Messiaen os meios necessários para compor a sua peça, e permitiu que a estreia mundial se realizasse no campo, perante 400 prisioneiros. E depois ainda há quem diga que a Arte não serve para nada...
Não sei como seria a qualidade dos instrumentistas que também eram prisioneiros no campo, nesse desgraçado ano de 1941. Em 2017, ter um Wenzel Fuchs a tocar o solo de clarinete em "Abismo dos pássaros" foi assombroso.
Aliás: de todos os músicos daquele quarteto, o pianista era o menos brilhante...   



 

Este foi o momento, no fim do concerto de domingo, em que Maria João Pires ofereceu ao maestro uma rosa do seu ramo. A sala inteira desatou a rir porque ela não conseguia soltar o pé da flor, e acabou a oferecer apenas uma rosa a modos que decepada.
Os dois concertos foram excelentes - como seria de esperar de Maria João Pires e de Herbert Blomstedt. Assisti ao de domingo com sentimentos contraditórios: a felicidade de estar ali naquele momento, e a tristeza de saber que provavelmente não volto a ver nenhum deles em palco. 

Mas guardo comigo a graça dela a propor os temas à orquestra, a elegância das frases, o equilíbrio entre expressão e contenção. E do maestro Blomstedt, esse extraordinário homem que aos noventa anos ainda consegue transmitir a energia da música com todas as fibras do seu corpo, guardo a dinâmica "molto dansabile" que deu à versão original da terceira sinfonia de Bruckner.

 


a minha melhor festa de Natal com os portugueses de Berlim



Pela primeira vez em sete anos fui à festa de Natal da comunidade portuguesa em Berlim sem ter nela qualquer responsabilidade. Fui de férias, a bem dizer. Tão de férias que nem me lembrei de fotografar a festa para divulgar na respectiva página do faceboook.  

Nas festas anteriores andava numa roda-viva, a acudir a tudo e a fazer tudo ao mesmo tempo - o que deu cenas um bocadinho gagas, como por exemplo daquela vez em que a chegada do Embaixador coincidiu com o momento em que eu ia levar o almoço aos técnicos do som, que não podiam sair da sua sala. Ainda tentei que a co-organizadora da festa o fosse receber, mas ela estava nesse preciso momento no palco a saracotear um bacalhau, em pleno leilão. Como é que se cumprimenta respeitosamente um Embaixador enquanto se equilibra uma jardineira, mais um rancho, mais uma feijoada, mais meia dúzia de rissóis, mais uma salada? Valeu-me a excelente preparação dos diplomatas portugueses, que lhes permite disfarçar muito bem - nem deitou as mãos à cabeça nem disse "foi para isto que me alistei?!", nem foi para a casa de banho respirar fundo vinte vezes, nem nada. Provavelmente só fez uma nota mental, "da próxima vez, pedir a alguém do staff que vá à frente ver se alguma daquelas profissionais do multi-tasking está com as mãos livres".

Mas este ano, o da graça de 2017, oh, maravilha!, estava de férias. Com tempo para comer, saborear a música, conversar com todos. Da minha mesa, junto à entrada, via passar a comunidade: a senhora com uma certa idade e passos inseguros (a quem eu às vezes dava boleia, e de quem me esqueci completamente este ano, por "estar de férias" - ooops!). O melhor florista do meu bairro, que é português, a quem apresentei a amiga que acabara de elogiar um ramo de flores que ele fizera. A professora com quem preparámos a ida do realizador Eduardo Brito à escola portuguesa. Uma senhora muito simpática, que estava a comer à minha mesa, e que só ao fim de muita conversa descobri que era não-sei-quê-militar na Embaixada (e foi logo no momento em que tinha a boca cheia de bacalhau assado, nem deu para bater continência nem dizer "excelência", ou lá o que se faz nesses casos). Os músicos com quem combinei um concerto para daqui a uns tempos (depois conto). Podia ficar mais meia hora a contar com quem falei, mas como hoje não é o dia internacional da cusquice, adiante.

Sinto-me muito grata à associação Berlinda por ter proporcionado à comunidade portuguesa esta festa - e a mim dois meses sem canseiras. E mais uma vez me comovi com a generosidade daqueles que dão tanto para tornar possíveis festas como esta: veio um grupo enorme da missão católica em português, e abriu a festa com temas do Natal. Veio o fadista António Brito, que vem sempre com o seu bom humor e a alegria contagiante. Vieram a Ana Rocha e o Filipe Duarte, cujo trabalho não conhecia e me encantaram (aquele fado acompanhado por guitarra jazz foi qualquer coisa!). Vieram os Filhos da Madrugada, e trouxeram-nos o Zeca Afonso. E talvez tenham vindo ainda outros, mas  fui embora antes do fim, porque queria ir ao concerto da Maria João Pires.
Comprei uma caixa de pastéis de nata ainda quentinhos, e saí com uma amiga.

Nevava copiosamente. Fomos em ritmo de pára e arranca até à filarmonia, porque a cada momento parávamos para fotografar a cidade transfigurada. Ao chegar, uma óptima surpresa: ainda havia bilhetes, e a um preço acessível. Fiquei tão grata que até ofereci dois pastéis de nata às senhoras da caixa. Na sala, acabei sentada ao lado de um trompista português que toca numa orquestra alemã, e observava atentamente o trabalho do Stephan Dohr. Disse-me que a sala estava cheia de portugueses. Estava, pois! De tal modo que à saída encontrei outro casal amigo, e fiquei tão contente que lhes ofereci dois pastéis. Só sobraram dois, à risca para a minha gente em casa.

Continuava a nevar, e recomeçámos a fotografar, extasiadas. No autocarro, a minha amiga deu-me um dos pastéis que ela própria comprara, batemos as natas uma na outra como se fossem taças de champanhe, dissemos "à saúde!" e rimos - e assim acabou o meu belo dia de festa de Natal com os portugueses de Berlim.

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Ontem olhei com outros olhos para o caixote cheio papéis do grupo "Portugueses em Berlim", que me atravancava o escritório há vários anos. Guardei os mais importantes. Deitei fora as senhas, as rifas e os flyers das festas passadas, e o próprio caixote. Finalmente fui capaz de aceitar a implosão deste grupo, e de fechar esse capítulo. Outros virão para criar momentos de encontro para a comunidade portuguesa. "Outros amarão as coisas que amei".


09 dezembro 2017

Maria João Pires em Berlim!

Este fim-de-semana a Maria João Pires dá três concertos em Berlim.
Uma amiga minha foi ontem, e enviou-me no fim do concerto um sms cheio de superlativos, "momento único!" e "danke! danke! danke!"
Hoje é a minha vez de mergulhar no segundo "momento único!" deste fim-de-semana.

Mas, para não virem dizer que sou mete-nojo e sei lá o quê, aqui deixo um presentinho.
O concerto vai ser transmitido em directo no Digital Concert Hall. Entrem neste link, e usem este voucher: PRM78ED45
Dá direito a
uma semana de acesso ao digital concert hall (sete dias consecutivos, voucher válido até ao fim de Dezembro deste ano, ou, se o usarem hoje, até ao próximo sábado).
Depois deste concerto, permaneçam em linha, porque a seguir transmitem um Late Night com Simon Rattle a tocar Debussy ao piano.

Se gostarem do serão, ficam com uma boa ideia para presentes de Natal: um mês ou até um ano de acesso ao Digital Concert Hall. Com dois clicks e uns euritos têm com que fazer alguém feliz.

[Acrescentei esta frase porque estou cheia de medo de ir para a cadeia por andar a divulgar aquele voucher assim na internet, e tratei de transformar isto em publicidade. Alguma coisa ando a fazer mal: outros bloggers ganham a vida a fazer publicidade, e eu, o máximo que consigo, é não ir parar à cadeia. Se tiver sorte...]



[Aos mais cuscos: vou estar sentada por trás da orquestra, com um casaco em estilo Mondrian.]



29 setembro 2017

depois do concerto

Depois do concerto de ontem na Filarmonia juntou-se um grupo enorme de pessoas na paragem do autocarro. Quando este chegou, apinhámo-nos lá dentro como pudemos. O condutor começou a falar pelo microfone:

- Boa noite a todos! Espero que tenham tido um belo serão. Agora vão aqui apertados - mas têm uma vantagem: não precisam de se preocupar com agarrar-se bem para não cair.

Gargalhada geral. O condutor continuou:

- Por favor, não se irritem com as condições desta viagem. Olhem à esquerda e à direita, pode ser que encontrem alguém com ar simpático que queiram vir a conhecer melhor. Aproveitem a oportunidade, sabe-se lá quando é que vão voltar a ter tanta proximidade humana...

Aplausos e risos.

- Mas estejam também atentos às carteiras. Às vezes há por aí carteiristas. 

À chegada ao zoo, avisou:

- Estamos a chegar ao nosso destino. Antes de saírem verifiquem se não esqueceram nada. Pode poupar-vos muitas correrias amanhã. Desejo a todos uma boa noite, e um bom caminho até casa, até ao hotel, ou até onde queiram ir.


Uma multidão a sair de um autocarro, e todos sorriam.


Hindemith e Brahms na Filarmonia (um post com brinde)

Ontem assisti a um concerto memorável na Filarmonia de Berlim, desculpem o pleonasmo.

E para não dizerem que sou mete-nojo, aqui deixo um brinde para quem o quiser ver em directo: a transmissão vai ser no Digital Concert Hall amanhã, sábado, às sete da tarde em Berlim (seis em Portugal). Entrem no site, inscrevam-se, e quando vos pedirem o código, escrevam BLG78X48. Assistem ao concerto e ficam com o DCH aberto durante 48 horas consecutivas.
Encontrei o voucher no programa do DCH para esta temporada. Espero que a empresa me pague a publicidade, em vez de me meter na cadeia por considerar que divulguei um segredo deles.

Vejam (e, se gostarem, considerem dar aos vossos amigos de presente de Natal um voucher para uma semana ou um mês) (isto sou eu a tentar compor mentalmente a minha defesa: "senhor juiz...") e depois digam-me se o Daniele Gatti não é um mimo. 

Na primeira parte tocaram a sinfonia "Mathis, o pintor", de Hindemith.
Aos anos que ando a dizer que não gosto de Hindemith, e zimbas: lá tive de dizer adeus a mais uma das minhas manias. O primeiro andamento desta sinfonia é sublime.
Os outros também.

Do programa do concerto: Hindemith compôs esta sinfonia a convite de Wilhelm Fürtwangler, o maestro dos Filarmónicos de Berlim, que a apresenta a 12 de Março de 1934. Ao entusiástico aplauso do público segue-se a perseguição dos nazis. Göhring transmite pessoalmente a Fürtwangler a proibição, decretada por Hitler, de tocar aquela peça. Fürtwangler protege Hindemith num artigo muito franco publicado num diário alemão, a que dá o título "O Caso Hindemith". Os argumentos são bizarros, mas eram os possíveis naqueles tempos de III Reich: o compositor de "puro sangue germânico" fez muito para impor a música alemã no mundo. Afirma que se trata de "uma questão geral de princípios. Mais ainda, e também não pode haver dúvidas a esse respeito: perante um panorama mundial de desgraçada pobreza no que diz respeito a músicos que produzem com esta qualidade, não podemos dar-nos ao luxo de renunciar a um homem como Hindemith". A resposta cínica do regime nazi não se faz esperar: proíbe a execução em público de qualquer peça de Hindemith. Este decide abandonar o ensino no conservatório berlinense, e emigra para a Suíça em Setembro de 1937.

O programa alude aos paralelos entre o contexto no qual decorrem os trabalhos criativos de Hindemith e de Mathis Gothart Nithart (que entrou na História como Matthias Grünewald), e que explicam parte do ódio dos nazis a esta obra. Da wikipedia em francês, sobre a ópera de Hindemith, com o mesmo nome e temas da sinfonia: peintre et ingénieur hydraulique allemand de la Renaissance, contemporain d'Albrecht Dürer et qui a inspiré certains peintres expressionnistes du début du XXe siècle. Le livret situe l'action durant la Révolte des Rustauds vers 1525. La lutte de Mathis pour l'expression artistique dans le climat répressif de son époque est clairement le reflet de la propre vie de Hindemith, qui a commencé à écrire le livret alors que les Nazis arrivaient au pouvoir. Ceux-ci ont qualifié Hindemith de « bolchevik musical » et Hindemith s'est alors exilé aux États-Unis d'Amérique.

Deixo-vos os três andamentos da peça, com Hindemith a dirigir os Filarmónicos de Berlim, e imagens das partes correspondentes do retábulo de Matthias Grünewald (o tal Mathis) em Isenheim. Vale a pena ouvir os andamentos contemplando as imagens - podem carregar nas fotos para ver melhor).
1. Concerto dos anjos








2.  Enterro

(foto)



3.  Tentação de S. Antão

 
 (foto)










Depois do intervalo foi a vez da segunda sinfonia de Brahms.
Como este post já vai longo, ficamos assim: cada vez gosto mais de Brahms.




11 agosto 2017

como se fosse Natal: voucher para uma semana no Digital Concert Hall




Ai, estes três!

💗 💗 💗


Ora bem, meus amigos: recebi um voucher para acesso gratuito durante uma semana ao Digital Concert Hall. Vou sorteá-lo entre os amigos (ou cuscas que por aí andam) que me disserem que estão interessados. Escrevam um comentário a este post, ou mensagem privada.

(Não, este post não é escrito em parceria com os Filarmónicos de Berlim. Antes fosse. Dizia-lhes logo: oh, pagamento por este serviço de publicidade?! Ora essa, não se incomodem com isso, é um prazer! Mas se me arranjassem um colchãozito no vão de umas escadas mais ou menos esquecidas no edifício...)

04 agosto 2017

cu-cu




O diálogo dos instrumentos, o movimento da câmara, o sorriso da pianista.
Dúvida: será melhor ouvir apenas este momento encantador, ou a peça toda?

(o concerto completo está aqui, mas não é gratuito)


25 junho 2017

já foste!

Se querem saber tudo (se não querem, passem para o parágrafo seguinte): no sábado passado, dia da estreia mundial da ópera em que andei a trabalhar nos últimos dois meses, liguei o telemóvel no intervalo do almoço. Daí a nada estava a tocar. Era a Christina. "Ó mãe, saí para o jardim, a porta da casa bateu, e agora estou aqui descalça e o Fox está sozinho lá dentro!" O problema do Fox sozinho em casa é que tinha sido operado três dias antes, e estava sem o funil torturador. Não podia ficar várias horas a lamber os pontos sem ninguém o chatear. Como eu não tinha tempo de ir a casa e voltar a tempo do concerto, a Christina sugeriu encontrarmo-nos a meio do caminho. Foi a uma vizinha pedir uns sapatos emprestados, e encontrámo-nos no Zoo.

Com isso, perdi a horinha que tinha guardado para rever a partitura da ópera e assentar algumas ideias. De modo que ia sentada no autocarro, de regresso à Filarmonia, folheando o livro e repetindo febrilmente "oieoai falado, oieoai cantado 2 vezes e à segunda bates palmas", e coisas assim. O autocarro parou, um homem entrou e sentou-se ao meu lado. Cheguei-me mais para a janela para ele acomodar o corpanzil, e continuei a estudar.

- A senhora é música?, perguntou-me ele, em inglês.
- Não. Apenas amadora.
- Ah. Pensei que era música. É que eu sou. De Jazz.
Pelo ar com que o disse, imaginei que se consideraria uma autêntica lenda viva.
Sorri-lhe brevemente, larguei um "ah, que giro...", e espetei o nariz no livro.
- Se quiser, posso dar-lhe um CD.
- Obrigada... - voltei ao livro.
- Dou-lhe o meu número de telefone, você liga-me, e eu dou-lhe o CD.
Impaciente, passei-lhe um papel para as mãos, na esperança de que ele sossegasse depois de escrever o número (e agora não me chateiem, que eu estava a 35 minutos da estreia mundial e tinha a cabeça no oieoai cantado 2 vezes e à segunda bates palmas). Escreveu - com algarismos americanos - deu-me o papel, e estendeu a mão para um aperto. Estendi-lhe a minha (como quem estende um papel na esperança de que o outro sossegue depois de registar o seu número de telefone, e não me chateiem, que tinha a cabeça no aoeo em que fazemos uma vénia à rainha) e o gajo pousou delicadamente um beijo nas costas da minha mão.

- Já foste!, pensei eu, furiosa comigo própria por ter caído na armadilha. E depois semicerrei os olhos, e rosnei só para mim:
- Já foste, meu grande chato.

Largou-me a mão, e continuou:
- Tem aí o meu número de telefone, pode ligar-me, podemos tomar um café.

Apontei para o livro, e disse-lhe com firmeza que me estava a incomodar.   

Uma amiga minha, portuguesa, contou que quando veio morar para a Alemanha se perguntava o que haveria de errado com ela por não ser assediada na rua. Não estava habituada àquele sossego.
Eu, há quase trinta anos por estas terras, habituei-me bem demais. Tanto, que já nem sei desconfiar de gajos que começam uma conversa comigo no autocarro.

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Caso estejam perplexos com os textos da ópera que cantei: era a história de uma viagem à lua - a língua do povo da lua era feita só de vogais: a o e i I (ai) o u.
Como não se entende o que eles dizem, a própria música tem de contar tudo. É uma bela ópera para crianças. Um dia destes disponibilizam no Digital Concert Hall, e eu ponho aqui o link.


17 junho 2017

vou à lua e volto já



Hoje é o dia da estreia mundial da ópera "a Trip to the Monn", de Andrew Norman.

Podia contar muita coisa, mas não tenho tempo, porque antes de sair para os últimos preparativos ainda tenho de levar o Fox ao seu passeio, e ir comprar dois baldes enormes para a sardinhada que estamos a organizar para amanhã no Monbijou park. Inventam tantas teorias, e ainda ninguém se lembrou de inventar uma de círculos do tempo sobrepostos, para eu poder fazer três ou quatro coisas ao mesmo tempo. Quer dizer, isso já eu faço. Mas dava-me jeito se pudesse fazer descansadamente cada uma dessas coisas, num círculo diferente do tempo.

(Chama-se agenda, Heleninha. Basta não pôr duas coisas na mesma linha.)


Aqui podem ler um pouco sobre este projecto. Amanhã, às onze da manhã (dez em Portugal), passam em directo e gratuitamente no Digital Concert Hall. Se me quiserem reconhecer no meio daqueles lunáticos todos vestidos de branco, estou no grupo de bipolares que desce as escadas da direita. Devo ser a oitava a contar do fim.

Lunáticos, bipolares? Resumindo, é assim: um grupo de terráqueos chega à lua, e os lunáticos reagem com desconfiança. Por sorte a Pocahontas lá do sítio explica-lhes que não é preciso ter medo, e todos fazem uma grande festa, na qual a princesa explica aos visitantes como vivem os lunáticos e o medo que têm de um monstro que os persegue. Tudo vai em boa paz, até que aparece o monstro da lua e as coisas começam a correr mal. A boa vontade transforma-se imediatamente em ódio. Oh, estes lunáticos de fracas convicções, sempre predispostos a fazer de mob atrás de um líder qualquer que fale mais grosso!

A música tem passagens belíssimas, e a encenação está muito boa.

Escusado será dizer que estou a gostar imenso de participar neste projecto - mesmo se ando sempre a correr de um lado para o outro, e se faço tudo com uma décima de segundo de atraso porque ainda não tive tempo de decorar a partitura e a coreografia.







(tirei todas as fotos do site da Filarmonia de Berlim)


07 junho 2017

lágrimas e sangue



Falei há dias da peça de homenagem que Stravinsky escreveu para Rimsky-Korsakow após a morte deste que era, para o jovem compositor, mais que um mestre e amigo: quase pai.

Tenho estado a ouvi-la em repeat. Toca-me cada vez mais. Imagino o compositor a escrever cada nota pesada de perda e de saudade. Com quanto sangue, com quantas lágrimas as terá escrito?



03 junho 2017

um Chant Funèbre de Stravinsky para Rimsky-Korsakov

Quando Rimsky-Korsakov morreu, Stravinsky, que tinha na altura 26 anos, vivia com a família na Ucrânia. Precisou de mais de dois dias para chegar a São Petersburgo, mas ainda conseguiu comparecer ao funeral do seu grande amigo. 
Nas semanas seguintes compôs um Chant Funèbre em homenagem ao compositor. A peça, que Stravinsky ouviu apenas uma vez, cerca de seis meses depois daquele funeral, perdeu-se na confusão da Revolução Russa. Stravinsky acabou por esquecer a música, embora se lembrasse bem da ideia subjacente: "um cortejo fúnebre dos instrumentos solistas da orquestra, que um a um transportavam a melodia como se pousassem uma coroa no túmulo do mestre."
A peça foi procurada durante décadas, e acabou a ser dada por perdida para sempre. Até que, em 2015, ao fazer obras num pequeno armazém cheio de tralha e velharias do conservatório Rimsky-Korsakov, onde este compositor tinha dado aulas, encontraram um exemplar.
Esta semana foi a estreia da peça na Alemanha, pelos Filarmónicos de Berlim. Hoje repetem o concerto, que é transmitido em directo no Digital Concert Hall.
Se puderem, vejam. A peça é lindíssima.

Simon Rattle é tão bom a dançar Mozart como a dançar Stravinsky - é um bailarino muito versátil...

Imogen Cooper - de quem nunca tinha ouvido falar - esteve magnífica no concerto para piano nº 25 em dó maior, de Mozart.

E a Sagração da Primavera foi de tal ordem que saí do concerto bem capaz de ir a pé para casa. Pelo caminho mais longo, aliás.

(Escusado será dizer que traduzi aquelas informações do programa do concerto.) 

30 maio 2017

le voyage dans la lune

(fonte: "Le voyage dans la lune", 1902 - Jason Shulman/Guardian - fotografias de exposição ultralonga, para condensar um filme completo numa imagem só)





O Education Project deste ano na Filarmonia é uma ópera do Andrew Norman, novinha em folha, inspirada no filme "Le voyage dans la lune", feito em 1902 por George Méliès.

É a minha segunda ópera em projectos destes, e talvez seja a última - não se sabe se o sucessor de Simon Rattle vai dar continuidade a este tipo de trabalho com crianças, jovens e cantores amadores.

A estreia mundial será em Berlim no próximo dia 17 de Junho. Repete a 18, e depois será apresentada por outro elenco em Londres (com Simon Rattle e a Sinfónica de Londres) e Los Angeles (com Dudamel e a Sinfónica de Los Angeles).

A história passa-se na lua, mas vou avançando de pés bem assentes na terra: a aprender "moonish" (uma língua que só tem vogais: aeiIou, uai, ieo, aie e por aí fora), a treinar andar na lua, e fazer vénias à rainha, e acertar os meus movimentos pelos do líder de cada um dos grupos, e não me enganar na parte em que bato palmas e na outra em que só canto, e no ritmo, e nas costas redondas, e no balanço para cima e para baixo mas não para um e para outro lado, e por aí fora.

Tenho duas semanas para aprender tudo isso, e para actuar e cantar com convicção, com a certeza absoluta que é assim mesmo.

Pés bem assentes na terra, disse? Mais abaixo, mais abaixo: tenho a autoconfiança ao nível da terceira subcave.

(Mas é como diz o Pennac no seu maravilhoso Chagrin d'École: se não sei, só tenho uma solução - arregaçar as mangas e desatar a trabalhar.)




colírio para os ouvidos



Está a chegar a última temporada do Simon Rattle na Filarmonia de Berlim. Enquanto o Kirill Petrenko não vem pôr à prova a lealdade que tenho àquele meu único e grande amor (e espero sinceramente que me conquiste, porque senão estou desgraçada, que não me dá jeito nenhum passar o resto da vida com saudades do Rattle) tento não perder nenhum dos seus concertos. O problema é que ultimamente os Filarmónicos têm andado a tocar com outros maestros. Deve ser o Rattle a fazer tratamento homeopático aos berlinenses: diluição do princípio activo. 

Em finais de Abril assisti ao programa que repetiram pouco depois em Chipre (Concerto da Europa 2017, pode-se ver aqui até 31.5.17). Era com o Mariss Jansons e o Andreas Ottensamer. Clarinete é o meu instrumento favorito, e se é tocado por aquele bonitinho, então, é colírio para os...
...ouvidos, claro.

Antes do início do concerto troquei duas ou três frases com a senhora ao meu lado. Perguntei-lhe se já conhecia o Ottensamer, e ela olhou para mim com ar de quem se pergunta "mas de que planeta me saiu esta aqui?!"
Ora! Saí do planeta das que pensam que o Ottensamer nasceu só para elas. Um planeta com um único habitante.



Tocaram o concerto para clarinete nº 1 de Carl Maria von Weber. No site da ARD pode ver-se a partir do 18º minuto. No concerto que vi tocou outro encore: variações jazz sobre uma peça brasileira. Estava com uma amiga portuguesa, e apostei com ela que era a "Manhã de Carnaval" de João Gilberto. Na sessão de autógrafos com o solista, ela perguntou-lhe quem era o autor, e ele respondeu:
- Luis Bonfá.
- Ai!, exclamei eu, perplexa, e chocada por ter perdido a aposta.
- Hi!, disse ele, virando-se para mim. Mandei-lhe um grande sorriso para acompanhar o meu "Hi!" a posteriori, porque me dava demasiado trabalho explicar o mal-entendido.

Dias depois, o Simon Rattle veio dar um ar da sua graça com a oitava sinfonia de Bruckner. Não sei que aconteceu, que conseguiu tocar aquela peça de oitenta minutos em menos de dez. Por este andar, um dia destes os concertos dele ainda acabam antes de começar. 

Este fim-de-semana fui ver a Anne-Sophie Mutter, com o Riccardo Muti. Comemorava quarenta anos de colaboração com a Filarmonia de Berlim, e tocava o concerto para violino de Tchaikovsky. Preparei-me para tudo - taquicardia, dificuldades respiratórias, sei lá - mas nada. A música não funcionou. Fiquei a pensar se a culpa seria do Wolfgang Rihm - ela há tempos tocou uma peça dele, e pode bem ter ficado com o violino avariado (anda um Stradivari a criar um violino para isto: sons de camiões a travar...).
Em todo o caso: a Anne-Sophie Mutter tocava, e eu não conseguia apanhar a onda para uma nuvem qualquer. No fim, o público aplaudiu entusiasticamente em pé, o que me deixou a sensação de ter sido outra vez o único soldado que ia a marchar no passo certo.


 

 
Depois de amanhã vou atrás do Simon Rattle para o Schiller Theater. O programa promete: La Damnation de Faust, com Magdalena Kožená a dar vida a uma Marguerite que na encenação de Terry Gilliam é uma judia tentando escapar ao Holocausto. As críticas alemãs à encenação deste antigo colaborador dos Monty Python é devastadora: um cortejo cronológico e simplista com a História alemã como fundo, desde as imagens de Caspar David Friedrich até às câmaras de gás.
Mas diz que, se fecharmos os olhos para não ver todos aqueles clichés, podemos ser salvos pela arte de Rattle a conduzir a orquestra de Barenboim.

Colírio pelos ouvidos.


09 maio 2017

aparição

 



Foi ontem, na oitava de Bruckner: vi estes pássaros a nascer das mãos do Simon Rattle, e a voltear ao som do adágio entre os violinos e as estrelas da Filarmonia.





00:00 - Allegro Moderato 16:20 - Scherzo (Allegro Moderato) 32:15 - Adagio (Feierlich langsam, doch nicht schleppend) 58:40 - Finale (Feierlich, nicht schnell)

17 abril 2017

serviço público: hoje, Paixão segundo São Mateus de Bach, com encenação de Peter Sellars, transmissão gratuita



Esta é a peça mais extraordinária de todas as que vi até agora na Filarmonia de Berlim. Acabei de descobrir que hoje está disponível gratutitamente no Digital Concert Hall.