Mostrar mensagens com a etiqueta estas difíceis traduções. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta estas difíceis traduções. Mostrar todas as mensagens

23 novembro 2019

mudar de pele

Encontrei este post perdido nos rascunhos do blogue (ai de mim, são mais de cem!)
Aqui trago à luz do dia estes apontamentos de um diário que escrevi há um ano:

*

Comecei a fazer experiências de mudar a língua no facebook, e é como se mudasse de pele.
Primeiro francês. Depois espanhol. E depois, que versão escolho?
A verdade é que já não me lembro em que língua andei todos estes anos. Ou se mudei alguma vez.


*


Esta manhã mudei a língua do facebook para alemão, para ajudar uma pessoa que queria resolver um problema. Depois ia mudar de novo para português, mas pensei que é sempre bom confundir o cérebro e trocar-lhe os hábitos, por causa do Alzheimer, e optei por francês.
A seguir esqueci-me, e deu-me uma espécie de curto-circuito - às tantas comecei a achar que o Jordan Peterson é canadiano, apesar de escrever em inglês. Ai, espera...
Entretanto estou a reparar nas coisas em que dantes nunca reparava ("254 éléments à examiner" - o quêêêêê?!).
E tudo isto me provoca imenso desconforto.
Alzheimer, a quanto obrigas!


*


Estou aqui a pensar se mudo a língua do meu facebook para espanhol, ou se continuo no francês.
Além de me tratar com respeito, em vez daquele "tu" sem me conhecer de lado nenhum (ai, espera, dizem que o facebook nos conhece melhor que os nossos próprios pais!) (adiante), este "exprimez-vous, Helena" na caixa que se oferece para o meu post dá-me a sensação de estar num mundo elegante, delicado e participativo.
E também tem aquele "contact indésirable", em vez de "spam", e tantas outras surpresas da tradução que me revelam a cultura francesa.
Está decidido: fico no francês mais uma semanita. E depois espanhol, e depois alemão, e depois inglês, e depois italiano, e depois catalão.
E depois chinês: como quem joga memory, e tem de se lembrar onde é que estão as cartas certas.
(Por essa altura, o meu Alzheimer já vai andar com sessões semanais no psicanalista, "senhor doutor, eu acho que ela tem alguma coisa contra mim!")



*



Mudei o meu facebook para espanhol.
E confesso que a mesma realidade (em 2019 vou realizar um grande sonho) já não me parece tão elegante como em francês.
Uma dia destes podia lançar-me a um trabalho sobre língua, preconceitos, hábitos e sensações. Se calhar até arranjava de meter um capítulo sobre o modo como o corpo reage de forma diferente conforme ouça na língua materna ou noutra qualquer (sim, por causa disso a Christina ia ficando por nascer: é que a parteira dizia "Ziehen Sie!" e o meu corpo não sabia o que é isso. Bem queria obedecer, mas não sabia como. Tivesse ela dito "faça força!", e a Christina nascia 3 horas mais cedo...)
Mas o que eu queria mesmo dizer é que sou uma desgraçadinha: em 2019 vou realizar um grande sonho, e não tenho nenhum!

*

O facebook em espanhol: "hoy tienes recuerdos con 7 personas más para rememorar".
Ai os falsos cognatos!

*

"Publicarlo en tu biografía", diz o espanhol. Pensará o facebook que o que aqui publico é uma biografia? Quando muito, um mapa mental de atalhos, becos sem saída e passagens para realidades paralelas.

13 novembro 2019

"tomate" (4)


O #tomate negro da Crimeia, que já foi hoje mencionado na Enciclopédia Ilustrada, lembrou-me um artigo que li há cerca de vinte anos numa revista americana. Parece que a subsistência de todas essas qualidades diferentes de tomate se deve à cortina de ferro. Na Europa e nos EUA as grandes empresas agro-industriais afunilaram a produção, pondo no mercado apenas os tipos de tomate que lhes pareciam adequados ao mercado. Quando a cortina de ferro se desmoronou, o mundo descobriu com surpresa que do lado de lá havia uma enorme variedade de tipos de tomate (e também de beringelas, courgettes, etc.) que os lavradores iam plantando ano após ano, segundo o saber antigo e as sementes que guardavam para o ano seguinte, em vez de comprarem à Monsanto ou a outra empresa do género.

Na altura em que vivi nos EUA chamavam "heirloom tomatoes" a esses cestinhos com tomates de todas as cores e tamanhos, que vendiam a preços proibitivos. Entendo a ideia de os ver como uma herança: o maior tesouro dos avós.

Ando há quase vinte anos para saber como será a tradução correcta de "heirloom tomatoes" para português.

E também gostava de saber se na América Latina não se guardaram uma ou duas sementinhas de variades à margem da Monsanto.

---

Comentário de um colega:

"Aqui no Reino Unido usamos o termo Heritage Tomato, são tomates que têm que ser polinizados, seja pelo vento, insectos ou mesmo cotonete na falta de polinizadores naturais, ao contrário dos híbridos que são auto polinizantes e normalmente mais resistentes a doenças, mais adaptados ao clima pretendido e que têm maior tempo de armazenamento, ou seja, maior produção e mais tempo de vida nas prateleiras do supermercado. Em termos de sabor não há nada que chegue a estas variedades ancestrais e para quem planta para consumo interno e para oferecer aos amigos como é o meu caso muito mais interessante e gratificante."

---
Ora aqui está uma boa ideia para traduzir "heirloom tomatoes" = "tomates de variedades ancestrais"

(ooooops, agarrem-me, que me sinto a resvalar para a brejeirice!)
(oooooops, é mais forte que eu: "heirloom tomatoes": "tomates da avó")

15 setembro 2019

descolonizar genealogias


(Na imagem: como em todas as sessões que vi até agora na qual participa um palestrante brasileiro, é exibido um cartaz exigindo a libertação de Lula. No caso, é Luiz Ruffato quem ergue o cartaz.)


Ontem fui assistir à conversa entre Grada Kilomba, José Eduardo Agualusa e Luiz Ruffato sobre "descolonizar genealogias", no âmbito do 19º Festival Internacional de Literatura de Berlim.

O programa rezava assim: "Current genetic research shows that the traces of sexual crimes committed under European colonial rule are inscribed in DNA. Luiz Ruffato [BRAZIL] has often commented on these crimes. The writers Grada Kilomba [PT/ D] and José Eduardo Agualusa [ANGOLA/ MOZAMBIQUE/ PT] also engage with Portuguese colonial history. In his novel »The Book of Chameleons«, Agualusa tells the story of a genealogist who invents new family trees for his clients."

A conversa tomou outra direcção. Teria gostado de os ouvir falar sobre o tema proposto, mas não dei a tarde por perdida. Pelo contrário. Gostei especialmente das intervenções da Grada Kilomba, sobre a descolonização ainda por fazer: o trabalho de desinstalar, desmantelar, reinventar. Por exemplo na questão linguística: a língua portuguesa continua cheia de vestígios de um sistema de pensamento colonial que ainda não foi confrontado e muito menos deu lugar a um reajustamento fundado na dignidade do ser humano. O moderador da mesa, Michael Kegler, interrompeu-a para comentar que essa questão lhe dá muitas dores de cabeça no seu ofício de tradutor literário: como traduzir para a língua alemã os termos da língua portuguesa que ainda não passaram por um processo de descolonização linguística? 

[   E eu a pensar com os meus botões: palavras e frases como "semítico", "judiar", "pareces judeu!", "ciganadas", "que paneleirice!", "não sejas maricas!" seriam difíceis de traduzir para alemão. A tradução literal seria impensável. Ou não? Quer dizer: será que é obrigação do tradutor literário encobrir a realidade linguística da cultura do texto original? Ou deve exibir em todo o seu esplendor o racismo, o anti-semitismo, a homofobia presentes na linguagem?
Deve optar por exibir, mesmo sabendo que a exposição ganhará uma forma de certo modo enviesada, resultante da diferença de velocidades no debate sobre estas questões?
Uma tradução literal faz com que o texto de chegada não seja comparável ao texto de partida porque as respectivas sociedades se encontram em fases diferentes do trabalho de revisão do poder da língua como hábito de opressão. Um exemplo: se um alemão dissesse com palavras alemãs o equivalente literal de um "ciganagem" ou um "não sejas judeu!", estaria a pôr-se deliberadamente numa posição de provocação extrema, porque na sociedade alemã há consenso sobre a terrível carga negativa daquelas expressões. Mas o português que fale assim não está a provocar - está simplesmente a usar as palavras que aprendeu e se usam normalmente no seu país. Ou seja: na versão alemã, o carácter da personagem que tivesse este tipo de discurso seria muito diferente do carácter da mesma personagem no original português. Em alemão, algo como um neonazi; em português, boa pessoa.
Mas também a decisão oposta, a de não traduzir literalmente, tem consequências. Mesmo que os portugueses não se dêem conta da carga opressiva das palavras que usam, quer dizer, mesmo que "não façam por mal", essa carga opressiva e ofensiva está presente e actuante. Ao eliminar certas palavras, trocando-as simplesmente pela palavra alemã que transmite a ideia subjacente ao texto (traduzir "maricas" com se fosse "medricas", por exemplo), o tradutor está a colaborar no branqueamento das práticas linguísticas de banalização de um discurso opressor de certos grupos.
A questão, no fundo, não é o personagem de um romance dizer determinadas palavras. A questão é todo um país que não quer ver problema algum no uso daquelas palavras.
Por estas e por outras é que nunca hei-de ir longe como tradutora literária: a minha vontade era traduzir literalmente, e fazer uma curta introdução para explicar que naquele país é normal falar assim.
Um último apontamento: curiosamente, ao procurar exemplos, não pensei logo em expressões que ofendessem os negros. As primeiras que me ocorreram revelam o que mais me preocupa: anti-semitismo, anticiganismo, homofobia. O racismo contra os negros expresso nas palavras que usamos não parece estar no meu radar. O que é, mais uma vez, sinal de ignorância em relação a este tema. E escusam de se rir de mim, porque o problema não deve ser só meu. O que mais se ouve em Portugal é a convicção de não sermos um país racista. Pois não, não somos: enquanto não tivermos a vontade e a coragem de olhar de frente para o problema, podemos continuar a acreditar alegremente que somos os colonizadores mais fofinhos do mundo.  ]

Voltando à sessão de ontem: por sorte, Grada Kilomba deu exemplos que me revelaram essa realidade que, de tão naturalizada, já nem notamos. "Mestiço" é a palavra usada tanto para o cruzamento de pessoas de etnias diferentes como para o cruzamento de animais de raças diferentes. "Mestiço", "cabra" e "cabrito" provam que as palavras foram (e são) usadas para animalizar seres humanos em função da cor da sua pele. E é aqui que estamos hoje, ainda.

A Lusofonia também foi um tema importante de debate: quando usamos esta palavra - e quantas vezes a usamos com orgulho! - não temos qualquer consciência da carga de violência que ela encerra. Vários continentes que falam a mesma língua significa que em todas essas terras um poder colonizador aniquilou a cultura e a língua existentes. E para além da língua e da cultura, a própria identidade das pessoas, obrigadas a trocar o nome da sua família por um apelido português. Arrasar o passado das pessoas, arrasar a sua cultura, arrasar a sua língua. Pior ainda: dado que muitas das vítimas da colonização não puderam aprender o português em toda a sua plenitude, as suas possibilidades ficaram limitadas, reduzindo-lhes o lugar na sociedade ao parco conhecimento da língua que lhes foi imposta.

Luiz Ruffato deu um exemplo do mesmo fenómeno, embora de menor dimensão: quando o Brasil entrou na II GM do lado dos Aliados, os países de origem de grande parte da sua população passaram a ser o inimigo: alemães, italianos, japoneses. Os brasileiros desses grupos nacionais foram proibidos de falar a sua língua de origem. Os homens, que trabalhavam fora de casa, conseguiram adaptar-se facilmente. Mas as mulheres, circunscritas ao espaço familiar onde só se falava o idioma do país de origem, perderam a voz. A sua própria avó deixou de falar em público, porque só sabia falar italiano e corria o risco de ser presa.

A sessão acabou sem debate com o público, e foi pena. Gostaria muito de perguntar ao José Eduardo Agualusa como se concilia o discurso de descolonização com a posição do branco que se assume como produtor de cultura angolana.

26 maio 2015

um bocadinho de alemão por dia, não sabe o bem que lhe fazia...

(...) "Não gostei nada de um conto alemão que a minha mãe me começou a ler em que uma rapariga se chama Frida. Não quis ouvir esse conto. Nunca o li. Uma rapariga não se pode chamar ferida."

Adília Lopes in Manhã


Ora aqui está um equívoco curioso. Não é "ferida", muito antes pelo contrário: o nome Frida pronuncia-se "Frrridá" e significa "paz" e "soberana" (como diminutivo de Friederike) ou "espírito da natureza" e "força" (como diminutivo de Elfriede).

Não sei qual é o conto que a Adília Lopes não leu, mas, se o nome da rapariga tem algum significado na história, parece-me que perdeu um belo conto. Um pouco de alemão por dia...

(E cá está uma questão curiosa para a tradução: devia ter-se traduzido o nome por Maria da Paz, Vitória ou Ondina, por exemplo?) (E outra questão também curiosa: qual devia ser o preço normal das traduções literárias para o  tradutor ter tempo de pensar também nestas coisas e procurar soluções óptimas, e conseguir pagar as contas ao fim do mês?)

**

ADENDA: chamaram-me a atenção para o facto de, neste meu texto, parecer que a Adília Lopes está a elaborar a partir de um erro. Obviamente, o texto da Adília vale pelo que diz, e muito. Eu limitei-me a aproveitar um detalhe para partir noutra direcção. (Sabem a história do tolo que olha o dedo que aponta as estrelas? Eu podia ser o tolo que olha o mancha na pedra do anel do dedo que aponta as estrelas...)


11 janeiro 2012

viajar entre línguas

O post "viajar entre línguas", da Leonor (hoje não copio) (emboramente... vontade não me faltava!) lembrou-me um comentário ouvido há quase trinta anos num comboio em Espanha. Era um jovem brasileiro a viajar de inter-rail pela Europa, que largou este quase lamento:

- Quando você viaja sozinho, não tem com quem se maravilhar.

(Quando você lê sozinho, ...)

09 janeiro 2012

Wladimir Kaminer, um dois três

Para comemorar condignamente o fim da tradução do (pelo menos neste blogue) já famoso livro do Wladimir Kaminer, copio para aqui um texto que a Leonor publicou há algumas semanas, a propósito deste autor. Só para terem uma ideia do que por aí vem.

Aos mais curiosos, aviso que a Cavalo de Ferro já publicou dois livros dele: "Militärmusik" e "Russendisko - discoteca russa". Agora vem por aí o terceiro: já quase há material para desenvolver um vício novo.

Além disso, o filme de abertura da Berlinale 2012 é o, tã tã tã tãããã, Russendisko.
Parece que vai ser um ano muito Kaminer. Mas giro, o que se chama giro, era ele ir ao lançamento a Portugal, e depois escrever um livro assim hilariante sobre os portugueses. Já vi duas amostras do que é capaz de fazer quando fala do meu povo, e gostei. Tem uma maneira de brincar sobre as idiossincrasias alheias que não é humilhante ou ofensiva.

E agora passo a palavra à Leonor:

Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011


Estou a ler 'Meine russischen Nachbarn"


O penúltimo dia de Agosto brindou-me com chuva. Pela janela um dia cinzento. A cidade meio pálida e precocemente escura. Largo as malas e faço o que mais gosto: passear, ver, deambular com a ligeireza de quem nada tem para fazer se não deixar-se ir por entre a multidão e sentir, respirar, ver.
Subo a rua. O passo mais rápido pela chuva insistente na cidade que me surpreende sempre e nunca se esgota em cada visita.  E entro na livraria. Resisto a quase tudo menos a uma livraria recheada de títulos novos, livros baratos e o ambiente de uma religiosidade veneranda de silêncios pontilhados de virar de páginas virgens à espera de serem lidas. Um livro. Falta-me sempre um livro.
Os olhos recaem sobre o mais recente livro, à data, de Wladimir Kaminer, Meine russischen Nachbarn, e é esse que há acompanhar-me nos dias de Berlim, dias de sol e de chuva, dias de muito ver e de digerir história e gente a cada esquina. Não o acabarei, contudo. A cidade absorve-me.
Meine russichen Nachbarn, os meus vizinhos russos, conta a história de dois russos, Andrej e Sergej que convenientemente ocupam o andar por cima do de Wladimir Kaminer, lá na Schönhauser Allee, algures em Prenzlauer Berg, uma zona emergente de Berlim a viver os seus melhores dias depois da Queda do Muro em Novembro de 1989.Andrej e Sergej encetam uma nova vida nesta nova Europa que se quer livre e democrática derrubados os muros físicos que a cortavam em duas, os de lá e os de cá, Ossis e Wessis. Rondando os trinta anos,  Andrej de Leningrado, hoje São Petersburgo, e Sergej da Bielorússia provocam uma pequena revolução na vida aparentemente pacata dos habitantes do prédio de Schönhauser Alle. A porteira não gosta, os vizinhos reclamam do trompete logo pela manhã. Andrej luta com a língua alemã e apaixona-se pela professora enquanto Sergej assina exemplares d 'O Capital de Karl Marx que venderá no e-bay como relíquias do grande filósofo e ideólogo. As aventuras sucedem-se.
E ambos teriam tido uma vida anónima e tranquila, caso tivessem escolhido um outro local para viver. É que Kaminer é um observador atento da realidade, um crítico mordaz das várias vidas que já teve e escritor implacável a quem as aventuras acontecem sempre e de forma renovada. Não poderia desperdiçar esta oportunidade e fixa-os a uma narrativa de leitura muito fácil sem artifícios ou malabarismos estilísticos e despojadamente cativante. Na vida destes dois russos vemos desfilar a União Soviética a que Kaminer disse adeus em 1990 para abraçar Berlim como sua nova pátria, as cidades também são pátria. E as histórias entrelaçam-se. E os tempos. Há a União Soviética com as suas características peculiares, os russos que não riem e Kaminer explica porquê, os moscovitas, reconhecidamente rudes nos modos e a Rússia actual de novos-ricos. E há a Alemanha e Berlim, a vida na cidade, ressentimentos e singularidades. Muito portanto num pequeno livro de 222 páginas em tom humorístico e divertido.
A leitura implica um tu com que se possam trocar impressões, um interlocutor que se possa rir connosco ou opor-se ao que bebemos nos livros, um duelo de palavras e ideias. Para minha grande pena só dois livros de Kaminer estão traduzidos em Português O panorama literário alemão virou uma página acompanhando os ventos de mudança na Alemanha e na Europa. Wladimir Kaminer é um dos mais lidos escritores de língua alemã, por cá quase um desconhecido. Para quando mais um Kaminer em português, senhores editores? Até lá deixo-vos com uma pequena amostra:
"Um professor esforça-se por explicar a um pioneiro o que é o comunismo numa linguagem acessível. 'O comunismo é', diz ele, 'quando tens de comer morangos com natas todos os dias ao pequeno-almoço '. ‘Mas eu não gosto de morangos com natas’ responde o aluno. 'Não interessa', esclarece o professor,vais comê-los na mesma, quer gostes quer não".

07 dezembro 2011

amigos e conhecidos

Nos seus livros, Kaminer conta histórias que se passaram com ele, com os seus amigos, com os seus conhecidos. Ele faz a distinção claramente: Andrej, o meu amigo; Thomas, um conhecido.
Na Alemanha, amigos, só se tem dois ou três - os mais sortudos chegam talvez aos quatro ou aos cinco. Os outros são conhecidos, vizinhos, colegas de trabalho, pais da escola. 
Em Portugal diz-se muito facilmente amigo. Quando cheguei à Alemanha, toda a gente se impressionava com as dezenas de amigos que eu tinha.

E agora: em português, o Thomas é amigo ou conhecido do Kaminer?

É sobretudo uma questão retórica, não se preocupem a responder como se o futuro da tradução mundial dependesse disto. Queria apenas fazer um apontamento sobre a dificuldade na tradução de culturas, que é muito mais que a tradução de palavras e ideias.

Um exemplo bem mais interessante é o da tradução do Antigo Testamento para o grego: como adaptar o universo e o imaginário de um povo nómada ao de um povo urbano?
E é para não falar numa tradução do Evangelho para inglês, na Idade Média, que há anos me passou pelas mãos: o conteúdo foi adaptado ao local e à época. Assim tipo: Jesus feito rei Artur e os discípulos feitos cavaleiros da távola redonda. 

01 dezembro 2011

mas quem se terá lembrado de dizer que isto é uma só língua?

Estou há semanas a tentar traduzir "Mitfahrzentrale", recorro aos melhores truques que conheço
(que são: (1) googlear essas palavras em todas as línguas que conheço, uma de cada vez, acrescentando site:pt na esperança que me apareça uma pista em português; (2) procurar na wikipedia noutras línguas, e ver se existe o mesmo verbete em português)
mas só me aparece "carona".

Carona!

Quem se terá lembrado de dizer que portugueses e brasileiros falam a mesma língua?
Tentem fazer pesquisa terminológica na internet, já vão ver como elas mordem. Se quero textos em português de Portugal, tenho de acrescentar alguma palavra com consoantes mudas. E até essa bengala me vão tirar agora.
Humpf.

Ora então, a vós recorro: em Portugal existe um serviço para organizar boleias? Do género: quem vai de A para B no dia x põe os três lugares vazios do carro à disposição, os interessados pagam uma pequena taxa pelo serviço de coordenação e um preço módico pela viagem - suficientemente módico para ser mais compensador que ir de comboio ou camioneta. Isso existe em Portugal? E caso exista, como é que se chama esse serviço? Em inlgês é "ridesharing". Não confundir com o "carpooling".

Esse serviço já existe: encontrei o site deBoleia - que até é gratuito.
O que eu queria era saber que nome lhe dar.

29 novembro 2011

palavrões e insultos

Apesar de ter crescido no Porto e estar em contacto frequente com o vernáculo minhoto, quando tenho de traduzir palavrões e insultos fico sempre indecisa. É que estas coisas são muito pessoais, e o que serve para mim pode não servir para os outros. Para além da interpretação subjectiva, há os usos regionais: cada terra tem os seus, ou usa os de todos mas atribui-lhes significados diferentes.
Pior ainda: constou-me que em Lisboa certos palavrões ecoam com uma intensidade que surpreende as gentes do Norte, habituadas a isso e a muito mais. Pelo que deviam traduzir versões diferentes de livros, à semelhança do que fazem para DVDs vistos nos aviões ou fora deles: uma versão mais literal para o país a norte do Mondego, e uma mais eufemística para o seu sul.
Em todo o caso, aqui vai uma rápida moral da história: razão tinha a minha avó, quando nos proibia o uso de palavrões - agora vejo bem o trabalho que se pouparia ao tradutor!

Se esta já é uma questão suficientemente bicuda, imaginem traduzir os palavrões usados por um russo que escreve em alemão. Por exemplo: um "Ziegenbock", um bode. Um insulto que os alemães não usam. Lá vou eu farejar pela internet (como é que os tradutores dantes faziam?) e descubro que "cabra", em russo, significa "pessoa manhosa". Aaaah, já me entendo: sua raposa velha. Alea iacta est, gulp.

Algo me diz que o Sherlock Holmes em novo foi tradutor. Mas depois ganhou juízo, e decidiu usar as suas qualidades de detective para tarefas mais simples.

***

Como é que os tradutores faziam antes de terem internet? Perguntavam ao escritor. Escreviam uma cartinha, bai carta feliz boando, e passadas algumas semanas recebiam a resposta. Pelo menos foi isso que contou o primeiro tradutor de Saramago para alemão, e a resposta que veio uma eternidade depois era "essa palavra não existe, inventei-a eu!"
Dei um pequeno salto no tempo, perguntei ao Kaminer. "Bode", afinal, tinha o sentido de teimoso e caprichoso. Será que a sul do Mondego este bode também é uma mula do cara**o?...
*suspiro*

14 outubro 2011

o "fim do mundo" numa acepção berlinense

Wladimir Kaminer conta, no livro que estou a traduzir, que foi vender jornais no fim do mundo, em Charlottenburg. Parece simples, mas...
Kaminer é um russo que aproveitou a perestroika para fugir de Moscovo, e encontrou abrigo em Berlim leste, mais concretamente em Marzahn. Charlottenburg é um bairro de Berlim ocidental. A história que conta no livro passou-se pouco depois da queda do muro, quando a cidade estava ainda dividida em dois blocos visceralmente diferentes. Ninguém ia de Charlottenburg a Marzahn (nem vai, mesmo vinte anos depois da queda do muro) e ninguém ia de Marzahn a Charlottenburg (nem vai, excepto quando os neonazis decidem desfilar no Ku'damm...) (hiiiiii, há que anos que não escrevia uma boca tão foleira).
Ir de Marzahn vender jornais a Charlottenburg é mais que ir ao fim do mundo: é ir para um outro mundo.
Como explicar isto ao público que não conhece Berlim, sem nota de tradução (que odeio) nem duas frases suplementares?

***

E eis como, encostando-me descaradamente aos concursos de inutilidades dos blogues de gajas, inicio aqui um concurso. De tradução.
A frase, traduzida literalmente, é:

Pelo que nos separámos, e eu pus-me a caminho do fim do mundo, para vender a minha pilha de jornais “Berliner Express” na Sophie-Charlotte-Platz.

Quem quer dar ideias?

O prémio?, perguntam. Ah, o melhor de todos: a satisfação de uma tradução bem feita.