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14 fevereiro 2014

brincadeiras de crescidos (2)




Em Portugal temos há eternidades o Big Brother, no qual as pessoas se sujeitam a cenas tristes, ridículas, humilhantes e até indignas - e são observadas e gozadas por milhões. A Quinta das Celebridades: idem. A Casa dos Segredos: idem.
Temos vários programas que vivem (e vivem muito bem) da criação de contextos artificiais nos quais as pessoas aceitam fazer aquilo que normalmente não fariam, e são expostas de forma indecente para rentabilização de uma certa sede de boçalidade que há nas audiências.
O país parece dar-se bem com isso. Diz-se que há que respeitar a liberdade destes adultos que escolhem participar e aceitar as regras deste jogo, acabando até por conquistar um certo estrelado.

Mas depois os nossos jovens chegam à universidade e fazem questão de ser praxados (de se sujeitaram e cenas tristes, ridículas, humilhantes e até indignas), e nós ficamos muito surpreendidos e chocados, e desatamos a protestar que parece impossível, e onde está o seu sentido de dignidade e decência?, e como é possível que eles se sujeitem a isso e os mais velhos os sujeitem a isso?, e que este mundo está roto.

Pensando bem, o que seria de admirar é que depois de todo o lixo que a nossa sociedade lhes serve em prime time, eles chegassem ao princípio da idade adulta com uma consciência muito clara da sua dignidade e dos limites que - nem a brincar - podem ser ultrapassados.


07 fevereiro 2014

brincadeiras de crescidos

Entrevista da socióloga Rita Ribeiro ao Público. Foi publicada em 25.1.2014, e copio-a hoje para aqui porque me parece que tem apontamentos muito importantes sobre a praxe.

“As reitorias nunca tiveram vontade de expulsar as praxes ou de as domesticar sequer”

A socióloga Rita Ribeiro mergulhou no universo das praxes académicas. Fala em casos de tribunal, em responsabilidade individual e diz que um dos problemas é que "isto são brincadeiras de crescidos".
Rita Ribeiro é professora na Universidade do Minho BÁRBARA RAQUEL MOREIRA

O episódio é contado na investigação académica da socióloga Rita Ribeiro sobre praxes académicas. Um grupo de alunos estava à volta de um lago numa praxe quando os colegas mais velhos dão a ordem de saltar. Em vez de molharem os pés e saltitarem, os mais novos atiraram-se para dentro de água. “É o exemplo do clima de intimidação e de quem está sempre à espera do pior”, diz a professora da Universidade do Minho (UM).
Foi este o ambiente que encontrou no trabalho de campo que fez, inicialmente sob o ponto de vista da antropologia, olhando as praxes enquanto ritual de passagem. Foi também autora – juntamente com outro sociólogo da mesma universidade, Carlos Gomes – de um relatório sobre as praxes na UM, encomendado pela reitoria da instituição. “A intenção nunca foi julga-las, antes entendê-las”.
O que explica esta necessidade de os jovens estudantes enfatizarem esta etapa da sua vida?
Por um lado, há uma questão histórica e uma ideia de tradição, que é sempre usada como discurso legitimador. Depois, as praxes funcionam como um sinal da elevação estatutária que significa a entrada para o ensino superior. Para todos os efeitos, este ainda é um sector minoritário na sociedade portuguesa. Essa dimensão elitista leva a que se valorize a entrada na universidade. O traje e todos os signos da praxe são formas de os alunos sentirem um reconhecimento estatutário por parte da sociedade.
Mesmo para aqueles que são praxados?
Talvez até mais para esses, porque é um momento em que isso é visível para todos. Quando vão na rua com a cara pintada e não se importam com isso é porque estão a dizer aos outros: “Eu entrei para a universidade”. As praxes eram uma prática da Universidade de Coimbra e entraram em declínio nos anos 1960, por questões políticas. Emergiram no final dos anos 1980 e ganharam força nos anos 1990, precisamente quando o ensino superior se democratiza.
Não seria expectável que fosse ao contrário: a partir do momento em que alarga o espectro dos que entram na universidade, o peso simbólico é menor? 
Podia ser assim, mas, apesar dessa massificação, só uma percentagem muito restrita da população entra na universidade. Sobretudo naquela altura [anos 1990], em que havia uma forte pressão de procura e muitos dos que se candidatavam não entravam.
O possível embaraço público pesa menos do que o sentimento de orgulho por pertencer a esta comunidade?
Tirando aqueles alunos que participam porque não têm capacidade para se escusar a fazê-lo, na grande maioria das situações que pude recolher é isso que acontece. As pessoas sentem-se [impelidas] a participar de livre vontade. Muitas vezes, esse embaraço nem sequer é sentido, porque o lado provocatório que a praxe tem estimula-os. Estão a fazê-lo em grupo, a coberto de uma tradição, e isso funciona para alimentar essas práticas.
Qual é o papel das reitorias ou das direcções das faculdades neste processo?
Nunca tiveram muita vontade de expulsar as praxes ou de as domesticar sequer. Há aqui questões políticas, porque os reitores precisam de ter os alunos do seu lado. E, para muitos alunos, uma posição mais forte contra as praxes pode ser vista como uma afronta. A solução também não está numa rejeição completa, até porque as praxes parecem-me mais perigosas quando estão fora das universidades do que quando estão dentro. Algum equilíbrio da domesticação destas práticas é o ideal, mas não é fácil de se conseguir.
Dizia que a tradição aparece muitas vezes como discurso legitimador da praxe. Mas em universidades como a do Minho ou a de Aveiro, que são recentes, que tradição existe?
É uma tradição inventada, como são quase todas. O que há é uma recuperação de práticas históricas que são mobilizadas para aquilo que são os interesses dos estudantes. Estas tradições existiam em algumas universidades antigas – no caso português, Coimbra. O que as universidades novas fizeram foi apropriar-se destas práticas e, simultaneamente, dar-lhes uma tonalidade local, recuperando histórias mais ou menos mitificadas acerca daquilo que os estudantes liceais de cada cidade faziam ou das instituições eclesiásticas que tinham uma componente de ensino superior. Isso é também uma forma de legitimação, sobretudo numa universidade nova que precisa de criar uma identidade.
Na sua investigação, escreve que as regras da praxe são “implícitas” e “informuladas”. Como é que isso se explica?
Num ritual, sabe-se o que se deve fazer, mas muitas vezes o sentido das coisas está implícito. Por isso é que eles são polissémicos, servem para muita gente. E agregam vontades devido a essa plasticidade. Quando lemos o código de praxe, está lá um conjunto de limitações, mas não diz como fazer. O como fazer é uma prática que se constrói e que se reproduz num certo contexto institucional.
Mas há regras mais óbvias?
Embora operando numa lógica do implícito, estruturalmente, estão lá os significados. No caso da praxe, elas são interessantes do ponto de vista do estudo dos rituais devido a duas dimensões. Os pilares em que assentam são a hierarquia e o igualitarismo entre aqueles que são praxados. A praxe desenvolve-se nesta tensão permanente de reprodução das estruturas hierárquicas da sociedade de uma forma muito linear. E, ao mesmo tempo, do lado dos que estão a ser iniciados, é promovida a sua homogeneização, o seu nivelamento, a sua desinvidualização.
Essa é uma das críticas mais frequentes à praxe: o nivelamento e esta reprodução da hierarquia. No trabalho de campo, isso é uma coisa óbvia?
Está no nível estrutural daquilo que são os rituais associados à praxe, mas está. Há uma violência hierárquica muito forte, sobretudo nos primeiros tempos de praxe. Ao mesmo tempo que há uma completa formatação daqueles que estão a ser praxados e um apagamento das individualidades. Esta é uma prática comum a todas as instituições em que estão muitas pessoas juntas durante muito tempo, como as forças armadas ou os mosteiros.
Quando alguma coisa corre mal, é comum que as estruturas associadas à praxe não falem. O silêncio também é uma das regras implícitas?
Tal como outros rituais desta natureza, as praxes servem para constituir aquilo a que alguns autores chamam o espírito de corpo. Isso significa sempre que estamos a criar uma certa identidade entre nós e a afastar os que não têm o direito a passar pelo mesmo. Esse pacto de silêncio que às vezes se percebe tem a ver com isso: há uma protecção dos nossos. Se a praxe consegue alguma coisa é isso, é criar um espírito de corpo, uma identificação com a universidade, com um curso, com um grupo de pessoas. Do ponto de vista sociológico ou antropológico, quando os grupos se formam passando por este tipo de práticas violentas, reforçam ainda mais esse espírito.
Como é que se conciliam estas regras implícitas com o anúncio feito em Agosto de 2012, por nove estruturas académicas, de criação de um código de praxe comum para o país todo? 
Provavelmente, estamos apenas no domínio da intenção. Não vejo que seja muito possível essa cooperação tão estreita entre diferentes universidades, que criaram “tradições” de praxes diferentes. Até pode ser que se chegue a esse código, mas será sempre suficientemente vago e pouco operativo.
Onde é que a praxe se cruza com a lei?
Essa é uma zona de sombra. Todas as sociedades acabam por ter esta capacidade de acomodar certas práticas que estão contra os valores explícitos ou a lei. Qualquer juízo baseado na nossa lei condena muitas das coisas que se passam na praxe e muitas delas são efectivamente situações de tribunal. Mas o significado que nós atribuímos de fora não é o significado que está a circular dentro do grupo que está a ser praxado e está a praxarTemos que ver as praxes como uma dramatização feita por um grupo. É esse jogo de papéis que está ali a acontecer. Fora deste contexto específico, aquilo são situações intoleráveis.
Mas há espaços para a lei eventualmente intervir?
Apesar de as ver nesta óptica da dramatização, é evidente que não deixamos de estar numa sociedade onde há regras muito explícitas acerca dos direitos das pessoas. Essa subversão é calendarizada, sabe-se quando e onde pode acontecer e também se sabe quando e onde não pode acontecer, e é este contexto específico o que leva as instituições universitárias e a sociedade em geral a tolerarem as praxes. Mas não deixam de ser cidadãos que estão envolvidos. Há aqui também uma questão que é muito importante: a responsabilidade individual tanto de quem praxa como de quem é praxado. Quem é praxado também tem responsabilidade, porque está ali porque quer.
É, de facto, possível dizer que não à praxe? 
Dependerá muito das universidades, dos cursos, de quem está a dirigir as comissões de praxe, mas é possível dizer que não. E há também estruturas institucionais que são capazes de ajudar, como o provedor do estudante, que é uma figura relativamente nova.
Quem participa também assumiu que aquelas eram as regras do jogo?
Mas a qualquer momento tem que poder dizer que não. O mais importante no trabalho pedagógico junto dos alunos é que, a qualquer momento, devem poder parar o jogo. Essa responsabilidade individual não pode ser esquecida.
Nos dois casos mais mediáticos que chegaram a tribunal – a Universidade Lusíada foi condenada a pagar uma indemnização à família de um aluno que morreu na sequência de uma praxe, em 2001, e o Instituto Piaget também teve que compensar uma aluna que se queixou da violência da praxe, em 2002 –, a condenação recaiu sobre a instituição e nunca sobre os indivíduos. É difícil que o ascendente que alguém tem sobre outro no âmbito deste jogo possa ser entendido como estando para lá da fronteira da lei?
Não sei como é que os processos foram tratados do ponto de vista judicial, mas imagino que, tal como em muitas outras situações que cruzam o domínio da lei, seja possível atribuir responsabilidades e culpas que vão para além desta forma quase abstracta de condenar uma instituição. Se sabemos que acontecem situações muito graves, elas têm protagonistas. A cumplicidade que a sociedade portuguesa tem com as praxes está em todo o lado.
O álcool e as drogas também fazem parte da praxe?
Em relação às drogas, não me deparei com nenhum caso. Mas o álcool faz parte. Algumas praxes ocorrem à noite e ocorrem quase sempre tendo o álcool também como actor. Os estudantes passam pelos bares e muitos deles são constrangidos a beber.
O que é que justifica que um país que se mobiliza com o bullying no ensino obrigatório tolere estas práticas no superior?
Há uma razão muito simples: estamos a falar de adultos. Não podemos esquecer isso. É difícil fazer uma intervenção quando estamos a falar de pessoas que estão ali de livre vontade. Seria preciso provar que estão na praxe fortemente coagidos e intimidados e isso não acontece, na maior parte dos casos. Isto é uma brincadeira de gente crescida.

05 fevereiro 2014

o retrato do artista quando jovem

De uma caixa de comentários no facebook:





M. -
Eu estudei em Coimbra e a praxe foi a melhor coisa que me aconteceu la.. Todas as recordaçoes que tenho de la sao da praxe e coisas que a praxe me proporcionou. Este video como diz o texto que nao te deste ao trabalho de ler e so uma parte de uma coisa maior chamada aula fantasma e é o primeiro dia de praxe e claro que vao dizer algo para la ficarem mas depois e explicado que era brincadeira (nao que eu concorde pq por mim era verdade mas isso e aparte que nao quero uma guerra xD) e eles passam a ter acesso a brincadeiras que vao faze-los sorrir durante anos pq vao ser a recordacoes de faculdade. Alem disso nao o codigo de coimbra nao permite Violencia e nao vejo nada neste video (ou na minha estadia de 1 ano em coimbra) que mostre humilhacao


Helena Araújo -
Algumas perguntas aos defensores da praxe:
Obrigar um grupo de pessoas a pôr os olhos no chão em sinal de respeito e obediência não é humilhar essas pessoas?
A praxe precisa mesmo desses jogos de obediência e submissão?
Se brincassem com os caloiros sem esses tiques de autoritarismo, a praxe ficava melhor ou pior?


M. -
Eu resposta a Helena Araujo nao nao e humilhar assim cm quando ralha com um filho pequeno ele olha para o chao certo? e nao o esta a humilhar certamente. Os olhos no caho significam respeito e obediencia pelos mais experientes e so isso, e lembre-se que quem esta a mandar um dia ja teve os olhos no chao e eu falo por mim tive com orgulho pq nem me passava pela cabeca olhar para os meus doutores nos olhos qd eles ralhavam assim cm n passa na cabeca de um filho levantar nariz quando pais estao chateados...
E sim a praxe precisa de respeito e obediencia para funcionar, so brincadeira nao funciona pq eles comecam a abusar e nao ganham o sentido de uniao que a praxa quer implantar, a ideia e eles serem unidos entre eles cm irmaos e para haver brincadeira tem de haver respeito.
Por isso respondendo a ultima pergunta na minha opiniao ficava pior pq aposto que haveriam muitas faltas de respeito e nao haveria uniao nenhuma.
Mais uma vez repito so e praxado quem quer e eu fui 2 anos e se pudesse era praxada todos os anos de faculdade
(...) So e praxado quem quer e nao tem represalias por isso se nao querem fiquem no vosso canto e deixem de incomodar quem gosta. Para mim faculdade sem praxe nao tem nem 1 por cento do significado e acredito que nunca na vida la teria aguentado se nao fosse o apoio de todas as pessoas que a praxe me proporcionou por isso parem de falar do que nao sabem. Para quem estuda fora de casa a praxe nao e so boa ou util é ESSENCIAL COMO RESPIRAR pq e q praxe que te vai proporcionar apontamentos, visitas a cidade, amizades, companhia ao hospital qd precisas, pessoas pa tratar de ti, quem te oriente quando ja estas farto e so queres desistir ou seja a praxe passa a ser a tua familia e isso desculpem nao ha mil reportagens ou opinioes que tire do meu coracao.


P. -
Nunca vi ninguém reagir de forma tão violenta como tu o estás a fazer, a um simples comentário. Defendes a praxe, da mesma maneira que defenderias todos os grupos a que irás pertencer. Falta uma mente mais analítica e menos elitista a quem entra e em que fica. Quanto ao facto de "ninguém ser obrigado", concordo com a frase, mas não concordo com a acção que vem por trás dela. Antes de entrar na universidade, fui mentalizado e preparado para tentativas exaustivas de me tentarem impingir a praxe. Estava preparado para dizer que não e resistir às pressões. Infelizmente precisei de levantar a voz para me deixarem de vez em paz. Mas eu estava preparado, 99% dos alunos que entraram comigo nesse ano, não o estavam. Fiz amigos à mesma, conheci a escola à mesma, os professores, os funcionários, conheci as redondezas e a cidade. Ajudei novos alunos, pedi ajuda, e nunca humilhei ninguém. Pura e simplesmente, fui humilde.
Quando um dia fui com o meu irmão ao Macdonalds, começámos a falar com uma rapariga à nossa frente, vestida normal, e perguntou-nos qualquer coisa sobre a praxe e eu disse-lhe que era anti-praxe, demonstrando que estava preparado para contra-argumentar, e ela pura e simplesmente nos virou as costas e começou a falar com um rapaz trajado ao lado dela. Se isso não é ser "posto de lado" por quem pratica a praxe, não sei o que é.
Eu não sou contra as praxes, muito pelo contrário, sou a favor. O que eu defendo é que devem ter valores educativos e cívicos, que deve formar pessoas, fazê-las crescer não só em identidade como também em personalidade, que é coisa que falta aos 99% dos novos alunos.
Devem fazê-lo através da palavra, de convívios. Até porque sinceramente, dos 2 anos que lá andei a estudar, nunca vi os doutores receberem os novos alunos, quer fossem a favor ou contra as praxes, com uma bancada de petiscos e humildade. Muito autoritarismo, isso sim.
Sou a favor, porque da mesma maneira que eu não gosto de futebol ou de um partido politico, não me posso tornar "violento" ou áspero, defender e sentir-me ofendido por as pessoas gostarem de algo que eu não aceito ou não tolero.
-- Queres apanhar no cu?
-- Não.
-- Estás a dizer não sem experimentares?


Helena Araújo -
M., em suma: gosta do autoritarismo. Quer na óptica do utilizador, quer na do produtor.


M. -
P., eu nao queria ser agressiva nem nada que se pareca e apenas a minha maneira de me expressar por escrito e peco desculpa se pareci rude. Eu nao te posso provar porque eu nao estava la estou apenas a falar da minha experiencia em coimbra e no texto publicado em cima de um aluno de la neste momento. Eu sou bastante radical em relacao a praxe e vem do espirito que adquiri em coimbra e isso varia de faculdade para faculdade porque eu de momento estudo em vila real e nao sao tao extremistas como eu. Mas se nao es contra praxe pq ja ias preparado para a recusar? Eu acredito que tenhas conseguido fazer tudo isso e ainda bem, eu so disse que na minha experiencia foi a praxe que me proporcionou muita coisa. Quanto a atitude dessa rapariga tens de ver que isso tambem depende de pessoa para pessoa, ha pessoas que ouvem metal e se dao com quem ouve pop e ha aquelas que so se dao com quem ouve o mesmo ne? Eu conheco os 2 lados, tanto quem se recuse a falar pa anti praxes cm quem os trate exactamnt igual aos q sao praxados por isso isso depende das pessoas. O que essa miuda fez foi ma educacao e pronto pq uma coisa e n terem "trabalho" cnt pq s n es praxado nao vais ter regalias outra coisa e nao falar. Quanto ao educar como pessoa eu tb concordo e é isso que eu tento fazer com os meus caloiros. Quanto aos petiscos opa eu se um dia visse isso na praxe acho que nunca mais praxava na vida pq a ideia n e por a vontade no primeiro dia, isso vem com o tempo, primeiro e o respeito.
(...)Agora ninguem proibe ninguem de fazer nada so pq nao e praxado, pelo menos hoje em dia isso ja nao e praticado embora eu ja tenha expressado a minha opiniao acerca disso. Isso e como tudo cada um vai ter sempre a sua opiniao do assunto e a praxe nunca vai agradar a todos assim como nada agrada a todos. A praxe hoje em dia ja e bastante mais branda e bastante mais liberal com os anti praxe e mesmo assim as pessoas nao estao satisfeitas. Nao se consegue agradar a gregos e troianos infelizmente. Quanto ao pros e contras eu nao vi o de coimbra a falar mas nao acho que a do Algarve se tenha enterrado bem pelo contrario concordei com algumas coisas mas so poderei comentar qd vir o programa td com atencao.
Helena Araujo, Sim gosto e sou muito mais radical do que a praxe praticada hoje em dia mas la esta eu tenho de me reger pelo codigo e é isso que faco, foi como ja disse nunca se vai conseguir alguma praxe em td o pais q agrade a toda a gente. Eu acho necessario o autoritarismo mas infelizmnte ate em casa deixou de se praticar e dai que o miudos chegam a universidade mal educados e se nem praxe houver vao ser optimos funcionarios.


D. -
Há mais de quarenta anos houve estudantes que travaram lutas académicas contra o autoritarismo nas universidades. Hoje os representantes académicos batem-se pela defesa do autoritarismo.


P. - M., eu ia preparado para dizer que "Não", porque já conhecia grande parte daquilo que se fazia. Nunca me identifiquei com esse tipo de brincadeiras. Sempre fui humilhado, gozado e rebaixado, desde a primária, e é por eu saber que a integração de uma pessoa num ambiente novo não se dá pela força, que sou contra aquilo que se faz, e sou a favor daquilo que realmente se deveria estar a fazer. Nos escuteiros ganhas medalhas por boas acções e não és obrigada a rastejar ou a olhar para o chão.
O pior disto tudo nem são as praxes! É a necessidade de educar os novos alunos, muitos com o rei na barriga ou o nariz empinado. E se por um lado reconheço que para muitos a praxe seja uma terapia ou um re-encaminhamento social para se inserirem de maneira "correcta" na sociedade, também reconheço que as praxes seriam mais leves e mais dinâmicas, verbal e fisicamente, se os putos e as pitas não fossem tão mal educados.
Nessa perspectiva concordo contigo.


M. -
:s La esta se nao te identificavas fizeste bem nao o fazer, eu por acaso fui mesmo numa de ser praxada pq gosto dessas coisas mas nao julgo ninguem por opcoes diferentes, eu so defendo o meu ponto de vista e o facto de querer acabar com o q eu mais amo na minha faculdade. Tambem andei nos escuteiros mas por incrivel que pareca la nao fui muito integrada, ou seja, contrario d ti parece q funciono melhor em serem maus pa mim do q m darem medalhas
La esta a praxe tambem serve pa educar pq infelizmnt os miudos agora vem bastante mal educados e antes de terem um trabalho vao ter d aprender a calar e "engolir sapos" e é preferivel ser na faculdade do sendo demitido varias vezes. Eu nos primeiros dias de praxe sou mais severa para perceber os que respeitam e os q nao e se respeitarem tem a melhor amiga de sempre e eu digo-lhs desde o inicio isso


N. -
(...) tirei agora 2 minutinhos para ler o comentário que o Luis publicou [afirmando que o caloiro do filme da praxe no FCDEF é um aluno mais velho a participar numa encenação] - se aquilo se referia ao vídeo que eu coloquei, não sejamos ridículos: aquilo não é uma aula fantasma nem uma brincadeira - é pressão psicológica e coacção, e a coacção é crime! As aulas fantasmas podem ser muito engraçadas, mas não é o que ali se vê!

 F., não vou responder a todo o teu comentário, porque já estou saturado da mesma (falta de) argumentação. Por muitos aspectos positivos que possa ter (e tenho MUITA dificuldade em ver muitos dos que apontam) a praxe facilita a violência, banaliza a humilhação e a malcriadez e está desenhada de uma forma que se percebe logo que não tem como correr sempre bem! Quanto a dizeres que isto não é a realidade de Coimbra, estás simplesmente a ser absurdo! Este vídeo é a prova de que isto é a realidade de Coimbra - pode não ser a realidade a que tu assististe, mas é a realidade a que muitos estudantes assistiram!

 M., olhar para o chão não é símbolo de respeito. Quando ralhas com um filho e ele olha para o chão, ele fá-lo por vergonha/arrependimento, porque reconhece que errou. Nenhum pai gosta de dar represálias aos filhos, e certamente que não o fará sem razões e porque lhe apetece - é RIDÍCULO comparares uma coisa à outra!
Muito mais podia dizer sobre uma enormidade de disparates que foram por aqui ditos, mas estou sinceramente farto de dizer sempre a mesma coisa e nunca me responderem com argumentos em resposta a isso. Os argumentos a favor da praxe baseiam-se na "integração" (que não é a integração que se deseja numa instituição de ensino superior, pois é a integração pelo nivelamento por baixo, e não a integração pela diferença, que deveria ser cultivada!), na "experiência de vida" (que é o argumento mais absurdo que já vi, e devia, isso sim, ser um argumento contra a praxe - a praxe prepara os estudantes para uma vida de cobardia e conformismo!), na "tradição" (que é um argumento ridículo, porque não existe tradição nenhuma de praxe, nem sequer em Coimbra, que é uma coisa que data de há uns anos atrás, e que sempre foi apagada nas alturas em que os estudantes tiveram importantes intervenções políticas) e na "eu fui e foi muito bom, por isso é sempre muito bom, e é muito bom para toda a gente, e quem diz o contrário é porque não conhece o que se passa lá dentro" (este argumento é uma generalização MUITO maior do que a que faz quem diz mal de todas as praxes. Por muito que haja praxes sem riscos e até engraçadas, o próprio conceito baseia-se no autoritarismo, no desrespeito, no calão e num comportamento animalesco que em nada dignifica os estudantes.
Ontem, no debate, ficou claro que ninguém defendia as praxes que foram apresentadas no documentário - não sei se por não as querer ou simplesmente por saber que são indefensáveis. Eu já vi praxes de praticamente todos os cursos da UM e de muitos cursos de outras universidades que eram desse estilo. Tirando as praxes solidárias (que toda a gente sabe que, essas sim, são a excepção), nunca vi uma praxe que não fosse desse estilo! O problema existe e está identificado. Peço que daqui para a frente se mantenha nesta conversa apenas quem quiser discutir as possibilidades de solução. Quem quer continuar o discurso demagógico de que as praxes fazem muito bem e que não há nada de errado com elas, tem muito por onde o fazer nestas redes sociais - aqui vamos tentar manter o debate sério!
(...)
 I., tu não podes garantir senão que contigo nunca foram agressivos. As imagens acima, passadas na praxe de Coimbra, comprovam que a praxe lá também é agressiva (como é em TODO o país) - não será toda a praxe, mas é o suficiente para ser motivo de preocupação!
Vê se percebes a falácia argumentativa que estás a cometer: O teu argumento é "eu não fui coagida, logo ninguém é coagido". Não podes extrair conclusões sobre o todo, tendo como premissa a parte. Há praxe violenta em Coimbra e há praxe violenta na Universidade de Coimbra. Não será toda a praxe assim, mau seria, mas que a há, é um facto!


M. -
diz-me o q é agressivo no video pf... aquilo n é nd mesmo... Qt a minha comparacao eu mantenho pq eu sempre disse q os meus caloiros eram os meus filhos e eu sei q nenhum pai gosta de ralhar assim cm eu n gostava d lhs ralhar mas qd tinha d ser era e ponto! E sim o olhar po chao e sinal q sabem q erraram e respeitam quem esta a reclamar pq senao levantavam nariz e respondiam.... Nos somos os pais deles e familia principalmnt pa quem mora fora mas ya eu retiro-me que isto nao leva a nada


P. -
M., não posso concordar contigo nesse ponto. Os mais velhos não são pais de ninguém e muito menos família, poderão ser amigos, mas a educação também tem de vir de casa. Acho que se as praxes deixassem de existir, ao fim de 5 anos, iria-mos testemunhar um aparvalhamento ainda mais acentuado da população jovem, só que aí, nesse caso, os responsáveis seriam e continuam a ser, os pais deste "nosso" portugal.
Ainda que a praxe, como referi a cima, seja por um lado umas boas chapadas em putos de nariz empinado, continuo a defender de que se deve incutir o civismo.


L. -
P., quem tem o nariz empinado não o vai perder por ir a praxe, eles simplesmente não vão a praxe e prontos, continuam com a sua maneira de ser convencida

M. -
qt aos miudos de nariz empinado nao mudarem e mentira pq acredita q eu ja baixei nariz a alguns em praxe P., la esta eu expressei a minha opiniao e cm eu ajo em relacao aos meus e sim acho q s deixar de existir praxe vai haver grande declinio de educacao pq os putos ja sao mal educados imagina sem praxe...
Aquilo [no vídeo] nao tem nd de mal... n tem assim tanta pressao e insulto no primeiro dia de praxe e mais q normal

P. - Pois, mas talvez seja necessário "acabar" com a praxe durante uns anos, para os papás se apercebam de que a educação que não dão aos filhos é o grande problema desta geração, da minha e a do futuro.

M. - Opa sim os papas perceberem isso era optimo mas n m parece q aconteca... vamos e ter juventude cada vez pior...e eu n cnsigo desejar q acabe praxe...acho q fico sem motivos d ir a faculdade
(...) Nao devia ter eu ja frisei isso o primeiro dia e assustar e impor respeito... fogo s um patrao um dia vos reclama voces pedem demissao?


P. -
Já aconteceu comigo. Aquilo que fiz foi afastar-me, esperar pelo momento certo e falar com ele em particular. Resolvi a situação. Apesar de o "patrão" estar sempre a gozar com o meu aspecto, não fiz o mesmo que ele me fez.
E num tom de brincadeira, sim, pedia a demissão, dele!


M. -
Ahahahahah a demissao dele? Sonhador... deviam ser todos como tu mas es muito sonhador... nos preparamos os caloiros po mundo real aquele em que ou calas ou pedes a tua demissao. Qt ao falar em particular fizeste bem e foi maduro


N. -
M., se achas que algum tipo de pressão e insulto em algum dia é normal, então não tenho forma nenhuma de concordar contigo! O insulto e a coacção não são aceitáveis em altura alguma - aliás são crimes puníveis em qualquer estado de direito! Se um patrão no primeiro dia me chama nomes e me põe a olhar para o chão enquanto fala comigo, não só peço demissão como o ponho em tribunal por atentado à dignidade! E em quantas empresas desse "mundo real" já trabalharam os "doutores" que os preparam? É absurdo dizer que no mundo real, nas empresas, isso acontece! Haverá algumas em que acontece, mas não são certamente aquelas em que queremos que os nossos licenciados trabalhem


M. -
Eu nao disse que numa empresa fazem o q s faz na praxe -.- o q eu disse e q a praxe os prepara para se controlarem e nao responderem em situacoes de stress, ensina a respeitar o "superior" e expor ideias qd necessario mas com respeito e so quando lhs e devido... claro q nao fazem isto numa empresa mas se eles resistem a praxe estao mais preparados pa momentos no trabalho... E nao os doutores n trabalharam mas tem mais experiencia com professores e discussoes e pronto...e infelizmente no nosso pais n ha empresas q queremos ou nao, trabalho e trabalho... e sim eu n vejo problema de insulto e acho q tas a exagerar... eu insulto os meus amigos mts vezes e ainda n fui presa xD eu acho piada q tu pias pias mas pessoas q realmnt sao insultadas e coagidas como dizes estao smpre a sorrir e choram muito qd os malfeitores vao embora


R. -
M., a ideia de uma universidade é ensinar a duvidar e a questionar o "superior", não a obedecer e a aceitar. Ortega y Gasset aconselhava todos os que ensinam a ensinarem também a que se duvide do que ensinam, e esse é um dos valores fundamentais que deve reger uma Universidade. Não o oposto.

praxes: quem não quer fica de fora...



Comentário encontrado no blogue Pais de Quatro:

Aqui sob a capa do anonimato, vou confessar algo que nunca disse a ninguém.
Sempre fui uma óptima aluna. E todos à minha volta me imaginavam na universidade.
Acabei o liceu aos 17 anos e ... não consegui inscrever-me.
Dei variadas desculpas, porque a verdadeira só eu sabia: a minha timidez, o saber que chorava (choro) com facilidade, meteram-me um medo de morte de ir para a universidade. Não fui...
Podem dizer que fui medrosa, cobarde, o que quiserem, mas não consegui... Era insegura demais. Naquela altura estar longe de casa, da minha familia já iriam ser dificeis e ouvir tantas coisas das praxes assustou-me demais...

Hoje sou casada, tenho dois filhos e ... não os imagino praxados.
Aliás, revejo-me no meu filho mais velho (12 anos) que fica aflito só de ouvir estas coisas sobre as praxes nas televisões.

Tento desvalorizar e até tenho um discurso tipo: ah e tal só serás praxado se quiseres, se quiseres ser praxado e te fizerem alguma coisa que não devem podes fazer queixa e bla bla bla.... digo isto mas da boca para fora. Tentando não transmitir ao meu filho o medo que ainda sinto da praxe. Para que um dia ele decida por ele... mas....

04 fevereiro 2014

a vida é dura



A vida é dura. Com 16 anos, a minha filha começou a trabalhar em restaurantes para compor a semanada miserável que os pais lhe davam, e para juntar dinheiro para a carta de condução (nós pagamos metade, ela paga o resto). Aos 18 anos foi trabalhar um ano inteiro num centro escolar de um bairro pobre na Bolívia. Cuidou de crianças com piolhos e sarna, viu pequeninos de 1 e 2 anos a ser criados na rua porque os pais não tinham os 15 euros mensais para pagar o infantário, andou a pedir à família e aos amigos alemães que juntassem o dinheiro necessário para tirar crianças da rua. Conviveu diariamente com a pobreza, a doença, o desmazelo de quem se debate com problemas existenciais. Agora, na Alemanha, exige que o seu país abra as fronteiras à miséria do mundo, em vez de as fechar por comodismo e egoísmo. E anda a pensar no montante de impostos que estaria disposta a pagar do seu bolso, do seu trabalho, para que o Estado alemão possa ter uma posição mais solidária com os outros povos. A vida é dura, e ela sabe-o mesmo sem ter passado pelas praxes portuguesas.

A vida é dura. Há tempos, a cidade de Magdeburg autorizou uma manifestação de neonazis que queriam fazer uma homenagem às vítimas dos bombardeamentos nessa cidade. O meu filho juntou-se a mais de 10.000 pessoas que os queriam impedir de desfilar. A manifestação antifa era ilegal, a neonazi era legal. A polícia estava obrigada a proteger os neonazis das acções do meu filho e dos seus amigos. A ideia destes era informarem-se sobre o percurso da manif, irem para lá, e sentarem-se no chão "a descansar". Só que ninguém sabia qual era o percurso. Um deles meteu-se no comboio que trazia os neonazis, e enviava as informações pelo twitter. Se o tivessem descoberto, matavam-no. Morria ao serviço dos valores nos quais acreditava, e a fazer algo de útil para a sua sociedade, assassinado por neonazis que já se sabe serem um perigo para a democracia.
O grupo do meu filho debateu com velhotes que os criticavam ("Desapareçam, seus vadios! Que é que vocês sabem do que é viver numa cidade que está a ser bombardeada?"), apagou rapidamente alguns fogos em contentores do lixo que alguns extremistas tinham ateado, riu-se com as palhaçadas que alguns dos seus faziam em frente aos polícias (e das caras que os polícias faziam para não mostrarem que estavam a achar graça). Antes de regressarem a Berlim, decidiram rasgar os seus cartazes e deixar os bocados num caixote do lixo, para não se meterem em sarilhos com os neonazis que viriam no mesmo comboio - e fizeram-no muito discretamente, não fosse alguns antifas mais acelerados concluirem que eram neonazis e darem-lhes um arraial de pancada. A vida é dura.

Com menos de vinte anos, os meus filhos já sabem que a vida é dura. E já sabem trabalhar com outras pessoas em função de um objectivo comum, apesar das inúmeras diferenças de carácter e sensibilidade. Não precisam de praxe nenhuma para lhes ensinar isso. E nunca estarão disponíveis para pôr os olhos no chão só porque alguém lhes dá essa ordem. Alguém cuja indiscutível autoridade se sustenta na extraordinária façanha de ter entrado na Faculdade antes deles. Para esses, a vida é fácil.

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Fotos da manif de Magdeburg, em 14.1.2014, que encontrei no Spiegel online:









03 fevereiro 2014

será que faz por não ver, que vai com os outros, que é oportunista - ou será talvez o cabecilha?

A entrevista que Manuel Damásio, presidente do Conselho de Administração da Lusófona, dá à SIC levanta-me várias dúvidas:

1. Este discurso é o de alguém que faz questão de não ver, ou de alguém que vai acriticamente com os outros, ou de um oportunista que aproveita as dinâmicas do tempo em proveito do seu estabelecimento, ou de alguém que potencializa as dinâmicas do tempo em proveito do seu estabelecimento?

2. Se eu quiser vender a minha banha da cobra, posso usar o símbolo da Lusófona e pespegá-lo na minha papelada para dar um ar mais oficial, e essa empresa não reage? Desde que eu faça isso com o meu computador e depois imprima, não há problema? É o que ele diz, quando inquirido sobre o uso do carimbo da Lusófona no termo de responsabilidade criado por um organismo de alunos que ele insiste em desvincular dessa escola: "Carimbo não tinha. (...) Quem imprimiu isso - basta pegar no computador para fazer aquilo - pôs lá o símbolo da Universidade."

3. Ele teria falado no mesmo tom se tivesse à sua frente não uma mulher mas um homem alto e espadaúdo e com um timbre de voz mais grave que o dele? (bem sei que não é muito importante, mas desde que tenho um cão reparo mais nestes pormenores)

***

Enquanto o ouço, penso na Ursula Thrush - a directora da primeira escola dos meus filhos, em San Francisco. Viveu os horrores da segunda guerra mundial, e decidiu que um dos objectivos primordiais da sua escola seria a educação para a Paz. Era um gosto ver crianças de três anos a brincar sem violência, e sentadas à "Peace Table" a aprender a resolver verbalmente os seus conflitos.

Penso na Jenaplan de Weimar, a escola primária dos meus filhos, com turmas compostas por alunos de todos os anos, também com o objectivo de trabalhar as competências sociais das crianças - nomeadamente dando aos mais velhos o papel de integrar os mais novos, acompanhá-los e dar-lhes orientação.

Penso no liceu da minha filha, em Berlim, com tolerância zero em relação a qualquer comportamento desviante (e já era considerado comportamento desviante fumar num perímetro de 200 m da escola...). Podemos concordar ou não com estas regras severas, mas uma coisa é certa: a escola tem princípios e regras, e sabe fazê-los respeitar.

Penso no director do liceu do meu filho, que não teve a menor dúvida em castigar duramente todos os finalistas quando um grupinho decidiu que as "Partidas dos Finalistas" (uma tradição importante e muito respeitada) incluiriam deixar fezes à porta da escola. Nesse ano não houve cerimónia oficial de entrega de diplomas para ninguém.

Penso na preocupação comum a pais e professores dessa escola, quando realizaram um debate sobre o que fazer para pôr fim a comportamentos inaceitáveis de degradação do material e do ambiente escolar (riscar mesas, deitar lixo para o chão, entupir propositadamente sanitas).

Penso nesses exemplos, e chego à conclusão que Manuel Damásio, o presidente do Conselho de Administração da Lusófona, não teria lugar em nenhuma destas escolas. Nem sequer como limpador de retretes. Até para limpar retretes escolares é preciso ter um conjunto mínimo de princípios, que ele não exibiu nesta entrevista.

E (eu a chover no molhado) em nenhuma destas escolas se permitiria sequer sonhar praxes como as da Lusófona. Alunos que experimentassem esse tipo de comportamentos acabariam muito provavelmente numa escola para "pessoas com necessidades educativas especiais". Professores e directores escolares que permitissem este tipo de comportamentos (ou alegassem que não era nada com eles, que era lá uma coisa da liberdade dos alunos) seriam confrontados com um processo de despedimento imediato com justa causa.

Olhar para o que se tem permitido à praxe em Portugal a partir da experiência de mais de duas décadas a viver neste país chega a ser doloroso. "Wehret den Anfängen!" é uma frase que a História ensinou aos alemães: cuidado com os começos - há que identificar o perigo e reagir sem hesitação quando o mal começa a germinar. Em Portugal infelizmente, a sociedade deixou germinar e ganhar raízes imensas. A desinfestação vai dar muito mais trabalho.


01 fevereiro 2014

praxe: em vez de proibir, responsabilizar



Do que tenho observado, podia fazer-se assim uma síntese do debate da praxe que tem estado a decorrer (e agradeço desde já a todos os que têm conversado comigo sobre isto, nos blogues e no facebook):

No lado dos críticos da praxe encontramos:

- Os que afirmam que a praxe está profundamente errada nos seus princípios, porque vive do autoritarismo, do poder discricionário, do abuso e de jogos de poder e submissão que rapidamente descambam para situações indignas e inaceitáveis. E que tudo isso ocorre num ambiente de coacção que muitos tentam mascarar de liberdade.

- Os que defendem a dignidade dos caloiros mas se esquecem de os respeitar, falando deles como se fossem um bando de mentecaptos. E também os que dizem que a praxe não respeita os caloiros, e que em vez de os mandar fazer cenas tristes deviam obrigá-los a ser voluntários numa instituição social...

No lado oposto, o dos defensores da praxe, encontramos:

- Pessoas que fizeram a praxe, gostaram muito, e sentem que a Academia perde algo importante se a praxe for proibida - a praxe é boa, os abusos são maus, castiguem-se os abusos mas não se mexa na praxe. Para além disso, definam-se limites (tais como: não pode haver castigos corporais, não se pode obrigar o caloiro a beber ou comer algo que ele não queira, não se pode cortar cabelos ou danificar vestuário e outros objectos, a praxe só pode ocorrer em áreas bem delimitadas e está proibida em determinados locais, a praxe não pode dificultar o funcionamento da Universidade, não se pode impedir um aluno de frequentar as aulas, etc.)

- Alunos que defendem a praxe porque lhes dá um poder fácil que lhes agrada muito (lembro a confissão do autor da experiência "The Third Wave": sentiu um prazer especial na obediência cega dos alunos). Este aspecto é particularmente importante, porque é o menos falado mas é aquele que provocará maior resistência à criação de praxes sem tiques de autoritarismo. Porque, e disso não tenho a menor dúvida, qualquer tentativa para mudar o espírito da praxe, tornando-a num processo de acolhimento e integração do caloiro, em vez de ser uma licença para gozar e experimentar o sabor do poder sem peias, vai ser ferozmente boicotada por esses que sentem que as novas regras lhes roubam a sua coutada de caça.

- Universidades interessadas em usar o "espírito académico" como isca para atrair estudantes/clientes.


Pessoalmente, não tenho nada contra dinâmicas de grupo para receber e integrar os novos elementos de um grupo. Mas tenho imenso contra o fundo de autoritarismo e lixo paramilitar nos códigos da praxe, as dinâmicas de abuso de pessoas que se sujeitam a uma inacreditável assimetria de poder baseada em nada, e a impunidade com que alguns se arrogam o direito de invadir o espaço de dignidade pessoal dos colegas, bem como o espaço da cidade e dos cidadãos.
Contudo, para não destruir as recordações de uns (os que passaram pela "boa praxe") e os sonhos de outros (os alunos que escolhem as Universidades em função do "espírito académico"), proponho uma maneira de resolver a questão da praxe a contento de todos: simplesmente, responsabilizar quem organiza os eventos.

O organizador (ou o grupo de organizadores) do evento tem de o registar na secretaria da sua Faculdade e pagar uma caução, e responde pessoalmente pelas suas consequências - seja um jardim público estragado, seja danos físicos ou psicológicos em algum dos participantes. Só participa nesse evento concreto quem exibir uma autorização passada pelo organizador, e assinada pelo portador (tanto os caloiros como os alunos mais velhos). O organizador pode expulsar os participantes (afinal de contas, é ele o responsável por tudo o que acontecer ali, e tem de se precaver no caso de alguns participantes começarem a perder o tino). Os participantes podem abandonar o evento em qualquer momento, e fazer queixa do organizador caso sejam alvo de alguma forma de coacção.

Depois, é deixar andar - sabendo que os danos materiais serão cobertos pela caução (e, acima desse valor, será exigido o pagamento ao organizador do evento ou, de forma solidária, aos organizadores) e que a acusação de eventuais abusos, independentemente dos seus autores, será automaticamente dirigida contra o responsável ou o grupo de responsáveis.

Bem sei que estou a ser muito dura com os organizadores do evento da praxe. Mas, lá está:  "Dura Praxis, Sed Praxis" - e não fui eu quem inventou o lema. Sendo a praxe uma preparação para a vida, parece-me muito útil incluir o conceito de responsabilidade neste processo.

No fundo, isto cria um mecanismo automático anti-descarrilamento. Se estiver bem claro, à partida, quem tem de chegar à frente caso alguma coisa corra mal, é muito menos provável que alguma coisa corra mal. Acaba-se com a impunidade.

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"Mas então eles passam a fazer as coisas sem lhe chamar praxe"
Nesse caso, se forem vistos - por exemplo - a rastejar com pedras agarradas aos pés, ou a chatear comerciantes, não podem responder "oh, não se meta, que isto é a praxe". Perdem o escudo de impunidade que a praxe até agora lhes tem conferido.

"Coitado do responsável, como é que ele se pode responsabilizar por uma dinâmica de grupo com pessoas que não conhece?"
Uma dinâmica de grupo com um responsável é sempre melhor que uma dinâmica de grupo sem um responsável. E este pode em qualquer momento parar tudo, recolher as autorizações e mandar o pessoal dispersar. Até pode pedir ajuda à polícia, se for caso disso.

"Isto implica custos suplementares para o secretariado da Universidade"
A Universidade pode cobrar uma taxa para o registo do evento, e o responsável pode vender as autorizações para participar - a, digamos, 50 cêntimos cada uma. Para além de juntar algum dinheiro para pagar a taxa e até eventuais danos, tem a vantagem de ser um acto simbólico pelo qual os participantes declaram que querem realmente participar.  


30 janeiro 2014

ah, e tal, a praxe é um importante rito de passagem, uma iniciação, uma preparação para a vida...

Em Stanford, os caloiros são recebidos assim:



Recebidos com esta palermice de paninhos quentes e ambiente caloroso, está-se mesmo a ver que aquela Universidade nunca há-de passar de uma cambada de meninos-da-mamã medricas e incapazes. Ainda nem conseguiram juntar meia centena de prémios Nobel, nem nada.
Incompetentes, é o que eles são todos.

ah, e tal, quem não quer a praxe pode sempre dizer "não" e não lhe acontece nada




Numa conversa no facebook, em resposta à minha pergunta

"desculpe perguntar sobre um detalhe: a sua filha que decidiu não entrar na praxe passou anos de isolamento? Afinal não entrar na praxe tem um custo? É que o pessoal pró-praxe está farto de afirmar que basta dizer "não" e não há problema nenhum."

recebi a seguinte resposta, assinada por Raquel Misarela:


Estudei em Tomar na Escola Superior de Tecnologia. 18 anos, sozinha, numa cidade que não conhecia, sem telemóvel (esperava religiosamente numa fila para o telefone público porque tal como na praxe a minha ideia de ter um telemóvel também era fixa... Se bem que essa mudou rapidamente :)). Ainda pensei tentar passar despercebida, era mais fácil, mas num meio tão pequeno, uns riscos pretos de meio metro nos olhos, calças à boca-de-sino nos anos 90 e molas da roupa na cabeça não passam assim tão despercebidos. Pré-adolescência tardia dirá a minha querida mãe! No primeiro dia tive logo um grupo de meia dúzia de grunhos de engenharia civil (...) a pôr de quatro e de olhos no chão os ditos caloiros à porta da primeira aula. Declarei-me anti-praxe. E tive quase 3 meses esses idiotas a baterem-me à porta de casa. Seguiram-me, conheciam uma rapariga que morava no apartamento e entravam todos os dias. Repito, todos os dias. Queriam que eu assinasse um papel para tornar "as coisas" oficiais... Bem lhes tentei explicar que se eu não lhes reconheço qualquer superioridade hierárquica ou qualquer tipo de poder nao podia nem ia assinar nada. Pedi o código da praxe. Estava a ser reformulado, diziam. E todos os dias diziam-me que ia ficar sozinha, que não ia ter amigos, que não podia usar traje, que não podia ir a festas, que depois ia querer praxar e não podia, que iam estar de olho em mim. E estiveram. Tentaram-me barrar regularmente o acesso às aulas. Vomitei várias vezes de nervoso no parque de estacionamento da escola. Mas acabaram por desistir. Eu não o ia fazer. A minha mãe exagerou quando disse que foram anos de isolamento. Não foram. Mas que mudou radicalmente a forma como passei por Tomar, mudou. Fiz amigos, alguns para a vida, integrei-me (vejam lá bem) e até conheci a cidade sem ter nhanhas despejadas pela cabeça, sem cartazes a chamar-me besta, ou sem ter de rastejar para regozijo de alguém. Mas mudou. 

Quanto às represálias e medos, ainda não percebi se foram uns anos (finais de 90) de "azares" e agora é tudo uma verdadeira maravilha integradora, que quando há qualquer problema, denúncia, agressão ou morte é qualquer coisa, caso de polícia, mas praxe nunca, ámen, ou se o facto de a minha mãe estar nas Letras também ajudava a ir sabendo o que se passava. As notícias de agressões, perseguições, gozo permanente eram constantes. Assim como as notícias de violações. No ano antes de ter entrado houve um caso de violação e agressão, penso que na agrária, de uma rapariga que se declarou anti-praxe. Foi deixada mais para lá do que para cá, nua, na casa de banho. Lembro-me que nas Letras um rapaz, borbulhento e pau de virar tripas, de uma aldeiazinha do interior, se declarou anti-praxe, mais para ser deixado em paz do que propriamente por convicção. Durante 4 anos foi perseguido por um grupo de estudantes das letras. Acabou por se enforcar. No dia a seguir esses filhos da p@&a entraram nas Letras de cordas no pescoço com gargalhadas sonoras. No mesmo ano,um grupo de estudantes mata à facada uma sem-abrigo... Arquivado. Reinava e reina a impunidade. Não é não... Pois 

Ah, mas já agora deixo aqui um exemplo de como o não é não...

 

(Parece-me que não entendi bem: por favor confirmem se nesta praxe de Coimbra - a tal Academia onde a praxe é boa - quando um aluno disse que não queria participar na praxe bateram-lhe, chamaram-lhe "paneleiro", vaiaram-no, disseram-lhe tudo aquilo de que ia ficar excluído se não participasse, e despediram-no com a cantilena "boa viage, vai pró caralho"; confirmem também se aqueles que assistiram a tudo isto de cabeça baixa e olhos no chão eram caloiros, ou, já agora, se este filme é uma grosseira manipulação, forjada por uma misteriosa conspiração para denegrir a imagem da Academia de Coimbra)


27 janeiro 2014

acossados

Será exagero estabelecer um paralelo entre estudantes universitários, que aceitam ser objecto de troça em brincadeiras indignas para poderem pertencer ao grupo, e jovens profissionais, que aceitam estágios sem vencimento, ou empregos com vínculos precários e salários de miséria para poderem entrar na vida profissional?

Olho para tudo isto, e vejo os filhos do nosso tempo: acossados na vida académica, acossados na vida profissional. E que dizer da sociedade que encolhe os ombros perante este oportunismo à margem de qualquer ética?


(Do PúblicoNos dias seguintes ao seu funeral foram à sua universidade, foram ao hotel de luxo onde ela estava a estagiar. E essa é outras das razões por que querem que se escreva este texto. Catarina Soares já não existe, mas sentiram que no sítio onde estava a estagiar é como se ela nunca tivesse existido. O que presenciavam que é todos os dias se levantava às 6h30 para estar em Lisboa às 8h e sair às 16h e que no final de estágio iria receber uma remuneração simbólica que a ajudaria a comprar um iphone; à noite estava a acabar as últimas cadeiras da licenciatura em Turismo. Queriam receber o que lhe era devido e doar o dinheiro a uma instituição, mas era como se Catarina fosse "invisível, não havia uma ficha com os dados dela, não tinham a morada dela”. Querem que a morte da filha sirva “pelo menos de alerta contra os estágios não remunerados que supostamente dão experiência e currículo, mas que mais não são do que trabalho escravo”. Custa-lhes saber que a filha ia trabalhar no dia de Natal porque o chefe lhe tinha dito “que é nesse dia que se ganha mais”, quando nunca tiveram intenção de lhe pagar.)

26 janeiro 2014

mais alguns apontamentos sobre a praxe

Cinco mitos em torno das praxes - Rui Bebiano.

A abjecção das praxes - Pacheco Pereira

A praxe não tem lugar num mundo civilizado - José Gomes André, um texto publicado já em 2007

Há abuso nas praxes? As praxes são o abuso. - Daniel Oliveira

A praxe é uma coisa muito estranha - reportagem de Fernanda Câncio no DN

Memórias incómodas e rasura do tempo: Movimentos estudantis e praxe académica no declínio do Estado Novo - Miguel Cardina

Adenda:

As praxes e o poder - Elísio Estanque

***

Sobre a praxe boa e a praxe má, resta-me acrescentar que os defensores da "praxe boa" me lembram - guardadas as devidas distâncias - aqueles alemães que, quando eram vítimas da prepotência dos da SS ou da Gestapo, protestavam: "se o Führer tivesse conhecimento disto, vocês estavam fritos!"


códigos de conduta para as bestas



Encontrei o que se segue no facebook, no mural de uma professora:

Amanhã vou começar as minhas aulas de 10º ano explicando aos alunos que eles são umas BESTAS que devem cumprir estes deveres:


a) Comparecer a todos os eventos organizados pela sua ILUSTRE PROFESSORA;
b) Ser moderado no uso da palavra, respondendo apenas quando interpelada;
c) Deverá ser servil, obediente e resignada;
d) A besta não tem opinião sobre a matéria;
e) A besta de modo curial terá que ser peremptória quanto á sua abstinência a actos
de onanismo e reflexos misóginos ou apandríacos;
f) A besta não ri, logo não mostra os dentes;
g) A besta não olha nos olhos;
h) A besta não fuma;
i) A besta terá que se manter sempre num plano inferior ao dos praxantes;
j) A besta mostrar-se-á sempre respeitosa para com a INSIGNE PERSONA, tanto
verbalmente como através da sua linguagem corporal;
k) A besta tem de ser solidária para com as outras bestas, acompanhando-as na praxe sempre que não esteja sob outra praxe;
l) A besta não reclama;
m) Se a besta não se encontrar em períodos lectivos, estará automaticamente convocada e sob praxe;
n) A besta nunca pode falar mais alto que um INSIGNE PERSONA;
o) A besta canaliza todo o seu potencial vocal para aclamar vorazmente o seu curso;
p) A besta suplica para ser mais praxada;
q) A besta não fala ao telemóvel, excepto com expressa autorização dos praxantes;
r) A besta deve zelar pelo bem-estar dos seus praxantes , disponibilizando-se sempre
para aumentar o seu conforto;
s) A besta nunca anda sozinha na rua;
t) A besta ocupa sempre o último lugar de uma fila;
u) A besta deverá cumprimentar respeitosamente todo e qualquer estudante universitário desta Instituição;
v) A besta é modesta e humilde;
w) A besta aproveita a sua ignorância para procurar conhecimento
x) A besta está familiarizada com os princípios de cavalheirismo e gentileza e pratica-
os;
y) A besta faz-se acompanhar de indumentária humilde e sem adornos;
z) A besta é conhecedora da hierarquia da praxe e do seu código.

Código da Praxe da Universidade do Algarve (aqui: http://www.aaualg.pt/images/stories/codigo_de_praxe_ualg.pdf)

MAS dir-lhes-ei que podem recusar:


Obtenção do Estatuto de Objector à Praxe
1. O Caloiro que deseje adoptar este estatuto deverá apresentar um pedido de desvinculação da Praxe ao Conselho de Veteranos.
2. Este documento deverá ter inscrito o nome, número mecanográfico e curso do Caloiro , estar assinado em conformidade com o Bilhete de Identidade e ser acompanhado de uma fotografia actualizada.
3. O Conselho de Veteranos convocará posteriormente os requerentes para uma reunião na qual os ditos exporão o seu caso particular.
4. Após deliberação, no caso de haver deferimento do pedido, o Conselho de Veteranos deverá munir o signatário com um “Decretus Desvinculatus”, no qual se atesta do estatuto do portador, bem como informar a Academia da nova condição do dito, por publicação em “Decretus ”, juntamente com uma fotografia do mesmo.
5. O desrespeito do Estatuto de Objector à Praxe, seja por parte do Objector, seja por parte de terceiros, implica procedimento por parte do Conselho de Veteranos. A pena sumária está prevista para os casos de flagrante delito.
6. O Estatuto de Objector à Praxe acompanhará o aluno ao qual foi conferido até ao dia em que o Criador decida chamá-lo à sua presença.

CONTUDO, alertá-los-ei para as consequências:


Artigo 2º - Ao Objector à Praxe Está Expressamente Proibido:
1. Praxar, assistir ou colaborar em qualquer forma de praxe.
2. Ser praxado.
3. Usar Traje Académico.
4. Participar activamente na Semana do Caloiro, nos Jogos Populares, na Semana Académica, na latada ou e no Cortejo Académico.
5. A desvinculação da Praxe é um acto único, final e irrevogável.

Código da Praxe a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (aqui:http://www.aautad.pt/doc/codigo_de_praxe.pdf)

Vai-me parecer que será uma aula muito instrutiva, produtiva e, espero, eficaz, quanto à clarificação dos valores que se aceitam, ou recusam, no que às praxes diz respeito.

(curiosamente, na página da wikipedia onde encontrei estes códigos, os links para as da universidade de coimbra e porto já não funcionam... podia ter feito busca por eles, mas não me apeteceu: são todas a mesma merda. elucidativa, tenebrosa, assustadora merda.)

Comentário posterior:
entretanto já googlei e descobri, 1, que a do porto é cópia da de coimbra, 2, que a de coimbra tem mais artigos que a constituição portuguesa.

contributos para um cadastro da praxe em Portugal

1. Encontrado num comentário no facebook do Público:


2001 - Diogo Macedo morre no decorrer de praxe violenta. Ergue-se muro de silêncio da parte do grupo responsável pela praxe, e a Lusíada de Famalicão é condenada pelo tribunal

2003 - Caloiros do Técnico simulam assalto a um banco da CGD em Oeiras

2008 - Caloira de 18 anos acusa aluno mais velho de a violar no "Enterro da Gata" na UM

2009 - Escola Agrária de Santarém - alunos condenados por barrarem cara de aluna com excrementos de porco.

2010- Caloiro de Turismo ferido em praxe acaba com tímpano furado

2012 - Caloira acaba no hospital de Beja depois de praxe com prognostico reservado 2007 - Caloiros agredidos em tribunal de praxe; foram-lhes rapados os pelos púbicos e um deles acaba com o escroto rasgado, na Universidade de Coimbra

2012 - Conselho de Veteranos de Coimbra suspende oito estudantes por causa de praxes//Praxe suspensa em Coimbra após agressão a duas alunas que se recusam participar da praxe

Até quando Sr Presidente?
Até quando AR? Até quando Conselho de Reitores?
Até quando Direcções Académicas?
Chega. Definam regras claras, uniformes, dialogadas, escrutinadas, verificáveis. Definam penalizações académicas e cíveis para condutas impróprias. Defendam e legislem sobre a privacidade e a livre escolha dos estudantes.



2. Encontrado num texto de opinião de Jorge Fiel, no Jornal de Notícias:

O aluno [Diogo Macedo] da Lusíada de Famalicão que morreu por ter levado uma pancada na cabeça quando fazia flexões; a estudante de Gestão do Politécnico de Beja que morreu na sequência de uma paragem cardiorrespiratória que sofreu quando estava a ser praxada; o aluno da Escola Superior Agrária de Coimbra que ficou paraplégico por ter sido lançado de cabeça para baixo num escorrega; para que estas e outras vítimas das praxes (...) não sejam esquecidas, é preciso que políticos e autoridades académicas ponham um ponto final a este anacronismo estúpido.


praxe e totalitarismo



(foto)

Recupero parte do post que publiquei há dias (the third wave), e acrescento algumas perguntas:

Em 1967, numa High School de Palo Alto, o professor Ron Jones fez uma experiência com os seus estudantes, para lhes explicar como foi possível a população alemã ter embarcado no desvario nazi. Traduzo da wikipedia alemã: o professor criou um "movimento" dirigido por ele de forma totalitária, baseado numa disciplina de ferro e punição de todas as infracções às regras. O sentimento de comunidade entusiasmou os alunos, e atraiu até alunos de outras turmas. Jones reconheceu mais tarde que a obediência cega dos alunos lhe deu um prazer especial. Para quebrar a dinâmica própria que a experiência estava a desenvolver, terminou tudo ao quinto dia, e mostrou aos alunos os paralelos que havia entre esse "movimento" e as organizações de juventude nazis.
Mais tarde, Jones escreveu um livro relatando a sua experiência, a que chamou The third wave.

Bem sei que à lei de Godwin se devia acrescentar uma segunda: quando, na internet, alguém diz "nazi", essa afirmação é desvalorizada com a chacota "pronto, lá vem este outra vez com o Godwin!".  Mesmo sabendo isso, arrisco: quanto há de semente de totalitarismo nas praxes académicas que deixamos acontecer em Portugal?

- Uniformes: check.
- Disciplina e obediência: check.
- Exagerado espírito de comunidade que entorpece a ética e a consciência da própria dignidade: check.
- Orgulho de pertencer a essa comunidade: check.

Que mais é preciso? Quais são as diferenças entre o que acontece na praxe e as organizações de carácter totalitário? Dizer-se que não servem um regime político ditatorial chega a ser desculpa?


praxe e mocidade portuguesa: descubra as diferenças




1.
Na mocidade portuguesa, o chefe assumia as consequências das ordens que dava.
Na praxe, alguns praxados assinam um termo de responsabilidade para assumir as consequências do que possa acontecer quando estiverem a obedecer às ordens do chefe. (v. investigação da Ana Leal na tvi)


2.
Na mocidade portuguesa, tentava-se incutir na mocidade o espírito de sacrifício, de disciplina, de hierarquia e de devoção patriótica.
Na praxe, não há lugar para a devoção patriótica, vá lá, ao menos isso.


3.
A mocidade portuguesa era sujeita a uma preparação baseada em fórmulas inspiradas na orgânica militar, de modo a educar os jovens na admiração das virtudes militares e dar-lhes as condições de resistência física como as de resistência moral para poderem ser bons soldados sempre que a Pátria precise de utilizá-los nesta nobre função.
Os praxados são sujeitos a fórmulas inspiradas na orgânica militar, de modo a... ? de modo a quê?!


4. Hinos

Hino da mocidade portuguesa (lá vamos, cantando e rindo, etc., pátria! serás celebrada, e por nós serás erguida, erguida ao alto da Vida!)

Músicas da praxe, exemplos encontrados na net (nós somos melhores que os outros, tralali, nós montamos as moças melhores que os outros, tralali, os outros são todos maricas, e nós é que temos de nos dar ao trabalho de montar as moças deles, tralala)


5.
(continuem vocês)


praxe - alguns aspectos jurídicos

De Sofia Vieira, no Controversa Maresia



portugal é triste

por Vieira do Mar, em 25.01.14
As praxes são uma merda, uma bosta asquerosa. Deviam ser TODAS proibidas; mesmo as praxes "giras", "consentidas" pelos caloiros. Porque a maioria dos caloiros não "consente" nada, nem sabe o que isso seja. Os caloiros são muitas vezes miúdos que vêm da santa terrinha para Lisboa e outras "cidades grandes", sentindo-se de parte nenhuma. O seu maior desejo é arranjar "amigos", enturmar-se com os futuros colegas e fazer parte de qualquer coisa, por forma a sentir-se seguros e, já agora, a arranjar uns testes copiados ou já feitos pelos mais velhos, que os tomam sob a sua "protecção".
Nem todos  os praxados são fracos de espírito ou vêm das berças, e há sempre quem goste de apanhar, mas o seu dito "consenso" acaba por ser um pouco irrelevante: como é irrelevante que um ucraniano de dois metros e cem quilos ou um português enfezado sejam apanhados a conduzir com 1,50 de álcool por litro no sangue e o efeito seja muito mais inabilitante (e portanto, perigoso de facto) no segundo que no primeiro: ambos cometem exactamente o mesmo crime e apanham com a mesma lei na lombeira. 
As praxes deviam ser encaradas pela Lei como aquilo que geralmente são: um negócio de gente burra e estúpida que não acaba o curso nem que  bebesse toda a matéria por uma palinha; gente maldosa, inconsciente ou mesmo psicopata; manipuladora e socialmente inútil,  que faz a terceiros coisas humilhantes, traumatizantes, muitas vezes dolorosas e, por vezes, fatais. Isto tudo em nome de uma "troca" abjecta: a aceitação social pelo grupelho estudantil de quem se encontra numa posição "inferior", fruto da chegada ao desconhecido.
Ah pois e não sei quê, eu quando entrei para o curso de remador em banheiras fui muito bem tratado, a praxe foi gira, levaram-nos a conhecer as instalações e a cidade, fizemos piqueniques nas salas de aula, o meu protector ajudou-me imenso... Isto, meus amigos, não é PRAXE: é a maneira NORMAL como todos os estabelecimentos de ensino superior deveriam receber os seus caloiros e integrá-los nas suas hostes, nada mais. De forma não humilhante, porreira, instrutiva, com uma malandrice inóqua aqui e ali que reforça os laços entre todos. Praxe é o distorcer de um qualquer ritual cujas origens já se perderam, onde é dado de mão beijada a anormais o poder de   chatear, humilhar e magoar terceiros.
Ora, da última vez que eu vi no Código Penal, isto era crime. Mas a questão das praxes é juridicamente lixada, à conta do suposto "consentimento" do praxado, que pode ser expresso ou implícito, livre ou forçado, proveniente de chantagem, coerção, coacção, da pressão social, da falta de auto-estima, da cobardia, da inconsciência, ingenuidade ou mesmo da própria sua própria taradice.
O fenómeno das praxes obriga obviamente  a uma Lei Especial. Como quando foi cá o Europeu e se fez a Lei sobre os comportamentos anti-desportivos, como invasão de estádios, instigação à violência colectiva, etc. Porque são situações muito específicas para as quais o Código Penal, a lei geral, é manifestamente insuficiente.
Aqui passa-se o mesmo. Em primeiro lugar, legislar com muito cuidade sobre o alegado "consentimento" (que, no Código Penal, pode afastar a punição do crime). Particularizar esta cena, já! Individualizar as situações que podem funcionar como forma de "pressão" que insta os caloiros a alinhar e a consentir em práticas que os prejudiquem, sob qualquer forma. Que situações? Fácil: promessas ilegais de sucesso escolar, ameaças de qualquer espécie, chantagem, coacção, coerção, instigação. E quaisquer situações equivalentes, de natureza física ou psicológica, nos quais a vítima veja a sua liberdade de determinação diminuída (conceito já existente e muito aplicável em processo crime).  
Depois, era tudo corrido a eito,  TODOS responsabilizados: duxs, meios duxs, aspirantes a duxs, trolls, ogres e duendes, bem como as faculdades (muito importante) que permitissem este tipo de actividades nas suas instalações ou que delas tivessem conhecimento mesmo que noutros lugares (a participação às autoridades tornar-se-ia obrigatória).
Deixariam de ser permitidas associações, reuniões, manifestações relacionadas com praxes, ilegais como as dos cabrões dos nazis cabeças rapadas (e não me venham com a merda do direito à liberdade de expressão e de associação que espeto-vos já na tromba com seis mortos no meco, ao mesmo tempo que podem enfiar a Constituição pelo dito acima, para uma melhor sensação). Qualquer manifestação pública de humilhação idiota, mesmo que consentida (lá está), como aquelas que vejo durante meses (meses?!) nos jardins do Campo Grande, como prostações, elevações, calhamaços nos braços, orelhas de burro, gritos de guerra et all, punida como crime público, para não obrigar a queixas por parte dos praxados, caso em que estariam obviamente fodidos para a vida, que esta gentalha não brinca em serviço e anda há muitos anos a virar frangos.
Criar uma task force especial, pelo menos nos primeiros tempos, que deverá incluir polícia, MP, psicólogos e o caralhinho mais que for preciso, para garantir o conhecimento da nova lei por parte das bestas e das suas potenciais vítimas, bem como a efectiva entrega à Justiça das primeiras. O objectivo: acagaçar os que têm como modo de vida acagaçar os outros. Porque neste momento, como se vê, é uma palhaçada: ora é amnésia selectiva, ora para a semana vai contar tudo, ora a faculdade não fala, ninguém fala, há pactos de silêncio. Pactos de silêncio?! Mas isto é a Omertá, foda-se?!
Isto leva-me a pensar em escumalha que se sente acima da Lei, e se calhar com razão. Da Lusófona ( e já mais em concreto) não sai nada de bom, sempre na crista dos media pelas piores razões. Não pode ser coincidência. Sei que a promiscuidade de poderes neste caso é eufemismo.  Reitores, ministros, muito dinheiro a passar de mãos, basta olhar para o quadro geral. E estas coisas estão todas ligadas.
Processo administrativo? Tudo começou como um processo administrativo. Seis miúdos estão à noite numa praia e são "levados" por uma onda, como se a culpa fosse da onda. Só mais tarde acordam as consciências para a suspeita de crime. Vários crimes possíveis, aliás, para quem está dentro da matéria, acredito que negligentes. Mas crimes. Tardou a conversão em processo crime, nem que por dois dias, tardou, é uma questão de bom senso. Desde a primeira notícia que se torna óbvio que houve ali, pelo menos, negligência(s) que conduziram a seis mortes.
As mesmas suspeitas que já levaram outras situações de "praxe", algumas com consequências mortais (sim, já morreram mais miúdos por causa desta anormalidade, ao longo dos últimos anos), a outros processos crime, embora que eu saiba sem resultados relevantes. Como disse, o alegado "consentimento" das vítimas é um calhau na engrenagem legal, mete muito de psicológico e de circunstancial, e o nosso cérebro é um labrinto lixado de percorrer.
Embora acredite que, depois desta tragédia aberrante, alguma coisa vai ter de mudar. Na Lei. Porque já se percebeu que, com a que temos agora, e ao contrário do dux sobrevivente, esta questão concreta vai morrer na praia. Cada um dos intervenientes diz, contradiz-se, cala-se e, basicamente, faz o que quer para safar o coiro. E tudo lhes será permitido, é o trauma, é o trauma, e são os direitos civis. Os psicólogos e psiquiatras, com a ajuda dos media, vão ser as estrelas da companhia. A verdade do que aconteceu tornar-se-á secundária. Os pais dos miúdos, quebrados pela dor, vão acabar por ceder,  ou tornar-se numa espécie de "mães do rui pedro", de quem todos têm pena mas cuja fé não partilham.
Este caso, pelo andar da carruagem e com a conivência de todos os que nela circulam, não tem grandes hipóteses.  Há demasiados recursos legais à mão de muito bons advogados, que não vão rejeitar mais umas horas de fama. As responsabilidades diluir-se-ão no barulho das luzes. Era preciso gente com poder e com tomates para agarrar nesta tragédia como exemplo e dar a volta ao prego.  Ok, ok, estamos em Portugal, por momentos, esqueci-me.  Mais vale dar a tragédia como suicídio colectivo e arquivar já os autos. E, com uns recursozitos, fazer-se jurisprudência e ficar-se logo com uma minuta para casos futuros.
Infelizmente, em poucos anos, o mais provável é termos apenas mais uma desgraça remota a acrescentar aos anais da nossa história de porteiras, legisladores, e políticos cobardolas, que convivem alegramente com a sua própria "amnésia selectiva".
Portugal é triste.

Adenda: ainda não vi a famosa reportagem que deu na tevê.