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03 julho 2012

correio das ilhas III (5)

Olá, Rita e Carla,

São João no Porto: a cidade envolta no fumo e nos aromas da sardinhada - vista da ponte, ainda mais irreal que habitualmente.
Descemos das Fontainhas para o rio, pelo meio das travessas engalanadas e das mesas postas nos patamares das escadas. Uma alegria.
Arranjámos lugar num restaurante para lá da ponte de D. Luís. As sardinhas não prestavam – até as de Berlim, congeladas, souberam melhor. Mas que importa?
Comprámos martelinhos (martelões,  autênticas mocas, que este era o primeiro São João do Matthias) e fomos para Gaia ver o fogo. Belo espectáculo, com um final avassalador.

Já não me lembrava disto: o Porto é uma naçom, a minha.




















(as fotografias foram feitas pelo Matthias, com o seu iPod)

02 julho 2012

correio das ilhas III (4)

3Cinge os rins como um homem;
vou interrogar-te e tu responder-me-ás.
4Onde estavas, quando lancei os fundamentos da terra?
Diz-mo, se a tua inteligência dá para tanto.
5Sabes quem determinou as suas dimensões?
Quem estendeu a régua sobre ela?
6Sabes em que repousam as suas bases,
ou quem colocou nela a pedra angular,
7entre as aclamações dos astros da manhã
e o aplauso de todos os filhos de Deus?
8Quem pôs diques ao mar,
quando, impetuoso, saía do seio materno,
9quando Eu lhe dava por manto as nuvens,
e o enfaixava com névoas tene­bro­sas?
10Encerrei-o dentro dos limites que tracei,
e pus-lhe portas e ferrolhos,
11dizendo: ‘Chegarás até aqui; não mais além;
aqui se quebrará o orgulho das tuas ondas.’


(do Livro de Jó)



Vejo os socalcos na Peneda e penso:

Quem disse à serra "chegarás aqui, não mais além"?
- aqui, nestes terraços de terra doce, se quebrará o orgulho das tuas pedras.

(comparado com os meus devaneios em férias, o Nietzsche é um menino de coro)





correio das ilhas III (3)

De fazer tão pouco, os dias passam a correr. A primeira semana já se foi. 

Aqui vão as fotos do primeiro passeio: os espigueiros do Soajo, a estradinha do Buda, gado barrosão, cavalos à solta no Gerês. 
Numa curva da estrada encontrámos vacas a pastar. Apitámos, fizemos muuuuuh em todas as variações. Nada – não se dignaram levantar a cabeça. Produtividade portuguesa, alta concentração na execução das tarefas: espalhem a notícia! 











24 junho 2012

correio das ilhas III (2)

Olá, Rita e Carla

fizemos as malas em Berlim no meio de um calor infernal. Farta de levar metade da casa comigo sempre que viajo, deixei lá todos os casacos. Chegámos ao Porto, chovia torrencialmente e estava frio. Isto é tempo que se apresente?
Já desisti de tentar acertar na roupa que devo levar para Portugal. Ao pé de Vila do Conde há um outlet...

Para ir de Viana a Guimarães decidimos poupar o dinheiro da auto-estrada e da SCUT e fomos pelos Gerês...
Entre Germil e Brufe há uns meandros da estrada (de uma estrada que nem existe no mapa) que me deixam sempre alvoroçada. É bem verdade: não há caminho para a felicidade. A felicidade é aquele troço da estrada. Essa é a parte de sabedoria que ainda falta ao Buda, mas eu já sei.

Depois ponho aqui as fotos.

correio das ilhas III (1)

Olá, Rita
olá, Carla

que é que vocês não me pedem sorrindo que eu não faço chorando?

Pois é: difícil resistir à vossa pressão. Cá vamos nós para nova série do correio das ilhas.
Mas esporádico, esporádico - quero mesmo ficar o mais possível longe da internet.




Beijos, Helena

27 janeiro 2012

correio das ilhas II (5)

Olá, Rita

este é o último postal das férias. Muito mais havia para dizer, mas como estou a sair de novo, ficamos assim.




Eu, que nem percebo nada de futebol, nem sei quantos jogadores há em cada equipa (disseram-me que são 11, incluindo o guarda-redes, mas depois às vezes dizem que há jogos com 10 de um lado e 12 do outro e logo ali me baralho outra vez), e nunca percebi aquela loucura dos clubes e a maluquice das claques, pois cá venho com estas fotografias a modos que agradecer um dos momentos altos daquela semana de superlativos: nos bastidores de um jogo no estádio do Benfica.
Um dia destes hei-de escrever um "ensaio sobre o sonambulismo": belas surpresas que vêm ao meu encontro, andando eu feita dorminhoca pela vida.

E gracias a la vida, pois, que ultimamente é sobretudo o que me ocorre dizer. 

correio das ilhas II (4)

Olá, Rita

eu pareço aquelas pessoas que só depois de regressarem das férias é que mandam os postais...
"Pareço", diz ela. Hehehe.

Serve a presente para passar uma mensagem que recebi via facebook na véspera de voltar para casa:

olá mãe, 
estou destruir tua cosinha
Matthias


Pois: acabaram-se os tabs da máquina de lavar a louça e o rapaz, desenrascado, pôs líquido de lavagem manual. Mas não me meti no primeiro avião para Berlim: não me apetecia nada limpar aquela trapalhada toda.

24 janeiro 2012

correio das ilhas II (3)

Olá, Rita

foram cinco dias muito intensos.
Reencontrei amigos que não via há mais de vinte anos - e que maravilha regressar a essas amizades que permanecem no tempo! Continuei conversas interrompidas no fim do Verão, comecei conversas novas.
Foram dias de tal riqueza que tenho dificuldade em refazer percursos e momentos: onde estive, com quem, quem disse o quê. Desorientada, resta-me apenas esta mistura de alegria e gratidão. A vida pode ser tão boa!

Agora sei como é subir as escadas do metro do Chiado a correr, não por estar atrasada, mas por ser levantada por asas imensas que crescem dentro do peito.
As escadas em saltos leves, as asas as suas raízes bem enterradas no coração.

correio das ilhas II (2)

Olá, Rita

eu em Lisboa tu em Berlim, eu em Berlim tu em Lisboa: andamos desencontradas de arquipélago.
Mas não tem importância. Temos a amizade amarrada à mesma estrela, por ela nos guiamos nesta navegação à vista e à distância.

19 janeiro 2012

correio das ilhas II (1)

Olá, Rita,

em suma, é isto: ainda agora cheguei, e já me está a saber a pouco.

No check in, a senhora perguntou-me se no voo para Lisboa queria um lugar à janela ou no corredor. Hahaha, que pergunta. O avião passou por cima da cidade, deu a volta quase sobre o mar, sobrevoou a ponte 25 de Abril... melhor que isto, só mesmo um aeroporto com nome de poeta no Rio.

À chegada, grande algazarra à saída do aeroporto. "Portugal", pensei eu. Mas não. Era mesmo comigo: uma grande surpresa. E depois, foi sempre a melhorar ainda mais.

Podes dizer ao simpático cjs que sim, à noite fui à catedral, mas fiquei na sacristia. Foi fantástico.
Antes disso fomos para a culinária da saudade numa Kneipe de benfiquistas junto ao Media Markt, comer pratinhos de polvo e orelha e um prego. Ou estava muito bom, ou eu tinha muitas saudades.

À tarde dei uma grande passeata a pé, até ao Chiado, com um amigo. Fomos à Bertrand, pegámos ambos no novo livro do Manuel António Pina, mesmo junto à caixa, e eu disse à vendedora "quero dois" e ele disse "não, eu é que quero dois", e ficamos ali a rir os três.

O Carlos Azevedo, num comentário num post anterior, cita: "Las vidas son siempre mucho más pequeñas que nuestros sueños; incluso la vida del hombre o la mujer más grandes es infinitamente más estrecha que sus deseos."
Pois bem: hoje não acordei nada assim. A minha vida é muito maior que alguma vez poderia ter sonhado. Porque estar em frente a uma vendedora da Bertrand a decidir - rindo - quem compra dois livros, ou estar a fazer a minha mala enquanto uma amiga vai pacientemente tirando os borbotos das minhas camisolas é daquelas coisas que enchem o coração de maneira a sobrar alegria para várias vidas.

11 agosto 2011

correio das ilhas (46)

Olá, Rita

este é o último postal desta viagem. Já estou em Berlim. Mas não, ainda não cheguei.
Como habitualmente, não me apetece escrever nos dias que se seguem às férias de Verão.
Tu sais hoje para Corfu - mandas-me um postalito?

Beijo, Helena

08 agosto 2011

correio das ilhas (45)

Olá, Rita

lembras-te daquela vez que comprei uma balança na IKEA do Porto e a fui devolver porque só podia estar avariada? Pois é, este ano foi o espelho do meu quarto que se avariou. Coitado, tem mais de cem anos, é natural que comece a ver as coisas distorcidas.

(esta gastronomia da saudade, que se atira a mim durante as férias, ainda vai acabar mal)
(ou ela, ou eu)

07 agosto 2011

correio das ilhas (44)

Olá, Rita

A chuva limpa o ar, deixa as montanhas à volta de Ponte de Lima com uma nitidez que chega a ser dolorosa de linda: as casas muito bem desenhadas contra as encostas, a filigrana das árvores na crista dos montes, tão exacta que quase se vêem os ninhos.

Passei umas horas na vila, em casa de um amigo, cuscando com ele na vida do Chico Buarque e no novo CD. Sabes que o Chico tem nova paixão? Pois, a interessada, como de costume...

O CD está uma maravilha - um vintage, dizia o meu amigo, e é isso mesmo. E o Chico, pela primeira vez, em vez de cantar sobre a minha vida canta sobre a dele (confesso que foi uma surpresa). Aparece transparente e vulnerável, apaixonado mas sem acreditar. Tenho de rever as minhas opiniões sobre o amor depois dos quarenta - se calhar depois dos sessenta muda outra vez.

A miúda tem graça, embora não corra grandes riscos de ganhar algum prémio Nobel. E embora fique mais bonita de perfil, ou com a cara a três quartos, que de frente. O que, no caso, não faz mal: ouvindo "Essa pequena" imagino que ele só a veja de lado, ou de costas, que se há coisa que lhes falta é o tal ponto comum de que o Saint-Exupéry falava. Ó aqui:

Meu tempo é curto e o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela
Mas, eu sou tão feliz com ela.

Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina e ela quer ir pra Flórida
Acho que não sei direito o que é que ela fala
Mas, não canso de contemplá-la.

Pois: contemplá-la de lado, que é como ela fica melhor. Nem ele se cansa, nem nós, que estivemos a saborear o vídeo do dueto "Se eu soubesse" (uma delícia aquelas vozes combinadas!) e mais a entrevista no Jô Soares que é longa, mas vale a pena, sobretudo porque a gente vai rindo com um Jô completamente rendido à moça (e até esqueço a dor de cotovelo) (aqui e aqui).

E depois vem o Chico e pergunta:

Não sei para que
Outra história de amor a essa hora

E volta à solidão, insuportável:

Pois sem você
O tempo é todo meu
Posso até ver o futebol
Ir ao museu, ou não
Passo o domingo olhando o mar
Ondas que vêm
Ondas que vão

Gosto do CD, gosto muito, mas dá-me uma espécie de tristeza por aquele homem concreto - o Chico - que se nos revela sozinho em frente ao mar.

06 agosto 2011

correio das ilhas (43)

Olá, Rita

Este fim-de-semana há festa cá na terra. Ontem adormeci embalada pelas alegres canções de "aquele querido mês de Agosto", taliqual, que os altifalantes fanhosos me faziam chegar em ondas incertas.
Hoje é noite de ranchos. Vou ver, nem que chova. E chove, oh, se chove.
Para a loucura ser completa, só falta mesmo o Augusto Canário a cantar à desgarrada com a Irene de Gaia. Mas melhor que isso, visceralmente melhor, foi uma cena a que assisti na Senhora da Agonia do ano passado: um rapaz a tocar concertina, e um grupo de homens com as hormonas ao rubro a aviar brejeiríssimas quadras, muito aplaudidas pelo público feminino (apesar de um ou outro "ai os malcriados!"). A minha romaria de Viana, já tão apetecida por causa dos Zés-Pereiras ao meio-dia de sábado na praça da República, e por causa da beleza das mulheres orgulhosas, carregadas de ouro, ganhou um novo charme, mais aleatório - sei lá eu onde e quando é que vai dar aos homens para começarem novo chorrilho de brejeirices muito berradas de tintol?

E assim vai a vida. Na próxima quarta-feira regresso a Berlim. Regresso ou vou? Não sei - ando.

05 agosto 2011

correio das ilhas (42)

Olá, Rita

ontem estive a almoçar com amigos em Matosinhos. Um homem e duas mulheres. Chegámos ao fim, e quem pagou a conta? O homem.
Já me aconteceu várias vezes, e não sei que me parece.
Para mais agora, em tempo de crise. Prevejo grandes convulsões sociais. Pois, que eu bem sei onde isto pode levar - lembrou-me logo um amigo em San Francisco que era bissexual e quando a bolha dot-com rebentou quase se viu na miséria e teve de se tornar homossexual porque sair com mulheres ficava muito caro.

03 agosto 2011

correio das ilhas (41)

Olá, Rita

fique registado, neste estranho verão de 2011, que no dia 3 de Agosto fui à praia e estava formidável.

Enquanto esperava pela vizinha para lhe dar boleia para a praia (que bom ter uma vizinha por quem esperar para ir para a praia!) vi umas laranjas a espreitar pelas folhas da nespereira. E foi assim que descobri que no meu quintal anda uma laranjeira enrolada com uma nespereira, uma pouca-vergonhice vegetal que nem te digo nem te conto.

02 agosto 2011

correio das ilhas (40)

Olá, Rita

comprei o Duetos,do Chico Buarque, e ando a babar. Fico bem disposta logo à primeira canção: "Façamos (Vamos Amar)" com Elza Soares. Nós as duas no carro a cantar com a voz muito cheia "façamos!", maravilha. Descobri que canto melhor no carro que no duche. Melhor, diz ela? Queria dizer: menos mal. Mas a Elza não se importa, é boa moça.

E por falar em menos mal: comprei o CD da Luísa Sobral. Acho que não devia pagar IVA, porque quase não tem valor acrescentado: a voz dela, muito soft, sobre músicas que são receitas conhecidas.

Esgotou-se-me o orçamento para estas alegrias. Agora, se vejo a FNAC, fico com vontade de ganir baixinho como os cães que esperam o dono à porta do supermercado.

***

Hoje estive na Livraria Lello, no Porto. Desconfio que desde que os supermercados começaram a vender livros, as livrarias começaram a vender quinquilharia. Que tristeza! Se me deixassem mandar (agarrem-me, já me conhecem!) usava aquele espaço para vender boa literatura portuguesa em línguas estrangeiras. Isso, e guias turísticos também em estrangeiro. Assim como assim, aquela casa está cheia de turistas que obviamente não vão comprar livros portugueses. E esses, os livros portugueses, vendem-se nos supermercados, não é preciso ir ao centro do Porto... (Piadinha, claro: havia lá bons livros que não há nos supermercados. Mas aquele público não os consegue ler.)

01 agosto 2011

correio das ilhas (39)

Olá, Rita

As férias aproximam-se do fim. Desde o princípio sabia que iam ser curtas, e não me enganei. Tenho a sensação que os próximos dez dias vão passar ainda mais depressa que os n dias anteriores (nem digo quantos, que ainda me metem um processo por atentado aos bons costumes).

No fim de semana encontrei alguns dos meus amigos mais antigos. Confirma-se: uma das vantagens de envelhecer são esses amigos feitos cada vez mais raiz connosco. Era um encontro de reflexão teológica, e confirma-se também isto: só sei que nada sei. Quase me deu vontade de rir ao pensar no modo como amigos ateus ou agnósticos olham para mim, imaginando que a Fé me dá todas as respostas e de brinde mapas detalhados para o caminho. Ah, isso é que era bom! Corrijo: ah, isso é que era mau!

Em conversa com algumas dessas amigas contei que tinha preparado o tal jantar para amigos em casa da io. Do que eu me fui lembrar! Ficaram logo muito interessadas, e se também fazia o mesmo na casa delas, e se também arrumava casas ao domicílio. Suspeito que encontrei mais um nicho de mercado.

Não está tempo para praia. Vou-me estender na rede, debaixo da figueira, a aviar a resma de livros que me emprestaram para ler estas férias.

29 julho 2011

correio das ilhas (38)

Olá, Rita

tu pensa-me bem se queres mesmo voltar para Portugal, tu vê-me lá bem se ainda podes dar o dito por não dito no senhorio e no emprego, que isto, desculpa lá que te diga, não é só sol e bom tempo e muitos feriados (ao contrário do que consta na Alemanha) (hihihi) (antes que os mirones que andam a ler estes postais me caiam em cima, ó aqui o contraditório) porque olha o que me aconteceu ontem:

Tudo começou com a io, que costuma ser uma moça precavida e conscienciosa, a convidar-me para vir a casa dela preparar um jantar para alguns amigos. Estás-me a ver isto? A io, que recebe como poucos, e eu, que também recebo como poucos, mas no outro extremo da escala. Ela estaria talvez a sofrer um momento de fragilidade e atracção do abismo, sei lá, a experimentar novas rimas como "comer mal" com "frugal", desconfio. Será caso para lhe sugerir que procure ajuda de um profissional?

Pois comecei a pensar no que faria, eu a 3000 km de distância dos meus livros de cozinha tão prestáveis nestes momentos. Fui ver o que havia no frigorífico, ah, óptimo, muito melancia e muito melão, e ala para a internet, de quem os meus livros de cozinha ultimamente têm cada vez mais ciúmes, e são todos justificados.
Fiz uma listinha simples: melão com presunto, melancia mexicana (com sumo de lima, piri-piri moído e sal grosso), salada de tomate com laranja e menta (de facto, para bem ser, é salada de menta com tomate e laranja), arroz basmati com frango à tailandesa em leite de coco. E fruta para a sobremesa, que eu ao fim de cinco semanas na culinária da saudade ando a precisar de abater algum do valor acrescentado, os outros convivas que me desculpem e tenham paciência.

Agarrei na minha lista de compras minúscula e fui para o Continente do Colombo, convencida de que ali tinha a garantia de encontrar tudo o que queria. Como me enganava. Menta? Que é lá isso? Vai de erva cidreira, e muita sorte. Gengibre, ainda vá, apesar de velhinho e mirrado. Mas folhas de lima, vai no Batalha. Troquei por erva príncipe. Faltava o molho de peixe tailandês. Três quilómetros à frente, encontrei molho de ostras. Ahem, não era bem isso... "Aaaah, molho de peixe? Já tivemos uma caixinha da Knorr", disse a empregada. Da Knorr. Eu não queria fazer bouillabaisse, queria fazer frango tailandês. Mas o molho de peixe, nada. Desisti. Plano B - que não tinha. Cirandando, cheguei à secção da peixaria, onde encontrei um salmão a rir-se para mim. E que tal peixe cru à moda do Tahiti? Ózanos que não como disso, e é tão bom: marina-se o peixe em sumo de lima, e rodelas de pepino em sal. Escoa-se o sumo de lima ao peixe e a água ao pepino, mistura-se, junta-se leite de coco, sal e pimenta, e alguma cenoura raspada para dar cor. Aimêdês, só de pensar enche-se-me a boca de água. Já na fila para ser atendida, lembrei-me de telefonar à ASAE, que me atendeu um bocado aflita, "agora não posso, diz lá", "desculpa, era só para saber se tu compravas salmão ou atum no Continente para comer cru", "aaah, cru?!!!!", "pronto, está bem, plano C". Também não tinha. Já andava por lá há mais de meia hora, arrastando o meu triste cesto com uma embalagem de erva cidreira e mainada, quando de repente me deparei com um frasco de molho teriyaki, a minha arma secreta nos dias em que não sei o que cozinhar. Atão, vá. Uns bifinhos de coiso qualquer, acompanhados por uma salada de beterrabas e pimentos grelhados. Deixa cá ver os ingredientes: beterrabas cozidas, um frasco de pimentos grelhados, cebolinhas, aneto congelado, limão biológico para lhe raspar a casca. Comecei pelo aneto congelado, mas ao fim de dez quilómetros só encontrei salsa e cebola. Então e o mangericão, o cebolinho, o "cinco ervas" para fazer aquele molho de Frankfurt? Por sorte, dois quilómetros à frente encontrei aneto fresco. Até parecia dia de Natal, juro-te! Cebolinhas também não havia, mas encontrei cebolinho e échalote, o que, em havendo criatividade e boa-vontade, dá  para desenrascar.

Voltei para casa cansada e chateada.  Comecei a preparar as coisas. Dei-me conta de que a melancia estava a caminho de Schnaps (sou uma esquisita). Fui a outro supermercado comprar mais melancia - e fui de carro, tu pensa bem no que vais fazer! que eu ao fim de cinco semanas já vou de carro a um supermercado que ficava mais perto que o meu berlinense aquele ali logo ao virar da esquina! - e pelo caminho comecei a ter pena dos convivas que iam ficar sem doce à sobremesa só por causa do meu valor acrescentado. De modo que procurei queijo ricotta para fazer aquele bolo corso sempre-a-aviar, um ricotta, quatro ovos, açúcar, aguardente, raspa de limão, e não encontrei. Para complicar, os limões não têm qualquer indicação sobre os produtos usados na casca.

Em suma: desde a minha primeira ida ao supermercado em San Francisco (onde fiquei horas a tentar perceber aquelas listas de ingredientes que tinham metros de comprimento, e onde ainda hoje estaria se no entretanto não tivesse descoberto o Trader Joe's) que não havia memória de uma passagem tão frustrante pelo supermercado. É bem verdade que a partir de 1989 eu comecei a evoluir numa direcção e o meu país noutra, tu pensa-me bem se queres mesmo voltar para um país que já não é como tu eras quando saíste em peregrinação e diáspora.

***

E depois do jantar fomos aos fados, um mundo que me é ainda mais estranho que este meu país de 2011, e tive a sorte de ser iniciada por dois garbosos connaisseurs, de modo que tudo está bem quando acaba bem.

PS. Se fizeres alguma receita de gaspacho de melancia tirada da internet, cuidado. À que fiz faltava alguma coisa. Talvez menta. Menta?! *suspiro* lá vamos nós outra vez...

28 julho 2011

correio das ilhas (37)

Olá, Rita

ontem andei a passear com uma amiga sob o magnífico céu estrelado da planície alentejana. Até me perguntei o que fui fazer para Chaco em 2009, se as estrelas afinal vêm ter comigo aqui mesmo.
(A malandra da galinha da vizinha, aquela galinha gorda indecente, é o que é...)

Vi várias estrelas cadentes, lindas, mas nunca a tempo de formular um pedido. É que tínhamos muito que conversar, e entre o acabar a frase, fazer oh, e pensar no que queria, já ela tinha desaparecido. Ao fim de seis ou sete, desisti de contar com elas. Vou ter de me desenrascar sozinha.