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30 novembro 2018

do baú de recordações

O facebook lembrou-me que há três anos publiquei um post a dizer que não tinha tempo. Se fosse só naquele dia há três anos...

A verdade é que ando desde 2015 com vontade de contar sobre a colónia de artistas de uma aldeia pacata na fronteira da Polónia com a qual tenho a sorte de partilhar alguns dias de outro mundo. Enquando não faço um post decente sobre isso, guardo no blogue este momento que o facebook me lembrou:

Ando há meses para contar sobre uma colónia de artistas berlinenses que se reúne num lugar mágico perto da Polónia ("uma fortaleza medieval, com fosso de água, que foi modernizada no período barroco"), mas a vida real atrapalha-me muito esta aqui. Hei-de contar, e pôr fotos, não perdem pela demora. Para já, deixo estas:





15 maio 2015

nostalgia não combina muito bem com sexta-feira de manhã, mas as coisas são como são



A minha primeira casa era numa rua de vivendas no fim da cidade. No verão, depois do jantar, saíamos com os miúdos da vizinhança para caçar grilos no "redondo" que marcava os limites da nossa geografia. Foi quando eu quis ter uma pilinha, para poder acertar melhor nas tocas dos grilos. (O Freud é pateta, tem aquela cabeça cheia de porcarias.) A minha mãe sorriu e disse-me que não tinha meios para isso, e eu arranjei logo um plano B: "não faz mal, então peço-a ao Menino Jesus, ele consegue." No Natal pedi uma pilinha para caçar grilos, e farinha de pau para fazer comida para as minhas bonecas. Não me deram uma coisa nem outra - e um ano mais tarde (deve ter sido) o meu irmão mais velho extorquiu-nos alguns cinco tostões para nos revelar o que é que os pais nos tinham comprado numa feira de brinquedos. Lembro-me perfeitamente da cena, ele a saltitar num murete no quintal da avó, e a espezinhar as nossas ilusões mais queridas, a cinco tostões cada espezinhadela. E só agora me ocorre que podia estar a fazer bluff (às tantas, o Menino Jesus ainda existe?!).

No inverno, antes do jantar, víamos desenhos animados nas casas uns dos outros. Eu devia ter cinco ou seis anos, e queria muito saber se os desenhos animados chegavam ao mesmo tempo a todas as casas. À falta de melhor, dediquei-me ao método empírico: fixava a cena que estava a passar na televisão dos vizinhos, corria o mais depressa que podia até à minha casa, ligava a televisão, e verificava se a cena era a mesma. (O Joachim acha que eu chego atrasada a todo o lado porque não considero o tempo que demoro na viagem.) Não consegui chegar a nenhuma conclusão porque, invariavelmente, enquanto a televisão aquecia e as imagens iam procurando o lugar certo no ecrã, eu esquecia como era a cena que tinha visto na casa do vizinho.

Meses depois comecei a interessar-me por outra questão: qual é o tamanho de Deus? Para essa, encontrei facilmente uma resposta. Uma teoria maravilhosa na sua simplicidade.


29 outubro 2014

quatro dias de tranquilidade

Todos os anos, no fim de semana à volta do Toussaint, encontramo-nos com casais amigos e um jesuíta num mosteiro perto dos Alpes franceses. Quatro dias de tranquilidade, olhando para a vida que nos acontece.

Repesco um post que escrevi em 2011. Sei que este ano vai ser diferente, e tão único como todos os outros.


dias de magia (2)




Primeiro dia

Chegar. No aeroporto, a enorme surpresa e a alegria de sermos recebidos por uma amiga que julgávamos em Portugal. Em casa, queijo e vinho pela noite adentro, conversas e risos.
E o olhar dos amigos: atento e perscrutador, procurando-me até ao fundo dos olhos - como fazia o meu pai, para concluir "pareces bem, cachopa".
Estou bem. Rodeada de gente que busca o chão dos meus olhos, estou o melhor possível.


Segundo dia 

Amigos oferecem-se para trocar de quarto connosco - recebemos deles a floresta, as estrelas que nos entram pela janela.
Conversamos sobre as nossas vidas, as nossas angústias e alegrias. Falamo-nos e ouvimo-nos com confiança e atitude de profunda aceitação.

Aller en profondeur pour toucher l'universel. 

Lá fora, a paisagem em tranquila transformação. A luz desliza pelas árvores, ilumina por dentro pedaços de amarelo e laranja. Não faço fotografias, não me quero perder da conversa. Uma mãe conta como diz o amor através da comida. Como, ao fim do dia, acolhe com aromas de bolo no forno essa filha que anda perdida em muito sofrimento. Como inventa um perfeito equilíbrio nas tartes de legumes para os filhos comerem no intervalo das aulas: pedaços de ternura na sacola.

Ce n'est pas le bout du tunnel, c'est aujourd'hui.

Depois do jantar, a música: uma canção de Clarika na voz de uma amiga e na sua guitarra (e que linda mensagem). George Brassens, les Croquants. Estamos na França, temos cinquenta anos e tanto que nos une.








Terceiro dia

Acordo cedo, agasalho-me à pressa e saio de máquina fotográfica na mão. Atravesso a floresta rapidamente, inquieta dos ruídos da noite (e se me aparece agora uma enormejavalia com javalizinhos?), inquieta de chegar demasiado tarde ao espectáculo da madrugada. Chego a tempo. O céu está tomado por uma poderosa carga de nuvens, o sol vai escalando os montes a custo, arde em pequenas nuvens tresmalhadas, mostra-se por uns minutos, encanta-me as árvores e o caminho da floresta com a sua luz rasa e dourada, e esconde-se de novo.







Ao pequeno-almoço:
- O que é um egoísta?
- É alguém que não pensa em mim.

Mostro as fotografias, toda orgulhosa. O Joachim sugere "amanhã, podias experimentar a preto e branco".
"Amanhã?! Pensas que vai haver amanhã?"


Olho pela janela enorme, e não vejo paisagem, mas vida: árvores, pássaros, insectos. Vida intensa e densa, respiração.

Notre seule chance c'est l'ésprit de remise en question.






Quarto dia

Ao pequeno-almoço duas amigas, professoras, falam do trabalho com os alunos pequeninos. Como fazê-los tomar consciência do seu corpo? "O que se passa agora mesmo no teu corpo?" "A respiração!" "E o que é preciso para respirar?" "Reflectir!" "A sério?!", e a digestão, o coração que bate, "Tudo isso no meu corpo? tanta coisa!" O yoga infantil, a aprendizagem do corpo como caixa-de-ressonância, a aprendizagem do grupo na improvisação da música e na busca de um ritmo comum. Ouço-as, deliciada: a escola como local de prazer, de missão humanitária, de entrega com alegria.

À hora do lanche o nevoeiro abre, liberta a encosta verde do monte.
"Oh, que calma vai caindo".







Prier c'est d'abord cesser de faire autre chose.
Quand on demande à Dieu, la première réponse c'est la paix - même si le problème n'est pas résolu.


Depois do jantar, o jogo: sentados numa roda de cadeiras, temos de mudar de lugar permanentemente, tentando impedir que o que está de pé consiga sentar-se numa cadeira momentaneamente vazia. Temos cinquenta anos, dores de costas, e rimos e caímos das cadeiras, e damos connosco sentados nos joelhos dos outros, uma e outra vez, dizemos brejeiros que ça c'est angoissant.


Quinto dia

Levanto-me cedo. Saio para a floresta, já sem medo dos bichos da noite. O céu está limpo, hoje as nuvens estão pousadas no vale. O sol virá mais tarde, sinos de aldeias longínquas anunciam-no já, e eu espero: os pés encharcados do orvalho da floresta, as mãos geladas, o coração sereno, comovida de beleza.




Será que nos lembramos do que acontece de bom ao longo do nosso dia? Uma proposta: anotar diariamente cinco momentos bons. Mudar a perspectiva: do derrotismo para a consciência do bem que habita a minha vida. 
No meio da fragilidade, perder o medo. Há um caminho de vida para mim - não um caminho de fuga às dificuldades, mas de acolher a minha vida, dizer-lhe "sim!" - não tenho outra vida senão esta que me foi dado viver neste dia. E é neste dia que posso acolher o "sim!" de Deus.

Criar sistemas anti-rotina: não estamos condenados a repetir. Podemos começar sempre. 

S.Paulo: "sois filhos, e não escravos". 


Antes da partida, trocamos informações.


Livros: Pietro De Paoli;  L'origine de la violence; Olivier Le Gendre (Confession d'un cardinal); Maurice Bellet (Minuscule traité acide de spiritualité); Madeleine Delbrêl (La joie de croire); Deux petits pas sur le sable mouilléUne femme fuyant l’annonce.

Terminou. Continua. Germina em nós. 


22 fevereiro 2013

e por falar em partir com o circo...

Amigos, 
Há uma sensação que quase toda criança tem quando o circo vai embora da cidade. De repente, todo aquele mundo de encantamento e magia desaparece deixando um enorme vazio num terreno novamente ermo. Meninos percorrem o chão batido, tentando lembrar onde ficavam os mastros da lona do picadeiro central, os suportes do trapézio, o praticável da banda. Terá sido um sonho a passagem do circo pela cidade? A serragem largada no chão, ainda molhada do xixi de elefantes e leões, não nos deixa ter dúvidas. Houve, sim, um circo que passou por ali, nos encantou, e agora foi embora, talvez para sempre, talvez até algum dia em que o circo não será mais o mesmo, não porque ele mude, mas porque nós mudamos.
Muitas vezes, desejamos partir com o circo. Ver aqueles vagões enormes entrando na estrada, levando todos aqueles momentos maravilhosos para algum lugar distante, faz com que nos sintamos pequeninos e nos dá uma vontade enorme de ir juntos, abandonar lar e escola e mergulhar no mundo paralelo do brilho, espanto, alegria e felicidade.
Terça-feira, às 11 horas da noite, deixei a Helena na casa da Fernanda. Lá, ela iria dormir e acordar na quarta para iniciar uma viagem até o Rio de Janeiro, passando por Paraty e cercanias. Uma parte do meu coração foi viajar com elas, como um aprendiz da vida, orgulhoso por estar entre o mágico, o trapezista e a bailarina.


***


O circo acontece entre as pessoas, é feito tanto pelo público como pelos artistas.
E também não é fácil desfazer a tenda e partir, quando se está tão bem num lugar.
Na tarde de sábado andámos a passear pela Barra. Havia um grupo de samba rafeirinho num bar da praia, e resolvemos ficar por ali, bebendo água de coco e saboreando aquele ambiente de festa. Só podia ser portuguesa essa que desatou a chorar na praia cheia de sol e samba.
No teu circo que parte, Ruben, eu sou o palhaço do lugar-comum, a cara escancarada de sorriso e os olhos cheios de lágrimas.

11 maio 2011

diário de San Francisco

Estava eu a limpar o pó aos meus ficheiros digitais, e a tentar pôr ordem naquela espécie de caixa de sapatos cheia de papéis importantes, eis que tropeço num pequeno relatório que fiz para amigos brasileiros há mais de dez anos. A vantagem dos amigos internéticos é que a gente vai de um lugar para outro, e eles vão connosco. De modo que eu, acabadinha de chegar a San Francisco, tinha uma intensa vida social (hihihi), fazendo relatórios como o que passo a seguir, porque hoje é dia de muito trabalho (podem crer, e ter pena de mim), e se não tenho tempo para escrever um post novinho em folha sempre sobram alguns minutos para fazer um pequeno plágio de mim própria.

***

Alguma coisa faço mal quando atravesso os pátios e a lavandaria para chegar à garagem, porque os vizinhos que encontro no caminho olham para mim com um olhar distraído e perscrutador, assim tipo „deixa-me ver bem quem é esta aqui, fazendo de conta que não vi nada“ e eu sorrio e digo-lhes hello ou good morning e eles desviam o olhar e de repente já não estão lá.
Será que têm medo que eu lhes vá pedir um quarter?

Fui assistir à „Bay to Breakers“, corrida de 8 milhas, praí uns 5.000 corredores e mais 95.000 malucos, entre a downtown e o Pacífico. Com a sorte que tenho, precisei de mais de uma hora para estacionar o carro, depois perdi-me no Golden Gate Park e acabei a atravessar uma grill party de gays muito assumidos: os homens vestidos de mulheres ou quase despidos, com palavras e setas pintadas nas costas
(infelizmente esqueci-me qual era a palavra e foi uma pena, porque não a conhecia e tirei pelo sentido (pelo sentido da seta, entenda-se) e estava toda contente por saber uma palavra nova. Embora tenha a sensação que não é uma palavra que eu possa usar muitas vezes… )
e as mulheres mais ou menos despidas, e a Christina a perguntar „aquele ali é homem ou mulher?“ e eu sem saber o que responder a a andar pelo meio deles com os meus dentes de teenager com arames e os dois filhos pela mão, a fazer de conta que não estava ali e não via nada e a tentar ver o mais possível com o tal olhar distraído e perscrutador (já aprendi alguma coisa) e a andar tão depressa e tão naturalmente quanto possível e a pensar „aposto que estas só me acontecem a mim!“.
Mas sempre consegui chegar à rua onde passavam os corredores, incólume e tudo (que é como quem diz: incólume, e nada), e lá ficamos 3 horas a ver passar gente louca.
Estes americanos são mesmo doidos: na sauna, andam vestidos, e depois vão correr nus para a rua (mas com sapatos e meias, era muito divertido).

Fui ver o filme mais recente do Woody Allen com o meu grupo social de esposas de investigadores da USCF.
Vamos por partes:
O filme: não sei o que me dá para ir ver filmes do Woody Allen em países cuja língua não conheço bem. Pouco depois de chegar à Alemanha, fui ver „Bullets over the Broadway“ e não percebi patavina, claro. Chego aos USA e reincido. O problema é a cervejinha depois, toda a gente a querer dissecar o filme, e eu a tentar virar o bico ao prego e a dizer com um ar muito intelectualmente seguro „não consigo entender a linguagem dos filmes do Woody Allen, acho os trocadilhos demasiado herméticos“.
A companhia: sabem como são aqueles grupos de pessoas cujo denominador comum é a qualidade de „acompanhante“? Sem dar por ela, caí num grupo assim: as esposas dos investigadores, que se juntam para cozinhar, ir ao cinema, fazer baby-sitting, ir ao parque infantil… este ano promete!
Saímos do cinema e tentámos pagar o estacionamento na caixa automática. Ao fim de 10 minutos já ali havia um grupo de gays divertidíssimos a observar a cena de 6 mulheres, algumas delas com ar de senhora, tentando meter notas de dólar na máquina. Finalmente conseguimos pagar, e fomos para a Irving beber a tal cervejinha do meu suplício. Para estacionar foi outra vez uma cena: a condutora tentou várias abordagens ao passeio, depois uma das acompanhantes saiu do carro para ajudar a fazer a manobra, e depois uma das pessoas da assistência que entretanto se formou teve dó e tirou um carro para nós termos dois lugares e podermos estacionar.
Se continuar a sair com este grupo, não sei: ou morro de riso, ou de vergonha.


A Marlyeen, a tal vizinha que adoptou os meus filhos, estava aqui quando me telefonaram e eu falei um bocadinho em português. Quando desliguei, deu-lhe um ataque de „it‘s amazing!“ e „I can‘t believe it!“ Quando, se acalmou, perguntou: „esses sons todos significam alguma coisa?“.
Eu ri-me e disse-lhe que os brasileiros também se perguntam a mesma coisa quando ouvem os portugueses falar.


Passámos pelo cemitério militar do Presidio, e ficámos impressionados com o espectáculo de tantas cruzes alinhadas. A Christina perguntou „estes soldados eram dos maus, ou eram dos nossos?“ – para pergunta feita por uma alemãzinha, não está mal…

De garage sale em garage sale (as melhores são as do Castro, onde vive a comunidade gay cá da terra) fomos parar a uma feira de antiguidades. Encontrei lá uma carteira de escola que tinha vindo de França, linda, tal e qual como a da minha escola primária (não é que eu seja muito velha, Portugal é que tem um mobiliário escolar muito conservador e cala-te boca que não tarda nada meto água…), e custava $390.
O Joachim também gostou da mesa mas, por muitas razões, todas elas perfeitamente lógicas e aceitáveis, não queria comprar a mesa nem dada. Ou seja: o dono a querer vender, o Joachim a não querer comprar, no quarto das crianças há agora uma mesa lindíssima que custou $220.

Em frente à minha casa há uma árvore soberba. Grande, com o tronco cheio de rugosidades e nós. Lembra-me sempre uma sequóia após ter sido sujeita a um tratamento de bonsai. Talqualzinha.

Por causa do dólar a dois marcos, comprámos na IKEA estantes das mais baratas (mais baratas mesmo, estantes de arrumar tralha na cave) e tentei dar-lhes um ar mais digno pintando-as com as tintas que vendem também na IKEA. Não sei se ficou digno, acho que está assim mais para o garrido, mas depois de eu ter passado uma semana a pintar estantes e a lavar pincéis, ai de quem entrar nesta casa e não desatar a dizer „noooooossa, como é liiiiiindo!“

E por falar na IKEA: conhecem aquela história do homem que foi viver para umas montanhas não sei onde e vai dando notícias, a princípio fascinado com a neve e depois desesperado com a neve? Ontem, vista do restaurante da IKEA, a baía estava linda, com a água muito verde e as montanhas ao fundo, adoçadas pela neblina. Em duas semanas já fui à IKEA 7 vezes. Já não consigo sequer ver as almôndegas, aquelas almôndegas suecas, fantásticas – quanto mais cheirá-las ou comê-las.

Alguém sabe onde posso encontrar bacalhau em San Francisco?
E vinho do Porto que não seja de Napa Valley?
Já só me falta isso, e mais ver-me livre do meu grupo de senhoras, e mais encontrar gente interessante, e mais aprender a falar um inglês decente e depois acho que terei chegado.

19 maio 2010

daquela vez que fomos a LA saborear um Thanksgiving com amigos

Mais uma do baú do outlook (que já desapareceu outra vez, por sinal, e me deixou apenas migalhas como esta):


Thanksgiving, 2001

SF - LA


A parte má: 6 horas de carro ó pra lá, 9 horas de carro ó pra cá, 200 milhas de engarrafamento quase contínuo no regresso, com direito a mistério: ao fim de 5 horas parámos 15 minutos para encher um depósito e despejar os outros, quando voltámos à estrada já não havia engarrafamento. A única explicação que tenho é que de algum modo souberam que era eu quem estava agora ao volante, deve ter sido um salve-se quem puder toda a gente a fugir da estrada.

A parte boa: adivinhem! Os amigos com quem nos encontrámos.

Resolvida a questão maniqueísta, vamos então por partes:

Não falo dos festins, que há aqui muita gente de dieta.
Mas sempre vou adiantando que todas as noites foram de festa, sempre com boas conversas e bons risos, às vezes com direito a bela sessão de massagens e escola de samba - as surpresas que LA by night nos reserva!
Também posso dizer que as nossas noites foram bem melhores que os meus dias, e que dias...

Três dias de divertimento pré-fabricado: Santa Monica Pier (só faltavam os cartazes "sorria, estamos a fazer o que podemos para o divertir"), Universal Studios (ekchon, ekchon, ekchon!), Disneyland (the merriest place on earth) (ainda hei-de ver o que é que isto significa nos dicionários. Não consegui entender, nem sequer tentando tirar pelo sentido.)

O que uma mãe não faz pelos filhos!

No Santa Monica Pier havia um músico a cantar reggae, foi a parte mais agradável da tarde: ouvir aquela música em frente ao mar, perto do pôr do sol. Também houve um momento divertido quando o Matthias tentou acertar com bolas de ténis nos bonecos de uma barraca e as bolas pareciam enfeitiçadas, voavam em todas as direcções menos na dos bonecos, juntou-se um grupinho de gente a rir da falta de jeito, se eu fosse esperta tinha levado um chapéu para a Christina passar no fim do show.

Dos Universal Studios é melhor nem falar, raramente vi tanta action tão despropositada. Assistimos a uma sessão dos Blues Brothers, é sempre engraçado ouvir aquela música. Só que eles faziam questão que os meus filhos se levantassem e dançassem e abanassem os braços acima da cabeça, o que eles se recusavam a fazer. De modo que os Blues Brothers lá do palco faziam caretas para nós, e nós fazíamos caretas para eles, eu mais ainda que o Matthias, vão lá chatear o tio deles com a mania de arrebanhar a audiência em dinâmicas instantâneas de massas. Depois demos a voltinha dos pavilhões e essa sim, foi interessante para mim, embora os miúdos tenham tido algum medo por causa dos efeitos especiais. O que uns filhos não fazem pelas mães.

A maior desilusão foi a Disneyland, eu juro que pensava encontrar aquele palácio lindo da publicidade nos livros do tio Patinhas, e sai-me uma casinha de tamanho barn. Vão passear, seus engana crianças.

Caí na asneira de levar os miúdos aos bobsleds do Matterhorn, ainda o carro não tinha começado a ser içado já eu estava arrependida. Ao primeiro sacão agarrei-os bem, comecei a repetir "não nos vai acontecer nada, não se preocupem", fechei os olhos e continuei a repetir "não nos vai acontecer nada!" - só não comecei a rezar porque já sei que não resulta, mas pouco faltou. Quando saímos, a Christina contou toda calma que tinha visto bichos muito engraçados, uns verdes e outros azuis.

A meio do dia começou a chover torrencialmente. Em desespero de causa fomos para o Tiki room. À entrada eu perguntei o que era e o funcionário respondeu "flores e pássaros cantores" e eu, parva, "verdadeiros?", e a Christina sussurrando embaraçada "que pergunta, mãe!" e o funcionário "estão à sua frente".

À minha frente havia bonecada, pássaros e flores pendurados, atrás de mim a chuva torrencial, venha o diabo e escolha, entrámos. Daí a nada estava a olhar boquiaberta para manganões com idade para serem meu pais, todos eles balançando nas cadeiras e cantando uma canção supostamente oriunda das ilhas dos mares do sul, em coro com a bonecada, os tais pássaros e as flores. Muito divertido, quase chorei de desconsolo.

Saímos do Tiki room e tentámos chegar à ilha dos piratas, mas estava tudo fechado por causa da chuva que entretanto tinha transformado as ruas em rios. Em alguns pontos a água tinha quase meio metro de profundidade. Ainda passei alguns sítios com os filhos ao dependuro para não molharem os sapatos, mas não adiantou. Em pouco tempo estavam encharcados até à barriga. Nas esplanadas dos restaurantes os empregados tentavam varrer a água, foi a primeira vez que vi o Sísifo de capa da chuva. Dos altifalantes saía música muito merry, as pessoas atravessavam as ruas inundadas com um ar infeliz e desorientado, se a Disney quisesse rir de si própria não poderia ter feito melhor. Desistimos, fui pedir um reembolso dos bilhetes porque não há direito de fazerem ruas sem fazerem escoadouros de água, nem precisei de argumentar, eles estavam a dar bilhetes novos sem discutir. Hehehe, é bem verdade que quem não chora não mama.

Entretanto a chuva abrandou, dos altifalantes saía "you've got a friend in me" e nós começámos a cantar, dançando como patos, pés nos charcos, platsch platsch dentro dos sapatos. Voltamos para LA sem sapatos nem calças, só foi chato quando tive de meter gasolina, improvisei como pude uma saia com o meu casaco, mas não fui presa por ofensa à ordem pública.

Resumindo e concluindo: LA está para mim como Sodoma para o profeta, o que a salva é a meia dúzia de justos que lá vive e por esses até era capaz de me mudar para lá!