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04 junho 2020

é o comunismo...

Para manter a proximidade social apesar do afastamento imposto pela crise da covid-19, o meu marido começou a jogar às cartas online com dois amigos. Um em Munique, o outro em Washington - e nós os dois em Brest, num apartamento minúsculo. De modo que eu vou ouvindo as conversas: o amigo que está nos EUA a anunciar há dois meses, preocupadíssimo, que a covid-19 ia ser um "banho de sangue" no seu país; ou, no mês passado, a perguntar porque é que na Alemanha morrem muito menos pessoas que nos outros países; e a gargalhada velhaca dos alemães de cá:
- Diz aí aos teus americanos que isto é o comunismo...

Nos EUA, qualquer proposta com preocupações mais sociais é "comunismo". Pois que seja - e aqui deixo alguns exemplos da forma como o "comunismo" do sistema alemão permitiu a crise da covid-19:

- Quando o problema ainda era apenas chinês, um laboratório de investigação estatal alemão criou um teste de diagnóstico. Em Janeiro, quando o vírus ainda nem sequer tinha chegado à Alemanha, o teste do laboratório estatal alemão foi posto gratuitamente à disposição do mundo inteiro;

- O chefe desta equipa, Christian Drosten, começou a dar entrevistas diárias para informar em primeira mão sobre o ponto da situação do ponto de vista científico. Várias pessoas contaram-me que todos os dias, antes de adormecer, ouviam o seu podcast de cerca de meia hora, porque a voz dele tinha um efeito apaziguador. E não era apenas a voz - era sobretudo a autenticidade: o cientista tinha a coragem e a humildade de falar da situação sem omissões nem dramas, de forma ponderada e autocorrectiva, assumindo aquilo que ainda não sabia e também o que entretanto aprendera e corrigira depois de uma entrevista anterior;

- Quando o vírus chegou à Alemanha, já havia testes em grande quantidade disponíveis em laboratórios de todo o país, para testar sem demoras os casos de risco, e pôr em isolamento todos os que dessem resultado positivo;

- Quando o governo impôs o confinamento, deu imediatamente e sem complicações burocráticas cinco mil euros a quem perdeu os seus rendimentos (vários amigos meus de Berlim - músicos, fotógrafos, etc. - receberam esse dinheiro num prazo de dois dias), permitindo a essas pessoas atravessar esta crise com um mínimo de tranquilidade, e ficar em casa em vez de se sujeitarem a fazer qualquer coisa para ganharem algum dinheiro;

- O governo alterou uma das regras do Sistema de Apoios Sociais, para que as pessoas que ficaram impedidas de trabalhar devido às regras de distanciamento social (como as dos sectores da cultura, das restauração, da prostituição, etc.) pudessem receber os apoios sem terem primeiro de gastar todas as suas poupanças, vender o apartamento ou mudar para um alojamento de dimensão menor; 

- Há mais de dez milhões de alemães a trabalhar em regime de horário e salário reduzido. São dez milhões a menos no desemprego, e são dez milhões que podem recomeçar a qualquer momento a trabalhar a pleno. Quando vier a retoma, empresas e trabalhadores estão prontos a avançar - ao contrário de outros países, nos quais a retoma será atrasada pelo facto de ser necessário procurar pessoas e treiná-las. 

É certo que também foram cometidos erros, também houve muita navegação à vista, também foi complicado gerir o conflito entre as informações em constante mutação por parte da ciência e a pressão das pessoas e dos agentes económicos para se voltar à normalidade. Ninguém disse que o "comunismo" é perfeito. Mas gostava de saber a escolha dos habitantes dos EUA (e já agora dos adeptos da AfD e do Chega): numa crise como a da covid-19, preferiam morar nos EUA do Trump ou na Alemanha de coligação de partidos do centro democrático?


09 maio 2020

75º aniversário do Dia da Libertação na Alemanha



O noticiário Heute Journal de 8.5.2020, no vídeo acima, é mais um daqueles momentos em que tenho pena de todos os que não entendem alemão. Trata-se da edição especial sobre os 75 anos da Libertação, e tem algo de irrepetível porque apresenta várias testemunhas daquela época a contar na primeira pessoa essa época da História. Para além das imagens das comemorações em Berlim, falaram com dois berlinenses (um detalhe do que contaram: a criança de sete anos que se habitua a ver mortos nas ruas, e a ver pessoas que têm sempre consigo uma tesoura para cortar botões da roupa dos mortos, porque na Berlim destruída não havia onde os comprar), fizeram uma entrevista absolutamente extraordinária a Klaus von Dohnanyi, que tinha 16 anos quando a guerra terminou, e perdera vários membros da sua famosa família de resistentes, assassinados pelo regime. Este homem de 92 anos, que teve um papel importante no mundo político alemão, lembrou que para nós hoje o importante não é olhar para o Dia da Libertação, mas para os erros cometidos 12 anos antes. O noticiário passou ainda em revista as comemorações noutros países, apresentou algumas peças sobre questões ligadas à covid-19, e terminou num lar de terceira idade em Israel para sobreviventes do Holocausto, mostrando jovens voluntárias alemãs que, sabendo que a organização de voluntariado internacional não enviaria ninguém para as substituir, escolheram continuar a cuidar daqueles idosos em vez de regressarem rapidamente à Alemanha aproveitando os serviços governamentais de repatriamento no início da crise.
Nas imagens - gravadas pelas próprias voluntárias, porque o isolamento absoluto não permitia a entrada de jornalistas do exterior - há cenas absolutamente tocantes. Como aquela em que uma sobrevivente conta à jovem alemã que os seus familiares foram assassinados logo à entrada em Auschwitz, e remata: "tu não tens culpa - mas isto aconteceu".
Cheguei ao fim deste noticiário comovida, e com vontade de acreditar na possibilidade da paz entre as pessoas.

Os planos de Berlim para as comemorações do 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa tiveram de ser drasticamente alterados devido à crise da covid-19. A "Festa do Encontro", em frente à Porta de Brandeburgo, foi anulada. As comemorações decorreram sobretudo online: com concertos em directo da Nikolaikirche em Leipzig e da Staatsoper Unter den Linden em Berlim, e com uma exposição online: "rumo a Berlim" (https://75jahrekriegsende.berlin/en/experience/ - em inglês)

No filme que partilho acima vêem-se alguns momentos da homenagem no Memorial para as Vítimas da Guerra e da Tirania, em frente à pietà  de Käthe Kollwitz . Nas palavras da própria artista: "A mãe está sentada, envolvendo o filho morto, que está deitado entre os joelhos dela. Já não é dor, mas introspecção".

Setenta e cinco anos depois do fim da guerra, a introspecção é a palavra chave. No mural de facebook do Governo Federal juntaram às imagens desta homenagem um texto que oferece uma boa síntese do como a Alemanha olha para esta terrível página do seu passado:

"8 de Maio, Dia da Libertação
A chanceler Merkel e o presidente Steinmeier, juntamente com os representantes dos outros órgãos constitucionais, comemoram hoje o fim da Segunda Guerra Mundial e a libertação do jugo do nacional-socialismo.
A capitulação da Alemanha, há 75 anos, para além de pôr fim a uma guerra terrível, acabou também com um regime de terror de uma violência inimaginável, que trouxe a morte e a destruição a inúmeras pessoas.
Este crime permanece para os alemães como um alerta constante, e constitui uma responsabilidade histórica e um dever para que nunca permitam a repetição de tamanha barbárie."

No seu discurso, o presidente Steinmeier usou palavras simples, mas firmes, para falar do passado e do percurso percorrido por este país, falar das ameaças do presente e da importância da Europa, e reafirmar a responsabilidade da Alemanha na luta para fortalecer a Democracia e o bom entendimento entre os povos. O discurso foi feito em frente ao Memorial das Vítimas da Guerra e da Tirania, na avenida Unter den Linden, a poucos metros da praça onde no dia 10 de Maio de 1933 uma turba de académicos nazis organizou a fogueira de livros.
Partilho, da página da Presidência, a tradução para inglês:
(fonte) (vídeo)


Seventy-five years ago today, the Second World War came to an end in Europe.
8 May 1945 marked the end of the Nazi reign of tyranny, the end of night-time bombing raids and death marches, the end of unprecedented German crimes and the end of the Shoah, that betrayal of all civilised values. Here in Berlin, where the war of annihilation was conceived and from where it was unleashed, and whither it returned with the full force of destruction – we had planned to commemorate this day jointly with others.
We had planned to commemorate the day together with representatives of the allies from East and West who made huge sacrifices to liberate this continent. Together with our partners from every corner of Europe that suffered under German occupation, and yet were willing to seek reconciliation. Together with the survivors of German crimes and the descendants of those who perished, so many of whom reached out to us in reconciliation. Together with everyone around the world who gave this country the chance of a fresh start.
We had planned to remember, too, with the older generation in Germany who experienced that period themselves. Who as children knew hunger and violence, who were driven from their homes. After the war, it was they who rebuilt this country, both in the East and in the West.
And we had planned to commemorate this day with the younger people of today, who, three generations later, ask what the past can teach them now. To them I say, "It is you who are the key! It is you who must carry the lessons of this cruel war into the future!" For this reason we had invited thousands of young people from around the world to Berlin today, young people whose grandparents were enemies, but who themselves have become friends.
That is how we had planned to mark this 8 May together. However, the COVID-19 pandemic has compelled us to commemorate this day alone – separated from those who mean so much to us, and to whom we are so grateful.
Perhaps this state of being alone will return us in our minds to 8 May 1945. On that date the Germans really were alone. Germany had suffered military defeat, political and economic ruin, and moral collapse. We had made enemies of the entire world.
Today, 75 years later, we are forced to commemorate alone, but we are not alone! That is today’s good news. We live in a vigorous and well-established democracy, in a country that has been reunified for 30 years, at the heart of a peaceful and united Europe. We are a trusted member of the international community and reap the fruits of cooperation and partnership around the world. We Germans can definitely now say that the day of liberation is a day of thanksgiving!
It has taken three generations for us to admit it wholeheartedly:
8 May 1945 was indeed a day of liberation. But at the time the vast majority of Germans did not perceive it as such.
The liberation of 1945 was imposed from outside. It had to come from outside – this country had descended too far into the evil, the guilt, it had brought upon itself. Likewise the economic reconstruction and democratic renewal in the western part of Germany were only made possible by the generosity, far-sightedness and readiness for reconciliation of its former foes.
But we, too, played a part in the liberation. In our internal liberation. This did not take place on 8 May 1945, on a single day. Rather it was a long and painful process which involved facing up to the past, investigating what people knew and what they had colluded in. Raising painful questions within families and between the generations. Fighting to stop silence and denial from prevailing.
It took decades – decades in which many Germans of my generation gradually learned to find their peace with this country. Decades in which our neighbours came to trust us again, decades that allowed a cautious resumption of relations, from ever closer union within the European Communities to the treaties concluded in the course of West Germany’s Ostpolitik.
And it was in these decades that the people of Eastern Europe’s courage and desire for freedom grew until they could no longer be kept behind walls – leading to that gladdest moment of liberation: Germany’s peaceful revolution and reunification. These decades of struggling with our history were decades that allowed democracy to mature in Germany.
The struggle continues to this day. Remembrance never ends. There can be no deliverance from our past. For without remembrance we lose our future.
It is only because we Germans look our past in the face and because we accept our historic responsibility that the peoples of the world have come to trust our country once more.
And this is why we, too, can have confidence in this Germany. This is the core of an enlightened, democratic spirit of patriotism. No German patriotism can come without its cracks. Without a clear awareness of light and darkness, joy and sorrow, gratitude and shame.
Rabbi Nachman once wrote: "No heart is as whole as a broken heart." Germany’s past is a fractured past – with responsibility for the murdering of millions and the suffering of millions. That breaks our hearts. And that is why I say that this country can only be loved with a broken heart.
Anybody who cannot bear this, who demands that a line be drawn under our past, is not only denying the catastrophe that was the war and the Nazi dictatorship. They are also devaluing all the good that has since been achieved and denying the very essence of our democracy.
"Human dignity shall be inviolable." This first sentence of our constitution is and remains a public reminder of what happened in Auschwitz, of what happened in the war and during the dictatorship. It is not remembrance that is a burden – it is non-remembrance that becomes a burden.
It is not professing responsibility that is shameful – it is denial that is shameful!
But what does our historic responsibility mean today – three-quarters of a century after the fact? The gratitude we feel today must not make us complacent. We must never forget that remembrance is a challenge and a duty.
"Never again," we vowed after the war. But for us Germans in particular, this "never again" means "never again alone". This sentence is truer in Europe than anywhere else. We must keep Europe together. We must think, feel and act as Europeans. If we do not hold Europe together, also during and after this pandemic, then we will have shown ourselves not to be worthy of 8 May. If Europe fails, the "never again" also fails.
The international community learned from this "never again". After 1945, it forged a new foundation out of all it had learnt from this catastrophe, it built human rights and international law, rules to preserve peace and cooperation.
Our country, from which evil once emanated, has over the years changed from being a threat to the international order to being its champion. And so we must not allow this peaceful order to disintegrate before our eyes. We must not allow ourselves to be estranged from those who established it. We want more cooperation around the world, not less – also when it comes to fighting the pandemic.
"8 May was a day of liberation." In my opinion, these famous words of Richard von Weizsäcker’s have to be reinterpreted today. When they were spoken, they constituted a milestone in our efforts to come to terms with our past. But today they must point to our future. For liberation is never complete, and it is not something that we can just experience passively. It challenges us actively, every day anew.
In 1945 we were liberated. Today, we must liberate ourselves.
From the temptations of a new brand of nationalism. From a fascination with authoritarianism. From distrust, isolationism and hostility between nations. From hatred and hate speech, from xenophobia and contempt for democracy – for they are but the old evil in a new guise. On this 8 May, we commemorate the victims of Hanau, of Halle and Kassel. They have not been forgotten in the midst of COVID-19.
"If it can happen here, it can happen anywhere." These words were spoken by Israel’s President Reuven Rivlin on Holocaust Remembrance Day in the German Bundestag earlier this year. If it can happen here, it can happen anywhere. But today there is nobody to liberate us from these dangers. We have to liberate ourselves. We were liberated – freed to be responsible for our own actions!
I am well aware that this year 8 May comes at a time of great upheaval and great uncertainty.
Not just because of the COVID-19 pandemic, but very much exacerbated by it. We do not yet know when and how we will emerge from this crisis. But we know how we entered it: with great confidence in this country, in our democracy, in what we can shoulder together. That shows how very far we have come in 75 years. And it gives me hope for all the challenges ahead.
We cannot come together for a commemorative event because of coronavirus. But we can grasp the silence. We can pause to reflect.
I ask all Germans to remember silently the victims of the war and the victims of National Socialism. Wherever your roots may lie, take a moment to revisit your memories, your family’s memories, the history of the country in which we all live. Think what the liberation of 8 May means for your life and your actions.
75 years after the end of the war, we Germans have much to be thankful for. But none of the positive achievements since that date are safe in perpetuity. 8 May was not the end of the liberation – preserving freedom and democracy is the never-ending task it has bequeathed us!

26 abril 2020

"quiche"

A cena que vou contar passou-se em Weimar, no coração da Turíngia, uns 15 anos depois da reunificação. Nessa época, a maior parte das pessoas falava russo como segunda língua, e ia tentando fazer o seu caminho entre o sistema em que se socializara, e o sistema forasteiro que se viera impor às suas vidas.

O liceu da minha filha usava uma forte componente de francês para afirmar a sua diferença no panorama escolar da cidade, e por isso atraía muitas famílias vindas da parte ocidental da Alemanha. As reuniões de pais eram muitas vezes momentos de confronto de paradigma - que eu, portuguesa, observava como se não fosse nada comigo.

Numa dessas reuniões falava-se das propostas que vários pais tinham feito para as comidas a servir numa festa escolar. A directora de turma juntara as propostas numa lista, que íamos lendo e discutindo.

Perante a oferta de levar uma #quiche, feita por uma família de Frankfurt, uma mulher de Weimar perguntava completamente desorientada:

- Kvitxe? Que é isto?

Ela lera a palavra francesa segundo as regras do alemão: "u" a seguir a "q" lê-se como "v". E, obviamente, não fazia a menor ideia da língua original da palavra, e do seu significado.

Uns dias mais tarde a pessoa que fizera a proposta de levar uma quiche comentava comigo aquele momento. Ria-se imenso com o sucedido, especialmente porque "kvitxe" lembra "quietschen" (chiar).

A confusão tinha graça, mas eu não devia ter rido com ela. Muitas das dificuldades que existem actualmente na Alemanha nasceram de atitudes como essa, do sentimento de superioridade de alguns perante quem não conhecia algo normal na Alemanha Ocidental, sem se darem conta de que essas pessoas não eram ignorantes - simplesmente sabiam outras coisas, conheciam outros mundos.


11 novembro 2019

histórias do muro de Berlim no verão e no outono de 1989



(foto de autor desconhecido, fotografada numa das exposições comemorativas do 30º aniversário da queda do muro)


Este fim-de-semana o meu coro saiu de Berlim para preparar intensamente o concerto do Requiem de Mozart que vamos ter daqui a duas semanas. Estava fora de causa não participar nesta saída, mas aceitei contrariada. Logo na altura em que Berlim comemora os trinta anos da queda do muro!

Para não se perder tudo, sugeri que as pessoas se apresentassem dizendo não apenas o seu nome, mas também onde estavam no dia 9.11.1989. E depois regalei-me a ouvir as histórias deles: na fila para o jantar, no café, nos passeios, ao pequeno-almoço...

Tentando repetir de memória o que me contaram, começo pela cantora que na altura tinha cerca de cinquenta anos e vivia em Berlim Leste: um dos seus três filhos já estava na Alemanha ocidental, e a filha tentou também a sua sorte pela Hungria. Antes de partir, disse à mãe que não podia mexer nas poupanças que tinha no banco, para não levantar suspeitas, mas que mal desse sinal de estar em segurança a mãe devia ir buscar esse dinheiro e comprar aquele casaco muito caro com que sonhava há anos. E assim se fez. Passados uns tempos, a própria mãe começou a pensar ir juntar-se à filha. Mas sentia uma certa relutância, porque ainda tinha em Berlim Leste um filho e uma nora prestes a serem pais. Eles riram-se: "vai para o outro lado, até nos dá jeito ter uma avó que sabe bem aquilo de que precisamos, em vez de nos mandar farinha e outras palermices como fazem os outros parentes que lá temos". Ela pediu um visto para ir fazer férias na Hungria, combinou com a filha um ponto de encontro nesse país, e deu ao filho a televisão e outras coisas mais valiosas, porque sabia que o Estado ficaria com todo o recheio da casa. Na véspera de sair para as férias uma colega avisou-a em tom jovial que o chefe tinha comentado que ela ia à Hungria e não voltava. Soube ler nas entrelinhas - "eles estão de olho em ti!" - e meteu na mala apenas o indispensável para os dias de férias que estavam previstos na documentação. Conseguiu sair da Alemanha, encontrar-se com a filha que a viera buscar de carro, e pedir ajuda na Embaixada em Budapeste. Alguns dias mais tarde faziam parte de uma enorme coluna de autocarros que levava todas aquelas pessoas para a Áustria. Quando viram o helicóptero da imprensa por cima delas, a condutora acelerou quanto pôde para escapar ao grupo e às câmaras dos jornalistas. Como o seu carro era de marca ocidental e matrícula alemã, conseguiram passar sem serem filmadas nem entrevistadas. Não queriam nada disso.
Os primeiros tempos na Alemanha Ocidental foram muito duros. Ninguém lhe queria dar trabalho, e ela teve de aprender a jogar com regras novas. Quando finalmente arranjou um emprego - para o qual era claramente sobre qualificada - e um apartamento na casa de uma senhora de idade que queria ter por perto alguém de confiança com conhecimentos médicos, pensou que podia finalmente refazer a sua vida. Mas por pouco tempo. Os vizinhos começaram a comentar e criticar tudo o que ela fazia, e eram tão invasivos e verbalmente agressivos que ela rapidamente concluiu que tinha de sair dali o mais depressa possível.
Entretanto o muro caíra, mas ela não teve pressa de voltar a Berlim Leste. Sabia que os vizinhos e muitos dos seus conhecidos estavam ressentidos com ela por ter abandonado o barco de todos.
Entretanto, o seu apartamento em Berlim acabou por não ser esvaziado pelo Estado, mas pelo próprio filho. No verão de 1989 havia tantas dessas moradas abandonadas na RDA que o Estado não conseguia tratar de tudo. Ainda agora, trinta anos mais tarde, se calha de ela abrir um armário na casa do filho, depara com algumas das melhores louças que vieram da casa dela. "Mas nem pensar em pedir-lhes que mas devolvam!", rematou.

Umas semanas antes da sua fuga, outra colega do coro, na altura com 19 anos, decidiu acompanhar a mãe e o irmão na tentativa de passarem a fronteira da Hungria. Os pais eram divorciados, e a mãe proibiu-os de contarem ao pai. Na véspera da partida, este encontrou-se com os filhos para combinarem as férias que iam fazer uns dias mais tarde, e ela mentiu o melhor que pôde. Depois de se despedirem, passou a noite a chorar com vergonha daquela traição. Em Budapeste, pediram ajuda na Embaixada e foram enviados para um campo de acolhimento de pessoas em fuga, onde ficaram alguns dias. Uma manhã descobriram que em todos os carros da RDA havia um folheto no pára-brisas informando que ia haver junto à fronteira um piquenique para a paz. "Só pode ser uma armadilha da Stasi", pensaram eles, alarmados, e decidiram fugir quanto antes. Apenas com uma bússola e a roupa que tinham no corpo, atravessaram florestas e campos em busca da fronteira com a Áustria. Além de ser uma caminhada extenuante, temiam ser apanhados por polícias húngaros, feitos prisioneiros e repatriados. Finalmente conseguiram entrar na Áustria. A sensação de alívio deu rapidamente lugar à de indigência: "é horroroso estares num país estrangeiro e só teres de teu a roupa e os sapatos que levas". Telefonou ao pai, para contar onde estavam, mas ele já sabia: tinha-os visto na televisão.
Odiou a RFA. Um enorme choque cultural - e a sua sensação de estar no lado errado do mundo viria a reforçar-se quando foi passar umas semanas nos EUA, em Los Angeles. Sentia uma saudade enorme do pai e da vida que tinha sido a dela no Leste. Começou a meter os papéis para poder ir visitar o pai em Berlim Leste, mas recebia sempre resposta negativa. Até que - finalmente! - recebeu autorização para entrar na RDA, com data marcada para o dia 11 de Novembro.
No dia 9 de Novembro estava no seu apartamento em Berlim Ocidental, mas não foi para a rua. Ficou em casa, junto ao telefone, à espera que o pai lhe dissesse por onde ia entrar. Mas o pai ligou a um irmão seu, em vez de ligar aos filhos. De modo que ela passou a noite toda em casa, sempre à espera.
(Mas já lhe perdoou há muito.)

Mais algumas das histórias que me contaram:

O filho de uns amigos, que tinha 18 anos, e tentou atravessar sozinho a fronteira da Hungria. Conseguiu, mas quando chegou à Áustria ficou cheio de saudades dos amigos que deixara para trás, e - "coisas que se fazem aos 18 anos" - resolveu regressar. Foi aí que o apanharam, o prenderam e o repatriaram: para as longas garras da Stasi.

O marido de uma das minhas colegas de coro vivia em Kreuzberg e trabalhava em Wedding (ambos bairros de Berlim Ocidental). O muro obrigava-o a dar uma volta enorme pela cidade. Uns dias depois do 9 de Novembro, ele próprio rebentou uma porta no muro que ainda estava fechada, para poder ir trabalhar pelo caminho mais directo.

Duas pessoas do coro, da Alemanha Ocidental, não sabiam onde estavam nessa noite. Uma porque tinha um desgosto de amor tão grande que apagou todo o resto. Outra porque não captou o significado histórico do momento. Lembra-se bem onde estava quando começou o massacre de Tiannamen ou quando começou a primeira guerra do Golfo, mas não tem nenhuma ideia sobre o que estava a fazer no dia 9.11.1989.

Já outra, também de Berlim Ocidental, sabe muito bem: estava a dormir. No dia seguinte, ao acordar, o marido comentou que cheirava a Trabi. Ligaram o rádio, e foi assim que ficaram a saber.

Uma outra era estudante em Berlim Oriental. Soube da queda do muro, mas ficou em casa a estudar. "Primeiro, o dever!", comentou ela com um sorriso de auto-ironia. No dia seguinte estava na Universidade como habitualmente às oito da manhã, mas as salas estavam praticamente desertas. "Bem, sendo assim, vou também..." - e foi.

O testemunho mais inesperado e que mais me deu que pensar foi o de uma mulher de Berlim Leste que contou que no dia 9 de Novembro tinha a filhinha a dormir, e resolveu ficar em casa. No dia 10 de Novembro, que era sexta-feira, também não sentiu grande necessidade de ir espreitar o Ocidente. No dia 9, um casal conhecido dela deixara o filho de três anos em casa a dormir, e fora durante a noite ao outro lado. O miúdo acordou, viu-se sozinho, e saiu para a rua escura e deserta, para ir pedir ajuda a uma tia que morava umas casas à frente. Gagueja desde então. Ela e o marido só uns dias mais tarde atravessaram o muro. Foram recebidos por um grupo de pessoas de Berlim Ocidental que ofereciam bananas aos do Leste, e sentiu-se insultada. Como se eles não tivessem bananas do outro lado do muro, como se precisassem daquelas esmolas... "Como quem atira bananas aos macacos no zoo?", perguntei eu. "Ora, no zoo já eu me sentia há muito. Morava muito perto do muro, e sempre que ia com a minha mãe à padaria havia alguém do outro lado a espreitar-nos usando binóculos. A minha mãe comentava que faziam de nós macaquinhos no zoo."
Ouvia, e comecei a juntar peças: morava perto do muro - algo geralmente possível apenas para as pessoas mais fiéis ao regime -, não tinha vontade de ir espreitar o outro lado, e sentia como insulto o que os do Ocidente faziam...
Por outro lado, pensei no que eu própria fiz quando visitei Berlim na Páscoa de 1989: também eu observei despudoradamente as pessoas do outro lado. A imagem dos animais do zoo era muito certeira, e espelhava bem a minha atitude de então.

Algumas colegas de coro tentaram adivinhar quem era wessi e quem era ossi. Chegada a minha vez, decidiram: europeia!
Mas tive de as desenganar. Na Alemanha sou wessi. Tenho socialização de wessi, e tenho comportamento de wessi. Até sou uma daquelas pessoas que compraram na antiga RDA uma bela casa meio em ruínas, a arranjou e foi viver nela.

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Regressámos a Berlim ainda a tempo de passar pela Porta de Brandeburgo. O "céu sobre Berlim" estava muito mais baixo que quatro dias antes, e as pessoas andavam numa azáfama alegre a escrever a sua mensagem naquelas fitas.





9 de Novembro. O que há numa data? E num nome?


Este texto sobre os vários 9 de Novembro da Alemanha foi publicado no 7 Margens em Novembro de 2018. Para minha memória futura, publico-o aqui agora por extenso:


A queda do muro de Berlim (em 1989), que deu origem ao processo de reunificação da Alemanha dividida após a Segunda Guerra Mundial, seria a melhor das razões para fazer do dia 9 de Novembro o feriado nacional alemão. Mas o 9 de Novembro está também marcado pela terrível sombra do pogrom nazi de 1938, pelo que a data escolhida para o feriado nacional acabou por ser o 3 de Outubro, dia da entrada oficial dos cinco Estados da RDA na República Federal da Alemanha.


O que há numa data?
Para além do pogrom nazi e da queda do muro, esta data está marcada por outros acontecimentos históricos importantes:

– 9 de Novembro de 1848: a execução de Robert Blum em Viena marcou o início do fim da Revolução de Março nos Estados alemães (que exigia – entre outros – uma Constituição para limitar o poder monárquico, a extinção dos laços que mantinham os agricultores presos aos senhores das terras, e mais direitos para os trabalhadores);

– 9 de Novembro de 1918: proclamação da República em Berlim (levando ao fim da Primeira Guerra Mundial, que desembocou tragicamente no tratado de Versalhes e na criação do contexto dramático que permitiria a ascensão dos nazis);

– 9 de Novembro de 1923: golpe do Hitler, em Munique, com o objectivo de tomar o poder e instalar uma ditadura nacionalista; o golpe falhou, o partido NSDAP foi proibido, Hitler foi condenado a cinco anos na prisão, aproveitou esse tempo para começar a escrever Mein Kampf, e dez anos depois estava a tomar o poder por via democrática.

Pelo que retomo a questão de fazer do 9 de Novembro o feriado nacional alemão: haveria algo de extraordinariamente inovador num feriado nacional que lembrasse tanto os feitos gloriosos como as vergonhas e os passos em falso da História – porque os países são feitos de tudo isso: glória, fracasso e vergonha.

O que há num nome?

Há apenas oitenta anos (já as minhas avós eram adultas, já os meus pais começavam a frequentar a escola) os nazis organizaram um ataque contra os judeus em toda a Alemanha. Para dar a aparência de uma certa legalidade, mascararam o ataque de “fúria popular”. Os paramilitares iam vestidos à civil, e Goebbels fez saber que a polícia não impediria os populares de darem livre curso à sua fúria justificada pelo recente assassinato de Ernst von Rath, em Paris. Por seu lado, as ordens dadas às SA eram muito claras: deitar fogo às sinagogas apenas se não houvesse a possibilidade de alastrar a outras casas; destruir as lojas dos judeus mas não permitir que fossem pilhadas; cuidar da segurança das lojas dos não judeus.

O ataque foi realizado com toda a eficiência, e permitiu testar a população alemã: ao assistir sem nada fazer, mostrou que permitiria acções ainda mais violentas contra os seus vizinhos judeus. 
Durante décadas chamou-se a este ataque “Noite dos Cristais”. O nome resultou naturalmente dos montes de vidros espalhados pelos passeios das cidades (que no dia seguinte, em mais um sinal do cinismo do regime, as vítimas foram obrigadas a remover, porque “dava mau aspecto à rua”), e assim foi usado de forma acrítica até aos anos oitenta do século passado.

Só nessa altura surgiu o debate que alertava para o eufemismo e até a glorificação do feito subjacentes à expressão “Noite de Cristal” ou “Noite dos Cristais”. Ainda hoje não há acordo sobre o nome correcto a dar a este momento, e é lamentável, porque se trata de uma fenda na História da civilização europeia. Alguns nomes propostos: Noite do Pogrom do Reich, Noite do Pogrom de Novembro. 

Por mim, seria este: Noite do Pogrom Nazi. 

Erich Kästner, jornalista e escritor, testemunhou assim os acontecimentos da noite de 9 para 10 de Novembro de 1938 no Kurfürstendamm (a avenida mais importante da abastada parte ocidental da cidade):

Naquela noite apanhei um táxi para regressar a casa, que me levou pela Tauentzien e pelo Kurfürstendamm. Dos dois lados da rua havia homens que batiam com barras de metal nas montras das lojas. Por todos os lados o vidro quebrava e espalhava-se em estilhaços. Eram homens da SS, com calças de montar pretas e botas de cano alto, mas com chapéu e casaco à paisana. Faziam o seu trabalho calma e sistematicamente. Dava a impressão que cada um estava encarregado de quatro ou cinco casas. Levantavam a barra de ferro, batiam várias vezes e avançavam depois para a montra seguinte. Não se viam outras pessoas na rua. Só mais tarde, contaram-me no dia seguinte, terão aparecido serventes de bar, empregados de mesa nocturnos e prostitutas, para saquear as lojas.
Três vezes fiz parar o táxi. Três vezes quis sair do carro. Três vezes surgiram de trás de uma árvore agentes da polícia que me deram ordens peremptórias de voltar a entrar no táxi e continuar a viagem. Três vezes lhes retorqui que ainda posso sair de um carro quando me apetece, e particularmente num momento como este, quando em público se praticam – passe o eufemismo – actos impróprios. Três vezes disseram com maus modos “polícia judiciária!”. Três vezes bateram a porta do carro. Quando quis parar pela quarta vez, o condutor recusou-se. “Não adianta”, disse ele, “e além disso está a resistir à autoridade do Estado!” Só parou quando chegámos à minha casa.

(Erich Kästner: Notabene 45. Ein Tagebuch, Frankfurt/M 1983, Pg.140)


9 de Novembro de 1989

Pouco haverá a acrescentar para quem – como quase todos nós – assistiu à História em directo pela televisão. Pelo que me limito a dois relatos que ouvi a mulheres que conheci em Weimar, cidade da antiga RDA, no dia em que a pergunta foi “onde estavas no 9 de Novembro?”

– Naquela noite, estava num restaurante com a minha família. Era o jantar de despedida do meu irmão, que tinha conseguido um visto para abandonar o país. Estávamos todos muito tristes, porque não tínhamos a menor ideia do que seria a vida dele na Alemanha Ocidental e de quando nos poderíamos voltar a encontrar. Às tantas, um empregado chegou à nossa mesa cheio de pressa para pagarmos o jantar porque se queria ir embora, e anunciou “abriram a fronteira!”
Nós respondemos-lhe que a última coisa de que precisávamos era de gracinhas de mau gosto.

– Não me dei conta de nada nessa noite. No dia seguinte, na universidade, alguém contou que tinha andado a passear no Kurfürstendamm. Eu ouvia a história, à espera do momento em que viria a frase “e estendi a mão e bati na mesinha de cabeceira”, mas nunca mais vinha. Até que me dei conta que era verdade. Corri para uma rua que me tinham indicado, reparei pela primeira vez que nessa parte do muro havia uma porta, e que estava aberta. Juntei-me ao grupo enorme dos que queriam passar. Eram tantos, que os meus pés quase não tocavam o chão. Os guardas já nem se davam ao trabalho de olhar para os passaportes. Mas o tempo todo eu temia que fechassem a porta mesmo à minha frente. Algo tão fantástico não poderia tornar-se verdade. Finalmente consegui atravessar a fronteira, e passei o resto do dia a entrar em lojas de florista para ver e cheirar todas aquelas flores que não conhecia.