Mostrar mensagens com a etiqueta Um Mundo Mais Justo e Pacífico. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Um Mundo Mais Justo e Pacífico. Mostrar todas as mensagens

06 novembro 2015

"ruínas" (2)




Em Maio de 2014 nasceu no Sul da Alemanha um coro de alemães e refugiados sírios, chamado "Refúgio". Traduzo as palavras de um dos cantores:

"Chamo-me Ahmed Osman, e sou de Homs, na Síria.
Estive meio ano na prisão, três anos em fuga, e estou agora na Alemanha com a minha mulher e os nossos três filhos.
Obrigado, alemães, por nos abraçarem e acolherem.
Temos uma mensagem para todo o mundo:
Basta de sangue! Acabem com as guerras!
"Janna" significa paraíso. A nossa canção sobre o paraíso fala das cidades belíssimas da Síria, de onde viemos, e agora estão reduzidas a ruínas.
 Peço-vos, alemães: preservem a vossa Paz!"


10 maio 2015

70 anos depois














Setenta anos depois da derrota dos nazis, na praça que remata o Ku'damm, junto às ruínas de uma igreja que ali ficaram como cicatriz e memória, faz-se uma festa da Paz. Uma sobrevivente de Auschwitz canta com uma banda que une três religiões, perante um público variado que inclui mulheres de hijab e um grupo de crianças com deficiência mental que dançam animadamente ao som das melodias hebraicas, de Le Déserteur, Bella Ciao e Bandiera Rossa. Setenta anos depois estou numa festa no coração de Berlim, e parece que as ideias nazis estão profundamente derrotadas.

Parece. Mas não nos iludamos. O respeito pela dignidade humana - pela dignidade de todos os humanos - não é um combate ganho há setenta anos. É uma maneira de estar na vida, é enviar raízes para o futuro, é um permanente estado de alerta.

Esther Bejarano falou de tudo isso. Falou da sua convicção de "nunca mais" e do seu choque ao descobrir nos anos 60 que tantos nazis continuavam à solta e bem colocados na sociedade alemã, falou da farsa que é só agora julgar os poucos nazis que restam, enquanto os neonazis passeiam pelas ruas e fazem manifestações. Lembrou que a polícia faz questão de ignorar as pistas que apontam para terrorismo da extrema-direita. Disse que é um escândalo o dia 8 de Maio, o dia da libertação, não ser um feriado na Alemanha. Diz também que não gosta que falem dela como se a vida dela se resumisse a ser uma sobrevivente de Auschwitz. O mais importante na sua vida é o trabalho para a paz. Esta mulher, que foi perseguida pelos nazis apenas pelo seu sangue, é agora rejeitada pela comunidade judaica de Hamburgo, cidade onde vive desde 1960, devido às suas ideias demasiado críticas em relação à política de Israel contra os palestinianos.

Canta com a sua voz de noventa e tal anos, com uma energia de adolescente. Canta "quando se abrirá de novo o céu?", canta "Mir lebn ejbig" em iídiche.

Fiz alguns filmes, todos de péssima qualidade (ainda tenho de aprender muito antes de concorrer aos óscares). Mas deixo-os aqui, apenas como sinal do ambiente desta festa. Vejo agora que devia ter-me fixado menos na cantora e mais no grupo de crianças que dançavam - há setenta anos não havia lugar para eles nas ruas da cidade.

*

Canção de um rapazinho que queria ser pássaro para substituir os que desapareceram da árvore, mas a sua mãe não deixou, e ele conclui "a minha mãe não me deixou ser pássaro porque me amava muito":







"quando se abrirá de novo o céu?"




"vivemos eternamente":



"...apesar disso vivemos,
vamos viver e ver e sobreviver apesar dos apesares,
apesar disso vivemos - estamos aqui!"

"...wir leben trotzdem, wir werden leben und erleben und schlechte Zeiten überleben, wir leben trotzdem, wir sind da."

[ Adenda: eu devia dormir uma ou duas noites (anos?) sobre a tradução de um poema. Esta manhã ocorreu-me que não é adequado usar "apesar dos apesares" para "trotz" e "schlechte Zeiten", quando o que está em causa é o antisemitismo que levou ao Holocausto. Talvez jogar com as palavras "contra" e "ventos contrários"? Em suma: isto não é uma tradução, é um esboço de alinhavo. ]


19 dezembro 2014

sem surpresa



A alegria e naturalidade deste tango neste lugar: não me surpreenderia encontrar aí Jesus a dançar com Maria Madalena. Por contraste, ocorreu-me a surpresa e o embaraço de "As Sandálias do Pescador", quando o papa decide vender as riquezas da Igreja para ajudar os famintos. Impensável, inimaginável.

O mundo mudou: ninguém ficaria surpreendido se este papa resolvesse vender aos museus as vaidades dos Barberini, Bórgia, Medici & Cª, e transformar a Santa Sé numa extensão dos abrigos de Lampedusa.


11 setembro 2014

vocês desculpem, mas (a propósito de 11 de Setembro)




Vocês desculpem, mas quase sinto vergonha de lembrar o 11 de Setembro de 2001 porque, a cada ano que passa, mais nítida se vê a torpeza do aproveitamento mediático daquela tragédia, com o objectivo de criar uma janela de oportunidade para baralhar e dar de novo no jogo estratégico do Médio Oriente. Pobres vítimas do 11 de Setembro: a vida foi-lhes ceifada pela al-Qaeda, e a memória foi-lhes conspurcada pela máfia que se apoderou dos presidentes dos EUA.

Por estes dias fala-se muito do modo como o Estado Islâmico sabe criar realidades e imagens com o objectivo central de chocar os americanos, simplifiquemos assim, e discute-se se os meios de comunicação social ocidentais devem fazer o jogo deles. Oh, cambada de virgens! Não se terão apercebido que os do Estado Islâmico são simplesmente bons alunos? Observaram com atenção as televisões americanas no dia 11 de Setembro de 2001, a passar repetidamente imagens dos que saltavam das torres - especialmente aquele casal que saltou de mãos dadas -, e logo a seguir imagens de arquivo de um grupo de palestinianos em festa. Examinaram o fenómeno da manipulação dos povos a partir da gestão das notícias e das imagens, talvez até me tenham ouvido falar de quando vivíamos em San Francisco e, algumas semanas depois do 11 de Setembro, cancelámos a assinatura do jornal e arrumámos a televisão na cave, para podermos voltar a ser gente normal, sem deixar que o medo nos tolhesse os valores e o distanciamento que permite um olhar crítico.



 

Os nomes das vítimas do 11 de Setembro nos EUA estão inscritos num memorial no Ground Zero, organizados não por ordem alfabética, mas numa comovente rede de afectos. Tudo se sabe sobre essas 2.977 vítimas, os seus familiares, os seus sonhos cerceados, o seu heroísmo. Quanto às outras vítimas do 11 de Setembro, por exemplo as dezenas de milhares de iraquianos, tantas que já ninguém se dá sequer ao trabalho de as contar, não se lhes conhece o nome e as circunstâncias.

Por isso me envergonho de lembrar o 11 de Setembro de 2001, e de repetir as imagens cada vez mais transformadas em toques de sineta para fazer de nós cães pavlonianos. Porque nos mostram estas imagens? E nós, a salivar: salivamos ao serviço de quem?

Parte da resposta a esta pergunta pode vir de um 11 de Setembro anterior, noutro continente. Como dizia um amigo meu esta manhã, no facebook:

Há 41 anos, o Chile amanheceu banhado em sangue, para que os ricos pudessem continuar ficando mais ricos.




A Salvador Allende en su combate por la vida


(Pablo Milanés)
Qué soledad tan sola te inundaba
en el momento en que tus personales
amigos de la vida y de la muerte
te rodeaban.

Qué manera de alzarse en un abrazo
el odio, la traición, la muerte, el lodo;
lo que constituyó tu pensamiento
ha muerto todo.

Qué vida quemada,
qué esperanza muerta,
qué vuelta a la nada,
qué fin.

Un cielo partido, una estrella rota,
rodaban por dentro de ti.
Llegó este momento, no hay más nada
te viste empuñando un fusil.

Volaba,
lejos tu pensamiento,
justo hacia el tiempo
de mensajes, de lealtades, de hacer.

Quedaba,
darse todo al ejemplo,
y en poco tiempo
una nueva estrella armada
hacer.

Qué manera de quedarse tan grabada
tu figura ordenando nacer,
los que te vieron u oyeron decir
ya no te olvidan.

Lindaste con Dos Ríos y Ayacucho,
como un libertador en Chacabuco,
los Andes que miraron crecerte
te simbolizan.

Partías el aire, saltaban las piedras,
surgías perfecto de allí.
Jamás un pensamiento de pluma y palabra
devino en tan fuerte adalid.
Cesó por un momento la existencia,
morías comenzando a vivir.
(1973)


12 fevereiro 2014

God bless the grass





Malvina Reynolds - Sings the truth (1966)

God bless the grass that grows thru the crack.
They roll the concrete over it to try and keep it back.
The concrete gets tired of what it has to do,
It breaks and it buckles and the grass grows thru,
And God bless the grass.

God bless the truth that fights toward the sun,
They roll the lies over it and think that it is done.
It moves through the ground and reaches for the air,
And after a while it is growing everywhere,
And God bless the grass.

God bless the grass that grows through cement.
It's green and it's tender and it's easily bent.
But after a while it lifts up its head,
For the grass is living and the stone is dead,
And God bless the grass.

God bless the grass that's gentle and low,
Its roots they are deep and its will is to grow.
And God bless the truth, the friend of the poor,
And the wild grass growing at the poor man's door,
And God bless the grass.


20 dezembro 2013

postais de Natal (2)



(fotos tiradas deste site, que tem um bom artigo sobre o tema)

Se bem entendi, foi assim: o Paulo queria receber postais, e fez um site na internet para criar uma comunidade de troca. As pessoas acharam tanta graça à ideia, que hoje o postcrossing é um fenómeno de espírito natalício durante todos os dias do ano: uma pessoa, num país qualquer, dá-se ao trabalho de escolher, escrever e enviar um postal para alguém que pode viver do outro lado do mundo, ou na mesma cidade. Um gesto pelo prazer de alegrar o dia de um desconhecido, uma ponte que liga pessoas independentemente das nacionalidades, das crenças religiosas, das cores da pele e de tantos outros motivos de divisão. Também têm um blogue daqueles capazes de iluminar os dias mais cinzentos: de post em post vamos descobrindo o tanto que há de bom nestas gentes. Recentemente o postcrossing passou os trinta milhões de postais: trinta milhões de boas surpresas na caixa do correio, trinta milhões de sorrisos.

Com este meu jeito especial para estar no lugar certo no momento certo, tive a sorte de me cruzar com a Ana e o Paulo, de conversar bastante com eles, de ver o brilho nos olhos da Ana quando explica que a ideia não é proporcionar uma maneira de alguém aumentar a sua colecção de postais, mas multiplicar pequenos momentos de felicidade ao abrir a caixa do correio.  E até recebi dois postais deles - pelo que, segundo as minhas contas, eles já vão em 30.000.002 sorrisos.

Obrigada, Ana e Paulo. Gosto tanto de vocês e do que fazem, que até estava capaz de vos deixar passar à minha frente naquela famosa fila de espera (famosa para os leitores deste blogue, entenda-se) para as medalhinhas do Dez de Junho.


18 dezembro 2013

la conquête du pain


O Joachim trouxe-nos de Paris um presente muito especial: um pão.
"O pão da anarquia!" - anunciou ele, entre a graça e o entusiasmo. Melhor dizendo: de uma padaria de anarquistas, na qual todos os trabalhadores ganham o mesmo salário - 1350 euros líquidos. O pão tem um sabor muito bom - mesmo para lá do seu tom de vermelho vivo, e do belo fim de boca com taninos de justiça.
Fui-me informar um pouco mais (aqui e aqui, e no seu blogue: La conquête du Pain), e gostei do projecto: salário igual para todos, autogestão, procura de consensos, confiança nas pessoas (desconto automático no preço a quem disser que não tem muito dinheiro), generosidade, bio sem fundamentalismos, capacidade de fazer concessões à realidade.
Um pão admirável.




Transcrevo do site Rue 89:
Si le projet inspire la sympathie, la mise en pratique de l’autogestion reste, malgré la bonne volonté ambiante, encore à l’état d’ébauche. « Ce n’est pas de la vraie autogestion », commente Florence, affublée de son T-shirt à l’effigie du groupe de punk-rock Anti Flag.
1

L’autorité irréductible

« Il y a toujours des enjeux de pouvoir »
A La Conquête du pain, personne n’a, théoriquement, de pouvoir sur personne. Au fond, l’autorité est refusée en bloc par les tenants de l’anarchie. Pas de doute sur leurs intentions : « On essaie de fonctionner de façon horizontale », dit Florence.
Ils reconnaissent ne pas tous être sur un exact pied d’égalité :
« On écoute d’abord ceux qui ont le savoir-faire. Si Pierre [un des cofondateurs, boulanger de profession, ndlr] dit qu’il faut pétrir de cette façon, on ne va pas le contredire. »
Ils réactivent, finalement, une vieille relation entre savoir et constitution d’un pouvoir. Certains invariants semblent à l’épreuve des expériences alternatives.
Florence termine sur un postulat indéboulonnable :
« Quel que soit le groupe humain, il y a toujours des enjeux de pouvoir. »
2

Eviter la division du travail, tant qu’on peut...

« Les tableaux de comptabilité, j’y pige rien »
Dans l’idéal, les entreprises anarchistes se passent de la spécialisation des tâches. Nul n’est censé être irremplaçable, car la compétence exclusive génère les privilèges.
Thomas : « Il faut une capacité à la rotation, pour éviter les nœuds d’étranglement. » Toutefois, la promesse est difficilement tenable. L’équipe divise le travail en quatre secteurs : logistique, vente, livraison et production. Et chacun a ses chasses gardées, à l’image des entreprises ordinaires. Pierre, cofondateur, est le principal en charge des lourdes questions administratives. Que personne ne lui envie :
« L’administratif fait chier tout le monde, on n’a pas assez d’expérience, on essaie de se le répartir comme on peut... Et les tableaux de comptabilité, par exemple, j’y pige rien. »
Tout bien pesé, les possibilités concrètes de rotation sont, ils ne le cachent pas, assez réduites. « Le roulement imposerait de former tout le monde. Je pourrais remplacer Pierre pour le four mais pas pour la pâte. » Il est des maillons sans lesquels la boutique ne peut pas tourner.
3

L’impasse du capital

« On est dans tellement de contradictions... »
Pas supposés peser dans les décisions, les moyens de production jugulent aussi leurs ambitions : « On est dans tellement de contradictions. On ne possède pas le capital, on a contracté un prêt de 250 000 euros », confesse Thomas. Propriété sans laquelle il est difficile de s’affranchir des influences extérieures.
Leurs locaux souffrent de grandes imperfections. Florence : « On a plein de bonnes surprises, les plombs qui sautent, l’eau qui coule du plafond, un jour un four a pété... » Bilan de ce dernier épisode : 32 000 euros, en (petite) partie financé grâce aux souscriptions :
« Les gens nous envoyaient des sous avec des petits mots, on a récolté 10 000 euros. »
Ils ont été contraints de verser « dans le productivisme à mort », confie Thomas. « On a des conditions de travail de fou. »
Ils voient aussi leurs exigences « bio » à la baisse : « La farine, les graines sont clairement bio, mais le beurre et les œufs, non, ça augmente les coûts matière de façon conséquente », certifie Thomas. D’autant que cela reviendrait à hausser les prix, ce qui ne colle pas vraiment à leurs objectifs.

La boutique de La Conquête du pain (Paul Conge/Rue89)

L’autogestion à petits pas

Ils s’en doutaient un peu : l’idéal politique n’est pas au rendez-vous. « L’autogestion, c’est un processus », reconnaît Florence. La tête sur les épaules, ils ne pèchent pas par excès d’idéalisme.
Tout de même, ils ont taillé un système de démocratie directe, et transparente, à leur image : « On essaie d’être cohérents avec nos engagements. On prend toutes les décisions collectivement, en cherchant le consensus. » Salaires, primes, orientations, grands et petits changements : tout y passe.
Une semaine sur deux, ils tiennent une assemblée générale de deux heures, visant à « raconter tout ce qu’on fait, et à examiner les points sur lesquels on n’est pas efficaces », résume Thomas.
Les désaccords sont rares, mais « il peut parfois y avoir un vote, lorsqu’on est en présence de positions vraiment tranchées... Dans ce cas, on a un consensus mou ».
Autogestion en demi-teinte, certes. Mais ils peuvent se targuer d’un succès assez solide : « On engrange un bénéfice important qui nous permet de rembourser nos dettes », commente Thomas. Entre 200 et 300 clients défilent chaque jour à la boulangerie. « 231 pour le 5 juillet ! » affirme-t-il après avoir consulté son ticket Z.
Le tout leur permet de pérenniser leurs activités.
« Les gens gardent en tête qu’on est une boulangerie anar et qu’on fait du bon pain. »
L’essentiel est par là.

16 março 2010

PÁSCOA, UMA ESPERANÇA ESTIMULANTE

Tal como a Primavera nos confirma a revitalização cíclica da natureza, a celebração anual da Páscoa reafirma a confiança na emergência da vida mais forte do que a morte.

Os recentes desastres naturais e a persistência de uma terrível crise económica, deixando milhares de famílias destroçadas pela praga do desemprego e da pobreza, lembram-nos, de forma dramática, que a paixão de Cristo assume um negro realismo nas imagens da morte e do sofrimento, regularmente actualizadas. Celebramos a Páscoa numa altura em que nos confrontamos com acontecimentos de tristeza e de desolação, sejam os que decorrem dos gritos de dor, no Haiti como na Madeira, no Chile como no Afeganistão e Turquia, sejam aqueles que corporizam os vergonhosos casos de pedofilia em instituições católicas ou que mostram o desespero dos que foram mais vitimados pela crise financeira.

Nuns casos, a destruição saiu à rua pela força dos elementos da natureza, lembrando ao homem a sua condição frágil, magnificamente retratada por Camões nestes versos de Os Lusíadas: Onde pode acolher-se um fraco humano / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme e se indigne o céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno? Noutros casos, as forças da morte foram provocadas pela crise do sistema neo-liberal, assente numa lógica que está a sobrepor-se à própria razão do homem. O aumento das assimetrias sociais, tornando os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, é a denúncia clara de um «progresso» que não põe a pessoa humana no centro. O messianismo secularizado, depois de ter visto as consequências desastrosas do mito da crença no progresso indefinidamente crescente, pretende agora afirmar-se através do mito do imperativo absoluto da revolução técnico-científica, ao serviço de um Estado omnipresente e das elites que o compõem e o perenizam. Este modelo de progresso, cujos benefícios de revelaram efémeros e enganadores, está agora a ser travestido na exaltação de uma tecnologia que robotiza e serializa, mostrando como a frieza da técnica está a impedir a eclosão de um mundo mais humanizado.

Felizmente que, ao lado das funestas notícias diariamente propaladas pela comunicação social, também há muitas alegrias celestes nesta terra, ainda que não detectáveis pela voracidade dos media. Um olhar atento poderá testemunhar realidades bem luminosas a acontecer diariamente. A corrente de solidariedade na sequência dos desastres ocorridos no Haiti e na Madeira revelam bem que no coração humano não está atrofiada a bondade. Muitas mais provas disso se verificam no anonimato quotidiano. O estilo de vida simples, o espírito de partilha, a capacidade de renunciar ao ter em nome da felicidade do outro e uma relação inteligentemente respeitosa com a natureza são exemplos de gestos que fazem diminuir o sofrimento e que incrementam relações humanas mais harmoniosas. Manda, por isso, o realismo que não podemos minimizar a gravidade do momento presente, acreditando ingenuamente que um mundo novo possa nascer da desordem actual. Mas também não devemos abandonar a esperança numa sociedade melhor, com a desculpa de que todas as utopias falharam. As previsões catastróficas em relação ao futuro, em vez de suscitarem alertas preventivos, vão-nos preparando psicologicamente para aceitar a inevitabilidade da desgraça. Pelo contrário, a capacidade de encarar o porvir com esperança pode transformar a presente crise numa bênção mobilizadora de energias. Todavia, as dificuldades tornam-se intransponíveis se deixarmos morrer a confiança, já que, como intuiu Picasso, a nossa maior perda não é a morte, mas aquilo que morre em nós enquanto vivemos.

Os cristãos acreditam que continua a avançar na história o sonho de Deus sobre a humanidade e sobre o cosmos. Esse sonho pareceu brutalmente interrompido na cruz, mas foi aí que se manifestou verdadeiramente a força da vida para lá da morte. Não há nada de contraditório, quando os cristãos, em nome desta esperança estimulante, se comprometem na transformação concreta da sociedade, sem caírem no logro das consolações fáceis.

22 dezembro 2007

Feliz Natal!

Feliz Natal a todos/as!
2008 seja a Esperança renovada num Mundo mais Justo e Pacífico.
* Saúde * Paz * Alegria *

20 março 2007

A propósito de guerras preventivas...

Tolerância: um exercício de liberdade e confiança

Ser tolerante implica aceitar correr o risco de confiar no outro, invocando valores comuns como a Vida, a Liberdade, o Conhecimento, a Dignidade Humana, etc. Apesar disto, não se pode ignorar que diferimos nas aspirações, na cultura, no estilo de vida, nos modelos socio-políticos, familiares, na religião, na expressão dos afectos, etc.


  • Não vale a pena apelar à tolerância a partir de atitudes defensivas (atendendo, por exemplo aos nossos interesses, segurança e bem-estar).


  • Não vale a pena apelar à tolerância se não queremos correr o risco do confronto com a novidade, escudando-nos na irredutibilidade da tradição e da religião, tomando-as como inquestionáveis e até rivais.


  • Não vale a pena apelar à tolerância se não nos dispomos a confiar no outro, tratando e exigindo ser tratado/a em plena igualdade.



1. Complacência e fragilidade das próprias convicções


“Tenho de ter cuidado para não dizer nada que critique ou fira as convicções religiosas de alguém...”


Nesta opção, o “viver e deixar viver” são entendidos numa perspectiva unidimensional. Isto é uma noção de “tolerância” pobre! que implica deixar as pessoas sozinhas com a sua fé e sensibilidades. Uma vez que as religiões têm propostas diferentes quanto à natureza e à essência de Deus e quanto ao sentido da vida humana, que mobilizam emoções e convicções íntimas, o respeito mútuo não passa de uma atitude complacente de silêncio e ausência de crítica.

Quem assim procede, não pretende entender perspectivas diferentes da sua, espera passar despercebido para não desencadear animosidades que julga podem vir a pôr em causa sua segurança e as suas certezas.

Por outro lado, a atitude complacente, mascara a fragilidade das próprias convicções e a dificuldade em deixar-se interpelar pelas mesmas, quanto mais pelas convicções dos outros!

Mas a religião não deve ser entendida como um reduto silencioso e fechado. O respeito mútuo não pode fundar-se na ausência da crítica, até porque a crítica já está implícita nas afirmações de qualquer credo.


2. Tolerância inócua e limites à liberdade de expressão


Uma outra atitude de respeito mútuo aceita que a crítica e a discussão entre religiões são aceitáveis e incontornáveis. Esta tolerância bidimensional aceita o debate insistindo em que a crítica deve ser séria, honesta e respeitosa.


“Tenho de ser sensível ao papel que religião desempenha na vida de alguém e não devo lidar de forma ligeira, sarcástica ou insultuosa”.


Segundo este modelo, o debate corre mal, não porque se dirimem argumentos, mas pelo tom ofensivo que possam apresentar. Esta forma de tolerância tenta combinar: busca da verdade, racionalidade e respeito. Esta tolerância que afasta o escárnio, a ofensa e o insulto, permite-nos compreender noções de sacrilégio e blasfémia, identifica os princípios que enformam o respeito pelas convicções humanas mais profundas e estabelece os limites da convivência pacífica.

Contudo, nesta tolerância bidimensional há uma falácia! O que é sério? O que é ofensivo? Estes conceitos não são neutros. São definidos de modo diferente por exemplo: consoante a época, os modelos culturais, religiosos, etc.

Em algumas tradições religiosas o debate recorre a metáforas. Há grupos sociais que consideram uma afronta a participação de mulheres numa discussão religiosa, independentemente da sobriedade do seu tom e, no tempo de Nero, seria impensável que um escravo, (ou mesmo um cidadão), se pronunciasse com ironia sobre a divindade do imperador.

O modo como os debates de natureza religiosa devem ser conduzidos é, em si mesmo, um problema sobre o qual os pontos de vista se dividem. Esta questão está imbuída pela ideia de que aí se toca nas regiões mais profundas da verdade, do conhecimento e dos valores. De facto, para a controvérsia religiosa não é fácil a observância de regras de um debate ponderado, racional e respeitoso. É difícil imaginar como a liberdade de expressão poderia ter evoluído se fosse psicologicamente inócua.[1]

Apesar disso, algumas pessoas agarram-se às suas crenças de forma tão devota e beata, que mesmo a crítica mais sóbria e respeitadora lhes parece um insulto ou um pecado mortal. Alguns são tão devotos e beatos que não conseguem suportar a crítica de um não-crente.

As religiões levantam questões importantes, (a existência e a essência de Deus, o sentido da existência humana, a morte, o mal), não apenas para os respectivos crentes, mas também comuns aos não-crentes, todavia não podem estabelecer os termos nos quais estas questões devem ser tratadas.

O tipo de resposta dada por uma pessoa, um grupo hierárquico, ou mesmo de um milhão de crentes, não pode impedir os outros de colocar as questões nos moldes que lhes parecerem mais apropriados e de responderem de formas diferentes.



3. Desafio à vivência da tolerância multidimensional


“As mutações económicas, tecnológicas, sociais e culturais da 2ª metade do séc. XX fizeram emergir um indivíduo novo, cuja maneira de ser, pensar, sentir e fazer as coisas difere profundamente dos seus antecessores. Algumas descobertas científicas, a globalização da economia, a flexibilidade generalizada que lhe é inerente, bem como as novas exigências de capacidade de reacção, a par da revolução das tecnologias de informação e comunicação, [da compressão espácio-temporal], etc. jogam um papel essencial no despertar deste novo tipo de individuo”.[2]

Chamamos “hipermoderno” a este indivíduo para destacar a ideia de excesso e de superação que caracterizam a nossa sociedade de modernidade exacerbada. Tentamos hoje compreender e explicar de que modo tantas mudanças perturbantes, tocam o Homem na sua mais profunda identidade”.[3]


Se as mudanças são tão profundas… Então, o desconforto perante as múltiplas respostas dos outros faz parte do risco que aceitamos correr porque este é o nosso aqui e agora comum à escala planetária.

Somos desafiados a vivenciar a tolerância multidimensional. As pessoas e os povos devem deixar-se uns aos outros livres para colocarem as questões da religião, da filosofia e outras, das formas que melhor traduzam o que necessitam explicitar e com os recursos que tiverem à sua disposição.

No mundo contemporâneo isto poderá significar que toda a panóplia de meios de comunicação, todas as técnicas, todas as artes, a fantasia, a ironia, a poesia, os jogos de palavras, o malabarismo das ideias – serão usados naquilo que muitos consideram o sagrado, o imaculado, o dogma. Como poderia ser de outro modo?

Questões tão importantes põem à prova os nossos recursos psicológicos e intelectuais. Conduzem-nos aos limites da disputa linear e para além deles. Porque dizem precisamente respeito aos limites, ao que é assustador, perturbador, impensável.

As religiões consagram os seus símbolos, fazem as suas afirmações, contam as suas histórias e tudo isto é lançado no mundo como propriedade pública, faz parte da mobília cultural e psicológica que não podemos pegar com pinças cautelosas. No nosso desejo de dar sentido à existência, temos que fazer o que podemos com as questões e as respostas que foram lançadas sobre nós.[4]


Todos buscamos a compreensão do mal, da doença, dos crimes, da morte!


… E os céus estão silenciosos
… E não parece haver um sentido nestas coisas!


O respeito pela sensibilidade de alguns não pode ser usado, em consciência, para limitar os meios disponíveis por outros para lidar com os problemas que são comuns a toda a Humanidade. Os grandes temas das religiões são demasiado importantes para serem enclausurados pela sensibilidade dos crentes.

As coisas que parecem sagradas para alguns, são, nas mãos de outros, objecto de brincadeira, riso, tomadas de forma ligeira, objecto de fantasia, cantadas, sonhadas ao contrário, plasmadas de forma divertida e caleidoscópica, baralhadas, abjuradas… É uma forma de procurar dar sentido à experiência humana, o que não significa que os temas e o modo de os tratar sejam intencionalmente ofensivos para os crentes![5]


Não há outra forma de vivermos juntos e de respeitar a vida de cada um, a não ser (re)inventando o modelo de tolerância multidimensional, que implica a aceitação da pluralidade de abordagens, aprendendo a caminhar e a crescer juntos/as, estabelecendo laços de confiança e amando-nos uns aos outros.


FONTES:

[1]
MILL, John Stuart – Da Liberdade, Ibrasa, São Paulo, 1963. – “Se toda a humanidade menos um fosse da mesma opinião, e apenas um indivíduo fosse de opinião contrária, a humanidade não teria maior direito de silenciar essa pessoa do que esta o teria, se pudesse, de silenciar a humanidade.” Quando Stuart Mill (1873) apresentou esta tese a favor da livre discussão, a perturbação da complacência e o abanão na fé, eram valores positivos no debate.
[2] AUBERT, Nicole e Roux-Dufort, Christophe - L'individu Hypermoderne , Érès, Paris, 2004.
[3] AUBERT, Nicole e Roux-Dufort, Christophe - Le culte de l'urgence. La société malade du temps, Flammarion, Paris, 2003.
[4]
Waldrom, Jeremy - "Who is my neighbor? humanity and proximity",
The Monist, vol. 86, no.3, (2003).
[5]
Waldrom, Jeremy - “The Satanic Verses” , Times Literary Supplement, Março, 1989 e incluído em Political Though.


::[dEbAtEs]::
O Lugar das Religiões na Construção de um Mundo Mais Justo e Pacífico