Mostrar mensagens com a etiqueta coro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta coro. Mostrar todas as mensagens

25 março 2020

o meu coro em zoom



Ontem o meu coro teve um ensaio via zoom, e o melhor de tudo foi quando as pessoas começaram a entrar em linha: pipocavam muito alegres no meu ecrã. 
Passei uns bons quinze minutos a sorrir como uma apaixonada.
(Não sabia que gostava tanto deles.)

O ensaio começou com o maestro no centro, nós muito bem arrumados cada um na sua janelinha, e ele a explicar como é que o sistema funcionava. Confessou, a rir, que o que mais lhe agrada neste sistema é poder pôr-nos em silêncio - "quem me dera ter esta tecla durante todos os ensaios convosco!"

Fizemos os exercícios de aquecimento, e cantámos várias vezes:

Evening rise. Spirit come. 
Sun goes down when the day is done. 
Mother earth  awakens me
With the heartbeat of the sea.

(Para quem quer saber tudo: a versão que cantámos foi esta, com arranjos de Meinhard Ansohn. Mas optei partilhar o vídeo que está no princípio deste post porque me soube muito bem aquele passeio inicial pela floresta tropical.)

Depois cantámos em conjunto uma parte da peça que estamos a preparar para o concerto de Novembro. "Cantar em conjunto" é uma maneira de dizer: cada um cantava para si, olhando para o maestro que, de facto, estava a dirigir uma gravação no piano. As diferentes ligações de internet implicam velocidades diferentes para cada uma das vozes do coro, fazendo com que o conjunto seja, digamos, uma interessante cacofonia.

Ao ver o meu maestro a dirigir o vazio lembrei-me de uma cena contada por Konrad Latte, um músico judeu berlinense que conseguiu escapar ao Holocausto arrancando a estrela da roupa e usando um nome falso. O jovem Latte tinha aulas com um maestro que teve a delicadeza de não lhe fazer qualquer pergunta sobre a sua vida. Durante os terríveis anos da guerra e da perseguição ensaiavam apenas com a partitura da orquestra, e Latte contaria mais tarde no seu livro "E nem que ganhemos apenas uma hora" que os vizinhos deviam achar estranhíssimo ver pela janela os dois homens a gesticular com movimentos largos, fechados numa sala em silêncio.
(Para quem quer saber tudo: Konrad Latte foi o criador da
Berliner Barock-Orchester, que dirigiu de 1953 a 1997.)

No fim do ensaio falámos dos ajustamentos que teremos de fazer. Provavelmente haverá ensaios por naipes. E vamos usar o zoom também para ter aulas de canto individuais ou em pequenos grupos.

Outro ajustamento que temos de fazer é um controlo melhor da nossa imagem. As cenas que nós fazemos no coro, que vergonha! Os bocejos, os olhares, os esgares...
O maestro diz que para ele não foi nada de novo, porque vê disso em todos os ensaios.
Ou seja: mais uma vez se prova que este tempo estranho serve ao menos para nos revelar algo que que não sabíamos sobre nós mesmos. 

À despedida, uma das cantoras anunciou muito orgulhosa que os vizinhos dela estavam todos à janela a aplaudir.
(O que me lembrou uma gracinha que li há dias no instagram: a sugestão para ter sexo uns minutos antes da hora a que começa o aplauso aos profissionais da saúde.)

Quando desliguei, por volta das nove da noite, dei-me conta de que, pela primeira vez em muito tempo, tinha passado duas horas sem me lembrar de sentir fome. Jantei tristonha e nostálgica, ligeiramente atormentada pela dor de ter lembrado como era a minha vida antes.

Mas tenho esperança que lá para Julho as medidas de segurança vão abrandar, e sei que em fins de Setembro regresso à Alemanha e recupero o meu coro em carne e osso.
Isto não passa de um intermezzo.



25 novembro 2019

meu Requiem de Mozart

O ensaio geral correu tão mal que nos pôs em estado de alerta extremo. Foi o melhor que nos podia ter acontecido.

(Enfim, o segundo melhor. O primeiro melhor teria sido sabermos todos a partitura de cor, estarmos bem ligados a todas as vozes do nosso naipe, não tirar os olhos do maestro.) (Ah, e ter uma boa acústica, que uma boa acústica dá sempre jeito, e naquela igreja não conseguíamos ouvir as pessoas da fila da frente nem da fila de trás.)

Depois do ensaio desastroso, ficamos em modo alerta total.  À frente do nosso público, numa casa cheia a rebentar pelas costuras, demos tudo. Simultaneamente tensos e calmos. E foi assim que no dia 24 de Novembro de 2019 inventei uma nova lei da Física - a Lei da Relatividade Música-Tempo: quando a música corre bem, o concerto conclui-se muito mais depressa. Ontem, não me durou nem cinco minutos, e cheguei à última página em luto antecipado por termos chegado ao fim. Se me deixassem mandar, inventava concertos destes em repeat. Enquanto estivesse a correr bem, ninguém parava.

(Não liguem a esta proposta, esqueçam. Era falar por falar. Mesmo antes de pôr o ponto final parágrafo já me tinha ocorrido que seria uma espécie de priapismo, e dizem que é doloroso. Esqueçam.)

Resumindo e concluindo: às vezes vejo os filarmónicos de Berlim a sair de um concerto, e trazem um brilho diferente nos olhos. O melhor do meu requiem de Mozart de ontem foi descobrir em mim o que existe por trás e por dentro desse brilho.

23 novembro 2019

desculpa lá, ó Mozart


Amanhã vou cantar neste concerto, e já estou em feliz expectativa para ouvir a solista soprano, que sabe pôr a alma inteira - a sua alma delicada - na música que canta.

Também estou um bocado preocupada com aquela coisa de cantar a consoante do início da palavra antes do pulso ainda me baralha um bocado (o nosso maestro que não saiba disto!).

Hoje, no duche, descobri que já sei a fuga do Kyrie quase toda de cor. Quase toda. O problema é que me escapa a passagem para o movimento final, que é diferente, e pareço um disco riscado a repetir sempre e sempre a mesma frase. Desisti ao fim de inúmeras voltas, e agora estou a pensar quanto é que este Kyrie me vai custar na conta da luz no fim do mês.
Lux aeterna, aeterna, aeteeeeeerna...

---

Agora, a sério: chegar mais perto de Mozart nota a nota e frase a frase, e sentir o seu génio a tentar traduzir-se pelas minhas cordas vocais, foi das melhores coisas que me aconteceram este ano. Ainda estou muito longe de tocar a verdade de Mozart, mas sinto-me grata por este encontro entre a beleza da sua música e a  minha incompletude. Apesar da minha incompletude. 

25 janeiro 2019

reais catástrofes



Programa para hoje: além do restante trabalho, aprender de cor os textos de cinco das canções que vou cantar com o meu coro no concerto de hoje. Os bilhetes já estão todos vendidos, os figurinos experimentados, o pianista (que é o português Rui Rodrigues, yay!) a postos - a única coisa que falta é eu fazer a minha parte e aprender a cantar tudo muito bem.
("Cinco para a meia-noite" é o meu nome do meio, triste vida.)

O coro foi criado em 2016 e já tem um belo histórico de façanhas. De todas, a que mais me impressiona é a capacidade de delegar do nosso maestro: praticamente todos os membros do coro assumiram a responsabilidade por uma tarefa concreta - partituras (cópias, distribuição, direitos), gestão da página na internet, listas de mailing por temas e naipes, informações várias, abrir e fechar as salas onde ensaiamos, instalar os pianos electrónicos e arrumá-los no fim, etc.
(A mim calhou-me: aprender a cantar bem as peças cinco minutos antes do concerto...)




O nome do programa do concerto de hoje e do próximo domingo é "reais catástrofes". Todas as peças são sobre reis ou rainhas - desde "All Creatures Now", de Bennet, até "König von Deutschland", de Rio Reiser - em grande diversidade de épocas e estilos musicais. Os apresentadores prepararam textos tão divertidos quanto profundos. Por exemplo, quando chamam a atenção para a atemporalidade do desespero do rei de Ungewitter, de Schumann: "no alto deste castelo / não sou rei com espada e coroa / sou o filho impotente e apreensivo / destes tempos de cólera".
(Ou pensaram que o nome "reais catástrofes" era em minha homenagem? heinhe?) (bom, reconheço que seria merecida)



A encenação deste programa esteve a cargo de uma dramaturga de teatro musical que já conhecemos de alguns projectos da Filarmonia, e de uma das cantoras do coro, também dramaturga, mas da área do cinema. De modo que chegámos ao ponto de treinar a expressão do rosto e a direcção do olhar em determinadas passagens de uma canção. Além de concerto, é um show.
(Cantar afinadinho, alinhados à frente do maestro, é muito século XX.)  

Os figurinos, por sua vez,  são um espectáculo. Do meio dos cantores, vestidos de preto, sobressaem dois soberanos por naipe, profusamente produzidos. A minha favorita é uma das rainhas das soprano, que vem de chapéu real e blusa, mas traz sobre as calças pretas apenas uma armação de arames para saia. Sempre que olho para ela dá-me vontade de rir.
(Convém que não olhe para ela durante a parte do Ungewitter, do Schumann). 

De modo que agora cá vou eu ao trabalho: aprender de cor o texto do Bassa Selim e do König von Deutschland (logo eu, que sempre detestei a rapidez do rap!), o da Glor'würdge Königin, partes do Ungewitter e da Traurige Krönung. Ah, e treinar bem a tensão de "All creatures now", porque em certas passagens - aquelas em que me sinto mais segura - esqueço que se trata de música renascentista e espraio-me como se estivesse a cantar Schumann.
(Aprender textos alemães de cor, enquanto vou despachando as outras urgências do dia: "quadraturas do círculo" é o meu nome do meio.) (Com tantos nomes do meio, um dia destes o meu passaporte terá de vir com folhas desdobráveis.)

E além disso está a nevar. Se calhar também vai ser preciso ir limpar o passeio.
(Seria a primeira vez que alguém limpa um passeio a cantar a melodia do contralto no Bassa Selim.)



12 março 2017

aqueles cinco minutos de sol entre as nuvens grossas e o horizonte


Ontem ia no S-Bahn a caminho do nosso grande concerto quando o entardecer se encheu de luz.

Sentada no banco do comboio, fui disparando. É daqueles momentos em que até de olhos fechados se acerta. Tive pena de não ter a máquina melhor ao passar no Hansaviertel, com os seus prédios da exposição internacional de arquitectura de 1957. Num deles, havia uma bicicleta na varanda num dos andares mais altos.  

O concerto correu bem. Muito bem. Agora temos duas semanas de férias, e depois começa o novo desafio: uma viagem à lua, uma ópera novinha em folha.



 















11 março 2017

In the spring time, the only pretty ring time, / When birds do sing, hey ding a ding, ding; / Sweet lovers love the spring.






Mais um daqueles dias em que bem me podia dar inveja de mim própria: esta manhã, no ensaio geral, ouvimos o Ravel dos dois pianistas ("Ma mère l'oye"), e o Rundfunkchor a cantar cheio de swing "It was a Lover and his Lass", canção de George Sharing sobre um poema de Shakespeare.
O maestro deles disse-lhes que os queria a cantar aquilo no espírito On the Road de Jacques Kerouac. "Como a descrição que faz daquele clube de jazz em Nova Iorque", explicou.

Ai, a correspondência das artes: agora para cantar Shakespeare é preciso ler Kerouac e frequentar bares de jazz em Nova Iorque...

Ainda está frio em Berlim, mas esta música dá-nos primavera.

(A peça começa a 4:25 - e o Rundfunkchor canta isto muito melhor, mas ainda não gravaram, por isso deixo aqui o que encontrei.)



  IT was a lover and his lass,
With a hey, and a ho, and a hey nonino,
That o'er the green corn-field did pass,
  In the spring time, the only pretty ring time,
When birds do sing, hey ding a ding, ding;         5
Sweet lovers love the spring.
Between the acres of the rye,
  With a hey, and a ho, and a hey nonino,
These pretty country folks would lie,
  In the spring time, the only pretty ring time,  10
When birds do sing, hey ding a ding, ding;
Sweet lovers love the spring.
This carol they began that hour,
  With a hey, and a ho, and a hey nonino,
How that life was but a flower  15
  In the spring time, the only pretty ring time,
When birds do sing, hey ding a ding, ding;
Sweet lovers love the spring.
And, therefore, take the present time
  With a hey, and a ho, and a hey nonino,  20
For love is crown`d with the prime
In the spring time, the only pretty ring time,
When birds do sing, hey ding a ding, ding;
Sweet lovers love the spring.


overdose

Três concertos numa semana - e teriam sido quatro se tivesse conseguido entrar no Lunchkonzert, mas fecharam a porta três pessoas antes de mim.

Três concertos, e três ensaios com o Rundfunkchor e o seu maestro que é muito tipo agarrem-me que se começo a pôr aqui coraçõezinhos nem sei que vos diga que vos conte.

Começo com um presente: este domingo o Digital Concert Hall transmite em directo e gratuitamente um concerto com Zubin Mehta e Pinchas Zuckerman. Vi-o hoje, e foi sublime. Concerto para violino de Elgar, e 5ª de Tchaikovsky. Domingo, 13.3, às 7 da tarde em Portugal.







Não sei como é que Zubin Mehta aguenta este ritmo aos 81 anos - já dirigia os Filarmónicos ainda eu não era nascida, ainda nem sequer era uma ideia. E aqui está ele: por estes dias tem dado vários concertos consecutivos em Berlim - o Elgar e o Tchaikovsky desta semana, a seguir ao Bartók e ao Ravi Shankar da semana passada. Ai, o concerto do Ravi Shankar, com a cítara tocada pela Anoushka Shankar!  Raramente bati tantas palmas - eram merecidas, e além disso queria que ela voltasse muitas vezes ao palco porque estava com uma roupa lindíssima, que eu não me cansava de ver.

Amanhã vai ser o concerto do meu coro com o Rundfunkchor. Trabalhámos muito durante vários meses para chegar aqui, e desta vez sinto que entendi o que estou a cantar e posso saborear melhor a alegria de fazer esta música.

Já tivemos vários ensaios com o coro profissional. Nos dois últimos optaram por separar os coros, em vez de misturar os profissionais com os amadores. A minha auto-estima agradeceu imenso.
No concerto de amanhã vamos cantar algumas peças juntos, outras cantam só eles, outras cantamos só nós. E há uma, uma das que vão ter estreia mundial no concerto de amanhã, do Frank Schwemmer, em que cantamos juntos três estrofes e a seguir canta apenas o Rundfunkchor. Ouvi-os ontem: estávamos formados em semicírculos concêntricos, os profissionais atrás de nós, e de repente fomos envolvidos por uma música de tal beleza, cantada de maneira tão bela, que tive de me conter para não chorar.


Por mim, nem precisava de concerto: já me basta o que aprendi e o que me ri na sua preparação. O maestro do Rundfunkchor é um holandês bastante jovem, muito expressivo e com enorme sentido de humor. Ontem, por exemplo: a ensaiar a primeira das Valsas de Amor de Brahms começou ele próprio a valsar à nossa frente. E pedia desculpa aos pianistas, dizia "oh pá, estou empolgado! Esta música é tão cool!" Exigente nos detalhes, quer que sintamos cada palavra que cantamos, que a cantemos de modo a ser claro o que ela significa. Mima-nos a música como a quer ouvir de nós. Faz comentários do género: esse "vem, vem" não me convence, assim não me convencem a vir - e põe cara de reticências, e ri. Dá o exemplo dos fãs de futebol a chamar nomes ao árbitro para nos explicar como é a cadência com ritardando que queria. "Se 30.000 holandeses acertam isto, vocês também vão conseguir". E quando os naipes masculinos cantaram uma frase de forma pouco nítida, ele contou que daqui a um mês vai haver eleições na Holanda, e que o Geert Wilders distribuiu uma folhinha com o seu programa, "não mais que uma folhinha"; um dos pontos é sobre cortar os apoios às televisões, às rádios, à cultura, à música clássica, etc. etc. - e acrescentou, virado para os homens: "vocês estão a cantar esta frase como etc. etc. - ahem, desculpem, isto não veio muito a propósito, mas é uma coisa que não me sai da cabeça, e preciso de falar."


Amanhã temos um dia de muito trabalho, depois temos o concerto, e depois virá o vazio. Já sinto saudades destes dias.



01 março 2017

e então, Heleninha, como correu o ensaio com o compositor?

Correu bem. Quer dizer, exceptuando a parte de eu ter ficado em frente ao compositor e ao lado da mãe do nosso maestro, duplamente entalada, correu bem. O compositor é simpático e muito, muito estóico. Ouviu-nos com um sorriso enquanto nós lhe estraçalhávamos a composição, explicou com muito bons modos o que tinha pensado que aquela música ia ser. Pediu-nos para dar tensão e rumo às frases, especialmente aquelas em que se repete várias vezes a mesma nota (o que me fez pensar no samba de uma nota só, que vou ter de começar a ensaiar melhor no duche porque - e foi preciso cantar uma peça contemporânea em frente ao seu compositor berlinense para perceber o meu erro de sempre - resolvo esse tipo de sequências alterando o ritmo às notas com tal desplante que uma vez comentaram que canto os salmos como quem dança o vira, "canto" é como quem diz "cantava" no tempo em que salmodiava, entretanto ganhei juízo) (se calhar já dividia o parêntesis anterior em várias frases e explicações...).
Numa passagem em crescendo, o compositor - sempre a sorrir - pediu aos naipes femininos que não respirassem entre duas frases longas. Ah, malandro, desconfiei logo que se queria ir armar depois com os amigos: "as mulheres, oh, à minha frente: desmaiam todas!"
Pouco faltou.


Na segunda peça que lhe mostramos pediu mais velocidade. Já viram uma locomotiva a vapor a tentar fazer de TGV? Fomos nós, ontem. Mas ele gostou, e explicou que queria ter naquela música uma cacofonia de feira e festa popular, queria que nós cantássemos desirmanados e estridentes. Ora, já podia ter dito antes, veio falar com as pessoas certas! E tinha-nos poupado boas horas de ensaio no fim-de-semana do coro. O que nós nos esforçámos para cantar bem, e afinal ele queria era uma demonstração do que fazemos facilmente e com a maior das naturalidades!? O maestro deu o pontapé de partida, e nós largámos à desfilada, a ver quem chegava primeiro ao fim.
O compositor sorriu.
(Qual será a marca do calmante que toma?)

Em casa, contei ao Joachim. Que agora quer um bilhete para o nosso concerto. Disse-lhe que é muito caro, 25 euros, e até estão esgotados, mas ele insiste. Não sei se é sadismo, se é masoquismo, se é amor. Às tantas é por saber do que a casa gasta, e de como gosto de fantasiar quando falo do que me enche o coração.

Ponho-me a brincar com estas coisas, mas estou certa que o concerto vai ser bom. E para o meu coro, esta é uma oportunidade única de aprender com os melhores e de fazer caminho. Eu, por exemplo: mais 400 anos disto, e vou parecer o Farinelli. Tiques e tudo. 



28 fevereiro 2017

F*** day

 
 

(A arquitectura da Filarmonia continua a fascinar-me. 
De cada vez descubro novos detalhes, novas surpresas.)


 
Conhecem o famoso "F-word"? O meu é "Filarmonia". Foi hoje, outra vez.
Comecei por preencher a ficha de inscrição para participar na ópera que vai ser estreada em Junho. Quando cheguei à parte da motivação, escrevi:
- Então, trata-se de um education project da Filarmonia de Berlim e ainda me perguntam a motivação?! :)
(Eu sei que o mundo real não é assim, mas insisto em tentar ajustá-lo à minha maneira. A ver se corre bem.)

Depois fui ao Lunchkonzert. Era dia de duetos de piano e clarinete, como não ir?

Gostei muito do segundo andamento da sonata para piano e clarinete f-Moll op 120 nr. 1 de Brahms (no vídeo, a partir de 7:12). Estou ansiosa pelo próximo entardecer de domingo, é a música certa para adoçar essa hora.




Também gostei muito do Tema con variazioni para clarinete e piano, uma peça composta em 1974 por Jean Françaix. Ouçam, ouçam. Devolvo o dinheiro a quem não gostar.




Almocei com uma amiga, e por mim ainda agora estávamos lá na conversa. Mas o dever chama. Daqui a nada saio para o ensaio do coro. Em duas semanas vamos estrear uma peça de um compositor berlinense, e ele vai assistir hoje ao ensaio. Ai! A ver se não me acontece como da outra vez, quando me fui pôr num sítio onde não estava ninguém, e depois percebi que era mesmo ao lado do compositor da peça que íamos estrear, e no fim de cantarmos o Simon Rattle perguntou ao compositor o que achava e ele respondeu que não estava nada mal, mas era bom se conseguíssemos cantar em uníssono, e por azar estava a falar de mim. Triste vida, sou sempre o único soldado que vai a marchar bem na parada inteira.


e ainda perguntam?!



O novo Education Project da Filarmonia de Berlim é "A Trip to the Moon", uma ópera infantil encomendada a Andrew Norman, inspirada num filme francês de ficção científica de 1902. A première será no dia 17 de Junho, na Filarmonia. O coro vai cantar em "moonish", uma língua nova inventada de propósito para esta história, só com vogais e cheia de ritmo. O projecto inclui trabalhar com o Simon Halsey (aaaaiiii, o Simon Halsey) (que já nem sequer está em Berlim) e com o Simon Rattle (aaaaiiii!) (que vai deixar os Filarmónicos em 2018).

Tenho a ficha de inscrição à minha frente, cheguei à parte em que me pedem a motivação para participar neste projecto, e estou a agarrar-me para não escrever:

"e ainda perguntam?!"


22 fevereiro 2017

amor, prazer e dor




Comprei com meio ano de antecedência bilhetes para um concerto da Maria João Pires, e andei este tempo todo em estado de Vorfreude (mais uma palavrinha alemã para enriquecer o léxico de todos: aquele estado de alegria antecipada por alguma coisa que vai acontecer, seja um concerto especial, umas férias, ou as batatas azuis que vou plantar aqui na minha quintinha).

Entretanto o meu coro começou um projecto especialíssimo com o Rundfunkchor - o coro profissional que costuma cantar com a Filarmónica de Berlim - e o segundo ensaio com eles coincidia com o concerto da Maria João Pires. Ainda pensei fazer gazeta, mas depois do primeiro ensaio percebi que a questão não é a obrigação de estar presente, é mesmo a oportunidade extraordinária de cantar ao lado daqueles cantores profissionais, e de aprender com o maestro deles, que é um espanto, vários espantos juntos. Um dia ainda escrevo um ensaio de teologia sobre este Deus que insiste em encher-me de nozes sem critério, como estes dois imperdíveis à mesma hora.

Com muita pena, desisti do concerto da Maria João Pires. E logo a seguir um amigo avisou-me que ela o cancelou. Ia anunciar alegremente que Deus existe, mesmo e sem margem para dúvidas, quando me lembrei que sou a Calamity Jane da música clássica. Ai! E se aconteceu alguma coisa à pianista? Low profile, que as conclusões teológicas ainda me saem pela culatra: arrisco-me a que me tirem a nacionalidade e me metam na cadeia por alta traição. Espero sinceramente que o concerto só tenha sido cancelado porque ela percebeu que eu já não podia ir assistir, e portanto não valia a pena dar-se ao incómodo de vir a Berlim. Claro que foi isso.

Ontem foi o segundo ensaio com o Rundfunkchor, na sala em que eles trabalham, com piano de cauda, estantes de madeira, painéis para melhorar a acústica - um luxo. Desta vez, fiquei entre a cantora que às vezes vem ajudar o nosso maestro com ensaios dos naipes, e uma solista do Rundfunkchor. Que maldade! Parecia aquela vez que puseram o o António Zambujo a cantar com o Milton Nascimento, mas muito pior. Parecia a anedota do elefante e da formiguinha, e eu de tal maneira intimidada que nem consegui brincar com a ideia da areia que estávamos a levantar. Não se faz isto a uma simples mortal! Lado a lado, ela tão insuperavelmente acima de mim, tudo era abismo entre nós: a sua voz cheia e segura, a dicção perfeita, a concentração absoluta, as palavras separadas com primor (quantas vezes o nosso maestro nos pede para meter uma folha de papel entre as palavras, e nos pergunta quem é esse "Willich" de que falamos quando devíamos dizer "will ich"), as consoantes finais no milésimo de segundo certo, a tensão, a exactidão dos crescendos, a doçura dos pianos ("piano não é um forte frustrado", dizia o maestro deles), a respiração, a frescura inteira no fim das frases. E eu ao lado dela, a morrer de vergonha. Sadismo puro. 

No intervalo, perguntei à cantora do outro lado (a estudante de canto que às vezes nos ensaia) se queria que eu trocasse de lugar com a solista, para ela a ouvir melhor. Disse que não, tranquilo tranquilo, que estava tudo bem como estava. E depois, a meio da segunda parte do ensaio, no fim de uma peça de Brahms, acrescentou: "não preciso nada da solista ao meu lado, já te tenho a ti, cantas como uma profissional". Aaaah, comecei logo a cantar melhor.
Sou uma rapariga muito sugestionável.

("Amor, prazer e dor" é uma excerto da canção de Brahms. Que é a minha favorita das suas 18 "Valsas de Amor".)



12 fevereiro 2017

cantorias e andanças

Canto em coros desde os 15 anos, e até agora ainda ninguém me tinha dito isto que é evidente: antes de começar uma frase, preparamos o corpo para o tom mais agudo, e só então largamos a cantar. Depois de saber, é mesmo um caso de elementar meu caro Watson. Mas andei quase quarenta anos para chegar aqui. A aprender a este ritmo, só lá para os 120 é que vou cantar como a Callas.

O fim-de-semana com o coro foi muito cansativo e muito proveitoso. Treinámos imensos detalhes: "inspirem em u e cantem i", o momento certo para terminar as palavras (malditos s, malditos t e dt...), a respiração como umas férias curtíssimas a meio das frases, para atacar a segunda metade com toda a energia, a proibição de "ir de elevador" entre as notas (gostei imenso da expressão).

Para nos obrigar a estar concentrados e a ganhar segurança, o maestro pôs-nos a andar desencontrados na sala, cantando ao mesmo tempo. Gostei imenso dessa combinação de enorme concentração na partitura e combinação aleatória e alternada com os outros naipes. E gostei ainda mais quando o nosso maestro, que é muito exigente e ambicioso, interrompeu uma cadência para anunciar com orgulho "este é o meu coro!"
(Sim, eu sei, síndrome de Estocolmo.)

No último bloco tentámos um ensaio geral do concerto, porque o próximo ensaio já é com os profissionais do Rundfunkchor. Correu mal: demo-nos conta de que é em voltas erráticas pela sala que cantamos melhor. De modo que agora temos um mês para aprender a cantar bem, arrumados disciplinadamente por naipes. Ou isso, ou o Rundfunkchor vai dar o concerto mais sui generis da sua vida. E talvez nós mudemos o nosso nome para "coro andanças".

--

A viagem de regresso a Berlim não foi tão bonita como a de ida. O dia estava cinzento, e tornava tudo ainda mais triste. Passámos por algumas unidades de produção agrícola da RDA com os estábulos em ruínas e os prédios de habitação abandonados, atravessámos aldeias sem um único café ou loja.
Esta região pagou um preço altíssimo para a reunificação da Alemanha.


 


 



 

anoitecer em Brandenburg

Passei o fim-de-semana num centro de encontros algures no meio de nenhures, a norte de Berlim.
Dois dias de trabalho intenso com o meu coro. Daqui a um mês vamos ter um concerto em conjunto com o Rundfunkchor Berlin, e não nos podemos envergonhar.

O autocarro levou-nos pela paisagem abandonada de Brandenburg, adoçada pela luz do entardecer.
Depois a lua cheia fez a sua entrada triunfal sobre a neve.  Fiz o que pude com a máquina fotográfica de bolso - se conseguirem imaginar agora muito mais belo que isto, ficam perto da realidade.
 

  
 
 



20 novembro 2016

em coro


Coisa estranha, um coro: a fragilidade da beleza, inteiramente à mercê da qualidade de cada um, e da capacidade de cada um se combinar com todos. Dezenas de cantores, e nenhum se quer extraordinário em relação aos outros; e basta um distrair-se por um segundo para quebrar a beleza e a magia do momento.

Este é o fim-de-semana dos concertos do meu coro. Somos um coro amador. Investimos horas e horas e mais horas e mais horas, e depois expomo-nos ao público. Nem tudo corre bem, e pergunto-me porque fazemos isto - a nós, ao maestro e ao público.

Mas depois penso que a nossa vida seria bem mais pobre se a música pertencesse apenas aos profissionais que a produzem, e nós nos remetêssemos ao papel de consumidores. Além disso, há aqueles momentos em que fazemos acontecer o milagre da perfeição. Só por esses já vale a pena.

O programa preparado para este concerto inclui, para além da parte coral, algumas danças de Dvořák e Brahms e peças de Schumann e de Bizet, tocadas por duas jovens pianistas. Sorte a nossa, sentados à volta delas a saborear a sua arte.

Tocam uma das danças eslavas de Dvořák com tal expressão que tenho de me conter para não me levantar, e desatar a dançar de peito erguido a coreografia que a música manda, imperiosa.



(Versão para dois pianos aqui.)

Do Bizet, sublinho esta gracinha: Petit mari, petite femme.




Outras peças do nosso programa:


Dvořák, Na Natureza, op. 63:

1.


3.


4.



Brahms, Liebeslieder, op. 52



Usar esta gravação para ensaiar a minha voz é um prazer enorme: acompanhada por Benjamin Britten e Claudio Arrau a quatro mãos ao piano, e a minha voz ali, feita valente, a ajudar a Janet Baker que, coitada, não consegue fazer-se ouvir bem na refrega com Heather Harper, Peter Pears, Thomas Hensley.
("Na refrega", diz ela, hehehe)


O nosso concerto termina com um poema que Rilke escreveu em francês:


Abandon entouré d'abandon,
tendresse touchant aux tendresses...
C'est ton intérieur qui sans cesse
se caresse, dirait-on;

se caresse en soi-même,
par son propre reflet éclairé.
Ainsi tu inventes le thème
du Narcisse exaucé.









09 outubro 2016

mais uma corrida, mais uma viagem...



O meu coro tem um projecto extremamente ambicioso para este ano: um concerto em conjunto com o Rundfunkchor Berlin. Eh, valentes! Até me lembra aquela anedota da formiga a caminhar ao lado do elefante, toda contente com a poeira que estavam a levantar.

(Se os meus colegas do coro lerem isto, estou tramada)

Uma das peças que vamos tocar são os Liebeslieder do Brahms. O homem sabia o que fazia: a linha melódica de cada naipe é harmoniosa e equilibrada, dá imenso gosto cantar. Vou adorar fazer o meu playbackzinho ao lado do Rundfunkchor Berlin.

(Se os meus colegas do coro lerem isto, estou retramada)


06 julho 2016

era só para dizer

Era só para dizer que ontem tive uma aula privada de canto lá no meu coro, e a professora ia dizendo "muito bem... muito bem..." com uma cara estupefacta, quase como se estivesse com a respiração cortada, o que me deixava um bocado insegura. No fim disse que sou uma excelente contralto, e repetiu a frase para o tenor que entretanto tinha entrado porque era a hora dele, e disse-o ainda com o tal tom de surpresa que me fez desconfiar que se calhar tenho cara de ser só uma contralto medíocre, e o tenor, o simpático, disse que sim, que é verdade e que ele já tinha reparado.

Era só para dizer que ontem cresci 5 cm. Se isto continua assim, mais me vale comprar roupa elástica no comprimento, como os babygrows. E mais uma babete discreta, claro, para ninguém reparar que tenho aqui o ego a desfazer-se em baba.


30 maio 2016

da missa a outra metade

Este post já tem uma semana de atraso, mas eu ainda não consegui inventar maneira de viver a vida e contá-la ao mesmo tempo, desculpem. 






Caso alguém tenha interesse em saber mais sobre o projecto da Rundfunkchor Berlin com inúmeros coros de amadores, à custa do pobre do Schubert que não tem culpa nenhuma e nesse dia deve ter dado tantas voltas no túmulo que quase ia morrendo de novo, aqui vai:

Às dez da manhã estávamos todos a postos, todos os 1300 cantores deste projecto do Rundfunkchor Berlin, e dois pianistas. Era a primeira vez que os vários coros se encontravam juntos e com o maestro Simon Halsey. O concerto público - a missa em mi bemol maior, de Schubert - teria lugar às quatro da tarde.

Começámos pelos exercícios de distensão e de aquecimento de voz:



Após uns minutos, arrancámos com o Kyrie. Cantámos bonitinho, sem sermos interrompidos, e até nem parecia mal. Foi o que me pareceu, mas o maestro tinha outra opinião. Fez-nos repetir, uma e outra vez, em trabalho intenso e concentrado para afinar a interpretação e nos levar bem mais longe. Esse trabalho já é, em sim, a essência do prazer de cantar. Mas o Simon Halsey, com o seu humor britânico, o extraordinário dom de entertainer e o inteiro domínio da peça e dos participantes, leva esse prazer para uma dimensão a todos os títulos superlativa.

Das dez ao meio-dia estiveram apenas os coros amadores. A seguir ao almoço percorremos de novo toda a missa, mas já com a orquestra, o Rundfunkchor e os solistas. Finalmente, fizemos o ensaio geral. Mais uma pequena pausa, e seguiu-se o concerto.




Vou tentar relatar os comentários e as informações do Simon Halsey à medida que íamos conquistando a Missa página a página. No texto que se segue, as frases entre aspas são dele. As fotografias são do fotógrafo Kai Bienert, e trouxe-as da página de facebook do coro. Por favor espreitem lá, e deixem um like, para eu poder dizer que o roubo era por uma boa causa) (eles pediram-nos para pôr likes, queriam chegar aos 5000 nesse dia. Prometeram que quem fizesse o nº 5.000 tinha direito a um meet and greet com o Simon Halsey. Ele fez uma careta e comentou: "e o segundo prémio é dois meet and greet comigo").

À falta de um filme deste concerto, repito a gravação com a Orchestre Philharmonique de Radio France e o Daniel Harding. Das versões que ouvi até agora, é a que me parece mais próxima da interpretação que lhe demos neste concerto de 22.05.2016.






00:00 Kyrie

O Kyrie é um problema, porque começa com uma consoante dura. Se não estamos atentos ao maestro e uns aos outros, em vez de começar com Kyrie, parecemos gagos: Ky-Ky-Ky-Kyrie. Pergunto-me se não será daí que vem a palavra "cacofonia". Numa das repetições, o maestro zangou-se e disse aos tenores, que por azar tinham errado naquele momento: "nesta peça, o Kyrie às vezes vem depois daquilo que vocês querem. Se preferirem ser vocês a dirigir, trocamos já de lugar, e eu canto."
Mas eles não preferiam, o que foi uma sorte - sabia eu lá a qual dos 200 tenores devia obedecer!



06:21 Gloria
"Não, não é gloRRIAAA, é GLOria", notava o maestro. E pedia-nos para cantar como quem proclama, e para fazer o arco a crescer para Deo: Gloria in excelsis Deo! Pediu aos naipes masculinos que cantassem só eles, e as sopranos e contraltos aplaudiram a performance. "As mulheres gostaram", disse o Simon Halsey, e nós rimos. "Eu não! A primeira frase foi fantástica. Mas a segunda falhou."
Na última repetição antes do ensaio geral, pediu ao seu Rundfunkchor que cantasse sozinho. Ficámos consternados com a diferença. O maestro passeava pelo palco com o polegar e o indicador à volta da testa, e perguntava-se em tom meditativo "porque será que soa melhor? sim, porquê? talvez por estar mais focado, e ter mais energia, e milhões de outras coisas". Agora nós: tentando cantar de modo focado e com energia, E acertar no GLOria, e crescer para o excelsis Deo. E milhões de outras coisas.

 

06:50 - "Et in terra pax, paz na terra, ouçam, isto agora é connosco! Proclamemos: laudamus te! Mais entusiasmo: benedicimus te! E agora, o mistério: adoramus te..."



08:17 - "Gratias agimus tibi - elegante, em vez de elefante!"
e: "O som tem de vos sair dos olhos e não da barriga" (só por esta frase, já me valeu a pena todo o trabalho).



10:49 - "Qui tolis pecata mundi, que tira o pecado do mundo. Schubert tinha muitos pesos na consciência, "pecado" era uma palavra terrível para ele. Vejam o medo que ele tem aqui! Ouçam o medo na orquestra."
Esta parte - Domine Deus, Agnus Dei - começa com as vozes masculinas. O maestro interrompeu-os ao fim de alguns compassos, e perguntou "porque é que cantamos num coro, meus senhores?" Respondeu ele mesmo: "Porque está cheio de mulheres. Vamos lá cantar isso de modo a deixá-las muito impressionadas!" Os homens recomeçaram, e ao chegar ao fim da frase o maestro soltou um gritinho de admiração, juntou as mãos e fez-lhes olhinhos descaindo um lado da anca.
(Era preciso que alguém filmasse um destes ensaios.)

11:36 - Em menos de um segundo passávamos do riso para a seriedade. Na parte "cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende misericórdia de nós" tentámos pôr naquele miserere toda a espantosa beleza que o espírito atormentado do Schubert pôde produzir. Não se bate em quem está no chão, e Schubert está no chão, da sua mais baixa condição de humano e pecador pede misericórdia a um Domine Dei forte e implacável.


20:23 Credo

"Quando está a escrever esta missa, Schubert já está muito doente. Tem sífilis. Está cheio de medo do futuro e daquele Deus": Creio em um só Deus, que fez o céu e a terra, e todas as coisas, visíveis e invisíveis..."

22:50 - ...e em Jesus Cristo, que para nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus.
A música muda completamente. "Estamos em Viena, Jesus faz-se carne como nós, faz-se homem em Viena, isto é uma valsa, dancemos." - o maestro convida uma das solistas para valsar com ele ao som da orquestra. Depois mostra-nos o movimento dos contrabaixos no início da peça, "reparem que beleza, reparem na leveza deles; os contrabaixos só têm o seu solo uma vez na vida, e é hoje!"

25.30 - "Oh, no! Grande choque, grande comoção: foi crucificado! Cristo morre hoje por nós, está a morrer aqui em Berlim. O ritmo é o de um coração a bater, horrorizado por tudo o que acontece no mundo."

26:45 - "Voltamos a Viena, voltamos à valsa" - nesta parte, movemo-nos entre o horror da cruz e a beleza de um Deus feito homem. Schubert entre o terror e a esperança, oito ou oitenta.

29:34 - E de novo há-de vir em sua glória, para julgar os vivos e os mortos. "Para julgar os vivos e os mortos! (30:05 ) Schubert tem 35 anos, tem sífilis, sabe que vai morrer, Tem um medo enorme. Um medo enorme."



31:10 - Professo um só baptismo para a remissão dos pecados, O maestro ajoelha-se e implora em tom dramático: "remissãããããoooooo dos pecaaaaaadooooos".


35:42 Sanctus

Antes de começar o Sanctus, um pouco de conversa: "No Digital Concert Hall foi publicado recentemente um filme com entrevistas a maestros. Numa delas, Zubin Mehta diz que o trabalho do maestro é analisar. Reparem no início do Sanctus: começa em si bemol menor, e segue para algo completamente inesperado, assusta-nos - si menor." (um dos pianistas toca os dois acordes, e ele esconde-se atrás do outro, com esgares de terror. "O terceiro acorde soa ainda mais desconfortável: sol menor." Corre, com ar de aflição, para se aninhar escondido atrás do pianista, enquanto nós digerimos o efeito daquela sequência de acordes. Depois levanta-se, vem à boca do palco, e remata: "É isto o que eu faço de segunda a quinta-feira."

36:27 - No fugato "pleni sunt coeli et terra" o maestro pede-nos "um coro de anjos".


39:10 Benedictus


45:13 Agnus Dei

"This is the stuff of horror movies", avisa-nos.

 46:06 - Miserere, miserere nobis: "O tempo é instável, porque o futuro é incerto". E logo a seguir: "conhecem a história de Lázaro, que estava morto e voltou à vida, libertando-se das faixas que o envolviam?" - ele próprio mima Lázaro, primeiro preso e retesado, a pouco e pouco ganhando liberdade e leveza de gestos - "é assim que quero que cantem este miserere nobis."
(se em vez de dizer Lázaro tivesse dito Houdini toda a gente percebia logo)

51:43 - Dona nobis pacem: "Ficamos  com a sensação que a missa vai acabar aqui, no fim deste diálogo entre os solistas e o coro em eco, e acabava muito bem. Mas não é o caso! Logo a seguir ao último pacem entram os barítonos em tom ameaçador, como num filme do Harry Potter."

53:49 - "Pela segunda vez, ficamos com a sensação que a peça devia acabar aqui. Mas ainda não acaba, ainda precisa de um final terrível! Normalmente sai-se de um concerto com sentimentos de leveza. Desta vez não será assim. Deste concerto sai-se doente."








Não saí do concerto doente, nada disso. Mas saí muito mal-habituada. Foi extraordinário sentir a minha voz fundir-se com centenas de contraltos, jogando com ou contra os outros naipes poderosíssimos. E, se pudesse, daqui para a frente só cantava com orquestra.
Maravilha.

Depois do jogo é antes do jogo: vou preencher a ficha para me inscrever no próximo projecto.