Olá, Rita
tu pensa-me bem se queres mesmo voltar para Portugal, tu vê-me lá bem se ainda podes dar o dito por não dito no senhorio e no emprego, que isto, desculpa lá que te diga, não é só sol e bom tempo e muitos feriados (ao contrário do que consta na Alemanha) (hihihi) (antes que os mirones que andam a ler estes postais me caiam em cima,
ó aqui o contraditório) porque olha o que me aconteceu ontem:
Tudo começou com a
io, que costuma ser uma moça precavida e conscienciosa, a convidar-me para vir a casa dela preparar um jantar para alguns amigos. Estás-me a ver isto? A io, que recebe como poucos, e eu, que também recebo como poucos, mas no outro extremo da escala. Ela estaria talvez a sofrer um momento de fragilidade e atracção do abismo, sei lá, a experimentar novas rimas como "comer mal" com "frugal", desconfio. Será caso para lhe sugerir que procure ajuda de um profissional?
Pois comecei a pensar no que faria, eu a 3000 km de distância dos meus livros de cozinha tão prestáveis nestes momentos. Fui ver o que havia no frigorífico, ah, óptimo, muito melancia e muito melão, e ala para a internet, de quem os meus livros de cozinha ultimamente têm cada vez mais ciúmes, e são todos justificados.
Fiz uma listinha simples: melão com presunto, melancia mexicana (com sumo de lima, piri-piri moído e sal grosso), salada de tomate com laranja e menta (de facto, para bem ser, é salada de menta com tomate e laranja), arroz basmati com frango à tailandesa em leite de coco. E fruta para a sobremesa, que eu ao fim de cinco semanas na culinária da saudade ando a precisar de abater algum do valor acrescentado, os outros convivas que me desculpem e tenham paciência.
Agarrei na minha lista de compras minúscula e fui para o Continente do Colombo, convencida de que ali tinha a garantia de encontrar tudo o que queria. Como me enganava. Menta? Que é lá isso? Vai de erva cidreira, e muita sorte. Gengibre, ainda vá, apesar de velhinho e mirrado. Mas folhas de lima, vai no Batalha. Troquei por erva príncipe. Faltava o molho de peixe tailandês. Três quilómetros à frente, encontrei molho de ostras. Ahem, não era bem isso... "Aaaah, molho de peixe? Já tivemos uma caixinha da Knorr", disse a empregada. Da Knorr. Eu não queria fazer bouillabaisse, queria fazer frango tailandês. Mas o molho de peixe, nada. Desisti. Plano B - que não tinha. Cirandando, cheguei à secção da peixaria, onde encontrei um salmão a rir-se para mim. E que tal peixe cru à moda do Tahiti? Ózanos que não como disso, e é tão bom: marina-se o peixe em sumo de lima, e rodelas de pepino em sal. Escoa-se o sumo de lima ao peixe e a água ao pepino, mistura-se, junta-se leite de coco, sal e pimenta, e alguma cenoura raspada para dar cor. Aimêdês, só de pensar enche-se-me a boca de água. Já na fila para ser atendida, lembrei-me de telefonar à ASAE, que me atendeu um bocado aflita, "agora não posso, diz lá", "desculpa, era só para saber se tu compravas salmão ou atum no Continente para comer cru", "aaah, cru?!!!!", "pronto, está bem, plano C". Também não tinha. Já andava por lá há mais de meia hora, arrastando o meu triste cesto com uma embalagem de erva cidreira e mainada, quando de repente me deparei com um frasco de molho teriyaki, a minha arma secreta nos dias em que não sei o que cozinhar. Atão, vá. Uns bifinhos de coiso qualquer, acompanhados por uma salada de beterrabas e pimentos grelhados. Deixa cá ver os ingredientes: beterrabas cozidas, um frasco de pimentos grelhados, cebolinhas, aneto congelado, limão biológico para lhe raspar a casca. Comecei pelo aneto congelado, mas ao fim de dez quilómetros só encontrei salsa e cebola. Então e o mangericão, o cebolinho, o "cinco ervas" para fazer aquele molho de Frankfurt? Por sorte, dois quilómetros à frente encontrei aneto fresco. Até parecia dia de Natal, juro-te! Cebolinhas também não havia, mas encontrei cebolinho e échalote, o que, em havendo criatividade e boa-vontade, dá para desenrascar.
Voltei para casa cansada e chateada. Comecei a preparar as coisas. Dei-me conta de que a melancia estava a caminho de Schnaps (sou uma esquisita). Fui a outro supermercado comprar mais melancia - e fui de carro, tu pensa bem no que vais fazer! que eu ao fim de cinco semanas já vou de carro a um supermercado que ficava mais perto que o meu berlinense aquele ali logo ao virar da esquina! - e pelo caminho comecei a ter pena dos convivas que iam ficar sem doce à sobremesa só por causa do meu valor acrescentado. De modo que procurei queijo ricotta para fazer aquele bolo corso sempre-a-aviar, um ricotta, quatro ovos, açúcar, aguardente, raspa de limão, e não encontrei. Para complicar, os limões não têm qualquer indicação sobre os produtos usados na casca.
Em suma: desde a minha primeira ida ao supermercado em San Francisco (onde fiquei horas a tentar perceber aquelas listas de ingredientes que tinham metros de comprimento, e onde ainda hoje estaria se no entretanto não tivesse descoberto o Trader Joe's) que não havia memória de uma passagem tão frustrante pelo supermercado. É bem verdade que a partir de 1989 eu comecei a evoluir numa direcção e o meu país noutra, tu pensa-me bem se queres mesmo voltar para um país que já não é como tu eras quando saíste em peregrinação e diáspora.
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E depois do jantar fomos aos fados, um mundo que me é ainda mais estranho que este meu país de 2011, e tive a sorte de ser iniciada por dois garbosos connaisseurs, de modo que tudo está bem quando acaba bem.
PS. Se fizeres alguma receita de gaspacho de melancia tirada da internet, cuidado. À que fiz faltava alguma coisa. Talvez menta. Menta?! *suspiro* lá vamos nós outra vez...