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14 agosto 2011

13.08.1961 - 13.08.2011 (2)

Discurso de Klaus Wowereit, o presidente da câmara de Berlim, por ocasião do cinquentenário da construção do muro de Berlim, junto ao memorial do muro na Bernauer Straße:

(aqui em alemão, tradução do Speedy Gonzalez)

("presidente da câmara" não é uma expressão muito correcta. Berlim é um dos Estados alemães, e o seu presidente tem as mesmas funções de um ministro-presidente. Um dia, quando não for o Speedy Gonzalez a traduzir, hei-de averiguar como é que isto se traduz para português.)



„Hoje lembramos o dia mais triste da História recente de Berlim. A Bernauer Straße tornou-se o símbolo mais forte da tragédia da divisão da nossa cidade.

Tudo mudou com o dia 13 de Agosto de 1961. A construção do muro atingiu os berlinenses em cheio. Perplexos, fomos testemunhas do modo como o Estado da SED cimentava a divisão da cidade. Estávamos chocados e desesperados. Muitas pessoas tentaram ainda no último momento fugir para o Ocidente. Ainda hoje essas imagens nos perturbam, porque nos revelam o desejo de liberdade dos berlinenses e documentam a desumanidade e a injustiça do muro.

Pessoalmente, esta amarga experiência é-me um estímulo para não desistir nunca na luta contra pensamentos e actos totalitários, independentemente da capa e dos disfarces ideológicos que possam usar.

Mais de 100 pessoas morreram entre 1961 e 1989 ao longo dos 155 km da fronteira à volta de Berlim ocidental, porque tentaram conquistar a liberdade. Mas este sonho de liberdade terminou duramente sob uma chuva de balas dos soldados da fronteira da RDA.

No dia 13 de Agosto de 1961 os governantes da RDA encarceraram o seu povo, roubando a dezenas de milhares de pessoas a sua perspectiva de vida [refere-se aos residentes de Berlim leste que trabalhavam em Berlim ocidental]. Com esta acção o regime SED ganhou tempo, mas já naquele momento se anunciava a bancarrota de um sistema do qual as pessoas fugiam.

Hoje, 50 anos depois da construção do muro, lembramos as vítimas da fronteira da RDA, mas também todos os que – em Bautzen, Hohenschönhausen ou nos outros locais do horror – foram vítimas de injustiças porque queriam ser livres. Lembramos a perseverância de tantos berlinenses que, apesar de todas as dificuldades, continuaram a acreditar no futuro da nossa cidade e deram tudo para o conseguir. Pensamos em todas as melhorias que Willy Brandt, como presidente da câmara e como chanceler conseguiu, bem como os seus sucessores. Lembramos hoje tantas pessoas que, de todo o mundo, estiveram com os berlinenses durante esses tempos difíceis. Recordemos John F. Kennedy, que nos deu alento com a sua frase: ‚Ich bin ein Berliner.’

A nossa gratidão dirige-se hoje muito em especial aos membros dos movimentos de direitos humanos da RDA, aos quais a Igreja Evangélica ofereceu o tão importante espaço de liberdade e deu tanto encorajamento. A revolução pacífica e a vitória dos movimentos europeus de libertação contra a ditadura comunista na Polónia, na Hungria e na Checoslováquia: eles aplanaram o caminho para o fim da nossa divisão. E é a sobretudo a Michail Gorbatschow, nosso cidadão honorário, que devemos o facto de esta ter sido uma transição pacífica.

Quando o muro caiu, a 9 de Novembro de 1989, os berlinenses mal podiam acreditar em tamanha felicidade. Abraçados uns aos outros, festejavam o fim dessa triste época de encarceramento e espaço exíguo. E o mundo festejava connosco.

Isso foi há pouco menos de 22 anos. Desde então, Berlim transformou-se a uma velocidade vertiginosa, e é hoje considerada uma das metrópoles mais excitantes do mundo. Podemos orgulhar-nos disso. Contudo, também há pessoas no Leste da Alemanha cuja vida foi duramente atingida por estas transformações. Essas pessoas merecem a nossa solidariedade, e as suas realizações merecem o nosso respeito.

Não merecem qualquer compreensão, em contrapartida, aqueles que glorificam com nostalgia a divisão operada pelo muro. O muro era parte de um sistema ditatorial, um Estado sem Direito. É assustador que ainda hoje alguns afirmem que a SED tinha boas razões para construir o muro. Não! Para a injustiça, para o desrespeito dos direitos humanos, para mortos devido ao muro e ao arame farpado não há qualquer bom motivo e qualquer justificação.

O muro passou à história, mas não o podemos esquecer. Quem se confronta com este tema torna-se mais sensível aos problemas da injustiça e das ideologias totalitárias. Aqui, na Bernauer Straße, encontramo-nos num ponto central dos acontecimentos de 13 de Agosto de 1961. A autenticidade deste local lembra a história do muro de Berlim. E hoje acrescentámos ao memorial uma parcela importante [refere-se à parte do memorial que foi inaugurada ontem, entre a Ackerstrasse e a capela da Reconciliação, onde estão marcadas as paredes exteriores dos edifícios destruídos para estender a faixa da morte]. Com mais de meio milhão de visitantes por ano, é o mais visitado memorial das injustiças da SED. No entanto, inquéritos feitos à população revelam repetidamente que a falta de interesse e a ignorância em relação à divisão alemã e à construção do muro têm vindo a crescer.

Hoje, 50 anos após a construção do muro, é a hora de dar nas escolas um espaço alargado a este tema, de pais falarem com os seus filhos sobre o que experienciaram nessa época, e de procurarmos o diálogo com testemunhas desse tempo que vivem ainda entre nós.

Um jornal diário de Berlim escreveu no dia 14 de Agosto de 1961: ‚os berlinenses nunca esquecerão este dia.’ Hoje, no cinquentenário da construção do muro, eu acrescento: é responsabilidade de todos nós manter a memória viva e passá-la às próximas gerações, para que tal injustiça não se repita nunca mais. “

13 agosto 2011

13.08.1961 - 13.08.2011 (1)

Hoje, cinquenta anos após o início da construção do muro, milhares de berlinenses pararam para lembrar esse duro capítulo da sua História. E nós com eles, na Bernauerstrasse, local onde decorreram as cerimónias mais importantes (aqui, um filme com um pequeno resumo, em alemão).

Antes do raiar do dia, entre a meia-noite e as seis da manhã, foram lidas na Capela da Reconciliação as biografias de pessoas que morreram ao tentar passar o muro, o que foi transmitido em directo por uma estação de rádio. 

Nós chegámos já depois dos discursos dos políticos e da homenagem junto ao memorial, mas a tempo de participar no minuto de silêncio que se realizou ao meio-dia. Depois cantou-se o hino ("Unidade, Direito e Liberdade para a pátria alemã" - como se tivesse sido escrito de propósito para esta ocasião ) e uma antiga canção revolucionária que não perde a actualidade: die Gedanken sind frei (os pensamentos são livres).


Seguiu-se um bailado no novo espaço do memorial do muro de Berlim, na área da faixa da morte entre a Ackerstrasse e a Igreja da Reconciliação: participantes de várias idades tematizavam a história daquela rua. (amanhã tentarei pôr aqui um vídeo onde se vê parte do bailado - de momento ainda não está disponível na internet)

Depois os figurões foram-se embora, e nós pudemos sentar-nos nas cadeiras deles para assistir a conversas muito interessantes com testemunhas da época. Os primeiros convidados contaram como viveram esse dia 13 de Agosto e os seguintes. Outros temas: ajuda para os refugiados, desafios à política, resistência e ajuda à fuga dos "sitiados", resgate/tráfico humano por motivos humanitários, testemunhos dos Aliados, etc. 

Gosto da maneira como os alemães trabalham a sua Memória com palavras e gestos dignos, simples e claros. Como Klaus Wowereit, o representante máximo da cidade, que no seu discurso lembrou que em circunstância alguma se pode desculpar esta violência do Estado contra os seus cidadãos. Como os que hoje passaram filmes que documentavam a história do muro, chamaram testemunhas para fazer depoimentos perante o povo da cidade e convidaram todos a unir as suas vozes entoando canções de profundo significado simbólico e histórico.

Nos próximos posts continuarei a escrever sobre este tema.