04 março 2020

Conquet

 
2.3.2020

Disseram-nos para ir a Conquet, "porque é bonita e fazem crepes muito bons".
Malandros, esqueceram-se de nos dizer o mais importante: foi o porto de chegada de Astérix e Obélix no fim da Volta à Gália!



Fomos pelo caminho do mar, e à saída de Brest passámos por um bunker brutal que os alemães construíram durante o período de ocupação. Conheço alguns bunkers em Berlim, mas nenhum deles me chocou tanto como este: por tão desmedido, e imposto a uma terra alheia.

Conquet é realmente bonita, com as suas casas antigas, a ria protegida pelo porto, a península de Kermorvan do outro lado das águas calmas. Apesar do vento fortíssimo, havia pessoas a fazer caminhadas na encosta. "Apesar", digo eu? Provavelmente aconteceu-lhes o mesmo que a nós, que chegámos a Conquet num belo dia de verão, e ao fim de cinco minutos de passeio tivemos de correr para nos abrigarmos do temporal.


À entrada do porto encontrámos o farol que já lá estava desde que Astérix terminou a sua Volta à Gália, em meados do século XX.
E ao lado: mais bunkers. Esta Bretanha já parece Berlim, com a História à espreita em cada esquina, em cada rochedo.






 

Uma placa na parede de uma pequena igreja fez-nos parar. Era a capela de Dom Michel.
Michel le Nobletz, um padre da viragem para o século XVII, a quem chamavam "o padre louco" por ter métodos invulgares (por exemplo: fazer desenhos para transmitir os ensinamentos da Igreja a um povo analfabeto, ou dar a palavra às mulheres). Também foi acusado de divisionista por acusar o deboche de alguns padres e crentes, e a ganância de certos mercadores. Anda há três séculos para ser beatificado, o pobre. Mas ninguém o mandou ser feminista e exigente na religião errada...

De testamento, deixou aos seus familiares um "saudável nada":

« J’ai voulu vous laisser, par mon testament, ce beau rien dans un coffre, espérant que vous en pourriez tirer plus de profit et de gain que si je vous y aurais laissé quelque trésor d’or ou d’argent, connaissant bien que la possession de l’or et de l’argent et autres biens de ce monde sont les plus dangereux ennemis de notre salut. […], je vous laisse pour soulagement de votre maladie ce précieux médicament : rien. » 


 


Daquela capela até ao mar é um pequeno passeio. Aliás: em Conquet tudo é um pequeno passeio até ao mar.

À nossa frente havia tempestade, e atrás de nós um tempo radioso. O clima da Bretanha é esquizofrénico.



Numa curva do caminho encontramos uma "creperia artesanal".
Sentada à frente do meu crepe de pommes rissolées e do meu jarrinho de cidra, pensei:

"Quem era mesmo aquela pateta que andou meses e meses a dizer que não queria ir para a Bretanha, e que estava tão bem em Berlim, e que se fosse por causa do mar bem podia ir para Portugal, e que tatati e que tatata?..."

(pela boca morre o peixe, e conheço uma pateta que parece que mordeu o anzol em Conquet)


2 comentários:

Lucy disse...

Ficaste conquistada pelo Conquet! E eu fiquei devota desse padre que deixa rien en herança e que em vida foi tão "progressista". Nunca tinha ouvido falar. Descobre mais coisas assim, "positivas" digamos...

Baltazar Garção disse...

Cara Helena,
aqui o César, com os seus parcos e iniciais conhecimentos de Francês, adorou ler esta bela mensagem do Padre "louco" e foi já dar a boa nova à sua Mamã e ao seu Mano; muito obrigado...