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22 junho 2010

Durango & Silverton Narrow Gauge Railroad

Quem já está em Mesa Verde pode bem entrar numa de "já agora", e dar um saltinho a Durango (a 60 milhas desse Parque) para participar numa das mais extraordinárias jornadas ferroviárias do mundo, como assegura o meu melhor conselheiro de viagens: the Durango train is the most spectacular in the world, if the weather allows you to see the mountains.



Já agora, fomos: saímos em busca de um comboio a vapor para turistas, e demos com um belo naco de História dos EUA.

Se a conquista ferroviária dos EUA tivesse sido feita pelo Estado, e não pela mão invisível do mercado, Durango chamava-se Animas City. No caso concreto desta cidade, a mão pode ter sido invisível, mas não era anónima: general William J. Palmer, herói da Guerra Civil, proprietário da Denver & Rio Grande, inteligente investidor e, de um modo geral, agente de desenvolvimento por motivos nem sempre altruístas.
Palmer vinha desde 1871 a traçar a sua linha ferroviária pelo mapa abaixo, primeiro de Denver para Colorado Springs (cidade fundada por ele, mais uma prova do seu fantástico faro para o negócio, pois logo viu que aquele local havia de dar um magnífico centro turístico), depois até Pueblo (onde tratou de criar uma empresa metalúrgica integrada que lhe permitiu reduzir em 50% os seus custos com os carris, e que se tornaria no maior empregador do Colorado durante algumas décadas), e ia avançando aplicadamente, com os olhos postos em Santa Fé e mais além. O sonho era ligar Denver à Cidade do México.
Tempos conturbados aqueles: apenas vinte anos antes a fronteira do México tinha sofrido um brutal empurrão para o sul, o território do Colorado ainda não fazia parte da União, a Guerra Civil era tragédia recente. Como se não tivesse já problemas de sobra com as dificuldades próprias do empreendimento e os impasses financeiros, Palmer tinha ainda de suportar a concorrência de outras companhias ferroviárias, e em particular a da Santa Fe Railroad (mais exactamente: a Atchison, Topeka & Santa Fe), que queria a todo o custo dominar a rede de transportes naquela região. Aconteceu o que tinha de acontecer: uma autêntica sequência de Tom & Jerry, envolvendo pistoleiros a guardar pontos estratégicos para a construção das linhas, presentes a políticos e magistrados, cenas de espionagem. A D&RG acabou a perder a melhor passagem para sul, Raton Pass, a favor da SFR. Decidida ainda a chegar a Santa Fé, optou por um pequeno mas difícil desvio: para oeste, na direcção de Alamosa, fazendo assim a primeira experiência de construção ferroviária nas Montanhas Rochosas - do qual nasceu o orgulhoso slogan "Thru the Rockies... Not Around Them". Saber vender os fracassos como vitória é a alma do negócio.
A luta continuou. Ambas as companhias tinham interesse numa ligação de Pueblo para Leadville, cidade que estava a ter um acelerado crescimento devido às minas de prata. A D&RG tencionava construir a ligação ao longo do rio Arkansas, por uma estreita passagem de penhascos abruptos, a Royal Gorge. E eis que chegou o momento fatal: num restaurante, empregados da Denver & Rio Grande descuidaram-se a conversar sobre esses projectos, outros clientes (ou talvez espiões, ou talvez esta história esteja muito mal contada) ouviram e foram contar à Santa Fe Railroad, e daí a nada havia cenas de pancadaria, tiroteios e até tribunais a decidir quem tinha direitos sobre aquela passagem.
Estou até em crer que foi por causa deste episódio que, um pouco por todo o mundo, começaram a fazer cantinas nas empresas: para o pessoal poder falar à vontade sem medo de espiões da concorrência.
Resumindo, que a história já vai longa: para a Denver & Rio Grande e a Santa Fe Railroad foi feito um Tratado de Tordesilhas, sendo que a primeira não podia explorar a região para sul (e lá se foi o sonho de chegar à Cidade do México) e a segunda não podia explorar para oeste de Cañon City. Esta veio a tornar-se uma grande empresa ferroviária continental, enquanto que a D&RG acabou por se fixar sobretudo no Colorado e em Utah. De onde se poderá talvez concluir que, naqueles tempos do faroeste, quando as coisas metiam tribunais e políticos, umas mãos eram mais invisíveis que outras.
E foi assim que a empresa do general Palmer descobriu a sua vocação de montanhista no apoio aos cada vez mais importantes centros mineiros daquela região. A conquista da impenetrable wilderness foi feita com vias reduzidas (com carris mais leves, mais baratas, mais fáceis de instalar naquele terreno acidentado, mais aptas a permitir curvas apertadas), não recuando nem sequer perante a dificuldade de uma passagem a 3000 m de altitude no Cumbres Pass. Mal eles sabiam o que por lá neva em certos meses, e as dificuldades que as pobres locomotivas haviam de ter para atravessar a invernia. Mas estávamos em 1880, ainda faltavam uns enormes cem anos para as informações metereológicas mundiais ficarem à distância de uma tecla enter.

Em Julho de 1881 o comboio chegou finalmente ao vale do rio Animas - a Durango. Não: a Animas City. Não: a Durango.
Naquela época, era normal a mão invisível levar os comboios até perto das cidades. Onde houvesse um aglomerado com uma dimensão aceitável, a linha parava um pouco antes, a empresa ferroviária comprava os terrenos à volta da estação, e vendia-os depois a bom preço a quem quisesse deslocar-se da povoação inicial para o novo centro criado pelo meio de transporte.
O descampado no meio do qual se construiu a estação recebeu de Palmer o nome de Durango - talvez a pensar ainda no México. A povoação cresceu e cresceu e cresceu, acabando por englobar Animas City, ali para os lados da 32nd Street. Com o comboio veio também o progresso: bandos rivais e tiroteios, enforcamentos públicos, bordéis ("Sino de Prata", "Jardins Suspensos da Babilónia", etc. - ah, a poesia daqueles tempos...), salas de ópio. E regulamentos a proibir mulheres fancy de "andar a cavalo ou em carruagem aberta, ou de outro modo exibindo ou publicitando a sua profissão pelas ruas de Durango". Regulamentos esses que coexistiam pacificamente com os impostos cobrados às mulheres fancy, e que bom jeito faziam aos cofres da cidade.

Depois, em apenas onze meses, o esforço de 500 homens levou a linha de Durango a Silverton, que era até à data o único grande centro mineiro sem ligação ferroviária, e com péssimos acessos.






Silverton ou Silvertown? Segundo a lenda (nos EUA é assim: ao fim de meia dúzia de anos, já se pode falar em lendas; um europeu às vezes tem de se conter para não rir - e pergunto-me se não virá daí a cara risonha dos chineses na Califórnia...), o nome nasceu da resposta de um mineiro a quem perguntaram se encontrara ouro: "We ain't found any gold, but we struck that blasted silver by the hunnerd ton!"
Prata às toneladas, portanto. O transporte de uma tonelada de minério custava $80 pelo trilho para carretos de mercadorias, construído em 1872 sobre um velho caminho dos Ute, o Stony Pass - uma passagem tão difícil, que em certos pontos era preciso passar a carga para lombos de burros. Pela Million Dollar Highway, estrada com peagem construída por um outro empresário de visão e arrojo, Otto Mears, custava $30. Nas carruagens da D&RG custava $12, e mesmo assim as pessoas reclamaram que o preço era demasiado alto. Fazer o quê? A Santa Fe Railroad estava impedida de construir um discount railroad para aqueles lados...

Ao chegar a Silverton, Palmer teve uma surpresa: o vale não permitia a mesma gracinha que em Durango. Não havia terrenos nas imediações da cidade que a Denver & Rio Grande pudesse comprar ao desbarato para vender logo depois com muito valor acrescentado. Por esse motivo, viu-se obrigado a comprar os terrenos para a linha e a estação a preços proibitivos.
Ora aqui está uma autarquia como já não há: em vez de pagar para trazer o progresso à sua cidade, cobra preços altíssimos ao empresário? Isto só mesmo no faroeste.
Em todo o caso, a ligação ferroviária trouxe à cidade um enorme impulso, que durou até aos anos vinte, altura em que o preço do minério baixou substancialmente, levando ao encerramento da maior parte das minas. Mas como diz o povo: quando se fecha uma porta, abre-se uma janela, e esta veio em forma de Lei Seca. Silverton terá sido uma das poucas cidades onde os alambiques podiam funcionar descansadamente à luz do dia, porque os fiscais vinham de comboio, o que dava tempo a que os produtores, avisados por amigos em Durango, dessem um jeitinho ao cenário.

Tal como em Durango, a ligação ferroviária trouxe riqueza, progresso e bordéis. Estes revelaram-se uma das actividades económicas mais estáveis da cidade. Apesar dos esforços de alguns cidadãos de bem, que chegaram a pagar a pistoleiros para repor a ordem e a moralidade, as casas de prostituição foram ficando: afinal de contas, tinham uma importante função social para os mineiros, além de contribuírem para a saúde financeira da urbe.
Com o passar dos meses, o comboio trouxe também mulheres de respeito, e a pouco e pouco a cidade tornou-se um lugar agradável para constituir família.
Mal fechou o último bordel da Blair Street, veio Hollywood (não sei que conclusões tirar sobre esta coincidência). A fábrica de sonhos descobriu o potencial destas linhas de via estreita no sudoeste do Colorado, e escolheu a região para rodar o filme "A Ticket to Tomahawk", com Marilyn Monroe. Para melhorar os efeitos cénicos, mandaram pintar o comboio de um amarelo que ganhou nome próprio (Rio Grande Gold) e acabou por se estender a toda a frota. Por meados dos anos cinquenta o antigo cor-de-verde-quando-foge já tinha sido integralmente substituído em todas as carruagens pelo alegre amarelo, e as fotografias dos turistas nunca mais foram as mesmas.


Os filmes continuaram: Across the Wide Missouri (filmado em grande parte nas montanhas San Juan, embora se dissesse que passava em Montana), Denver & Rio Grande, Viva Zapata, Lone Star, Around the World in Eighty Days, Butch Cassidy and The Sundance Kid.

O impulso publicitário oferecido pela indústria cinematográfica , com resultados brilhantes no turismo, não impediu a empresa D&RG de pretender encerrar a linha, a par com todas as outras de via estreita que detinha no Colorado. É verdade que o antigo tráfego ligado ao minério estava em vias de extinção. Contudo, havia cada vez mais turistas interessados naquele percurso. Mas a empresa, que não, que não, que não estava interessada em manter a ligação Durango-Silverton - apesar de ser, de entre todas as suas linhas de passageiros, a que lhe trazia maior facturação.
E então aconteceu algo improvável no país do laissez faire capitalista: os cidadãos uniram-se, fizeram prova da viabilidade económica e da importância histórica daquele troço, foram para Washington protestar por causa do fim da indústria mineira. Pelo seu lado, a empresa não se fez rogada a inventar soluções alternativas, que chegaram a incluir a oferta de um serviço de camionagem e autocarros para fazer concorrência ao seu próprio comboio. Como entender uma decisão tão estranha? Talvez assim: nos anos 50 do século passado, via estreita não era propriamente sinónimo de progresso e algo que contribuísse para a imagem de dinamismo de uma empresa. Além disso, a linha Durango-Silverton tornava-se uma área cada vez mais isolada, geografica e economicamente, no novo painel de especialização da empresa.
Pergunto-me o que é que a CP tem, que a D&RG não teve: no fim de uma longa série de protestos, alegações e contra-alegações, o Estado obrigou a empresa privada a manter aquela ligação ferroviária em funcionamento, mesmo contra a sua vontade. Nas décadas seguintes o troço foi vendido repetidas vezes, tendo sido comprado em 1998 pelos fundadores da American Heritage Railways, amantes de linhas e comboios antigos, que se vêem sobretudo como guardiães de um património histórico. Muito para nosso gáudio, que num belo dia de Julho nos fizemos à estrada em direcção a Durango, trocámos as reservas feitas na internet por bilhetes vintage muito bonitinhos, tivemos imensa dificuldade para escolher entre carruagem fechada ou gôndola, lado direito ou esquerdo, e partimos para a grande aventura. Direcção: westbound, embora Silverton fique a Nor-Nordeste de Durango. Westbound é uma reminiscência da história centenária daquela linha americana, para a qual todos os trilhos iam dar a Denver, que ficava no Leste absoluto do mapa D&RG. Os comboios que saíam de Denver (mesmo os que iam para sul, viravam para oeste pelo Cumbres Pass, e em Durango seguiam para Nor-Nordeste) iam todos para Oeste.

Direcção: Westbound. Partida! O fumo da locomotiva, o apito piiiiiiiiii, o arranque suave, pouca-terra pouca-terra pouca-terra, sair da cidade, avançar pelo meio de belos prados verdes junto ao rio. Tudo conforme os melhores sonhos do turista.



Ao fim de alguns minutos apareceu um rapaz simpático a vender óculos de protecção (iguaizinhos aos Ray Ban, mas por $3), bebidas e livros sobre a história do comboio e da linha. Íamos para a romaria, comprámos tudo.
A seguir apareceu um ranger que falava pelos cotovelos, mas que, devido ao ruído do comboio, era quase impossível de compreender. Informava sobre as formações geológicas, contava histórias dos índios Ute, que acabaram por ter de sair daquela região devido aos mineiros, e informou ainda que, apesar de nos livros de ciências constar que naquelas montanhas não há alces, alguns deles não sabem e volta e meia aparecem por lá. Toda a gente se riu e tratou de espreitar pela janela na esperança de avistar algum alce analfabeto.

Sobre a beleza do trajecto, falam melhor as fotografias:









O tom avermelhado das pedras no rio é sinal de uma tragédia ecológica: a oxidação dos minerais misturados com a água, consequência da actividade mineira. Recentemente tem sido feito um enorme esforço para limpar o rio, cujos efeitos positivos estão patentes no paulatino regresso da população de trutas.



A cidade de Silverton é estranha: algumas ruas desastradamente largas mas em terra batida e cheias de irregularidades, casas vitorianas ao lado de barracões, e para onde quer que se olhe, um cerco de montanhas.





Vivendo como vive praticamente só do turismo, a cidade oferece restaurantes para todos os gostos. Escolhemos um saloon, com comida típica (diria: "típica de lata", mas a fome é boa cozinheira, como dizem os alemães), e um piano todo desafinado, do qual um figurante tentava arrancar sem anestesia algo ligeiramente semelhante à "sonata ao luar".



Depois do almoço demos um passeio pela cidade, e parámos numa loja de souvenirs que estava com saldos porque ia fechar. Mais uma. Comprámos uma t-shirt "out of coffee" para a Christina, e fartámo-nos de discutir com o Matthias porque ele queria comprar uma t-shirt "no species, no feces", que tinha nas costas desenhos detalhados das "fezes em perigo de extinção" (do lobo, do urso, do lince, etc.). O que são as coisas: o rapaz comprou a t-shirt com a semanada dele, começou a vesti-la, e nós, sempre que o víamos de costas, ríamos cada vez mais de tamanho disparate. O plano inclinado dos costumes é isto mesmo: uma pessoa cede um bocadinho, e num instante se torna insensível à anormalidade...

A meio da conversa com a dona da loja, ouvimos quatro apitos longos: _ _ _ _
Sinal de que o comboio ia partir, e que tínhamos apenas dez minutos para regressar ao nosso lugar. Também podiam ser cinco: a cidade é tão pequena!

Ao sair da cidade, uma estranha agitação percorreu os turistas em todo o comboio. Nós, que já temos alguma experiência de viagens nos EUA, perguntamos logo: É um alce? Onde está?
É que nestes passeios não é necessário olhar para a paisagem à procura de um animal daqueles tipo troféu fotográfico. Basta olhar para os outros turistas, ou para os carros parados na berma da estrada. São um óptimo indicador.
No caso, era um urso enorme a uns cem metros, que se balançava na encosta enquanto nos observava.
Os serviços municipais de turismo de Silverton estão de parabéns, organizaram tudo com excelência.

A empresa que explora e protege a linha histórica também não dorme no serviço. Oferece bilhetes combinados de comboio e autocarro, com diversos programas alternativos para as horas passadas em Silverton: passeios equestres ou em jipe até aos cumes, visita ao interior de uma mina e garimpagem no rio (tourisme oblige), aventuras em ATV ou snowmobile.
Uma das viagens é feita no comboio, a outra em autocarro, pela célebre San Juan Skyway, atravessando o Molas Pass (3325 m) e o Coal Bank Pass (3243 m).
Outros programas possíveis: visita a um parque de arborismo numa floresta de faias, só acessível por comboio; viagem de comboio combinada com rafting em Durango; sarau de teatro e vaudeville no Henry Strater Theatre.
Eis como de uma região inóspita e em processo de desertificação se fez um centro turístico de alta qualidade. Com mão invisível e Estado, com espírito empreendedor, arrojo e paixão. E um retoque de cor dado por Hollywood.







De olhos postos nesta espécie de fim do mundo no outro lado do globo, penso na linha do Douro, e nas tantas vias estreitas que em Portugal foram fechadas ou vão ainda resistindo, moribundas. Um dia destes hei-de trazer o meu melhor conselheiro de viagens a este lado do mundo, hei-de-lhe mostrar outras linhas ferroviárias que são igualmente the most spectacular in the world.

22 setembro 2009

Mesa Verde




Ver para crer?
Não, ver não basta: já tínhamos visto muitas fotografias de Mesa Verde, e mesmo assim não estávamos preparados para descer àquele oásis de frescura junto ao penhasco, e deparar com o prodígio das casas arrimadas à rocha.


Um pouco de informação: Mesa Verde é um planalto no Estado do Colorado, cortado por desfiladeiros com vales férteis e, em alguns pontos, monumentais penhascos onde a erosão criou uma espécie de alcovas gigantes.



Foi habitado até fins do séc. XIII da nossa era pelos Anasazi, nome que significa "os antigos" ou até "os antigos inimigos" na língua dos Navajo, o povo que depois deles se estabeleceu naquela região.
Começaram por se instalar no planalto, onde construíam as suas casas semi-enterradas na terra. Por volta de 1200 e durante quase um século, passaram a construir em grande escala no abrigo fornecido pelas paredes côncavas dos penhascos ao longo dos desfiladeiros - as "alcovas".

Viviam da agricultura e da caça, estavam integrados em rotas comerciais que até penas de papagaios provenientes da América do Sul lhes facultavam, faziam belos cestos e recipientes de barro, tinham sistemas de irrigação muito desenvolvidos, e tudo lhes corria de feição.

Até que um dia, no espaço de uma ou duas gerações, sabe-se lá porquê, deixaram tudo - inclusivamente comida e vestuário - e desapareceram.

Em 1888, dois cowboys que andavam à procura de vacas extraviadas descobriram um dos pueblos nos penhascos.
(Bryce também foi encontrado da mesma maneira. Se me deixassem mandar, dava uma medalha de "mérito arqueológico" às vacas daquela região. Ou talvez um doutoramento honoris causa em arqueologia. Merecem.)
Em breve foram descobertos outros pueblos semelhantes, e deu-se início a uma autêntica caça às curiosidades. E que caça: os objectos, abandonados 600 anos antes, jaziam ali à mão de semear. As capas da chuva feitas com penas de peru, os potes de barro cheios de grãos de milho, as sandálias velhas, uma confusão inexplicável.
(Por essas e por outras é que eu faço questão de deixar a casa arrumada antes de ir de férias. Sabe-se lá se nunca mais volto, e se um dia uma vaca se extravia para dentro do meu apartamento e os arqueólogos acabam a descobrir que eu era uma dona de casa daquelas tipo valhamedeus que nem a mesa do pequeno-almoço arruma antes de sair.)
Ainda por cima, tinham o hábito de atirar o lixo pela janela. Uma coisa por demais - louça partida, roupa estragada, cestos rotos, eu sei lá, uma profusão incrível, uns autênticos selvagens. Os arqueólogos viram aquilo, e deitaram as mãos à cabeça. Em vez de deixar aquele puzzle, custava alguma coisa ter feito um pequeno museu da aldeia?

A verdade é que não se sabe quase nada sobre este povo.

Os primeiros habitantes são conhecidos por "cesteiros" porque eram exímios artífices de cestos, nos quais até água transportavam (usavam resina para os tornar impermeáveis - muito eu gostava de saber como é que tiravam depois a resina das mãos sem a ajuda da BASF). Uns séculos mais tarde aprenderam a fazer olaria, e a qualidade dos cestos baixou substancialmente. Finalmente, decidiram entrar pela área da arquitectura e da engenharia, com bastante sucesso.



Tudo isto nos foi contado pelo Park Ranger que fez a visita guiada.
De pé, junto a uma kiva (o nome que os Hopi dão uma sala redonda, praticamente toda escavada no solo, com entrada por uma abertura no telhado arredondado, e que servia para múltiplos usos - desde reuniões familiares ou de clã até simples abrigo), falava-nos das várias hipóteses para explicar a súbita retirada. Talvez o excesso de população, a caça dizimada, o exagerado abate das árvores para lenha (eu bem digo que os EUA estão a mudar: agora até já se imaginam catástrofes ecológicas como causa do desaparecimento de um povo), talvez anos sucessivos de seca que poderão ter estado na origem de guerras para ter acesso a alimentos.

Em todo o caso: os Anasazi desapareceram, as aldeias permaneceram esquecidas durante centenas de anos, até que umas vacas sábias deram um empurrãozinho à história, e logo a seguir entrou em cena Nordenskiold, um membro da Academia de Ciências Sueca, que na realidade andava a tentar curar a tuberculose, mas se apaixonou por aquele lugar e passou largos meses a estudar e descrever minuciosamente o que encontrou. Também teve o cuidado de recolher mais de 600 objectos, que resolveu enviar para a Suécia.
E foi aí que as "tough ladies", como dizia o Ranger, "capazes de pôr um mormon a beber em menos de vinte anos" (não tenho a certeza de ter entendido bem, mas ri-me muito) entraram em cena. Furiosas com o roubo de património que estava a decorrer, fizeram tudo o que estava ao seu alcance para impedir aquele transporte. O sueco foi preso (num hotel, podia ser pior), mas logo a seguir libertado, porque não havia nenhuma lei de protecção do património. Rapidamente tratou de encaixotar tudo e preparar-se para atravessar o país de comboio, com o seu tesouro, rumo a um barco que o levasse de volta à pátria. As "tough ladies" não se deram imediatamente por vencidas. Informaram-se sobre os horários do comboio, e telegrafaram para todas as cidades do seu percurso, contando a história na versão delas: "às tantas horas do dia x vai passar aí um grande ladrão". Pobre Nordenskiold. Teve honras de primeira página nos jornais, manifestações de protesto em todas as cidades onde o comboio parou, e quando finalmente chegou à costa já há muito era considerado o inimigo público nº1 de toda a América. De regresso a casa, casou com uma finlandesa, morrendo pouco depois vítima da tuberculose (e se calhar também dos nervos, imagino eu). Assim se explica que muitos dos melhores achados de Mesa Verde tenham ido parar a um museu em Helsínquia.
"Mas era tudo legal", dizia o Ranger, "não podemos criticar estas pesoas à luz da mentalidade de hoje". Infelizmente não havia lei nenhuma que o impedisse de fazer aquilo, do mesmo modo que muitos habitantes da região levaram tudo o que quiseram. Mais tarde, dando-se conta do valor dos objectos, "e porque são gente boa", dizia o Ranger, emprestaram-nos ao Chapin Mesa Museum, onde podem ser vistos juntamente com pequenos letreiros onde se lê: "propriedade de Fulano, que por gentileza a cedeu temporariamente para poder ser apreciada por todos".



Contou-nos ainda um pormenor curioso: os Navajo que actualmente vivem na região não permitem que os seus filhos participem em visitas escolares àqueles locais. Por causa dos espíritos dos Anasazi, dizem eles.

Acredito, e não me admiro:

O passeio continua. Metemos a cabeça dentro de uma das torres, e vemos pinturas na parede à altura do terceiro ou quarto andar.
Os compartimentos eram diminutos, a passagem de uns para os outros exigia o uso de escadas de mão, o acesso tanto ao vale como ao planalto fazia-se por meio de uma escalada íngreme. A sorte deles é que naquele tempo não havia serviço de protecção de menores, caso contrário aposto que os mandavam ir morar para outro lugar (olha, parece-me que encontrei mais uma explicação para o abandono do local...). Alguma preocupação terão tido, contudo, já que a soleira das portas ficava meio metro acima do chão. Mesmo assim, pergunto-me como seria possível criar crianças numa povoação de características tão pouco seguras. Pobres mães, deviam passar a vida com o credo na boca. Ou, talvez, com as crianças às costas.


No fim da visita, subimos por uma série de escadas de mão encostadas a passagens estreitas na rocha. Na parede havia pequenas cavidades com a marca de dedos : os apoios que os Anasazi usavam para as escaladas.



E o parque de campismo?, perguntarão.
Era quase óptimo. Num bosque onde se passeavam corças, com boa sombra, espraiado para ter espaço suficiente entre as tendas, com duche (ah, o luxo!) e até lavandaria. Só se esqueceram de uma coisa: a pia para lavar a louça. Tínhamos de a lavar numa torneira simples junto à estrada, com um lamaçal incrível sob os nossos pés, mesmo junto ao letreiro onde se pedia para não fazer isso.
Enquanto o Joachim e eu fomos à lavandaria, os miúdos ficaram a lavar os pratos. Um casal que passou por eles comentou: "vocês fazem campismo mesmo a sério, cozinham e tudo! Nós não temos paciência para isso, vamos sempre ao drive-in."
Confesso que a última coisa que me ocorreria combinar com campismo em Mesa Verde seria um drive-in, mas pelos vistos à direcção do parque também não ocorreu que alguns campistas podem eventualmente lembrar-se de cozinhar e usar pratos reutilizáveis.

18 setembro 2009

Arches

Entrar no Southwest por Arches não é o mais aconselhado. Melhor seria deixar esse parque e Bryce para o fim da viagem. Depois daqueles, que mais nos pode arrancar grandes "ah" e "oh" de espanto?

É difícil descrever a beleza destas paisagens. E é quase impossível escolher, das centenas de fotografias que fizemos, uma meia dúzia delas para mostrar.

Começo com "les bourgeois de Calais", nome inventado por nós para esta formação fascinante:


Segue-se a vista a partir da tenda, num dos mais belos parques de campismo que conheço. Paisagem magnífica, com imenso espaço entre as tendas dos diversos ocupantes. Mas infelizmente sem duches. Para nos lavarmos, enchíamos garrafões de cinco litros, e água vai. Às escuras, porque é um crime: felony.
(muito eu gostava de saber o nome deste crime em alemão ou português - começo a suspeitar que nestes países não existe...)
E desconfio que não foi o único crime que cometemos: à procura do sítio com mais sombra para montar a tenda, fartámo-nos de pisar terreno até aí virgem - ai a pegada ecológica!



Há inúmeras possibilidades de caminhadas naquele parque, e mais de 2.000 arcos naturais para ver. Como vem escrito no guia que nos dão à entrada, em dias de céu azul como os que lá passámos, é difícil imaginar que aquelas formações rochosas são o resultado de violentas forças (água e gelo, temperaturas extremas, movimentos subterrâneos) ao longo de muitos milhões de anos.
Sim, eu metia aqueles arcos todos nas gavetas "milagre" e "provas da existência divina", e ficava o assunto arrumado.

Um outro fenómeno difícil de explicar é haver tantos carros estacionados e vazios, e cruzarmo-nos com tão poucas pessoas nos trilhos.





Ficámos dia e meio neste parque, o que não chega para quase nada. Ainda assim, pudemos fazer uma caminhada inesquecível: ao fim da tarde, até ao Delicate Arch.
Não direi que foi fácil. O trilho consiste numa subida, por vezes bastante acentuada, de 2,5 km. Fazia quase 40º à sombra - mas não havia sombra.

O percurso passa ao lado de um rancho esquecido. Uma cabana minúscula, com um compartimento só, feita de troncos de árvore. Conta-se que foi construída pelo dono do rancho após a visita de uma filha sua, que ficou chocada com as condições em que ele vivia. Bem, se aquela cabana já era um melhoramento substancial em relação àquilo que existia...
Algumas semanas mais tarde, no museu de história americana em Washington DC, lembrámo-nos dessa cabana ao ler que Abraham Lincoln nascera e crescera numa log cabin.

O arco só aparece no fim da caminhada, por trás de uma formação rochosa. À nossa esquerda vê-se este conjunto de rochas monumentais (reparem nos vestígios de uma cascata enorme, do lado direito - este passeio deve ser muito recomendável na Primavera) e logo a seguir...



...logo a seguir, à nossa frente, o esplendor!



Escolhi esta fotografia por especial atenção a uma leitora deste blogue, que gosta muito de ter pessoas na paisagem para conseguir perceber as dimensões reais.
Nada mais fácil que fazer fotografias do Delicate Arch com pessoas lá perto - de facto, elas insistem em fotografar-se assim. Deve ser para aqueles típicos álbuns de férias "Olha eu feito formiguinha debaixo do Delicate Arch", "Olha eu feito formiguinha junto à Golden Gate Bridge", "Olha eu feito formiguinha ao lado do Big Ben".
Se bem entendi, é a isto que se chama o bug do milénio.

O problema é que estávamos sentados num grande anfiteatro natural ao lado de centenas de fotógrafos amadores e profissionais a tentar fazer a fotografia da vida deles, e basta uma pessoa decidir ir exibir-se para debaixo do arco para estragar o sonho de todos.

Naquele dia, enquanto o sol esteve tapado por nuvens, ninguém protestou demasiado. Mas quando chegou o momento mágico em que o sol, quase ao nível do horizonte, tingiu a paisagem de tons irreais, o pessoal desatou a gritar "buuuuuh! buuuuuh!" a uma formiga que para lá se dirigia. Confesso que tive pena do homem. Deve ter-se sentido assim mais ou menos como no Coliseu de Roma pouco antes de largarem os leões.

E então aconteceu isto:



Num dos momentos de sombra a Christina arriscou-se a fazer uma fotografia sob o arco. Contou-nos depois que é uma sensação incrível, e queria muito que nós fôssemos até lá para experimentar a força que se sente naquele local. Nós é que estávamos com medo dos "buuuh! buuuuuh!" do público em geral, e optámos por ficar sentados e quietos no nosso ponto de observação e encantamento.



A seguir, afoita, resolveu avançar cuidadosamente de gatas ao longo da parede rochosa bastante inclinada, porque queria fotografar o arco à contraluz.
No comments, que é como quem diz: eu não sei como é que os miúdos sobrevivem à própria adolescência, e os pais deles também. Confesso que me ia dando uma coisa má ao vê-la tão longe a fazer algo que me parecia perigosíssimo. E eu ali, a imaginar a minha filha a cair por um escorrega gigante, toda em susto os meus sais, ai! os meus sais! - nem sei o que isso é, mas consta que é o que se deve dizer nestas situações.

Tudo está bem quando acaba bem:


preparativos para a grande aventura, ou: de como muitas coisas mudaram nos EUA, e outras não

Segunda etapa das férias: voar para Salt Lake City, e seguir daí para os parques nacionais.
No aeroporto alugámos um carro, metemos a tralha toda lá dentro, e fomos para um Whole Foods comprar sopas em tetrapack, molhos de tomate biológicos, latas de leite evaporated e tudo o que era necessário para os dez dias de campismo que se seguiriam.
Num Walgreens perdi a cabeça e comprei duas garrafas enormes
(duas, pois, porque a segunda era quase de graça... ainda há-de vir o dia em que aprenderei a não escorregar em qualquer casca de banana marketingueira que me estendam no caminho)
de um produto que agora se usa muito por causa da nova gripe: parece um creme para pôr nas mãos, mas é desinfectante - "kills 99% of all germs", dizem eles, e não sei porquê fico logo a pensar no 1% que resiste.

O Joachim e o Matthias também foram a um REA
(o que eu gosto daquela loja! só por causa dela, até estava capaz de me tornar uma outdoor freak)
(outdoor freak, para mim, é dar um passeio de dois quilómetros nas imediações de uma cidade)
foram a um REA, dizia eu, comprar comida liofilizada para a caminhada no Grand Canyon, e de caminho deixaram-se convencer a comprar dois Camelpak que se vieram a revelar formidáveis.
(Agradeço a quem me disser agora como os devo lavar e conservar. Li alguma coisa sobre enchê-los com uma mistura de água e bicarbonato, mas...)

Tínhamo-nos esquecido que Salt Lake City é terra de mórmones, onde as bebidas alcoólicas estão proibidas. Depois de muito procurar, conseguimos encontrar um Liquor Store, onde comprámos umas zurrapas a preço de Borgonha premier grand cru. Adiante, que tristezas não pagam dívidas.

Algumas centenas de quilómetros a sul demo-nos conta que os EUA mudaram imenso. Não era preciso ter visto na internet, ainda na Alemanha, se havia algum supermercado de produtos biológicos em Salt Lake City. Estes produtos invadiram todos os supermercados! Até no banal Albertson's de Moab foi possível encontrar praticamente tudo o que tínhamos comprado no famoso Whole Foods.
Convém esclarecer que não sou fanática dos organic. Mas nos EUA, onde as listas de ingredientes dos produtos têm vários metros de comprimento, prefiro comprar biológico, para evitar os aditivos químicos.

Carro cheio, fizemo-nos à estrada.

quando a noite cai na praia

Sobre o concerto em Stern Grove não me apetece contar muito.
Basta dizer que é um erro ir do concerto da Filarmónica de Berlim na Waldbühne para um qualquer em Stern Grove. Enfim, desconto a Joan Baez, que esteve lá uma semana antes de nós, e mesmo assim...
Mas para quem não tiver a Waldbühne de Berlim como termo de comparação, esses concertos nos domingos estivais de San Francisco são muito engraçados.
E uma óptima oportunidade para fazer um piquenique com os amigos.

O nosso programa tradicional de domingo: depois de Stern Grove, apanhar lenha no Golden Gate Park e ir para a praia fazer uma fogueira.
No Verão a praia é fria (acho que já falei disso nos posts anteriores), mas depois do pôr-do-sol o vento pára, os ruídos da cidade desaparecem como por magia, e um imenso sossego pousa sobre nós.


(fogueiras na Ocean Beach, ao fundo do Golden Gate Park; vê-se à direita um dos moinhos holandeses que foram construídos para captação da água para regar o parque)





(quem não sabe é como quem... faz pássaros de fogo sobre a praia quando queria fazer as luzes da cidade)



(quem não sabe é como quem... fotografa a tranquilidade quando queria fotografar uma fogueira)

retrato de família


O Zeum é um sítio fantástico para passar umas horas com os filhos. Aliás: a nossa sorte é que eles só nasceram ontem, e ainda não lhes ocorreu dizer "se te portas mal, não te deixo ir comigo ao Zeum!".
E mais não digo, podem-se informar directamente no site.

Passámos lá uma bela manhã a moldar figuras de plasticina para fazer depois um filme. Eu fiz o Joachim (fartei-me de rir quando lhe vesti aquela linda camisa havaiana), ele fez-me a mim (fartou-se de rir quando, vingativo, me deu aquele ar de noiva do incrível Hulk), os miúdos fizeram-se um ao outro.
(O Matthias também estava engraçado, mas já não sei porque é que não compareceu à sessão fotográfica.)

Terminado o filme, e gravado o nosso CD, os miúdos foram preparar sketches de tv. Escolheram o cenário (o gabinete oval da Casa Branca, claro), e escreveram o diálogo, que depois o teleponto lhes apresentava. Depois de tudo preparado, entraram na sala de paredes verdes, onde as câmaras e o teleponto já estavam a postos para a gravação.
E saiu isto: a Tina Fey sentada na secretária do presidente; o Obama entra na sala a dançar e senta-se ao lado dela; ela faz perguntas, mas quase não o deixa abrir a boca para responder; estão nisto quando o Obama se dá conta que há uma mosca a voar na sala; mata-a, e mostra-a à câmara de televisão.

O que seria do imaginário desta geração se não houvesse o youtube?

when I'm sixty-four

Comprámos burritos e limonadas mexicanas no Geary Boulevard, logo a seguir aos quarteirões russos, e fomos almoçar num banco do parque de Point Lobos, com vista para as Seal Rocks.
Depois passeámos ao longo do Camino del Mar. Nestas incursões pela natureza inóspita (!!!) é sempre bom ter um guia experiente, como aquele nosso amigo que, no ano em que me ocorreu nascer, já estava a apanhar boleia de um bacalhoeiro para ir passar dois anos de férias na Europa, com entrada pelos Açores dos anos sessenta. Um homem experiente, portanto.
Pacientemente, explicava como identificar poison ivy, dava nome aos pássaros que víamos, ensinava o caminho para as melhores amoras, o funcho mais tenro.
Numa curva do caminho colheu com delicadeza uma pequena flor laranja, e sugou-lhe a seiva. Depois, de olhos fechados, foi metendo a flor na boca, mastigando devagar. Na paisagem apagada de nevoeiro existia apenas aquele homem, a mancha de cor na sua boca e a evidência do prazer dos sabores.



Os Beatles eram muito novos quando escreveram aquela "when I'm sixty-four". Ah, demasiado novos, coitaditos - não percebiam nada da vida.
Começo a desconfiar que por volta dos 64 anos as pessoas estão suficientemente sábias e livres para um erotismo muito bem decantado.

(Comprei hoje o filme "Wolke 9", mas acho que vou esperar 20 anos para o ver)

17 setembro 2009

sol e sombra

Como se pode ver pelas fotografias do post anterior, o Verão é a época menos propícia para visitar San Francisco.
Caso não acreditem, perguntem ao Mark Twain, que gostava de se armar em vítima dos elementos: "the coldest winter I ever saw was the summer I spent in San Francisco."

Se um dia me cruzar com ele, hei-de-lhe explicar que as coisas nunca são exactamente o que parecem. Nos dias de nevoeiro, basta saber em que colinas de San Francisco se pode encontrar o sol. Ou, melhor ainda, atravessa-se a baía e vai-se passar umas horas a Sausalito. Reparem nas últimas fotografias daquele post: uma enseada com água esmeralda, o sol esbadanado sobre a região de Marin County.

Se um dia me cruzar com o Mark Twain, hei-de-lhe dizer: "quem não sabe é como quem não vê..."

Ou talvez não diga nada. É que de repente lembrei-me de como é passear em downtown: vai-se ao longo de uma rua, manga curta. Chega-se ao cruzamento, casaco e cachecol. Atravessa-se a rua. Tira-se o casaco e o cachecol. Vai-se ao longo de uma rua, manga curta. Chega-se ao cruzamento, etc.


16 setembro 2009

um eléctrico chamado...



Um eléctrico chamado cable car com motor.
Melhor dizendo: um cable car que foi tirado dos trilhos e recebeu um motor para passear turistas pela cidade. Há várias companhias, mas nenhuma é tão boa como a Classic Cable Car.
Se isto parece publicidade descarada, é. Mas é por uma boa causa: a vossa.
Quem quiser passear por San Francisco com o melhor guia que conheço, deve contactar aquela empresa e reservar uma viagem com o Chris.

Na altura do dot-com boom, o Chris era impersonator. Ia de evento em evento na sua carrinha, que era um guarda-fatos ambulante. Nas portas de trás tinha à esquerda o Laurel e à direita o Hardy, talqualzinhos, e ambos eram ele a olhar com ar pomposo e brincalhão para o condutor que o seguia. Mas depois veio 2000, o pessoal do dot-com começou a passar mal - alguns deles vieram parar à rua, literalmente: em questão de semanas passaram do apartamento para a pensão barata, daí para o carro e num instante estavam a dormir na rua. De repente, nenhuma empresa estava interessada em contratar um impersonator para animar as festas. Fim da festa, o Chris teve de arranjar outro emprego.
Uma das últimas vezes que o Chris impersonou foi numa garage sale que fizemos, tentando vender a tralha toda antes de regressar à Europa. Combinámos uma festa de despedida com os amigos, no meio dos móveis e tarecos para vender, com bolos, café e vinho. O Chris veio também, era o inspector Columbo, e passou metade da festa a ask just one more question. Depois desistiu, porque estava um calor insuportável, tirou a gabardina e desatou a comer bolos à paisana.
A garage sale, agora que penso nisso, foi um fiasco. Por especial favor compraram-nos um banco stokke por 10 dólares, coisas assim. Em compensação, passámos uma tarde formidável com amigos e conhecidos. Um deles, completamente empanturrado de doçaria portuguesa, rematou: "da próxima vez, devias vender os bolos e oferecer os móveis".

Voltando ao cable car: este Verão fomos passear com o Chris pela cidade que tão bem conhecemos, apenas pelo prazer de o ouvir. Vale a pena, acreditem. Além de mostrar os bairros habituais dos turistas, leva-nos ao outro lado da Golden Gate Bridge. E conta piadas. E manda piadas aos turistas que leva. E sabe contar episódios da história da cidade de uma maneira engraçada. E larga o carro por aquelas ruas incrivelmente íngremes, gritando "ai os travões! ai os travões!"





Era Verão, o nevoeiro não nos falhou. As massas inacreditáveis de nevoeiro que avançam do mar para a baía e nem deixam ver a ponte.






Uma última nota: no regresso, a Christina fotografou um candeeiro da rua, perto de South Beach.
Uma das curiosidades de San Francisco é a iluminação das ruas. A forma dos candeeiros muda de bairro para bairro - há-os chineses, japoneses, italianos, mais modernos, mais antigos.