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08 outubro 2013

to Russia with love - Herta Müller


(o Speedy Gonzalez a traduzir poemas da Herta Müller... quão baixo se pode descer?)


ARTISTAS

para Michail Chodorkowski


O nosso soberano
tinha mãos excelentes
bordadas a branco
e um cravo vermelho natural
como uma flor olho-de-sangue no chapéu e
um botão chamou
o cuco cantou o
hino no caldo entornado e quem
o ofendia apanhava muitos
anos frios por traição

Herta Müller





10 novembro 2011

afinal "cigano" significa o quê? (1)

A dois passos da porta de Brandenburgo realiza-se hoje e amanhã um simpósio sobre os ciganos europeus - algo que dará que falar nos próximos anos, anunciavam na cerimónia de abertura.
Estive lá, porque o tema me interessa e porque queria ver e ouvir a Herta Müller. Apareceu: uma mulher pequenina e frágil, vestida de preto, uma carteira prática tipo mochila, toda curvada sobre os braços cruzados em cima do peito, como se estivesse a tiritar de frio. Percorreu a primeira fila de cadeiras lendo os papéis nelas pousados - reservado   reservado   reservado   reservado   reservado  - e sentou-se na última, onde também não encontrou escrito "reservado para a Herta Müller".

A sessão começou: Wolfgang Ischinger, em nome do anfitrião (a Fundação Cultural da Allianz), que falou da nossa relação ambivalente com os ciganos, ora romântica ora plena de preconceito e discriminação.

Thomas Krüger lembrou a seguir um apelo de Habermas no jornal FAZ de sexta passada, para que salvemos a dignidade da Democracia, o que passa também pelos valores europeus que são ou não praticados na relação com esta minoria.

Chegou então a vez de Herta Müller ler um ensaio que escreveu há anos, sobre os ciganos da Roménia. Descrevia uma miúda de dez anos que carregava o irmãozito, demasiado pesado para as suas forças, e como se esforçava e lhe limpava a boca com uma ponta da saia florida, perguntava-se se já estaria vendida para um casamento, contava na sua voz triste e clara algumas das regras tradicionais que dão à mulher um lugar de degredo. Contava de um pogrom acontecido há dez anos numa aldeia, as casas incendiadas, os ciganos desalojados de pés descalços nos campos à entrada do inverno, e que tinham sido avisados por um polícia, que todos na aldeia - a polícia, o professor, o padre - sabiam de antemão o dia e a hora. Contou ainda que uma jornalista lhe pediu para tirar do texto a referência ao inverno, porque ia ser publicado no verão, e que em 1991 os ciganos romenos lhe pediram para lhes chamar ciganos e não Roma - "porque esse é o nosso nome, e o nome é bom se nos tratarem bem".
No pequeno debate posterior repetia muito a palavra "raiva", agitava-se contra aquela jornalista "que não teria sistema nervoso, não teria sentimentos".

Morten Kjaerum, da Agência Europeia de Direitos Humanos, forneceu alguns números: 60% dos ciganos europeus são discriminados quando procuram trabalho, 20% quando tentam ter acesso aos cuidados de saúde, 18% são vítimas de agressão por motivos racistas. Apelou a uma abordagem global e simultânea dos problemas para quebrar os círculos viciosos da exclusão e da pobreza, abordagem essa que tem de passar pelo diálogo com os próprios ciganos e com os seus vizinhos. Lembrou que não se pode ceder à tentação de, em tempo de crise, passar a problemática dos ciganos para segundo plano, pois eles são também uma oportunidade económica: dadas as altas taxas de natalidade, dentro de algumas décadas uma percentagem grande dos jovens a entrar no mercado de trabalho será proveniente deste grupo.

Silvio Peritore, politólogo, avisava que a sociedade europeia não aprendeu nada com o assassínio de meio milhão de ciganos pelos nazis - caso contrário, comportar-se-ia de outra maneira. Os ciganos são ainda hoje vítimas de um violento racismo que na Europa pós-holocausto não devia existir. E é uma violência racista ancorada no meio desta sociedade, desta Europa de cultura e valores - não apenas nos grupos extremistas. Não se exige tolerância, mas respeito. Referiu sobreviventes do genocídio nazi, que pura e simplesmente não conseguem acreditar no que os seus olhos vêem hoje. Mas o problema vem de longe: vem da continuidade que se seguiu à guerra, e que permitiu que muitos nazis permanecessem à frente de lugares vitais na sociedade, cuidando de evitar que aos Roma e Sinti fossem concedidos mais direitos. Para terminar, apelou a uma mudança, porque esta situação "é contra os nossos valores e faz-nos perder credibilidade".

Zoltán Balog, secretário de estado húngaro para a inclusão dos Roma, queria ter histórias bonitas para contar, mas só pôde falar do que falta fazer: 2/3 dos ciganos húngaros vive em situação de pobreza, mais de metade deles (cerca de 400.000) em situação de extremíssima pobreza; a esperança de vida dos ciganos é 10 anos mais baixa que a da restante população; a Polícia tem ainda de aprender a não discriminar as vítimas quando estas são ciganas; já estão a olhar o problema de frente, agora falta olhar os ciganos nos olhos; já há 100 pessoas no ministério dedicadas ao trabalho de inclusão. Mas os ciganos não são um grupo homogéneo - nem dentro do país, e muito menos a nível internacional. Por exemplo: gitanos espanhóis podem protestar tão alto como os restantes espanhóis contra a entrada dos ciganos romenos.
O que é importante ter em conta é que fica mais caro excluir que integrar. Mas, atenção: integrar não é assimilar, é incluir. É fundamental incluir os ciganos na resolução dos problemas europeus - por exemplo, na falta de mão-de-obra para trabalhos indiferenciados. Terminou com uma advertência: os programas de apoio aos ciganos não estão a resultar porque essas pessoas são neles tratados como objecto, e não como sujeito. Os programas são feitos sem lhes perguntar o que querem, e como.

A última intervenção do dia foi a de Klaus-Michael Bogdal, autor do livro "A Europa inventa os ciganos", que começou por louvar a contribuição de Herta Müller, acrescentando que de um modo geral os textos literários sobre os ciganos costumam ter um tom completamente diferente: ou de desprezo ou de fascínio. Depois explicou os quatro elementos centrais da História dos ciganos na Europa:
- à chegada, no séc. XV, já foram vistos como uma ameaça;
- rapidamente se firmou a ideia de que a convivência com os ciganos era impossível, porque envolvia riscos graves;
- ao sair da Idade Média, as sociedades mediram a sua evolução civilizacional por uma demarcação dos ciganos - não procuraram os pontos comuns, por muito pequenos que fossem, mas a maior diferença;
- a Europa "inventou" os ciganos, criando imagens que não correspondem à realidade. Não há confiança na capacidade de evolução ou adaptação civilizacional dos ciganos.
A diferença fundamental entre o racismo anticiganos e o anti-semitismo: aos judeus é retirado o seu valor, enquanto aos ciganos não é reconhecido valor algum. O fascínio pelos ciganos é um fascínio à distância (deu o exemplo de Brentano, que romantizava os ciganos, mas se agarrava bem à carteira quando chegava mais perto deles). Este desprezo é algo praticado continuamente, até na literatura. Esperava-se que a literatura pós-Guerra tivesse um outro olhar sobre este povo, mas isso não acontece. Pior: dado que o anti-semitismo é proibido, o racismo é desviado para os ciganos. O modo como a nossa sociedade os trata é um momento "descivilizador" da nossa História.

***

No fim algumas pessoas pediram autógrafos à Herta Müller, e eu também. Ela demorou-se ainda um pouco a falar com o Klaus-Michael Bogdal, e falava com o corpo todo, esbracejava, balançava o tronco. Como uma erva ao vento. Voltou-se para nós, olhou para a pilha de livros que eu levava, decidiu sentar-se para os assinar numa mesinha. Eu ajoelhei-me à sua frente, e ela disse numa surpresa contente: ah, as colagens. Tinha tanto para lhe dizer sobre as colagens, mas perguntei apenas: "e como faz essa poesia? senta-se em frente às palavras, à espera que o poema faça o seu caminho por entre elas?"
"Não! Procuro-as uma a uma!"
Como será sentar-se em frente a um monte de revistas e procurar palavra por palavra "erva" e "passeia" e "há horas" e "no meu vestido novo" e "a primeira" e "a segunda" e "poça" e etc.?
A poesia deve ser um trabalho muito difícil.

Herta Müller

Hoje é dia de Herta Müller. Vou vê-la num simpósio sobre ciganos (que na Alemanha não se chamam "ciganos", mas Roma e Sinti - "ciganos" era o carimbo com que os marcavam para o gás, ou para a prostituição forçada no bordel do KZ).

Sobre esta escritora já aqui falei (ora a brincar, ora a sério, ora impressionada). Hoje acrescento um dos seus poemas escritos com tesoura, que fazem parte de um livro delicioso: "Die Blassen Herren mit den Mokkatassen".




A fotografia vem neste site, onde se pode ouvir também a autora a ler vários dos seus poemas - vão ouvir, vão ver, garanto que devolvo o preço a quem não ficar satisfeito)


Uma tradução possível (*) do poema nesta criação:

O pior    é que    a erva    passeia    há horas    no meu vestido novo    
e    eu    sentada    no    banco de betão    uma    de cinco    em frente
ao cabeleireiro    a primeira    é    insensata    a    segunda    tem 
olhos grandes    a    terceira    é manhosa    a    quarta    e    a    quinta    
essas    sou eu    porque    por    baixo    de mim    há    uma    poça    
vejo    -me    dentro dela    e    tenho de    fazer caretas    senão    
uma    das    duas    que    eu sou   não consegue    distinguir    o     
gorro de pele    na    cabeça    da    outra    do    pássaro    morto    
na    poça


(*) eu bem sabia que me devia ter inscrito naquele curso para tradução de poesia do literarisches colloquium berlin, que além de ser gratuito é num sítio lindo na margem do Wannsee, e além disso tinha a vantagem de aprender a olhar para os poemas a traduzir como se nem eles fossem um palácio nem eu fosse um, bom, esqueçam, muuuh (mas sorridente, num prado).


09 outubro 2009

sobre a mesa de Herta Müller, uma caixa de palavras...

para fazer poemas assim:


Herta Müller, de Berlim



Escuso de me armar em especialista: até ontem à noite não sabia nada sobre esta mulher, nem sequer sabia que na Roménia há uma minoria, os "suábios do Danúbio", que fala alemão.Mas entre o noticiário de ontem e o Spiegel online de hoje (está muito bom!) desvenda-se-me um novo mundo.

Alguns apontamentos:

"Sabes que o Nobel da Literatura veio para Berlim?" é uma frase que encerra o essencial. O Nobel não vem para a Alemanha, mas para a cidade onde mora uma escritora cuja única pátria é a língua alemã (onde é que já ouvi algo semelhante?) - para mais um alemão algo diferente, um enclave da língua.

A escritora nasceu na Roménia, no seio de uma minoria perseguida. Essa experiência atravessa a sua obra e confere-lhe uma relevância especial no nosso tempo - algo que talvez tenha pesado bastante na decisão de lhe atribuir este prémio.

Resumidamente (esta parte vem da Wikipedia alemã): no princípio do séc. XVIII, e após a retirada turca, a região do Banato, bastante despovoada, foi objecto de um enorme esforço de colonização por parte dos austro-húngaros, para o que foram atraídas pessoas provenientes sobretudo do sul da Alemanha. Em 1920, o Tratado do Trianon desloca a região da Transilvânia, da qual o Banato faz parte (claro que não podia omitir esta importantíssima informação!), da Hungria para a Roménia. Esta mudança teve, de início, repercussões muito positivas para a reanimação da cultura alemã daquele grupo, já que pôs fim ao esforço húngaro de assimilação de todas as minorias étnicas. O despertar de um certo nacionalismo evoluiu naturalmente para uma posição de simpatia em relação aos projectos de Hitler - tal como, aliás, aconteceu com outras minorias alemãs do Leste da Europa. Quando, em Agosto de 1944, a Roménia trocou o Terceiro Reich pelos Aliados, os alemães do Banato passaram a ser vistos, de um dia para o outro, como inimigos. E a situação piorou com a chegada do Exército Vermelho. Em Janeiro de 1945, grande parte da população foi enviada para trabalhos forçados na União Soviética, de que resultaram vários milhares de mortos. Os que puderam ficar no Banato foram expropriados, e muitos foram transferidos à força para outras regiões da Roménia. A partir de 1955 a situação deste grupo melhorou sensivelmente (regresso à região e recuperação dos direitos que lhes tinham sido retirados no fim da guerra), para se degradar de novo na época de Ceausescu, devido à sua política de combate às minorias étnicas.
É neste mundo que Herta Müller nasce a 17 de Agosto de 1953, e é dele que foge quando, em 1987, vai morar para Berlim.

O Spiegel, e particularmente este comentário de Ulrich Baron, descreve uma quase-apátrida, emocional e crítica, profundamente marcada pelo seu passado. Uma mulher que luta contra o esquecimento e a condescendência em relação aos crimes do comunismo. Uma escritora que inventa expressões novas quando a realidade excede as palavras disponíveis: "época de pele e osso", "envenenamento de luz", "anjo da fome", "baloiço da respiração" e "pá do coração". Uma figura frágil, tímida perante as câmaras fotográficas, dizendo com um sorriso: "não sou eu - são os livros!". E remata: este prémio refoca o olhar sobre uma Europa de identidades baseadas não na nacionalidade, mas nas ligações culturais.

Não conheço os livros, mas gosto de alguns nomes que escolheu. Especialmente este: "Hoje preferia não me ter cruzado comigo". Outro, "Hunger und Seide", dará um belo trocadilho em português: "Fome e seda".

E não me sai da cabeça esta imagem: em cima da sua mesa de trabalho há uma caixa cheia de palavras.
Uma caixa cheia de palavras.

a Herta Müller e eu...



(Hehehe, ó pra mim aqui em biquinhos de pés encostada à outra berlinense)

A Herta Müller e eu temos algo muito fundamental em comum: somos ambas vítimas de cabeleireiras palermas que insistem em nos fazer um corte de cabelo tipo anos vinte à frente e anos loucos atrás. Eu, que já quase consegui emancipar-me, se um dia destes a encontrar no café dou-lhe uma forcinha. Talvez até a leve à barbearia do senhor Luís, que tem muita fama.

Confesso que ontem me fez muita impressão ver a figura dela nas entrevistas. Aquele cabelo! Aquele cabelo! Senti-me tão próxima dela na tragédia, nem imaginam.

***

Pronto, agora que já desvairei um bocadinho, posso passar a temas sérios no post que se segue.