19 janeiro 2020

Goebbels, Lohengrin e Hitler



Há tempos vi numa exposição sobre "arte degenerada", em Berlim, a ordem de um responsável nazi para banir as obras de um determinado pintor do espaço público. O que mais me chocou naquele texto: os argumentos eram iguais aos que tenho ouvido no Brasil de Bolsonaro quando se fala da Educação e da Cultura. Infelizmente não fotografei aquele documento, mas deixo uma pista: procurem documentos nazis de perseguição aos artistas daquele tempo, e vejam os paralelos com o actual discurso do poder no Brasil. Será coincidência, ou estratégia deliberada para usar uma receita que por volta de 1930 teve sucesso na Alemanha?

No vídeo acima, o secretário especial da Cultura, Roberto Alvim, entretanto demitido, cita Goebbels ao anunciar novas perspectivas para a arte brasileira (que não "do Brasil"). Usando a transcrição da Deutsche Welle:

"A arte brasileira da próxima década será heróica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada".

No seu discurso, Goebbels disse: "A arte alemã da próxima década será heróica, será ferrenhamente romântica, será desprovida de sentimentalismo e objectiva, será nacional com um grande pathos e será ao mesmo tempo imperativa e vinculante – ou não será".

Heróica, nacional, imperativa, vinculante - ou então não será. 
(Ou então não será. Olá, totalitarismos, como têm passado?)

O plágio suscitou uma onda de protestos que levou à demissão do secretário.

[ADENDA: informaram-me que a demissão "não resultou dos protestos dos opositores do Bolsonaro, mas da pressão de judeus que o apoiam, e em especial da manifestação de desagrado do embaixador de Israel no Brasil, como foi brevemente noticiado numa coluna política da Folha de S.Paulo (Monica Bergamo). Acho importante ressaltar isso para não nos iludirmos em relação à pressão das forças democráticas, que têm sido tímidas e, quando se manifestam, não costumam ter algum sucesso." ]

Ainda tentou defender-se dizendo que não sabia da coincidência, e uma pessoa até se sentiria tentada a acreditar, não fosse o modo como a sua comunicação foi encenada, e muito particularmente o acompanhamento musical com o famoso prelúdio de Lohengrin. Os distraídos dirão que é apenas uma música muito bonita, mas seria interessante explicar porque é que um político brasileiro escolhe música alemã para falar do futuro da Arte brasileira. Não haverá no Brasil nenhum compositor de música "heróica, nacional, imperativa e vinculante"? Ou será que a escolha do Lohengrin para acompanhar uma comunicação onde se plagia Goebbels foi tudo menos coincidência?

Um estudo da universidade Ludwig Maximilian, de Munique, sobre a História da Bayerische Staatsoper entre 1933 e 1963, tem um capítulo sobre o Lohengrin, onde se analisa com maior detalhe o modo como os nazis se serviram de Wagner para a sua propaganda. Mais uma vez, ao ler aqueles textos da época nazi, encontrei paralelos com certos discursos presentes no Brasil actual - nomeadamente a confiança em Bolsonaro como líder enviado por Deus.

Muito resumidamente, o estudo diz o seguinte:

"Para a terra alemã, a espada alemã" - Lohengrin como peça de propaganda

Por ordem pessoal de Hitler, a ópera Lohengrin destinava-se a ser o projecto central e de maior prestígio nas "Jornadas da Arte Alemã" realizadas em Munique em 1938. A escolha não surpreende: esta peça era uma das favoritas em eventos importantes dos nazis porque se centra na figura de Lohengrin, o líder enviado por Deus. Mais ainda: em Bayreuth foram trocadas frases do original, para passar uma mensagem ideológica mais favorável aos nazis, e no programa da apresentação em Munique havia uma página onde, juntamente com a fotografia de Hitler, se via esta passagem da ópera: "se bem reconheço o poder / que te trouxe a esta terra / foste-nos enviado por Deus."

Um outro elemento que justifica o interesse desta ópera para os nazis é a referência a Henrique I. Este rei, fundador da dinastia que deu  início ao I Reich, foi apropriado pelo culto nazi que estabelecia uma ponte entre esse primeiro império e o III Reich. Um exemplo: em 1936 Heinrich Himmler mandou desenterrar as ossadas de Henrique I, que morrera em 936, para serem transladadas com grande pompa e impacto mediático para Quedlinburg. A ópera de Wagner junta esse primeiro império histórico, na pessoa do rei Henrique I, e o futuro "Führer" dos povos alemães, directamente legitimado por aquele - o que permite facilmente interpretar a peça segundo uma lógica nazi.

Hitler esteve, como é óbvio, presente na première, no dia 9 de Julho de 1938. No final da ópera, o público "uniu-se num aplauso de agradecimento ao Führer, que do seu lugar por várias vezes ergueu o braço em saudação".

Os jornais festejaram entusiasticamente o evento, e também o apoio financeiro recebido de Hitler. "A interpretação [...] de que a Arte é uma irmã do heroísmo também explica a posição de Adolf Hitler em relação a Richard Wagner. Adolf Hitler abriu o caminho para que o valor de Wagner chegasse aos corações de todo o povo. A grande ajuda financeira que deu à Ópera de Munique para permitir a nova produção, baseada no compromisso de um generoso mecenato, fez também da causa de Bayreuth um assunto do Estado."

O director da Ópera de Munique, por sua vez, comentou:

"O Povo e a Arte são dois conceitos tão fortemente inter-relacionados que um não deveria ser pensado sem o outro. Toda a criação artística deve, de alguma forma, ter a sua origem no povo para poder perdurar, e cada povo, por sua vez, torna-se mais consciente do seu próprio valor quando o mede pelos valores das obras de arte que produziu. Esta relação estreita e ideal entre o Povo e a Arte é passível de um especial desenvolvimento no caso específico das terras alemãs. De acordo com o desejo e a vontade do Führer, todos os que trabalham no campo artístico devem lutar com seriedade e devoção fanática para cumprir a tarefa de levar o Povo a conquistar a Arte e a Arte a conquistar o Povo."

A encenação feita em 1938 contribuía também para a causa nazi: o cenário era mais abstracto que o de Bayreuth e tinha vários elementos simbólicos que sugeriam solidez e perenidade. No guarda-roupa notava-se a tendência germanizante, muito estilizada e omissa de referências históricas. Lohengrin, o radioso herói loiro, trazia um símbolo de águia sobre o peito. Por seu lado, um soldado em uniforme da época nazi e capacete de aço simbolizava a disponibilidade do povo para defender o país, que já está presente de forma inequívoca no libreto de Wagner: "para a terra alemã, a espada alemã /  assim fique demonstrado o poder do império".

No contexto da estreia deste Lohengrin, um jornal enquadrava estas frases de Wagner do seguinte modo: "Wagner coloca o surgimento de Henrique I, fundador do império, no mundo místico. Como símbolo de factos históricos, o rei relaciona-se com as preocupações centrais de Wagner, presentes no núcleo mais profundo desta tragédia: Henrique, 'o rei alemão', em cujo exército Lohengrin se ergue como 'protector no Brabante', [....] ergue-se acima do mundo aparentemente intransponível, como uma figura neutra, por assim dizer, em cuja boca Wagner põe as palavras que insinuam a subtileza da trama e criam a condição prévia para a profecia de Lohengrin: 'Nos dias mais longínquos / do Oriente, nunca as hordas porão os pés na Alemanha!' " A relação entre o povo e a figura de Lohengrin, o Führer supremo enviado por Deus, era interpretada pelo jornal deste modo: "O filho de Parsifal vem ao mundo para lhe oferecer a salvação. Mas essa salvação tem um preço: confiança inquestionável".

Essa mesma confiança inquestionável no Führer foi uma condição básica do Estado nazi - que se revelou fatal.

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