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03 maio 2020
1 de Maio de 2020 - concerto europeu na Filarmonia de Berlim (2)
Tocante: a alegria destas pessoas por poderem voltar a fazer música em conjunto. Comovedor: a emoção dos músicos no Adagio for Strings de Barber. Surpreendente: uma 4ª de Mahler quase outra, com pouco mais do que uma dúzia de músicos em palco. Extraordinário: a ausência de tosses e catarros. Delicioso: o suave declinar da música no fim das peças, que nenhum aplauso quebrou. Insuportável: o frio das cadeiras vazias. Profundamente triste, profundamente digno: o maestro a saudar com um sorriso e uma vénia o público ausente.
Divertido: os cabelos mais compridos de todos.
No intervalo, Kirill Petrenko explicou a escolha das músicas para este concerto "inesquecível em cada um dos seus segundos": o Fratres/irmãos de Arvo Pärt porque esta crise apela à nossa solidariedade; as Ramifications de György Ligeti, com os seus contrapontos tão adequados à disposição dos músicos no palco; o Adagio for Strings, um "evergreen" que tem especial razão de ser nestes dias de angústia e perda. Sobre a quarta sinfonia de Mahler - que fazia parte do programa preparado para levar a Israel na 30ª edição do Concerto Europeu - adiantou que esta interpretação por um grupo reduzido de músicos poderá talvez permitir chegar mais perto do âmago da peça.
Não concordei com uma afirmação do maestro, sobre a crise da covid ter obrigado esta orquestra a deixar as pessoas sozinhas. Pelo contrário: ao abrirem o Digital Concert Hall a todos, conseguiram enriquecer os dias de inúmeras pessoas fechadas em casa. Que o diga, por exemplo, a minha sogra de 84 anos: desde que lhe falei dessa possibilidade, há cerca de um mês, os dias dela ganharam uma nova qualidade. Está viciada no Digital Concert Hall, e decidiu fazer a assinatura anual.
E fiquei a pensar nas voltas que a vida dá: numa altura em que outras orquestras se abriam aos cinemas, organizando transmissões em directo para algumas dessas salas, Simon Rattle conseguiu levar a cabo um projecto de presença online. A crise actual fechou as salas de cinema, e alargou ainda mais a importância da internet. Quando foi mais necessária, esta orquestra de Berlim chegou às casas de cada um e alargou por dentro seu mundo subitamente mais limitado.
02 maio 2020
1 de Maio de 2020 - concerto europeu na Filarmonia de Berlim
Ontem os filarmónicos voltaram à sua sala para darem um concerto. Não um concerto qualquer, claro - era o 30º Concerto Europeu. Devia ter tido lugar em Telavive, e o presidente da República da Alemanha estaria também presente.
Em vez disso, o presidente veio discursar à Filarmonia, e os músicos tocaram na sala sem público, sentados a uma considerável distância uns dos outros.
O concerto é transmitido hoje às sete da tarde (hora de Berlim) neste link.
O presidente da República, Walter Steinmeier, fez um discurso no qual lembrava os artistas que estão a passar dificuldades, e reafirmou que as artes são literalmente víveres para nós.
("Alimentos", em alemão, diz-se: "Lebensmittel" - à letra: meios de vida. A tradução inglesa optou por "food for the soul". Por sorte em português temos a palavra "víveres", que mantém a raíz Leben=vida da palavra alemã)
Parte do seu discurso:
We speak so many different languages on our continent and we have so many different ways of life. But we can only master the difficulties we all face today and in future if we stand together – and that is particularly true at the current time, which is so hard for all of us. Europe is our shared home – and it is virtually impossible to express this better than with music, this distinctive shared European language. Especially today, however, this gift presents us with a task. We have to help each other – and we will help each other. The musicians who will play for us today led by Kirill Petrenko represent more than themselves. When I thank them for the special concert they are performing for us today, I am also thinking of the many freelance artists, indeed our entire cultural life, that has once more been especially badly hit by this crisis. Many livelihoods are at risk. I very much hope that the help which has been provided will go where it is needed.
Art and culture which we can enjoy together are not expendable trivialities. Now more than ever, we see that art and culture are indeed food for the soul.
I am looking forward to what will certainly be a very special concert – and I am looking forward to a time when we can again listen to music together. All the best to you. And let’s look out for each other.
O discurso completo, bem como as traduções para várias línguas, está aqui: Bundespräsident.
Em vez disso, o presidente veio discursar à Filarmonia, e os músicos tocaram na sala sem público, sentados a uma considerável distância uns dos outros.
O concerto é transmitido hoje às sete da tarde (hora de Berlim) neste link.
O presidente da República, Walter Steinmeier, fez um discurso no qual lembrava os artistas que estão a passar dificuldades, e reafirmou que as artes são literalmente víveres para nós.
("Alimentos", em alemão, diz-se: "Lebensmittel" - à letra: meios de vida. A tradução inglesa optou por "food for the soul". Por sorte em português temos a palavra "víveres", que mantém a raíz Leben=vida da palavra alemã)
Parte do seu discurso:
We speak so many different languages on our continent and we have so many different ways of life. But we can only master the difficulties we all face today and in future if we stand together – and that is particularly true at the current time, which is so hard for all of us. Europe is our shared home – and it is virtually impossible to express this better than with music, this distinctive shared European language. Especially today, however, this gift presents us with a task. We have to help each other – and we will help each other. The musicians who will play for us today led by Kirill Petrenko represent more than themselves. When I thank them for the special concert they are performing for us today, I am also thinking of the many freelance artists, indeed our entire cultural life, that has once more been especially badly hit by this crisis. Many livelihoods are at risk. I very much hope that the help which has been provided will go where it is needed.
Art and culture which we can enjoy together are not expendable trivialities. Now more than ever, we see that art and culture are indeed food for the soul.
I am looking forward to what will certainly be a very special concert – and I am looking forward to a time when we can again listen to music together. All the best to you. And let’s look out for each other.
O discurso completo, bem como as traduções para várias línguas, está aqui: Bundespräsident.
30 abril 2020
Digital Concert Hall - último dia de acesso gratuito
Acabou-se o que era doce: hoje, à meia-noite (onze da noite em Portugal), o Digital Concert Hall deixa de estar disponível gratuitamente.
Caso haja por aí alguém que ainda tenha um tempinho - ou será que estão como eu, com os dias cada vez mais curtos? - sugiro que ouçam o segundo concerto desta Páscoa, que é todo dedicado a Mahler e junta filmes do arquivo, interpretações actuais gravadas na Filarmonia agora deserta, e alguns comentários sobre cada peça.
Gosto muito de Mahler. Neste concerto, gostei especialmente de dois momentos: imagens do primeiro ensaio com Abbado (uma delícia) e Anna Prohaska a cantar "A Vida Terrena", depois de ter dedicado a canção a todos os colegas músicos que vão passar meses sem trabalho, e não sabem como conseguirão arranjar comida para pôr no prato dos filhos.
«Mãe, ai mãe, tenho fome,
Dá-me pão senão morro!»
«Espera um pouco, meu querido filho!
Amanhã cedo vamos ceifar!»
---
Dizia eu que se acabou o que era bom, mas há sempre um "mas", e este por sorte é uma boa notícia: na próxima sexta-feira, às onze da manhã (dez da manhã em Portugal), quem não tiver telescola, nem teleconferência, nem nada que tenha de ser feito naquele momento, pode assistir também gratuitamente ao Concerto Europeu, que era para ser realizado em Telavive, e vai ser afinal com a orquestra nesta sala, em forma de orquestra de câmara e todas as medidas de protecção da saúde dos participantes.
O programa:
Arvo Pärt - Fratres
György Ligeti - Ramifications for strings
Samuel Barber - Adagio for Strings, op. 11
Gustav Mahler - Symphony No. 4 in G major (arranged for chamber ensemble by Erwin Stein)
Caso haja por aí alguém que ainda tenha um tempinho - ou será que estão como eu, com os dias cada vez mais curtos? - sugiro que ouçam o segundo concerto desta Páscoa, que é todo dedicado a Mahler e junta filmes do arquivo, interpretações actuais gravadas na Filarmonia agora deserta, e alguns comentários sobre cada peça.
Gosto muito de Mahler. Neste concerto, gostei especialmente de dois momentos: imagens do primeiro ensaio com Abbado (uma delícia) e Anna Prohaska a cantar "A Vida Terrena", depois de ter dedicado a canção a todos os colegas músicos que vão passar meses sem trabalho, e não sabem como conseguirão arranjar comida para pôr no prato dos filhos.
«Mãe, ai mãe, tenho fome,
Dá-me pão senão morro!»
«Espera um pouco, meu querido filho!
Amanhã cedo vamos ceifar!»
---
Dizia eu que se acabou o que era bom, mas há sempre um "mas", e este por sorte é uma boa notícia: na próxima sexta-feira, às onze da manhã (dez da manhã em Portugal), quem não tiver telescola, nem teleconferência, nem nada que tenha de ser feito naquele momento, pode assistir também gratuitamente ao Concerto Europeu, que era para ser realizado em Telavive, e vai ser afinal com a orquestra nesta sala, em forma de orquestra de câmara e todas as medidas de protecção da saúde dos participantes.
O programa:
Arvo Pärt - Fratres
György Ligeti - Ramifications for strings
Samuel Barber - Adagio for Strings, op. 11
Gustav Mahler - Symphony No. 4 in G major (arranged for chamber ensemble by Erwin Stein)
29 abril 2020
instrumentista de mim própria
Estou a assistir no Digital Concert Hall a um concerto que vivi ao vivo, digamos assim, naquela casa.
O som é muito bom, a realização é excelente, mas assistir a estes concertos na internet é-me quase doloroso por causa das passagens mais danzabile, eu: "deixa cá ver o maestro", o realizador: "solo da flauta, mostra aí o Pahud".
O som é muito bom, a realização é excelente, mas assistir a estes concertos na internet é-me quase doloroso por causa das passagens mais danzabile, eu: "deixa cá ver o maestro", o realizador: "solo da flauta, mostra aí o Pahud".
Se me deixassem mandar, realizava estes concertos com filmes paralelos no ecrã: metade para os músicos, metade para o maestro. Mas isso sou eu, habituada a assistir a estes concertos nos bancos de pau: como se estivesse na última fila da orquestra, como se o maestro se dirigisse também a mim - eu sem tirar os olhos dele, instrumentista de mim própria em alvoroço mudo.
11 abril 2020
concerto de Páscoa dos Filarmónicos de Berlim
Dantes...
(antes de continuar a frase, um comentário perplexo: dantes, a palavra "dantes" costumava ter muito mais distanciamento temporal e matizes dentro dela; mas neste Abril de 2020, "dantes" espreita-nos por trás de um muro sólido e preciso, construído de um dia para o outro. Como não pensar nos habitantes de Berlim naquele domingo 13 de Agosto de 1961? Adiante.)
...quando chegava a Páscoa os Filarmónicos de Berlim abalavam para os Osterfestspiele em Baden-Baden, deixando muitos berlinenses tristonhos a pensar o pior possível de quem se tinha lembrado de inventar as relações abertas.
Este ano, por causa da covid-19, tudo mudou. Os concertos de Páscoa são para todos - e gratuitos.
Hoje, por exemplo: podem assistir aqui, a partir das seis da tarde (hora de Portugal) ao terceiro concerto de Páscoa com esta orquestra.
E por estarmos na Páscoa, recomendo que entrem nesta página, activem o voucher que lá encontram (que dá acesso gratuito a todo o arquivo durante um mês), e vejam a Paixão segundo São Mateus de J.S. Bach com encenação de Peter Sellars: esta.
Se apanharem o vício desta maneira de interpretar as Paixões de Bach (eu apanhei) podem continuar para a Paixão segundo São João. Esta, de simbolismo muito enriquecido por uma Maria Madalena grávida e com um vestido tipo Carmen.
Boa Páscoa a todos!
03 abril 2020
festival da Páscoa pelos meus filarmónicos do coração
Dia 4 de Abril, às 7 da tarde (6 em Portugal), começa o festival da Páscoa com os filarmónicos do meu coração. Vários concertos gratuitos, desde amanhã até à segunda-feira da pascoela.
No Digital Concert Hall, como de costume. Que, aliás, tem um voucher de trinta dias para nos ajudar a passar estes dias de isolamento.
(Imagem)
29 março 2020
a importância dos artistas
Monika Grütters, ministra de Estado da Cultura da Alemanha, preparou um pacote de resgate para os sectores cultural, criativo e de media. São cinquenta mil milhões de euros para ajudar as pessoas destes sectores a sobreviver à crise da covid-19.
Traduzo da página do governo alemão:
Segundo a ministra: "neste momento histórico, que até há bem pouco tempo seríamos incapazes de imaginar, a nossa sociedade democrática precisa de manter a sua paisagem cultural e mediática única e diversificada. A audácia criadora dos artistas pode ajudar a superar a crise. Devemos aproveitar todas as oportunidades para criar algo positivo para o futuro. É por isso que entendemos que os artistas são não apenas indispensáveis, mas também vitais, especialmente no momento actual."
A ajuda federal repousa sobre três grandes pilares para responder às condições específicas de vida e de trabalho dos criativos:
1) As pequenas empresas serão ajudadas a assegurar o seu funcionamento.
2) As condições pessoais de vida serão salvaguardadas.
3) Um grande número de medidas legais individuais tem como objectivo aliviar as dificuldades.
"Conhecemos as dificuldades, conhecemos o desespero", disse Grütters. "O sector cultural, em particular, caracteriza-se por uma elevada proporção de trabalhadores independentes que agora têm problemas existenciais. Tenho, portanto, o prazer de poder anunciar que a ajuda está a caminho - o mais rapidamente e sem burocracias que for possível! Gostaria de agradecer muito sinceramente aos ministros da Economia, Finanças e Trabalho por terem levado em conta as preocupações e os interesses dos artistas e o panorama criativo e mediático que apresentámos. Isso é prova de que o governo federal tem consciência do valor único da nossa paisagem cultural, criativa e mediática.
Mais informações aqui, em inglês.
--
E agora um apontamento pessoal:
Uma vez a ministra da Cultura alemã virou-se para trás, viu-me, estendeu a mão e apresentou-se, muito simpática e humilde: “Monika Grütters”.
Achei tudo aquilo muito estranho, porque - no máximo - quem se devia apresentar era eu. Só depois percebi: estávamos ambas na festa de despedida do Simon Rattle, uma festa relativamente privada da Filarmonia, e a ministra deve ter pensado que eu era alguém importante dentro daquela casa da cultura.
Hoje lembrei-me dessa cena: da simpatia e da humildade desta ministra perante as gentes da cultura.
Traduzo da página do governo alemão:
Segundo a ministra: "neste momento histórico, que até há bem pouco tempo seríamos incapazes de imaginar, a nossa sociedade democrática precisa de manter a sua paisagem cultural e mediática única e diversificada. A audácia criadora dos artistas pode ajudar a superar a crise. Devemos aproveitar todas as oportunidades para criar algo positivo para o futuro. É por isso que entendemos que os artistas são não apenas indispensáveis, mas também vitais, especialmente no momento actual."
A ajuda federal repousa sobre três grandes pilares para responder às condições específicas de vida e de trabalho dos criativos:
1) As pequenas empresas serão ajudadas a assegurar o seu funcionamento.
2) As condições pessoais de vida serão salvaguardadas.
3) Um grande número de medidas legais individuais tem como objectivo aliviar as dificuldades.
"Conhecemos as dificuldades, conhecemos o desespero", disse Grütters. "O sector cultural, em particular, caracteriza-se por uma elevada proporção de trabalhadores independentes que agora têm problemas existenciais. Tenho, portanto, o prazer de poder anunciar que a ajuda está a caminho - o mais rapidamente e sem burocracias que for possível! Gostaria de agradecer muito sinceramente aos ministros da Economia, Finanças e Trabalho por terem levado em conta as preocupações e os interesses dos artistas e o panorama criativo e mediático que apresentámos. Isso é prova de que o governo federal tem consciência do valor único da nossa paisagem cultural, criativa e mediática.
Mais informações aqui, em inglês.
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E agora um apontamento pessoal:
Uma vez a ministra da Cultura alemã virou-se para trás, viu-me, estendeu a mão e apresentou-se, muito simpática e humilde: “Monika Grütters”.
Achei tudo aquilo muito estranho, porque - no máximo - quem se devia apresentar era eu. Só depois percebi: estávamos ambas na festa de despedida do Simon Rattle, uma festa relativamente privada da Filarmonia, e a ministra deve ter pensado que eu era alguém importante dentro daquela casa da cultura.
Hoje lembrei-me dessa cena: da simpatia e da humildade desta ministra perante as gentes da cultura.
26 janeiro 2020
Mahler, Rattle, Petrenko
A sexta sinfonia de Mahler foi o primeiro concerto que Simon Rattle deu com a Orquestra Filarmónica de Berlim, em Novembro de 1987, e o último que deu na Filarmonia na qualidade de seu director artístico.
O novo director da orquestra, Kirill Petrenko, escolheu também essa peça como uma das primeiras a apresentar ao público. A caminho do concerto, na sexta-feira passada, pensei na coragem deste maestro: entre tantas peças que podia escolher para tocar com esta orquestra, foi repetir a sexta de Mahler enquanto a memória da outra - a da despedida do Rattle - ainda está bem viva no público berlinense. Coragem não lhe falta!
Não seria fácil para ninguém ocupar o lugar deixado por Simon Rattle, e a escolha desta peça pode ter sido um desafio, ou até uma simbólica tomada de posse.
Ora bem: foi de tal maneira, que as pessoas até se esqueceram de tossir. E eu passei oitenta minutos a sentir que nos estava a acontecer música perfeita.
No dia seguinte, os críticos concordaram que tinha sido perfeito, e que isso fora um erro: a sexta de Mahler precisa de mais tensão existencial, em vez do percurso linear que o Petrenko lhe deu. Dizem que este maestro ainda tem de crescer para o Mahler, e que será um prazer assistir ao seu percurso.
Eles lá sabem. Mas esta alegria já ninguém me tira: estar sentada na Filarmonia a sentir-me imersa em perfeição.
21 janeiro 2020
vida boa
Hoje esteve um dia glorioso em Berlim. Fui à Filarmonia comprar bilhetes para o concerto da sexta-feira, e não consegui impedir-me de tirar as fotografias possíveis dentro do S-Bahn e do autocarro. Clic-clac, clic-clac, clic-clac - um dia destes ainda arranjo sarilhos com os outros passageiros, por causa da barulheira que faço a tirar fotografias (escusam de tentar ensinar-me como se faz para silenciar o telemóvel: tem esse botão avariado - mas obrigada na mesma).
A fila estava enorme - o dobro da semana passada. Comecei a conversar com o senhor atrás de mim, que também estava surpreendido com tanto público. Revelou-me que na semana anterior tinha conseguido comprar bilhetes para o Blomstedt um dia antes do concerto. "Suspeito que as pessoas não saibam o prodígio que é ouvir o Blomstedt", acrescentou. E daí a nada estava a falar da veneração que os músicos da orquestra têm por este maestro de 93 anos, e de como isso se nota na música que fazem com ele. Elogiou a sua agilidade apesar da artrose avançada, "está melhor que o Karajan". Confirmou o que já digo há anos: os lugares por trás da orquestra são os melhores. E no caso do Petrenko, mais ainda: "o Petrenko é tão expressivo que quase nem era preciso a orquestra tocar - a música já está toda estampada no maestro", disse ele. Revisitámos a 4ª de Bruckner da semana passada, as expressões de felicidade no rosto do Blomstedt nas passagens especialmente bem conseguidas, o solo de trompa do Stefan Dohr a abrir a sinfonia como se fosse fácil, "imagine que aquilo corria mal - lá se estragava a sinfonia toda!", os músicos que eu vi a chorar no fim do concerto. Trocámos cromos sobre os nossos melhores concertos naquela casa (mas ele ganhou: era amigo do primeiro violino no tempo do Karajan, ia a todos os concertos que queria). E recomendou-me muito ouvir as introduções aos concertos quando são feitas pelo Götz Teutsch, que já foi o primeiro violoncelo da orquestra, e fala das peças com intimidade e prazer de amante.
Finalmente chegou a nossa vez, e consegui os bilhetes que queria. Esperei para ver se ele também teria sorte (teve) e à despedida ele comentou: "às vezes é uma sorte haver filas compridas na Filarmonia. Esta hora a conversar consigo passou num instante. Muito obrigado!"
Então é assim: esta cidade tem mais de 3,5 milhões de habitantes, e não sei como, mas arranjo de passar a vida a cruzar caminhos com os mais simpáticos deles todos.
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01 janeiro 2020
o meu 2020 já está a começar bem
Meus queridos amores,
era só para dizer que acabei de descobrir que no site da Arte é possível assistir ao concerto de ano novo dos filarmónicos de Berlim (espero que seja possível em Portugal também). Ficará online durante um mês.
E para dizer que estou a adorar ver o Petrenko a dirigir. Agarrem-me que... (mas o Simon Rattle que não saiba, combinados?)
O palerma do câmara esqueceu-se de reparar no Edicson Ruiz. Ninguém me deixa mandar, dá nisto.
Se não tiverem tempo para ver o concerto todo podem ir logo para aquele momento a 24:42: o tema de "Maria e Tony" começa num violino, passa para a trompa do Stefan Dohr em dueto com o oboé do Albrecht Mayer. Daí a pouco a câmara avança por trás da orquestra, e apanha o Edicson Ruiz de costas a tocar o seu contrabaixo. É fácil de reconhecer: é aquele músico de fato preto (hihihihi).
Entretanto já estou na última peça, o Americano em Paris. E é oficial: o realizador é um marreta. Não reparou na beleza dos movimentos dos ombros do Petrenko! Naquelas partes em que o maestro dança com mais graciosidade, o pateta do realizador mostra os violinos ou outros instrumentos quaisquer. Mas que triste vida.
Por seu lado, o câmara do bloco C só sabe fazer aproximações à orquestra tipo "à drone"! Mas ele esteve no ensaio geral, que eu bem vi (estava três filas atrás dele). Como é que não reparou que em alguns momentos tinha de abrir a lente ao máximo e mostrar a dança nas costas do maestro? Como é que não disse ao realizador "chefe, olhe que isto não é só música, olhe que tem ali no meio um bailarino de primeira a pedir longos grandes planos! Não é para mim, é para a Helena."?
Por seu lado, o câmara do bloco C só sabe fazer aproximações à orquestra tipo "à drone"! Mas ele esteve no ensaio geral, que eu bem vi (estava três filas atrás dele). Como é que não reparou que em alguns momentos tinha de abrir a lente ao máximo e mostrar a dança nas costas do maestro? Como é que não disse ao realizador "chefe, olhe que isto não é só música, olhe que tem ali no meio um bailarino de primeira a pedir longos grandes planos! Não é para mim, é para a Helena."?
Pfffff! Deixassem-me mandar, pá.
29 dezembro 2019
concerto de fim-de-ano dos filarmónicos de Berlim
Esta manhã tive a sorte de poder assistir ao ensaio geral para o concerto de fim-de-ano da orquestra filarmónica de Berlim. Para não me acusarem de vir cá fazer-vos sofrer de insularidade, aviso já que podem ver o concerto na ARTE no dia 31 de Dezembro às 17:35 (hora de Portugal), ou no próprio Digital Concert Hall em directo (às 16:00, hora de Portugal).
Por causa daquela conhecida má distribuição divina das nozes fui para o ensaio sem sequer ter visto antes o programa, e pelo caminho pus-me a imaginar que peças russas nos daria o Petrenko. Muito me enganei: levou-nos aos EUA de Gerschwin, de Bernstein e de um desterrado Kurt Weill.
Confesso - só cá para nós - que ao Americano em Paris com que começaram faltava algum dansabile. À excepção do Edicson Ruiz, que passou o tempo todo do lado de lá do Atlântico, em swing descarado e livre com o seu contrabaixo. Espero que no domingo a câmara lhe dê muitas honras de grande plano, para prazer dos telespectadores.
O Kirill Petrenko também deve ter sentido falta do tal dansabile, porque fez imensas correcções. Tantas, que comecei a temer que não acabassem o ensaio a tempo de fazerem o concerto desta noite. Mas não me queixo, porque foi um prazer enorme regressar a algumas das frases, e ver a orquestra a responder às indicações. O maestro também deve ter gostado muito, porque bem lhe ouvi o "wooooow!" maravilhado que lançou na direcção dos violinos.
Outro momento inesquecível foi o solo do Stefan Dohr (na trompa, com o tema "there must be somewhere") nas Danças Sinfónicas de Bernstein. Só por este solo já me teria valido a pena ter levantado tão cedo para atravessar meia cidade com temperaturas perto do zero. Mas houve ainda mais, muito mais. Houve, por exemplo, a descoberta dos ombros do Kirill Petrenko. Onde outros carregam o peso do mundo, este maestro carrega a sensualidade da música. Melhor dizendo: liberta-a. Se fizer isto com todas as músicas, vou ter de rever o meu hábito de escolher os lugares por trás da orquestra para ver o maestro de frente. Lembram-se daquela anedota parva da actriz que também era boa atrás? É este maestro: a música nos seus ombros.
E houve a Diana Damrau, que ouvi hoje pela primeira vez. Mesmo estando a poupar a voz para o concerto da noite, levou-nos a um estado de encantamento tal que por vezes não conseguimos impedir-nos de aplaudir, apesar de sabermos bem que não é desejado num ensaio.
Regressei a casa feliz, indiferente ao frio e saboreando quase embriagada a luz clara que desenhava todos os contornos com nitidez. Estou com vontade de voltar lá amanhã, e tentar o milagre de um bilhete vendido à porta. Diz que o Natal é tempo de milagres. Ou isso, ou esperar por terça-feira e assistir na Arte. Ou no Digital Concert Hall.
23 dezembro 2019
agora sim, começou o Natal
Começar o Natal na Kammermusiksaal: Oratória de Natal de Bach com dois coros infantis, um deles com miúdos talvez de seis anos, a cantar como os anjos no presépio. Mais a minha soprano berlinense favorita, a Marie Luise Werneburg. Mais uma orquestra de instrumentos barrocos. Mais o Stefan Kahle (que canta assim) a cantar a parte do Alto.
O Natal já podia acabar aqui, e já tinha sido bom.
Aqui uma cena do ensaio dos miúdos (provavelmente são outros, porque o filme já tem 5 anos, e eles crescem num instante, é assim que nos pomos velhos):
Ao meu lado estava um rapaz com sapatos com dedos, e tirei o meu sapato para lhe mostrar as minhas meias.
Depois, ao chegar a casa, tinha uma surpresa na caixa do correio: o livro "Os Dias da História", do Paulo de Sousa Pinto - o livro do meu programa favorito de rádio na Antena 2. Um ano inteirinho de acontecimentos importantes. Só tem um erro: no dia dos meus anos, não fala de mim. Fala da inauguração daquele Canal do Suez, aquele pechisbeque que não interessa a ninguém.
Mas pronto, perdoo-lhe.
O Natal já podia acabar aqui, e já tinha sido bom.
Aqui uma cena do ensaio dos miúdos (provavelmente são outros, porque o filme já tem 5 anos, e eles crescem num instante, é assim que nos pomos velhos):
Ao meu lado estava um rapaz com sapatos com dedos, e tirei o meu sapato para lhe mostrar as minhas meias.
Depois, ao chegar a casa, tinha uma surpresa na caixa do correio: o livro "Os Dias da História", do Paulo de Sousa Pinto - o livro do meu programa favorito de rádio na Antena 2. Um ano inteirinho de acontecimentos importantes. Só tem um erro: no dia dos meus anos, não fala de mim. Fala da inauguração daquele Canal do Suez, aquele pechisbeque que não interessa a ninguém.
Mas pronto, perdoo-lhe.
19 dezembro 2019
mais notícias da minha aldeia
Estou (mais uma vez) a pensar que Berlim tem quase 4 milhões de habitantes, e eu me sinto numa aldeia.
Há dias, por exemplo: no regresso do ensaio do coro, no centro da cidade entrei no autocarro onde vinha uma vizinha nossa (o mais interessante desta coincidência: é a chefe de um projecto da Siemens com um orçamento de 3 mil milhões de euros; claro que tinha dinheiro para pagar o táxi, mas usar o autocarro é menos mau para o clima. No caminho para casa contou-me que tem um híbrido com capacidade de bateria suficiente para levar a filha à escola, ir trabalhar, e voltar para casa - é quanto basta; e estão a pensar vender o carro do marido porque a família não precisa de dois carros).
Ou ontem, por exemplo: tentei comprar bilhetes para o Oratório de Natal na Kammermusiksaal, no dia 23, e já estavam praticamente esgotados na venda online. Em desespero de causa telefonei para o escritório da agência. Apresentei-me com o apelido do Joachim, porque os alemães ficam um bocado à rasca quando ouvem "Araújo" ao telefone, e a senhora riu-se: "ah, que bom ouvi-la de novo! Somos vizinhos do Matthias!", e eu "em Wedding?" e ela "não, em Zehlendorf" - estava a falar do ex-marido de uma prima do Joachim. O apelido é raríssimo (não deve haver mais de 50 deles na Alemanha inteira) e em Berlim há logo dois com nomes iguais.
Hhavia bilhetes, e até a um preço bem aceitável.
Já disse que Berlim me parece uma aldeia? Eles mandam os bilhetes para casa das pessoas, juntamente com a factura para pagar.
O que se segue já não é sobre Berlim ser uma aldeia, mas também é importante: agora que já comprei os 8 bilhetes que queria, em lugares bons e a preços entre 14 (crianças e estudantes) e 19 euros, aviso quem estiver em Berlim que o melhor do vosso Natal pode começar já no dia 23 de Dezembro às 15:30. Cantam os Cantores Minores e o Monteverdi-Chor Berlin, e também a minha queridíssima solista soprano Marie Luise Werneburg.
O telefone é: 030 80908070
(Não me pagam comissão, mas deviam)
Há dias, por exemplo: no regresso do ensaio do coro, no centro da cidade entrei no autocarro onde vinha uma vizinha nossa (o mais interessante desta coincidência: é a chefe de um projecto da Siemens com um orçamento de 3 mil milhões de euros; claro que tinha dinheiro para pagar o táxi, mas usar o autocarro é menos mau para o clima. No caminho para casa contou-me que tem um híbrido com capacidade de bateria suficiente para levar a filha à escola, ir trabalhar, e voltar para casa - é quanto basta; e estão a pensar vender o carro do marido porque a família não precisa de dois carros).
Ou ontem, por exemplo: tentei comprar bilhetes para o Oratório de Natal na Kammermusiksaal, no dia 23, e já estavam praticamente esgotados na venda online. Em desespero de causa telefonei para o escritório da agência. Apresentei-me com o apelido do Joachim, porque os alemães ficam um bocado à rasca quando ouvem "Araújo" ao telefone, e a senhora riu-se: "ah, que bom ouvi-la de novo! Somos vizinhos do Matthias!", e eu "em Wedding?" e ela "não, em Zehlendorf" - estava a falar do ex-marido de uma prima do Joachim. O apelido é raríssimo (não deve haver mais de 50 deles na Alemanha inteira) e em Berlim há logo dois com nomes iguais.
Hhavia bilhetes, e até a um preço bem aceitável.
Já disse que Berlim me parece uma aldeia? Eles mandam os bilhetes para casa das pessoas, juntamente com a factura para pagar.
O que se segue já não é sobre Berlim ser uma aldeia, mas também é importante: agora que já comprei os 8 bilhetes que queria, em lugares bons e a preços entre 14 (crianças e estudantes) e 19 euros, aviso quem estiver em Berlim que o melhor do vosso Natal pode começar já no dia 23 de Dezembro às 15:30. Cantam os Cantores Minores e o Monteverdi-Chor Berlin, e também a minha queridíssima solista soprano Marie Luise Werneburg.
O telefone é: 030 80908070
(Não me pagam comissão, mas deviam)
01 setembro 2019
Christoph Eschenbach, o novo maestro da Konzerthausorchester
Além de terem uma casa com uma acústica que bailhamedeus, a orquestra da Konzerthaus apresenta hoje o seu novo maestro. E logo hoje, apenas uma semana depois de Kirill Petrenko ter sido apresentado ao mundo como o novo maestro dos Filarmónicos cá da terrinha num concerto para 35.000 pessoas em frente à Porta de Brandeburgo, e transmitido na tv e online. É preciso ter azar! Pobre Konzerthausorchester, pobre Christoph Eschenbach.
Mas se o destino te oferece limões, mais vale fazer a limonada de cabeça erguida. A Konzerthaus tem hoje as portas escancaradas para apresentar o novo maestro: entrada livre, vários concertos - entre os quais um ensaio da orquestra, e a nona de Dvořák. Também vão passar o documentário "Aus der Stille in die Musik“ (link para o filme em alemão) de Andreas Morell, sobre a vida e a música de Christoph Eschenbach.
Vi este filme ontem, e a história da sua infância impressionou-me particularmente: nascido em Breslau em 1940, filho de uma estudante de música e do seu professor, perdeu a mãe logo à nascença e foi criado pela avó materna. Em 1944, o pai, que entretanto casara com uma mulher judia e resistia aos nazis, foi enviado para a frente num "batalhão disciplinar" onde em breve morreria. Em Janeiro de 1945 a avó e o neto puseram-se a caminho do oeste, juntamente com milhões de pessoas em fuga ao exército vermelho. Em Dezembro de 1945, num dos invernos mais rigorosos de que há memória na Alemanha, vivam com mais sessenta refugiados num barracão em Mecklenburg, deitados em palha e devorados por pulgas e piolhos. Um surto de tifo matou todas as pessoas do grupo - excepto o pequeno Christoph. Uma prima da mãe, alertada pela avó que conseguira estabelecer o contacto alguns dias antes de morrer, conseguiu levar o pequenito para sua casa em Wismar. O processo de recuperação demorou quase um ano. O pequeno Christoph - que perdera o pai aos 4 anos e a avó aos 5, que atravessara a Alemanha destruída pela guerra e vivera quase um ano num barracão sem condições - não conseguia nem sequer andar ou falar.
Como ele próprio conta no filme (00:11:50):
"Do quarto ao lado vinha a música que ela tocava todas as noites. Ela era pianista, como a minha mãe. Até tinham estudado juntas. Todas as noites ouvia aquela música, que de algum modo me devolveu a saúde. E, mais que isso: devolveu-me a linguagem. Numa palavra: devolveu-me a coragem para recomeçar a andar. Devolveu-me a coragem. Foi então que começaram sete anos soalheiros da minha vida."
O filme chama-se "do silêncio para a música".
Daqui a pouco irei ao Gendarmenmarkt ouvir a música que vive dentro deste homem e lhe sanou as feridas fundas que algumas das páginas mais terríveis da História do século XX sulcaram nele.
Mas se o destino te oferece limões, mais vale fazer a limonada de cabeça erguida. A Konzerthaus tem hoje as portas escancaradas para apresentar o novo maestro: entrada livre, vários concertos - entre os quais um ensaio da orquestra, e a nona de Dvořák. Também vão passar o documentário "Aus der Stille in die Musik“ (link para o filme em alemão) de Andreas Morell, sobre a vida e a música de Christoph Eschenbach.
Vi este filme ontem, e a história da sua infância impressionou-me particularmente: nascido em Breslau em 1940, filho de uma estudante de música e do seu professor, perdeu a mãe logo à nascença e foi criado pela avó materna. Em 1944, o pai, que entretanto casara com uma mulher judia e resistia aos nazis, foi enviado para a frente num "batalhão disciplinar" onde em breve morreria. Em Janeiro de 1945 a avó e o neto puseram-se a caminho do oeste, juntamente com milhões de pessoas em fuga ao exército vermelho. Em Dezembro de 1945, num dos invernos mais rigorosos de que há memória na Alemanha, vivam com mais sessenta refugiados num barracão em Mecklenburg, deitados em palha e devorados por pulgas e piolhos. Um surto de tifo matou todas as pessoas do grupo - excepto o pequeno Christoph. Uma prima da mãe, alertada pela avó que conseguira estabelecer o contacto alguns dias antes de morrer, conseguiu levar o pequenito para sua casa em Wismar. O processo de recuperação demorou quase um ano. O pequeno Christoph - que perdera o pai aos 4 anos e a avó aos 5, que atravessara a Alemanha destruída pela guerra e vivera quase um ano num barracão sem condições - não conseguia nem sequer andar ou falar.
Como ele próprio conta no filme (00:11:50):
"Do quarto ao lado vinha a música que ela tocava todas as noites. Ela era pianista, como a minha mãe. Até tinham estudado juntas. Todas as noites ouvia aquela música, que de algum modo me devolveu a saúde. E, mais que isso: devolveu-me a linguagem. Numa palavra: devolveu-me a coragem para recomeçar a andar. Devolveu-me a coragem. Foi então que começaram sete anos soalheiros da minha vida."
O filme chama-se "do silêncio para a música".
Daqui a pouco irei ao Gendarmenmarkt ouvir a música que vive dentro deste homem e lhe sanou as feridas fundas que algumas das páginas mais terríveis da História do século XX sulcaram nele.
25 agosto 2019
o regresso dos Filarmónicos à minha vida
Há muito tempo que não falo da Filarmonia, e até aposto que sentiram muito a falta... (not)
Primeiro e mais importante, foi a saída do Simon Rattle, "meu único e grande amor" (como dizia o outro) (antes de anunciar: "casei-me"), que me entristeceu. Tenho-o visto em concertos e óperas, mas a sua saída da Filarmonia arrumou comigo (suspeito que também ele esteja triste por ter sido atropelado pelo Brexit quando já se tinha feito ao caminho para Londres). Por outro lado, ali por Maio e Junho andei a ver óperas e outros concertos como se não houvesse amanhã, de tal maneira que nem tempo tive para contar. E depois os filarmónicos foram de férias, e mais uma coisa e outra...
Voltaram ontem. Com um concerto gratuito em frente à Porta de Brandeburgo para apresentar o seu novo maestro. Trinta e cinco mil pessoas (e muitas ficaram a ouvir do lado de fora, porque já não as deixaram entrar) para ver o maestro Kirill Petrenko a dirigir a Nona de Beethoven. Gostei da escolha, de ouvir o Hino da Europa em frente à Brandenburger Tor, de ver no público uma senhora de oitenta anos a murmurar o texto de cor.
Nem tentarei usar adjectivos, porque me falta um adequado para tanto.
Foi o meu segundo concerto com Petrenko. Há tempos já o tinha visto com um programa de Bartok e Tchaikowsky na Filarmonia, e saí do concerto a pensar que ele tem muito para me fazer feliz.
Ontem, de pé, a saborear o concerto juntamente com uma multidão de berlinenses e turistas em silêncio concentrado, confirmei a sensação: vêm-me por aí muitos momentos sublimes na Filarmonia. E quero saboreá-los nos bancos por trás da orquestra, quero ver a doçura dos olhos do maestro, aquela sua maneira única de sorrir calmamente aos músicos no meio da maior tempestade, quero ver mais vezes aqueles momentos em que balança os braços como um pássaro a levantar voo.
(Se o Simon Rattle souber que me bastaram dois concertos para deixar de lhe ser fiel, digam-lhe que não há amor como o primeiro, e que uma pessoa precisa de ter estratégias de sobrevivência, e além disso estamos no século XXI, agora o que está na moda é o poliamor e não aquelas antiguidades de ficar uma mulher a tecer e a desfazer enquanto o amado se mete em anos e anos de errância e aventuras. Ah, e digam-lhe também que até agora não falhei um único concerto dos que veio dar a Berlim.)
(E se já estamos em maré de dar recados, digam ao operador da câmara e ao realizador da transmissão que num concerto, e mais ainda num concerto que tem por objectivo apresentar ao mundo o novo maestro da orquestra, não se pode perder o momento inicial, aquele em que o maestro estabelece com a orquestra o elo que que os unirá por toda a peça. Por muito bonitos que sejam os violinistas, naquele momento decisivo de conexão inicial a câmara tem de se fixar no maestro, tal e qual como cada um dos músicos o faz.)
(Bem, e já agora também podiam espalhar por aí: não se aplaude entre andamentos, e muito menos a meio de um deles. Se não conhecem uma peça e não sabem quando chegou ao fim, o melhor é esperar para ver se o maestro cumprimenta o primeiro violino e se vira para o público. Normalmente é um sinal seguro de que a peça acabou mesmo.) (Ou, o mais tardar, quando os músicos começam a abandonar a sala.)
ADENDA: Copio a informação de um amigo: "Só aplaudiram no meio do andamento porque uns fulanos, que estavam em pé num mar de pessoas sentadas no chão finalmente cederam face aos protestos ("estão a tapar-nos a vista!") e se sentaram também."
Se quiserem ver imagens da concorrência (blinc blinc) espreitem aqui.
07 junho 2019
Maria João Pires, Barenboim, Beethoven
Por estes dias o maestro Barenboim comemora o cinquentenário do seu trabalho com a orquestra filarmónica de Berlim, e repete o programa do seu primeiro concerto com esta orquestra, que teve lugar no dia 15.6.1969. O pianista convidado para tocar o concerto nº4 para piano de Beethoven era Radu Lupu, mas a sua participação foi cancelada por motivos de doença (desta vez a culpa não é minha, que só comprei o bilhete depois de saber que a nossa Maria João Pires aceitou substituí-lo!). Já houve dois concertos, e a interpretação da pianista - "subtil e cheia de nuances" (como dizia a crítica numa revista da especialidade) - tem sido muito aplaudida.
Para o caso de estarem agora a maldizer a vossa insularidade, e também para que saibam quem é amiga e pensa sempre em vós: o terceiro e último destes concertos vai ser transmitido em directo pelo Digital Concert Hall amanhã, sábado, às 18:00 em Portugal, e aqui têm o voucher para o ver:
Para o caso de estarem agora a maldizer a vossa insularidade, e também para que saibam quem é amiga e pensa sempre em vós: o terceiro e último destes concertos vai ser transmitido em directo pelo Digital Concert Hall amanhã, sábado, às 18:00 em Portugal, e aqui têm o voucher para o ver:
LK1819XG
É válido durante 48 horas consecutivas (quer dizer: podem ir já para o Digital Concert Hall afiar o dente, amanhã vêem o concerto, e pouco depois, pufff, até vai parecer a carruagem da Cinderela à meia-noite).
E se tiverem tempo, aproveitem as 48 horas para espreitar também o arquivo do DCH. Está cheio de preciosidades.
(Caso não saibam o que espreitar naquele arquivo interminável, são estes os meus favoritos de todos os tempos: a Paixão segundo S. Mateus de Bach, com encenação de Peter Sellars; o filme "Violins of Hope" e o concerto com esses violinos pertencentes a judeus, que regressaram à Alemanha no 70º aniversário da libertação de Buchenwald)
Se esta mensagem parecer publicidade (e é) ficam a saber que esta vossa amiga é a influencer mais incompetente de Portugal: bem me desunho a falar das coisas e a dar presentes, mas ainda não arranjei maneira de pôr a Filarmonia a pagar-me para isto.
(Quer dizer: se calhar já me podia considerar bem paga com os Lunchkonzert gratuitos, e mais os voucher que lá dão, e já ter cantado duas óperas e mais uma missa naquela sala, e mais isto e mais aquilo) (ingrata criatura) (já cá não está quem falou)
26 fevereiro 2019
dias de piano
Na semana passada tive a sorte de ver Daniel Trifonov a dançar a sonata para piano nº 8 B-Dur op. 84 de Prokofiev. Ontem tive a sorte de ver Khatia Buniatishvili a meditar a sonata para piano B-Dur D 960 de Franz Schubert. E daqui a duas semanas terei a sorte de estar com Maria João Pires num refúgio do mundo, Belgais.
Só vos digo isto: não trocava a minha vida com a de ninguém.
--
Algumas das peças do concerto de ontem:
(Para ouvir acompanhando o poema de Goethe "Erlkönig")
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filarmonia de Berlim,
gracias a la vida,
música assim
17 dezembro 2018
girl crazy
Esta mulher - Barbara Hannigan - é inacreditável.
Vi-a de perto a dirigir e cantar esta peça de Gershwin no concerto surpresa que os filarmónicos de Berlim fizeram para se despedirem do Simon Rattle. E estou em crer que nesse dia o fez com mais fogo ainda que nesta gravação.
Por obra do acaso e da sorte assisti ao concerto na primeira fila do bloco A. Mais perto dela, só mesmo se fosse o primeiro violino. Também por obra do ocaso e da sorte os meus olhos não se esbugalharam a ponto de me saltarem da cara. Mas foi por pouco.
(Infelizmente este concerto de despedida não está no Digital Concert Hall. É pena, porque foi dos momentos mais tocantes e humanos que vivi naquele palco. Também teve passagens sublimes, é certo, mas o mais belo daquela noite foi um palco cheio de pessoas em intenso acto de sentir, a despedir-se de um amigo e de uma época.) (Um palco, disse eu? A sala inteira!) (Aquela humidade toda não deve fazer nenhum bem aos instrumentos.)
26 outubro 2018
porque tens os olhos tão grandes? (um post com presente)
Dudamel, Filarmónicos de Berlim, 5ª de Mahler.
Agarrem-me, que isto é mais do que uma alminha consegue aguentar.
Às vezes fechava os olhos, para ouvir a música em toda a sua perfeição. Em toda a sua sublime perfeição. Mas depois lembrava-me que estava a perder o Dudamel de vista, e abria-os outra vez. Muito, para não perder nada daquele momento.
Depois do concerto, já na rua, de novo o fascínio que aqueles edifícios me provocam.
- Porque tens os olhos tão grandes?
- Vão perguntar ao Dudamel e ao Sharoun.
--
Para não se queixarem que uns têm tudo e outros nada, aqui repasso um presente que deram na folha do Lunchkonzert desta semana: um voucher para 48 horas no Digital Concert Hall. O programa a que assisti hoje vai passar amanhã em directo às 19 horas (18 em Lisboa). Depois digam o que acharam do Divertimento de Bernstein (eu achei-o sem brilho - como se os Filarmónicos estivessem a tocar muito bem instalados numa zona de conforto) e da 5ª de Mahler (quem disser mal desta, devolva já o voucher se faz favor! ;) )
Ah, o voucher: LK1819XG
Se gostarem, e puderem, comprem um passe para um mês ou assim, que é para isso que eles o andam a oferecer.
29 junho 2018
é uma artista portuguesa...
Aqui a artista meteu-se a discutir na página de facebook dos Filarmónicos de Berlim qual era o concerto mais inesquecível com o Simon Rattle, e esqueceu-se de mudar a foto de perfil com que aparece na discussão.
Etiquetas:
filarmonia de Berlim,
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