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20 setembro 2015

Cinemagosto 2015

A nossa mostra de cinema português em Berlim, o Cinemagosto 2015, decorreu no último fim-de-semana de Agosto - já vai quase há um mês. Esta semana desmontaremos a exposição da Maria Leonardo, e depois começamos a sonhar o Cinemagosto 2016.

Durante quatro dias Portugal exibiu-se em Berlim, e tinha muito para mostrar: o excelente cinema português, a nossa Anabela Moutinho a apresentar cada filme, falando também do seu autor e das suas circunstâncias; as folhas distribuídas à entrada na sala, informando e convidando a uma análise crítica; a homenagem ao Manoel de Oliveira (finalmente entendi!) (se não fosse o Cinemagosto, o que seria de mim...); a festa portuguesa no foyer do cinema, os pastéis de nata, o presunto e o queijo, o pão e o vinho; os DVD de filmes portugueses.

Pessoalmente, ganhei imenso. Ganhei as horas com os voluntários que nos ajudam a montar as bancas e a vender, ganhei os risos com eles e a sua generosidade ("queres ver este filme? vai lá, vai lá, eu fico a tomar conta de tudo!"). Ganhei um almoço muito divertido com a Dorte Schneider e o Markus Lenz. Ganhei as conversas com um público simpático e interessado. Ganhei as conversas com os nossos patrocinadores, o seu entusiasmo e apoio à nossa causa ("decidimos dar-vos mais do que combinámos porque o que fazem tem imenso valor!" - onde é que estão os meus lenços de papel, que se desmaterializam sempre que preciso deles?). E tive a sorte de conseguir ver cinco filmes - ao contrário do ano passado, que me correu muito mal: então uma pessoa quer reduzir a sua insularidade e trata de arranjar um grupo de malucos para trazer cinema português a Berlim (isto é teoria liberal pura e dura: se cada um perseguir o seu interesse egoísta, o mundo fica melhor...) e acaba a ver apenas dois?! Algo está podre nessa teoria liberal... Bom, como ia dizendo: vi metade dos filmes da mostra, gostei muito de todos. E especialmente do Fleurette, do Sérgio Tréfaut. Um documentário absolutamente tocante - mesmo que tivesse sido o único, já teria bastado para me dar por muitíssimo satisfeita com o meu Cinemagosto 2015. Olhem aqui o trailer (espero que os vossos lenços de papel não se desmaterializem como os meus):




Esta semana encerra-se o Cinemagosto 2015 com o fecho da exposição fotográfica. Olho para o que fizemos e sinto um orgulho enorme por ser parte deste grupo de pessoas, sinto-me grata pelo apoio de todos e feliz por saber que queremos continuar.






  




15 agosto 2015

porque hoje é sábado

(foto)

Fui dar a volta matinal com o Fox. Meia hora, dois ou três quilómetros pelas ruas do bairro. Vimos dois carros em movimento, e inúmeros ciclistas e joggers, além dos vizinhos a trabalhar no jardim. Depois tomei o pequeno-almoço com lentura, ao som deste concerto:



Sossego de pouca dura: hoje é dia de arranjar uma vítima que venha comigo de carro (de carro!...) distribuir flyers do Cinemagosto pela cidade toda. Mas, porque hoje é sábado, hei-de parar na Paz d'Alma a beber um cafézinho com a Ana e a comer uma das suas natas Berlin, e na Bekarei vou comprar uma broa portuguesa (ou talvez uma caixa cheia de bolos, daquelas "um de cada"), e agarrem-me que ainda vou perder o juízo no Restaurante Nau do Hotel Sana.

Assim de repente parece que este post descambou para um "post escrito em parceria com", e é mais ou menos verdade. Essas são algumas das empresas que apoiam generosamente o Cinemagosto, e sinto-me muito grata (apesar de não me chamar Cinemagosto, e andar nestas trapalhadas por carolice, e até agora só ter lucrado com isto a nata que a Ana me ofereceu, além de muitos jantares e cocktails no Hotel Pestana, mas isso é uma história mais comprida). E gosto imenso, mesmo imenso, do que fazem.

De modo que: olhem bem para mim antes de sair para o meu tour de flyers. Depois deste sábado, nunca me viram tão magra...


17 julho 2015

a formiga e a cigarra



Este ano o Cinemagosto teve mais uma ideia genial (cof cof cof) (estes pólenes...): alargar a mostra de cinema português também a outras artes, dando mais visibilidade a artistas portugueses residentes em Berlim. Falámos com o cinema, que gostou da ideia, e depois convidámos a Maria Leonardo, que é fotógrafa. Estava tudo a correr muito bem, quando o cinema disse que afinal não ia poder dispor do espaço previsto para a exposição de fotografia.

Somos portugueses, não nos atrapalhamos com tão pouco: imediatamente arranjámos soluções alternativas, e decidimos explorar a possibilidade de associar ainda mais os dois hotéis de cadeias portuguesas em Berlim a este evento, fazendo neles a exposição. O Hotel Pestana recebeu-nos no próprio dia em que pedimos, com o director hoteleiro, o director financeiro e os técnicos que nos responderam imediatamente a todas as questões de ordem prática. O Hotel Sana recebeu-nos logo a seguir - apesar de ser encerramento do mês e estar cheio de trabalho, o director financeiro atendeu-nos com imensa gentileza e paciência, e respondeu a todas as perguntas.
De modo que ao fim do dia eu estava numa de "agarrem-me, que ainda vou dizer bem do sistema capitalista..."

Ora bem: aquela história da cigarra e da formiga está muito mal contada. O que eu vi na semana passada foi formigas extremamente atarefadas a arranjar tempo para parar e falar com as cigarras, em atitude disponível e generosa, e a ajudar a resolver o problema sem mais demoras. As cigarras, por sua vez, trabalham que até parecem formigas - o Hannes Reiss e a Anabela Moutinho que o digam (e a Maria Leonardo, na parte que diz respeito à exposição de fotografia, mas isso é assunto para outro post).

Já eu, que tenho andado a formigar noutras lutas, no Cinemagosto sinto-me um pouco como o outro que só cá veio ver a bola. Mas digo-vos que está a ser um jogo fantástico.


(roubei aquela fotografia descaradamente do mural de facebook da Maria Leonardo)


25 agosto 2014

nós cá dentro do cinemagosto (3)



Atravesso a praça Rosa Luxemburgo, vou buscar pastéis de bacalhau e croquetes ao restaurante Lata. Começa a chover, pingos grossos e frios que me atravessam a saia e gelam a pele. Canto para aquecer. A nossa mostra de cinema português anda agora pelos temas "Nós também aqui - a Ditadura" e "Nós por lá - a Guerra Colonial", o nome da praça exige: escolho Campanades a Morts, sigo pela rua fora a cantar de cor e do peito, encoberta pela chuva: La misèria esdevingué poeta /  i escrigué en els camps / en forma de trinxeres, / i els homes anaren cap a elles. / Cadascú fou un mot / del victoriós poema.




O Cinemagosto está a chegar ao fim. Chove, carrego um tabuleiro enorme de pastéis de nata, penso nos voluntários do Cinemagosto a vender bolos de mel da Madeira feitos fiel criado Jau do cinema português, atravesso a praça Rosa Luxemburgo, canto Abril 74 (que cantaria a menina das tranças pretas quando atravessava Lisboa com os seus raminhos de violetas?), e penso que vou ter saudades desta semana.


No foyer, enquanto o público não vem, sentamo-nos à conversa. Desta vez, falamos sobre palavras alemãs intraduzíveis - "Rücksicht" (o comportamento que tem em conta os sentimentos, as necessidades, os interesses e os contextos das outras pessoas) e "Zuverlässigkeit" (diz-se das pessoas em quem se pode confiar, por cumprirem aquilo que se espera delas). Palavras-chave da sociedade alemã. Será que uma sociedade mostra a sua diferença nas palavras intraduzíveis que usa? Quais são as palavras intraduzíveis de Portugal? Saudade, é sabido. E talvez "fuodassecaralho"? Desatamos a rir.

Dentro da sala, a Anabela Moutinho - a alma mater desta mostra - apresenta o filme, controla a qualidade da projecção, conduz o debate. O Hannes Reiss traduz. A Teresa Prata filma, e andamos todos muito curiosos para conhecer o resultado final: o nosso Cinemagosto de Prata.




As portas da sala abrem-se, corremos para os nossos postos. As pessoas demoram-se na sala, e saem com ar contente. "Gostei de todos os filmes que vi!", diz uma. "Continuem!", pedem muitos. Encomendam filmes para os anos seguintes. A Anabela Moutinho ouve e responde que bem gostaria, mas certos filmes implicam custos bem mais altos que os fundos que os fiéis criados Jau conseguem arranjar. Não é fácil custear a cultura com bolos de mel.

De serviço no bar estão dois professores universitários, na mesa dos pastéis de bacalhau estão os doutorandos e os doutorados. Os meus filhos ajudam no que é preciso, não têm qualificações académicas suficientes para terem direito a pelouro próprio.



Encontro um velho amigo que não via há anos, e faço um intervalinho na azáfama para parar na alegria. Ele fica impressionado com o tamanho do Matthias e da Christina, eu pergunto pelo filho dele, que ainda ontem andava a aprender a dizer "bola". Já sabe dizer "bolas!", ou algo assim.
   



É o último dia, e apesar do adiantado da hora as pessoas deixam-se ficar pelos vinhos alentejanos e os pratos de presunto, pelas conversas no foyer. Está-se bem no nosso Cinemagosto.
Para o ano há mais.


(Com uma vénia ao fotógrafo Miljenko Perkic, autor destas fotos)


19 agosto 2014

nós cá dentro do Cinemagosto (2)

É definitivo: para mim, o melhor do Cinemagosto, melhor ainda que os filmes, é a sorte de me saber acompanhada por pessoas especiais. Além da equipa de organização, os voluntários que por estes dias nos têm vindo ajudar nas mil tarefas de fazer uma mostra de cinema acompanhada por um pequeno festival de comidas e vinhos, livros e DVDs.

Têm sido dias cansativos, e às vezes não posso evitar perguntar-me porque é que me meto nestas coisas. Mas depois falo com as pessoas que vêm comprar um pastel de nata no fim do filme, e me aparecem com os olhos brilhantes, ou então vejo-me a fazer um intervalinho, sentada com os outros "escravos" em conversa e risos à volta da mesa com um prato de presunto e alguns copos de vinho, estendo as pernas, suspiro por dentro e penso "é por isto".

Pagamos mal, e em géneros: por jorna de trabalho, dois bilhetes para os filmes e uma broa de mel da Madeira. Os voluntários são amorosos, mandam-me ir ver o filme que me interessa, ficam eles a tomar conta do estaminé. Eu não vou, não tenho coragem. Mais uma ideia fantástica que me saiu pela culatra: queria ter uma mostra de cinema português em Berlim para poder trocar as voltas à minha insularidade, e agora tenho cinema português do melhor e não vejo porque estou a vender croquetes e bolinhos de bacalhau...
Para mais, tive os filmes todos em minha posse durante uns dias, em Lisboa, quando os andei a recolher para os enviar para Berlim. Vontade de fazer um controlo de qualidade não me faltou, mas o tal "maldito inquilino" não deixou - por uns dias a minha vida parecia a Casa das Belas Adormecidas, eu a dormir ao lado dos filmes sem lhes querer tocar, querendo. Por estas e por outras é que nunca hei-de arranjar um cargo de CEO numa daquelas empresas que paga muito bem aos CEO, por mais incompetentes que sejam. Ora, incompetente também consigo ser (como se prova no parágrafo anterior, por exemplo), mas parece que me faltam os restantes atributos. Triste vida.

Os meus filhos ajudam, coitados. Sobretudo agora, que chegou a cozinha de Portugal, e eles vêem o património familiar muito melhorado, não querem correr o risco de ser deserdados. E até trazem os amigos. Se não há muito trabalho para fazer, digo-lhes que vão ver o filme. Eles vão, e aprendem muito sobre o meu país, que é também deles. Também por isso esta mostra me vale a pena.



Aleluia! Finalmente deixaram-me mandar: as pessoas da equipa de organização, que são do centro e do sul de Portugal, e mais um alemão que se o deixassem mandar era de Lisboa, quando chegou o momento de dizer "viva o Cinemagosto" disseram "bibócinemáguôasto!" e desataram a rir.
(Havemos de repetir esta foto mais cedo, quando ainda há luz na rua)


O João Botelho conversa com o Hannes Reiss, a Anabela Moutinho sorri para a Teresa Prata, e eu converso com o nosso excelente barman, professor de matemática. Discutimos os teoremas da incompletude de Gödel, que é como quem diz: o meu copo está vazio. 










 
 


E para quem quer saber tudo, tudo, tudo, aqui vão dois vídeos:

- a equipa de preparação em plena azáfama;

- o debate do filme Juventude em Marcha, de Pedro Costa, gravação "pirata" que encontrámos no youtube.


15 agosto 2014

nós cá dentro do cinemagosto (1)



Muito resumido, o arranque foi assim:

Fui buscar a Anabela Moutinho ao aeroporto, viemos dormir a correr, fomos buscar o João Botelho ao aeroporto. A caminho do hotel Pestana, que é um dos patrocinadores do Cinemagosto, demos uma volta para mostrar ao João o que mudou em Berlim desde a última vez que ele cá esteve. Enfim, um pouco do que mudou, que não tínhamos a semana toda, e esta cidade vive em perpétuo refazer-se.

Já levei dezenas de pessoas ao memorial do muro, na Bernauer Strasse, e nunca vi ninguém apanhado como o João Botelho. Aquelas pessoas nas fotografias a preto e branco, assassinadas no caminho para a liberdade, eram da família dele. Todas elas.

A equipa do Cinemagosto reuniu-se pela primeira vez, e a reality tv nunca está quando mais precisamos dela: para filmar o emotivo encontro entre o Hannes e a Anabela, que andam há meses a trabalhar juntos, numa onda de perfeito entendimento e admiração mútua, sem nunca se terem visto mais magros. Por outro lado, foi uma sorte a reality tv não estar lá, porque assim ninguém registou as nossas caras de inveja ao ver a t-shirt do Hannes.
(Decidi - mas vai ser o nosso segredinho, não contem a ninguém - que vou fazer uma para mim, e todos os anos outra. Como o grafismo se mantém, e só mudam as fotografias dos filmes, vai dar uma linda colecção. Hehehehe, desta é que os senhores da Berlinale não se lembraram, hehehe.)

Depois do almoço havia uma conferência de imprensa no cinema Babylon. Mais uma vez a reality tv falhou, e ficou por registar a comoção da Anabela ao descobrir a beleza daquele cinema quase centenário. A casa do Cinemagosto tem a vivacidade tranquila de um amor decantado pelo tempo.

A caminho de casa parámos ainda no memorial do Holocausto e perdemo-nos de vista na crueldade dos seus rectos caminhos, descemos ao centro de informação e de novo fomos separados pelo horror. Já fui lá tantas vezes, e a cada vez fico grata pela penumbra das salas que me recata a dor.

Reencontrámo-nos mais tarde num café, a falar da humildade dos génios e do, digamos assim, kama sutra do cinema (vocês sabem: as posições da câmara, a importância do olhar, a intuição que sabe encontrar o gesto certo, esses erotismos). Falámos do tanto que o Manoel de Oliveira ensina - sobre cinema e sobre o brio da vida. Fizemos planos mirabolantes para hoje, e dissemos adeus até amanhã.

(A mousse de chocolate do hotel Pestana é do outro mundo. Podem crer.)


03 agosto 2014

nós por nós

O trailer do Cinemagosto:

30 julho 2014

Cinemagosto - FilmFokus Portugal



Para quem se queixa que em Berlim nunca acontece nada, e também para todos os outros: de 16 a 20 de Agosto vai haver uma mostra de cinema português no cinema Babylon. Serão 50 anos de excelente cinema (documentário, animação, ficção) para contar quem somos nós, estes portugueses que a partir de 1964 começaram a emigrar para a Alemanha ao abrigo de um acordo assinado entre os dois países.
Temas da mostra (um por dia):

Nós * Nós por cá * Nós também aqui * Nós por lá * Nós por aí

Para quem acha esta descrição muitos críptica, aqui vai o caminho das pedrinhas: programa.
Para quem quer saber mais: Cinemagosto no facebook.

(Escusado será dizer que estou outra vez num daqueles momentos em que sinto inveja de mim própria)