29 maio 2020

não há condições



Isto é um stress que nem vos digo nem vos conto!

Bem tentei, garanto que sim, mas não consegui desbastar as quase duas mil fotografias que tirei no fim-de-semana passado. De modo que não consegui ainda fazer uns posts mais ou menos sintéticos dos sítios que vi durante essas miniférias. E daqui a uma hora saio para as miniférias desta semana. Maio, com todas as suas pontes, tem sido um mês terrível...

Ontem pensei que conseguiria dar um bom adianto, mas o tempo estava tão bom que a meio da tarde tivemos de ir para a praia. E como metade das praias da zona estão encerradas ao público, gastamos muito tempo às voltas à procura da praia certa. Da próxima vez levamos um drone para subir acima das falésias: onde estiverem concentrados tooooooooooodos os banhistas da região de Brest, é essa a praia que está aberta. 
Bem sei que ninguém estava preparado para a crise da Covid-19, e por isso não quero rir muito alto destas situações caricatas, mas neste caso é difícil: não seria muito mais razoável abrir as praias todas, para o pessoal se espalhar em vez de concentrar na única que autorizaram?  

Com essas e com outras chegámos a casa demasiado tarde, e já não houve tempo para desbastar e escrever. De modo que estou a ver que vou passar Junho a desbastar fotos de Maio para escrever posts de viagens que entretanto já quase aconteceram na Antiguidade. 

Escrevo "Antiguidade" a brincar, mas o caso é sério: o confinamento e as várias fases de desconfinamento transformam a contagem do tempo numa matemática muito subjectiva. O tempo pré-confinamento foi há séculos, o confinamento demorou eternidades, e a perspectiva de poder viajar mais do que apenas num raio de 100 km, a partir da próxima terça-feira, dá-me uma espécie de agorafobia: o mundo tornou-se demasiado grande, e temo não saber orientar-me em toda a sua vastidão.

Portanto: este fim-de-semana permaneço na minha zona de conforto - Carantec, a uns 50 km de Brest. O tempo vai estar muito bom, e os lugares mais especiais vão estar sem turistas. A partir do dia 2 muda tudo, e provavelmente vou passar a tirar muito menos fotografias, porque a paisagem vai-se encher de emplastros. 
(Emplastros como eu, claro, que nestas coisas somos todos muito uns para os outros.)


28 maio 2020

maldito comunismo...

Estava eu aqui toda contentinha, a pensar que este verão ia ter a Bretanha toda só para mim, sem mais nenhum turista, e vai o Macron e passa para a segunda fase do desconfinamento: a partir da próxima terça-feira, liberdade de movimentos na França - e até a ousadia sem nome da abertura das fronteiras, como se os estrangeiros também tivessem direitos...

Raixparta o comunismo!


o humor e a cultura como espaço de reflexão sobre esta crise

Será que a História contraiu hiperactividade, ou somos nós que andamos mais informados? Ainda só vou a meio da vida (espero) e já assisti ao 25 de Abril, à descolonização, ao início da tomada de consciência do problema do aquecimento climático (lembram-se, no princípio dos anos oitenta, dos artigos sobre o "efeito de estufa"?), à queda do muro de Berlim, à criação da União Europeia, ao 11 de Setembro, à invasão do Iraque, ao Verão de 2015 na Alemanha (quando o país se mobilizou com toda a generosidade para acolher refugiados), ao regresso de tendências políticas fascizantes e agora à crise da Covid-19. Isto sem pensar muito, e entre outros.

Mas não me lembro de nenhum caso como o actual, no qual os artistas e os humoristas estiveram tão presentes desde o primeiro momento. Será que sou eu, que tenho mais tempo para me dar conta do que está a acontecer? Ou será que o facto de termos ficado todos imobilizados em casa, sem outro recurso senão a comunicação nas avenidas largas das redes sociais, tenha permitido estes encontros imediatos em tempo real da História com os agentes de cultura e com o público? 

Se arranjar tempo, gostava de passear pela página Mamouz do Instagram para uma pequena antologia do humor durante a crise da Covid, organizada cronologicamente por semanas. Haverá com certeza outras páginas, mas esta, com dezenas de piadas por dia, revelou-se para mim um grande barómetro do pulsar da sociedade.

Quanto à Literatura, gostava de falar de dois escritores que têm trabalhado muito, reflectindo o que nos está a acontecer. 

Um é o Wladimir Kaminer, que lê os seus textos sobre esta crise no facebook, às oito da noite todas as quintas-feiras, e nos intervalos faz canções sobre o mesmo tema com o seu amigo Yuriy Gurzhy: o riso em tempos de covid. A primeira canção, por exemplo, chamava-se "fica em casa, mamã!", e a avó Kaminer era a special guest star do vídeo.
Para quem fala alemão: está tudo no mural de facebook dele. 

Outro, que descobri recentemente, é Wajdi Mouawad. Quando lhe fecharam o teatro, abriu uma filial para a sua voz: um diário lido por ele, dia após dia, e divulgado na internet. 
Tenho estado a ouvir, e gosto imenso. Recomendo. 
Não sei se o podcast pode ser ouvido fora da França. Aqui deixo alguns links possíveis: 
- Théâtre de la Colline
Spotify 
SoundCloud

Para me poupar o latim, partilho um texto de Corinne Denailles, em francês, que me tirou as palavras da boca:


Nous avions parlé de l’initiative du théâtre de la Colline mise en place dès les premiers jours du confinement et depuis largement saluée par les médias. Au bout de trois semaines, le Journal de confinement offert par Wajdi Mouawad sur le site du théâtre pourrait faire figure d’œuvre à part entière, un témoignage humain, artistique de haute volée dans laquelle Mouawad s’engage en tant qu’individu pour exprimer ce que lui inspire cette situation inédite. Parfois, il part de situations anecdotiques pour, invariablement, au fil du petit quart d’heure journalier, s’élever, prendre de l’altitude, s’ouvrir à des souvenirs de l’enfance au Liban et de la guerre, de la vie à Montréal ou des nuits passées à rêver sous un secret bec de gaz à Nogent-sur-Marne. Sa pensée, ses réflexions amples, douées de ce souffle qu’on aime tant dans ces meilleures mises en scène, sont nourries (et nous nourrissent) de détours par la mythologie grecque, le cinéma, la peinture, la poésie, convoquant les artistes qui lui sont chers. Il met en oeuvre son art singulier de la digression, du retour en arrière, des récits parallèles ou enchâssés les uns dans les autres, il brasse les thèmes obsessionnels qui traversent ses pièces (le sacrifice, la parole donnée, la promesse non tenue, etc, (cf le Jour 18, vendredi 3 avril) et, alors qu’on croit qu’il a perdu le fil, il rassemble tous ses motifs pour revenir à la situation actuelle, et parler du confinement. 

Dans cette période étrange où l’on se sent un peu sidérés, hébétés, incapables de penser à autre chose qu’à maîtriser sa peur, s’approvisionner ou à se protéger, ces petites pastilles poétiques nous aident à faire tomber nos confinements intérieurs ; les mots de Mouawad, et sa voix si douce, créent un appel d’air salvateur. Il pense le monde à travers ses propres expériences et a le talent de savoir les transmettre. Certes, les propositions sont inégales — et comment ne le seraient-elles pas ? — mais toutes sont belles, certaines exceptionnelles. L’exercice exigeant compte déjà 18 opus (combien encore à venir pour arriver au bout de nos peines ?), autant de viatiques pour tenir bon dans la tourmente de cette Odyssée involontaire, de vade mecum à consulter sans restriction pour ne pas perdre le nord dans cette traversée tempétueuse. 

On peut espérer une large diffusion (publique et scolaire) de l’ensemble (audio, papier, les deux), parce que c’est le témoignage d’un événement inédit dans notre histoire, mais aussi, pour ses qualités intrinsèques, littéraire et philosophique. 

Journal de confinement de Wajdi Mouawad, théâtre de la Colline. 

26 maio 2020

mais que motivo para ter inveja de mim própria



Pensamento do dia: é uma pena não saber a hora em que nasci, para tentar clonar esse alinhamento dos astros e oferecer a quem quiser. Porque é um alinhamento muito recomendável, podem crer.

A última que me arranjou foi esta: no ano da desgraça de 2020, quando poucos sabem se vão poder fazer as férias de Verão nos destinos que tinham previsto, eu dou comigo a viver já no meu destino de férias.

Sim: tenho a Bretanha toda para mim, e sem turistas!
Mais, para que acreditem que o tal alinhamento era de luxo: tem estado um tempo fantástico.

No fim de semana passado (que era de ponte) foi isto: Plomodiern sem turistas (e casa numa praia praticamente deserta, e mar com água quentinha), Douarnenez sem turistas, Quimper sem turistas, Pointe du Raz e Pointe du Van sem turistas, Locronan sem turistas, Pont-Croix sem turistas.

Acredito que, se jogasse no Euromilhões, com este meu alinhamento dos astros ganhava de certeza. (Mas não jogo, porque não é bonito ser fuçangueira.)















E um pôr-do-sol kitsch até dizer chega, sem turistas.







"paciência"

A frase de um colega da Enciclopédia Ilustrada sobre a #paciência de Job, que foi "testado por Deus, que se aliou ao Diabo para confirmar a sua fé", é uma excelente síntese do que me incomoda no Livro de Job.

Bem sei que este texto marca uma evolução importante na intuição do divino, deixando para trás a ideia de um Deus da lógica simples ("se te acontece alguma coisa má, algum pecado grande hás-de ter feito", ou o seu inverso, nas palavras irónicas de um amigo: "o Deus no qual nem sequer acredito gosta muito de mim") e passando para um Deus de misteriosos desígnios que não podemos entender nem devemos ter a veleidade de tentar interpretar.
Ou seja: um Deus independente das mesquinhices dos humanos.

Mesmo sabendo isso, e mesmo sabendo que se trata de uma construção literária, o início do livro irrita-me: Deus a fazer apostas com o diabo?! Arre!

Descobri um valor mais profundo para esta paciência de Job ao ler o cartão que informava sobre a morte de um tio do meu marido. Quando soube que tinha um cancro fez ainda com a mulher todas as viagens que pôde, lutou contra a doença e ao mesmo tempo preparou-se para morrer. Foi ele quem preparou o seu próprio cartão, no qual se vê uma pintura de um artista alemão contemporâneo: Job, de costas, com a pele coberta de pústulas, erguendo os olhos e os braços para o alto. E a pergunta sobre o sentido do que lhe acontece: "porque me envias este sofrimento, meu Deus?"

Não sabes. E nunca saberás. É essa a mensagem do Livro de Job (esquecendo a parte da aposta): a vida é isso mesmo - em algum momento seremos apanhados por um sofrimento que sentimos não ter merecido nunca. Não é Deus a ajustar contas connosco, é simplesmente o imprevisível, o inexplicável e a parte mais cruel da nossa condição de vivos a acontecer.

Fazer o quê? Em certos casos, o único paliativo é a paciência.

E porque é que Deus criou um mundo onde há sofrimento inexplicável?, perguntarão. Ora bem: ninguém se lembrou ainda de escrever esse livro, que provavelmente é o mais difícil de todos.
Mas escreveram o segundo mais difícil, o que nos dá a regra para estar no mundo tal como ele é: "ama cada um dos outros, certo de que ele é, como tu, um filho de Deus"
(hã? que me dizem desta síntese?)
O terceiro livro mais difícil é este de Job: perante aquilo que não compreendes e não podes mudar, só te resta a paciência.

(Ultimamente, a paciência tem sido trocada pelas teorias da conspiração: perante aquilo que não compreendes e não podes mudar, aderes a uma teoria qualquer que identifica um culpado simples e te dá, por consequência, a sensação de que tens a chave para a resolução do problema. Mas isso seria tema para outro post.)


21 maio 2020

regresso a Le Conquet


O primeiro passeio que demos quando chegámos à Bretanha foi até Le Conquet. Mas na primeira semana de Março ainda éramos muito novos: limitámo-nos a passear pelas ruas da cidadezinha, e a comer crepes deliciosos numa casa com quinhentos anos. Só no dia seguinte nos informaram que o programa mais interessante de Le Conquet são as caminhadas do lado de lá da baía.

Na realidade, na nossa ignorância fomos bem espertos: como se tivéssemos adivinhado que o tempo de comer crepes sentados numa sala agradável ia acabar em breve, e que na primeira fase do desconfinamento a única alegria que nos seria devolvida ia ser a das caminhadas.

No sábado passado voltámos a Le Conquet, para fazer a tal caminhada na península em frente: Kermorvan.
Impressionantemente linda.
(Mas tenho de ter cuidado: já percebi que nos próximos quatro meses me vai ser difícil não repetir adjectivos de deslumbramento.)





(Enquanto durar esta Primavera, vão ter de me aturar as fotografias com florzinhas. E esperem só até publicar as fotos do dia seguinte, as da Île de Batz.)

A península de Kermorvan termina em frente a uma ilhota que se pode alcançar a pé seco na maré baixa. Como não podia deixar de ser, numa costa de corsários e inimigos vários e poderosos, também aqui existe um forte construído segundo planos de Vauban.

"No meio do caminho havia uma pedra". Inúmeras, aliás. E entre elas pocinhas de água a fervilhar de caramujos. Apanhámos alguns, para comparar com os de viveiro que tínhamos comprado de manhã. Tinham mais areia, e um sabor muito mais intenso.






Quem sai da ilhota e vira à direita avança na direcção do famoso farol do Astérix e da Volta à Gália. E do inevitável bunker alemão que lhe faz sombra desde há cerca de oitenta anos.


Mas antes de chegar ao farol passa pela praia Porz Pabu, que foi o local de entrada de São Tugdual/Tudwal/Tuzval/Tudal/T(h)ugal/Tual/Tutuarn/Pabu, um dos sete santos fundadores da Bretanha. Com tantos nomes diferentes, quase se diria o Fernando Pessoa dos sete. Muito fácil de reconhecer nos altares: é o que tem a pomba branca pousada sobre um ombro. Conta a lenda que foi em peregrinação a Roma, e calhou de o papa morrer justamente nessa altura. Durante as exéquias uma pomba branca pousou-lhe sobre o ombro, o que foi entendido como sinal divino para a escolha do novo papa (mas eu, que já ando aqui há umas semanas, estava capaz de desconfiar que ele teria uns bocaditos de gâteau breton escondidos no manto, para ir comendo enquanto esperava o fim do latinório, e a espertalhona da pomba...). Seja como for, a sessão na Capela Sistina foi rápida, porque o caso já estava decidido, e além disso a capela só viria a ser construída mil anos depois. Tugdual foi eleito papa, e assim ganhou um novo nome na Bretanha: Pabu, papa. Mas ao fim de alguns meses apareceu-lhe um cavalo branco que o levou pelos ares de volta à sua sé bretã em Tréguier. A cada época o seu beam me up, Scotty.

A praia de Porz Pabu estava fechada por causa da covid. Mas dava para ver que o santo dos sete nomes tinha bom gosto. O inimigo alemão, também: não faltava o bunker, com uma bela vista para a enseada de águas esmeralda.



Um pouco mais à frente espreitamos o tal farol do Astérix. E mais bunkers, mas esses não fotografei. As pedras na praia junto ao farol tinham formas fascinantes.



O meu telemóvel desatou a tirar fotografias em autogestão, com o horizonte na diagonal.
É um autêntico smartphone... 


Continuámos a caminhada rumo a Le Conquet. O mar estava calmo, e os barcos dormitavam tranquilamente no porto. Outros estavam pousados no lodo, à espera da maré alta.
A princípio, estes barcos fora da água faziam-me pensar na nossa própria situação em tempos de covid. Mas com o tempo habituei-me à sua situação desconfortável: uma lição de paciência. 







De Le Conquet seguimos para Saint Matthieu, lá perto, onde há uma estranha mistura de ruínas e faróis. Tal como perante os barcos fora da água, também aqui somos tomados por uma sensação de estranheza: como se tudo estivesse fora do lugar, do tempo, do contexto, do sentido.









Diz-se que já no século VI havia um mosteiro neste extremo da Finisterra, e nele se guardavam relíquias do evangelista S. Mateus, que marinheiros bretões teriam trazido do Egipto. Em 1206 receberam partes do crânio do santo, que contribuíram para fazer da abadia - construída no século XII, primeiro em estilo românico e depois em gótico - um importante lugar de peregrinação. É essa a igreja que agora se vê em ruínas, entre faróis e torres de vigia.





À volta do mosteiro e das suas regalias, nomeadamente o direito de fazer feiras e mercados, desenvolveu-se uma intensa actividade económica, A cidade chegou a ter dois mil habitantes no século XV, mas hoje tem apenas meia dúzia de casas. Da antiga igreja paroquial, do século XIV, só sobrou o portal. Igreja, localidade e população foram vítimas de uma razia inglesa em 1558. No século XIX reconstruíram uma capela no lugar da antiga igreja paroquial, deixando o portal da igreja original esquecido ali ao lado. 





Em frente a essa capela há uma praça enorme: um descampado com piso de pedra ao longo do terreno murado onde ficava a horta dos frades. Do lado oposto vê-se ainda o que resta de um poço.
E tudo aquilo tem um ar desolado.

Desolado também é o monumento que fizeram em frente ao mar para lembrar os marinheiros mortos pela França. O autêntico "faz-me um desenho": com um busto de mulher triste a fitar o mar, a inscrição "aux marins 1914-1918", e a imagem de um marinheiro. Como se não bastasse, ainda têm uma placa a dizer às pessoas que aquele é um lugar triste, e que devem respeitar o silêncio. 

Por ser tão claro - quase humilhante - o que se esperava de mim neste lugar, lembrei-me de um comentário que ouvi a uma francesa que organiza visitas guiadas de arte contemporânea. Dizia ela que Berlim sabe fazer memoriais não impositivos, permitindo às pessoas que os deixem ecoar livremente no seu espaço subjectivo de ressonância. Por isso, dizia ela, Berlim é uma cidade com tanta energia positiva. 

 

Gostei de ver Saint Matthieu e as falésias deslumbrantes que rodeiam aquele cabo. Mas voltei para casa um pouco cabisbaixa - e não terá sido apenas do cansaço das caminhadas.