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20 fevereiro 2019
"sois belle et tais-toi!" - Berlinale 2019
Tal como na indústria do cinema em geral, também a Berlinale tem vindo a dar um lugar cada vez mais central às mulheres. Em 2019, a acentuação dessa tendência revelou-se não apenas nos temas dos filmes mas também na secção Retrospectiva, que mostrou o trabalho das realizadoras, desde 1968 até 1999. Por sua vez, o programa de filmes de arquivo da secção Forum mostrou dois filmes de Delphine Seyrig sobre o papel que as inovações técnicas na área do vídeo tiveram na documentação do movimento feminista, e um exemplo das nossas possibilidades, concretizado no filme "Sois belle et tais-toi!". Trata-se de um documentário feito com meios muito simples (a câmara parada na cara da actriz entrevistada) e perguntas muito inteligentes ("terias escolhido ser actor se tivesses nascido homem?", "alguma vez fizeste uma cena com outra mulher, e, caso afirmativo, estavam numa posição de concorrência ou de confiança?", etc.).
O filme está no arquivo do Centre Audiovisuel Simone de Beauvoir, juntamente com milhares de outros documentos sobre a luta feminista. Nele, o que mais me surpreendeu foi dar-me conta de que já em 1976 se falava destes assuntos, mas foram necessárias décadas para a indústria do cinema começar a mudar.
Deixo três trechos de entrevistas, e acrescento uma ideia transmitida já não sei por qual actriz: nos anos quarenta do século passado o código Hays tinha regras muito rígidas para as cenas de cama nos filmes. As pessoas tinham de estar vestidas, e era obrigatório pelo menos uma delas ter um pé no chão. Essa foi uma época áurea para as actrizes: como não podiam fazer cenas de sexo, a indústria cinematográfica dava-lhes outros papéis e fazia-as aparecer nos filmes como sujeitos actuantes e com interesses próprios. A partir do momento em que a censura às cenas de sexo abrandou, as mulheres passaram a ter cada vez mais um papel subsidiário e de resposta às fantasias masculinas.
"Sois belle et tais-toi!" foi o último que vi nesta Berlinale 2019. Uma bela maneira de terminar aquele festival.
09 fevereiro 2019
Berlinale 2019 - segundo dia
Systemsprenger / System Crasher, de Nora Fingscheidt - Sobre uma menina que é entregue ao sistema de protecção da infância porque a mãe não a consegue educar. Traumatizada e desesperada por amor, a miúda entra numa dinâmica de violência e leva o sistema de assistentes sociais e médicos aos limites das suas possibilidades.
A pequena Helena Zengel faz o seu papel impressionantemente bem.
Fortschritt im Tal der Ahnungslosen / Progress in the Valley of the People Who Don’t Know - Um documentário divertido e profundamente irónico sobre uma dinâmica de aproximação entre refugiados sírios e habitantes da região rural junto a Dresden.
Na RDA, chamava-se jocosamente a essa região "o vale dos que não fazem ideia" porque estava demasiado a Leste para conseguir ter acesso à rádio e à tv ocidentais. Estavam inteiramente sujeitos à propaganda do regime - e talvez isso explique em parte o facto de o movimento Pegida ter começado ali.
Depois da reunificação, a empresa de máquinas agrícolas Fortschritt ("progresso") foi fechada. Quando os refugiados começaram a chegar em grande número à Alemanha, alguns deles foram alojados nas instalações abandonadas e muito danificadas. Um grupo de antigos trabalhadores decidiu cuidar deles: nas instalações da antiga empresa ensinam-lhes alemão e contam-lhes como era a vida na RDA. Uma pessoa fica sem saber quem é mais náufrago: os sírios que falam das suas cidades destruídas ou os alemães que viveram uma vida num país que já não existe.
O documentário tem vários momentos deliciosos. O meu favorito é o de uma aula de alemão, quando brincam em conjunto ao faz de conta numa cantina imaginária . Os alemães servem a comida e os sírios vão aprendendo frases simples, "arroz ou batatas fritas?", "estava muito bom, obrigado". No fim, o chefe dos alemães diz-lhes que se não têm dinheiro vão ter de cantar para pagar o almoço. Um dos sírios ri-se e diz aos outros que o melhor é pagar, mas acabam por se alinhar, e começam a cantar a capella um canção lindíssima que parece ser de amor mas acaba a revelar-se como lamento de saudade de um emigrante.
Os alemães também cantam: um coro de reformados entoa canções do tempo da RDA. Canções dolorosamente propagandísticas.
La arrancada, de Aldemar Matias - um retrato em tons suaves de uma família cubana.
Grâce à Dieu, de François Ozon - Não é um grande filme, mas é um filme extremamente actual sobre o caso de um padre de Lyon que abusava de crianças, o silêncio da Igreja à volta do caso, as consequências sobre as vítimas e a terrível dificuldade de falar sobre o que lhes aconteceu. Esta história é muito recente: dentro de algumas semanas o tribunal dará o seu veredicto sobre a acusação ao cardeal Barbarin, arcebispo de Lyon.
Pessoalmente, foi-me muito penoso assistir à primeira parte do filme, quando uma das vítimas, que continuou na Igreja, tentou interpelar o arcebispo com toda a delicadeza. O modo como o bispo e a sua assistente o tentaram enrolar foi de um revoltante cinismo. A Igreja de Cristo não pode ser assim.
François Ozon escolheu um olhar neutro e sem disfarces sobre as fragilidades de todos. Também - et pour cause - as vítimas são pessoas com problemas graves, de um modo ou de outro. O filme não disfarça nem julga: ecce homo.
Berlinale 2019 - primeiro dia
Este ano a minha Berlinale começou da melhor maneira: ainda antes do filme de abertura, vi A Portuguesa, de Rita Azevedo Gomes, numa sessão para a imprensa. Excelente cinema de autor.
Excelente câmara de Acácio de Almeida. Um regalo para os olhos e a inteligência: a sucessão de quadros "renascentistas" atravessados pelos textos de Agustina.
A cerimónia de abertura no Berlinale Palast é só para convidados. Mas o povo - como eu, e como todos os que tiverem o cuidado de comprar o bilhete no primeiro minuto em que o festival abre as vendas - pode ir para o Friedrichstadt-Palast ver a transmissão em diferido. Anke Engelke começou a cerimónia em dueto com Max Raabe, cantando uma declaração de amor a um Dieter Kosslick visivelmente comovido (pode ver-se logo no início do filme). Depois continuou com as piadas e a apresentação dos elementos dos júris, naquela maneira muito berlinense, bastante aquém do profissionalismo de Hollywood mas com uma frescura e uma familiaridade que tudo compensam.
No fim da transmissão em diferido da cerimónia é costume o Dieter Kosslick aparecer a saudar o público do Friedrichstadt-Palast. Mas na quinta-feira passada fomos todos agradavelmente surpreendidos com a presença de Anke Engelke e do team do filme de abertura, The Kindness of Strangers, de Lone Scherfig.
Estava tudo a correr muito bem, mas depois o filme começou.
Devia ter desconfiado, quando a realizadora disse que tentou fazer um filme leve, apesar da seriedade do tema. Como é possível fazer um filme leve quando o tema é violência doméstica?
The Kindness of Strangers é um filme com alguns bons momentos, mas um iniludível sabor a fake.
Apear de tudo, diga-se em seu abono que consegue transmitir o desespero das famílias que vivem sob o domínio de alguém violento - ao menos isso.
De modo que o primeiro dia da Berlinale acabou empatado: um filme muito bom, um filme bastante fraquinho.
Berlinale 2018 - o último post carro vassoura (com bonecos)
Algumas histórias da Berlinale de 2018, agora com bonecos:
1.
Nem sei se lhe chame sovinice ou sentido prático, mas as decorações de Natal ficam lindamente na Berlinale. Durante quase três meses, a "little Manhattan" permanece emoldurada pela floresta de árvores fantasma da Leipziger Platz.
1.
Nem sei se lhe chame sovinice ou sentido prático, mas as decorações de Natal ficam lindamente na Berlinale. Durante quase três meses, a "little Manhattan" permanece emoldurada pela floresta de árvores fantasma da Leipziger Platz.
2.
Um dos meus lugares favoritos da Berlinale, para além dos cinemas propriamente ditos, claro claro, é a lounge da Audi em frente ao Berlinale Palast. Agora é que me vou desgraçar, porque quando isto for do conhecimento de todos deixa de haver lugar para mim, mas pronto: no piso térreo tem um bar onde oferecem o Nespresso. Isso mesmo: oferecem. E no andar de cima tem uma sala com uma vista fantástica para o tapete vermelho, com comida muito boa (infelizmente essa não é oferecida), e volta e meia com concertos ou debates. Passam-se lá boas horinhas enquanto se espera o filme seguinte.
Foi lá que vi este par engraçado: ela a passar um frio dos diabos para ter uma foto daquelas de encher o olho à frente daquele cenário, ele a tirar pacientemente todas as fotos que ela quis, e depois ambos a apreciar o resultado. O amor é lindo.
Um dos meus lugares favoritos da Berlinale, para além dos cinemas propriamente ditos, claro claro, é a lounge da Audi em frente ao Berlinale Palast. Agora é que me vou desgraçar, porque quando isto for do conhecimento de todos deixa de haver lugar para mim, mas pronto: no piso térreo tem um bar onde oferecem o Nespresso. Isso mesmo: oferecem. E no andar de cima tem uma sala com uma vista fantástica para o tapete vermelho, com comida muito boa (infelizmente essa não é oferecida), e volta e meia com concertos ou debates. Passam-se lá boas horinhas enquanto se espera o filme seguinte.
Foi lá que vi este par engraçado: ela a passar um frio dos diabos para ter uma foto daquelas de encher o olho à frente daquele cenário, ele a tirar pacientemente todas as fotos que ela quis, e depois ambos a apreciar o resultado. O amor é lindo.
Foi também em frente ao balcão Nespresso da lounge Audi que passei uma vergonha. Estava ali sossegadinha a bebericar o cappuccino, quando a senhora ao meu lado se virou para mim e atirou:
- Eu conheço-a!
- Hã...
- Vi-a na televisão, há alguns dias!
Ai! Tinha sido entrevistada pouco antes de entrar para o autocarro. Tentei esquivar-me com desculpas parvas, mas os jornalistas foram simpáticos e conseguiram suplantar a parvoíce das minhas desculpas, de modo que estávamos todos a rir quando começaram a fazer perguntas. Queriam saber por qual das portas do autocarro é que eu preferia entrar, e eu disse "pela de trás!" sem hesitação. "E porquê?", perguntaram eles. O meu autocarro já tinha chegado, não tinha tempo para pensar, e: "Porque tenho preguiça de mostrar o meu passe. Tenho-o na carteira, mas não me apetece tirá-lo para mostrar." Daí a nada estava a aparecer na televisão, muito sorridente, a anunciar à Alemanha que sou uma estrangeira preguiçosa.
A senhora no bar do Nespresso sorriu:
- Fiquei tão grata por ter dito aquilo! É que é exactamente o que eu penso. Não dá jeito nenhum tirar o passe para mostrar.
3.
Foi um prazer ver o público do filme Wang Zha de yuxue - Wangdrak's Rain Boots (falei dele aqui). A sala estava cheia de miúdos dos seus 10 ou 12 anos que tinham imensas perguntas a fazer ao rapazinho chinês. No fim, juntaram-se à volta dele a pedir autógrafos. Um enxame simpático.
4.
Na Berlinale 2018 foi anunciado que o seu estimadíssimo director, Dieter Kosslick, ia deixar de estar à frente do festival. Num desses dias parei durante uns momentos a ver a gente que se juntara à espera que ele saísse de uma conferência de imprensa, mostrando cartazes onde se lia "Dieter para (voltar a ser) Presidente". À saída ele foi ter com as pessoas e ficou a conversar com elas um bocadinho.
Isto é Berlim: quando as pessoas sentem que o director do festival de cinema é como se fosse da família.
4.
Numa das últimas manhãs da Berlinale, já dentro do autocarro, reparei que o sol estava a nascer. Saí do autocarro, voltei para trás, esperei pelo sol, e retomei caminho.
Madrugo muito durante os dias do festival, mas vale a pena. Por tudo, e também pelo sol a nascer ao fundo de uma rua.
5.
A Berlinale 2018 foi uma semana de muito frio, e belo céu azul. Entre um filme e outro, pude tirar algumas fotografias engraçadas.
08 fevereiro 2019
Berlinale 2018 - o post carro vassoura
Agora que a Berlinale 2019 começou, dou-me conta de que ou fecho rapidamente as contas da de 2018, ou mais vale esquecer. O problema é que este blogue é o meu auxiliar de memória, de modo que se não escrever esqueço mesmo, e por isso aqui ficam alguns comentários sobre filmes que vi no festival do ano passado.
Não precisam de ler, isto é mesmo só para eu ficar com o meu arquivo mental mais arrumadinho.
Primeiro dia:
- Grass
- Isle of Dogs
Segundo dia:
- Las Herederas
- Damsel - Um western dos irmãos Zellner que não deixou recordações - excepto a novidade de uma jovem noiva de cowboy a contrariar todos os clichés de fragilidade feminina.
- Berlinale Shorts IV
- E ainda: Banda "von Eden" na Audi Lounge, enquanto o pessoal de Damsel não começava a desfilar pelo tapete vermelho.
Terceiro dia:
- Dovlatov - Um dos filmes que mais me impressionou na Berlinale 2019, por transmitir tão bem a asfixia ideológica na URSS e o ambiente de criatividade malgré tout dos anos 70. Recomendo vivamente.
- Allons enfants - A história de duas crianças perdidas em Paris, filmada sem sobressaltos. O realizador, que trabalhou com os próprios filhos, no fim da exibição contou sobre as dificuldades de filmar com crianças daquela idade. Por exemplo, quando as filmagens já iam bastante avançadas, e a filha percebeu que tinha todos os adultos na mão...
- Human Flow (na secção Lola) - Um filme que me levanta de novo a questão habitual: podemos fazer exercícios de beleza com a miséria das pessoas?
Quarto dia:
- La prière - Um jovem toxicodependente vai viver no centro de tratamento de uma comunidade cristã. Seita ou fé? A oração como mantra, mas também como instrumento imposto para diluir o individual.
- Apatride - Em 1975, milhares de marroquinos foram expulsos da Algéria, onde viviam. Hénia e o pai estão entre eles, enquanto a mãe dela, argelina, fica no país. Hénia não desiste da esperança de regressar a casa, apesar de todas as dificuldades. O filme desenvolve-se à volta dessa mulher sem voz, com uma força e uma liberdade interior extraordinárias, retrato das mulheres sem poder, à mercê do destino. A perversão do conselho: "Não queiras fugir ao teu destino, ele há-de encontrar-te". A realizadora, cheia de força e sem papas na língua, agradeceu a oportunidade que a Berlinale lhe deu para ter mais visibilidade: "agora, vai ser mais difícil calarem-me no meu país!"
- Waldheims Walzer - Excelente documentário. Revela uma Áustria oportunista, que escapou entre os pingos da chuva, se armou em vítima, e não teve oportunidade de se confrontar com os seus próprios erros. Mostra o discurso abertamente anti-semita e de ideologia nazi nas ruas. Ajuda a entender os mecanismos que permitiram que o nazismo continue vivo.
- Kinshasa Makambo - Um documentário sobre a resistência política no Congo, as dúvidas sobre as acções e os riscos a assumir, a persistência na luta contra o golpe de Joseph Kabila. E o realizador, Dieudo Hamadi: um herói. Quando, no final, lhe perguntaram se não temia que aquele filme pudesse ter consequências graves para si e para as pessoas filmadas, respondeu: "Falei com todos, e todos quiseram assumir as consequências. Entenderam que valia a pena correr o risco, para que o mundo soubesse como arriscam a vida, a liberdade, a saúde, para lutar por mais democracia no seu país. Quanto a mim: quero lá saber dos riscos! Era meu dever fazer este filme!"
- Trinta Lumes - recordo em particular o ambiente da natureza da Galiza, mas confesso que o filme perdeu 1:0 contra o conforto dos cadeirões do Zoo Palast, e contra o meu cansaço nesse dia.
Quinto dia:
- Toppen av ingenting / The real estate - Um filme dentro dos parâmetros, sobre a especulação imobiliária e a perda de respeito pela vida das pessoas. De destacar, pela novidade: a cena de sexo entre uma septagenária e um homem bem mais jovem.
- The Green Lie - Um bom documentário sobre as ilusões do consumo sustentável e do poder do consumidor. (fiz um post aqui)
- Zentralflughafen THF - recomendo vivamente.
- Ex-pajé - muito bom! Falei dele aqui.
- Era para ver ainda o Chef Flynn, mas desisti desse filme para poder ficar a ouvir até ao fim os indígenas da Amazónia e o antropólogo.
Sexto dia:
- Por parvoíce, um simples erro ao verificar as horas, falhei o Don't worry, he won't get far on foot.
em compensação, pude ver:
- I had nowhere to go (secção Lola) - ahem...
- Premières Solitudes - um documentário fascinante sobre jovens de 17 anos, dito na primeira pessoa com uma abertura desarmante.
- Danmark
Sétimo dia:
- Das schweigende Klassenzimmer / The silent revolution (secção Lola) - mais um filme alemão sobre o passado recente. Neste caso, um episódio verídico passado na RDA, quando uma turma decidiu espontaneamente fazer uns minutos de protesto contra a repressão soviética na Hungria. O caso provocou ondas que chegaram ao topo do regime, e naturalmente à Stasi. Um bom retrato da camisa de força do regime da RDA.
- Ang panahon ng halimaw - Ora bem, ora mal: um filme épico, uma "ópera rock filipina", de Lav Diaz, sobre a repressão no tempo da ditadura. Quatro horas de um filme pesado, brutal, cheio de sadismo e situações sem saída. Para piorar, os textos das canções eram repetidos pelos menos três vezes, e a as cadeiras do Friedrichstadt Palais não são nada confortáveis...
- Our blood is wine - Um filme sobre o vinho da Geórgia, as suas vinhas selvagens, a produção artesanal e arcaica, filmado com iPhone 6. Mencionei-o aqui.
- E ainda uma sessão muito divertida na Audi Lounge: Thorsten Havener revelou alguns segredos da linguagem corporal. Infelizmente já só me lembro de um: quando estamos a mentir, temos tendência a exagerar nos movimentos que fazemos para tentar dar mais força à mentira que estamos a contar.
Oitavo dia:
- Eldorado - Durante alguns dias acreditei que este seria o vencedor da competição. Falei dele aqui.
- Curtas 1 Kplus - As curtas para crianças são sempre um oásis no meio dos temas muitas vezes pesados deste festival. Um intervalinho para sonhar. Notável: Vdol’ ipoperyok / Betweenthe Lines
Between the lines Trailer ENG - Вдоль и поперёк (Трейлер, англ) from Maria Koneva on Vimeo.
- Unga Astrid / Becoming Astrid - Um filme sobre a Astrid Lindgren, que consegue recriar o ambiente de alegria e inteira confiança na vida que - não por acaso, como descobri neste filme - habita os seus livros.
- E no fim de tudo isto: Simon Rattle. (É que não posso deixar a Filarmonia muito tempo abandonada, ainda apanhava uma depressão e sei lá se há psicofármacos para Filarmonias...)
Nono dia:
- Wang Zha de yuxue - Wangdrak's Rain Boots - Um filme delicioso sobre um rapazinho que não tem galochas e é gozado pelos outros por andar sempre com os sapatos de pano molhados. Depois de muito insistir, convence a mãe a comprar-lhe as galochas em vez de uma foucinha para trabalhar no campo. E quando, finalmente, vai para a escola feliz da vida com as suas galochas, a chuva pára, e ele é de novo gozado pelos outros. (spoiler) Então, para fazer com que a chuva volte, rouba os objectos mágicos do feiticeiro da aldeia que está a esforçar-se em trazer sol para as colheitas. O realizador disse no fim que inventou esta história para poder filmar a sua aldeia natal e os costumes daquela comunidade.
- What Walaa Wants - Documentário sobre uma jovem palestiniana que cresceu num campo de refugiados e quer ser polícia. O filme acompanha a sua luta e o seu amadurecimento ao longo de cinco anos.
- Shakedown - Mais um documentário, desta vez sobre um clube erótico para lésbicas, filmado por uma mulher da comunidade - ou seja, a partir de dentro. Um documento raro sobre um lugar único e uma história que poucos conhecem.
- Impreza / Das Fest - Uma jovem polaca que cresceu na Alemanha regressa ao seu país para participar nas bodas de ouro dos tios. O documentário fixa as conversas com os seus familiares, exibe frases e frases e frases de discurso de orgulho nacionalista. A berlinense ouve-os, estupefacta e e cada vez mais muda. O filme pode ser uma boa base de trabalho sobre a impossibilidade do diálogo e do entendimento - mesmo entre pessoas da mesma família que moram em países vizinhos.
- Kein sicherer Ort / Kineski Zid / Ra (Três filmes curtos, sob o tema "heroínas")
Décimo dia:
- Als Paul über das Meer kam / When Paul came over the sea - Mais um filme da nova fase cinematográfica sobre refugiados: "ele e eu". Gostei de ver, e tive muita pena de não ficar para a conversa com Paul. Mas queria muito ver o filme que tinha agendado a seguir. Saí do cinema a correr, atravessei no vermelho mesmo à frente de um carro da polícia, e estes usaram o altifalante para me darem um raspanete com um exagero de décibeis para o cruzamento todo. Sem parar de correr fiz-lhes sinal de que tinham toda a razão e pedi desculpa. Ainda não foi desta que me prenderam.
- The silence of others - Documentário sobre o terror na Espanha de Franco e o silêncio imposto que ainda hoje sufoca.
- Weit (secção Lola) - Comentei aqui.
- Drvo, de André Gil Mata.
- La enfermedad del domingo
Décimo primeiro dia:
- Djamilia
- Fortuna - Um filme excelente da secção de temas juvenis. Sobre uma criança refugiada que aparece grávida. Belíssimo e delicado.
- Güvercin - Outro filme excelente da secção de temas juvenis. Uma história bela e triste sobre um orfão que cria pombos, como o pai costumava fazer, e é apanhado numa teia de brutalidade.
- The Bookshop
- In den Gängen / In the Aisles
Tschüß, Berlinale.
06 fevereiro 2019
Eldorado - Berlinale 2018
Eldorado Trailer (Englische UT // english SUBs) from Markus Imhoof on Vimeo.
Eldorado: Durante alguns dias acreditei que este seria o vencedor da competição. É um documentário cheio de humanidade sobre refugiados no tempo da II GM e sobre os de hoje, numa perspectiva de pertença mútua e sentimento de responsabilidade pelas pessoas que procuram a nossa ajuda.
Uma das coisas que aprendi neste filme: muitos dos que não recebem do Estado italiano o estatuto de refugiado não regressam ao seu país. Em vez disso, escondem-se, pondo-se nas mãos da máfia, que lhes dá alojamento e arranja emprego na agricultura. Metade do que ganham é entregue à máfia, e a outra metade tem de chegar para os seus custos e ainda para enviar dinheiro para ajudar a família. Parte dos produtos agrícolas assim conseguidos são exportados para o país de origem destes refugiados, a preços inferiores aos de produção nesse país.
Outro detalhe: repatriar à força cada um destes refugiados custa cerca de 15.000 euros, em despesas de viagem dele, dos dois polícias que o acompanham e do membro de uma organização contra a tortura. Alguns Estados optam por pagar ao refugiado para ele regressar voluntariamente. Um dos que aceitou os, salvo erro, 2.500 euros, contou perante a câmara que estava muito satisfeito com esse dinheiro, porque lhe permitia comprar algumas vacas e começar um pequeno negócio de lacticínios para sustentar a família. Por azar, a data em que regressou ao seu país coincidiu com a assinatura de um acordo entre esse país e a UE para a exportação de lacticínios europeus a baixo preço.
Ex-Pajé - Berlinale 2018
Ex-pajé foi sem dúvida um dos melhores filmes que vi em 2018, e também um que me provocou enorme embaraço e vergonha.
O filme é sobre uma comunidade de indígenas descoberta em 1969 na Amazónia. Quatro décadas mais tarde, o antropólogo Luíz Bolognesi filma uma aldeia onde as pessoas andam já vestidas à maneira dos ocidentais, têm uma igreja cristã e até internet. O documentário foca em particular a situação do antigo pajé, que foi afastado pelo novo poder religioso, um pastor protestante, e recria um episódio em que o pajé foi chamado, em desespero de causa, para curar uma mulher que tinha sido mordida por uma cobra venenosa. Um momento particularmente forte do filme é aquele em que a discretíssima câmara capta o pajé junto ao rio, longe da aldeia, quando os espíritos da água vêm ao encontro dele e lhe inspiram a música que entoa numa espécie de transe.
No fim da exibição, algumas pessoas da tribo subiram ao palco juntamente com o realizador. Este avisou que, "apesar de os antropólogos não gostarem de padres", naquele filme tomou o papel de realizador e deixou o de antropólogo, e que filmou e montou numa atitude de respeito. À pergunta de alguém do público sobre como explicar a facilidade com que a nova religião se instalou, contou que ali se repetiu de novo a tragédia de 500 anos de História do Brasil: após o contacto com os brancos, em cerca de dois anos morreram 400 pessoas das 700 que viviam naquela comunidade. Nessa situação de crise profunda, a pior de toda a história da aldeia, os missionários vieram dizer que só Cristo salva, e que os pajés são gente do diabo. Simultaneamente, a mulher do pastor dava aos índios os medicamentos que curavam as doenças trazidas pelos brancos. O antropólogo explicou ainda que o afastamento do pajé representa a destruição da herança cultural, uma vez que esta é de tradição oral, transmitida pelos pajés.
A senhora que foi mordida, e cuja vida foi salva pelo pajé, terminou a conversa dizendo que quando saiu do hospital continuou a ir à igreja, porque tem medo.
(Eu a enfiar-me ainda mais fundo na cadeira, morrendo de vergonha.)
The green lie - Berlinale 2018
The green lie é um documentário de Werner Boote e Kathrin Hartmann sobre a destruição do planeta e a ilusão do poder do consumidor, construído como um diálogo entre dois personagens: ele arma-se no parvo engraçadinho que tem boas intenções, ela é a sabichona que para tudo tem resposta. À parte as limitações desta construção, o conteúdo é muito informativo.
Mostra, por exemplo, como as empresas conseguem manipular os selos de sustentabilidade ecológica para assinalarem que o produtor faz não "o ideal" mas "o possível". Um "possível" definido por elas próprias. Mostra também como a profusão de selos de garantia só serve para aumentar a confusão do consumidor. Mostra o sofrimento das populações e a catástrofe ecológica que permitem a produção do óleo de palma que, por mais barato, é a gordura favorita das indústrias alimentares.
Muitas vezes tenho pensado numa pequena passagem desse filme. Os dois estão num supermercado a olhar para as embalagens de café. E então Werner Boote diz:
- Aqui está um café "fair". Se este é "fair", o outro é o quê? Como é que aceitamos que num supermercado europeu seja vendido café produzido em condições unfair? Não é uma questão de pôr o selo "fair" numa embalagem e deixar que o consumidor decida. Café produzido e comercializado em condições desumanas pura e simplesmente não devia chegar aos supermercados europeus!
Penso também no sorriso sereno de Noam Chomsky a dizer: "todas as grandes mudanças - a revolução franceesa, a abolição da escravatura, por exemplo - pareciam impossíveis antes de terem acontecido".
Central Airport THF - Berlinale 2018
O realizador brasileiro Karim Aïnouz mora perto do antigo aeroporto Tempelhof, o mais central de Berlim e desactivado há um par de anos. Quando soube que a cidade ia alojar refugiados naquele imenso edifício, decidiu ir conhecê-los e filmá-los. O resultado é este "Zentralflughafen THF" - um documentário sóbrio e humano, que mostra a solidariedade e as histórias das pessoas.
Tocante a calma do assistente médico iraquiano no meio daquele ambiente confuso, tocante a resposta que um miúdo lhe dá: "não me lembro da minha terra na Síria, só me lembro da casa da minha avó no Verão".
Quando lhe perguntaram por que motivo só filmou os homens, o realizador contou que, de um modo geral, era um pouco mais difícil filmar as mulheres, por motivos culturais. Teria sido possível entrevistar uma paquistanesa, mas esta vinha a fugir à sua família e não era conveniente informar sobre o seu paradeiro. Além disso, sentiu a necessidade de fazer algo contra o processo de diabolização dos homens árabes que estavam a entrar na Alemanha como refugiados. A "cobertura histérica" feita pelos meios de comunicação social estava a multiplicar imagens de enorme carga ameaçadora: enormes bandos de homens a saltar vedações, a saltar de comboios, a invadir as cidades.
Essa necessidade de lutar contra o processo de diabolização tornou-se ainda mais premente após o ataque terrorista de 19 de Dezembro em Berlim.
"São seres humanos", sublinha Karim Aïnouz. "Seres humanos."
Não devia ser necessário dizê-lo.
05 fevereiro 2019
Weit - Far
Há tempos um amigo meu comentou que já ninguém anda à boleia.
"Já ninguém", vírgula: sei de dois rapazes portugueses que há poucos anos atravessaram a Europa à boleia. Chegados a Berlim, ficaram em minha casa. Levei-os à Filarmonia, e iam com umas t-shirts todas amarrotadas. Disseram-me que as bem dobradas tinham buracos...
Suspeito que agora já não se anda à boleia por dois motivos: os transportes ficaram muito mais baratos e a malta tem muito mais dinheiro; temos todos muito medo do "homem do saco" que nos pode atacar em qualquer momento.
Na Berlinale de 2018 mostraram um documentário feito por um jovem casal alemão que andou 3,5 anos pelo mundo à boleia - 50.000 km à boleia. Saíram para Leste, e regressaram pelo Oeste (mas já a três, com a filhinha que lhes nasceu no México).
Se querem saber tudo, o filme pareceu-me um bocadinho seca, porque das regiões e dos povos que eles atravessam só mostra praticamente o condutor que lhes dá boleia. Ou eles à chuva, à espera de boleia. Ou eles perdidos na imensa paisagem, já a desesperar por não apanharem boleia.
Mas deixa uma ideia bonita: não há tantos "homens do saco" como os nossos medos nos dizem. O nosso planeta está cheio de condutores simpáticos, que dão boleia sem saberem a quem.
Berlinale 2019 - primeiras impressões
Já estou há mais de duas horas a estudar o programa da Berlinale, e ainda não me apareceu nenhum filme sobre refugiados. Em 2017, os refugiados foram o tema central do festival, numa abordagem "Ecce homo". Em 2018 continuaram a ter um papel muito importante, mas a perspectiva mudou do "eles" para "podia ter-me acontecido a mim"/"tal como já aconteceu no meu país".
De modo que estava curiosa para saber como é que o cinema olharia para os refugiados em 2019. Aparentemente, deixaram de ser tema.
Também estou a sentir a falta de outros temas muito actuais, tais como: fake news, manipulação das redes sociais, o regresso dos nacionalismos, Brexit, Trump, Bolsonaro, #MeToo. Será que os cineastas estão tão perplexos como todos nós?
À primeira vista, o programa desta 69ª Berlinale podia bem ser o da 60ª. Ou o da 50ª. Filmes sobre questões de há muito: famílias, identidades, pobreza, exploração infantil, LGBT, ecologia. Mas há um detalhe que coloca esta edição no centro do nosso tempo: os temas são conjugados em grande parte no feminino. E a categoria Retrospectiva é dedicada inteiramente a realizadoras mulheres entre 1968 e 1999.
Dieter Kosslick escreve no editorial do programa que o festival deste ano retoma um lema do movimento feminista de 68: "o privado é político". Pois seja. Mas custa-me ver este programa tão à margem das questões que mais ocupam o nosso tempo.
Pode ser que uma segunda abordagem, com mais profundidade, me corrija esta primeira impressão.
A 69ª Berlinale é a última sob a direcção de Dieter Kosslick. Ainda o festival não começou e já sinto saudades deste seu director.
20 dezembro 2018
um belo pequeno filme
A secção de filmes para crianças da Berlinale é uma perdição. Chego a ter ganas de ficar o dia inteiro na Haus der Kulturen der Welt, e esquecer o resto. Em 2018 tive a sorte de ver este "Lost & Found", que agora foi nomeado para o Óscar de melhor curta-metragem de animação.
Um belo pequeno filme --- e não apenas para o Natal.
(Mais material para ver: Vimeo)
(Claro que, se me deixassem mandar, nomeavam também o "Between the Lines", da Maria Koneva. Puro prazer da imagem, da música e da criatividade.)
26 julho 2018
"vinho"
Um dos mitos fundadores dos arménios reza que, depois de a arca de Noé
ter pousado no monte Ararat, os filhos deste desceram ao vale e
começaram a plantar videiras na encosta da montanha. Foi assim que
surgiu o primeiro #vinho
do mundo. Infelizmente os georgianos não podem ver um pobre de camisa
lavada, e desataram a espalhar por aí que o primeiro vinho do mundo
foram eles que o fizeram. Um dia destes o Juncker terá de ir lá
conversar com uns e outros a ver se fazem as pazes no que diz respeito a
este assunto. Dir-lhes-á: "meus amigos, que interessa o passado?
Olhemos antes para o futuro: o que interessa é que os vinhos da Arménia e
os da Geórgia não deixem de correr para o meu copo!" Isto é uma
metáfora, claro (ou o que é que vocês pensaram, hã?), e os arménios
hão-de perceber que o que ele está realmente a sugerir é que a Arménia
escape à esfera de influência da Rússia e se aproxime mais da União
Europeia, e por isso lhe responderão: "Está tudo muito bem, amigo, mas
antes arranje de passar para o lado de cá as nossas vinhas que crescem
há muitos mil anos na encosta do Ararat". É que nos cortes e recortes do
fim do império otomano alguém com poder esqueceu-se de fazer o
trabalhinho de casa e deixou o monte Ararat (mais o que sobrou da arca
de Noé, das primeiras vinhas do mundo, e das milenares igrejas arménias) (estas últimas não são uma questão simbólica) do lado da
Turquia.
Na Arménia, quem vai de Yerevan para Nagorno-Karabakh, a meio do caminho, virando à direita, há uma estradinha sinuosa ao longo de escarpas rochosas com grutas onde encontraram vasilhas de barro com vinho velho de vários milénios (e logo a seguir uma cidadezinha que tem um restaurante onde servem umas batatas com carne iguaizinhas às que se comiam na casa da minha avó) (estou com muita vontade de voltar a esse restaurante, mas não sei se é boa ideia regressar a um lugar onde já fui tão feliz).
Entretanto, não sei que terá acontecido à tradição milenar do vinho arménio, que só me gabaram muito o seu Ararat: um vinho de uvas brancas semelhante ao cognac.
Na Geórgia, por seu lado, ainda há quem produza o vinho segundo as tradições mais arcaicas e carregadas de simbolismo: os kvevri (enormes ânforas onde se faz a fermentação, em locais subterrâneos) demoram sete dias a fazer, "tantos quantos Deus usou para criar o mundo". Muitas das vinhas espalham-se livremente pelas árvores (como as de enforcado, no Norte de Portugal), por arbustos ou simplesmente pelo chão dos campos. Para quem está habituado à matemática regularidade dos vinhedos europeus, aquelas paisagens de videiras todas desmazeladas são um espectáculo estranho e que faz desconfiar da qualidade do vinho.
Mas não, os vinhos da Geórgia têm cada vez mais fama - de tal modo, que um dos filmes que passaram no Culinary Cinema da Berlinale de 2018 (trata-se de sessões especiais, ligadas a um jantar preparado pelos melhores cozinheiros de Berlim) foi o documentário "Our blood is wine". Trata-se de um filme feito com i-phone, para permitir mais proximidade e naturalidade, descrevendo a viagem de um sommelier dos EUA ao encontro dos produtores de vinho na Geórgia.
Mais informações sobre o filme (e um teaser): Berlinale 2018.
Na Arménia, quem vai de Yerevan para Nagorno-Karabakh, a meio do caminho, virando à direita, há uma estradinha sinuosa ao longo de escarpas rochosas com grutas onde encontraram vasilhas de barro com vinho velho de vários milénios (e logo a seguir uma cidadezinha que tem um restaurante onde servem umas batatas com carne iguaizinhas às que se comiam na casa da minha avó) (estou com muita vontade de voltar a esse restaurante, mas não sei se é boa ideia regressar a um lugar onde já fui tão feliz).
Entretanto, não sei que terá acontecido à tradição milenar do vinho arménio, que só me gabaram muito o seu Ararat: um vinho de uvas brancas semelhante ao cognac.
Na Geórgia, por seu lado, ainda há quem produza o vinho segundo as tradições mais arcaicas e carregadas de simbolismo: os kvevri (enormes ânforas onde se faz a fermentação, em locais subterrâneos) demoram sete dias a fazer, "tantos quantos Deus usou para criar o mundo". Muitas das vinhas espalham-se livremente pelas árvores (como as de enforcado, no Norte de Portugal), por arbustos ou simplesmente pelo chão dos campos. Para quem está habituado à matemática regularidade dos vinhedos europeus, aquelas paisagens de videiras todas desmazeladas são um espectáculo estranho e que faz desconfiar da qualidade do vinho.
Mas não, os vinhos da Geórgia têm cada vez mais fama - de tal modo, que um dos filmes que passaram no Culinary Cinema da Berlinale de 2018 (trata-se de sessões especiais, ligadas a um jantar preparado pelos melhores cozinheiros de Berlim) foi o documentário "Our blood is wine". Trata-se de um filme feito com i-phone, para permitir mais proximidade e naturalidade, descrevendo a viagem de um sommelier dos EUA ao encontro dos produtores de vinho na Geórgia.
Mais informações sobre o filme (e um teaser): Berlinale 2018.
22 fevereiro 2018
notícias da Berlinale e, para não variar muito, daquelas palavras começadas por F
Este ano não vi muitos filmes da competição, mas estava capaz de apostar que o documentário Eldorado, do suíço Markus Imhoof, vai levar o Urso de Ouro.
Outro filme que me correu bem hoje foi Becoming Astrid, de Pernille Fischer Christensen, sobre a Astrid Lindgren. Encantador. Encantadora.
O último do dia é que estragou tudo: pensava eu que ia ver um Bollywood, com cores e danças e tudo, e saiu-me uma espécie de catálogo de experiências sexuais queer, e de uma agressividade atroz. Garbage! Já nem no cinema indiano se pode confiar?...
Salvou-me o Simon Rattle, que nunca falha. E também o Barenboim ao piano, no concerto nº1 para piano e orquestra de Béla Bartók. Gostei imenso do diálogo entre o seu piano e a percussão, no segundo andamento (no vídeo: começa a 10:03).
Para que conste: no dia 22 de Fevereiro de 2018 Barenboim tocou como encore "La Fille aux Cheveux de Lin" na Filarmonia de Berlim, e não houve uma única pessoa a tossir na sala. Se isto não é um sinal sério do fim do mundo...
Depois do concerto fui a toda a velocidade para casa, para ir passear o Fox. Sim, voltou! Mas só por um dia. No autocarro, uma amiga comentava que as fotos do post anterior davam a entender que o Fox se tinha ido embora definitivamente. Não, nada disso. Eu é que estou a reagir à maneira de cão: de cada vez que ele se afasta, sinto-me como se fosse para sempre.
Daqui a nada levanto-me para ir dar a primeira voltinha do dia com ele, e depois, à hora a que o sol aparece ao fundo da Westfälische Straße, saio para a correria dos filmes. Quem corre por gosto...
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08 março 2017
Sally Potter sobre o Brexit
De uma entrevista com Sally Potter na The Hollywood Reporter, 11.2.2017, por ocasião da estreia mundial do seu filme The Party na Berlinale:
You were shooting during the Brexit vote. Did the decision leave a dark cloud over the production the following morning?
Yes, it really did. People turned up in tears. It was a couple of days before the end of the shoot, and there was a shock, grief and horror, because this, of course, is a pan-European cast and crew - a Russian DP, Argentinian designers living in Paris, French sound crew. I always do that mix-up on both sides of the camera. It creates a much better working atmosphere for everybody. Nobody can settle back into old habits. It brings new qualities into the mix and the mix is what's thrilling about it. So this feeling of borders coming down and nationalism rising its head... people were in an absolute state of shock.
You were shooting during the Brexit vote. Did the decision leave a dark cloud over the production the following morning?
Yes, it really did. People turned up in tears. It was a couple of days before the end of the shoot, and there was a shock, grief and horror, because this, of course, is a pan-European cast and crew - a Russian DP, Argentinian designers living in Paris, French sound crew. I always do that mix-up on both sides of the camera. It creates a much better working atmosphere for everybody. Nobody can settle back into old habits. It brings new qualities into the mix and the mix is what's thrilling about it. So this feeling of borders coming down and nationalism rising its head... people were in an absolute state of shock.
06 março 2017
último fim-de-semana da Berlinale 2017
(Mais um daqueles posts que ninguém precisa de ler, mas como diz que isto é um diário digital permito-me registar aqui os filmes que vi, que é uma maneira de ir deixando bocadinhos de pão na floresta, para o caso de mais lá para a frente me cruzar com um Alzheimer que me queira trocar as voltas.)
1.
Bones of contention, de Andrea Weiss. Um documentário sobre as atrocidades do regime franquista, em particular contra os homossexuais, e sobre o debate em curso na sociedade espanhola que opõe a necessidade de fazer o trabalho da História ao pavor de se confrontar com ela. Partindo de Federico García Lorca - a pessoa, a poesia e o mistério do seu corpo desaparecido - o filme informa sobre terríveis crimes cometidos nesse período negro da História de Espanha, o modo como permaneceram muito para além da morte de Franco e o papel do silêncio no insidioso prolongamento das injustiças e das ofensas à dignidade humana.
Uma passagem particularmente curiosa é a conversa entre uma lésbica e um homossexual sobre o que é mais doloroso: a perseguição, a prisão, a tortura e os choques eléctricos para curar a homossexualidade (o que o regime fazia aos homens) ou a condição de inexistência absoluta (reservada às lésbicas - que pura e simplesmente não existiam).
2.
No sábado à tarde fui à entrega dos prémios de filmes infantis. A publicidade e eu: tiro e queda. Só de ouvir as referências elogiosas, fiquei com muita vontade de ver alguns dos premiados, em particular:
- o documentário do sul-coreano Chang-Yong Moon Becoming who I was: um miúdo no qual se acredita ter reincarnado um mestre budista, e o percurso de amadurecimento para tocar o seu destino (o júri disse que é uma criança que tem muito para nos ensinar);
- Estiu 1993, de Carla Simón;
- Aaba, de Amar Kaushik;
- A animação curta Sabaku, de Marlies van der Wel ("premiada pela alegria", disseram).
A curta que ganhou o Urso de Cristal, Promise, de Xie Tian, é um filme muito triste e doce sobre uma tragédia que atinge 60 milhões de crianças chinesas: o abandono temporário por parte dos pais, que vão trabalhar para longe. Belíssimo e pungente.
A longa-metragem que ganhou o Urso de Cristal foi a história de duas crianças que encontram um refúgio longe das contradições dos adultos, no qual inventam para si uma família: Piata lod', de Iveta Grófová.
3.
Casting JonBenet, de Kitty Green. Quem é que se lembraria de tentar esclarecer um mistério por meio de um casting de actores para um filme sobre essa história?
Não sei se chegaram muito longe, porque tentei ver o filme naquele último sábado da Berlinale, quando estava a chocar uma gripe, e os cadeirões do Zoo Palast jogaram contra mim. Aquilo não são cadeirões, aquilo são camas de encosto reclinável de luxo. Volta e meia abria um olho, pensava "caramba, este filme é interessante!" e voltava a fechá-lo. Espero não ter ressonado muito. Espero ter aprendido a lição: quanto mais perto do fim estiver a Berlinale, mais desconfortáveis devem ser as cadeiras. O melhor é ir ver só filmes no Friedrichstadt Palast, com menos espaço que na classe económica dos aviões.
4.
Félicité, de Alain Gomis. O filme tem algumas dificuldades de ritmo, mas mostra um ambiente - mais que uma história - de esperança e impotência, alegria e sofrimento em Kinshasa. Fortíssimo o trecho que retrata o percurso daquela mulher para tentar arranjar dinheiro para pagar a operação do filho.
Recebeu o Urso de Prata.
5.
A minha Berlinale 2017 terminou com chave de ouro: Pokot, de Agnieszka Holland. Um filme com excelente ritmo e fotografia, cheio de elementos inesperados e misteriosos (como os animais selvagens cujo olhar observa e acusa), e com uma mulher absolutamente cativante (entre uma Miss Marple e uma esotérica ecologista) numa Polónia rural atravessada pela crueldade da caça.
Recebeu o Urso de Prata - prémio Alfred Bauer.
01 março 2017
dia 9 da Berlinale 2017
Falam muito de o politicamente correcto nos estar a sufocar e a cercear a liberdade, ele são as sugestões para retirar certas palavras dos clássicos ou para retirar os cigarros dos filmes (será que vão usar photoshop para os trocar por chupa-chupas?), e avisam-nos com tal insistência que uma pessoa quase se sente tentada a acreditar que o nosso mundo está cada vez mais asséptico. Mas depois vai ver os filmes da Berlinale, e no écran anda toda a gente a fumar como se não houvesse amanhã.
De modo que podem sobressaltar as vítimas do politicamente correcto: terão de arranjar outras queixas, que esta aqui não funciona.
1.
Kongens Nei(The King's Choice), de Erik Poppe, conta um episódio pouco conhecido da segunda guerra mundial, quando a Alemanha decide avançar para a Noruega e o rei se vê confrontado com a necessidade urgente de tomar uma decisão. É um filme fácil de ver e informativo, que vai evoluindo ao ritmo das tensões no seio dos poderes (tanto entre o diplomata alemão e o exército de invasão quanto entre os políticos noruegueses), e quase nos leva a pensar que aquela história acabou bem. A Noruega foi invadida, mas continuou de cabeça levantada - é o que interessa...
Um exercício de auto-estima, e mais um contributo para a idealização do modelo escandinavo: um rei que defende a Democracia acima de todos os interesses, e simultaneamente muito simples e dedicado à família, especialmente aos netos. Um exemplo, um exemplo.
2.
Joaquim, de Marcelo Gomes.
Nota mental: nunca mais ir ver na Berlinale um filme em que andem à procura de ouro. Andam, andam, andam, não encontram nada e pelo meio até se perdem do filme e das personagens. Já foi assim com o Gold de Thomas Arslan, foi outra vez com o Joaquim.
3.
La Libertad del Diablo, de Everardo González, um documentário mexicano sobre as consequências do crime organizado naquele país. A opção de pôr máscaras em todas as pessoas entrevistadas ou envolvidas (vítimas e familiares, criminosos, polícias) faz deste documentário um exercício de distância e intimidade: os rostos reduzidos ao abismo dos olhos e à boca que diz em palavras cruas o sofrimento, o medo, a cupidez da violência.
É um filme muito duro e difícil - absolutamente a não perder.
27 fevereiro 2017
dia 8 da Berlinale 2017
Ao oitavo dia ia apanhando uma desidratação com o Karera ga Honki de Amu toki
wa (Close-Knit) de Naoko Ogigami. Eu e a sala toda a fungar, faz de
conta que era a gripe da Berlinale...
E Maudie, de Aisling Walsh, com uma fantástica Sally Hawkins: mais fungadelas.
A ver se me lembro, da próxima
vez, de comprar acções das empresas de lenços de papel antes de começar a
Berlinale. Aposto que têm uma grande subida de lucros por estes dias.E Maudie, de Aisling Walsh, com uma fantástica Sally Hawkins: mais fungadelas.
Mas vamos por partes:
1.
Bamui haebyun-eoseo honja (On the Beach at Night Alone), de Hong Sangsoo. Da sessão para a imprensa vi apenas os primeiros 40 minutos, porque tinha bilhete para outro filme às dez da manhã. Um filme sereno, uma actriz perfeita. Tive pena de não ver até ao fim.
2.
Karera ga Honki de Amu toki wa (Close-knit), de Naoko Ogigami, é um filme sobre questões de transgénero para principiantes. No Japão só agora se começa a falar nestes temas, pelo que a transexual apresentada é uma pessoa perfeita, amorosa, maravilhosa, tudo de bom.
Paciência. O cinema japonês fará o seu caminho, e daqui a uns anos apresentará transexuais normais, com direito à imperfeição dos humanos.
Close-knit é um filme doce, de uma simplicidade quase pedagógica, absolutamente encantador. Permite reduzir as questões de transgénero e homossexualidade à essência das relações: amor, respeito, empatia. E mostra como tudo pode ser simples, se aceitarmos as pessoas em vez de as tentarmos ajustar à medida dos espartilhos morais.
Paciência. O cinema japonês fará o seu caminho, e daqui a uns anos apresentará transexuais normais, com direito à imperfeição dos humanos.
Close-knit é um filme doce, de uma simplicidade quase pedagógica, absolutamente encantador. Permite reduzir as questões de transgénero e homossexualidade à essência das relações: amor, respeito, empatia. E mostra como tudo pode ser simples, se aceitarmos as pessoas em vez de as tentarmos ajustar à medida dos espartilhos morais.
3.
Tahqiq fel djenna (Investigating Paradise), de Merzak Allouache, é um documentário que explora as imagens do paraíso no Islão, focando especialmente o fenómeno da utilização da internet por salafistas para aliciar, manipular e recrutar jovens para a jihad.
Mostra um paraíso desenhado para os homens (e as respostas dos homens sobre o paraíso das mulheres: "se calhar vai ter uma cozinha mais bonita" ou "no paraíso, a mulher escolhe o seu marido"), a ingenuidade ("Deus é que sabe porque é que nos dá 72 virgens no paraíso, Deus não erra"), a pornografia machista nas imagens do paraíso (já valia a pena ver este filme só pelas imagens de um imã a descrever as mulheres que os homens vão encontrar no paraíso, "ai aquele cabelo, ai aquela boca, ai aquelas mamas, ai aquelas coxas, ai..."), a dicotomia espírito/letra das escrituras que provoca o auto-de-fé invertido (em vez de se queimar livros, é um livro interpretado de forma perversa que está a incendiar o mundo). O cancro wahabita que alastra pelo mundo graças ao poder económico da Arábia Saudita, promovendo por via digital uma globalização islâmica de conceitos muito arcaicos que está a mudar a vida de muitos muçulmanos. E o efeito explosivo de uma religião que põe a felicidade e a realização dos homens num plano pós-morte.
Um bom contributo para a análise de problemas prementes do nosso tempo.
Aqui podem ver uma pequena reportagem sobre o realizador e o filme.
Durante o debate, perante alguém que dizia que este filme podia mudar as coisas, o realizador respondeu com humor: "Se um filme pudesse mudar o mundo, já o teríamos sabido..."
O que me lembrou uma frase semelhante do realizador de Fuocammare, sobre os refugiados africanos e Lampedusa. O seu filme ganhou o Urso de Ouro do ano passado, mas tudo continua na mesma.
4.
Politica, manual de instrucciones, de Fernando León de Aranoa, é um exercício muito arriscado de transparência: durante um ano, uma equipa de filmagens acompanhou o processo de formação e implantação do Podemos. O filme, que começa com a exibição de jovens políticos inteligentes e dinâmicos, com um discurso articulado que é puro prazer do espírito, acaba por insistir muito na questão da conquista do poder. Não se sabe qual o conteúdo das 500 horas filmadas, e se o filme faz justiça ao fenómeno Podemos - mas o que nos mostra é mais estratégia que conteúdos, mais preocupação com o poder do que atitude de serviço e defesa de valores.
Talvez seja essa a maldição dos partidos - e sendo assim, escusavam de usar um novo como exemplo. Qualquer outro serviria melhor para fazer o desenho.
5.
Maudie, de Aisling Walsh, com uma Sally Hawkins fenomenal.
Nem digo mais nada. Vão ver o filme, digam vocês.
26 fevereiro 2017
bate e foge (3) - Berlinale 2017
Entre o filme no Zoo Palast e o seguinte, no International, decidi ir almoçar sushi no Mr. Hai Kabuki (Paulo, anota: quando tu não estás, o cozinheiro do Mr. Hai não se esmera.)
Ao passar na praça da Gedächtniskirche, onde ainda ardem muitas velas a lembrar as vítimas do atentado de Dezembro, dei-me conta do ambiente extremamente calmo da Berlinale. A cidade cheia de turistas e estrelas de cinema, e em lado nenhum se armou o aparato do medo. Limitaram-se a proibir a entrada de bagagem nos cinemas e nas salas da organização, e só uma vez me revistaram o saco. Sem stress, sem stress.
Esta cidade não se deixa vencer facilmente.
Ao passar na Bleibtreustrasse, parei um pouco numa loja de que gosto muito porque, para tornar especial um espaço que é apenas um longo corredor estreito, puseram uma árvore deitada desde a rua até ao fim da loja. As pessoas contornam as raízes para entrar, e dentro da loja avançam sobre o tronco, impecavelmente cortado e envernizado. Não me interessa o que vende, mas paro sempre a admirar aquele corredor.
Logo a seguir, uma memória do Holocausto: pedras na calçada, com o nome das pessoas que foram levadas daquela casa para os campos de concentração. Uma data chamou-me a atenção: 27.11.1941. Foi o primeiro transporte para Riga, a terrível viagem, o massacre à chegada. Contei aqui, quando descobri essa data no memorial Gleis 17. E agora estava a ver a casa de onde algumas dessas pessoas saíram, uma casa bem bonita, praticamente à frente de uma das minhas lojas favoritas. Li o nome delas, o nome da mulher de quase 60 anos que se suicidou para não entrar nesse comboio, os nomes do casal com uma filha de 14 anos que se deixaram levar - que esperança ou que desalento os terá levado a aceitar a deportação?
Esta cidade confronta-nos permanentemente com a História. Não esquece.
Continuei de S-Bahn para Alexanderplatz. O dia estava frio, mas com um céu azulíssimo. Quase tornava bonitos os edifícios de Plattenbau da Karl-Marx-Allee.
Ao passar na praça da Gedächtniskirche, onde ainda ardem muitas velas a lembrar as vítimas do atentado de Dezembro, dei-me conta do ambiente extremamente calmo da Berlinale. A cidade cheia de turistas e estrelas de cinema, e em lado nenhum se armou o aparato do medo. Limitaram-se a proibir a entrada de bagagem nos cinemas e nas salas da organização, e só uma vez me revistaram o saco. Sem stress, sem stress.
Esta cidade não se deixa vencer facilmente.
Ao passar na Bleibtreustrasse, parei um pouco numa loja de que gosto muito porque, para tornar especial um espaço que é apenas um longo corredor estreito, puseram uma árvore deitada desde a rua até ao fim da loja. As pessoas contornam as raízes para entrar, e dentro da loja avançam sobre o tronco, impecavelmente cortado e envernizado. Não me interessa o que vende, mas paro sempre a admirar aquele corredor.
Logo a seguir, uma memória do Holocausto: pedras na calçada, com o nome das pessoas que foram levadas daquela casa para os campos de concentração. Uma data chamou-me a atenção: 27.11.1941. Foi o primeiro transporte para Riga, a terrível viagem, o massacre à chegada. Contei aqui, quando descobri essa data no memorial Gleis 17. E agora estava a ver a casa de onde algumas dessas pessoas saíram, uma casa bem bonita, praticamente à frente de uma das minhas lojas favoritas. Li o nome delas, o nome da mulher de quase 60 anos que se suicidou para não entrar nesse comboio, os nomes do casal com uma filha de 14 anos que se deixaram levar - que esperança ou que desalento os terá levado a aceitar a deportação?
Esta cidade confronta-nos permanentemente com a História. Não esquece.
Continuei de S-Bahn para Alexanderplatz. O dia estava frio, mas com um céu azulíssimo. Quase tornava bonitos os edifícios de Plattenbau da Karl-Marx-Allee.
dia 7 da Berlinale 2017
1.
Invoco a quinta emenda da constituição americana para não me pronunciar sobre o Colo, de Teresa Villaverde. O problema não é o filme, sou eu, e não me quero enterrar mais do que já estou. Digo apenas que é um filme muito bem feito sobre o poder desestruturante da crise, capaz de sufocar em claustrofobia os espaços mais abertos.
2.
Sage femme, de Martin Provost - a história de duas mulheres muito diferentes que têm contas abertas do passado e tentam uma reaproximação - é um filme que avança sem sobressaltos e termina da mesma forma. Excelente o trabalho de Catherine Deneuve e Catherine Frot.
3.
O documentário I'm not your negro, de Raoul Peck, a partir de textos de James Baldwin, era um dos filmes a não perder nesta Berlinale. Muito bem feito, usa um texto com quase meio século e imagens de várias épocas para pôr o dedo na ferida: o racismo contra pretos continua a ser um problema grave, e não é um problema das vítimas, é um problema que os brancos têm de identificar neles próprios, e têm de saber resolver. Como dizia Raoul Peck no debate após o filme: "don't put the burden on us!"
No regresso, o amigo com quem o fui ver comentava que a situação dos pretos nas sociedades de supremacia branca sempre foi como uma corrida de 100 metros na qual os brancos já partem com um avanço de 70 m. Tem havido resultados positivos ao fim de tantas décadas de lutas pelos direitos civis, e a distância entre os dois grupos já só é de 30 m à partida - mas nos EUA assiste-se a uma reacção brutal dos brancos assustados com esta perda de vantagem.
Gostei da imagem - e não se aplica apenas às questões de racismo, e aos EUA.
Depois, o meu amigo falou do Malcolm X, e de não adiantar nada "oferecer a outra face" - se é para morrer de qualquer modo, mais vale morrer a lutar. E acrescentou: depois de tantos séculos em que os brancos violaram as nossas mulheres, era justo nós agora violarmos as deles.
Eh, lá! As mulheres dos brancos sou eu! Bem sei que entre os meus muitos egrégios avós é bem possível que algum tenha andado a ganhar a vidinha nos barcos negreiros, mas não me dá jeito nenhum virem agora com fantasias de violência sexual mascaradas por uma espécie de justiça histórica...
E lembrei-me de uma conversa com o Reuven Moskowitz, há mais de dez anos, em Weimar. Este sobrevivente do Holocausto, que dedicou a sua vida à paz entre judeus e palestinianos, respondeu-me, quando lhe disse que às vezes ao olhar para velhinhos de Weimar me perguntava de que lado estavam eles 60 anos antes, que esse tipo de atitude só aumenta o fosso e o ódio entre as pessoas, e não ajuda nada a promover a Paz.
4.
1945, de Ferenc Török. Um filme húngaro sobre um aspecto ainda muito silenciado do Holocausto - a conivência dos povos, e a cobiça alheia. O realizador apresentou-nos o filme dizendo que ali estavam 12 anos da sua curta vida. 12 anos! Todos somados, quantos anos de vidas virão apresentar-se nos 400 filmes da Berlinale? Quantos sonhos, quantos esforços, quantas desilusões?
O filme é a preto e branco, e decorre em 1945 quando, pouco depois do fim da guerra, numa aldeia húngara corre a notícia da chegada iminente de dois judeus que ninguém conhece. A simples presença dos dois homens na aldeia basta para sacudir as consciências e as relações entre os seus habitantes. O enredo está bem construído, as personagens desenvolvem-se com equilíbrio, a crítica social e histórica está bem colocada, e o conjunto resulta numa homenagem digna às vítimas do Holocausto. De tudo isso, que já está muito certo, sobressaem imagens de extraordinária força: as de dois judeus que atravessam uma aldeia em silêncio. Das imagens mais inesquecíveis que vi nesta Berlinale.
5.
Ao ler no programa que se tratava de um filme sobre pessoas presas num bar devido a um ataque terrorista, imaginei que El Bar, de Álex de la Iglesia, seria um filme divertido no qual um grupo de espanhóis discutiria medos e esperanças entre tapas e copos de vinho. Bem me enganei! Dei comigo às dez da noite num filme de terror, género que evito cuidadosamente deste que vi o Shining aos 17 anos. E descobri que já sou crescidinha, já consigo ver estes filmes sem me impressionar. E que filme! Muito bom ritmo, boa história, boas máscaras. Óptimo desenho do modo como as pessoas se revelam em situações extremas, numa sucessão permanente de surpresas.
Saí do cinema a pensar que talvez não me tenha assustado porque já estou habituada: infelizmente, nos últimos tempos tenho tido oportunidade de ver pessoas normais a ficar completamente transtornadas devido ao medo.
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