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24 abril 2020

defender a Democracia com arrogância e teimosia

Se não fosse tão triste até dava vontade de rir: numa época em que os políticos de vários países da União Europeia aproveitaram a crise da covid-19 para dar golpes fatais no sistema democrático (veja-se o que está a acontecer na Hungria ou na Polónia, sem que a UE esteja a ser capaz de reagir adequadamente), no momento em que se teme que a situação de estado de emergência tenha consequências graves para a vida democrática nos países, no momento em que se ergue o perigo concreto de, em nome da saúde público, o Estado poder controlar os cidadãos com apps espiões nos telemóveis, em Portugal há quem escolha criticar o Parlamento por insistir em celebrar como sempre - mas dentro dos condicionamentos estabelecidos pela DGS - a data mais simbólica da nossa Democracia.

Acusam os políticos que defendem esta medida de arrogância, teimosia, falta de respeito, o diabo a quatro. Em particular o Ferro Rodrigues, "um erro de casting", como li recentemente, "um político que não sabe lidar com os novos perigos para a Democracia".

Começo pelo final: se os políticos actuais soubessem lidar com os novos perigos para a Democracia, nem o Trump nem o Bolsonaro tinham chegado ao poder, nem o referendo do Brexit teria dado no que deu, nem a CSU alemã teria tido uma deriva populista e xenófoba tão flagrante - entre muitos outros tristes casos. Isto não há-de ser um problema apenas do Ferro Rodrigues.

E não esqueçamos nunca que, nas Democracias actuais, o verdadeiro erro de casting são políticos como o Viktor Órban e o Jarosław Kaczyński. Ou o André Ventura, num outro nível.

Nestes tempos perigosos, atacar e ridicularizar quem defende como indiscutível a decisão de dar um sinal claro de respeito pela Democracia e pela Liberdade é não saber discernir de que lado está o inimigo.

Mais: se nos damos conta de que um político democrata está a comunicar de forma insuficiente ou incorrecta, a nossa obrigação como cidadãos responsáveis é usar os meios ao nosso alcance para colmatar essa falha, em vez de fazer o jogo dos inimigos da Democracia. Temos hoje, mais do que nunca, a responsabilidade de participar solidariamente na protecção do sistema democrático.

Amanhã, às três da tarde, cantaremos o Grândola à janela da casa de cada um.
E depois continuaremos a lutar, dia após dia, para que as conquistas de Abril não se tornem uma recordação do passado.

25 de Abril sempre!

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"Ah, e tal - defender a Democracia, sim senhor, mas deviam ouvir a população que está a sofrer..."

Será que já se esqueceram porque é que a população está a sofrer? É para evitar a morte de pessoas muito concretas: o avô de Fulano, o pai de Sicrano, a filha de um deles, que sofre de asma. Isto não acontece apenas aos outros. E os políticos não nos mandaram a todos para casa para dar largas ao seu sadismo. Aliás: quem de nós queria estar na pele dos políticos actuais? Quem de nós queria tomar a decisão sobre quem e quando pode voltar à vida normal, sabendo que há o risco de sermos apanhados por uma segunda vaga?

A população sofre menos se no dia 25 de Abril o Parlamento ficar fechado? Porquê, não me dirão?

21 abril 2020

inveja e ressentimento

Muitas das reacções às comemorações do 25 de Abril no Parlamento que tenho encontrado por aí levam-me a concluir que a estratégia dos insidiosos - os que decidiram aproveitar o caso para criar uma profunda divisão entre os portugueses - consistiu em alimentar os sentimentos de inveja e ressentimento.

Inveja: "nós aqui fechados em casa, e eles no Parlamento em festanças e banquetes de um milhão de euros."
(Sim: alguém pôs a correr que o catering ia custar um milhão de euros - mais de 7.000 euros por bico. E houve quem tenha acreditado: hahahaha! que triste figura fazem!)

Ressentimento: "nós não podemos nada, mas eles ("aqueles deputados de m...") podem tudo. Roubam-nos a liberdade, mas eles próprios fazem o que querem. Nós nem podemos ir ao funeral dos nossos entes mais queridos, mas eles podem andar em festanças. Nós nem à Páscoa, nós nem ao aniversário da avó, mas eles..."
Sejamos sérios: o argumento "então eu não posso, mas ele pode? isto é lá exemplo que se dê?!" só pode ser invocado no dia em que virmos os nossos deputados a frequentar restaurantes que deviam estar fechados, a ir à missa a que mais ninguém pode ir, a ir a funerais para os quais não têm autorização, a ir festejar o aniversário da avó.
As comemorações do 25 de Abril são uma sessão de trabalho do Parlamento. Se queremos discutir a sua necessidade, vamos ter de discutir também a necessidade de outros trabalhos que continuam a ser realizados e não são absolutamente vitais. Querem mesmo ir por aí?

Uma pessoa lê os comentários nas redes sociais e até se sente tentada a acreditar que as comemorações do 25 de Abril este ano vão ser a melhor festa do século, uma autêntica orgia de luxo, prazer e gozo. Quem diria que os nossos deputados, que andam o ano todo com aquele ar tão sério, em chegando ao 25 de Abril revelam os maganões que na verdade são: levados da breca, doidos prá brincadeira...

Lembremos o essencial: este é um momento único na História da Humanidade, quando tantos aceitaram pacifica e solidariamente fazer grandes sacrifícios para evitar que os mais frágeis da sociedade morram vitimados pela covid-19. Pela minha parte, sinto-me profundamente grata aos governantes que estão a tentar gerir esta situação perigosíssima e inédita, a todos os que têm de ir trabalhar e o fazem cumprindo escrupulosamente as regras para evitar contágios, e a todos os que estão em casa como eu. Sinto-me pessoalmente grata, porque se a covid-19 vier parar à minha família tenho fortes motivos para acreditar que tanto eu como os meus filhos precisaremos de ajuda hospitalar. E temo que não haja capacidade para acudir a todos os que precisarem de ajuda nesse momento.

Perante este movimento de solidariedade único na História, e que nos devia encher de orgulho, pergunto: como é possível que de repente tantos de nós tenham desatado a debitar argumentos que vão beber à inveja e ao ressentimento?

Arrisco uma explicação: no ano passado o Steve Bannon anunciou que se ia dedicar mais à Europa. Nem sequer podemos dizer que não fomos avisados. Parece a anedota da loira que ao ver a casca de banana no passeio se lamenta "ai que chatice, lá vou eu escorregar outra vez":

Somos tão facilmente manipuláveis que chegaria a ser ridículo - se não fosse tão triste, se não fosse tão perigoso.


20 abril 2020

a zaragata


Olhando a toda esta distância para a zaragata da semana no espaço público português - as comemorações do 25 de Abril no Parlamento - dou comigo a entender as razões de todos:

- Os que afirmam que o Parlamento tem estado a trabalhar, e a celebração do 25 de Abril faz parte das suas honrosas competências; mais ainda: esta celebração é primordial do ponto de vista simbólico neste ano de 2020. Cito a Rita Dantas: "um ano absolutamente histórico para a democracia portuguesa porque, pela primeira vez, a sua casa maior acolhe no seu seio um representante da extrema-direita populista, a que até agora tinha resistido." O texto completo está aqui, e vale muito a pena ler.
Se forem mantidas todas as recomendações da DGS, se todos respeitarem os procedimentos e as distâncias de segurança, o que seria estranho era o  Parlamento abrir todos os dias para legislar, mas fechar no dia 25 de Abril. Tal como mencionei no post anterior, retomando o argumento da Páscoa: se durante todo o mês de Março e no princípio de Abril tivesse havido missas nas igrejas, ninguém aceitaria que as fechassem justamente na Semana Santa.
Além disso, a transmissão televisiva destas comemorações pode ter efeitos pedagógicos, por mostrar como é que as pessoas devem agir quando estão reunidas com outras em espaços públicos fechados, nomeadamente a distância que mantêm entre si, e a desinfecção repetida dos objectos que tocam (por exemplo: a estante para os discursos). Digo-o por experiência própria: vi isto há dias no Parlamento alemão, e fiquei realmente marcada por todo aquele aparato de cuidados de higiene.

- Os que são de opinião que, nesta altura em que se exige de todos que evitem ao máximo os contactos sociais, chegando ao ponto de impedir que os idosos e os doentes recebam a companhia e o conforto daqueles que amam, as celebrações no Parlamento são um péssimo exemplo e um sinal contraproducente de que já podemos deixar cair as guardas.
Além disso, pela própria natureza do acto, alguns dos convidados pertencem ao grupo etário de maior risco e é irresponsável expô-los a um perigo maior.
Finalmente: este é um tempo de fazer sacrifícios, e o Parlamento estaria muito bem se desse o exemplo.

Entendo estas razões. Apesar de ter a minha própria opinião, é-me fácil acompanhar os pontos de vista diferentes.

Mas isso sou eu. Visto à distância, o espectáculo é o de um povo a transformar um momento simbólico importante numa ferrenha disputa clubística irracional, ainda mais acesa que uma questão de bola.

Pergunto: a zaragata que por esta semana nos tem mantido excitadinhos é o efeito de terem apanhado demasiado sol na moleirinha, é o efeito do isolamento prolongado que começa a afectar até os mais pacientes, ou será o fruto de uma sábia manipulação para nos virar a todos uns contra os outros? Lembram-se de "A Zaragata", de Astérix? Estão conscientes de que as Democracias europeias estão a ser atacadas por forças que usam o debate público para construir e aprofundar trincheiras entre nós? Será que teríamos chegado tão longe nesta disputa sem as insinuações sobre "certos partidos pensarem que são os proprietários da Democracia", sobre "os deputados de m...", sobre a arrogância deste ou daquele político, sobre o carácter fascista de quem prefere que as celebrações este ano não se realizem nos moldes habituais?

Nós aqui a discutir aguerridamente uns com os outros: somos mesmo nós, ou estamos a deixar que façam de nós fantoches num jogo que nos escapa?

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A Helena Ferro de Gouveia sugere que no dia 25 de Abril os portugueses se unam a cantar o Grândola. Óptima ideia.
Acrescento um detalhe: para garantir que cantam todos ao mesmo tempo e ao mesmo ritmo, o Grândola da nossa unidade devia emanar do Parlamento, e entrar pela televisão em directo na casa de cada um. Esse seria o momento para os portugueses irem para as janelas cantar em uníssono para celebrar a Liberdade e a Democracia.

ADENDA: Por lapso dei a entender que a ideia seria uma sugestão da Helena Ferro de Gouveia, quando de facto se trata de uma proposta feita já por várias pessoas e organizações, nomeadamente o Vasco Lourenço (aqui), o PCP Madeira (aqui), a Câmara de Lisboa (aqui) e a Associação 25 de Abril (aqui).