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26 maio 2016

dirait-on



O meu coro já está a preparar a próxima maratona: um trabalho intenso com o Rundfunkchor Berlin, e um programa variado e exigente. A arte também se quer organizada, e muito: já nos deram uma folha com as peças que vamos cantar, e uma tabela de datas para fins-de-semana do coro, ensaios normais e ensaios com o Rundfunkchor. Quem se inscrever, compromete-se a faltar o menos possível aos ensaios normais e a não falhar nenhum dos outros.

Ainda tenho a missa do Schubert feita ear worm nos meus dias, ainda falta mais de uma semana para terminar o prazo de inscrições para o próximo projecto, mas uma colega do meu naipe já começou a ouvir as peças propostas e já nos avisou que há uma que a tocou de forma especial. Chama-se "dirait-on", e é a música de Morten Lauridsen para um dos poemas que Rainer Maria Rilke escreveu em francês. Como estamos na Alemanha, o entusiasmo espontâneo é muito organizado: enviou-nos o poema em francês e a tradução para alemão, e um filme no qual o compositor explica como criou a música.

Esta manhã estive a ouvi-la repetidamente: a tranquilidade e a simplicidade que se instalam em nós sem remissão.

Venha a próxima maratona! Quero corrê-la intensamente e devagar, passo a passo, compasso a compasso, inteiramente.


Les roses  

Abandon entouré d'abandon, 
tendresse touchant aux tendresses... 
C'est ton intérieur qui sans cesse 
se caresse, dirait-on; 

se caresse en soi-même, 
par son propre reflet éclairé. 
Ainsi tu inventes le thème 
du Narcisse exhaucé.




21 maio 2016

da missa a metade

Amanhã vou cantar um missa de Schubert na Filarmonia. O tal concerto a mil vozes, a maior parte delas de coros amadores como o meu.
Erros meus, má fortuna, viagens, outros afazeres: são quase cinco da tarde, e ainda só sei da missa a metade.

Agora vou estudar o resto, para tentar reduzir ao mínimo o post que talvez venha a escrever mais tarde sobre o erro de estudar apenas para dez quando a escala vai até infinito, sobre não saber aproveitar convenientemente as oportunidades que nos dão, etc.


15 maio 2016

um concerto de mil vozes



Daqui a exactamente uma semana, mais minuto menos minuto, estarei na Filarmonia a cantar esta missa de Schubert.
Eu, e mais 999, e mais os solistas. Não se preocupem comigo, desta vez não me vou envergonhar, porque tenho o playback muito bem ensaiado: nas partes em que não estou segura, abro e fecho a boca dentro do ritmo e das vogais certas, e a coisa vai.

[ ouçam o "Domine Deus", a partir de 10:48, ouçam o - aaaaaah - "Miserere" ]

O meu coro teve cerca de dois meses para preparar a missa inteira. O nosso maestro deu-nos um plano muito exigente para prepararmos previamente cada ensaio, enviava-nos e-mails do género:

                               Seite Takt  bis
1 Kyrie Christe           4    51    88
2 GloriaGratias          14  68    115
   Domine Deus          19 151   229
   ff. Fuge
   Cum sancto             29 329   387
   ff.                            31  388   432
4 SanctusBenedictus (tutti)
                                  68    26   35

Quem não tinha piano, podia usar este site: http://www.cyberbass.com/Major_Works/Schubert_F/schubert_mass_eflat_major.htm
(que é o perfeito antónimo de música, mas quem não tem cão. Além disso, pode-se reduzir o ritmo, o que dá jeito quando se está a aprender as passagens de fuga.)

Apesar do ritmo intenso do trabalho e de fazermos os trabalhos de casa, no último ensaio senti sinceramente pena antecipada do Simon Halsey, que no próximo domingo vai ter de apresentar uma missa de Schubert com duas dúzias de coros amadores, e mais o seu fantástico Rundfunkchor Berlin. Adoro o Simon Halsey, gosto imenso de trabalhar com ele (esta é a segunda e provavelmente a última vez, porque ele também se vai embora de Berlim, como o Simon Rattle) (desconfio que esses dois em Londres vão provocar uma bela subida do índice de felicidade na região) e deu-me pena: coitado, não merecia levar com uma como eu, que em dois meses o máximo que consegue fazer é preparar o playback na ponta da língua. 

E depois senti muita pena de mim. É que, no ensaio da semana passada, ficámos um pouco mais em duas passagens - uma que me cativou por parecer russa [ 30:10 ] e outra, quase renascentista, que me fez sentir em casa - e por termos parado mais nelas comecei a perceber o que o Schubert queria e a sentir-me encantada por estar em comunhão com ele; pelo meio o nosso maestro dizia gracinhas do género "isto não é erro de impressão, é mesmo maldade do Schubert", a seguir a maldade resolvia-se em beleza, e eu só pensava - cheia de pena - que mais seis meses, seis meses de entrega total e íamos entrar realmente nesta missa e no Schubert, íamos talvez conseguir tocar a alma desta música.

[ ouçam os solistas a cantar "e encarnou", a partir de 20:50 ]  


21 junho 2015

"opera prima" - hoje, às 4 da tarde (3 em Portugal), transmissão em directo e gratuita no Digital Concert Hall

A estreia, ontem, correu bem. Tentei lembrar-me de tudo: de usar "toda a língua alemã", como diz o Simon Halsey (ou seja: bater bem as consoantes), de meter uma folha de papel entre as palavras para se perceber cada uma delas sem o texto parecer uma sopa informe, de fazer os pianos e os fortes, de estar atenta à expressão do rosto e das mãos ("isto é tudo teatro", dizia a encenadora - tenho de me lembrar mais disso, porque às vezes esqueço-me, e os olhos enchem-se-me de água quando os jovens atenienses partem no barco), dos momentos em que é para cantar como se fosse um lamento interior e dos momentos em que há uma explosão de dor, do "you are not alone" (como cantarolou o Simon Rattle, para nos lembrar que o coro dos cretenses, sendo um trabalho de 100 solistas, tem de ser um trabalho em uníssono), da palavra luz iluminada (como o Tobias, o maestro que nos preparou, pediu desde o primeiro ensaio), do 1-2-3-4-"T", o 1-2-3-4-5-6-"G", dos cantabile, dos crescendo, do "nun" cantado como "lun" para não se ouvir apenas o "u". De levantar o braço ameaçadoramente logo em "já", e não em "labirinto", embora a entoação seja "já para o LABIRINTO".

Ao meu lado, um cantor fazia os gestos errados, e eu dava-lhe cotoveladas discretas. Enganei-me uma vez no coro dos cretenses, ai que vergonha, e nessa parte senti algum embaraço por estar misturada com o público a gritar coisas horrorosas em alemão, no meu alemão que não é perfeito, e as pessoas ao meu lado perceberem isso  (como quando ralhava com os meus filhos em alemão, e eles me corrigiam a pronúncia e a gramática).

No fim, o público aplaudiu longamente. Aliás: como trouxeram para o palco tantas pessoas com um nível cultural bastante diferente do habitual na Filarmonia, o público era bem diferente do habitual. Nem tossiam nem nada. O projecto Education Programm tem um efeito multiplicador que vai bem além das duzentas ou trezentas pessoas que nele participam.

No palco, nós sorríamos e aplaudíamos os nossos companheiros de aventura. Eu até me esquecia de parar de aplaudir quando me curvava com o coro dos adultos para agradecer o aplauso que nos era dirigido. Por trás de mim, o filho do Simon Rattle, um rapazinho amoroso que toca contrabaixo nesta orquestra que mistura crianças da escola primária e jovens com músicos da Filarmonia, escancarava os olhos de surpresa perante aquela explosão de aplausos.  

Saímos para a rua com o olhar feliz e realizado de quem conseguiu chegar muito perto da Beleza.

Hoje passa em directo, e gratuitamente, no Digital Concert Hall. Às três da tarde em Portugal.

Depois é apresentado por outros aventureiros em Londres, em inglês, e a seguir no festival internacional de Aix-en-Provence, em francês. A nossa aventura acaba aqui, hoje, e já sinto uma saudade enorme.

20 junho 2015

"opera prima" - uma ópera do nosso tempo





Jonathan Dove e Simon Halsey (fotos)


Os trompistas, que fazem o tema do Minotauro, são conduzidos por Ricardo Silva
um português bolseiro da Orchesterakademie.


É hoje a estreia da nova ópera do Jonathan Dove, "The Monster in the Maze", sobre a história de Teseu e o Minotauro. Estreia mundial, que responsabilidade a nossa! Embora, de facto, a verdadeira estreia mundial seja amanhã, com a transmissão em directo (e gratuitamente) pelo Digital Concert Hall. Domingo, 21 de Junho, às 4 da tarde (3 em Portugal), aqui. Hoje é apenas o aquecimento, perante 2400 pessoas...

Durante estes dois meses de preparação, fui-me apropriando desta ópera a pouco e pouco. Começámos pelo fim, pela mensagem de esperança "e assim a luz expulsa a noite" (e, logo no primeiro ensaio, o nosso maestro a pedir "iluminem bem a palavra luz"). Meu amor à primeira vista:

E assim a luz expulsa a noite, um dia claro nasce, e o seu riso é para sempre, para sempre, para sempre.

Depois fomos ao princípio, quando os atenienses comentam entre eles a crueldade do rei Minos, que exige que os filhos de Atenas sejam enviados de barco para serem entregues à morte. (Barcos da morte no Mediterrâneo? Onde é que já ouvi isto?...)

No primeiro ensaio com o Simon Halsey, a orquestra e os outros dois coros, fiquei fascinada com a beleza das melodias dos jovens, a doçura do coro infantil, e os desdobramentos de tensão na sobreposição dos vários grupos e solistas. Para além disso, comoveram-me os sinais da verdadeira riqueza deste Education Programm: o maestro que se dirige aos grupos do coro infantil chamando-os pelo nome do seu bairro, e são bairros que nos habituámos a associar a grupos sociais pobres e sem acesso à cultura erudita; no fim do ensaio, os gorjeios de língua à maneira do norte de África e da Turquia que ecoaram na sala quando os jovens aplaudiram; e o rapazinho que, sem saber como reagir ao nosso entusiástico aplauso ao coro infantil, endireitou o tronco, levantou os braços e mostrou orgulhosamente os músculos - no coração da Filarmonia de Berlim.

Uns dias mais tarde, durante o almoço na cantina dos artistas, falaria com uma cantora do Rundfunkchor que estava na Filarmonia a trabalhar com um dos coros das escolas primárias, e ela comentaria que é um trabalho muito exigente do ponto de vista emocional, porque muitas vezes aquelas crianças a comovem até às lágrimas. Como a compreendo! Também lhe confessei que tinha alguma inveja dos cantores do Rundfunkchor, que são pagos para trabalhar com o Simon Halsey. Ela sorriu, e concordou. Parece que não sou só eu a reparar no charme dele, do seu humor e da música do seu alemão com toque britânico, e no pormenor delicioso da camisa que no princípio do ensaio está elegantemente metida dentro das calças, e depois se vai esbanigando.

Voltando à nossa história: começa com o rei Minos a falar aos atenienses. "Ouve, Atenas! Foste vencida. Vencida, conquistada, destroçada. Enche todos os anos um barco com a tua Esperança, os jovens da tua cidade, e envia-o para o mar, para mim, o rei de Creta!" (Enviar para longe os jovens que são a Esperança de um povo? Onde é que eu já ouvi isto?...)
Os atenienses estão desesperados, os seus filhos estão em choque, e é então que surge Teseu. O Teseu desta ópera é um herói do nosso tempo: cool, cheio de swag. "Olá!", diz ele alegremente ao grupo de atenienses que estão à beira de um ataque de nervos. "Que choradeira é esta?"
Os jovens enchem-se de esperança: "Teseu!, o Teseu é o mais inteligente!, o Teseu é o mais forte!, é o mais valente!, é modesto!, consegue o que ninguém mais consegue!" e o Teseu faz charme, "ora essa, isto é só fun". Combinam que Teseu vai com eles para os ajudar a escapar ao Minotauro, preparam-se para partir, e eis que surge a mãe do Teseu, e parece saída de um livro do Freud. Pior, parece eu a falar com os meus filhos: "Nem penses! Isso é perigoso! Podes morrer! E eu, como é que fico? Não me deixes sozinha!"
O Teseu também parece meu filho: "Ó mããããeeee!" - impossível não rir com os tiques de adolescente que o Florian Hoffmann empresta ao seu personagem.
Depois os pequeninos juntam-se ao grupo, implorando aos irmãos mais velhos que não partam, que fiquem em Atenas. Mas eles põem-se a caminho. Teseu diz à mãe que deu a sua palavra àqueles jovens, reconhece que a comida dela tem um aroma muito sedutor, mas que a aventura ainda o seduz mais (ah, YOLO!).
Para trás ficam os atenienses, de coração destroçado.

Quando os jovens chegam a Creta, são recebidos pelo rei e por um mob sádico e sedento de sangue. Entram no labirinto, onde - tão jovens do séc. XXI! - os miúdos se queixam do fedor e da falta de conforto. Ao ouvir ruídos, os miúdos da frente fazem "chiu" e os de trás protestam: "já não se pode falar?!"
É Dédalo, o construtor daquela obra, que os leva até ao Minotauro. Durante a luta com o Minotauro (não vou revelar tudo, vejam no Digital Concert Hall) o coro dos jovens transforma-se em balões da banda desenhada: Batsch! Uffff! Peng! Knack!

O resto da história é o esperado: Teseu vence o Minotauro, saem do labirinto, e entram no barco rumo a Atenas, onde ninguém acredita no seu regresso. Os pais repetem "eles nunca mais vão voltar a casa" como uma canção de embalar - como se quisessem adormecer a sua dor. E chega o grande final, o momento da alegria e da esperança, com todos os solistas, os três coros em palco, a orquestra e dois maestros - o Simon Rattle  e o Simon Halsey - a aclamar o brilho daquele dia de riso claro para sempre, para sempre, para sempre.
Esta parte é muito difícil. Há demasiadas frases sobrepostas, as pessoas em palco têm dificuldade em ver o Simon Halsey, que dirige os três coros e ainda acompanha o que Simon Rattle faz na orquestra. Queremos todos entoar a esperança com enorme júbilo, mas sentimo-nos um bocado perdidos no meio da uma extrema diversidade. Alguns dos cantores nem conseguem ver o maestro, que se multiplica em gestos para oito músicas paralelas, tentando conduzir todos com segurança para um final de perfeita polifonia. Nestas condições, não basta esperar ter um dos melhores maestros da Europa e confiar nele. Para além de seguir as indicações do maestro, cada um de nós tem de saber muito bem o seu papel e o modo como se combina com o dos outros, tem de estar extremamente concentrado, tem de estar sempre atento para ouvir o seu grupo e todos os outros, tem de dar o melhor de si para garantir o melhor resultado do conjunto.

É, sem dúvida, uma ópera para o nosso tempo.


14 junho 2015

"opera prima" - ensaio com público



(fotos)
(eu sou a quarta bandeira da direita...)

Hoje a Filarmonia de Berlim abriu as portas ao público. O dia começou às 11, com um ensaio público de parte da ópera que vai ter estreia mundial no próximo sábado, dia 20. Antes disso, tivemos um ensaio sem público, pelo que o meu dia começou um bocadinho antes. Muito antes, aliás: antes de sair para o ensaio andei em casa numa correria a pô-la bonita para o Joachim que andou uma semana lá fora a lutar pela vida e regressa hoje, e a pôr-me bonita para um ensaio com público na sala grande da Filarmonia, e (aquela coisa do "já agora") a estender a roupa que foi lavada durante a noite, e - claro - a levar o Fox ao primeiro passeio do dia. Ao regressar a casa o Fox espetou os pés no caminho: não queria entrar em casa. O Joachim fora, eu a passar imensas horas fora de casa devido a trabalhos vários, ele sozinho demasiado tempo. Pobre Fox, deve sentir a casa como um castigo. Já estava atrasada, atrasadíssima, pelo que o trouxe para casa ao colo. Ele deitou-se logo no cesto, com um olhar de partir o coração.
Fui para a Filarmonia, entrei como um bólide na sala onde já estavam a fazer aquecimento de voz, e só tinha 30 segundos de atraso. Depois fizemos o nosso ensaio. No coro de Creta, um coro de sádicos, o Simon Rattle tentou tudo por tudo para nos conseguir fazer agressivos e assustadores, mas ainda temos muito de aprender. Ele bem dizia "demasiado, é muito bom!", e nós esforçávamo-nos por ser demasiado agressivos para ele ficar satisfeito. Debalde. A culpa deve ser do ensino público, que anda a dar cabo de nós.
Para repetirmos a cena dos "cretinos" (há quem lhes chame assim - a gente ri-se muito, lá na Filarmonia) saímos do bloco H, onde estávamos, e corremos pelo lado de fora da sala para o bloco A (quem conhece aquela casa imaginará o programa de fitness que esta ópera implica para os cantores). À porta do bloco A já havia pessoas à espera para entrarem na sala. A nossa guia disse "têm de nos deixar passar" e um refilão refilou "ter, não temos nada!" (imagino que isto seja muitos anos de educação para a Democracia - as pessoas ficaram hipersensíveis a tiques de autoridade, mesmo que sejam tão inócuos como este). Mas lá nos deixaram passar, e lá ficámos à espera, até que veio nova ordem: como já não havia tempo para repetir essa parte, devíamos voltar para o bloco H, para começar em breve o ensaio com público. Alguém dos que estavam à espera comentou "esta Filarmonia, que coisa mais mal organizada!" Até estremeci. Eles não sabem nada! Uma ópera novinha em folha, que começou a ser ensaiada há menos de dois meses, com 100 cantores adultos não profissionais, muitos deles sem sequer terem experiência de coro, mais dezenas de adolescentes e crianças (3 coros, portanto), três solistas, um narrador e um bailarino, uma orquestra com músicos amadores (e alguns deles são tão jovens que nem chegam com os pés ao chão quando estão sentados na sua cadeira), uma encenação extremamente complexa que nos faz andar a correr pela casa para voltar ao bloco inicial mas em lugares diferentes (sim, que cada um de nós pertence a 3 grupos diferentes; eu, por exemplo, sou dos grupos contralto, 2 e C). Do ponto de vista da capacidade de organização, o que esta equipa está a fazer é um trabalho brilhante.
O Simon Rattle cumprimentou o público, explicou que isto era apenas um ensaio, e que eles iam ver uma obra em construção. E que era uma aventura, ou uma viagem de carro - se houver um acidente, temos de parar, disse ele. Eu estava à espera que houvesse um acidente, porque o mais interessante é mesmo ver o processo de correcção de erros - sobretudo o modo bem-disposto como eles (tanto o Simon Rattle como o Simon Halsey) nos dizem o que querem receber de nós. Mas parece que não houve nenhum acidente enorme, e lá fomos nós pela peça fora. Ainda não está perfeita, mas já está bastante impressionante. Na parte do coro de Creta (quando estamos no meio do público e dizemos coisas horrorosas às crianças de Atenas que estão a chegar para irem servir de almoço ao Minotauro), uma menina ao meu lado começou a olhar para mim e a encolher-se toda de medo. Pisquei-lhe o olho para ela saber que isto era tudo teatro, e ela encolheu-se ainda mais. Deve ter pensado que eu era a bruxa que a queria atrair à casinha de chocolate.

O que tenho de aprender para o futuro (que é já no dia 20):
- não olhar para o público, especialmente para meninas pequeninas todas encolhidas de medo
- não dançar nem sequer baloiçar ao som da música, por muito bonita que seja
- não sorrir encantadíssima quando os outros dois coros estão a cantar
- não sorrir encantadíssima quando o Teseu aparece (e é difícil, porque ele é encantador)
- olhar mais para o Simon Rattle (sim!!! isto é inacreditável, mas está-me a acontecer! uma vez na vida tinha uma boa desculpa para não tirar os olhos do Simon Rattle, e esqueço-me de olhar para ele porque estou presa das crianças que têm melodias lindas, ou das fanfarronices do Teseu, ou da preocupação da mãe dele, ou dos pequenitos que estão na orquestra a tocar ao lado de alguns filarmónicos - o que não me falta nesta ópera são distracções, de modo que passo a vida a chegar com atraso aos lamentos de Atenas (este é o momento em que uma amiga minha vai dizer "pffff, andas há anos a chegar com atraso ao sofrimento dos gregos...") (olá, Rita! estás a ter um bom fim-de-semana?)
- preparar-me realmente bem, saber a ópera de cor - não apenas as minhas frases e os meus gestos, mas o momento exacto em que começo a cantar, e o momento exacto em que largo o "t" ou o "d" do fim da palavra

Ainda temos uma semana de trabalho intenso, ainda estamos a meio do processo - e eu já estou cheia de saudades destes dias. E a sonhar que, se tiver sorte, para o ano há mais.

Entretanto, hoje na Filarmonia há quatro ou cinco palcos onde acontece música excepcional, mas eu vim para casa, porque ainda tinha o coração na tristeza dos olhos do Fox quando o deixei de manhã. O dia continua: já plantei umas trepadeiras, já me zanguei com o Fox que correu para a rua a ladrar a uma senhora, o Joachim voltou, estou a pensar se regue o jardim para as nuvens finalmente se abrirem e largarem a água que têm estado a prometer o dia todo, e nada. A normalidade.  


01 maio 2015

dizer poesia

Esta manhã uma rádio berlinense estava a pedir aos seus ouvintes que telefonassem a dizer um poema que soubessem de cor sobre a primavera. Ouvi alguns. Impressionante: em vez de porem a voz em registo "ar de caso"
(erro habitual de quem diz poesia) 
(outro erro comum é pôr a voz em registo "prisão de ventre"), 
as pessoas entoavam o poema. Tinha tudo: o ritmo, a melodia e o volume certo como o poema pedia - e segundo o que cada segmento do poema pedia. 
Quem dizia aqueles poemas tinha-os entendido. Mesmo os que não tinham a dicção muito boa, mesmo os que a meio se esqueceram de uma palavra ou de um verso, todos eles diziam o poema a partir de um lugar iluminado dentro de si próprios.

Aprenderam na escola, claro, que isto pode-se aprender. Vi nas escolas dos meus filhos, em Weimar. Vi uma miúda de oito ou nove anos a dizer a balada "O aprendiz de feiticeiro", de Goethe, como se fosse uma peça de teatro para uma pessoa só (*). Maravilhosa. Vi outros, de dez anos, a declamar de cor um poema muito divertido, no dialecto de uma região a norte de Berlim, e a turma a dizer a cada um deles o que é que estava bem na sua interpretação, e o que podia ser melhorado.

Enquanto os ouvia hoje na rádio, pensei em algumas aulas da Elisabeth Schwarzkopf, e do modo como ela insistia com os jovens cantores para entenderem a poesia do que cantavam. E lembrei-me do ensaio desta semana para a ópera que vai ser apresentada em Junho. Parámos algum tempo na frase "Die Kinder sind, die Kinder sind zum Tod verdammt!" (as crianças estão, as crianças estão condenadas à morte!). O maestro lembrou-nos que nós, atenienses, estávamos gagos de pavor, e não avançou enquanto não cantámos com a entoação certa: "die KINDER sind, die Kinder sind ZUM TOOOD verdammt". Mais uns ensaios com este maestro e vou ser capaz de entoar poesia. Mas o que eu gostava mesmo era de ter frequentado a escola dos meus filhos em Weimar. 



21 abril 2015

a vida continua



A penúltima coisa de que me lembro, na Costa Rica, foi nós sentados no Bread & Chocolate, em Puerto Viejo, a comer uns brownies prodigiosos. A última coisa de que me lembro foi do ar de maturidade do Matthias a aturar a sua mãe chorosa. Bem, antes disso também houve um momento muito engraçado, quando ele anunciou "pai, tenho uma notícia trágica para ti!" e eu disse, sobressaltada, "o que é que aconteceu ao Bayern?", e era isso mesmo - o Matthias decidiu que já não quer ser adepto do Bayern. Uma notícia trágica para o Joachim, ficaram horas a falar sobre essa decisão. E depois dizem que as mulheres é que são difíceis de entender...

Levantámo-nos às três e meia da madrugada para ir apanhar o avião, e 22 horas mais tarde eram oito da manhã no aeroporto de Tegel. De momento não faço a menor ideia das horas que são dentro de mim.

Depois de uma soneca o Joachim foi buscar o Fox e eu fui passeá-lo. A Primavera tem andado pelo nosso lago, eu é que não tiro fotos, porque estas duas semanas na Costa Rica desencantaram-me a paisagem quotidiana. Ao fim da tarde o Joachim foi pintar e antes disso esteve a ver a nova exposição colectiva onde tem alguns quadros, eu fui ao ensaio do coro para a nova ópera do Jonathan Dove. Os primeiros cantores começaram a chegar 45 minutos antes da hora marcada, e muito antes do que estava previsto já estávamos todos prontos, de autocolante com nome ao peito e lista de presença assinada. O ambiente é bem-disposto e leve, mas de trabalho concentradíssimo - até os exercícios de aquecimento da voz são exigentes e exactos (é a Filarmonia, stupid). Durante o intervalo encontrei amigos que iam ao concerto desse dia, rimos um bocadinho e despachámo-nos para não chegar atrasados. No regresso para casa fui ao supermercado, e como não tinha saco meti tudo numa caixa de cartão. Na estação de metro dirigi-me a um dos funcionários para lhe fazer uma pergunta, e levava a caixa e as compras debaixo do braço. Ele começou a olhar para as bananas com ar de cobiça, dei-lhe uma. Aceitou, rindo aquele riso de quem sabe que abusou um pouco mas não se importa muito.
É: estou outra vez em Berlim.


18 junho 2012

se quiserem comprar acções da tal empresa de lenços de papel...

...comprem por vossa conta e risco, já não tenho a certeza de ser uma grande oportunidade de mercado.

Hoje o meu coro deu o seu último concerto, depois fomos jantar, depois despedimo-nos, e nem uma lagriminha. Nem uma, nem sequer quando cantámos aquele maldito Irish Blessing (mas concentrei-me muito na contagem do "may God hold you in the pa-a-a-a-alm of his hand", nessa parte esteve por um fio)



O melhor momento foi no Veni Domine, de Mendelssohn. Nessa peça eu canto com os mezzo-soprano, ou seja, quase sempre sozinha. Outra contralto achou que essa era também a sua voz, e juntou-se a mim. Começámos a cantar, mas não cantávamos o mesmo. Às tantas, achei que tinha de ter mais espírito de equipa, e tentar acompanhá-la, embora me parecesse muito estranho. Mas, ora bem, temos de saber ser team players, não é assim?
Não, não é assim. Chegámos ao fim da peça, e demo-nos conta que ela tinha vindo cantar a parte mezzo-soprano quando afinal só conhecia a do contralto...
(como é que o nosso maestro nos aturava?)



A seguir ao Veni Domine cantámos o Laudate Pueri, também de Mendelssohn. Tal e qual como no vídeo, só um bocadinho mais criativo.

Disseram-me que há um site com a lista dos coros que há em Berlim. São novecentos. Para os experimentar todos, vou ter de cantar de segunda a sexta durante três anos e meio.
O melhor é começar por definir critérios de excelência, para fazer uma primeira triagem. A ver se me arranjam fotografias dos maestros em fato de banho.

04 junho 2012

Brahms, como quem diz saudades



Para quem não entende alemão:

When the silvery moon beams through the undergrowth,
And its slumbering light scatters over the lawn,
And the nightingale warbles,
I walk sadly through the wood.

Shrouded by foliage, a pair of turtledoves coo their delight to me, but I turn away, seeking darker shadows,
And a lonely tear falls.

When, O smiling image which, like the dawn, shines through my soul, shall I find you on earth? And the lonely tear flows burning down my cheek.

*suspiro*

O meu coro vai acabar daqui a duas semanas. Na próxima segunda-feira é o último ensaio, e uma semana depois damos o último concerto. De momento andamos nos "discos pedidos", a matar saudades do que vamos perder, e hoje pediram uma peça de Brahms, que eu não conhecia.
A harmonização para coro, de Burkhart M. Schürmann, que tem idade para ser meu irmão mais novo, sublinha o carácter romântico da peça, e deixa-me indecisa entre continuar a cantar ou encher-me de tristeza por tudo, pelo coro que vai morrer e pelas peças como esta que não sei quando voltarão a passar por mim - smiling tones which, like the dawn, shine through my soul.

**

Só encontrei um vídeo relativamente bom com coro - bem gostava de ter um melhor, e não o Hastings College Choir acompanhado por um lenhador ao piano. Pois, também isso: as saudades que vou ter do nosso maestro pianista!



**

Uma das cantoras disse-me que vai regressar à Sing-Akademie zu Berlin. Um coro antiquíssimo, que já era bem maduro no tempo em que Felix Mendelssohn Bartholdy com ele reanimou a Paixão segundo São Mateus de Bach, perdida em longo sono desde a morte do compositor. Berlim ataca de novo: anda uma pessoa à procura de um novo coro para dar um gostinho ao gosto pelas harmonias românticas, e mal se distrai tropeça em episódios importantes da cultura musical europeia.

Contudo, quem, como eu, conhece as suas próprias limitações, nem vai ver onde é a sede da Sing-Akademie.

E portanto:

Procura-se coro. Que cante música da Renascença até hoje, de todos os cantos do mundo, e sobretudo do período romântico. Que tenha bom ambiente, gente bem-disposta, um maestro paciente que nos explique com entusiasmo a alma da música. Que a meio de uma peça de Schumann diga: "reparem neste acorde, isto é o Magnificat de Bach, ouçam" - e toca Bach, e fá-lo com um sorriso luminoso.

Vou ter muitas saudades deste coro.

17 maio 2012

se eu fosse um passarinho...

Deu a Primavera no meu coro.

Cantamos "se eu fosse um passarinho" (os antigos é que a sabiam toda: se eu fosse um passarinho, voava para ti / etc. etc. / em sonhos estou contigo, e falo-te / etc. etc. / de noite, a todas as horas / o meu coração acorda / a pensar em ti / a pensar que mil vezes / me darás o teu coração - ah, malandrotes!) (mas, pensando bem, que seria de esperar de uma colectânea de poemas chamada "a trompa mágica do rapaz"?)





Cantamos "canção rústica" (depois do baile o moço leva a mocinha a casa por um caminho alumiado pelos pirilampos, beija-lhe o dirndl, segreda-lhe não sei quê ao ouvido, e ambos pensam "aaai, abençoado mês de Maio" - e provavelmente vai cada um para sua casa pensar nas mil maneiras de se entregarem o coração um ao outro, mas sobre esta parte a canção é omissa.)





Cantamos, e enquanto cantamos rimos, que estas letras não são para menos. A seguir, o maestro manda-nos para o Laudate Pueri, para ganhar juízo.





O meu coro vai acabar dentro de algumas semanas. Morte anunciada há muito, por falta de membros - também, quem se teria lembrado de fazer um coro de diplomatas, gente que nunca pára muito tempo no mesmo sítio? Na segunda-feira passada, enquanto cantava "sit nomen domini benedictum" e me alegrava por ter conseguido chegar com elegância a um certo mi que lá tem, fui invadida por uma suave tristeza, saudades antecipadas de tudo: das melodias, dos risos, daquela sala de um edifício ministerial da RDA com as mesas reservadas para nomes estranhos e bandeirinhas de países que mal sabia que existem.

Vou sentir falta de tudo isto.

08 março 2012

retalhos da vida de um coro




No ano passado comecei a cantar num coro de diplomatas (sim, estou a ver se apreendo alguma coisa por osmose), e muito gostava de saber quem terá tido a brilhante ideia de fazer um coro de diplomatas, seres que, como é sabido, vêm ao mundo com uma mala na extremidade dos braços. Ou seja: os diplomatas estão sempre a despedir-se para uma temporada em países sabe-se lá quais, e justamente quando o coro se tinha habituado a ter ali um tenor ou um baixo contínuo eis que auf Wiedersehen, auf Wiedersehen, e lá fica a home front entregue a um punhado de mulheres. Que neste momento se desunham (se desvozam?) para tentar transformar em música as partituras do Laudate Pueri de Mendelssohn. Como não somos muitas, e volta e meia falta alguém, eu aprendo ora com as contralto ora com as meio-soprano, e canto onde faz mais falta. Dizem que sou o joker do coro, e o maestro já me mandou treinar para cantar as duas vozes ao mesmo tempo. Eu rio-me, e digo que sim. Afinal de contas, já vi que é possível. É só esforçar-me um bocadinho, acredito.
A peça não é fácil. Muito menos para um coro como o nosso, fundado mais em boas intenções que numa sólida formação musical: pelo ouvido é que vamos, e nem sempre chegamos ao destino. Mas nós lutamos, e às vezes até todas na mesma direcção, e quase sempre todas ao mesmo tempo, excepto eu, que quando acerto no lá bemol do 68º compasso me dá uma alegria tal que acelero e transformo em semínimas as mínimas que vêm a seguir, e de repente lá estou eu largada em sprint, meio compasso à frente das outras.
Pergunto-me porque é que o nosso maestro - que é também compositor, e no intervalo de trabalhar connosco faz uns quantos concertos importantes - gasta o seu tempo com um coro destes. Há dias em que olho para nós e me sinto no meio de um filme: quando se começa uma discussão linguística em pleno ensaio (pronunciar Krug ou Kruk, e porquê, e como, e quando, e de onde vimos e para onde vamos?); ou quando uma das cantoras começa a dizer numa voz perfeitamente controlada e com cara impassível que esta maneira de ensaiar a deixa fora de si, que é insuportável ter de avançar quando ainda não percebeu bem o tom, que aquela linha melódica é impossível e ela não lhe vê nexo, o que a deixa furiosa e só lhe apetece desistir (comparo a letra com a música dessa cena: nada daquilo faz sentido; o maestro sorri e diz "então vamos lá ensaiar esta frase outra vez", e é mais ou menos a vigésima sete vez que a cantamos); ou quando a austríaca explica à coreana que em dominum se acentua o "do" e não o "num", "ai é? tem graça, não imaginava..."; ou quando uma ou outra cantora começa a dizer que não quer cantar aquilo, prefere outra música, e quase vamos a votos. Então ponho-me a imaginar se aquilo é um filme mais Fellini ou mais Scola, e lá me engano de novo nas mínimas e nas semínimas, ou canto um ré em vez de um si, com tamanha convicção que levo o naipe inteiro comigo, pelo que no fim peço desculpa a todos. O maestro faz um sorriso paciente e encantador, assim tipo "ainda não é hoje que te mato". Uffff, penso eu.
O perigo é a minha profissão.

Volta e meia damos um pequeno concerto. Não costuma correr mal, as pessoas para quem cantamos ficam contentes, tudo está bem quando acaba bem.