Mostrar mensagens com a etiqueta Holocausto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Holocausto. Mostrar todas as mensagens

13 fevereiro 2020

faça-se então um desenho (2)


Quanto anti-semitismo há nesta caricatura?

Uma representação de Netanyahu que cita os estereótipos dos desenhos nazis anti-semitas, com uma braçadeira onde se vê a estrela de David em vez da bandeira israelita (ou seja, liga esta violência aos judeus em geral, em vez de a ligar a Israel), a meter num forno crematório um caixão coberto com a bandeira palestiniana, mesmo por baixo da inscrição "Arbeit macht frei".

A mensagem parece clara: "der Jude" está a fazer aos palestinianos o que a Alemanha nazi lhe fez a ele.

A intenção do cartoon era chamar a atenção para o sofrimento do
povo palestiniano, vítima de uma ocupação injusta, abusiva, brutal e cada vez mais invasiva. Mas falha estrondosamente: porque exagera de tal modo a situação actual em Israel/Palestina que perde toda a credibilidade, porque relativiza o que aconteceu em Auschwitz e porque insulta a memória das vítimas do Holocausto.

Seja intencional ou por descuido do cartunista, parece-me que seria difícil conseguir  mais anti-semitismo que o que está patente neste cartoon. 

Alguns apontamentos soltos:

1. "Der Jude": ao escolher representar o primeiro-ministro israelita na tradição do anti-semitismo nazi, o caricaturista está a entrar perigosamente no terreno ideológico que reduz todos os judeus à figura ameaçadora do "judeu maligno" - "der Jude". É esta a crítica mais imediata à caricatura: tem de ser possível criticar a actuação de Israel sem usar - e reforçar! - o anti-semitismo de que as pessoas judaicas foram e continuam a ser vítimas.

2. "Arbeit macht frei": o cartoon compara o primeiro ministro de Israel a Hitler, e o sofrimento do povo palestiniano ao sofrimento do povo judeu na Alemanha nazi. Mas qual é a base factual que justifica a imagem de um "Holocausto dos palestinianos"?

Os números são estes (agradeço que corrijam se estiverem errados):

População judaica na Europa em 1939: 9,5 milhões
População judaica na Europa em 1945: 3,5 milhões
Assassinados na máquina do genocídio: 6 milhões (63% da população)

População árabe na Palestina em 1922: 670.000
População árabe na Palestina em 1945: 1.200.000
População árabe na Palestina em 2005: 4.420.000
Vítimas (palestinianas e israelitas) da guerra de ocupação israelita de 1948 a 2009: 14.500 (1,2% da população palestiniana em 1945)


Israel está a fazer uma guerra de ocupação contra os palestinianos, mas não instalou uma máquina de extermínio para apagar esse povo da face da terra. Não tem câmaras de gás. Não faz listas de nomes para deportar pessoas para campos de concentração onde se espera que morram de fome, doenças e exaustão. Não há fronteiras fechadas para impedir os palestinianos de escaparem à máquina da morte. Mesmo o horroroso gueto que é Gaza está muito longe de se comparar ao gueto de Varsóvia: em Gaza há subalimentação, mas não há crianças a morrer literalmente de fome pelas ruas; a densidade populacional em Gaza é de 5.000 habitantes/m2 (12.000/km2 na cidade de Gaza) contra os 146.000/m2 do gueto de Varsóvia.

3. Se as realidades são tão diferentes, porque é que chamam "Holocausto" à situação dos palestinianos sob ocupação israelita?

Mais: porque é que só se usa a palavra Holocausto quando o agressor é Israel? O napalm no Vietname não é holocausto, a perseguição aos Royinga, aos Yazidi ou aos Uigures não são holocausto, o genocídio dos Tutsi (um milhão em quatro meses) não é holocausto.

Arrisco uma hipótese: alguns caem na armadilha de usar a tragédia do povo palestiniano para atingir cruel e certeiramente todo o povo judeu no seu nervo mais sensível. E para poder ferir sadicamente o povo judeu, banaliza-se deliberadamente a palavra "Holocausto", aplicando-a a uma guerra de ocupação que causou 14.500 vítimas em 75 anos.

4. Um requinte de cinismo: europeus que, para agredir e humilhar o povo judeu, se servem de um crime terrível contra os judeus perpetrado por europeus.

5. Um requinte de sadismo: equiparar genocídio a guerra de ocupação, retirando peso simbólico àquele. 

6. Há quem argumente que esta menção a Auschwitz serve para lembrar a Israel de onde veio, e que não deve fazer aos outros o que lhe fizeram a eles. Para além de estar muito longe de ser o que lhe fizeram a eles, e para além de esta acusação esquecer os bombistas suicidas e os ataques que são lançados de Gaza contra Israel, convém ter presente que nenhum judeu em Israel precisa que lhe lembrem de onde veio. Qualquer um deles sabe muito bem, e muito melhor do que nós. Por exemplo, Amnon Weinstein, o luthier proprietário dos Violins of Hope, contou que à mesa da sua casa se sentavam ele, o pai, a mãe, e quatrocentos parentes assassinados no Holocausto. Amnon Weinstein está longe de ser um caso único. Por isso, dizer a esta gente que se deve lembrar do Holocausto é sinal de inacreditável arrogância e cinismo da nossa parte.

7. Arrogância e cinismo - e uma enorme falta de vergonha.
Perguntemos: porque é que os palestinianos estão a viver sob ocupação?
Porque os judeus europeus não encontraram um porto seguro em nenhum país da Europa. Porque a Reconquista cristã destruiu a situação de coexistência pacífica de que gozavam em El Andaluz. Porque os Reis Católicos e o seu Édito de Alhambra puseram em fuga mais de 100.000 judeus. Porque a Inquisição em Portugal e na Espanha os perseguiu sem dó nem piedade. Porque no massacre de Lisboa de 1506 uma população enfurecida sem razão matou mais de quatro mil. Porque ao longo de muitos séculos foram vítimas de pogroms em toda a Europa. Porque em meados do século XX a Alemanha, um dos países mais desenvolvidos do mundo, pôs em prática um plano frio e eficiente de extermínio dos judeus europeus, para o qual contou com o apoio activo ou pelo menos com a passividade de grande número de outros países da Europa.

O sofrimento do povo palestiniano resultante da implantação do Estado de Israel no seu território é uma consequência directa do anti-semitismo dos europeus.

8. De cada vez que um Vasco Gargalo faz um cartoon como este, entre os judeus reforça-se a convicção de que o único lugar do planeta onde podem viver em relativa segurança é Israel, e que têm de lutar com toda a força para manter esse país e garantir a sua sustentabilidade - nomeadamente em termos de água. Pelo que o resultado imediato de um cartoon que usa uma linguagem anti-semita para criticar Israel é o agravamento da situação dos palestinianos, considerados obstáculos à segurança e à sustentabilidade de Israel.

Se era para ajudar o povo palestiniano, mais valia ao Vasco Gargalo fazer desenhos sobre outros temas. Pelo menos não estragava ainda mais.



04 fevereiro 2020

"libertação de Auschwitz" (3)

O homem que autorizou a publicação deste livro com o nome "Thomas Geve" tinha 3 anos quando Hitler chegou ao poder. Com 13 anos foi enviado para Auschwitz. Pouco antes do fim da guerra participou na marcha forçada de evacuação de Auschwitz. Foi libertado em Buchenwald.

Nos dias que se seguiram à libertação desse campo, em Abril de 1945, usou as folhas de papel deixadas pelos SS e passou semanas a desenhar febrilmente o seu testemunho da vida nos campos em que viveu como prisioneiro entre os 13 e os 15 anos.
 

O livro chama-se "aqui não há crianças", e foi publicado em 1997 por Volkhard Knigge, director do Memorial do Campo de Concentração de Buchenwald. 

Partilho alguns desses desenhos, juntamente com a tradução das frases.Custou-me imenso fazer este trabalho, e ao mesmo tempo senti-me mais próxima deste miúdo de espírito crítico e capacidade de amarga ironia.

Também custará a ler, mas façam o esforço. Ao menos por respeito à criança que entre os 13 e os 15 anos passou por este horror e dele quis dar testemunho.

(Clicar nas imagens para ver melhor)




Aqui não há crianças - desenhos de um historiador infantil


É dos mortos destes campos de concentração que vem o aviso.



Na rampa (Auschwitz)


Campo de concentração Birkenau
Neste campo de extermínio, na Alta-Silésia (Auschwitz), centenas de milhares de pessoas foram gaseadas pela SS, e cremadas.



DESINFECÇÃO
Vestir / Banho / Injecção / Cortar cabelos / Despir
Tatuar / Registo

29 janeiro 2020

"libertação de Auschwitz"

O tema de ontem na Enciclopédia Ilustrada era "libertação de Auschwitz".
Partilho o texto que lá escrevi, apesar de repetir ideias e histórias que já passaram por este blogue.
No final, partilho também alguns dos comentários que o texto suscitou naquele grupo.


Na semana passada o presidente da República da Alemanha encontrou-se em Israel com alguns judeus sobreviventes dos campos de concentração. Uma das mulheres falou do dia da libertação, quando um soldado disse ao grupo de raparigas com quem ela estava que se podiam ir embora, para onde quisessem. Elas olharam umas para as outras, aflitas, sem força, desorientadas. Nenhuma festejou. "Nenhuma de nós disse um Aleluia", disse ela. "Não sabíamos para onde havíamos de ir."

Como a E. C. P. e o J. P. já aqui referiram, após a #libertação_de_Auschwitz os sobreviventes não tinham para onde ir. Na parte ocidental da Alemanha foram criados campos para “displaced persons”, onde alojaram os prisioneiros dos campos localizados na Alemanha. Muitos dos sobreviventes dos campos dos países de Leste dirigiram-se também para essses centros onde aguardaram enquanto decorria o processo moroso de determinação de um novo lugar para viver. No final da guerra, havia cerca de 250.000 judeus na Alemanha, tanto nesses campos como em alojamentos privados, tentando desesperadamente encontrar os seus familiares e recomeçar a vida.
(Mais informações nesta página do Museu do Holocausto e nesta página da BBC)

A emigração para a Palestina estava muito condicionada devido à pressão – mais que justificada – dos palestinianos. Um episódio à margem da tragédia: a criação da orquestra de Israel, que permitiu contornar as leis britânicas da emigração para a Palestina, e salvar da Europa inúmeros músicos que tinham conseguido escapar ao Holocausto, juntamente com as suas famílias. A criação do Estado de Israel em 1948 permitiu abrir as fronteiras aos judeus, que finalmente deixaram os seus campos de Displaced Persons e puderam instalar-se numa terra sua. Uma das minhas anedotas favoritas de humor hebraico refere-se a este momento da História dos judeus: um navio cheio de sobreviventes do Holocausto dirige-se a Israel. Ao avistarem terra, todos os passageiros desatam a gritar de alegria. Todos, menos um, que se lamenta e chora. “Porque é que te lamentas?”, pergunta-lhe outro passageiro. “Ora, se era para os ingleses nos darem uma terra que não era deles, preferia que nos tivessem dado a Suíça...”


Muitos judeus polacos sobreviventes de Auschwitz tentaram regressar à sua terra e recuperar os seus haveres. Alguns destes foram mortos pelos antigos vizinhos – e imagino que esse crime não fosse resultante apenas da cobiça, mas se devia sobretudo ao facto de estes regressados da morte serem um espinho vivo cravado na consciência daquela comunidade. O filme húngaro “1945”, de Ferenc Török, fala-nos da tensão e do sentimento de culpa que esses regressos despoletavam: pouco depois do fim da guerra, corre numa aldeia húngara a notícia da chegada iminente de dois judeus que ninguém conhece. A simples presença dos dois homens na aldeia basta para sacudir as consciências e as relações entre os seus habitantes. O enredo está bem construído, as personagens desenvolvem-se com equilíbrio, a crítica social e histórica está bem colocada, e o conjunto resulta numa homenagem digna às vítimas do Holocausto. De tudo isso, que já está muito certo, sobressaem imagens de extraordinária força: as de dois judeus que atravessam em silêncio uma aldeia cheia de tensões. Das imagens mais inesquecíveis que vi na Berlinale de 2017.

Como o L. B. disse, após a libertação de Buchenwald os americanos obrigaram a população de Weimar a subir à colina para ver. Admito que os americanos estivessem perplexos pela combinação entre a dimensão do horror do campo e a cegueira da população da cidade, que vivia a 10 km daquele campo descomunal, assistira aos transportes e às marchas da morte, vira prisioneiros andrajosos e famintos a remover os escombros das casas bombardeadas. Também Jorge Semprun, um dos libertados desse campo, se sentia curioso em relação à população alemã que era testemunha daquele crime, e por isso foi visitar uma das aldeias próximas e pediu a uma velhinha que o deixasse entrar para ver a sua casa. Ela abriu-lhe a porta, levou-o à sala – de onde se via distintamente Buchenwald – e, sem saber bem o que dizer, comentou com o antigo prisioneiro: “é uma salinha muito acolhedora, não acha?”

Não vale a pena gastar tempo a julgar a população de Weimar e das redondezas de Buchenwald. Dizemos “nunca mais”, mas fazemos - quase! - o mesmo. Também nós somos exímios em não ver o sofrimento e o desespero dos humanos que se desenrola mesmo à frente dos nossos olhos. Quantos de nós reconhecem verdadeiramente o ser humano no sem-abrigo andrajoso, no pedinte vítima de uma rede mafiosa da Europa de Leste, na prostituta que aceita fazer tudo o que querem dela (sinal óbvio de que se trata de uma escravizada)?

Desviamos o olhar. Incomoda-nos, mostra-nos os limites do nosso poder de mudar alguma coisa, e de qualquer modo contamos com o Estado para cuidar desses problemas.

Temos desculpas – oh, tantas! A população de Weimar também as tinha. E eram tão boas, ou tão más, como as nossas.

---

Comentários do Lutz Brückelmann (velho amigo deste blogue) a este post:

As nossas desculpas são piores do que as das pessoas de Weimar. Ao contrário destas, estamos bem alimentados, seguros e livres.Em relação ao que nós não fazemos e devíamos fazer (e até sabemos que devíamos fazer), ouço nestes dias um audiobook, e ainda não arranjei coragem ou melhor forma de o impingir a todos os amigos: "The life you can save" de Peter Singer. Um guia prático para melhor fazer o que está no título do livro, incluindo respostas às críticas que recebeu dos seus argumentos. (O livro foi publicado pela primeira vez há 10 anos.) Ainda não o acabei, mas especialmente nas respostas às críticas descobri muitas desculpas minhas, para não ter feito mais do que fiz, e também pelo facto de que ainda hesito na divulgação do livro.

Comentário de outra colega enciclopedista:
Toda a informação e reflexão que aqui apresentas obriga-nos a levantar do conforto do nosso palavreado de santinhos que não têm nada a ver com esses horrores. Temos. Temos, sim, agora mesmo estamos à beira de ser interpelados e quantas vezes olhamos para o lado. Eu, confesso, até diante das notícias crescentemente horríveis dos telejornais, passo a vida a dizer que não aguento, que vou deixar de ver televisão... Então, isto é o quê? E sei que não adianta perguntar-me o que posso eu fazer?...


24 janeiro 2020

isto acontece 75 anos depois da libertação de Ausschwitz (4)

(imagem: Spiegel)

Na véspera da cerimónia do Yad Vashem, o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, encontrou-se com um grupo de sobreviventes do Holocausto. O encontro teve lugar no centro AMCHA, uma organização de apoio a sobreviventes traumatizados.

Vinte e cinco pessoas falaram com o presidente, contaram a sua vida, falaram da dificuldade de falar com os seus familiares sobre o que aconteceu. Uma delas, de 102 anos, diz que estarem ali sentados é uma maneira de se vingarem dos nazis.

Essas histórias comoventes revelam também o que há de prodigioso no facto de ser possível juntar alemães e israelitas na mesma cerimónia de memória do Holocausto.

isto acontece 75 anos depois da libertação de Ausschwitz (3)




Partilho um vídeo do Spiegel - partes de uma entrevista a Esther Bejarano, uma das últimas sobreviventes do Holocausto, com o título: "Avisos de uma sobrevivente".

Reparo no olhar desta mulher de 95 anos, sobrevivente de Auschwitz, quando diz: "vejamos: eu sei bem o que acontece a seguir, se isto continuar assim e se não se fizer nada para o evitar."
E de repente cai a ficha: ainda há entre nós pessoas que assistiram à chegada dos nazis ao poder. Pessoas que se lembram como foi, e que encontram paralelos no que vemos hoje em dia.
Depois de terem passado pelo horror do Holocausto, passam agora pelo horror de descobrir que pouco se aprendeu com o mais terrível capítulo do passado da Alemanha.

Para quem fala alemão: há aqui uma entrevista de uma hora com Esther Bejarano, feita em 2018.



Tradução:

"Tudo isso está ainda na minha cabeça. Continuo a ver aquilo por que passámos. Coisas absolutamente horrorosas."

Como descrever o horror real, o horror absoluto?
Esther Bejarano tenta. Conta a sua história inacreditável uma e outra vez. Durante a segunda guerra mundial, os nazis levaram-na para Auschwitz.
Actualmente empenha-se para que as pessoas não esqueçam o que aconteceu há cerca de 80 anos. Procura sensibilizá-las, alertá-las.
Tarefa especialmente importante nos nossos dias, porque os desenvolvimentos actuais na Alemanha afligem imenso esta mulher judia de 95 anos.

"Na rua desfilam nazis gritando slogans que já foram criados há muitos, muitos anos, com a saudação nazi, com tudo o que lhes ocorre... E a AfD desfila com eles. Isto é assustador. Temos a Pegida, temos a NPD. Para as pessoas que passaram por aquilo, naquela época, isto é realmente... nem sei descrever até que ponto isto é horroroso para nós."

Bejarano foi levada para Auschwitz em 1943, onde começou por ser forçada a fazer trabalhos muito pesados. Era a prisioneira nº 41948. Mas teve sorte: entrou numa orquestra de raparigas. O instrumento que aprendera a tocar era o piano, mas tinha de tocar acordeão, que tratou de aprender de forma autodidacta. Foi o que a salvou. Como membro da orquestra, estava mais protegida e não era obrigada a fazer trabalhos pesados. No entanto, os piores momentos que passou no campo foram aqueles em que estava a tocar com a orquestra, particularmente quando chegava um comboio.    

"Estes comboios que aqui chegavam sobre estes carris... estas pessoas que vinham nos comboios: foram todos levados para o gás. Eram os comboios que iam para a câmara de gás. E nós estávamos ali, obrigadas a fazer música. As pessoas ouviam a música e pensavam - estou certa disso - que um lugar onde há música não pode ser assim tão mau. Era a táctica dos nazis. Não tínhamos saída. Não podíamos fazer nada, absolutamente nada."

Repetidamente foi obrigada a ver até onde os guardas do campo eram capazes de ir.

"Por exemplo, havia aquele chefe Moll, com os seus dois cães - tinha pastores alemães - que obviamente estavam treinados para morder pessoas até as matar. Horroroso. Andava sempre na rua do campo com os cães, e se calhasse de não gostar da cara de algum dos prisioneiros, ou se estivesse com vontade de gozar o espectáculo de ver os cães a matar uma pessoa, açulava-os contra alguém. E os cães desfaziam aquela pessoa com os dentes."

Bejarano ficou naquele campo cerca de meio ano, até ser enviada para Ravensbrück. Em 1945 conseguiu fugir na altura em que os nazis estavam a evacuar o campo devido à chegada iminente dos Aliados. Já se passaram 75 anos, mas Bejarano continua a pensar diariamente nas imagens horrorosas, nas atrocidades cometidas pelos nazis.   

"Não há como evitar pensar nisso. Vocês têm de compreender que para mim é muito duro ter de falar tantas vezes sobre este tema. Mas faço-o, porque sei que é extremamente importante. Mas, para mim, isto não é uma coisa fácil. É sempre muito duro contar a minha história."
[repare-se no olhar de Esther Bejarano ao dizer isto: 4:50]

E, no entanto, ela fá-lo. Bejarano visita escolas, faz palestras, e continua a apostar na sua paixão: a música. A música salvou-lhe a vida em Auschwitz, e é agora um bom meio para falar sobre aquilo que viveu. Bejarano sobe frequentemente ao palco com a banda rap de esquerda "Microphone Mafia", e transmite a sua mensagem de forma clara: a História não se pode repetir!

Por isso mesmo vê com grande preocupação os paralelismos com o que testemunhou no tempo do nazismo, a brutalização da linguagem que observa em funcionários da AfD. E quando algum país europeu se recusa a aceitar refugiados, também aí reconhece os traços daquela época.

"É o que lhe digo: naquele tempo fizeram exactamente o mesmo. Por exemplo, a minha irmã fugiu para a Suíça, e foi enviada de volta para território alemão. E foi assassinada. Hoje é um pouco diferente, mas há semelhanças."

O que faz com que seja muito importante não calar. Bejarano gostaria de ver mais humanidade, e exige do governo alemão que tome medidas para contrariar esta tendência. Combina essas exigências com uma advertência inequívoca: 

[6:26] "Vejamos: eu sei bem o que acontece a seguir, se isto continuar assim e se não se fizer nada para o evitar. Se estes partidos de direita ganharem ainda mais força, então... vejo um futuro muito negro. Porque pode voltar a acontecer o mesmo que aconteceu naquela época."

   

isto acontece 75 anos depois da libertação de Auschwitz (2)

Neste vídeo há algumas passagens do discurso histórico do presidente da República da Alemanha, Frank-Walter Steinmayer, em Yad Vashem, no dia 23 de Janeiro de 2020.






O presidente alemão começou por se dirigir à assembleia em hebraico, e a seguir passou para inglês. Por respeito às vítimas e ao local, não fez o discurso na sua própria língua, o alemão.

O discurso completo, em inglês, pode ser visto aqui. Partilho o texto:



“Blessed be the Lord for enabling me to be here at this day.”

What  a  blessing,  what a  gift,  it is  for  me  to  be  able  to  speak  to you here today at Yad Vashem
Here at Yad Vashem burns the Eternal Flame in remembrance of the victims of the Shoah.
This place reminds us of their suffering. The suffering of millions.  
And it reminds us of their lives – each individual life.
 
This  place  remembers  Samuel  Tytelman,  a  keen  swimmer  who won  competitions  for  Maccabi  Warsaw,  and  his  little  sister  Rega,  who helped her mother prepare the family meal for Sabbath.
This place remembers Ida Goldish and her three year-old son Vili. 
In October, they were deported from the Chisinau ghetto. 
In the bitter cold  of  January,  Ida  wrote  her  last  letter  to  her  parents    I  quote:  “I regret  from  the  very  depth  of  my  soul  that,  on  departing,  I  did  not realise  the  importance  of  the  moment,  [...]  that  I  did  not  hug  you tightly, never releasing you from my arms.”
 
Germans  deported  them. Germans  burned  numbers  on  their forearms. Germans  tried  to  dehumanise  them,  to  reduce  them  to numbers, to erase all memory of them in the extermination camps. They did not succeed.
 
Samuel and Rega, Ida and Vili were human beings. And as human beings, they live on in our memory. Yad  Vashem  gives  them,  as  it  says  in  the  Book  of  Isaiah,  “a momument and a name”.
I, too, stand before this monument as a human being – and as a German. 
I  stand  before  their  monument. I  read  their  names.I  hear  their stories. And I bow in deepest sorrow. 

Samuel and Rega, Ida and Vili were human beings. 
  
And  this  also  must  be  said  here: The  perpetrators  were  human beings. They were Germans. 
Those who murdered, those who planned and helped in the murdering, the many who silently toed the line: They were Germans. The industrial mass murder of six million Jews, the worst crime in the history of humanity, it was committed by my countrymen. The  terrible  war,  which  cost  far  more  than  50  million  lives,  it originated from my country. 

75 years after the liberation of Auschwitz, I stand before you all as President of Germany – I stand here laden with the heavy, historical burden of guilt. 

Yet at the same time, my heart is filled with gratitude for  the  hands  of  the  survivors  stretched  out  to  us,  for  the  new  trust given  to  us  by  people  in  Israel  and  across  the  world,  for  Jewish  life flourishing in Germany. 

My soul is moved by the spirit of reconciliation, this spirit which opened up a new and peaceful path for Germany and Israel, for Germany, Europe and the countries of the world.
The  Eternal  Flame  at  Yad  Vashem  does  not  go  out.  

Germany’s responsibility does not expire. We want to live up to our responsibility. By this, you should measure us.
I stand before you, grateful for this miracle of reconciliation, and I wish I could say that our remembrance has made us immune to evil.  
Yes, we  Germans  remember. But sometimes it seems as though we understand the past better than the present. The  spirits  of  evil  are  emerging  in  a  new  guise,  presenting  their antisemitic, racist, authoritarian thinking as an answer for the future, a new solution to the problems of our age.
I wish I could say that we Germans have learnt from history once and for all. But I cannot say that when hatred is spreading. I  cannot  say  that  when  Jewish  children  are  spat  on  in  the schoolyard,  I cannot say that when crude antisemitism is cloaked in supposed criticism of Israeli policy. I cannot say that when only a thick wooden door prevents a right wing  terrorist  from  causing  a  bloodbath  in  a  synagogue  in  the  city  of Halle on Yom Kippur. 

Of course, our age is a different age. 
The words are not the same. 
The perpetrators are not the same. 
But it is the same evil.  
And there remains only one answer: Never again! Nie wieder! 

That is why there cannot be an end to remembrance. 

This  responsibility  was  woven  into  the  very  fabric  of  the  Federal Republic of Germany from day one. But it tests us here and now. This  Germany  will  only  live  up  to  itself,  if  it  lives  up  to  its historical responsibility. We fight antisemitism! We resist the poison that is nationalism! We protect Jewish life! We stand with Israel!
Here at Yad Vashem, I renew this promise before the eyes of the world. 
And I know that I am  not alone.  
Today we join together to say: No to antisemitism! No to hatred! 

From  the  horror  of  Auschwitz,  the  world  learned  lessons  once before. 
The nations of the world built an order of peace, founded upon human rights and international law.

We Germans are committed to this order and we want to defend it, with all of you. 
Because this we know: Peace can be destroyed, and people can be corrupted. 

Esteemed  Heads  of  State  and  Government,  I  am  grateful  that together  we  make  this  commitment  today: A  world  that  remembers the Holocaust. A world without genocide. 

“Who knows if we will ever hear again the magical sound of life?  
Who  knows  if  we  can  weave  ourselves  into  eternity    who knows?” 
Salmen  Gradowski  wrote  these  lines  in  Auschwitz  and  buried them in a tin can under a crematorium. 
Here  at  Yad  Vashem  they  are  woven  into  eternity: Salmen Gradowski, Samuel and Rega Tytelman, Ida and Vili Goldish. They  were  all  murdered. Their  lives  were  lost  to  unfettered hatred. But our remembrance of them will defeat the abyss. And our actions will defeat hatred. 

By this, I stand. 
For this, I hope.   

Blessed be the Lord for enabling me to be here at this day.


17 dezembro 2019

parece o facebook


"Isto parece o facebook!" foi o comentário revoltado e triste ouvido a uma visitante da casa de Max Liebermann, ao ler esta carta dirigida ao pintor, na altura em que fora nomeado director da Academia das Artes de Berlim:



                                                                                                                Berlim, 6 de Agosto de 1924
                                                                                                                W 15 Fasanenstraße 15



Para o senhor (professor) Max Liebermann
                                          Berlim, W. 7 Pariser Platz 7

Graças à sua capacidade tipicamente judaica de se insinuar, conseguiu o lugar de director de um Instituto Superior de Artes alemão, que é de todos o menos merecido por um judeu untuoso como você. 


Todos os alemães estão profundamente revoltados com esta usurpação infundada e esta pouca vergonha. Pode ter a certeza de que muito em breve rebentará a tempestade, e toda a escumalha mentirosa de judeus será rapidamente varrida da Alemanha, mas você será enforcado porque conspurcou a arte alemã. De facto, você só chegou tão alto devido à ajuda dos percevejos judeus que usaram o dinheiro deles para lhe pagar. O enorme movimento alemão contra o judaísmo parasita e fraudulento já não está disposto a aceitar passiva e calmamente os seus actos maléficos e criminosos, antes conseguirá, com a maior precisão e energia, exterminar para sempre essa corja. A nossa paciência chegou ao fim. No que lhe diz respeito, não lhe concederemos tempo algum para se regozijar com este triunfo. Se dentro de 8 dias não prescindir voluntariamente do cargo de que se apoderou de forma insolente, do mesmo será

v i o l e n t a m e n t e 
 afastado.


Assinado: Seidl  


---

Parece o facebook, e parece os comentários nos jornais: a identificação de um inimigo ao qual se atribuem parasitismo e intenções malignas em relação a "nós" (os políticos, os refugiados, os migrantes, os ciganos, os negros de certos bairros), a ilusão de que se fala em nome de todo um povo, o apelo à violência ("e ninguém lhe dá um tiro?"), a redução de humanos a substantivos colectivos de animais ou a pragas de insectos.

Já vimos aonde é que esta linguagem, aliada a um contexto de instabilidade da Democracia, pode levar. Hoje em dia já vemos esta linguagem banalizada no espaço público, e o seu uso - consciente ou involuntário - é um importante instrumento do insidioso ataque às Democracias que está a ser conduzido "com a maior precisão e energia".

Se fosse hoje, o Herr Seidl residente na Fasanenstraße nº 15, um dos bairros mais chiques da Berlim daquela época, responderia às críticas que alguém dirigisse aos termos desta carta alegando que tem o direito de dizer o que pensa porque esta corja esquerdista ainda não conseguiu acabar com a liberdade de expressão, e que nenhuma ditadura do politicamente correcto o impedirá de dizer as coisas como elas são e como têm de ser abertamente ditas.

Que não haja dúvidas: este tipo de discurso dos Herr Seidl do nosso tempo faz parte de uma estratégia de destruição da Democracia e das impressionantes conquistas em termos de incorporação dos valores humanísticos que as sociedades fizeram após o pesadelo da segunda guerra mundial. Temos obrigação de tomar medidas para proteger o mundo do século XXI e de evitar que se repitam as catástrofes do século XX. Neste vídeo, Sacha Baron Cohen reflecte sobre algumas medidas possíveis e urgentes.  



---

À margem do tema do post, deixo mais alguma informação sobre as perseguições de que o pintor Max Liebermann foi alvo por ser judeu.