28 fevereiro 2020
a metamorfose dos pássaros
Um filme que encontra uma linguagem de pura poesia - da palavra e da imagem - para fazer variações sobre o tema da saudade. Simplesmente lindo.
(E a surpresa grata de encontrar nele amigas, e perguntar-me quem será o pianista que está a tocar tão bem, para descobrir no final que é a Marina Dellalyan - obrigada, Marina, gostei imenso de ouvir!)
(E que comovente vê-los todos no palco, no fim da exibição do filme. Bem gostava de ter podido ficar até ao fim da conversa, mas tinha uma reunião à qual não podia chegar atrasada. E assim vai a vida: hoje só vi um filme na Berlinale, e valeu por uma dúzia.)
fase de aquecimento
E vocês: o corona vírus já vos estragou alguns planos?
No nosso caso:
- Perdemos uma reserva no nosso airbnb, porque cancelaram uma feira de moda asiática aqui em Berlim.
- Cancelaram um congresso ao qual o Joachim ia, em Taiwan, de modo que eu vou para a Bretanha já no próximo domingo, em vez de ir só depois do seu regresso da Ásia.
- Está a ficar cada vez mais difícil encontrar certos medicamentos, porque são produzidos na China.
Diz que a economia alemã vai passar mal, porque a China é um parceiro muito importante, mas essa parte ainda não se fez sentir directamente na minha vida. Já na vida dos trabalhadores da Lufthansa Cargo...
Fico a pensar: o capitalismo criou a globalização para optimizar processos (enfim, "optimizar" é como quem diz - o planeta, por exemplo, tem outra opinião) e depois vem uma gripezinha nova e começa a meter grãos de areia na engrenagem.
Ah, por falar em doença nova: sabe-se lá que surpresas nos reserva o permafrost da Sibéria. Aquilo é uma espécie de congelador cheio de vida interior: bacilos de doenças que se julgavam extintas, por exemplo. É, como quem diz: era. A vida interior do permafrost siberiano já começou a partilhar-se generosamente com o nosso mundo. Por exemplo: vítimas mortais de antraz, por causa de um cadáver de rena vítima dessa doença, que estava ali bem guardado há séculos. Recomeçaram a vacinar as renas selvagens e os humanos contra uma doença que se julgava extinta.
Dantes - quer dizer, antes do Trump, do Bolsonaro, do Höcke - eu pensava com perplexidade nos alemães dos anos 20 do século passado: como foi possível assistirem à ascensão do nazismo sem fazerem nada? Agora começo a perceber melhor. E um dia destes, temo, também me vou sentir bem mais próxima dos indígenas das Américas quando começaram a morrer de doenças que não conheciam.
Já agora, outra pergunta: também ouvem muitas vezes notícias sobre o custo de projectos em curso para reagir ao aquecimento climático? Tipo: quase mil milhões de euros para reflorestar a Alemanha, porque as árvores actuais estão a ser dizimadas por um insecto que se tem multiplicado exponencialmente devido à ausência de frio invernal nos últimos anos.
De cada vez que leio comentários dos bots a espalhar a ideia de que o aquecimento climático é uma invenção dos governos de esquerda para aumentarem os impostos com desculpas parvas penso nos custos de reflorestamento, de reforço dos diques holandeses, de vacinar as renas siberianas. E isto, a bem dizer, ainda nem começou a ser a sério. Que fará quando for.
Já agora, outra pergunta: também ouvem muitas vezes notícias sobre o custo de projectos em curso para reagir ao aquecimento climático? Tipo: quase mil milhões de euros para reflorestar a Alemanha, porque as árvores actuais estão a ser dizimadas por um insecto que se tem multiplicado exponencialmente devido à ausência de frio invernal nos últimos anos.
De cada vez que leio comentários dos bots a espalhar a ideia de que o aquecimento climático é uma invenção dos governos de esquerda para aumentarem os impostos com desculpas parvas penso nos custos de reflorestamento, de reforço dos diques holandeses, de vacinar as renas siberianas. E isto, a bem dizer, ainda nem começou a ser a sério. Que fará quando for.
26 fevereiro 2020
"Polaroid"
Gostei de ler este post que publiquei há 3 anos na Enciclopédia Ilustrada, quando a Polaroid festejava 70 anos, e por isso partilho aqui:
Uns meses depois de ter vindo morar para a Alemanha, fui viver em casa de amigos que tinham uma recém-nascida e um filho de 3 anos. A mãe era colega do Joachim na universidade, e o meu trabalho era tomar conta dos pequenitos enquanto ela ia às aulas. Numa dessas manhãs, enquanto a bebé dormia, fiz com o rapazinho uma Polaroid de Lego. A objectiva com uma janela, o compartimento para o rolo (melhor dizendo: para os quadradinhos de papel cuidadosamente arrumados) protegido por um portão de plástico, bendito Lego que tudo permite. Ficou uma Polaroid muito catita.
Passámos a manhã a tirar fotografias. Ele escolhia o motivo, fazia a fotografia, tirava da máquina um dos quadradinhos de papel, e desenhava a cena que tinha fotografado. Depois eu fazia o mesmo - porque só tínhamos uma Polaroid, tínhamos de a usar à vez.
À noite, quando o Joachim chegou para jantar connosco, a mãe do miúdo mostrou-lhe a nossa máquina fotográfica e a exposição de fotografias (uma bela colecção) e disse:
- Joachim, tens de casar com esta mulher!
Seu dito, meu feito. E já lá vão quase 25 anos. Mas nunca mais fiz nenhuma Polaroid. Coitado do Joachim, casou ao engano.
----
E para terem um post como deve ser sobre este tema, roubo o trabalho de uma colega:
" #POLAROID, para mim, tem um nome: ANDREI TARKOVSKY.
Sublime."
Uns meses depois de ter vindo morar para a Alemanha, fui viver em casa de amigos que tinham uma recém-nascida e um filho de 3 anos. A mãe era colega do Joachim na universidade, e o meu trabalho era tomar conta dos pequenitos enquanto ela ia às aulas. Numa dessas manhãs, enquanto a bebé dormia, fiz com o rapazinho uma Polaroid de Lego. A objectiva com uma janela, o compartimento para o rolo (melhor dizendo: para os quadradinhos de papel cuidadosamente arrumados) protegido por um portão de plástico, bendito Lego que tudo permite. Ficou uma Polaroid muito catita.
Passámos a manhã a tirar fotografias. Ele escolhia o motivo, fazia a fotografia, tirava da máquina um dos quadradinhos de papel, e desenhava a cena que tinha fotografado. Depois eu fazia o mesmo - porque só tínhamos uma Polaroid, tínhamos de a usar à vez.
À noite, quando o Joachim chegou para jantar connosco, a mãe do miúdo mostrou-lhe a nossa máquina fotográfica e a exposição de fotografias (uma bela colecção) e disse:
- Joachim, tens de casar com esta mulher!
Seu dito, meu feito. E já lá vão quase 25 anos. Mas nunca mais fiz nenhuma Polaroid. Coitado do Joachim, casou ao engano.
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E para terem um post como deve ser sobre este tema, roubo o trabalho de uma colega:
" #POLAROID, para mim, tem um nome: ANDREI TARKOVSKY.
Sublime."
23 fevereiro 2020
Berlinale 2019 - primeiro dia (2)
A sessão de abertura da 70ª Berlinale foi ensombrada pelo ataque terrorista que acontecera em Hanau um dia antes. Depois de um alemão, movido por um profundo ódio racista, ter entrado em dois bares de shisha disposto a massacrar estrangeiros, acabando por matar ali nove pessoas e ferir seis, ficava difícil passar alegremente à ordem do dia. Os discursos foram muito mais sobre política e democracia que sobre cultura. Todos os políticos fizeram uma ligação entre este ataque terrorista e o discurso de ódio que a AfD instalou na sociedade alemã. "O país que a AfD deseja é um país onde nenhum de nós quer viver", afirmou o Ministro-Presidente de Berlim. O que é uma variação, pelo lado da derrota, da posição de Walter Lübcke - o político que recentemente pagou com a vida as palavras "dá gosto viver num país que se esforça por divulgar estes valores; e quem não os defender, sinta-se livre para sair do país".
Portanto: uma cerimónia de abertura ainda sob o choque do atentado, sem a alegre familiaridade das cerimónias de outros anos. Para piorar, passaram uns filmes de apresentação das várias secções do festival que eram, no máximo, de qualidade mediana.
Para já, o balanço da nova direcção não me parece famoso.
Portanto: uma cerimónia de abertura ainda sob o choque do atentado, sem a alegre familiaridade das cerimónias de outros anos. Para piorar, passaram uns filmes de apresentação das várias secções do festival que eram, no máximo, de qualidade mediana.
Para já, o balanço da nova direcção não me parece famoso.
21 fevereiro 2020
em estado de exaltação
Faz hoje 3 anos que escrevi este apontamento:
Hoje esteve um dia lindo. Nuvens enormes entrecortadas de sol e céu azul. Aquela luz maravilhosa que antecede o temporal. Andei por aí, de lago em lago, a fotografar em estado de exaltação e a perguntar-me que bem terei eu feito na vida para merecer isto tudo. Foram 330 fotografias, depois mostro algumas.
Ao regressar a casa a vizinha viu-me e convidou-me para um café, e levei bolo de chocolate que tinha em casa. Daí a bocadinho vimos passar o Fox com a sua cauda farfalhuda espetada no ar - tão querido, o Fox. O Matthias apareceu a seguir, ia levá-lo ao lago. A vizinha abriu a porta e perguntou ao Matthias se também queria um café, e ele respondeu da rua que não podia, obrigado, etc. - parecia aquelas conversas calorosas de aldeia, da rua para dentro de casa. Foram, voltaram, o Fox parou em frente ao portão a olhar para nós ainda de volta do café e do bolo, "então, não me querem deixar entrar?"
Combinei com a vizinha que um dia destes marcamos uma data para todas as pessoas da rua porem à porta os rebentos do jardim que não quiserem, para os vizinhos levarem para o jardim deles.
Disse-lhe que já estou toda contente a pensar nas batatas azuis que vou ter, nas framboesas, nos tomates, nas abóboras. Ela disse:
- Ainda demora algum tempo.
- Mas já estou contente agora.
Vivo no centro de Berlim ocidental, rodeada de lagos, numa aldeia. Numa bolha.
Cuidado comigo, hoje estou hipersensível.
Garanto que nunca na vida fiz tanto bem para merecer isto tudo.
---
Foi na altura em que a água dos lagos gelava e degelava, criando texturas incríveis. Alguns exemplos da colheita desse dia:
Hoje esteve um dia lindo. Nuvens enormes entrecortadas de sol e céu azul. Aquela luz maravilhosa que antecede o temporal. Andei por aí, de lago em lago, a fotografar em estado de exaltação e a perguntar-me que bem terei eu feito na vida para merecer isto tudo. Foram 330 fotografias, depois mostro algumas.
Ao regressar a casa a vizinha viu-me e convidou-me para um café, e levei bolo de chocolate que tinha em casa. Daí a bocadinho vimos passar o Fox com a sua cauda farfalhuda espetada no ar - tão querido, o Fox. O Matthias apareceu a seguir, ia levá-lo ao lago. A vizinha abriu a porta e perguntou ao Matthias se também queria um café, e ele respondeu da rua que não podia, obrigado, etc. - parecia aquelas conversas calorosas de aldeia, da rua para dentro de casa. Foram, voltaram, o Fox parou em frente ao portão a olhar para nós ainda de volta do café e do bolo, "então, não me querem deixar entrar?"
Combinei com a vizinha que um dia destes marcamos uma data para todas as pessoas da rua porem à porta os rebentos do jardim que não quiserem, para os vizinhos levarem para o jardim deles.
Disse-lhe que já estou toda contente a pensar nas batatas azuis que vou ter, nas framboesas, nos tomates, nas abóboras. Ela disse:
- Ainda demora algum tempo.
- Mas já estou contente agora.
Vivo no centro de Berlim ocidental, rodeada de lagos, numa aldeia. Numa bolha.
Cuidado comigo, hoje estou hipersensível.
Garanto que nunca na vida fiz tanto bem para merecer isto tudo.
---
Foi na altura em que a água dos lagos gelava e degelava, criando texturas incríveis. Alguns exemplos da colheita desse dia:
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viver em Berlim,
viver no campo
20 fevereiro 2020
Berlinale 2020 - primeiro dia
A 70ª Berlinale ia-me começando mal. A caminho da bilheteira vi um homem a decepar as plantas que já tantas alegrias me deram, e fotografei a cena. Ele chamou-me, furioso. Que é proibido fotografar pessoas, e coisas assim. Tentei explicar que o meu interesse era a cena, e não ele propriamente dito, mas estava mesmo furioso. De modo que apaguei uma foto em que se via um pouco da sua cara, e pedi-lhe autorização para ficar com a imagem de costas. Depois virei a esquina, e dei com todo o aparato mediático da Berlinale - câmaras de televisão, fotógrafos profissionais, jornalistas. Suspeito que aquele decepador de alegrias venha a passar uns tempos difíceis nesta zona da cidade.
O filme "H is for Happiness", que constava da lista de filmes que posso ver amanhã, despertou a minha curiosidade - mas esgotou ao fim de cinco minutos. As vendas para grupos também já estão todas esgotadas, e nas bilheteiras, então, nem se fala. Parece que toda a gente está a precisar desesperadamente de algo que as (nos) faça sentir bem.
Entrei em duas sessões para a imprensa: o filme da abertura, My Salinger Year, e um documentário chinês: Yi zhi you dao hai shui bian lan / Swimming Out Till the Sea Turns Blue, de Jia Zhang-ke. O documentário juntava apontamentos biográficos de escritores, apontamentos do dia-a-dia na província chinesa de Shanxi China, frases da pena desses escritores e algumas imagens da região. Um - como direi? - autêntico arroz xau-xau: com muitos ingredientes, mas sem grande sabor.
"My Salinger year", dePhilippe Falardeau, parece a versão canadiana de O Diabo Veste Prada, mas num contexto de editoras de literatura e só a meio vapor, quer dizer: com pessoas de bem. Em termos de feel good movies ficámos assim: falhou-me o H is for Happiness, mas tive um prémio de consolação jeitosinho.
Algumas observações ao fim do primeiro dia:
- Este ano nota-se que a Berlinale está a poupar papel. O programa tem muito menos folhas, há menos cadernos, e sugerem que as pessoas imprimam algumas informações em casa.
- Hoje só vi duas pessoas com máscara. Parece que o medo do covid-19 ainda não chegou a Berlim.
- Alguns rituais foram à vida: fechou o McDonald's onde tomava o pequeno-almoço naqueles dez minutos entre ir buscar os bilhetes do dia seguinte e entrar na primeira exibição do dia para a imprensa. O centro comercial junto à Potsdamer Platz também vai encerrar para obras e praticamente já só tem os guichets para venda de bilhetes. Adeus gelado Coffee Time no primeiro andar, adeus restaurantes na zona de acesso à S-Bahn.
Isto é para eu aprender a pensar duas vezes antes de dizer com um ar alegre que Berlim é uma cidade em permanente processo de auto-reinvenção.
- Estou a ver a chegada das estrelas. Ainda tenho de me habituar à imagem de tatuagens enormes a coexistir com vestidos de senhora à moda antiga.
- Gostei muito de ver a chegada do "nosso" Welket Bungué.
- Sinto a falta do Dieter Kosslick, o simpático trapalhão.
- Quando me vim embora, às quatro da tarde, já havia pessoas à espera das estrelas. Chovia um pouco. Lembrei-me de outros invernos em que estive por ali com a minha filha, e do frio que passámos. Este ano nem sequer têm aquecedores para as actrizes posarem à entrada sem apanharem uma pneumonia.
19 fevereiro 2020
eutanásia
1.
Tenho muitas dúvidas sobre a eutanásia, que sintetizo nestes dois tipos de preocupação, de sinal contrário uma da outra:
- Será que as pessoas não se vão sentir pressionadas a pedir a morte para não pesarem aos familiares ou à sociedade que lhes chama "peste grisalha"?
- Que sentido faz, em nome do valor da vida, obrigar alguém a permanecer vivo muito para além da dignidade mínima que essa pessoa sente ser um direito seu?
Como hoje acordei salomónica (cof cof) proponho que, se estamos realmente preocupados com a vida das pessoas que querem morrer, seja acrescentada à proposta de lei esta alínea absolutamente corrosiva:
(*) Perante um pedido para morrer, é imediatamente nomeado um assistente social para:
1. falar com todas as pessoas indicadas pelo paciente (familiares, amigos, pessoal médico, etc.) perguntando-lhes o que pensam daquele pedido, e o que estão a fazer e se comprometem a fazer de futuro para que essa pessoa prefira continuar viva;
2. verificar regularmente se as pessoas estão a desempenhar de forma satisfatória aquilo que se comprometeram a fazer.
Tenho muitas dúvidas sobre a eutanásia, que sintetizo nestes dois tipos de preocupação, de sinal contrário uma da outra:
- Será que as pessoas não se vão sentir pressionadas a pedir a morte para não pesarem aos familiares ou à sociedade que lhes chama "peste grisalha"?
- Que sentido faz, em nome do valor da vida, obrigar alguém a permanecer vivo muito para além da dignidade mínima que essa pessoa sente ser um direito seu?
Como hoje acordei salomónica (cof cof) proponho que, se estamos realmente preocupados com a vida das pessoas que querem morrer, seja acrescentada à proposta de lei esta alínea absolutamente corrosiva:
(*) Perante um pedido para morrer, é imediatamente nomeado um assistente social para:
1. falar com todas as pessoas indicadas pelo paciente (familiares, amigos, pessoal médico, etc.) perguntando-lhes o que pensam daquele pedido, e o que estão a fazer e se comprometem a fazer de futuro para que essa pessoa prefira continuar viva;
2. verificar regularmente se as pessoas estão a desempenhar de forma satisfatória aquilo que se comprometeram a fazer.
Sim, sim, bem sei que esta alínea tem muito que se lhe diga - de facto, é apenas uma provocação.
Mas teria a vantagem de separar o trigo do joio: porque nos confronta com a nossa própria hipocrisia.
2.
Falando agora muito a sério, partilho um texto de Rui Mota Cardoso que nos dá bom material para pensar:
Mas teria a vantagem de separar o trigo do joio: porque nos confronta com a nossa própria hipocrisia.
2.
Falando agora muito a sério, partilho um texto de Rui Mota Cardoso que nos dá bom material para pensar:
DECIDIR SOBRE O FINAL DA VIDA
Debate promovido pelo Conselho Nacinal de Ética para as Ciências da Vida, realizado no Porto a 5 de Julho de 2017 com a participação de Michel Renaud, Rui Mota Cardoso,João Semedo e Paulo Rangel
PONDERAR A OPÇÃO DE UMA BOA MORTE
rmc
Quando o doente vivencia um corpo e uma mente perturbados - a que os médicos chamam doença, e experiencia os sofrimentos que a perturbação acarreta - e a que os médicos chamam sintoma, possuído pelo desalento e a impotência, sente-se coagido a pedir ajuda. E se há alguém capacitado para o ajudar, a situação fundamental do ato médico encontra aí a sua ontologia e nobreza. O ato médico é, na sua origem, uma relação de ajuda.
O doente procura ajuda para recuperar da ameaça que a perturbação desencadeia que não é apenas a sua integridade física ( também a psicológica, social, moral e espiritual) mas também com igual acuidade, a sua segurança, o auto e heterocontrolo, a autonomia e a autodeterminação, a capacidade de decisão e livre arbítrio, a dignidade e tantas vezes até, a identidade.
É esta ajuda humana que o doente solicita e a singularidade do ato médico reside nesta forma única de ajudar sem lesar – e antes proteger e fomentar – a autonomia, a autodeminação, o livre arbítrio e a dignidade do outro, sem paternalismo nem autoritarismo, mas com calor afetivo e interesse desinteressado.
E quanto mais grave, prolongada, progressiva e irreversível for a doença, mais difícil e subtil se torna manter este comprometimento ético com aquele que espera do médico a ajuda para a luta que ele – e não o médico – porfia.
É nesta postura antropológica (von Weitzecker) que, enquanto médico, me interrogo sobre o tipo de decisões a tomar na assistência ao doente no seu final de vida.
Enumerarei algumas das minhas interrogações.
A autodeterminação é um dos princípios fundamentais dos Direitos Humanos (art 1º da Convenção Internacional sobre Direitos Económicos, sociais e Culturais). É, em última instância, o sustentáculo da individualidade e do respeito que ela impõe.
A autodeterminação significa autonomia, autocontrolo e livre arbítrio.
E a autonomia do doente é hoje um direito assegurado (Medical Professionalism in the New Millennium: A Physician Charter).
Então, pergunto-me:
- Até onde vai o respeito pela autonomia do doente?
- Quando e porquê podemos negar autonomia ao doente?
- Pode alguém, pessoa ou instituição, decidir por ele o caminho da sua vida?
- Pode o indivíduo partir na defesa da autonomia do seu pensamento – que todo e qualquer indivíduo deve possuir – e optar por uma morte assistida?
- Até onde lhe pode ser respeitado o seu livre arbítrio?
A Dignidade da Pessoa Humana fundamenta a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o sistema dos direitos fundamentais da Constituição Portuguesa repousa na dignidade da pessoa humana, quando logo no art. 1º proclama a Pessoa, fundamento e fim da sociedade e do Estado.
E Jorge Miranda acrescenta: “Os direitos, liberdades e garantias pessoais e os direitos económicos sociais e culturais comuns têm a sua fonte ética na dignidade da pessoa, de todas as pessoas. (…) A dignidade da pessoa humana reporta-se a todas e cada uma das pessoas e é a dignidade da pessoa individual e concreta”.
Cito Kant: “No reino dos fins, tudo tem ou um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem preço, pode ser substituída por algo equivalente; por outro lado, a coisa que se acha acima de todo preço, e por isso não admite qualquer equivalência, compreende uma dignidade.”
E pergunto:
- A dignidade humana é um princípio ou um fim? Um direito ou um atributo?
-. É a dignidade humana algo que transcende a dignidade de cada homem e mulher?
- Não provém a dignidade de cada mulher ou homem da sua radical singularidade, resultado único de um corpo verbalizado e de uma mente encarnada num tempo e num espaço cultural único e irrepetível?
- Em que momento da progressão da doença a dignidade é atingida de morte?
- E até onde pode ir o respeito por esta singularidade e sua dignidade?
- Desde que, ciente da sua escolha, em que momento do final da sua vida, perde o doente o poder de ser digno?
- O princípio da dignidade (e o da autodeterminação) inclui ou não a dignidade (e a autodeterminação) no último estágio, o da morte?
- À questão sobre se a morte assistida é uma indignidade quem deve dar resposta: o direito ou o próprio?
- Pode ou não cada mulher ou homem decidir sobre o que é digno para a sua existência?
Mas também a garantia do Direito à Vida vem expressa no art. 4º da declaração Universal dos Direitos Humanos, num aparente conflito com as garantias e direitos anteriores:
“Toda pessoa tem direito ao respeito pela sua vida. Esse direito deve ser protegido por lei, em geral, desde o momento da conceção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente”.
Responder a questões que possam ser levantadas sobre o Direito à Vida, julgo depender das respostas dadas a duas outras questões anteriores, a saber:
- Qual é o sentido da vida e o que é uma vida que faz sentido?
- Quem define o sentido da vida para além de cada pessoa viva?
Michel Henri, porventura o último dos fenomenologistas, fala assim do sentido da vida:
“A vida se quer a si mesma; quer, segundo o desejo de crescimento que a habita, de viver mais, sentir, compreender e amar mais. Esta felicidade de viver constitui a única finalidade da vida”.
Pergunto-me:
- O direito à vida é mais do que o direito a não ser morto?
- O direito à vida é mais do que o direito a uma vida digna e livre?
- É a vida um valor absoluto? Se o é, não é então um dever?
- O que é um direito indisponível?
- Todas as formas de vida podem ser consideradas vida?
- Uma vida vegetativa tem “desejo de crescimento que a habita, de viver mais, sentir, compreender e amar mais”?
- O conceito de morte cerebral não afirma a vida e a morte como algo mais de que um processo puramente biológico?
- Qual é a hierarquia dos valores: o valor da vida ou o valor da vida de cada pessoa, homem ou mulher?
- E o médico cuida da vida ou da vida de cada doente?
E é neste ponto que se encontram as maiores dificuldades. Falo do lado de cá do sofrimento do doente. Do lado do sofrimento do médico e da sua dignidade pessoal e profissional.
E do conflito bioético entre os princípios básicos da beneficência e da não malficiência (Beauchamp e Childress, 1979).
E pergunto-me:
- Ajudar a uma boa morte é um ato de beneficência ou de malficiência?
- E não ajudar, é um ato de beneficência ou de malficiência passiva?
São estas as questões que me coloco e que julgo merecerem reflexão quando se discute as decisões a tomar no fim da vida.
Pessoalmente gostaria de poder manter a minha autodeterminação e dignidade até mais não me ser possível, de poder ponderar a opção por uma boa morte e de encontrar alguém que tivesse a humana coragem de arrostar, na sua consciência, com as consequências morais de me ter ajudado.
Porto, 5 de Julho de 2017
Rui Mota Cardoso
Debate promovido pelo Conselho Nacinal de Ética para as Ciências da Vida, realizado no Porto a 5 de Julho de 2017 com a participação de Michel Renaud, Rui Mota Cardoso,João Semedo e Paulo Rangel
PONDERAR A OPÇÃO DE UMA BOA MORTE
rmc
Quando o doente vivencia um corpo e uma mente perturbados - a que os médicos chamam doença, e experiencia os sofrimentos que a perturbação acarreta - e a que os médicos chamam sintoma, possuído pelo desalento e a impotência, sente-se coagido a pedir ajuda. E se há alguém capacitado para o ajudar, a situação fundamental do ato médico encontra aí a sua ontologia e nobreza. O ato médico é, na sua origem, uma relação de ajuda.
O doente procura ajuda para recuperar da ameaça que a perturbação desencadeia que não é apenas a sua integridade física ( também a psicológica, social, moral e espiritual) mas também com igual acuidade, a sua segurança, o auto e heterocontrolo, a autonomia e a autodeterminação, a capacidade de decisão e livre arbítrio, a dignidade e tantas vezes até, a identidade.
É esta ajuda humana que o doente solicita e a singularidade do ato médico reside nesta forma única de ajudar sem lesar – e antes proteger e fomentar – a autonomia, a autodeminação, o livre arbítrio e a dignidade do outro, sem paternalismo nem autoritarismo, mas com calor afetivo e interesse desinteressado.
E quanto mais grave, prolongada, progressiva e irreversível for a doença, mais difícil e subtil se torna manter este comprometimento ético com aquele que espera do médico a ajuda para a luta que ele – e não o médico – porfia.
É nesta postura antropológica (von Weitzecker) que, enquanto médico, me interrogo sobre o tipo de decisões a tomar na assistência ao doente no seu final de vida.
Enumerarei algumas das minhas interrogações.
A autodeterminação é um dos princípios fundamentais dos Direitos Humanos (art 1º da Convenção Internacional sobre Direitos Económicos, sociais e Culturais). É, em última instância, o sustentáculo da individualidade e do respeito que ela impõe.
A autodeterminação significa autonomia, autocontrolo e livre arbítrio.
E a autonomia do doente é hoje um direito assegurado (Medical Professionalism in the New Millennium: A Physician Charter).
Então, pergunto-me:
- Até onde vai o respeito pela autonomia do doente?
- Quando e porquê podemos negar autonomia ao doente?
- Pode alguém, pessoa ou instituição, decidir por ele o caminho da sua vida?
- Pode o indivíduo partir na defesa da autonomia do seu pensamento – que todo e qualquer indivíduo deve possuir – e optar por uma morte assistida?
- Até onde lhe pode ser respeitado o seu livre arbítrio?
A Dignidade da Pessoa Humana fundamenta a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o sistema dos direitos fundamentais da Constituição Portuguesa repousa na dignidade da pessoa humana, quando logo no art. 1º proclama a Pessoa, fundamento e fim da sociedade e do Estado.
E Jorge Miranda acrescenta: “Os direitos, liberdades e garantias pessoais e os direitos económicos sociais e culturais comuns têm a sua fonte ética na dignidade da pessoa, de todas as pessoas. (…) A dignidade da pessoa humana reporta-se a todas e cada uma das pessoas e é a dignidade da pessoa individual e concreta”.
Cito Kant: “No reino dos fins, tudo tem ou um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem preço, pode ser substituída por algo equivalente; por outro lado, a coisa que se acha acima de todo preço, e por isso não admite qualquer equivalência, compreende uma dignidade.”
E pergunto:
- A dignidade humana é um princípio ou um fim? Um direito ou um atributo?
-. É a dignidade humana algo que transcende a dignidade de cada homem e mulher?
- Não provém a dignidade de cada mulher ou homem da sua radical singularidade, resultado único de um corpo verbalizado e de uma mente encarnada num tempo e num espaço cultural único e irrepetível?
- Em que momento da progressão da doença a dignidade é atingida de morte?
- E até onde pode ir o respeito por esta singularidade e sua dignidade?
- Desde que, ciente da sua escolha, em que momento do final da sua vida, perde o doente o poder de ser digno?
- O princípio da dignidade (e o da autodeterminação) inclui ou não a dignidade (e a autodeterminação) no último estágio, o da morte?
- À questão sobre se a morte assistida é uma indignidade quem deve dar resposta: o direito ou o próprio?
- Pode ou não cada mulher ou homem decidir sobre o que é digno para a sua existência?
Mas também a garantia do Direito à Vida vem expressa no art. 4º da declaração Universal dos Direitos Humanos, num aparente conflito com as garantias e direitos anteriores:
“Toda pessoa tem direito ao respeito pela sua vida. Esse direito deve ser protegido por lei, em geral, desde o momento da conceção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente”.
Responder a questões que possam ser levantadas sobre o Direito à Vida, julgo depender das respostas dadas a duas outras questões anteriores, a saber:
- Qual é o sentido da vida e o que é uma vida que faz sentido?
- Quem define o sentido da vida para além de cada pessoa viva?
Michel Henri, porventura o último dos fenomenologistas, fala assim do sentido da vida:
“A vida se quer a si mesma; quer, segundo o desejo de crescimento que a habita, de viver mais, sentir, compreender e amar mais. Esta felicidade de viver constitui a única finalidade da vida”.
Pergunto-me:
- O direito à vida é mais do que o direito a não ser morto?
- O direito à vida é mais do que o direito a uma vida digna e livre?
- É a vida um valor absoluto? Se o é, não é então um dever?
- O que é um direito indisponível?
- Todas as formas de vida podem ser consideradas vida?
- Uma vida vegetativa tem “desejo de crescimento que a habita, de viver mais, sentir, compreender e amar mais”?
- O conceito de morte cerebral não afirma a vida e a morte como algo mais de que um processo puramente biológico?
- Qual é a hierarquia dos valores: o valor da vida ou o valor da vida de cada pessoa, homem ou mulher?
- E o médico cuida da vida ou da vida de cada doente?
E é neste ponto que se encontram as maiores dificuldades. Falo do lado de cá do sofrimento do doente. Do lado do sofrimento do médico e da sua dignidade pessoal e profissional.
E do conflito bioético entre os princípios básicos da beneficência e da não malficiência (Beauchamp e Childress, 1979).
E pergunto-me:
- Ajudar a uma boa morte é um ato de beneficência ou de malficiência?
- E não ajudar, é um ato de beneficência ou de malficiência passiva?
São estas as questões que me coloco e que julgo merecerem reflexão quando se discute as decisões a tomar no fim da vida.
Pessoalmente gostaria de poder manter a minha autodeterminação e dignidade até mais não me ser possível, de poder ponderar a opção por uma boa morte e de encontrar alguém que tivesse a humana coragem de arrostar, na sua consciência, com as consequências morais de me ter ajudado.
Porto, 5 de Julho de 2017
Rui Mota Cardoso
Berlinale 2019 - décimo dia
Dafne, de Federico Bondi. Dafne tem síndrome de Down, e uma infinita tagarelice. Uma força da natureza. Após a morte da mãe, Dafne vê-se obrigada a lutar contra a sua própria dificuldade de aceitar esse facto e a ajudar o pai a sair do estado de letargia em que caiu.
Um filme simultaneamente muito tocante e muito divertido.
Foi o segundo filme da Berlinale de 2019 que vi no qual a actriz principal era uma pessoa que tinha realmente a anomalia de saúde constante no guião (o primeiro foi 37 segundos), e mais uma vez se verificou que os filmes ficam a ganhar com estes actores.
O realizador contou, a sorrir, que a actriz Carolina Raspanti viu o filme pela primeira vez na première na Berlinale, e ficou muito entusiasmada. "Federico, fizeste uma obra-prima!", disse-lhe ela no seu tom alegremente peremptório. "Não exageres...", respondeu ele, e a resposta pronta: "pois se te digo que é uma obra-prima!" Já depois de a actriz ter regressado à Itália, o filme recebeu o prémio da Fédération Internationale de la Presse Cinématographique, e Carolina Raspanti não cabia em si de contente. Passou a noite a enviar mensagens ao realizador, com todas as variações de "eu bem te disse que era uma obra-prima, e tu não quiseste acreditar!"
Estou me guardando para quando o Carnaval chegar, de Marcelo Gomes, é um documentário que descreve a vida numa pequena cidade do Nordeste brasileiro, responsável pela produção de 20% dos jeans do país. O trabalho intenso ao longo do ano, com os olhos na miragem do carnaval passado na praia. Um retrato triste do nosso tempo e deste eterno correr numa roda de gaiola.
Werk ohne Autor / Never look away, de Florian von Donnersmarck. Um bom filme, mas desconfortável por usar a vida do artista Gerhard Richter sem o nomear, nem aos seus amigos. Uma pessoa vê o filme, vê as obras de arte nas quais aquelas pessoas estão a trabalhar, e pensa: mas por que raio lhes deram nomes diferentes?
Depois lê uma entrevista a Gerhard Richter, e entende: o artista não concordou com o guião, por distorcer demasiado a sua biografia, e o realizador resolveu contar a história que tinha preparado mudando simplesmente o nome dos envolvidos.
Fico na dúvida sobre o que preferiria: esta história com obras de arte "verdadeiras" e nomes falsos, ou uma história com os nomes certos e a biografia falsa. Estamos mais habituados a conviver com essas biografias romanceadas, e temos tendência a acreditar que aquilo que nos contam é a verdade. Mas quando nos mostram a história romanceada que tomamos como verdade mas trocam os nomes dos seus sujeitos, a sensação de desconforto que nos criam permite-nos abrir os olhos para o jogo de ilusões que gostamos de fazer.
Sois belle et tais-toi, de Delphine Seyrig. Falei deste filme aqui.
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Finalmente acabei a lista da Berlinale 2019. Pronta para a Berlinale 2020, que começa amanhã.
A ver se acabo aqui mesmo esta tradição de só fechar contas da Berlinale anterior quando a seguinte já está a começar, que isto não é vida. Agora vou estudar o programa com afinco, que amanhã já saio de casa às sete da madrugada em busca dos primeiros bilhetes.
(que a força esteja comigo...)
Berlinale 2019 - nono dia
Ao nono dia houve greve dos transportes públicos e o frio aproveitou para se mostrar em todo o seu esplendor. As plantas no jardim da Haus der Kulturen der Welt enregeladas, o Tiergarten com ainda mais ciclistas que de costume. Sossego no topo da Potsdamer Platz, no Berlinale Rooftop.
Amazing Grace, de Alan Elliott a partir de uma gravação feita em 1972. Inesquecível, tocante, de nos deixar a pairar sobre o abismo algures dentro de nós: a força e a alma de Aretha, a força e a alma do gospel.
O meu problema é o filme de Agnès Varda me estragou: estava condicionada pela sua explicação dos trípticos. Passei o filme inquieta por me terem filmado aquela polifonia sem planos paralelos: a cantora, o maestro, o Cleveland, o coro, o público. E pensei nessa falha com tamanha intensidade, que lá para o fim do filme mudaram, e começaram a mostrar - ao menos isso, vá - dois planos lado a lado: Aretha e Cleveland.
Flesh out, de Michela Occhipinti. O corpo da mulher, esse eterno campo de batalha, desta vez no contexto de uma tradição da Mauritânia: engordar as mulheres antes do casamento. Com imagens belíssimas e um excesso de comida capaz de atirar qualquer espectador para a bulimia, o filme mostra uma jovem mulher dividida entre o mundo moderno, as tradições que a sua família ainda lhe impõe, e a maldita balança para a qual oitenta quilos são sinal de mulher demasiado magra.
The day after I'm gone, de Nimrod Eldar. Um filme sobre o impasse de um pai perante o sofrimento da filha que se quer suicidar, e talvez também sobre o impasse de um país, Israel, a viver um processo autodestrutivo - de que a tensão que atravessa as cenas passadas no colonato é o sinal mais evidente.
2040, de Damon Gameau. O realizador australiano começa por se perguntar como será o mundo da sua filha em 2040, quando ela chegar à idade adulta, e tenta dar uma resposta optimista: como pode ser o mundo da sua filha se começarmos hoje mesmo a usar os recursos que já temos à nossa disposição.
Alguns exemplos: regenerar a natureza / car sharing / carros eléctricos autónomos / transformar o espaço excessivo de estacionamento em área verde (2/3 de Los Angeles é espaço de estacionamento) / telhados verdes / jardins públicos com legumes e frutos / mais jardins e parques no centro das cidades / agricultura biológica para melhorar a qualidade da terra e reter dióxido de carbono / reduzir a agro-indústria, de cuja actividade só 20% se destina directamente à alimentação humana - o restante é destinado à produção de animais / pasto para animais / usar as algas como alimento e retenção de dióxido de carbono / reabilitação da vida marinha / redes locais de electricidade / lixo biológico: captação de metano para produzir energia e adubo biológico / etc.
Algumas das propostas pareceram-me pouco credíveis mas, à distância de um ano, o conjunto pareceu-me uma boa sugestão para começar a agir imediatamente.
Hoje, contudo, parece-me que este filme já está a anos-luz da realidade do planeta. É preciso muito mais que isto, e muito mais do que a simples boa vontade dos cidadãos, para impedir que o planeta se aproxime ainda mais dos pontos de não retorno.
African mirror, de Mischa Hedinger. Usando o exemplo das imagens e das palestras do suíço René Gardi sobre África, Mischa Hedinger mostra como se construiu na Europa um certa ideia dos africanos predeterminada pelos produtores de imagens.
O debate com o público foi extremamente acesso, quase violento, porque algumas pessoas se sentiram agredidas pelo tom demasiado neutro do documentário, que se limita a repassar as imagens originais sem comentário. Outros participantes no debate insistiam que o público não precisa de legendas para ver o que é evidente, ao que muitos faziam notar que o racismo daquelas imagens não é tão evidente como alguns possam pensar, uma vez que estamos por demais habituados a elas.
Também me parece que o filme é demasiado neutro, e que a referência à acusação de abuso sexual de menores que foi feita a René Gardi é um desvio ao que devia ser o tema central do documentário: o modo como a Europa construiu a sua imagem de África e dos africanos, e as consequências que se prolongam até ao nosso tempo e para além dele.
Berlinale 2019 - oitavo dia
Nur eine Frau / A Regular Woman, de Sherry Hormann. Este filme alemão que vi na secção Lola foi dos que mais me marcou em 2019. A realizadora apresentou o seu trabalho sumariamente antes da exibição para os colegas: "quis mostrar uma mulher não na sua realidade de vítima, mas na sua realidade de vencedora". E conseguiu: apesar de ser uma "crónica de uma morte anunciada", esta berlinense filha de turcos e vítima de um crime de "honra" revela-se como uma mulher forte, auto-confiante, senhora do seu destino.
Neste post falo sobre a mulher que inspirou este filme.
The red phallus, de Tashi Gyeltschen. Sob a placidez da paisagem, o sobressalto e a agonia de uma vítima.
What she said: the art of Pauline Kael, de Rob Garver.
Na sinagoga, Pauline Kael tocou "somos um exército de cristãos" no seu violino; como crítica de cinema, ousou dizer mal do filme "Shoah" e de "Música no Coração". Talvez por gostar de ser do contra, talvez por saborear a vertigem da recusa do compromisso? Em todo o caso, fazia-o com textos brilhantes. O documentário ilustra as críticas de Pauline Kael com excertos dos filmes mencionados, mas usa de um ritmo demasiado rápido, o que é frustrante para o espectador.
Di jiu tian chang / So long, my son, de Wang Xiaoshuai.
Palavras do realizador: "isto não é um filme, isto é a nossa vida".
Berlinale 2019 - sétimo dia
E ao sétimo dia... filmes excelentes, sem excepção.
Tive de correr um bocado para conseguir ir a todos, mas valeu a pena. Se valeu!
Pelo meio, consegui ver também o filme feito por uma amiga - melhor dizendo: pela miúda de quem fui au pair em 1990. Uma animação para "Be True to Your School", que agora passa em todos os concertos dos Beach Boys no momento em que eles tocam esta música. A Berlinale convidou-a para exibir o filme e fazer contactos com empresas da área. Portanto, já sabem: se querem que os vossos filhos façam carreira na Berlinale, arranjem de eu ser a au pair deles durante uns meses.
Enquanto assistia à gravação da entrevista chegou um grupo de miúdos para ver mais filmes. Gosto tanto de os ver, os passarinhos!
Ao fim do dia encontrei outra amiga. Acompanhava a equipa do Elisa Y Marcela. É sempre muito engraçado ver o contraste no tapete vermelho: a azáfama dos acompanhantes e dos guarda-costas, e o glamour das actrizes.
Os meus filmes no sétimo dia - o meu melhor dia nesta Berlinale:
Varda para Agnès, de Agnès Varda. Uma delícia de filme: Agnès, sentada no palco de um teatro, fala sobre os seus trabalhos a uma plateia jovem, e transforma aquelas duas horas numa pequena viagem ao mundo da criação artística. Com aquele seu ar simpático e simples, com frases profundas e transparentes, explica os motivos do que fez e o modo como fez. "Se abrirem uma pessoa, verão uma paisagem. Se me abrirem a mim, verão uma praia".
Um filme a ver e a rever.
Der Junge muss an die frische Luft / The boy needs some fresh air, de Caroline Link.
O filme é baseado na autobiografia de Hape Kerkeling, e tem um excelente Julius Weckauf na representação da infância do famoso humorista alemão.
Se precisasse de um subtítulo seria: a alegria para combater a tragédia.
Midnight Traveler, de Hassan Fazili. O realizador afegão vê-se obrigado a fugir dos talibãs com a sua família, e filma a odisseia dos quatro para conseguir chegar à Europa. O medo, a insegurança, os campos (prisão?) de refugiados. As meninas a crescer naquele ambiente entre o limbo e o inferno. As dúvidas do cineasta: quando filmas a tua própria vida, que critérios devem dirigir a tua mão na câmara? Quanto horror te deves permitir filmar?
No final, o realizador e a mulher subiram ao palco e forama aplaudidos de pé por uma assistência comovida e chocada.
Shooting the Mafia, de Kim Longinotto. Um excelente documentário sobre Letizia Battaglia, a fotógrafa da máfia siciliana. O filme combina com mestria as suas fotografias absolutamente extraordinárias com entrevistas e filmes da época para revelar a história recente da Sicília nos seus múltiplos níveis.
Elisa y Marcela, de Isabel Coixet. Baseado num caso verídico, o filme revela a descoberta do amor e do desejo de duas mulheres com muita sensibilidade, delicadeza e sensualidade.
E depois dá aos portugueses um papel divertido e humano que me fez sentir de bem com as minhas gentes. Embora tenha lá um "chatear" que duvido que fosse normal dizer no princípio do séc. XX, e tenha uma fadista a cantar numa esplanada na Ribeira, a passar pela Elisa e pela Marcela ali sentadas, que também duvido muito que fosse possível acontecer naquela época. Mas pronto, que seria uma incursão no estrangeiro sem um bom par de clichés? Tudo isso e muito mais se perdoa só por incluir o Salvador Sobral com uma canção cujo texto parece feito de propósito para aquele filme.
18 fevereiro 2020
isto agora só lá vai com muros?
Três cientistas europeus juntaram-se para responder à questão sobre como evitar que as áreas costeiras do Mar do Norte, onde vivem 25 milhões de pessoas, sejam submergidas pelo aumento do nível do mar que já está em curso.
No trabalho publicado no American Journal of Meteorology, de onde tirei o gráfico acima, propõem a construção de duas barragens descomunais: uma de 161 km entre a Bretanha e a Cornualha e a outra de 500 km entre a Escócia e a Noruega. O resultado a prazo seria a transformação de boa parte do Mar do Norte num enorme lago de água doce, alterando os ecossistemas, aumentando enormemente os custos da navegação, etc. etc. etc.
O projecto custaria entre 250 mil milhões e 500 mil milhões de euros. E seria ainda necessário ter bombas potentíssimas a trabalhar permanentemente para atirar para o outro lado da barragem toda a água dos rios que desaguam nesse mar. Mesmo assim, seria provavelmente mais barato do que ter cada região a tentar resolver o seu problema (como nos Países Baixos já se começou a fazer).
Conclusão dos cientistas: às tantas era mais eficiente e mais barato começarmos a reduzir imediata e drasticamente as emissões de gases com efeito de estufa.
Aqui em inglês e aqui em alemão.
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Também tem um gráfico semelhante para o Mediterrâneo: fazer uma barragem no estreito de Gibraltar.
Ao olhar para o gráfico quase ia desatando a rir: os africanos já não precisariam de barcos para chegar à Europa, podiam atravessar o mar de pés enxutos, como Moisés.
E se o Mediterrâneo se tornasse um lago de água doce, os conflito entre Israel e os palestinianos ia ficar muito mais aliviado, porque a água já chegaria para todos.
Mas depois reparei que Portugal fica fora da zona protegida. O que é uma boa notícia, porque não tínhamos que pagar aquele dinheiro todo para construir a barreira de protecção, e uma péssima notícia, porque a esmagadora maioria dos portugueses mora junto à costa. Mas também é uma boa notícia para o interior: ia voltar a repovoar-se.
Até há cerca de 5 anos costumava brincar com a ideia de dentro de meia dúzia de séculos a minha casa numa aldeia minhota se tornar uma casa de praia. Agora já não me dá vontade nenhuma de rir. O processo já está em curso, e a acontecer muito mais depressa do que pensava.
mais algumas razões para gostar tanto de Berlim
(foto: Twitter Hertha BSC)
1. Traduzo da página do Hertha BSC:
Declarações sobre o incidente na Liga Regional B-Junior
Devido a insultos racistas, a nossa equipa abandonou o campo em Auerbach antes do fim do jogo.
Berlim - No jogo de sábado (14.12.19) na B-Junior-Regionalliga Nordeste do nosso U16 na VfB Auerbach 1906 ocorreu um incidente de racismo. Vários jogadores da nossa equipa foram insultados de forma racista pelos seus adversários.
Após dar indicações ao árbitro, decidimos sair de campo aos 68 minutos do segundo tempo, quando marcava 2-0 a nosso favor, e não continuar o jogo, porque nós, o Hertha BSC, condenamos o racismo e a discriminação em todas as suas formas.
Paul Keuter, membro da direcção do Hertha BSC: "Há situações nas quais para nós até o futebol se torna secundário. Temos uma responsabilidade para connosco próprios, para com os nossos jogadores e também para com a sociedade. Levamos esta responsabilidade muito a sério. Por isso, não continuar o jogo era a única decisão aceitável. Talvez esta medida seja um alerta para todos nós - jogadores, clubes, associações e adeptos - para finalmente pormos termo a este problema. Em casos destes, os valores e uma atitude clara têm para nós muito maior importância do que ganhar ou perder em campo.
[ O caso foi levado a um tribunal de desporto, que decidiu atribuir uma derrota a esta equipa do Hertha BSC por 2-0. Embora o tribunal tenha decidido a favor do Auerbach, levou em conta as declarações dos sete jogadores do Hertha que se declararam vítimas de insultos racistas, o que dará origem a outro julgamento sobre uma possível penalidade contra o clube saxão e seus jogadores. Talvez seja parte importante desta equação saber que, nas eleições do ano passado na Saxónia, Auerbach deu à AfD 26,4% dos votos e 39,5% à CDU; SPD e Die Linke somados tiveram 18,1%. Auerbach esteve também recentemente nas notícias devido à decisão da Diocese de Dresden de manter como professor das aulas de religião católica um político da AfD que critica as declarações do papa Francisco sobre os refugiados e que numa aula de informática criou com os alunos um jogo em que um avião é dirigido contra uma mesquita. ]
2. Num jogo no princípio deste mês contra Schalke 04, Jordan Torunarigha, jogador do Hertha BSC, foi repetidamente insultado com ruídos de macaco por parte de adeptos do clube adversário. De cabeça perdida, num momento em que caíra junto ao treinador do Schalke 04 e este o segurou pelo pescoço, agarrou numa grade de bebidas e atirou-a para o chão com toda a força. Tanto ele como o treinador levaram cartão vermelho. As cenas pode ver-se aqui.
No jogo seguinte, milhares de adeptos do Hertha BSC exibiram cartazes com o número do jogador, além de muitos outros cartazes com mensagens de apoio. Um deles dizia "unidos contra o racismo - se for preciso, com grades de bebidas!" Inspirados por um desabafo de Torunarigha no Instagram, "ninguém pode escolher a cor da sua pele!", os jogadores brancos do Hertha BSC fizeram um risco escuro no rosto, e os jogadores negros um risco branco.
Os responsáveis do Schalke 04 mostraram-se chocados com o incidente e manifestaram o seu total apoio ao jogador. O clube está a colaborar com a polícia, a quem entregou material de vídeo para permitir a identificação dos autores dos insultos, e já declarou que aceitará sem reservas qualquer pena que lhe venha a ser aplicada.
(A notícia em alemão, de onde tirei também as imagens, está aqui)
(Foto: City-Press GmbH)
(Foto: City-Press GmbH)
(Foto: Ottmar Winter)
"25 - Um de nós!"
3. A foto que publiquei no início deste post é da conta de Twitter do Hertha BSC. A frase que a acompanha diz: "Quando uma imagem diz mais que palavras. Estamos contigo, Jordan!"
Traduzo algumas das reacções:
* Como adepto do Schalke, acho profundamente vergonhoso o que aconteceu ontem. Peço que o S04 renuncie à vitória e não jogue nas quartas-de-final. Como uma afirmação clara de que o racismo não tem lugar no #Schalke.
* Os adeptos do Schalke também estão contigo! Força!
* O futebol está a ficar cada vez mais anti-social. A atitude certa teria sido parar o jogo. Mas têm medo dos hooligans.
* Ok, o Jordan já teve alguns momentos de fúria na sua carreira. Mas desta vez era possível ver ao vivo como ele estava a perder a cabeça cada vez mais. Um sinal claro de que algo mais estava a acontecer.
* Caramba, estamos 1.000% contigo! WTF... eu teria reagido da mesma maneira!
* Esta não foi a primeira vez e não vai ser a última. Que comportamento tão desprezível. Não admira que ele não conseguisse conter as suas emoções. Quem teria conseguido na mesma situação? Gostava de saber como é que o próprio árbitro teria reagido, se fosse contra ele.
* Espero que identifiquem esses idiotas e lhes dêem uma pesada pena. O único lugar certo para os racistas é a cela de uma prisão. Força, @Jordanynany !
* Não precisamos desta merda no futebol! Isto não tem nada a ver com rivalidade saudável entre os clubes, é apenas nojento. #NoToRacism #hahoe #Lifelong green
* Os acontecimentos de ontem deixam-me triste e profundamente revoltado. Estamos em 2020 e as pessoas ainda são alvo de insultos raciais. O que há de errado com vocês? As minhas desculpas como adepto do #S04 vai para @Jordanynany e o @HerthaBSC. Isto é insuportável.
* Espero que os idiotas racistas sejam encontrados e proibidos de voltar a entrar num estádio. Esses adeptos não têm lugar na arena! Tolerância zero para os racistas! Todos os que forem testemunhas de comportamentos destes devem levantar a sua voz em protesto.
17 fevereiro 2020
nazis fora!
(No filme vêem-se pessoas do público a apontar para o ofensor, e no final ouve-se: "Nazi raus!" - "nazis fora!")
Na sexta-feira passada estava a decorrer na cidade de Münster um jogo entre o SC Preußen Münster e os Würzburger Kickers quando, já perto do final do jogo, um espectador começou a fazer ruídos de macaco na direcção de um jogador alemão de pele negra.
Traduzo a notícia do Liga 3 - Online sobre o que aconteceu no campo:
Nazis fora!
O jogo ia no 86º minuto. Os Würzburger Kickers tinham um lançamento e Leroy Kwadwo recebeu a bola em frente à bancada principal. Como os Kickers estavam a mudar um jogador, o jogo foi brevemente interrompido - e neste preciso momento um espectador do bloco B fez sons de macaco na direcção do jogador de pele escura de Würzburg. Testemunhas também relataram que o homem gritou "Volta para o teu buraco". Kwadwo reagiu imediatamente, apontou para o espectador, dirigiu-se furiosamente à árbitra Katrin Rafalski e teve de ser acalmado pelos assistentes da equipa. Entretanto outros jogadores e responsáveis também se deram conta do incidente e, nas bancadas, o público começou ao gritar ao fã racista para que saísse do bloco.
O autor do insulto retirou-se. Lá fora, a polícia já o esperava para o levar para a esquadra. O orador do estádio, Martin Kehrenberg, leu uma declaração contra o racismo, o público reagiu com fortes aplausos e entoou "nazis fora" - um sinal muito forte. Kwadwo, visivelmente incomodado, foi aplaudido por vários jogadores das duas equipas, no que parecia serem sinais de elogio ao jogador e à árbitra. Depois disso, o jogo continuou.
"Exemplo de comportamento estúpido"
Depois do jogo, Kwadwo descreveu a cena para "100 PercentMeinSCP" da seguinte forma: "Eu ia pegar na bola para o lançamento quando ouvi que alguém no bloco estava a fazer ruídos de macaco. Comecei por achar que me teria enganado, mas depois reparei na pessoa. O homem continuou a fazer esses ruídos. Isto é completamente incompreensível. Um exemplo crasso de comportamento estúpido." Para o jovem de 23 anos foi o primeiro incidente deste tipo: "Nunca pensei que algo assim pudesse acontecer comigo, mas provavelmente vai haver sempre idiotas como este". No sábado, Kwadwo publicou uma declaração no site do clube: "Posso ter uma cor de pele diferente, mas nasci aqui, neste maravilhoso país que tanto me deu, a mim e à minha família, e tornou isto possível. Sou um de vocês, vivo aqui e posso realizar a minha vocação e paixão como profissional dos Würzburger Kickers".
Entretanto, o SC Preußen, numa declaração intitulada "Não há lugar para o racismo no Preußenstadion", distanciou-se do comportamento do espectador e "pediu expressamente desculpas a Leroy Kwadwo e à equipa adversária". O presidente do clube, Christoph Strässer, deixou claro: "Não pode haver lugar para isto num campo de futebol, e certamente menos ainda no nosso estádio. Não queremos nem precisamos de gente dessa aqui." Também o porta-voz da imprensa Marcel Weskamp enfatizou na conferência de imprensa: "Isto não é Münster. Münster é o que aconteceu a seguir".
Agradecimento aos fãs
Os treinadores de ambos os clubes também elogiaram a reacção notável do público: "Isto diz tudo sobre Münster e sobre os nossos fãs", elogiou o treinador Sascha Hildmann. Schiele, por usa vez, afirmou: "O apoio dos fãs foi fantástico, estamos muito gratos. Os polícias também reagiram muito bem e tomaram imediatamente conta do caso."
Kwadwo também elogiou os fãs: "A vossa reacção é exemplar - não fazem ideia do que isso significa para mim e para todos os outros jogadores de cor. Devemos todos continuar a lutar como VOCÊS fizeram e impedir que a semente dê fruto. Obrigado por cada mensagem! Espero que em breve estas coisas deixem de acontecer."
A interdição de frequentar o estádio do SC Preussen será provavelmente o menor dos problemas do ofensor, que se arrisca a uma acusação por incitamento ao ódio. "Espero que ele nunca mais possa assistir a outro jogo de futebol", escreveu o capitão do Kickers, Sebastian Schuppen, no Twitter, após o jogo. Entretanto, o SCP terá de pagar uma multa, mas serão consideradas as medidas que foram imediatamente tomadas em relação ao ofensor.
the show must go on
Profundamente confrangedor e embaraçoso: a insistência dos que tentam demover Marega da sua decisão de abandonar o jogo.
Bem sei que naquele momento as equipas têm a adrenalina a mil, e que só estão focadas numa coisa: fazer o melhor jogo possível. Mesmo assim, não deviam ter pressionado daquela maneira uma pessoa que estava a ser vítima de um ataque racista tão aviltante.
A boa notícia é: a luta contra o racismo está a ganhar. É o facto de se condenar abertamente o racismo que deu força a este jogador para sair do campo e não se sujeitar àquilo. Este processo chegou a um ponto de não retorno. Da próxima vez, ninguém vai tentar impedir a vítima de tomar uma posição clara de recusa. Bom seria que houvesse em campo alguém capaz de tomar a decisão de parar o jogo enquanto a polícia não levar os provocadores racistas para fora do estádio.
[ O Mário Machado, o que há tempos foi ao programa do Goucha dizer que é preciso recuperar os valores de Salazar, já tem um vídeo a dizer que insultos fazem parte do jogo de futebol, e que se fosse gordo lhe chamavam gordo e que se tivesse o pescoço alto lhe chamavam girafa, portanto ele que não se arme em esquisito porque apenas foi insultado como é normal fazer-se durante um jogo de futebol. Também por causa desta mensagem é fundamental que doravante se interrompam os jogos onde estes ataques acontecerem. ]
não ao racismo
Sobre esta resolução do congresso da UEFA em 2013, em Londres, agradecia que me
explicassem - a mim, que não percebo nada de futebol - qual foi a parte de
"urges referees to stop or even abandon matches in the case of racist
incidents" que entendi mal?
Congress
adopts anti-racism resolution
Friday
24 May 2013 by Mark Chaplin & Michael Harrold
UEFA and
its member national associations have issued a resolution underlining European
football's commitment to combating racism at the XXXVII Ordinary UEFA Congress.
UEFA and
its member national associations have adopted a resolution emphasising European
football's determination to eliminate racism from football.
The
resolution, entitled European football united against racism, was adopted at
the XXXVII Ordinary UEFA Congress in London on Friday and pledges that UEFA and
the associations will step up their efforts to eradicate racism from football.
It calls on players and coaches to make a full contribution to the campaign,
and urges referees to stop or even abandon matches in the case of racist
incidents. As part of a zero tolerance stance towards racism, strict sanctions
are demanded in the resolution against officials, players and supporters guilty
of racist behaviour.
This is
the latest move in football's fight against racism. In March, the Professional
Football Strategy Council (PFSC), comprising Europe's national associations
(UEFA), clubs (ECA), leagues (EPFL) and players (FIFPro Division Europe),
unanimously adopted a joint position paper aimed at combating racism and
discrimination in the game.
The
Congress resolution was ratified by the UEFA Executive Committee at its meeting
in London this week. UEFA's disciplinary regulations for the 2013/14 season,
also given the green light by the Executive Committee this week, have been
revised to include tougher sanctions against racism.
"It
is clear that UEFA's member associations and other stakeholders in the football
family are unanimous that we need to do more to tackle this problem," said
UEFA General Secretary Gianni Infantino.
"We
strongly believe that our actions will speak louder than words, and we count on
UEFA's member associations not only to support this resolution, but to
implement it. This is a real issue … and I think I speak for every one of us
when I say that it's time to put an end to racism once and for all.
The
resolution adopted at the XXXVII Ordinary UEFA Congress:
• The
UEFA Statutes provide that a key objective is to promote football throughout
Europe in a spirit of peace, understanding, fair play and without
discrimination of any kind.
•
Similarly, UEFA's 11 key values contain a pledge that UEFA will adopt a
zero-tolerance approach towards racism.
• These
same 11 values declare that football must set an example. Football unites
people and transcends differences. Respect is therefore a key principle of the
game.
•
Against this background, European football is united in its firm belief that
racism and other forms of discrimination must be kicked out of football, once
and for all.
• UEFA
and its member associations hereby resolve to re-double their efforts to eradicate
racism from football. Stricter sanctions must be imposed for any form of racist
behaviour affecting the game.
•
Referees should stop, suspend or even abandon a match if racist incidents
occur. Following UEFA's three-step guidelines, a match will first be stopped
and a public warning given. Second, the match will be suspended for a period of
time. Third, and after coordination with security officers, the match will be
abandoned if racist behaviour has not ceased. In such a case the responsible
team forfeits the tie.
• Any
player or team official found guilty of racist conduct must be suspended for at
least ten matches (or a corresponding period of time for club representatives).
• If
supporters of a club or national team engage in racist behaviour this must be
sanctioned (for a first offence) with a partial stadium closure concerning the
section where the racist incident occurred. For a second offence, this must be
sanctioned with a full stadium closure, as well as a financial penalty. In
addition, supporters found guilty of racist behaviour should be banned from
attending matches in future by the state authorities.
• Clubs
and national associations are required to run awareness programmes to tackle
racism. Furthermore, disciplinary sanctions for any racist behaviour should be
accompanied by such awareness programmes, which anti-racism organisations could
helpfully assist with. Education will help to address the problem, both in
football and in wider society.
•
Players and coaches must also be leaders in the fight against racism. Speak out
against it – it's part of your duty to football.
• UEFA
is fully committed to these strong sanctioning and awareness policies and all
national associations support the implementation of similar policies, having
regard to their own domestic circumstances. Football is about leadership, both
on and off the field. European football is united against racism. Let's put a
stop to racism. Now.
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