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28 fevereiro 2020

a metamorfose dos pássaros



Um filme que encontra uma linguagem de pura poesia - da palavra e da imagem - para fazer variações sobre o tema da saudade. Simplesmente lindo.

(E a surpresa grata de encontrar nele amigas, e perguntar-me quem será o pianista que está a tocar tão bem, para descobrir no final que é a Marina Dellalyan - obrigada, Marina, gostei imenso de ouvir!)

(E que comovente vê-los todos no palco, no fim da exibição do filme. Bem gostava de ter podido ficar até ao fim da conversa, mas tinha uma reunião à qual não podia chegar atrasada. E assim vai a vida: hoje só vi um filme na Berlinale, e valeu por uma dúzia.)

23 fevereiro 2020

Berlinale 2019 - primeiro dia (2)

A sessão de abertura da 70ª Berlinale foi ensombrada pelo ataque terrorista que acontecera em Hanau um dia antes. Depois de um alemão, movido por um profundo ódio racista, ter entrado em dois bares de shisha disposto a massacrar estrangeiros, acabando por matar ali nove pessoas e ferir seis, ficava difícil passar alegremente à ordem do dia. Os discursos foram muito mais sobre política e democracia que sobre cultura. Todos os políticos fizeram uma ligação entre este ataque terrorista e o discurso de ódio que a AfD instalou na sociedade alemã. "O país que a AfD deseja é um país onde nenhum de nós quer viver", afirmou o Ministro-Presidente de Berlim. O que é uma variação, pelo lado da derrota, da posição de Walter Lübcke - o político que recentemente pagou com a vida as palavras "dá gosto viver num país que se esforça por divulgar estes valores; e quem não os defender, sinta-se livre para sair do país".




Portanto: uma cerimónia de abertura ainda sob o choque do atentado, sem a alegre familiaridade das cerimónias de outros anos. Para piorar, passaram uns filmes de apresentação das várias secções do festival que eram, no máximo, de qualidade mediana.

Para já, o balanço da nova direcção não me parece famoso.


20 fevereiro 2020

Berlinale 2020 - primeiro dia



A 70ª Berlinale ia-me começando mal. A caminho da bilheteira vi um homem a decepar as plantas que já tantas alegrias me deram, e fotografei a cena. Ele chamou-me, furioso. Que é proibido fotografar pessoas, e coisas assim. Tentei explicar que o meu interesse era a cena, e não ele propriamente dito, mas estava mesmo furioso. De modo que apaguei uma foto em que se via um pouco da sua cara, e pedi-lhe autorização para ficar com a imagem de costas. Depois virei a esquina, e dei com todo o aparato mediático da Berlinale - câmaras de televisão, fotógrafos profissionais, jornalistas. Suspeito que aquele decepador de alegrias venha a passar uns tempos difíceis nesta zona da cidade.

O filme "H is for Happiness", que constava da lista de filmes que posso ver amanhã, despertou a minha curiosidade - mas esgotou ao fim de cinco minutos. As vendas para grupos também já estão todas esgotadas, e nas bilheteiras, então, nem se fala. Parece que toda a gente está a precisar desesperadamente de algo que as (nos) faça sentir bem.

Entrei em duas sessões para a imprensa: o filme da abertura, My Salinger Year, e um documentário chinês: Yi zhi you dao hai shui bian lan / Swimming Out Till the Sea Turns Blue, de Jia Zhang-ke. O documentário juntava apontamentos biográficos de escritores, apontamentos do dia-a-dia na província chinesa de Shanxi China, frases da pena desses escritores e algumas imagens da região. Um - como direi? - autêntico arroz xau-xau: com muitos ingredientes, mas sem grande sabor.

"My Salinger year", dePhilippe Falardeau, parece a versão canadiana de O Diabo Veste Prada, mas num contexto de editoras de literatura e só a meio vapor, quer dizer: com pessoas de bem. Em termos de feel good movies ficámos assim: falhou-me o H is for Happiness, mas tive um prémio de consolação jeitosinho. 

Algumas observações ao fim do primeiro dia:

- Este ano nota-se que a Berlinale está a poupar papel. O programa tem muito menos folhas, há menos cadernos, e sugerem que as pessoas imprimam algumas informações em casa. 

- Hoje só vi duas pessoas com máscara. Parece que o medo do covid-19 ainda não chegou a Berlim.

- Alguns rituais foram à vida: fechou o McDonald's onde tomava o pequeno-almoço naqueles dez minutos entre ir buscar os bilhetes do dia seguinte e entrar na primeira exibição do dia para a imprensa. O centro comercial junto à Potsdamer Platz também vai encerrar para obras e praticamente já só tem os guichets para venda de bilhetes. Adeus gelado Coffee Time no primeiro andar, adeus restaurantes na zona de acesso à S-Bahn.
Isto é para eu aprender a pensar duas vezes antes de dizer com um ar alegre que Berlim é uma cidade em permanente processo de auto-reinvenção.

- Estou a ver a chegada das estrelas. Ainda tenho de me habituar à imagem de tatuagens enormes a coexistir com vestidos de senhora à moda antiga.

- Gostei muito de ver a chegada do "nosso" Welket Bungué.

- Sinto a falta do Dieter Kosslick, o simpático trapalhão.

- Quando me vim embora, às quatro da tarde, já havia pessoas à espera das estrelas. Chovia um pouco. Lembrei-me de outros invernos em que estive por ali com a minha filha, e do frio que passámos. Este ano nem sequer têm aquecedores para as actrizes posarem à entrada sem apanharem uma pneumonia. 




19 fevereiro 2020

Berlinale 2019 - décimo dia



Dafne, de Federico Bondi. Dafne tem síndrome de Down, e uma infinita tagarelice. Uma força da natureza. Após a morte da mãe, Dafne vê-se obrigada a lutar contra a sua própria dificuldade de aceitar esse facto e a ajudar o pai a sair do estado de letargia em que caiu.
Um filme simultaneamente muito tocante e muito divertido.
Foi o segundo filme da Berlinale de 2019 que vi no qual a actriz principal era uma pessoa que tinha realmente a anomalia de saúde constante no guião (o primeiro foi 37 segundos), e mais uma vez se verificou que os filmes ficam a ganhar com estes actores.

O realizador contou, a sorrir, que a actriz Carolina Raspanti viu o filme pela primeira vez na première na Berlinale, e ficou muito entusiasmada. "Federico, fizeste uma obra-prima!", disse-lhe ela no seu tom alegremente peremptório. "Não exageres...", respondeu ele, e a resposta pronta: "pois se te digo que é uma obra-prima!" Já depois de a actriz ter regressado à Itália, o filme recebeu o prémio da Fédération Internationale de la Presse Cinématographique, e Carolina Raspanti não cabia em si de contente. Passou a noite a enviar mensagens ao realizador, com todas as variações de "eu bem te disse que era uma obra-prima, e tu não quiseste acreditar!"






Estou me guardando para quando o Carnaval chegar, de Marcelo Gomes, é um documentário que descreve a vida numa pequena cidade do Nordeste brasileiro, responsável pela produção de 20% dos jeans do país. O trabalho intenso ao longo do ano, com os olhos na miragem do carnaval passado na praia. Um retrato triste do nosso tempo e deste eterno correr numa roda de gaiola.


 

Werk ohne Autor / Never look away, de Florian von Donnersmarck. Um bom filme, mas desconfortável por usar a vida do artista Gerhard Richter sem o nomear, nem aos seus amigos. Uma pessoa vê o filme, vê as obras de arte nas quais aquelas pessoas estão a trabalhar, e pensa: mas por que raio lhes deram nomes diferentes?
Depois lê uma entrevista a Gerhard Richter, e entende: o artista não concordou com o guião, por distorcer demasiado a sua biografia, e o realizador resolveu contar a história que tinha preparado mudando simplesmente o nome dos envolvidos.
Fico na dúvida sobre o que preferiria: esta história com obras de arte "verdadeiras" e nomes falsos, ou uma história com os nomes certos e a biografia falsa. Estamos mais habituados a conviver com essas biografias romanceadas, e temos tendência a acreditar que aquilo que nos contam é a verdade. Mas quando nos mostram a história romanceada que tomamos como verdade mas trocam os nomes dos seus sujeitos, a sensação de desconforto que nos criam permite-nos abrir os olhos para o jogo de ilusões que gostamos de fazer.


Sois belle et tais-toi, de Delphine Seyrig. Falei deste filme aqui.

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Finalmente acabei a lista da Berlinale 2019. Pronta para a Berlinale 2020, que começa amanhã.
A ver se acabo aqui mesmo esta tradição de só fechar contas da Berlinale anterior quando a seguinte já está a começar, que isto não é vida. Agora vou estudar o programa com afinco, que amanhã já saio de casa às sete da madrugada em busca dos primeiros bilhetes.
(que a força esteja comigo...)

Berlinale 2019 - nono dia







Ao nono dia houve greve dos transportes públicos e o frio aproveitou para se mostrar em todo o seu esplendor. As plantas no jardim da Haus der Kulturen der Welt enregeladas, o Tiergarten com ainda mais ciclistas que de costume. Sossego no topo da Potsdamer Platz, no Berlinale Rooftop.




Amazing Grace, de Alan Elliott a partir de uma gravação feita em 1972. Inesquecível, tocante, de nos deixar a pairar sobre o abismo algures dentro de nós: a força e a alma de Aretha, a força e a alma do gospel.
O meu problema é o filme de Agnès Varda me estragou: estava condicionada pela sua explicação dos trípticos. Passei o filme inquieta por me terem filmado aquela polifonia sem planos paralelos: a cantora, o maestro, o Cleveland, o coro, o público. E pensei nessa falha com tamanha intensidade, que lá para o fim do filme mudaram, e começaram a mostrar - ao menos isso, vá - dois planos lado a lado: Aretha e Cleveland.




Flesh out, de Michela Occhipinti. O corpo da mulher, esse eterno campo de batalha, desta vez no contexto de uma tradição da Mauritânia: engordar as mulheres antes do casamento. Com imagens belíssimas e um excesso de comida capaz de atirar qualquer espectador para a bulimia, o filme mostra uma jovem mulher dividida entre o mundo moderno, as tradições que a sua família ainda lhe impõe, e a maldita balança para a qual oitenta quilos são sinal de mulher demasiado magra.




The day after I'm gone, de Nimrod Eldar. Um filme sobre o impasse de um pai perante o sofrimento da filha que se quer suicidar, e talvez também sobre o impasse de um país, Israel, a viver um processo autodestrutivo - de que a tensão que atravessa as cenas passadas no colonato é o sinal mais evidente.




2040, de Damon Gameau. O realizador australiano começa por se perguntar como será o mundo da sua filha em 2040, quando ela chegar à idade adulta, e tenta dar uma resposta optimista: como pode ser o mundo da sua filha se começarmos hoje mesmo a usar os recursos que já temos à nossa disposição.
Alguns exemplos: regenerar a natureza / car sharing / carros eléctricos autónomos / transformar o espaço excessivo de estacionamento em área verde (2/3 de Los Angeles é espaço de estacionamento) / telhados verdes / jardins públicos com legumes e frutos / mais jardins e parques no centro das cidades /  agricultura biológica para melhorar a qualidade da terra e reter dióxido de carbono / reduzir a agro-indústria, de cuja actividade só 20% se destina directamente à alimentação humana - o restante é destinado à produção de animais / pasto para animais / usar as algas como alimento e retenção de dióxido de carbono / reabilitação da vida marinha / redes locais de electricidade / lixo biológico: captação de metano para produzir energia e adubo biológico / etc.
Algumas das propostas pareceram-me pouco credíveis mas, à distância de um ano, o conjunto pareceu-me uma boa sugestão para começar a agir imediatamente.
Hoje, contudo, parece-me que este filme já está a anos-luz da realidade do planeta. É preciso muito mais que isto, e muito mais do que a simples boa vontade dos cidadãos, para impedir que o planeta se aproxime ainda mais dos pontos de não retorno.





African mirror, de Mischa Hedinger. Usando o exemplo das imagens e das palestras do suíço René Gardi sobre África, Mischa Hedinger mostra como se construiu na Europa um certa ideia dos africanos predeterminada pelos produtores de imagens.
O debate com o público foi extremamente acesso, quase violento, porque algumas pessoas se sentiram agredidas pelo tom demasiado neutro do documentário, que se limita a repassar as imagens originais sem comentário. Outros participantes no debate insistiam que o público não precisa de legendas para ver o que é evidente, ao que muitos faziam notar que o racismo daquelas imagens não é tão evidente como alguns possam pensar, uma vez que estamos por demais habituados a elas.
Também me parece que o filme é demasiado neutro, e que a referência à acusação de abuso sexual de menores que foi feita a René Gardi é um desvio ao que devia ser o tema central do documentário: o modo como a Europa construiu a sua imagem de África e dos africanos, e as consequências que se prolongam até ao nosso tempo e para além dele.


Berlinale 2019 - oitavo dia



Nur eine Frau / A Regular Woman, de Sherry Hormann. Este filme alemão que vi na secção Lola foi dos que mais me marcou em 2019. A realizadora apresentou o seu trabalho sumariamente antes da exibição para os colegas: "quis mostrar uma mulher não na sua realidade de vítima, mas na sua realidade de vencedora". E conseguiu: apesar de ser uma "crónica de uma morte anunciada", esta berlinense filha de turcos e vítima de um crime de "honra" revela-se como uma mulher forte, auto-confiante, senhora do seu destino.
Neste post falo sobre a mulher que inspirou este filme.




The red phallus, de Tashi Gyeltschen. Sob a placidez da paisagem, o sobressalto e a agonia de uma vítima.





What she said: the art of Pauline Kael, de Rob Garver.
Na sinagoga, Pauline Kael tocou "somos um exército de cristãos" no seu violino; como crítica de cinema, ousou dizer mal do filme "Shoah" e de "Música no Coração". Talvez por gostar de ser do contra, talvez por saborear a vertigem da recusa do compromisso? Em todo o caso, fazia-o com textos brilhantes. O documentário ilustra as críticas de Pauline Kael com excertos dos filmes mencionados, mas usa de um ritmo demasiado rápido, o que é frustrante para o espectador.





Di jiu tian chang / So long, my son, de Wang Xiaoshuai.
Palavras do realizador: "isto não é um filme, isto é a nossa vida".

Berlinale 2019 - sétimo dia

[ Nota prévia: este post estava praticamente completo em Fevereiro de 2019. Mas depois foi-se metendo uma coisa e outra, e - como já começa a ser tradição - acaba por ser publicado na própria semana em que começa a Berlinale seguinte. Não se pode dizer que sejam propriamente notícias frescas, mas vou publicar agora os posts relativos aos últimos dias da minha Berlinale de 2019 porque também uso o blogue como auxiliar de memória. ]


E ao sétimo dia... filmes excelentes, sem excepção. 
Tive de correr um bocado para conseguir ir a todos, mas valeu a pena. Se valeu!


Pelo meio, consegui ver também o filme feito por uma amiga - melhor dizendo: pela miúda de quem fui au pair em 1990. Uma animação para "Be True to Your School", que agora passa em todos os concertos dos Beach Boys no momento em que eles tocam esta música. A Berlinale convidou-a para exibir o filme e fazer contactos com empresas da área. Portanto, já sabem: se querem que os vossos filhos façam carreira na Berlinale, arranjem de eu ser a au pair deles durante uns meses.



Enquanto assistia à gravação da entrevista chegou um grupo de miúdos para ver mais filmes. Gosto tanto de os ver, os passarinhos!


Ao fim do dia encontrei outra amiga. Acompanhava a equipa do Elisa Y Marcela. É sempre muito engraçado ver o contraste no tapete vermelho: a azáfama dos acompanhantes e dos guarda-costas, e o glamour das actrizes.

Os meus filmes no sétimo dia - o meu melhor dia nesta Berlinale:





Varda para Agnès, de Agnès Varda. Uma delícia de filme: Agnès, sentada no palco de um teatro, fala sobre os seus trabalhos a uma plateia jovem, e transforma aquelas duas horas numa pequena viagem ao mundo da criação artística. Com aquele seu ar simpático e simples, com frases profundas e transparentes, explica os motivos do que fez e o modo como fez. "Se abrirem uma pessoa, verão uma paisagem. Se me abrirem a mim, verão uma praia".
Um filme a ver e a rever.




Der Junge muss an die frische Luft / The boy needs some fresh air, de Caroline Link.
O filme é baseado na autobiografia de Hape Kerkeling, e tem um excelente Julius Weckauf na representação da infância do famoso humorista alemão.
Se precisasse de um subtítulo seria: a alegria para combater a tragédia.




Midnight Traveler, de Hassan Fazili. O realizador afegão vê-se obrigado a fugir dos talibãs com a sua família, e filma a odisseia dos quatro para conseguir chegar à Europa. O medo, a insegurança, os campos (prisão?) de refugiados. As meninas a crescer naquele ambiente entre o limbo e o inferno. As dúvidas do cineasta: quando filmas a tua própria vida, que critérios devem dirigir a tua mão na câmara? Quanto horror te deves permitir filmar?
No final, o realizador e a mulher subiram ao palco e forama aplaudidos de pé por uma assistência comovida e chocada.







Shooting the Mafia, de Kim Longinotto. Um excelente documentário sobre Letizia Battaglia, a fotógrafa da máfia siciliana. O filme combina com mestria as suas fotografias absolutamente extraordinárias com entrevistas e filmes da época para revelar a história recente da Sicília nos seus múltiplos níveis.

Elisa y Marcela, de Isabel Coixet. Baseado num caso verídico, o filme revela a descoberta do amor e do desejo de duas mulheres com muita sensibilidade, delicadeza e sensualidade.  
E depois dá aos portugueses um papel divertido e humano que me fez sentir de bem com as minhas gentes. Embora tenha lá um "chatear" que duvido que fosse normal dizer no princípio do séc. XX, e tenha uma fadista a cantar numa esplanada na Ribeira, a passar pela Elisa e pela Marcela ali sentadas, que também duvido muito que fosse possível acontecer naquela época. Mas pronto, que seria uma incursão no estrangeiro sem um bom par de clichés? Tudo isso e muito mais se perdoa só por incluir o Salvador Sobral com uma canção cujo texto parece feito de propósito para aquele filme.


12 fevereiro 2020

a terra dele



A Berlinale 2020 está a dar grande relevo ao filme "Berlin Alexanderplatz" - como por exemplo nesta Pietà que encabeça o anúncio da publicação do programa na página de Facebook do festival - e fico contente por me cruzar tantas vezes com imagens do luso-guineense Welket Bungué, que é o actor principal deste filme.

Sempre que o vejo nos cartazes, um triste tique videirinho faz com que me aproprie dele: este é meu, é dos nossos, tem de ser português - olhem para o meu país no centro da Berlinale!
 
Gostava de perguntar aos portugueses que mandam pessoas "para a terra delas" qual lhes parece que será a terra deste actor. Não é que seja importante - era mesmo só para saber o endereço para onde enviar o Urso de Ouro, caso ele o ganhe.

E tenho de olhar melhor para estes meus tiques de apropriação do sucesso de Welket Bungué: pressinto vestígios de pensamento colonial na facilidade com que sublinho a parte "luso" e ignoro a parte "guineense" da sua identidade.

23 fevereiro 2019

Berlinale 2019 - sexto dia


 
 

O sexto dia começou lindíssimo. E ficou ainda melhor logo a seguir, por causa de um elogio no balcão dos bilhetes. O funcionário pegou na minha folha para ler os códigos de barras, e ficou pasmado a olhar. "Isto é que é uma folha organizada!", comentou, sem conseguir tirar os olhos dela: círculos, duas cruzes, uma cruz, plano B caso já não houvesse bilhetes para os filmes que queria ver. Ri-me, agradeci, agarrei nos bilhetes e fui à minha vida, perguntando-me como será a organização dos outros para ele ficar tão admirado com a minha.



Nesse dia resolvi conceder-me um intervalinho nos filmes sérios: fui à Haus der Kulturen der Welt ver as curtas para crianças. É sempre um prazer ver aquela casa cheia de miúdos de palmo e meio, sentir o alvoroço deles antes de começar o filme: passarinhos na Berlinale.

Mas antes disso fui espreitar a sessão para jornalistas de um dos filmes do concurso. Estava sem paciência para aquele tipo de filme, de modo que saí ao fim de meia hora. Azar o meu: foi o que ganhou o urso de prata para a realização. 



No segundo filme do dia encontrei uma colega do coro. Estava mesmo à minha frente. Lá está: uma cidade de quase quatro milhões de habitantes, um festival de cinema com 400 filmes, e eu passo a vida a tropeçar em conhecidos. No fim do filme fui almoçar com ela à Escola de Cinema - poucos sabem que há uma cafetaria no topo do Sony Center, onde se podem comer refeições tipo cantina por um preço relativamente aceitável - e mostrei-lhe também a Audi Lounge. Carregámos os telemóveis nos carregadores que eles lá têm, e assistimos à conversa que estava a decorrer com o realizador de "Brecht". Pareceu-me que havia um sem-abrigo no público. É por estas e por outras que gosto de Berlim: tem espaço para todos.

Quando estávamos a tomar café na Audi Lounge apareceu outra conhecida minha das filas da Filarmonia. Lá está: uma cidade com quatro milhões de habitantes...
Avisei-a - e aviso aqui também, a quem interessar possa - que no dia 16 de Março o Rattle volta à Filarmonia com a Paixão segundo São Mateus encenada pelo Peter Sellars. Aconselhei-a a telefonar uma semana antes para saber se vão vender lugares no palco, e a ir para a fila da caixa duas horas de os porem à venda. Assistir àquela encenação com aqueles músicos sentada no palco foi um dos momentos mais sublimes que me aconteceu na Filarmonia.

Os filmes do sexto dia:



Flatland, de Jenna Bass. Podia ser um grande filme, mas as personagens são demasiado unidimensionais, caricaturais ou inconsistentes.



Trailer 2' _WHEN TOMATOES MET WAGNER from Marianna Economou on Vimeo.


When tomatoes met Wagner, de Marianna Economou. Um documentário que passou na secção Cinema Culinário, sobre uma aldeia grega com uns trinta habitantes onde há grandes plantações de tomate biológico para preparar refeições gourmet em conserva, que serão depois exportadas para todo o mundo. O chefe da empresa é um poeta, podem crer: escolhe cuidadosamente a música que dá aos tomates (se bem me lembro, decidiu-se por uma peça de Vivaldi que ele dizia ser vermelha, mais indicada para eles ganharem boa cor), e serve-lhes Wagner em colunas potentes espalhadas pelo campo. Para a época da colheita prefere música tradicional grega, para os tomates sentirem a dor da partida e da ausência. Quando exporta para os EUA afirma que está a devolver os tomates à proveniência, fechando um ciclo de quinhentos anos. E quando, no debate após o filme, lhe perguntaram como equacionava o lucro, porque no filme não se ficava com a sensação de que fosse um negócio muito rentável, ele respondeu com estes versos de um poeta grego (cujo nome não entendi):
Se as minhas pálpebras fossem transparentes
De olhos abertos via a realidade
Fechando-os, via os meus sonhos.



Fordlandia Malaise - Trailer from Kintop on Vimeo.


Fordlandia Malaise, de Susana Sousa Dias. Documentário sobre uma cidade artificial projectada por Ford na Amazónia, sobre a força da Natureza e a resiliência dos humanos. Um trabalho bem articulado e com equilíbrio dos vários registos narrativos, juntando imagens históricas à realidade actual, tradição (ou invenção?) oral e testemunhos da população actual. Gostei em particular da maneira hábil de transformar fotografias históricas numa narrativa cheia de ritmo.

Mai i te kei o te waka ki te ihu o te waka, de eremy Leatinu'u.  
The Mermaids, or Aiden in Wonderland, de Karrabing Film Collective.  




Chão, de Camila Freitas. Documentário sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Filmado ao longo de quatro anos, documenta os sonhos, as alegrias, as necessidades e os reveses na luta destas pessoas. As cenas iniciais - que mostram dois amigos a fazer projectos sobre o que vão plantar quando tiverem um talhão deles - provocam em nós um sorriso de empatia. Mas à medida que o filme avança, o sentimento de opressão e injustiça torna-se sufocante. Sabemos o que Bolsonaro propõe para aquelas terras e para aquelas pessoas. O futuro deles está cada vez mais longe desse pequeno talhão de terra com diversas árvores de fruto, o milho aqui, as batatas acolá e tudo o mais que sonharam um dia.

22 fevereiro 2019

Berlinale 2019 - quinto dia



no meio do caminho havia uma árvore,
havia uma árvore no meio do caminho...

Durante a semana da Berlinale, é este o ritmo: sair de casa às sete e um quarto com o Joachim, e atravessar o Tiergarten de lés a lés ainda antes do sol nascer (tenho várias provas fotográficas, e até partilho aqui duas delas). Ir para a fila dos bilhetes, escolher os do dia seguinte, pequeno-almoçar a correr num sítio que não posso dizer porque os meus filhos são visceralmente contra ("mas é só durante a Berlinale..." - tento alegar em minha fraca defesa), e correr para a sessão das nove da manhã para a imprensa, normalmente um dos filmes do concurso.

Este quinto dia foi um pouco mais complicado: saí do carro na zona da Haus der Kulturen der Welt, atravessei o Tiergarten para ir buscar os bilhetes, voltei a atravessar para ir ver o primeiro filme na Haus der Kulturen der Welt, daí fui para a Friedrichstrasse, de lá para o Zoo, e de novo para a Haus der Kulturen der Welt - há-de ter sido meia maratona.
Berlinale, dois em um: cinema e desporto.

O último filme do dia foi com a família. A Christina perguntou-me pelos filmes que vi, e falei-lhe do "Of Fathers and Sons", do qual acabara de sair. Ia começar a recomendar-lho imenso, quando ela me interrompeu: "Mãe, esse é o filme do Talal! Já te falei dele, é o realizador sírio que está muito interessado no teu filme sobre os arménios!"
(Se calhar devia melhorar os meus skills de comunicação com a minha família...)

Os filmes do quinto dia:




Baracoa, de Pablo Briones, ou: uma infância em Cuba. O filme é uma mistura de documentário e ficção, com momentos cheios da poesia, da graça e das esperas infinitas da infância, mas também com alguns diálogos um pouco forçados.
O realizador contou que foi a Pueblo Textil em busca de um rapazinho para fazer uma curta-metragem. Quando já tinha uma boa dúzia de possibilidades, apareceram os dois amigos deste filme, tal e qual como se vêem no trailer: lado a lado, a mão do mais velho pousada no ombro do pequenito. Foram ter com ele, quiseram saber o que se passava ali, e ele explicou que estava a escolher um rapaz para fazer um filme.
- E sobre o que é o seu filme?
- É um gato que foge e um menino que vai à sua procura.
- Señor, - disse o mais pequenino - se tiver dois rapazes a procurar, encontra o gato mais depressa!
O realizador mudou ali mesmo os seus planos. Ficou com os dois miúdos, e encostou a sua história às histórias deles. O resultado foi Baracoa, sobre a infância universal num país único.





The operative, de Yuval Adler: Rachel, uma mulher com raízes em várias culturas e em nenhuma, torna-se agente da Mossad e é enviada para uma missão no Irão. À medida que se vai aproximando das pessoas desse país, questiona-se cada vez mais sobre o sentido do seu trabalho.
Um thriller bem feito, com bom ritmo, que louva a liberdade interior dos que não têm raízes nacionais e por isso podem destrinçar mais facilmente entre o correcto e o incorrecto, e nos questiona também sobre as redes de serviços secretos e as suas operações à margem da lei.


 


Of Fathers and Sons, de Talal Derki (secção Lola). Este documentário é um dos concorrentes ao Óscar deste ano, pelo que será possível vê-lo num cinema, ou na televisão. Muitíssimo duro, e absolutamente imperdível. Depois do "The Return to Homs", o refugiado sírio Talal Derki regressou ao seu país para filmar o quotidiano de uma família de combatentes da Frente al-Nusra, num trabalho que demorou dois anos.
O resultado deste acto de imensa coragem (e irresponsabilidade, diria eu) é um documento assombroso sobre a mentalidade e a vida daquelas pessoas: os miúdos tirados da escola porque "não aprendem nada" e levados ainda muito pequenos para os campos de treino, a doutrinação permanente, a entrega absoluta nas mãos de Alá. Uma pessoa vê, e enterra-se cada vez mais fundo na cadeira: em cada família há pelo menos meia dúzia de miúdos que serão treinados para lutar até ao fim, e que ouvem permanentemente a ladainha sobre tudo o que acontece ser a vontade de Alá, e termos de aceitar porque, sendo a vontade de Alá, está certo e é o que deve ser. Mesmo após ganhar a guerra contra o "califado", como será possível tirar este veneno de dentro das próximas gerações?
Talal Derki arriscou a vida neste filme, e sabia-o bem. Foi um trabalho esgotante, que o deixava catatónico e a dormir semanas seguidas nos meses em que interrompia as filmagens para regressar a casa. Passou todo aquele tempo a fingir ser quem não era, completamente à mercê dos homens da al-Nusra. Estes aceitaram-no por ser famoso, devido ao sucesso do seu "The Return to Homs", e naturalmente porque tinham interesse em ser filmados para divulgar no Ocidente imagens da sua força e determinação. Mas quando chegou um novo chefe àquela célula, e começou a fazer perguntas,
Derki viu-se obrigado a terminar abruptamente as filmagens.
Há uma passagem no filme ainda mais brutal que as restantes: imagens do pátio de uma prisão onde alinham prisioneiros de guerra. Rapazes novos, capturados pela al-Nusra e ali mantidos indefinidamente. Enquanto o seu operador de câmara gravava as cenas que os guerrilheiros queriam exibir ao Ocidente, Derki filmou discretamente grandes planos das caras daqueles jovens que acreditavam ter chegado o seu último momento. Insuportável. Naqueles rostos vi os amigos sírios dos meus filhos, e percebi melhor de que fugiram e porque é que se fizeram ao mar e à travessia de meia Europa em condições terríveis. Contaram-me eles que já estavam a ser perseguidos pelo regime de Assad, e se viram obrigados a fugir precipitadamente quando se deram conta de que havia grupos a raptar rapazes nas ruas do bairro onde viviam. Quem os raptava? Para quê?
No fim, falei com um dos elementos da equipa do filme, que revelou que a inclusão daquelas cenas foi a decisão mais difícil de tomar. Disse que no dia em que filmaram nenhum prisioneiro foi assassinado, mas na semana seguinte houve uma chacina naquela prisão. Não sabem quantos mataram, e quantos dos filmados estão ainda vivos. Também me disse que os guerrilheiros ficaram furiosos quando viram o filme, e que Talal Derki tem agora a cabeça a prémio na Síria.
- E fora da Síria, não?
- Não tanto. Não se conhece uma rede internacional à Frente al-Nusra.
Talal Derki. Se não fosse por mais nada, ter arriscado a vida e o seu futuro para fazer este filme seria já um bom motivo para o ver. Mas há mais motivos: o filme é um documento sobre o que se passa na Síria e os problemas que teremos de resolver nos anos que vêm.
Deixou-me a pensar sobre o pacifismo, o impulso de salvar a própria vida e o dever de lutar contra um mal tão terrível como o Daesh. Que é que eu faria se isto tivesse acontecido no meu país?
Deixou-me também a rogar pragas ao Bush e aos seus amigos Aznar, Blair e Barroso, que na cimeira dos Açores deram início à invasão do Iraque, essa guerra que alterou o precário equilíbrio da região e abriu o caminho ao daesh.

 

"37 Seconds" (2019, Drama, Japan) Teaser from HIKARI FILMS on Vimeo.


37 Seconds, de HIKARI. Yuma tem 23 anos, e a par dos problemas de mobilidade devido à sua paralisia cerebral sofre ainda às mãos de uma mãe superprotectora e de uma chefe que não a respeita. Quando decide começar um novo trabalho, desenhando manga erótico, a responsável da agência sugere-lhe que faça ela própria a experiência de uma relação sexual antes de começar a trabalhar naquela área. O resultado é um percurso acidentado que leva Yuma à descoberta de segredos familiares, à conquista de amigos pouco convencionais, e ao alargamento do seu mundo.

A realizadora contou que encontrou Mei Kayama - a actriz principal, com paralisia cerebral - já bastante tarde (11 meses antes da estreia do filme) e que a sua história pessoal inspirou algumas alterações à história. Talvez essas alterações de última hora e a realização demasiado apressada expliquem o excesso de temas no filme e a falta de um desenlace mais lógico. O filme abarca demasiados temas sem levar quase nenhum deles a bom porto, mas é salvo por uma Mei Kayama que lhe dá dignidade e o torna muito cativante. Não sendo um grande caso de cinema, é um filme que nos enriquece, diverte e dá que pensar.
Em conversa com o público, a realizadora falou da sexualidade das pessoas com certas deficiências, e alertou para a necessidade de mudarmos a perspectiva: essas pessoas não são disabled, são differently abled. Gostei muito da expressão: differently abled.
"Mesmo pessoas paralisadas podem ter relações sexuais e até orgasmos", disse a realizadora. E logo a seguir: "Oooops! Será que podia dizer orgasmo neste palco? Ah, que cabeça a minha! Claro que sim - estamos na Europa!" - e riu-se. Rimos todos. 
Alguém do público perguntou porque é que numa determinada cena a banheira estava cheia de água à noite, e a actriz Misuzu Kanno explicou que no Japão é normal a banheira ficar cheia para as pessoas da família tomarem banho umas após as outras. "Quando o marido chega a casa depois do trabalho", disse ela, "a mulher pergunta-lhe se quer jantar primeiro, ou tomar banho antes."
"Hehe", riu-se a realizadora, "quem me dera que me perguntassem isso quando chego a casa depois do trabalho: queres já o jantar, ou vais primeiro tomar banho?"
Algo me diz que cada vez se fazem menos japonesas como antigamente...

21 fevereiro 2019

Berlinale 2019 - quarto dia



E ao quarto dia fez-se um domingo de chuva. Subi ao Berlinale Rooftop Café para tomar o pequeno-almoço, e a cidade mostrava-se tristonha. Este Berlinale Rooftop Café era simplesmente o café que existe no topo do edifício de tijolo escuro na Potsdamer Platz. Para chegar lá usa-se o elevador mais rápido da Europa, que nos leva do rés-do-chão ao 24º andar em oito segundos. Qualquer pessoa pode ir ao café e às galerias no topo da torre, mas tem de pagar 7,5 euros. Durante a Berlinale, os inscritos no festival tinham a possibilidade de ir ao café sem pagar o transporte. Mas poucos aproveitaram: sempre que lá fui, estava relativamente vazio.

Ao fim da tarde desse domingo encontrei-me com o Joachim e fomos para a loucura: dois filmes seguidos! E ainda um saltinho ao pavilhão da Audi mesmo em frente ao Berlinale Palast. Chegamos mesmo a tempo de ver a Diane Kruger no tapete vermelho, ali a meia dúzia de metros. Íamos para jantar alguma das deliciosas ofertas que têm sempre no menu, e para beber um café antes do último filme do dia, mas logo à entrada encontrámos um velho conhecido nosso, que ia moderar um debate sobre o tema "alcance" - iam falar de cinemas itinerantes com energia solar e de naves espaciais.
Berlim (também) é isto: uma cidade com quase quatro milhões de habitantes, e passamos a vida a cruzar-nos com conhecidos. Por sorte o debate começava antes do nosso filme, pelo que acabámos a conversinha e fomos para o cinema sem correr o risco de chegar atrasados.
Berlinale (também) é isto: correr permanentemente de um filme para uma conversa e de um debate para outro filme.

O que se vê nas duas fotos seguintes deve ser um carro eléctrico da Audi, todo XPTO do futuro dos carros eléctricos, mas não percebo nada de carros. Fotografei a correr, e desandei.
Na terceira foto vê-se a Filarmonia, ali à esquina da Berlinale. Linda como sempre.





Os meus filmes do dia 10:





Gospod postoi,imeto i’ e Petrunija / GodExists, Her Name Is Petrunya da realizadora Teona Strugar Mitevska: um filme da Macedónia que, com uma simplicidade quase berrante, demonstra a necessidade e a urgência da emancipação feminina. Baseado num facto real, conta a história de uma mulher de 32 anos (Zorica Nusheva, excelente), desempregada e a viver com um pai doente e uma mãe sádica e dominadora. No impulso de um momento invade um domínio tradicional dos homens, e vê-se metida em apuros com a polícia, o padre, o procurador e um mob de machos feridos no seu orgulho. O quarto poder também está presente na história, através da jornalista que explica detalhadamente aos telespectadores o choque cultural em causa, nos intervalos das gravações discute ao telefone com o marido sobre quem deve ir buscar a filha à escola, e tem ainda de resistir ao desinteresse do seu chefe por aquele tema. O quadro institucional é completado pela figura do Estado de Direito, mais concretamente, pela sua precariedade patente no comentário que repetem quando Petrunya exige que os seus direitos sejam respeitados: "pensas que estás na televisão?"Teona Strugar Mitevska oferece com este filme uma radiografia actual das estruturas patriarcais da Macedónia e da situação das mulheres jovens, com estudos mas sem perspectivas, e a actriz Zorica Nusheva oferece uma Petrunya que se nos torna cada vez mais simpática.
Há, em particular, um momento que vai directo ao coração do espectador: quando o polícia, despeitado por ela não fazer o que ele quer, lhe diz:
- Tenho uma filha de dez anos que é uma criança amorosa e muito bem-educada. Amo-a mais do que tudo no mundo, mas se ela daqui a uns anos começar a portar-se como tu, parto-lhe todos os ossos do corpo.
E Petrunya responde:
- Em contrapartida, eu tenho um pai que me apoia.






Born in Evin de
Maryam Zaree: esta realizadora alemã só por acaso descobriu que nasceu em Evin, a pior prisão política do Irão, e nela viveu dois anos. O pesado silêncio familiar à volta desse tema foi uma constante que acompanhou o seu crescimento, e abriu feridas que Maryam tentou sarar recorrendo à psicanálise durante vários anos, escrevendo uma peça de teatro ("Denial"), e fazendo agora este documentário que corresponde a uma fase sua mais madura e estável. O documentário regista, de forma simultaneamente divertida e profunda, a pesquisa do que aconteceu às crianças que nasceram ou passaram por aquela prisão e do que aconteceu às suas mães, questiona os motivos do silêncio à volta desses factos e as suas consequências para as gerações seguintes.
Um documentário bem feito e equilibrado, que surge quando a revolução islâmica iraniana cumpre quarenta anos, e quando na Turquia as cadeias políticas se enchem de mulheres e crianças.
Neste link encontram um pequeno trecho em inglês.




Talking money
de
Sebastian Winkels (secção Lola): neste documentário, a câmara filma a perspectiva de um empregado bancário por cuja mesa desfilam os problemas e os sonhos dos clientes que vêm pedir um empréstimo ou condições especiais para o reembolso. Filmado em vários continentes, em todos eles a secretária do escritório bancário toma ares de confessionário e assume-se como lugar de poder.
A ideia é interessante, mas para fazer um bom documentário não basta gravar as conversas das pessoas escolhidas ao acaso, e somá-las em filme.




Malchik russkiy / A Russian Youth de Alexander Zolotukhin: um filme pacifista russo, com boa  fotografia e bons cenários. Surpreendeu-me a coragem de fazer uma alusão clara a Putin naquele contexto de crítica à loucura bélica. No fim, o realizador falou da actualidade deste filme: é assustador sentir que o ambiente que precedeu a primeira guerra mundial está a instalar-se de novo entre nós.

Aktfotografie, z.B. Gundula Schulze e Wer fürchtet sich vorm schwarzen Mann / Who’s Afraid of the Bogeyman, ambos de Helke Misselwitz. A secção Retrospectiva, que em 2019 era inteiramente dedicada a trabalhos de mulheres, incluiu estes dois documentários de uma realizadora da RDA. O "Who's Afraid of the Bogeyman" é um documentário delicioso sobre uma empresa de Berlim Leste que venda de carvão e entrega ao domicílio, gerida por uma mulher. Filmado pouco antes da queda do muro, mostra-nos as difíceis condições de vida na RDA (aquecimento a carvão dentro dos apartamentos, transporte em baldes enormes e carrinhas minúsculas) e ao mesmo tempo o papel de poder das mulheres da RDA nas relações laborais. Não encontrei nenhum vestígio do filme na internet, e é pena, porque é um documentário que vale realmente a pena ver.
No fim do filme, o moderador da conversa com a realizadora e o público sintetizou o trabalho de Helke Misselwitz com esta frase: "esta mulher tem muito amor ao que filma".
É isso que torna este seu documentário delicioso - e me deixa curiosa para conhecer outros trabalhos dela.


20 fevereiro 2019

Berlinale 2019 - terceiro dia


Ao terceiro dia, o gelo típico de Fevereiro começou a dar lugar a dias chuvosos e cinzentos, e a minha Berlinale começou a ganhar forma. Aventurei-me com mais segurança pelo programa, comecei a fazer escolhas com menos ansiedade: Temblores em vez de Öndög (disseram-me depois que este último é excelente, mas não me arrependi da troca), Erde em vez de Shooting the Mafia, e as três horas de Brecht em vez dos documentários What We Left Unfinished e Estou-me Guardando Para Quando o Carnaval chegar.

Por essa altura já me tinha dado conta de que não é boa ideia ir para a Berlinale uma semana depois de ter sido operada: corria de um cinema para o outro segurando a barriga, temendo que os pontos se abrissem. As mãos protectoras sobre a barriga: sou eu, e a Meghan Markle (mas ela não corre, tem mais juízo que eu).



Na Haus der Berliner Festspiele, onde iam estrear o Brecht, estava tudo atrasado porque se aguardava a chegada do presidente da República, do presidente de Berlim e da ministra da Cultura. Entre outros. Fiquei sentada no balcão lateral, com boa vista para os figurões. A miúda ao meu lado não cabia em si de excitação: "o Tom Shilling está ali! Está ali o Tom Shilling! Não acredito que isto me está a acontecer!", repetia ela, e espreitava, e de novo virava para mim um sorriso enorme. Mas nem reparava no presidente da República, sentado praticamente ao lado do actor.

As três horas de Brecht foram afinal quatro, e já não me deixaram entrar em Système K.
Tive pena, claro, mas também me soube bem ir para casa mais cedo, para tentar trocar as voltas à famosa gripe da Berlinale.

Os meus filmes do dia 9:

Temblores, de Jayro Bustamante: Pablo, casado e pai de dois filhos, apaixona-se por um homem. Quando a sua família descobre, aperta-lhe um cerco tal que ele não tem outro remédio senão sujeitar-se ao tratamento para "curar a perversão", de modo a recuperar uma aparente normalidade. O filme mostra o que há de sadismo, manipulação e sentido de posse nas relações familiares e sociais, e revela o enorme poder das Igrejas na sociedade guatemalteca.
Na sala de cinema havia muitos casais do mesmo sexo. Vi o filme com o coração apertado - pelas cenas, e por empatia em relação aos casais à minha volta. Quantas histórias desta opressão do rebanho não teriam eles para contar? Quando acabou, o casal ao meu lado soltou suspiros fundos. Um perguntou ao outro: "a propósito, ouviste sobre aquele deputado brasileiro que teve de fugir do país?"
O team de Temblores subiu ao palco, e falou bastante sobre a situação na Guatemala. Descreveram um país com 98% de crentes, e acusaram o papel do ditador Rios Montt no aproveitamento político dessa religiosidade. Cimentando o seu poder no exército e na religião ("combatir con la Biblia en una mano y con una ametralladora en la otra"), deu tal força às Igrejas que hoje em dia as pessoas anunciam a sua religião no currículo e no próprio cartão de visita. Um motorista Uber, por exemplo, escreverá no seu cartão "Fulano de Tal, evangélico". A par da opressão das Igrejas, o machismo da sociedade e a tendência para manter as aparências à custa da felicidade individual combinam-se para impor aos homossexuais situações desumanas.
Uma das actrizes (ambas tiveram o seu primeiro papel neste filme) disse que sentiu que participar neste filme era um dever, porque é fundamental lutar contra as situações surreais que são afinal a realidade dos homossexuais na Guatemala. E o realizador Jayro Bustamante acrescentou ainda que falou com muitos homens, de todos os níveis sociais, e ouviu histórias terríveis. Escolheu pôr no filme as histórias menos pesadas, porque se incluísse também o pior do que lhe contaram o público não conseguiria acreditar e pensaria que se tratava de ficção cinematográfica.
Seguindo este link
é possível ver um pequeno trecho do filme.




Earth, de Nikolaus Geyrhalter:  um documentário sobre a banalidade da destruição do planeta. Começa com uma informação assustadora: dia após dia, a actividade humana remove um volume de solo três vezes superior ao que resulta do efeito conjugado de todos os elementos da natureza. Isso mesmo: nós destruímos três vezes mais que o vento, os rios, os mares, os terramotos e os vulcões. 
O documentário mostra sete lugares onde batalhões de escavadoras gigantes, explosivos e serras esburacam o planeta. Transforma as dimensões matemáticas - x milhões de hectares, x campos de futebol - em imagens que permitem entender a dimensão do desastre. Nas entrevistas, os operários encontram metáforas estranhamente poéticas para falar do seu trabalho: "a Natureza é uma amante ingrata", diz um deles, "não dá nada a bem." Muitos falam da Natureza como amante, vêem o seu trabalho como a desfloração de uma virgem, falam do imenso prazer da adrenalina.
O realizador teve o cuidado de evitar o maniqueísmo. Esta gente aplana colinas para fazer as novas zonas urbanas onde queremos construir as nossas casas, faz explodir e remove as entranhas da terra para encontrar o minério necessário às nossas ligações eléctricas, esburaca florestas para capturar o petróleo que alimenta os nossos carros. Trabalham para nós, para o nosso conforto e o nosso estilo de vida. Nós somos os predadores, eles são apenas o nosso braço direito. "Someone has to get this job done...", diz um deles. E a loucura não acaba: um deles acredita que dentro de dois ou três séculos este trabalho será feito em Marte.




Brecht, de Heinrich Breloer: um documentário de três horas que mistura vários géneros - imagens de arquivo, entrevistas e docudrama - para compor uma imagem muito multifacetada de Bertolt Brecht. Brecht e as mulheres, Brecht e o teatro, Brecht e a política, Brecht na História.
Gostei muito do documentário, e em particular dos momentos de entrevista à sua primeira namorada: ela conta a sua versão, e depois lê os apontamentos de Brecht sobre a vida dos dois e comenta "grande mentiroso!" ou "isto tem aqui muitas liberdades poéticas". Delicioso.
Notáveis são também as reconstruções dos momentos de criação, e do trabalho de encenação no palco do teatro Berliner Ensemble. Um Brecht genial, palpável, seguro do que faz, cheio de energia e amor ao teatro. Um Brecht apanhado na engrenagem de dois totalitarismos. E também um Brecht predador emocional, e o reforço da convicção: temos de separar o artista do carácter, caso contrário no fim só nos sobra o almanaque borda d‘agua Para ler. E mesmo esse...
Adele Neuhauser excelente no seu papel de Helene Weigel entre 1947 e 1956. Tom Shilling e Burghart Klaußner, os dois Brecht, também muito bons.
Disseram-me que este filme vai passar na Arte e na ARD em Março. Fiquem atentos.


"sois belle et tais-toi!" - Berlinale 2019










Tal como na indústria do cinema em geral, também a Berlinale tem vindo a dar um lugar cada vez mais central às mulheres. Em 2019, a acentuação dessa tendência revelou-se não apenas nos temas dos filmes mas também na secção Retrospectiva, que mostrou o trabalho das realizadoras, desde 1968 até 1999. Por sua vez, o programa de filmes de arquivo da secção Forum mostrou dois filmes de Delphine Seyrig sobre o papel que as inovações técnicas na área do vídeo tiveram na documentação do movimento feminista, e um exemplo das nossas possibilidades, concretizado no filme "Sois belle et tais-toi!". Trata-se de um documentário feito com meios muito simples (a câmara parada na cara da actriz entrevistada) e perguntas muito inteligentes ("terias escolhido ser actor se tivesses nascido homem?", "alguma vez fizeste uma cena com outra mulher, e, caso afirmativo, estavam numa posição de concorrência ou de confiança?", etc.).

O filme está no arquivo do Centre Audiovisuel Simone de Beauvoir, juntamente com milhares de outros documentos sobre a luta feminista. Nele, o que mais me surpreendeu foi dar-me conta de que já em 1976 se falava destes assuntos, mas foram necessárias décadas para a indústria do cinema começar a mudar.

Deixo três trechos de entrevistas, e acrescento uma ideia transmitida já não sei por qual actriz: nos anos quarenta do século passado o código Hays tinha regras muito rígidas para as cenas de cama nos filmes. As pessoas tinham de estar vestidas, e era obrigatório pelo menos uma delas ter um pé no chão. Essa foi uma época áurea para as actrizes: como não podiam fazer cenas de sexo, a indústria cinematográfica dava-lhes outros papéis e fazia-as aparecer nos filmes como sujeitos actuantes e com interesses próprios. A partir do momento em que a censura às cenas de sexo abrandou, as mulheres passaram a ter cada vez mais um papel subsidiário e de resposta às fantasias masculinas. 

"Sois belle et tais-toi!" foi o último que vi nesta Berlinale 2019. Uma bela maneira de terminar aquele festival.


09 fevereiro 2019

Berlinale 2019 - segundo dia




Systemsprenger / System Crasher, de Nora Fingscheidt - Sobre uma menina que é entregue ao sistema de protecção da infância porque a mãe não a consegue educar. Traumatizada e desesperada por amor, a miúda entra numa dinâmica de violência e leva o sistema de assistentes sociais e médicos aos limites das suas possibilidades.
A pequena Helena Zengel faz o seu papel impressionantemente bem.




Fortschritt im Tal der Ahnungslosen / Progress in the Valley of the People Who Don’t Know - Um documentário divertido e profundamente irónico sobre uma dinâmica de aproximação entre refugiados sírios e habitantes da região rural junto a Dresden.
Na RDA, chamava-se jocosamente a essa região "o vale dos que não fazem ideia" porque estava demasiado a Leste para conseguir ter acesso à rádio e à tv ocidentais. Estavam inteiramente sujeitos à propaganda do regime - e talvez isso explique em parte o facto de o movimento Pegida ter começado ali.
Depois da reunificação, a empresa de máquinas agrícolas Fortschritt ("progresso") foi fechada. Quando os refugiados começaram a chegar em grande número à Alemanha, alguns deles foram alojados nas instalações abandonadas e muito danificadas. Um grupo de antigos trabalhadores decidiu cuidar deles: nas instalações da antiga empresa ensinam-lhes alemão e contam-lhes como era a vida na RDA. Uma pessoa fica sem saber quem é mais náufrago: os sírios que falam das suas cidades destruídas ou os alemães que viveram uma vida num país que já não existe. 
O documentário tem vários momentos deliciosos. O meu favorito é o de uma aula de alemão, quando brincam em conjunto ao faz de conta numa cantina imaginária . Os alemães servem a comida e os sírios vão aprendendo frases simples, "arroz ou batatas fritas?", "estava muito bom, obrigado". No fim, o chefe dos alemães diz-lhes que se não têm dinheiro vão ter de cantar para pagar o almoço. Um dos sírios ri-se e diz aos outros que o melhor é pagar, mas acabam por se alinhar, e começam a cantar a capella um canção lindíssima que parece ser de amor mas acaba a revelar-se como lamento de saudade de um emigrante.
Os alemães também cantam: um coro de reformados entoa canções do tempo da RDA. Canções dolorosamente propagandísticas.


La arrancada, de Aldemar Matias  - um retrato em tons suaves de uma família cubana.





Grâce à Dieu, de François Ozon - Não é um grande filme, mas é um filme extremamente actual sobre o caso de um padre de Lyon que abusava de crianças, o silêncio da Igreja à volta do caso, as consequências sobre as vítimas e a terrível dificuldade de falar sobre o que lhes aconteceu. Esta história é muito recente: dentro de algumas semanas o tribunal dará o seu veredicto sobre a acusação ao cardeal Barbarin, arcebispo de Lyon.
Pessoalmente, foi-me muito penoso assistir à primeira parte do filme, quando uma das vítimas, que continuou na Igreja, tentou interpelar o arcebispo com toda a delicadeza. O modo como o bispo e a sua assistente o tentaram enrolar foi de um revoltante cinismo. A Igreja de Cristo não pode ser assim.
François Ozon escolheu um olhar neutro e sem disfarces sobre as fragilidades de todos. Também - et pour cause - as vítimas são pessoas com problemas graves, de um modo ou de outro. O filme não disfarça nem julga: ecce homo.



Berlinale 2019 - primeiro dia




Este ano a minha Berlinale começou da melhor maneira: ainda antes do filme de abertura, vi A Portuguesa, de Rita Azevedo Gomes, numa sessão para a imprensa. Excelente cinema de autor.
Excelente câmara de Acácio de Almeida. Um regalo para os olhos e a inteligência: a sucessão de quadros "renascentistas" atravessados pelos textos de Agustina.



A cerimónia de abertura no Berlinale Palast é só para convidados. Mas o povo - como eu, e como todos os que tiverem o cuidado de comprar o bilhete no primeiro minuto em que o festival abre as vendas - pode ir para o Friedrichstadt-Palast ver a transmissão em diferido. Anke Engelke começou a cerimónia em dueto com Max Raabe, cantando uma declaração de amor a um Dieter Kosslick visivelmente comovido (pode ver-se logo no início do filme). Depois continuou com as piadas e a apresentação dos elementos dos júris, naquela maneira muito berlinense, bastante aquém do profissionalismo de Hollywood mas com uma frescura e uma familiaridade que tudo compensam.

No fim da transmissão em diferido da cerimónia é costume o Dieter Kosslick aparecer a saudar o público do Friedrichstadt-Palast. Mas na quinta-feira passada fomos todos agradavelmente surpreendidos com a presença de Anke Engelke e do team do filme de abertura, The Kindness of Strangers, de Lone Scherfig.
Estava tudo a correr muito bem, mas depois o filme começou.



Devia ter desconfiado, quando a realizadora disse que tentou fazer um filme leve, apesar da seriedade do tema. Como é possível fazer um filme leve quando o tema é violência doméstica?
The Kindness of Strangers é um filme com alguns bons momentos, mas um iniludível sabor a fake.
Apear de tudo, diga-se em seu abono que consegue transmitir o desespero das famílias que vivem sob o domínio de alguém violento - ao menos isso.

De modo que o primeiro dia da Berlinale acabou empatado: um filme muito bom, um filme bastante fraquinho.

Berlinale 2018 - o último post carro vassoura (com bonecos)

 
 
Algumas histórias da Berlinale de 2018, agora com bonecos:

1.
Nem sei se lhe chame sovinice ou sentido prático, mas as decorações de Natal ficam lindamente na Berlinale. Durante quase três meses, a "little Manhattan" permanece emoldurada pela floresta de árvores  fantasma da Leipziger Platz.
 
2.
Um dos meus lugares favoritos da Berlinale, para além dos cinemas propriamente ditos, claro claro, é a lounge da Audi em frente ao Berlinale Palast. Agora é que me vou desgraçar, porque quando isto for do conhecimento de todos deixa de haver lugar para mim, mas pronto: no piso térreo tem um bar onde oferecem o Nespresso. Isso mesmo: oferecem. E no andar de cima tem uma sala com uma vista fantástica para o tapete vermelho, com comida muito boa (infelizmente essa não é oferecida), e volta e meia com concertos ou debates. Passam-se lá boas horinhas enquanto se espera o filme seguinte.
Foi lá que vi este par engraçado: ela a passar um frio dos diabos para ter uma foto daquelas de encher o olho à frente daquele cenário, ele a tirar pacientemente todas as fotos que ela quis, e depois ambos a apreciar o resultado. O amor é lindo.

Foi também em frente ao balcão Nespresso da lounge Audi que passei uma vergonha. Estava ali sossegadinha a bebericar o cappuccino, quando a senhora ao meu lado se virou para mim e atirou:
- Eu conheço-a!
- Hã...
- Vi-a na televisão, há alguns dias!
Ai! Tinha sido entrevistada pouco antes de entrar para o autocarro. Tentei esquivar-me com desculpas parvas, mas os jornalistas foram simpáticos e conseguiram suplantar a parvoíce das minhas desculpas, de modo que estávamos todos a rir quando começaram a fazer perguntas. Queriam saber por qual das portas do autocarro é que eu preferia entrar, e eu disse "pela de trás!" sem hesitação. "E porquê?", perguntaram eles. O meu autocarro já tinha chegado, não tinha tempo para pensar, e: "Porque tenho preguiça de mostrar o meu passe. Tenho-o na carteira, mas não me apetece tirá-lo para mostrar." Daí a nada estava a aparecer na televisão, muito sorridente, a anunciar à Alemanha que sou uma estrangeira preguiçosa.
A senhora no bar do Nespresso sorriu:
- Fiquei tão grata por ter dito aquilo! É que é exactamente o que eu penso. Não dá jeito nenhum tirar o passe para mostrar.

3.
Foi um prazer ver o público do filme Wang Zha de yuxue - Wangdrak's Rain Boots (falei dele aqui). A sala estava cheia de miúdos dos seus 10 ou 12 anos que tinham imensas perguntas a fazer ao rapazinho chinês. No fim, juntaram-se à volta dele a pedir autógrafos. Um enxame simpático.






4.
Na Berlinale 2018 foi anunciado que o seu estimadíssimo director, Dieter Kosslick, ia deixar de estar à frente do festival. Num desses dias parei durante uns momentos a ver a gente que se juntara à espera que ele saísse de uma conferência de imprensa, mostrando cartazes onde se lia "Dieter para (voltar a ser) Presidente". À saída ele foi ter com as pessoas e ficou a conversar com elas um bocadinho.
Isto é Berlim: quando as pessoas sentem que o director do festival de cinema é como se fosse da família.




4.
Numa das últimas manhãs da Berlinale, já dentro do autocarro, reparei que o sol estava a nascer. Saí do autocarro, voltei para trás, esperei pelo sol, e retomei caminho.
Madrugo muito durante os dias do festival, mas vale a pena. Por tudo, e também pelo sol a nascer ao fundo de uma rua.




5.
A Berlinale 2018 foi uma semana de muito frio, e belo céu azul. Entre um filme e outro, pude tirar algumas fotografias engraçadas.