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09 julho 2018

mundial de futebol, dia 8


MF 2018 Dia 8

O Mundial de Futebol está a ser objecto de uma cobertura altamente politizada em todo o mundo (excepto talvez na Alemanha), e o jogador que aparece na primeira página é sempre o mesmo. Na Rússia entrevistam frequentemente barmen e empregados de restaurantes, e estes contam que os fãs de futebol comem extraordinariamente pouco, mas em compensação bebem muito - sobretudo cerveja. Entre os que mais bebem contam-se tunisinos, sauditas e marroquinos.


08 julho 2018

mundial de futebol, dia 7


MF 2018 Dia 7

Depois da visita da equipa do Egipto ao hospitaleiro soberano da República da Tchetchénia, o jogo contra a Rússia começou com um golo egípcio na própria baliza. Uma vitória certa para os anfitreães. Os russos festejam, e cidadãos alemães preocupados apregoam aos quatro cantos do mundo e até Moscovo a sua frustração por não terem no seu país uma ditadura capaz, como se quisessem dizer "Oh, tu, sombrio estandarte do mal, vem tomar-nos!"

07 julho 2018

mundial de futebol, dia 6



MF 2018 Dia 6

A maravilhosa transformação da Polícia russa não me deixa em paz. Dantes, bastava um olhar torto, e nem sequer falo de um toque involuntário, para uma pessoa ser espancada, arrastada e condenada a pena de prisão. Agora, até os membros da Guarda Nacional sorriem, como se fossem pessoas iguais a nós. Dizem "Can i help you". Será que vão continuar assim depois do Mundial de Futebol? Talvez, se os russos jogarem hoje tão bem contra os egípcios como jogaram contra os sauditas. O futebol empresta ao putinismo um rosto humano. Definitivamente, vou ver este jogo.  


06 julho 2018

mundial de futebol, dia 5

Bem sei que o dia 5 já foi há duas semanas, mas prometi traduzir toda a série "mundial de futebol na Rússia", do Wladimir Kaminer, e retomo-a no ponto onde a deixei. Cá vamos nós.

MF 2018 Dia 5

Um dos culpados da derrota da Alemanha, que aconteceu ontem, é o ministro do Interior (Horst) Seehofer. Entre os seus deveres contam-se a manutenção da paz pública, a ordem e a segurança. Tudo isso faltou à equipa alemã, quando os jogadores tentavam acompanhar a bola de forma ordeira e esforçada. Os caóticos mexicanos, que andavam de um lado para o outro em desordem total, deram-lhes muito trabalho. H. Seehofer tinha recebido das mãos da chanceler os bilhetes para o mundial de futebol, com instruções claras para apoiar a equipa nacional. Ele ignorou as ordens, não foi, e anda agora a abalar o governo eleito com tanto esforço. Exijo uma comissão parlamentar para investigar as suas qualificações.


17 junho 2018

mundial de futebol, dia 4


Desta vez, o texto da série de Wladimir Kaminer sobre o mundial de futebol não está no seu blogue. Foi publicado apenas no facebook, e diz isto:


MF 2018 Dia 4

Já antes do Mundial de Futebol havia rumores sobre os habitantes de Rostov, no Sul da Rússia, serem de certo modo intolerantes e terem má vontade em relação aos homossexuais. É só boatos, nada disso é verdade. O Brasil joga hoje em Rostov contra a Suíça, e as pessoas da cidade estão fora de si de tão excitadas, tanto crianças como adultos estão colados às janelas ou nas suas varandas e acenam efusivamente aos convidados estrangeiros, e acenam e acenam e acenam... Mas não vão ver o jogo. E porque não? Porque estes habitantes de Rostov não são autênticos. Aqui recorreu-se a um método de restauração que já deu comprovadas garantias noutros tempos: em vez de arranjar a fachada antiga, usou-se uma tela pintada de fresco para a esconder. Deste modo, a cidade conseguiu duas cajadadas com um coelho: poupou dinheiro e criou cidadãos simpáticos e tolerantes.
 
 
[NT: A expressão idiomática alemã usada no trocadilho da última frase refere "mosca" em vez de "coelho": matar duas moscas com uma palmada.]



mundial de futebol, dia 3

Do blogue de Wladimir Kaminer:




A República Autónoma da Mordóvia é conhecida pelos seus inúmeros campos e prisões, e não é um lugar para onde as pessoas viajem voluntariamente. Muitos dos russos que ainda não têm antecedentes criminais não fazem a menor ideia sobre onde fica Saransk, e os estrangeiros muito  menos.
O comediante francês Gerard Depardieu, conhecido pela arte de bem beber, que foi obrigado a abandonar o seu país devido a fuga aos impostos, foi a primeira personalidade de vulto a visitar Saransk como turista. Foi recebido na Mordóvia com pompa, e a direcção da República ofereceu-lhe logo o cargo de ministro da Cultura, com residência oficial e uma brigada de guardas pessoais, mas ele recusou simpaticamente a oferta e retirou-se de novo para a França. As más-línguas dizem que Gerard Depardieu ficou tão impressionado com aquela viagem que logo à chegada a França cuidou de pagar antecipadamente todos os seus impostos e deixou de beber para não ter de regressar à Mordóvia. Hoje a cidade está cheia de dinamarqueses e peruanos, a Dinamarca joga contra o Peru.

16 junho 2018

mundial de futebol, dia 2 - oiê oiê oiê

[O Wladimir Kaminer a queimar os neurónios do Speedy Gonzalez logo pela manhã: o título do dia 1 foi "ole ole ole", e o do dia 2 "oje oje oje". Pergunto-me o que inventará para os dias 3, 4 e seguintes, e se é um erro fatal traduzir "oje oje oje" pelo mais português "ai ai ai"]  [por estas e por outras é que tradutores literários ganhavam mais se trabalhassem no McDonald's] [mas se calhar não tinham tanto prazer] [e no fim da tradução literária não se vai para casa com a pele e o cabelo a cheirar a fritos] [excepto os neurónios do Speedy Gonzalez]

Como ia dizendo, aqui está o post do Wladimir Kaminer sobre o dia 2:



MF dia 2 ai ai ai

Em São Petersburgo, o presidente da Câmara foi recentemente obrigado a mudar a sua sede para o estaleiro do estádio Arena Zenit - com vistas permanentes para as escavações onde, a velocidade relâmpago, se enterraram milhares de milhões sem resultados visíveis. Apesar de todos os esforços, o trabalho não avançava, o novo telhado do estádio estragou-se ainda antes de terminar a montagem. Os culpados foram rapidamente descobertos: os pelicanos teriam feito tamanha cagada no telhado que este caiu. Consta que os malvados pelicanos se sentem atraídos pelo futebol. Desde então, há uma nova frase idiomática na Rússia: "Não olhes para mim como um pelicano do futebol". Hoje, neste estádio, o Irão ganhou 1:0 contra Marrocos, os pelicanos aguentaram-se, o telhado também. 


15 junho 2018

mundial de futebol, dia 1 - olé olé olé

(Desconfio que o Wladimir Kaminer vai acompanhar o Mundial de Futebol diariamente no seu blogue. Para que não vos falte nada, aqui vai a tradução do post do dia 14.6.18)


Os polícias de Moscovo têm andado de olhos esbugalhados, e fartam-se de suar. Nas instruções que receberam para si próprios e para os seus cães está escrito preto no branco que devem sorrir simpaticamente aos estrangeiros e dizer "Walkam to Rascha". À sua frente há argentinos, árabes, peruanos a dançar no meio da rua sem mais nem menos, os moscovitas filmam esta insubordinação com os seus telemóveis e em breve pode até ocorrer-lhes que também eles podem dançar assim sem mais nem menos no meio da rua. E que diz a polícia? "Walkam tu Rascha".
Vitória de 5:0 contra a Arábia Saudita! Na realidade, o combinado era 3:1, e a contrapartida russa era deixar de enviar defesa aérea para o Iémen, mas no final foi 5:0. A uma situação deste género, os negociadores chamam "protagonismo excessivo". Os sauditas esforçaram-se simplesmente demasiado.

14 junho 2018

a bola é redonda

Do blogue de Wladimir Kaminer:
A propósito do Mundial de Futebol, a Lufthansa fez um filme publicitário sobre a hospitalidade e a natureza cosmopolita do país anfitrião, mas o filme foi filmado em Kiev, que é a capital da Ucrânia. Não conseguiram autorização para filmar em Moscovo, desculpou-se o assessor de imprensa. Os outros jornalistas também se queixam de que na Rússia, de momento, é simplesmente impossível obter permissão seja para o que for, porque o presidente decidiu que a segurança do Mundial de Futebol tem de ser gerida ao mais alto nível, se pudesse tratava ele pessoalmente de tudo, e isto no país com maior número de polícias em percentagem da população. Os polícias fartam-se de suar, apesar de quase não haver sol. Não têm dúvidas de que, se algo correr mal, vão ficar a conhecer o jogo de futebol pela perspectiva da bola. O Mundial de Futebol tem de ser um sucesso, tudo foi preparado para esse fim: as fachadas das casas foram pintadas de fresco, os cães vadios e os críticos do regime foram momentaneamente tirados de circulação, as árvores de plástico foram aspergidas com desodorizante. Agentes da ordem disfarçados de adeptos simpáticos foram posicionados nos lugares previstos no estádio, onde entoarão em coro textos politicamente correctos aprovados pelas autoridades competentes. A equipa aprendeu o hino nacional de cor! O único problema é a bola, que se deixa chutar por todos e umas vezes rola para a esquerda, outras para a direita. Se a bola fosse quadrada, seria possível - depois de consultar as autoridades competentes - posicioná-la no lugar previsto na baliza do adversário, e assim mostrar ao mundo inteiro que a Rússia é um país de futebol com muita estabilidade e segurança. Mas a bola é redonda. 




18 janeiro 2018

Kafka na Rússia

Traduzo do blogue de Wladimir Kaminer:

Talvez afinal nem tudo fosse mau na RDA - a discussão não tem fim. Até amigos dos meus filhos, que nunca estiveram na RDA, ouviram os pais dizer que dantes havia mais justiça social e mais solidariedade. Faltavam outras coisas sem importância, mas ninguém lhes sentiu a falta. No meu país discute-se ainda mais acesamente sobre o passado soviético. Nós fomos ao espaço e lutámos pela paz mundial, dizem uns. Não havia fraldas descartáveis, nem iogurtes, nem Kafka, rebatem os outros.

Bom, em vez de iogurtes era possível comprar latas de leite condensado açucarado e pô-las a cozer no fogão durante duas horas, até o leite se transformar numa pasta acastanhada que os miúdos adoravam. Às vezes a lata explodia, e era preciso pintar a cozinha de novo. Sobre as fraldas descartáveis não há consenso nem sequer no Ocidente, diz-se que sem elas as crianças tornam-se mais rapidamente seres adultos e disciplinados. Com Kafka é que as coisas foram mais complicadas. Ele não entendeu a dialéctica marxista e não identificou as verdadeiras contradições do capitalismo, o que explica a sua visão sombria - opinavam os nossos ideólogos. Grandes autores do Ocidente, Gabriel Garcia Marquez, Jean Paul Sartre e Heinrich Böll, admiravam-se por Kafka não estar traduzido para russo. O seu momento chegou no fim dos anos sessenta, já havia um livro no prelo, mas de repente os tanques soviéticos avançaram na direcção de Praga e a edição foi liquidada. Só com Gorbatschow é que Kafka apareceu em russo, juntamente com iogurtes e fraldas descartáveis, e estragou os cidadãos.  Hoje em dia, o governo tenta meter a marcha à ré, mas não a encontra. Enfim, os iogurtes podem ser devolvidos, e de qualquer modo não há consenso sobre as fraldas descartáveis. Mas como conseguir tirar Kafka da cabeça das pessoas, isso é que o governo não sabe.


Um blogue, já se sabe, é uma sequência de pequenos textos. Agarrem-me, que li o que estava a seguir a este e apeteceu-me também traduzir, e mais o terceiro e mais o quarto...

Traduzo apenas mais este (e dedico esta tradução ao Trump, que acabou de anunciar os Fake News Awards de 2017):


A destruição dos media russos críticos do poder foi uma das guerras em que o presidente maior sucesso teve. As pessoas não se devem irritar desnecessariamente, em vez disso devem concentrar-se naquilo que é realmente importante na vida. Hoje em dia, é este o aspecto do quiosque de jornais russo: flores, gatos, Putin.


19 dezembro 2017

Vila Feliz




Glüklitz é o nome que Wladimir Kaminer inventou para a aldeia perto de Berlim onde tem a casa com jardim que comprou depois de ter sido expulso do seu talhão de agricultura urbana devido a, como ele diz com ar de gozo, "vegetação espontânea". Poder-se-ia traduzir "Glüklitz" para "Vila Feliz", ou algo do género, e no domingo passado percebi porquê.
Começa com o caminho: cheguei tardíssimo, porque estava encantada com o pôr-do-sol sobre a planície alagada, e a cada 100 metros parava o carro para tirar fotografias.

Quase a entrar na aldeia, olhei para a esquerda e vi três pássaros enormes, que não sabia identificar. Parei o carro e fotografei-os, muito satisfeita por não terem fugido logo. Depois olhei para a esquerda, e vi que havia milhares de pássaros iguais naquele campo - não se vê bem na fotografia mas, podem crer, eram milhares.



Quando finalmente cheguei a "Vila Feliz", perguntaram-me: "Viste os grous? Dizem que são mais de setenta mil! Estão a habituar-se a ficar aqui no inverno, porque já não é tão frio como antigamente. O problema é que se um ano destes vier um inverno realmente severo, já não haverá grou nenhum que tenha aprendido o caminho para o sul com os grous mais antigos. Vão morrer todos!"

 


Em "Vila Feliz", no Advento, os vizinhos encontram-se nos quintais uns dos outros, de volta de uma fogueira com uma caneca de vinho quente na mão.
Este ano estavam a queixar-se que o calendário lhes roubou a possibilidade de mais um encontro, porque o último fim-de-semana de Advento coincide com o Natal. Ao fim de umas horas na conversa com eles, de volta da fogueira (e do meu chá, porque tinha de levar o carro de volta para casa), bem lhes percebi a tristeza: há algo de único nestes encontros tão simples e amáveis. E é em momentos assim que entrevejo o que havia de realmente positivo na RDA: laços humanos que não precisavam de grande logística, consumo e ostentação, para se afirmarem e reforçarem.

Um pouco mais tarde, à mesa da cozinha, um casal amigo dos Kaminer começou a contar:

"Nós os dois éramos tratadores de animais num zoológico. Um dia, tivemos de fazer uma cesariana a uma leoa, e ela rejeitou as crias. Três leoazinhas. O director do zoológico perguntou-me se a minha mulher podia criá-las, já que estava em casa em licença de maternidade. Ela aceitou, e eu levei as três bichinhas num cesto de vime com tampa para o nosso apartamento, que era num prédio de dez andares. Fizemos-lhes umas papas com leite e aveia, que elas comeram avidamente. Mas não saía nada pelo outro lado. Ao fim de três dias, deixaram de comer. Arranjámos um tubo ligado a uma seringa, e metemos-lhes parafina pelo lado de baixo do tubo digestivo, não sei se me está a entender. Depois fomos dormir, mas às quatro da manhã acordámos com um cheiro estranho. Olhámos para o cesto, e vimos uma massa castanha a sair por todos os interstícios. Abrimos a tampa, e demos com um espectáculo miserável: as leoas também estavam castanhas. Só se lhes viam os olhinhos.
Metemo-las na banheira - no nosso prédio já havia esses luxos de banheira e água quente - e usámos um champô para bebé que uns amigos da Alemanha Ocidental nos tinham oferecido. Ficaram um espectáculo! O pelo muito encaracoladinho, pareciam caniches.
Passados uns dias o guarda do prédio tocou-nos à campainha. Disse que os vizinhos se tinham queixado de ouvir barulhos esquisitos na nossa casa, e queria saber o que se passava. Eu disse-lhe "conto-te a ti, mas não contas a mais ninguém, ouviste?" - e mostrei-lhe as leoas pequeninas. No dia seguinte tínhamos uma fila interminável de vizinhos à porta, que também queriam ver. "Eu só disse a uma pessoa!", defendeu-se o guarda.
A nossa filha tinha um ano, estava na fase de gatinhar. Não dizia nem mamã nem papá, mas seguia as leoas para todo o lado, e quando uma delas rugia a nossa filha rugia igual.
Tivemos de as mandar embora ao fim de onze semanas, quando as garras começaram a crescer."

Em suma: no domingo passado jantei com os pais da Mogli da RDA.
E lembrei-me de novo de uma pergunta que um entrevistador da RTP fez ao Kaminer, em Lisboa: "o senhor inventa as histórias surreais que escreve?"
Não. Não inventa. Limita-se a organizar uma fogueira e um vinho quente para os vizinhos, e a ouvir as histórias que estes contam.

O que me lembra mais uma história divertida que ouvi a outro amigo dos Kaminer: "na aldeia da minha irmã havia uma empresa de escavadoras que foi à falência. Alguém comprou o parque industrial da empresa e fez nele um parque de diversões. Por um euro, os homens que em criança sonhavam ser condutores de escavadora podem realizar o seu sonho. Vão para lá aos fins-de-semana, levam a família, e andam felizes como putos pequenos a escolher a escavadora que vão conduzir e a areia que vão mover de um lado para o outro, sob o olhar aprovador da sua mulher."

13 dezembro 2017

vai à lua ver se chove



Já não há respeitinho (1)

Ontem, o noticiário ARD da noite falou do projecto trumpiano de ir à lua e mais além. A notícia veio já no final do programa, e a passagem para a seguinte foi feita assim: "Pode ser que este projecto seja um grande passo para Trump, mas para as pessoas de quem vamos falar a seguir não é mais que uma saída para ir comprar cigarros no quiosque da esquina. O novo Star Wars..."



Já não há respeitinho (2)

Wladimir Kaminer, sobre o mesmo tema:

Trump acendeu uma centelha de esperança: "Vamos conquistar o espaço, os nossos melhores homens voarão de novo até à lua." A verdade é que qualquer criança sabe quem é o melhor homem da América, o mais bonito, o mais corajoso e o mais esperto. No entanto, não tenho grandes esperanças de que ele resolva hoje mesmo pentear o seu toucado de esquilo morto e zarpar para a Lua a toda a velocidade.


["esquilo morto"! nunca mais vou conseguir olhar para o Trump da mesma maneira ]