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26 abril 2020

"quiche"

A cena que vou contar passou-se em Weimar, no coração da Turíngia, uns 15 anos depois da reunificação. Nessa época, a maior parte das pessoas falava russo como segunda língua, e ia tentando fazer o seu caminho entre o sistema em que se socializara, e o sistema forasteiro que se viera impor às suas vidas.

O liceu da minha filha usava uma forte componente de francês para afirmar a sua diferença no panorama escolar da cidade, e por isso atraía muitas famílias vindas da parte ocidental da Alemanha. As reuniões de pais eram muitas vezes momentos de confronto de paradigma - que eu, portuguesa, observava como se não fosse nada comigo.

Numa dessas reuniões falava-se das propostas que vários pais tinham feito para as comidas a servir numa festa escolar. A directora de turma juntara as propostas numa lista, que íamos lendo e discutindo.

Perante a oferta de levar uma #quiche, feita por uma família de Frankfurt, uma mulher de Weimar perguntava completamente desorientada:

- Kvitxe? Que é isto?

Ela lera a palavra francesa segundo as regras do alemão: "u" a seguir a "q" lê-se como "v". E, obviamente, não fazia a menor ideia da língua original da palavra, e do seu significado.

Uns dias mais tarde a pessoa que fizera a proposta de levar uma quiche comentava comigo aquele momento. Ria-se imenso com o sucedido, especialmente porque "kvitxe" lembra "quietschen" (chiar).

A confusão tinha graça, mas eu não devia ter rido com ela. Muitas das dificuldades que existem actualmente na Alemanha nasceram de atitudes como essa, do sentimento de superioridade de alguns perante quem não conhecia algo normal na Alemanha Ocidental, sem se darem conta de que essas pessoas não eram ignorantes - simplesmente sabiam outras coisas, conheciam outros mundos.


09 janeiro 2020

"usado"

Post que publiquei no dia em que a palavra mágica da Enciclopédia Ilustrada (o melhor grupo que conheço no facebook) foi "usado":

Já muito se falou de roupa #usada por aqui, e eu bem podia ficar caladinha em vez de vir fazer confissões que me envergonham, mas não sei que me parece ficar muda perante uma palavra tão jeitosa para contar histórias.

Na Alemanha, é normal as mães venderem a roupa usada dos seus filhos. Especialmente no sul da Alemanha, onde vivi quando os meus eram pequeninos, era um grande negócio: as crianças andavam sempre vestidas como se fossem para um casamento (vá, um casamento de alemães...) mas a roupa só era cara na primeira e na segunda vez - depois, ficava a preços muito acessíveis.

Entrei nesse negócio pela mão de uma amiga que comprava novo por metade do preço porque trabalhava numa loja de roupa de criança. Quando deixava de servir à filha dela, vendia-me a mim. E depois eu vendia na minha cidade, que tinha todos os defeitos das cidades ricas de província, e as mães vinham parar à minha mesa como moscas ao mel. Aliás: nessa cidade, ali para os anos 90, os parques infantis mostravam um espectáculo muito curioso: as crianças vestidas com todo o aprumo, e as mães extremamente descuidadas, tipo leggings e t-shirt XXL. Nunca percebi aquela fixação e aquele brio extremo na aparência dos miúdos a par do desleixo total na sua própria imagem.

E então as confissões que te envergonham?, perguntarão.
Ai...

O primeiro problema é que é um bocado parvo olhar para a roupa dos filhos como capital. Se eles faziam um buraco nas calças Joop, ou Armani, ou assim, eu ficava sem poder realizar os, sei lá, 15 euros que idealizara ao comprá-las, usadas, por 20.

O outro problema foi quando mudei para Weimar e comecei a organizar na escola dos miúdos uns bazares para vender a roupa de criança usada. Cada mesa custava 5 euros e um bolo. A associação de pais vendia os bolos com café ou sumos, o dinheiro ia para a escola, e as mães ganhavam algum para comprar a roupa do tamanho seguinte. Parece bem, mas esqueci-me que estava na antiga "Alemanha comunista". Lá, a roupa de criança não era importante, e quando deixava de servir era dada a outra família qualquer. Rebentei com o sistema solidário que eles tinham. E protestava com as mães que faziam os preços dos bolos, porque os vendiam a preços irrisórios. Eu insistia para que vendessem a um preço mais alto, porque aqueles preços não pagavam nem os ingredientes, e elas respondiam: "mas a nós não custou nada!"

Pois é, estive na linha da frente da luta entre o capitalismo e o socialismo, e estava do lado do... gulp, deixem lá, esqueçam. Tem estado muito frio aqui. No fim-de-semana nevou, e agora as ruas estão cobertas com uns 10 cm de neve. Por enquanto ainda está fofa. Só é pena não ter havido sol.
E aí, como tem estado o tempo?

13 novembro 2014

heimat




Ai, que me está a dar a Ostalgie!

Conheci esta canção no Good bye Lenine. A minha vizinha em Weimar cantava-ma, a pedido. Belos tempos, quando os pais da turma da Christina, na escola primária, se juntavam em magustos e piqueniques. Um deles levava o piano eléctrico - era professor de música (bom, naquela escola metade dos pais eram músicos, e a outra metade eram arquitectos, e mais um par de estrangeiros como eu e mais um par de pessoas com roupas estranhas e ar de poucos amigos para os estrangeiros, que se calhar eram neonazis, ou assim). Pois, um deles levava o piano eléctrico, e acompanhava a minha vizinha, que sabia de cor todas as canções de todas as Alemanhas, e mais um bom par de canções russas ("aaaah, a alma rrrrussa", suspirávamos todos). As nossas filhas davam-se cotoveladas, um bocadinho incomodadas com estas mães que as embaraçavam. Depois comíamos o bom gulash húngaro que a minha vizinha fazia num caldeirão pendurado em paus por cima da fogueira. Bons tempos. Quase diria que foi minha, essa Heimat.


16 maio 2013

ainda Weimar




No domingo de manhã estacionámos os carros junto a esta escultura (pareceu-nos um guarda muito atento) e fomos visitar a Römisches Haus - a residência de Verão do Grão-Duque, em parte desenhada por Goethe. Numa das suas viagens a Itália andou a juntar ideias para uma casinha catita, e o resultado foi este pastiche anacrónico (bem, naquele tempo não se chamava anacrónico, chamava-se classicista), no topo de um canyon,


com uma fantástica vista para o parque,





ainda que um pouco distorcida.

(foto de cjs, estimado leitor deste blogue)

Continuámos a maratona cultural. Weimar precisa de uns bons três ou quatro dias, mas nós tínhamos apenas o fim-de-semana. O Palácio - com uma bela colecção de Cranach, outra de arte sacra medieval,  o gabinete de curiosidades, uma pinacoteca espalhada pelos salões magníficos, e ainda peças do enxoval da Maria Pawlowna, filha do czar, que me fez pensar na ironia desse luxo usado como cenário de violações consentidas por razões de Estado, mas talvez esteja agora a cair no erro do anacronismo, como o Goethe (não sei se repararam, acabei de tentar içar-me ao pedestal dele, se não o consigo igualar no génio, ao menos nas fraquezas).



Entrámos na igreja do Herder com o seu tríptico de Cranach, e corremos para o mausoléu da família ducal, onde repousam também Goethe e "Schiller". Entre aspas, porque Schiller teve um funeral de escritor pobre, e quando se lembraram de o levar para perto dos outros agarraram nos ossos que encontraram, mas pelos vistos já nenhum era dele. Vai ser bonito, quando o Goethe ressuscitar, olhar para o Schiller e disser "eh, pá, a morte transfigurou-te muito, até pareces o meu cocheiro". O que, em Goethe, provavelmente será algo do género "ignorância deste mundo, inexperiência dos cânticos eternos / - que ilusão da verdade me abriu os olhos? /Que não vos reconheço, meu dilecto amigo / e em vez do admirável companheiro de altos voos / um comezinho parceiro da rasa estrada apenas vejo."

Deixámos Goethe, fomos a Buchenwald - isto é Weimar.





Ao fundo do campo, perto do edifício com a exposição dedicada às vítimas do campo de concentração reaberto pelos russos, há na floresta um enorme memorial: barras de metal entre as árvores, assinalando corpos  sem nome.



Numa clareira, os familiares das vítimas - que só após a queda do muro, em 1989, puderam entrar no campo que já fora fechado em 1950 - deixaram cruzes contra meio século de humilhação surda: "Fulano, inocente", "Fulano, reabilitado".







Parámos ainda na placa de metal com a nacionalidade das vítimas, permanentemente aquecida a 37º - a temperatura do corpo humano. Pousar a mão naquela superfície tépida, e ser tocado pelo horror do campo. As fotografias, a prisão, os fornos, os ganchos do crematório - tudo isso aconteceu a "eles", há muitas décadas. Mas aquela chapa devolve-me o "nós" e resgata-os da História para os misturar comigo: o calor do seu corpo vivo igual ao meu.

***

Antes do regresso a Berlim, passeámos ainda por Erfurt. A capital da Turíngia é uma cidade pouco conhecida, quase sem turistas. Merecia mais fama: uma cidade medieval muito bonita e bastante sossegada, cheia de História e com um extraordinário conjunto de igrejas, incluindo a do Mestre Eckhart, incluindo o mosteiro onde Martinho Lutero andou antes de resolver mudar de vida e enviar a humanidade rumo ao neoliberalismo. 
Uma boa maneira de acabar um domingo. Com chuva e sol, arco-íris e ponte medieval com uma rua dentro - dizem que é a mais longa da Europa, mas no grupo havia resistentes que diziam que a de Rialto, e que a Vecchio, ah, essas é que talicoisa! (uma pessoa mete-se com gente do Sul, e é isto, um dia destes ainda são capazes de afirmar que Atenas não foi descoberta pelos alemães...)






 ("aqui viveu Franz, o gato da ponte, de 1993 a 2010")
 


15 maio 2013

e agora fazíamos de conta que éramos estudantes da Bauhaus naqueles tempos tresloucados...



"A felicidade é fazer uma excursão", diz o Felicidário. Eles é que sabem, e nós fazemos:  no fim-de-semana passado houve excursão de portugueses a Weimar.

Gostei especialmente de andarmos a brincar à Bauhaus. Fomos para um dos ateliers do edifício histórico, e fizemos lanternas para o nosso cortejo nocturno, à semelhança do que aquele bando de malucos fazia, vai quase para 100 anos. Quase nos sentimos assim:




Mas a realidade foi um pouco mais prosaica:






O nosso guia bem tentou levar-nos longe, desenhando o candeeiro de Wagenfeld e a Haus am Horn para nos inspirar, mas aqui a artista resolveu fazer um lampião com pacotes de leite a imitar as casas de madeira do Lyonel Feininger, estas:


Depois houve jantarada à moda da Bauhaus em 1919:

("Salada de cebola: corta duas cebolas, e vários rabanetes em rodelas finas, e um nabo em palitos pequenos; junta duas colheres de amendoins moídos, algum óleo e sumo de limão; serve a salada em folhas de couve branca")


("Teig-Götter, no canto superior à direita: mistura uma chávena de farinha de trigo integral com algum sal e água fria, até teres uma massa com bastante consistência. Põe colheres dessa massa num tabuleiro quente e leva a assar rapidamente no forno. Se não tiveres forno, podes fazer numa frigideira de ferro, e é ainda mais fácil. Ao fim de algum tempo, vira o pão.")


Chouriço de sangue e paté da Turíngia - hmmmm.


Acrescentem isto ao Felicidário: a felicidade é uma mesa com enchidos da Turíngia, e alguns legumes frescos.

Depois do jantar partimos para a nossa aventura: atravessar o parque alumiados pelas nossas lanternas. As minhas casinhas do Feininger ficaram bem mais bonitas às escuras.


A felicidade é um bando de maduros a posar para uma fotografia, todos orgulhosos dos lampiões que fizeram. Uma festa.


***

Quando íamos a meio do parque - enorme, sem iluminação e deserto -, ouvimos ao longe vozes masculinas a cantar "Ich gehe mit meiner Laterne" (uma canção que os miúdos cantam nos cortejos do São Martinho, "eu vou com o meu lampião"). Não gostei nada do tom marcial e agressivo. Temi que fosse um bando de neonazis - que los hay, em regiões mais pobres los hay. Por sorte não aconteceu nada, e chegámos sãos e salvos (e um pouco molhados de chuva) à Haus am Horn.

Aos nossos colegas de 1919 aconteceu muito. Devido a mudanças políticas na Turíngia, a escola viu-se obrigada a mudar para Dessau já em 1924 e daí, devido à chegada dos nazis ao poder em 1931, foi para Berlim onde, apesar de se ter sujeitado a certos jogos de cintura menos honrosos, não conseguiu sobreviver. Em 1933 foi dissolvida - alunos e professores espalharam-se pelo mundo, salve-se quem puder.
Não havia lugar na Alemanha para um movimento "infiltrado por esquerdistas e judeus". Ao lado da Haus am Horn construíram imediatamente "casas como deve ser" - nada dessas coisas degeneradas. Mas nem assim conseguiram parar os ventos de mudança que a Bauhaus trouxera para o país.

14 maio 2013

dia da mãe

No Schlossmuseum, em Weimar (colecção de arta sacra medieval iniciada, como não podia deixar de ser, por... um doce a quem adivinhar):





(Gosto muito deste S. Sebastião a espreitar por cima do ombro de Maria para ler o livro dela. Também não era preciso torturá-lo por causa disso, mas convenhamos que é feio e desagradável quando se põem assim a ler por cima do ombro dos outros.)


dizem que o passado é indispensável para ver melhor o presente...

...mas não sei se acredite.
Este fim-de-semana andei a fotografar o parque de Weimar através dos vidros dos edifícios barrocos, e o presente saiu-me muito distorcido.











17 abril 2013

às vezes até me dá vontade de ser minha amiga

Por exemplo: agora mesmo. Estou a organizar para os meus amigos uma visita a Weimar em português, no fim-de-semana de 11 e 12 de Maio. Para além do óbvio (Goethe, Goethe, Goethe, Anna-Amalia, Schiller, Liszt, Goethe, Herder, Goethe, Lucas Cranach, Goethe, Wieland, Maria Pawlowna, Goethe, Thomas Mann, Hitler, Semprun, Buchenwald e Erfurt - espero não me ter esquecido de nenhum Goethe) estou a preparar com um grupo da Bauhaus um programa especial: vamos fazer de conta que éramos os estudantes que por volta de 1919 aderiram ao movimento Bauhaus. 



1919 - foram tempos extraordinários: a guerra tinha chegado ao fim, a monarquia caíra, o país temia a guerra civil, e a pequena cidade de Weimar foi invadida por políticos da capital que ali vinham desenhar uma nova Constituição, e por estudantes malucos, inclusivamente "raparigas com o cabelo tão curto como as saias!", que de manhã iam para o parque (concebido pelo - adivinharam! - Goethe) orar seminus a um deus desconhecido, e ao cair da noite o atravessavam alegremente, a caminho das suas festas, alumiados por lanternas que eles próprios tinham feito.

(Paul Klee, daqui)

(Lyonel Feininger, daqui)

(Oskar Schlemmer, daqui)

E nós? Além de fazermos o circuito habitual da Bauhaus - o museu com os primeiros objectos criados pelos estudantes, os gráficos das aulas e os quadros dos seus professores (Klee, Kandinsky, Schlemmer, Feininger, Muche, Itten, Moholy-Nagy, etc.), o edifício da escola feito por Van de Velde e o gabinete de Walter Gropius, a parte das oficinas com a sua escadaria decorada por Oskar Schlemmer e a primeira casa construída pelo movimento, em 1923, e que ainda hoje é mais moderna que muitas que por aí se fazem, além de fazermos isso tudo, vamos sentar-nos calmamente num atelier desses antigos estudantes para fazer lanternas como eles, que nos iluminarão o passeio pelo parque do Goethe depois do anoitecer. E terminaremos com uma ceia num pavilhão que os primeiros professores da escola de belas-artes mandaram construir para fazerem retratos da natureza sem se molharem - lá ajeitavam a vaquinha e as ovelhinhas e mais os bichos que calhasse, lá montavam o cavalete, e cá vai disto: pintar a natureza viva por partes, primeiro os bichos e depois a paisagem à volta nos dias mais secos. Claro que tudo isto foi antes de o Gropius aparecer em cena, e mais aquele maluco do Itten que inventou o curso básico e punha os estudantes a fazer ginástica em trajes menores no parque desenhado por Goethe, e mais os outros todos que decidiram fazer um movimento novo, como no tempo das catedrais, quando os pedreiros e carpinteiros se entendiam como artistas a contribuir para a criação de uma belíssima obra de arte.

Em suma: já estou com pena de todas as pessoas que não podem participar. E aqui lanço um repto para os comentadores predilectos deste blogue: alguém quer vir?