É preciso pontaria: um amigo festeja o seu 60• aniversário justamente no coração da terrível vaga de calor que este fim-de-semana se vai abater sobre a Alemanha. E lá vamos nós atravessar de comboio os 600 km entre os quase confortáveis 30 graus de Berlim e o inferno. Passei a manhã a brincar ao dilúvio na horta. Vou da água para o fogo, só me falta ouvir os anjos do fim-do-mundo. Encontro sinais: na nossa carruagem vem um polícia a ler um livro de Jürgen Todenhöfer, „A Grande Hipocrisia - como a política e os media traem os nossos valores“. Este Todenhöfer era um grande adepto da militarização no tempo da Guerra Fria, mas foi ao Iraque antes de este ser invadido pelo ocidente e fez lá amizades tão fundas que sente as dores desse povo, dos povos dessa região, como se fossem suas. O que o polícia da minha carruagem vai a ler é um apelo a que o ocidente deixe de chamar humanitárias às guerras que faz por interesses geo-estratégicos, ou económicos, ou políticos, e trate os outros países com o mesmo respeito com que gosta de ser tratado.
Um polícia humanista, portanto, e logo agora , quando se fala tanto da infiltração da extrema-direita nos corpos policiais.
Dou comigo a acrescentar uma frase ao Imagine de Lennon:
Imagine que „polícia humanista“ é um pleonasmo....
O meu companheiro de viagem parece ser um desses. E sinto-me mais perto do fim de um mundo feito de violência e cupidez.
28 junho 2019
27 junho 2019
Maria João Pires e Martha Argerich em Hamburgo, a distante fronteira da Europa, e outras ilusões
Hesitei muito se ia a Hamburgo extasiar-me com os diálogos musicais da Maria João Pires e da Martha Argerich, ou se poupava as três ou quatro horas de viagem de autocarro interurbano para cada lado, e ficava em casa de perna ao alto por causa dos malditos mosquitos que continuam a fazer estragos em mim. Mas eram a Maria João Pires e a Martha Argerich, e fui.
Na caixa da estação rodoviária disse "um bilhete para Hamburgo no próximo autocarro" e a senhora olhou para o computador e franziu o nariz. Só tenho às 11:15, disse ela. E no das 10:45?, perguntei eu. Tenho, mas é muito mais caro, disse ela. Vá no seguinte, espera apenas meia hora e poupa 20 euros.
(E ainda há quem se admire de eu andar na vida com cara alegre.)
O cais do meu autocarro devia ser o nº 10, porque mesmo ao lado era o 9 3/4: estava cheio de um pessoal colorido e bizarro que ia apanhar a ligação especial para o festival Vision. Já o cais para Hamburgo estava quase vazio e os passageiros pareciam gente normal.
(Pareciam gente normal só porque quem vê caras não vê corações - quem podia adivinhar que entre eles havia alguém como eu, tão atinadinha por fora e tão maluca por dentro, disposta a passar oito horas num autocarro para ir ver um concerto?)
Em Hamburgo tudo estava a correr muito bem, e até tive a surpresa de me arranjarem um bilhete para um lugar fantástico a poucas filas de distância das deusas, mas foi só até ao momento em que me chamaram a atenção para uma folha ao lado da caixa: por motivo de doença, Maria João Pires não podia participar neste concerto, e seria substituída por Gabriela Montero. É melhor não revelar agora tudo o que me passou pela cabeça e pelo coração, porque andam por aí psicólogos à solta e ainda me fazem a ficha sobre as tantas variações de sentimento de culpa por ter querido ser muito feliz . Adiante.
À parte ter sido um concerto improvisado à pressa para colmatar um buraco negro, foi um concerto com momentos excelentes. Martha Argerich - por quem sinto muita admiração, e agora ainda mais por me ter dado conta de que já a vi subir muitas vezes ao palco apesar de bastante doente - esteve igual a si própria: sublime.
Evgeni Bozhanov foi uma descoberta que quero acompanhar com cuidado.
Gabriela Montero tocou muito bem a quatro mãos com Martha Argerich a Fantasia de Schubert que conhecemos saída das mãos da Maria João Pires. Tarefa ingrata, tarefa ingrata. Mas no final do concerto conseguiu virar a página, sair do papel de substituta e conquistar um lugar só seu de pianista. Foi no último ponto do programa, onde se lia: "Improvisos por Gabriela Montero".
Entrou no palco, sentou-se ao piano, e pediu ao público que lhe entoasse o início de alguma melodia, para ela improvisar. Alguém cantou uma palermice qualquer, e a cara de incredulidade e gozo da pianista foi imperdível: inteiramente senhora da situação. Alguém sugeriu "Eine Kleine Nachtmusik" (oh, público de Hamburgo: a sério? É só o que vos ocorre?) e ela partiu à desfilada. A segunda melodia proposta foi o início da Quinta de Beethoven (a sério, oh, público de Hamburgo?) que ela improvisou ao estilo de Bach até ao momento em que começou a travar docemente a música, para fazer uma magnífica curva na direcção de um boogie woogie. O público estremeceu, e no final aplaudiu com entusiasmo. Mas o concerto não tinha terminado ainda. A pianista anunciou que o improviso que se seguiria era feito a pensar na Martha Argerich e no que sentia quando tocava piano com ela. E arrancou com uma peça de enorme delicadeza. No final, fez uma vénia rápida na direcção da sala, para logo a seguir olhar para a porta do palco. Escondida do público, Martha Argerich ouvira-a na ombreira dessa porta. E foi lá, resguardadas da nossa curiosidade, que deram um comovente abraço.
Depois do concerto voltei para casa no autocarro das onze e meia da noite. Um autocarro de dois andares que parecia a torre de Babel: pejado de gente a falar em línguas estranhas. Atravessava a Europa em direcção a um lugar de que nunca ouvi falar: Medyca Granica, uma remota fronteira da Polónia com a Ucrânia. A Ucrânia à distância de uma travessia nocturna em autocarro?! Nunca me ocorrera que a fronteira oriental da Europa é praticamente aqui ao lado.
Estava previsto chegar a Berlim às 2:50 da manhã. Inclinei o assento, e dormi. Acordei estremunhada quando as luzes do autocarro se acenderam. Saí, muito surpreendida com a claridade da noite. "Olha o aquecimento global", pensei eu, "depois de trazer os mosquitos de África agora traz também as noites brancas de São Petersburgo". Só depois olhei para o relógio: 4 da manhã.
Um pouco mais tarde, já na minha cama, tive dificuldade em adormecer. Uma dúvida me angustiava: será que saí do autocarro na cidade certa?
(Espero que os psis estejam todos de férias, e o Freud a dormir o soninho dos justos.)
Na caixa da estação rodoviária disse "um bilhete para Hamburgo no próximo autocarro" e a senhora olhou para o computador e franziu o nariz. Só tenho às 11:15, disse ela. E no das 10:45?, perguntei eu. Tenho, mas é muito mais caro, disse ela. Vá no seguinte, espera apenas meia hora e poupa 20 euros.
(E ainda há quem se admire de eu andar na vida com cara alegre.)
O cais do meu autocarro devia ser o nº 10, porque mesmo ao lado era o 9 3/4: estava cheio de um pessoal colorido e bizarro que ia apanhar a ligação especial para o festival Vision. Já o cais para Hamburgo estava quase vazio e os passageiros pareciam gente normal.
(Pareciam gente normal só porque quem vê caras não vê corações - quem podia adivinhar que entre eles havia alguém como eu, tão atinadinha por fora e tão maluca por dentro, disposta a passar oito horas num autocarro para ir ver um concerto?)
Em Hamburgo tudo estava a correr muito bem, e até tive a surpresa de me arranjarem um bilhete para um lugar fantástico a poucas filas de distância das deusas, mas foi só até ao momento em que me chamaram a atenção para uma folha ao lado da caixa: por motivo de doença, Maria João Pires não podia participar neste concerto, e seria substituída por Gabriela Montero. É melhor não revelar agora tudo o que me passou pela cabeça e pelo coração, porque andam por aí psicólogos à solta e ainda me fazem a ficha sobre as tantas variações de sentimento de culpa por ter querido ser muito feliz . Adiante.
À parte ter sido um concerto improvisado à pressa para colmatar um buraco negro, foi um concerto com momentos excelentes. Martha Argerich - por quem sinto muita admiração, e agora ainda mais por me ter dado conta de que já a vi subir muitas vezes ao palco apesar de bastante doente - esteve igual a si própria: sublime.
Evgeni Bozhanov foi uma descoberta que quero acompanhar com cuidado.
Gabriela Montero tocou muito bem a quatro mãos com Martha Argerich a Fantasia de Schubert que conhecemos saída das mãos da Maria João Pires. Tarefa ingrata, tarefa ingrata. Mas no final do concerto conseguiu virar a página, sair do papel de substituta e conquistar um lugar só seu de pianista. Foi no último ponto do programa, onde se lia: "Improvisos por Gabriela Montero".
Entrou no palco, sentou-se ao piano, e pediu ao público que lhe entoasse o início de alguma melodia, para ela improvisar. Alguém cantou uma palermice qualquer, e a cara de incredulidade e gozo da pianista foi imperdível: inteiramente senhora da situação. Alguém sugeriu "Eine Kleine Nachtmusik" (oh, público de Hamburgo: a sério? É só o que vos ocorre?) e ela partiu à desfilada. A segunda melodia proposta foi o início da Quinta de Beethoven (a sério, oh, público de Hamburgo?) que ela improvisou ao estilo de Bach até ao momento em que começou a travar docemente a música, para fazer uma magnífica curva na direcção de um boogie woogie. O público estremeceu, e no final aplaudiu com entusiasmo. Mas o concerto não tinha terminado ainda. A pianista anunciou que o improviso que se seguiria era feito a pensar na Martha Argerich e no que sentia quando tocava piano com ela. E arrancou com uma peça de enorme delicadeza. No final, fez uma vénia rápida na direcção da sala, para logo a seguir olhar para a porta do palco. Escondida do público, Martha Argerich ouvira-a na ombreira dessa porta. E foi lá, resguardadas da nossa curiosidade, que deram um comovente abraço.
Depois do concerto voltei para casa no autocarro das onze e meia da noite. Um autocarro de dois andares que parecia a torre de Babel: pejado de gente a falar em línguas estranhas. Atravessava a Europa em direcção a um lugar de que nunca ouvi falar: Medyca Granica, uma remota fronteira da Polónia com a Ucrânia. A Ucrânia à distância de uma travessia nocturna em autocarro?! Nunca me ocorrera que a fronteira oriental da Europa é praticamente aqui ao lado.
Estava previsto chegar a Berlim às 2:50 da manhã. Inclinei o assento, e dormi. Acordei estremunhada quando as luzes do autocarro se acenderam. Saí, muito surpreendida com a claridade da noite. "Olha o aquecimento global", pensei eu, "depois de trazer os mosquitos de África agora traz também as noites brancas de São Petersburgo". Só depois olhei para o relógio: 4 da manhã.
Um pouco mais tarde, já na minha cama, tive dificuldade em adormecer. Uma dúvida me angustiava: será que saí do autocarro na cidade certa?
(Espero que os psis estejam todos de férias, e o Freud a dormir o soninho dos justos.)
26 junho 2019
cinco milhões de judeus, quais cinco milhões de judeus?
No facebook alguém escreveu:
"Se guardares 27 segundos de silêncio por cada vítima do holocausto, só voltas a falar daqui a 5 anos.
Lembrei-me, agora que as sombras negras voltam a pairar."
Pouco depois alguém comentava:
"Se guardarmos 27 segundos de silêncio por cada vítima de genocídio no século XX, não sei daqui a quantos milhares de anos alguém falaria. Para cada vítima do holocausto oficial, pelo menos 10 outras morreram. Claro que a maior parte não faziam parte do povo escolhido, por isso, talvez não importem tanto... Mas há uma indústria á volta do holocausto.."
E acrescentava ainda: "Judeus terão sido 6 milhões, mas na II guerra terão sido 75 milhões, com a URSS no topo com 24 milhões."
O que me lembra uma anedota que se contava em surdina no tempo do III Reich:
Vejamos: todas as mortes causadas por violência ou estupidez política são trágicas. Uma vida é uma vida. Mas misturar no mesmo saco a tragédia da morte de tantos soldados russos e a perseguição aos judeus que o regime nazi levou a cabo é não saber o que foi o Holocausto. Comparar o Holocausto aos mortos à fome por causa do Grande Salto em Frente ou do Holodomor, ou ao que se passa em Gaza, é não saber o que foi o Holocausto. Numa síntese muito breve, a diferença é esta: no primeiro caso, as vítimas são aleatórias e resultam de um cálculo criminosamente cínico ou criminosamente incompetente dos políticos ou regimes; no segundo caso, temos um regime que marca os cidadãos com uma estrela amarela e lhes altera o nome nos documentos de identificação para mais facilmente os apanhar; um povo aprisionado dentro do seu país, à mercê de um bando de poderosos loucos racistas, sem qualquer hipótese de conseguir escapar; um regime que persegue um povo inteiro e o quer aniquilar até ao seu último membro, fazendo listas de nomes das pessoas e da ordem pela qual as quer matar.
É óbvio que os soldados russos mortos na guerra, o Holodomor, o Grande Salto em Frente, o terrível gueto de Gaza e todas as outras tragédias que atingem a Humanidade no seu coração não são "dois suecos". O que me interessa na anedota é a frase final: "a perseguição aos judeus vai passar despercebida". É que existe uma estratégia deliberada para apagar a memória do Holocausto, e aquele comentário no facebook é dela um bom exemplo: insinua que o Holocausto é uma "narrativa" para justificar os crimes hoje cometidos contra os palestinianos, e tenta diluir as vítimas do Holocausto no conjunto das vítimas da II GM (com o curioso detalhe de nesse número incluir até os soldados e os SS alemães).
"Se guardares 27 segundos de silêncio por cada vítima do holocausto, só voltas a falar daqui a 5 anos.
Lembrei-me, agora que as sombras negras voltam a pairar."
Pouco depois alguém comentava:
"Se guardarmos 27 segundos de silêncio por cada vítima de genocídio no século XX, não sei daqui a quantos milhares de anos alguém falaria. Para cada vítima do holocausto oficial, pelo menos 10 outras morreram. Claro que a maior parte não faziam parte do povo escolhido, por isso, talvez não importem tanto... Mas há uma indústria á volta do holocausto.."
E acrescentava ainda: "Judeus terão sido 6 milhões, mas na II guerra terão sido 75 milhões, com a URSS no topo com 24 milhões."
O que me lembra uma anedota que se contava em surdina no tempo do III Reich:
Hitler ressuscita, e os jornalistas vão falar com ele.
Hitler gaba-se: matei cinco milhões de judeus e dois suecos!
Os jornalistas, perplexos: "dois suecos"!?
Hitler: Eu bem dizia que os cinco milhões de judeus iam passar despercebidos.
Vejamos: todas as mortes causadas por violência ou estupidez política são trágicas. Uma vida é uma vida. Mas misturar no mesmo saco a tragédia da morte de tantos soldados russos e a perseguição aos judeus que o regime nazi levou a cabo é não saber o que foi o Holocausto. Comparar o Holocausto aos mortos à fome por causa do Grande Salto em Frente ou do Holodomor, ou ao que se passa em Gaza, é não saber o que foi o Holocausto. Numa síntese muito breve, a diferença é esta: no primeiro caso, as vítimas são aleatórias e resultam de um cálculo criminosamente cínico ou criminosamente incompetente dos políticos ou regimes; no segundo caso, temos um regime que marca os cidadãos com uma estrela amarela e lhes altera o nome nos documentos de identificação para mais facilmente os apanhar; um povo aprisionado dentro do seu país, à mercê de um bando de poderosos loucos racistas, sem qualquer hipótese de conseguir escapar; um regime que persegue um povo inteiro e o quer aniquilar até ao seu último membro, fazendo listas de nomes das pessoas e da ordem pela qual as quer matar.
É óbvio que os soldados russos mortos na guerra, o Holodomor, o Grande Salto em Frente, o terrível gueto de Gaza e todas as outras tragédias que atingem a Humanidade no seu coração não são "dois suecos". O que me interessa na anedota é a frase final: "a perseguição aos judeus vai passar despercebida". É que existe uma estratégia deliberada para apagar a memória do Holocausto, e aquele comentário no facebook é dela um bom exemplo: insinua que o Holocausto é uma "narrativa" para justificar os crimes hoje cometidos contra os palestinianos, e tenta diluir as vítimas do Holocausto no conjunto das vítimas da II GM (com o curioso detalhe de nesse número incluir até os soldados e os SS alemães).
O Hitler nem precisa de ressuscitar, tem muito quem lhe faça o trabalhinho sujo.
25 junho 2019
Caetano & Velosos
A minha primeira reacção foi de recusa. Pensei coisas más, olha-me este pai aqui a dar uma mãozinha aos filhos para eles aparecerem nos palcos internacionais. Pensei que havia demasiadas músicas tipo Lado B dos discos. Tive dificuldade em atinar com a voz aguda do Zeca. Mas conformei-me - afinal de contas o Caetano também estava a cantar, e só pelos momentos em que dançou sentado já teria valido a pena. Ao fim de algumas canções saudou o público, disse que este concerto com os filhos "celebrava a reprodução". Gostei da expressão: celebrar a reprodução - a passagem de testemunho, a transmissão da arte.
Foi apresentando as canções: a que fez para a mãe do Moreno, a que fez para a mãe dos outros dois, a que o Moreno lhe ofereceu um dia em que iam de carro, a que o Tom compôs com um amigo, a que o Zeca compôs, a que tem uma letra escrita por Moreno aos nove anos, a que Caetano fez para cantar na missa do 90º aniversário da mãe...
E finalmente entendi: este concerto do Caetano Veloso não é uma maneira de mostrar os três filhos em palcos internacionais - é o privilégio de nos deixar entrar na casa e na vida deles, ver como fazem música juntos, como se articulam bem entre os quatro.
Em suma: não é bem um concerto de Caetano Veloso, mas é muito mais que mais um concerto de Caetano Veloso. Não percam.
(Também foi bonito estar numa sala cheia de um público brasileiro, ver os pobres alemães de vigia a tentar impedir os brasileiros de dançar em certas partes da sala, ouvir o coro "Lula livre!" e a voz doce do Moreno a responder-lhes, ouvir estas pessoas a cantar em coro com Caetano e os filhos.)
(Ah, e outra informação: o crime compensa. Se correrem para perto do palco, no fim o Caetano atira beijinhos.)
"parlamento europeu" (3/3 - lost in translation)
Ooops! Descobri um post que estava para ser publicado há várias semanas, na altura em que na Enciclopédia Ilustrada se falou do Parlamento Europeu.
A publicação vai com atraso, o tema continua actual.
Já aqui se falou da autêntica torre de Babel que é o #Parlamento_Europeu. Quando morava perto de Estrasburgo conheci alguns dos intérpretes que faziam a tradução simultânea nos plenários. É um trabalho de enlouquecer!
Mas também deve ser de enlouquecer tentar entender e acompanhar a tradução que se ouve: frases aos tropeções, ideias imprecisas, alternância entre silêncios e frases muitas vezes inacabadas.
Um dos maiores problemas para os intérpretes: os deputados falam com o ritmo, o sotaque e o estilo que lhes apetece. Imaginem estrangeiros a ter de traduzir um português que diz frases tipo "bai no Batalha", ou faz trocadilhos, ou usa termos técnicos muito específicos...
Pior ainda: como é impossível arranjar pessoal em número suficiente para todos os pares de línguas menos conhecidas, muitos traduzem a partir da tradução para inglês. Tradução simultânea de tradução simultânea: mais valia ficarem todos em casa...
Há tempos, por causa de um post em que a Marisa Matias criticava duramente um discurso da Merkel no Parlamento (que foi amplamente elogiada na Alemanha, por ter feito um discurso muito mais europeísta que alemão), fui verificar o original e a tradução simultânea. Estavam nos antípodas um do outro.
De modo que pergunto: sendo certo que é praticamente impossível fazer uma boa (sublinho: boa) tradução simultânea do que os deputados dizem no Parlamento, de todas as línguas para todas as línguas, qual é o valor real do debate que é lá feito? Não seria mais razoável passar a fazer os debates em inglês? E depois transcrevê-los e traduzi-los decentemente, para as pessoas de cada país poderem saber o que foi discutido no Parlamento?
É que o modelo actual faz com que estes debates pareçam (pelo menos a mim) uma troca de ideias entre semigagos e semisurdos.
A publicação vai com atraso, o tema continua actual.
Já aqui se falou da autêntica torre de Babel que é o #Parlamento_Europeu. Quando morava perto de Estrasburgo conheci alguns dos intérpretes que faziam a tradução simultânea nos plenários. É um trabalho de enlouquecer!
Mas também deve ser de enlouquecer tentar entender e acompanhar a tradução que se ouve: frases aos tropeções, ideias imprecisas, alternância entre silêncios e frases muitas vezes inacabadas.
Um dos maiores problemas para os intérpretes: os deputados falam com o ritmo, o sotaque e o estilo que lhes apetece. Imaginem estrangeiros a ter de traduzir um português que diz frases tipo "bai no Batalha", ou faz trocadilhos, ou usa termos técnicos muito específicos...
Pior ainda: como é impossível arranjar pessoal em número suficiente para todos os pares de línguas menos conhecidas, muitos traduzem a partir da tradução para inglês. Tradução simultânea de tradução simultânea: mais valia ficarem todos em casa...
Há tempos, por causa de um post em que a Marisa Matias criticava duramente um discurso da Merkel no Parlamento (que foi amplamente elogiada na Alemanha, por ter feito um discurso muito mais europeísta que alemão), fui verificar o original e a tradução simultânea. Estavam nos antípodas um do outro.
De modo que pergunto: sendo certo que é praticamente impossível fazer uma boa (sublinho: boa) tradução simultânea do que os deputados dizem no Parlamento, de todas as línguas para todas as línguas, qual é o valor real do debate que é lá feito? Não seria mais razoável passar a fazer os debates em inglês? E depois transcrevê-los e traduzi-los decentemente, para as pessoas de cada país poderem saber o que foi discutido no Parlamento?
É que o modelo actual faz com que estes debates pareçam (pelo menos a mim) uma troca de ideias entre semigagos e semisurdos.
24 junho 2019
o algoritmo é um dorminhoco...
Ultimamente o facebook tem andado a insistir comigo para criar um programa de mentoria no grupo Enciclopédia Ilustrada. Diz-me ele assim todas as manhãs:
Aumenta a interação no grupo com um programa de mentoria
Aumenta a interação no grupo com um programa de mentoria
Helena,
adiciona uma mentoria a Enciclopédia Ilustrada e ajuda os membros do
grupo a partilharem conhecimentos e a apoiarem-se mutuamente.
A ideia central do grupo "Enciclopédia Ilustrada" é justamente a partilha de conhecimentos. Entretanto tem-se enriquecido com outros tipos de partilha e com a amizade que liga cada vez mais alguns dos seus membros. Se há grupo no facebook com enorme - e respeitosa, e amigável, e divertida - interacção entre os seus participantes, é este.
Enquanto o algoritmo fizer estas figuras de dorminhoco podemos ficar descansados. Se ele acertasse é que era mais caso para nos preocuparmos...
(Caso alguém fique com curiosidade e queira participar no grupo: tem lá umas perguntinhas à entrada que é para responder com seriedade. Alternativamente, a pessoa interessada pode contactar algum membro do grupo que seja seu conhecido para ter apoio ao dar os primeiros passos.)
(Isto já parece angariação de novos membros, mas garanto que quando comecei a escrever o post não pensava nisso...)
(Bem, já que - alegadamente - estou com a mão na massa, informo que o meu coro berlinense precisa desesperadamente de reforço nos baixos e nos tenores. Se souberem de alguém que cante nesses naipes e esteja à procura de um coro fantástico em Berlim, ó fachavor. O nosso próximo projecto é para apresentar em Novembro: o Requiem de Mozart.)
A ideia central do grupo "Enciclopédia Ilustrada" é justamente a partilha de conhecimentos. Entretanto tem-se enriquecido com outros tipos de partilha e com a amizade que liga cada vez mais alguns dos seus membros. Se há grupo no facebook com enorme - e respeitosa, e amigável, e divertida - interacção entre os seus participantes, é este.
Enquanto o algoritmo fizer estas figuras de dorminhoco podemos ficar descansados. Se ele acertasse é que era mais caso para nos preocuparmos...
(Caso alguém fique com curiosidade e queira participar no grupo: tem lá umas perguntinhas à entrada que é para responder com seriedade. Alternativamente, a pessoa interessada pode contactar algum membro do grupo que seja seu conhecido para ter apoio ao dar os primeiros passos.)
(Isto já parece angariação de novos membros, mas garanto que quando comecei a escrever o post não pensava nisso...)
(Bem, já que - alegadamente - estou com a mão na massa, informo que o meu coro berlinense precisa desesperadamente de reforço nos baixos e nos tenores. Se souberem de alguém que cante nesses naipes e esteja à procura de um coro fantástico em Berlim, ó fachavor. O nosso próximo projecto é para apresentar em Novembro: o Requiem de Mozart.)
o que tu queres sei eu...
Aconteceu no facebook: num post, alguém comentou a opinião de outros (um homem e uma mulher) usando a mais barata das falácias - a da inveja - e houve quem, em vez de gentilmente fazer de conta que não tinha visto, se tenha desatado em ataques ad hominem, digamos assim, à mulher. Uma discussão de altíssimo nível: discutiam-se com toda a seriedade critérios para avaliar a competência científica daquela pessoa. Muitos comentários depois, um dos participantes no debate lembrou-se que também havia um homem, e começou nova série de ataques, agora contra este. Esta segunda vaga decorreu já sem seriedade académica. Quase ia acrescentando "infelizmente", mas é melhor não exagerar no sarcasmo.
Vivo no estrangeiro, e às vezes escapam-me certas evoluções que acontecem em Portugal. Por favor, informem-me: desde quando é que o argumento "o que os move é a inveja" é para ser levado a sério?
humano oceano
Gostei tanto deste texto sobre o S. João do Porto que o Rui Zink publicou no facebook, que o trago para aqui:
HUMANO OCEANO
Não sei se o São João vai estar frio e chuva, mas a primeira grande festa popular que tive foi no Porto, num São João de (salvo erro) 1979. Nunca tinha visto uma festa assim, daquelas que arrastam gente. Os Santos em Lisboa eram giros, e era um mar de gente nas Alfamas e Mourarias, mas no Porto era outra loiça: uma cidade INTEIRA tornada oceano humano.
A marretada ajudava. A ideia de bater na cabeça de um estranho com um alho-porro ou um martelo de plástico não parecerá a melhor forma de começar uma comunicação, ou mesmo uma amizade ou um namoro, mas estais muito enganados. É uma maravilha: comunhão pura e logo com uma marretada na cabeça. É, para citar os bem-amados GNR, a pronúncia do norte.
Foi a noite mais feliz da minha vida, em comunhão com gentes – depois, obviamente, do 25 de Abril e do primeiro 1º de Maio.
E, ao amanhecer, eu e minha namorada fomos dormitar o que ainda havia para dormitar à (acredite quem quiser) Pensão Portugal.
HUMANO OCEANO
Não sei se o São João vai estar frio e chuva, mas a primeira grande festa popular que tive foi no Porto, num São João de (salvo erro) 1979. Nunca tinha visto uma festa assim, daquelas que arrastam gente. Os Santos em Lisboa eram giros, e era um mar de gente nas Alfamas e Mourarias, mas no Porto era outra loiça: uma cidade INTEIRA tornada oceano humano.
A marretada ajudava. A ideia de bater na cabeça de um estranho com um alho-porro ou um martelo de plástico não parecerá a melhor forma de começar uma comunicação, ou mesmo uma amizade ou um namoro, mas estais muito enganados. É uma maravilha: comunhão pura e logo com uma marretada na cabeça. É, para citar os bem-amados GNR, a pronúncia do norte.
Foi a noite mais feliz da minha vida, em comunhão com gentes – depois, obviamente, do 25 de Abril e do primeiro 1º de Maio.
E, ao amanhecer, eu e minha namorada fomos dormitar o que ainda havia para dormitar à (acredite quem quiser) Pensão Portugal.
Nunca me senti tão português e tão feliz de ser português como no
Porto. Em 1979. Votos de um grande São João aos meus amigos da Invicta.
23 junho 2019
Nora
Esta miúda fascina-me. A sua musicalidade, a sua alegria, a sua infantil naturalidade.
Chama-se Nora, tem oito anos. É bretã, e faz música com o irmão, Isaac, e o pai, que veio da Coreia do Sul. Toca vários instrumentos com segurança e gosto. E tem aquela voz rica, suave e segura.
Na página "Isaac et Nora" há muitos mais momentos encantadores. Como este, em que a voz doce de Nora acalma o barulho da rua.
E este, no qual Nora canta e brinca ao mesmo tempo:
não somos racistas, e até nos damos bem com as raças inferiores, mas há limites...
Trago do Pedro Schacht este excerto de um artigo no Jornal da Mocidade Portuguesa, 1941.
(Crédito da imagem de Virgílio Marques, do grupo Fascismo Nunca Mais)
Do dia em que os "brandos costumes" se ergueram para gritar "chega!" resulta este documento extraordinariamente claro sobre uma fase ainda recente da nossa História. Isto éramos nós há oitenta anos. E quando os críticos do politicamente correcto se lamentam, o que estão a pedir é o direito de poder voltar a falar assim.
22 junho 2019
ainda as eleições europeias - um texto de Wladimir Kaminer
No período que antecedeu as eleições europeias, jogámos em família o Wahl-O-Mat, e cada um de nós teve um resultado diferente. A minha filha tem tendência para encontrar soluções simples para problemas complexos. Cem apartamentos estão vazios, cem sem-abrigo dormem ao relento. O que fazer? Qualquer aluno do terceiro ano consegue resolver o problema. Naturalmente: expropriar. Os mais novos gostam dos Linke, e também a minha filha se apaixonou por esse partido. O irmão dela afirma que a política é a arte da negociação e do compromisso, todos têm direito a uma vida digna. Para isso, antes de mais temos de travar as alterações climáticas. Faz todos os possíveis para reduzir a sua pegada ecológica, passa muito tempo a ver filmes e deixou a escola de condução - é o seu contributo pessoal para a redução de CO2. Temos de nos tornar mais naturais, diz o meu filho, mas tem cinco sacos diferentes de lixo em casa. A minha mãe temia o Wahl-O-Mat. Porque, independentemente de quão liberal e democrática ela se mostrasse nas respostas, o resultado era sempre um partido de direita. Isto acontece muito aos russos. O carácter forçado do voluntariado no socialismo russo fez de todos nós cépticos desconfiados e cínicos. Do ponto de vista russo, a verdadeira Democracia só pode funcionar se o direito de voto for restringido. Os idiotas não devem poder votar. Os reformados também é melhor não, tal como os jovens, que são uns cabeças de vento. No fim, sobra apenas o verdadeiro democrata, e ele escolhe-se a si próprio. Mas a minha mãe gosta da Frau Merkel, estão a envelhecer juntas, já se habituou a ela.
E o que penso das eleições europeias? É claro que a Europa será objecto de reformas, mas não serão feitas pelos cépticos de direita nem pelos bailarinos lunáticos de esquerda. A UE é uma criança que aprende a andar. Vai dar tombos, levantar-se e continuar a andar. Na fase em que a criança aprende a dar os primeiros passos, a direcção em que avança não é importante.
Wladimir Kaminer, aqui.
E o que penso das eleições europeias? É claro que a Europa será objecto de reformas, mas não serão feitas pelos cépticos de direita nem pelos bailarinos lunáticos de esquerda. A UE é uma criança que aprende a andar. Vai dar tombos, levantar-se e continuar a andar. Na fase em que a criança aprende a dar os primeiros passos, a direcção em que avança não é importante.
Wladimir Kaminer, aqui.
morrer do mal e da cura
No espaço de uma semana já fui mordida duas vezes por uma espécie tão agressiva de mosquito que da primeira vez fiquei com um queixo que até parecia a Rainha Vitória, e da segunda vez já estou há três dias de perna estendida, a ver se a inflamação do tornozelo passa sem ser preciso recorrer a antibióticos.
Desconfiei logo que estes mosquitos fatais sejam consequência do aquecimento global, mas o meu médico caseiro disse que também pode ser o meu organismo a envelhecer. Ora, balelas! Claro que só pode ser o aquecimento global, e o meu médico que tenha cuidado, que se mantém a recusa em aceitar os resultados dos trabalhos da esmagadora maioria dos cientistas que estudam o clima ainda acaba a dormir no sofá.
[Eu aqui a interrogar-me quantas reticências e piscadelas de olho devo incluir neste post para perceberem que estou a brincar]
Um amigo que deve ser adepto das medicinas alternativas sugeriu-me que comesse chocolate, porque tem efeito anti-histamínico. Acredito e não me admiro, de modo que hoje ainda antes das onze da manhã já tinha dado forte e feio no medicamento. Quase meia pasta de chocolate da Ritter (das grandes, de 250 g) só para o mosquito saber quem manda. O problema é que tenho a mania de ir à cozinha comer um quadradinho de cada vez, e este permanente subir e descer escadas não é bom para o pé que exige descanso. Nem para a gaveta onde guardo o chocolate - que esta manhã se deve ter sentido num daqueles testes da IKEA, abre e fecha, abre e fecha, abre e fecha.
Não sei se o meu pé melhora ou piora com este anti-histamínico, mas de caminho inventei uma dieta fantástica: quem quiser passar o dia inteiro sem comer e sem ter fome, só tem de aviar uma boa pasta de chocolate pela manhã. Que tal, heinhe?
[Eu aqui a repetir a interrogação anterior]
Desconfiei logo que estes mosquitos fatais sejam consequência do aquecimento global, mas o meu médico caseiro disse que também pode ser o meu organismo a envelhecer. Ora, balelas! Claro que só pode ser o aquecimento global, e o meu médico que tenha cuidado, que se mantém a recusa em aceitar os resultados dos trabalhos da esmagadora maioria dos cientistas que estudam o clima ainda acaba a dormir no sofá.
[Eu aqui a interrogar-me quantas reticências e piscadelas de olho devo incluir neste post para perceberem que estou a brincar]
Um amigo que deve ser adepto das medicinas alternativas sugeriu-me que comesse chocolate, porque tem efeito anti-histamínico. Acredito e não me admiro, de modo que hoje ainda antes das onze da manhã já tinha dado forte e feio no medicamento. Quase meia pasta de chocolate da Ritter (das grandes, de 250 g) só para o mosquito saber quem manda. O problema é que tenho a mania de ir à cozinha comer um quadradinho de cada vez, e este permanente subir e descer escadas não é bom para o pé que exige descanso. Nem para a gaveta onde guardo o chocolate - que esta manhã se deve ter sentido num daqueles testes da IKEA, abre e fecha, abre e fecha, abre e fecha.
Não sei se o meu pé melhora ou piora com este anti-histamínico, mas de caminho inventei uma dieta fantástica: quem quiser passar o dia inteiro sem comer e sem ter fome, só tem de aviar uma boa pasta de chocolate pela manhã. Que tal, heinhe?
[Eu aqui a repetir a interrogação anterior]
o futuro aqui ao lado
Ontem tivemos mais uma reunião de vizinhos para preparar a nossa festa da rua. De facto, não há nada para preparar, porque já reduzimos a festa ao mínimo de organização possível: nós marcamos a data e pomos música, mesas, bancos e grandes baldes com água gelada na rua, os vizinhos trazem comes e bebes, e os seus próprios copos, pratos e talheres. Mas dá-nos jeito ter esse pretexto para nos metermos na casa ou no jardim uns dos outros a comer e a beber e a conversar e a rir. De modo que ontem tivemos a nossa terceira reunião, e muitas horas depois de ter começado ainda ninguém tinha vontade de ir para casa.
A meio da conversa com uma das vizinhas descobri que ela está a construir uma espécie de cidade dos Jetsons: um projecto piloto para o que pode ser a cidade do futuro. Sem carros (só com um táxi eléctrico autónomo para carregar volumes pesados), com passagens aéreas rápidas entre os edifícios, pessoas a irem de um lado para outro usando drones, estações de metro digitalizadas, edifícios inteligentes e energeticamente autónomos, etc.
Eu - que venho do tempo dos Flinstones - ouvia as suas descrições, deslumbrada.
Depois do fiasco do aeroporto, e do bairro de Prenzlauer Berg ter escorraçado a Google, Berlim conta com este "Siemens 2.0" para recuperar uma imagem de cidade moderna e dinâmica. A Siemens vai investir 600 milhões de euros, e a restante parte dos investimentos serão assegurados por empresas interessadas em usar esta plataforma como montra para os seus produtos inovadores.
O futuro aqui ao lado - e o que mais me fascina é ver que escolheram uma mulher para ficar à frente deste enorme projecto tecnológico.
Também se falou muito do presente: o vizinho que trabalha na área da aviação explicou os processos que levaram à queda dos 737 MAX e criticou as condições actuais de trabalho e a irresponsabilidade dos chefes das empresas daquela área, que tomam decisões sem prever as consequências que isso tem na segurança das pessoas. Uma pessoa ouve e decide passar a voar muito menos - e não apenas por causa da Greta Thunberg. Ah, a Greta Thunberg - aquela miúda de 16 anos que conseguiu fazer ouvir a sua voz no mundo inteiro e desinstalar os nossos hábitos de mobilidade. Todos a admiramos imenso, e não apenas a vizinha que já há muito tempo escolhe fazer as suas férias de comboio, bicicleta e tenda de campismo, para ajudar a deixar um bocadinho de planeta intacto para os netos. Esta vizinha insistiu comigo para usar o comboio em vez do avião nas distâncias inferiores a 1000 km, mesmo que o comboio custe o dobro. É complicado dizer que não a quem já dá o exemplo. Por sorte, outro vizinho começou a criticar a política de acabar com os comboios nocturnos, e deixaram em paz os meus preparativos para a viagem de família que faremos este ano a Amesterdão. Também gosto muito da ideia de viajar de comboio durante a noite, embora tenha algum problema com aquele exagero de lençóis que é preciso lavar depois de terem sido usados apenas uma noite. A propósito de lavar lençóis: disseram que as máquinas de lavar a roupa e a louça são responsáveis por uma parte substancial do consumo de electricidade nas nossas casas. Se estivessem ligadas a um sistema inteligente de gestão de energias renováveis, podiam ser activadas durante a noite, quando houvesse produção excessiva de energia eólica. Do mesmo modo, os carros eléctricos também podiam ser carregados durante a noite com energia que de outro modo se perde. Embora agora se perca menos energia: desde que entrou em funcionamento uma conduta de energia rápida e eficiente entre a Alemanha e a Noruega, o excesso de energia produzida na Alemanha é enviado para a Noruega, e aí usada para recuperar a água usada nas centrais hidroeléctricas, para usar de novo quando for preciso. Esqueci-me de lhes dizer que isso já se faz em Portugal praticamente desde que eu nasci, pelo que vou ter de lhes propor mais um encontro para preparar a nossa festa de rua...
21 junho 2019
mais um episódio da série "a História em cada esquina"
Ontem fui à Komische Oper ver Petruschka de Strawinsky e L'enfant et les Sortilèges de Ravel, com encenação de Suzanne Andrade e Esme Appleton e animação de Paul Barritt. Antes de ir ao tema deste post, aviso já: isto seria um bom motivo para decidir a data de uma visita a Berlim (infelizmente não sei quando voltará a cartaz).
Quando esperava na fila para a bilheteira, onde queria comprar o bilhete mais barato (que esta deve ser a quinta ópera das últimas quatro semanas, e uma conta bancária não é de ferro), apareceu um senhor a vender o bilhete da esposa, que estava doente. Daí a nada estava sentada ao lado dele a meio da plateia, e ele a reclamar do sistema de pequenos écrans no encosto da cadeira da frente, para lermos o texto da ópera. Que na Deutsche Oper é muito melhor, porque projectam as frases para o espaço por cima do palco, não temos que andar com os olhos em pingue-pongue entre o palco e a cadeira da frente, dizia ele. E acrescentou: com Petruschka não tenho problema, porque falo fluentemente russo, mas o francês do Ravel é que é um sarilho.
- Russo?, perguntei eu. Cresceu na RDA?
Sim, crescera na RDA, e estudou tão bem russo que até o mandaram passar um ano em Moscovo a aprofundar os conhecimentos. Francês é que nem por isso, ao contrário de mim, que cresci em Portugal, e...
- Em Portugal?, interrompeu-me ele, muito empolgado. O meu cunhado viveu em Portugal! Esteve lá a construir o monumental órgão da Sé do Porto.
Alguma coisa não batia certo, porque lembro-me bem de o famoso órgão da Sé do Porto ter sido feito em 1985 por um organeiro bávaro. O meu vizinho de lugar explicou: o cunhado dele, irmão da sua mulher, fugiu da RDA dois dias antes de o muro ter sido construído. Deve ter pressentido o que se estava a preparar, e fez como todos faziam naquele tempo: entrou com a mulher no S-Bahn como quem vai ali tomar um café, com pouquíssimo dinheiro e sem qualquer objecto pessoal para não levantar suspeitas, de comboio atravessaram a fronteira berlinense, e de Berlim Ocidental voaram para o sul. Recomeçou a vida como afinador, e uma década mais tarde estava a comprar uma empresa de construção de órgãos em Regensburg. Nos 28 anos da existência do muro, os irmãos só se viram uma vez, quando ela conseguiu autorização para ir a uma festa importante da empresa de Regensburg. "Mas não me deixaram ir com ela, claro", acrescentou, "não fosse dar-se o caso de nós ficarmos também por lá."
Lembro-me do entusiasmo com que o Porto acolheu este organeiro bávaro em 1985. Olhávamos para ele como o portador de uma enorme experiência e tradição, uma eterna solidez alemã. Nunca me passou pela cabeça que podia ser uma pessoa com a vida atravessada por um terrível muro, um antes e um depois, as tantas saudades de tudo: a família e a terra do lado de lá, o dialecto berlinense, a culinária, os hábitos. Quanto sofrimento não terá passado pelos tubos daquele órgão do Porto!
Em 1995 Georg Jann passou a empresa de Regensburg para o seu segundo filho, e instalou-se em Portugal. Dez anos mais tarde entregou a empresa portuguesa ao seu filho mais velho, e foi pra o Brasil, onde construiu alguns órgãos (entre os quais o do Mosteiro de S. Bento em Vinhedo, quando já tinha 77 anos). Morreu em Fevereiro passado.
genética ou valores - um post muito sério cheio de anedotas
Há dias houve (mais uma) discussão acesa na minha bolha do facebook: alguém falou do assassinato de um político por um terrorista da extrema-direita, e do perigo crescente que estes bandos organizados representam para a Democracia alemã, e logo outra pessoa veio dizer que "a genética é lixada". Como se os alemães tivessem um cromossoma nazi...
Ouço isso muitas vezes em Portugal. Na época da troika, então, era todos os dias. Convenhamos que tem a sua graça alguém recorrer à ideologia nazi para insinuar um problema de nazismo congénito nos alemães, e não perceber que está a fazer figura de nazi. Não tenhamos ilusões: ter nascido em Portugal e ser descendente de alguns árabes e judeus não nos dá "antídotos genéticos" contra os venenos dessa ideologia. Ela é apelativa para todos - a despeito do hábito preguiçoso de a associar aos alemães - porque toca o pior que há em cada um de nós.
Em quase toda a Europa temos assistido a uma viragem à extrema-direita e até à passagem dos eleitores da esquerda para a extrema-direita (por exemplo: os eleitores franceses de classes sociais com menor nível de rendimento - inclusivamente os imigrantes portugueses - que votam Le Pen; os habitantes de algumas regiões da antiga RDA que passaram dos Linke para a AfD, ou a deslocação dos votos no PCP para partidos nacionalistas em certas freguesias do Alentejo nas últimas eleições europeias). Já no tempo do III Reich se contava uma anedota sobre esse fenómeno:
Ouço isso muitas vezes em Portugal. Na época da troika, então, era todos os dias. Convenhamos que tem a sua graça alguém recorrer à ideologia nazi para insinuar um problema de nazismo congénito nos alemães, e não perceber que está a fazer figura de nazi. Não tenhamos ilusões: ter nascido em Portugal e ser descendente de alguns árabes e judeus não nos dá "antídotos genéticos" contra os venenos dessa ideologia. Ela é apelativa para todos - a despeito do hábito preguiçoso de a associar aos alemães - porque toca o pior que há em cada um de nós.
Em quase toda a Europa temos assistido a uma viragem à extrema-direita e até à passagem dos eleitores da esquerda para a extrema-direita (por exemplo: os eleitores franceses de classes sociais com menor nível de rendimento - inclusivamente os imigrantes portugueses - que votam Le Pen; os habitantes de algumas regiões da antiga RDA que passaram dos Linke para a AfD, ou a deslocação dos votos no PCP para partidos nacionalistas em certas freguesias do Alentejo nas últimas eleições europeias). Já no tempo do III Reich se contava uma anedota sobre esse fenómeno:
- O que é um ariano?
- ...
- É o traseiro de um proletário.
[em alemão: Proletarier/Arier.]
Não, não é uma questão de genética. É uma questão de escolha consciente e de valores. Mesmo durante o III Reich, ser "ariano" dependia mais da vontade do indivíduo que dos seus genes, como mostram estas duas anedotas muito contadas na época:
* Ariano: loiro como Hitler, magro como Göring e alto como Goebbels.
* Göring e Goebbels estão a passear na floresta, e cruzam-se com o guarda-florestal, que os cumprimenta respeitosamente:
- Bom dia!
Göring fica irritado, e no dia seguinte manda chamá-lo para saber porque é que os cumprimentou com "Bom dia" em vez de "Heil Hitler".
Resposta do guarda:
- Pareceu-me que o senhor queria vender madeira àquele judeu baixinho, e eu não lhe queria estragar o negócio.
(Por falar em "Bom dia", outra anedota que se contava nessa altura:
Por inveja, Goebbels propõe a Hitler que se deixe de fazer a saudação "Heil Hitler", e se retome o tradicional "Bom dia".
Hitler fica furioso, e responde-lhe aos gritos:
- Enquanto eu estiver à frente do Reich, não há um único "bom dia" seja para quem for!)Na
Inglaterra dos anos 30 do século passado dizia-se que a população alemã
estava dividida em dois gupos: non-arians and barb-arians. Mas, lá está, esta não é uma distinção aplicável apenas à população alemã e aos 12 anos do III Reich. Aplica-se às atitudes de cada um de nós, todos os dias. Quando, por exemplo, somos confrontados com governos de países europeus que tudo fazem para que os barcos de refugiados não consigam chegar ao nosso lado do Mediterrâneo, e não fazemos nada: estamos a ser non-arians ou barb-arians?
(sim, ando a ler outro livro sobre as anedotas que se contavam no III Reich)
(se me deixassem mandar, os livros escolares de História do século XX tinham uma ou duas anedotas em cada página)
19 junho 2019
"nós", o bom povo
Ontem, durante a recepção ao presidente ucraniano, Angela Merkel teve um ataque de tremores no momento em que tocavam o hino nacional alemão. Aguentou estoicamente, pouco depois os tremores pararam e ela continuou a cerimónia como previsto. Mais tarde explicou aos jornalistas que após de ter bebido pelo menos três copos de água tudo voltara ao normal.
Cenas da Alemanha no seu melhor: no filme, vê-se um militar que a observa atentamente, sem contudo parar de cantar o hino, e um segurança que telefona a dar o alerta. Cada um continua a fazer o que é suposto que faça, mas ambos estão prontos a reagir imediatamente se for necessário.
No Spiegel de hoje um médico explicava que em princípio não deve haver motivos para alarme, acrescentando que, de um modo geral, um quadro de desidratação nos dias quentes que temos tido é uma explicação plausível para tremores deste tipo. Mas recusa-se a fazer comentários sobre o estado de saúde da chanceler em concreto, porque "cada pessoa tem o direito de escolher o médico que lhe deve fazer o diagnóstico e propor um tratamento." Se não foi contactado directamente pela chanceler, não lhe cabe pronunciar-se sobre a saúde dela.
Cenas da Alemanha no seu pior: no youtube, os comentários aos vídeos com esta cena são odiosos. Dizem que ela terá uma alergia ao hino nacional, que só o diabo tem frio quando estão 30 graus, que foge do hino nacional como o diabo foge da água benta, que melhora mal o hino termina, que é um orgasmo à maneira da região da RDA onde ela cresceu, que se trata de um sintoma do seu canibalismo, ou um sintoma de abstinência, etc.
Estes comentários fazem-me olhar por outra perspectiva para os deploráveis discursos populistas que fazem aquela famosa distinção entre "eles", os políticos que não querem saber de nós, e "nós", as suas vítimas. Do lado do "bom povo", o tal "nós", também se encontram muitas pessoas que gostam de acusar os políticos de serem incompetentes e corruptos para poderem desculpar os seus próprios arranjinhos, e - como se vê nestas caixas de comentários, por exemplo - gente nada recomendável, que se dá mal em Democracia e tudo faz para envenenar o seu normal funcionamento.
De modo que seria bastante positivo que as pessoas que se dizem democráticas mas gostam de usar o discurso populista fossem mais claras a fazer a distinção entre vários tipos de político (ou acreditam mesmo que "eles" são todos-todos-todos incompetentes e corruptos?) e soubessem reconhecer sem ilusões os inimigos da Democracia que se misturam com o "bom povo" do lado do "nós".
Isto é particularmente importante por estes dias, em que tudo indica que estamos a passar para um novo nível do ataque à Democracia: há fortes indícios de o assassinato de um político conservador alemão que defendia a causa dos refugiados ter sido perpetrado pela extrema-direita, por motivos políticos. E não é o primeiro caso na Europa - é apenas o mais recente.
17 junho 2019
ninguém vem para nos salvar
O Daniel Carrapa escreveu uma excelente crítica ao discurso do 10 de Junho de João Miguel Tavares, na qual aponta bem o perigo deste tipo de discurso messiânico.
Para memória futura, copio-o integralmente para aqui:
Se eu fui o Éder deste 10 de Junho, o Presidente Marcelo foi o meu Fernando Santos – a congratulação em jeito de metáfora futebolística serve de corolário a essa fogueira de mediocridades que foi o discurso de João Miguel Tavares
nas comemorações do dia 10 de junho. Um texto em tudo previsível,
atabalhoado, feito de ideias avulsas, entre a crónica do meu pequeno ego
e a construção narrativa de um Portugal imaginário. De resto está bem
salpicado com laivos de populismo de puxar ao sentimento na vã tentativa
de ocultar as suas próprias contradições.
Para memória futura, copio-o integralmente para aqui:
Ninguém vem para nos salvar
Se eu fui o Éder deste 10 de Junho, o Presidente Marcelo foi o meu Fernando Santos – a congratulação em jeito de metáfora futebolística serve de corolário a essa fogueira de mediocridades que foi o discurso de João Miguel Tavares
nas comemorações do dia 10 de junho. Um texto em tudo previsível,
atabalhoado, feito de ideias avulsas, entre a crónica do meu pequeno ego
e a construção narrativa de um Portugal imaginário. De resto está bem
salpicado com laivos de populismo de puxar ao sentimento na vã tentativa
de ocultar as suas próprias contradições.
Tomemos como termo de comparação o apontamento deixado por João Lopes a
respeito do discurso de Jon Stewart no Congresso dos EUA. Sublinha o
crítico que não é a emotividade daquele depoimento que o torna notável,
mas a precisão das palavras. Refere João Lopes: São
momentos em que, também na televisão, voltamos a acreditar no valor
primordial das palavras e na precisão que o seu uso pode envolver.
Voltando a João Miguel Tavares vale a pena olharmos para a frase que se tornou mote daquele discurso: Dêem-nos alguma coisa em que acreditar.
Eis o que não deixa de ser de um repto pueril feito “aos políticos”
para que façam alguma coisa pelo povo; tão mais confrangedor pelo modo
como o próprio quase se reconhece como aquele medíocre a quem foi
concedida a bênção de poder ir falar às elites. Melhor seria dizer aos
Portugueses que ninguém vem para nos salvar. Chega de apelar aos homens
providenciais, chega de déspotas esclarecidos que desses já cá tivemos
que chegue – e para experiências recentes já nos bastaram os déspotas da
troika que bem sabemos o mal que por cá andaram a fazer.
Em boa verdade não faltam coisas em que acreditar. Acreditar numa
profunda reforma do sistema económico que permita evitar uma catástrofe
ambiental sem precedentes. Acreditar na defesa do nosso modelo social,
herdeiro do pós-Segunda Guerra Mundial, que assegurou a paz à maior
parte dos países da Europa. Acreditar no combate à desigualdade
crescente que corrói a relação entre gerações e ameaça a estabilidade
social em que assentam as nossas democracias.
Não faltam coisas em que acreditar e partidos que, de uma forma ou de
outra, procuram promover agendas políticas que vão ao encontro desses
objectivos.
Acredito pois que o que está aqui em causa é que João Miguel Tavares e
os “neoliberalinhos” órfãos do Passismo que ele representa não têm nada
em que acreditar. Certo é que se as ideias que eles defendem orientassem
a nossa governação estaríamos pior, nestas como em tantas outras áreas
da nossa vida comum.
Eis que clamam agora em defesa do “elevador social” – que tanto melhorou
no tempo da democracia que gostam de depreciar – mas defendem políticas
que repetidamente demonstraram acentuar o fosso da desigualdade e a
clivagem entre gerações. Clamam pela defesa da família, mas defendem
políticas que potenciaram a precariedade e os baixos salários que tanto
adiam e prejudicam a estabilidade da vida familiar.
Clamam assim pelo homem providencial que os salve e os faça acreditar,
incapazes de compreender porque é que as ideias que defendem – que tanto
ocupam a bolha do comentariado mediático de que fazem parte – têm cada
vez menos expressão junto do eleitorado.
Risível é o repto às elites como risíveis são as suas ideias pueris
sobre a História. Num dos mais acutilantes exemplos escapa-lhe a
dimensão dos “Descobrimentos” enquanto visão narrativa de um passado
comum, sem correspondência na complexa e contraditória experiência
humana que lhe deu corpo. Uma História sobre a qual podemos hoje ter uma
visão crítica porque vivemos em democracia, um sistema que nos permite
confrontar, em liberdade, essas narrativas em que foram construídas as
exaltações do passado, como assentam tantas vezes as falsidades do
presente.
Ninguém vem para nos salvar. Prefiro uma democracia imperfeita, feita de
pessoas e partidos imperfeitos, feita de compromissos, de tentativas e
erros, à crença em homens providenciais que “venham pôr ordem nisto
tudo” e vender o quinto império a reboque de grandes efabulações sobre
esse animal mitológico que é o português comum. De resto, João Miguel
Tavares bem podia ter feito o seu discurso com um boné encarnado com as
palavras “tornem Portugal grande outra vez”.
Não em meu nome.
15 junho 2019
"escada"
Do dia em que "escada" foi a palavra mágica na Enciclopédia Ilustrada:
Quando Goethe foi morar para Weimar (aviso já que vos vou levar de passeio por uma espécie de revista Hola do passado) começou por viver aqui e ali (pelo menos a acreditar nas placas que se vêem por todo o lado, porta sim, porta não), e às tantas recebeu do grão-duque uma casinha no meio do parque fora da cidade. A casa até nem era má, mas já se sabe como é que são as mães, e a do Goethe devia ser fresca, porque escreveu ao grão-duque a dizer que até parecia mal, um rapaz de tão boas famílias, a viver naquela espelunca...
Foi assim que Goethe recebeu a sua segunda casa em Weimar, numa praça importante da cidade (enfim, hoje é importante porque tem lá a casa-museu de Goethe, e também porque ficou muito maior depois das bombas de Fevereiro de 1945, destinadas a destruir a casa do escritor mas que acertaram em cheio nos prédios do outro lado da rua). Esta casa tem uma particularidade interessante: são duas. Da rua vê-se a - literalmente - casa de fachada, que servia para receber, mostrar a arte trazida de Itália e outras peças de colecção, e também servia para esconder o edifício de trás, que dava para o jardim com um muro alto, onde Goethe trabalhava e escondia a Christiane Vulpius, sua - digamos - barregã (como se murmurava ruidosamente na cidade).
Na casa de fachada existe (ena, ena, consegui chegar ao assunto em menos de 30 linhas!...) uma #escada muito estranha. Tudo nela parece falso e fora de proporção: a dimensão exagerada para o espaço, a largura do corrimão, as portas e os patamares demasiado pequenos para aqueles degraus tão largos e profundos. O próprio acto de subir as escadas parece estranho: não é bem subir degraus, é mais "passear até ao primeiro andar".
Conta-se que Goethe quis substituir a antiga escada curva barroca por uma à maneira da Itália antiga, que tanto lhe agradava. Fez ele próprio o desenho, inspirado nuns modelitos clássicos que tinha visto durante a sua viagem àquele país, e pediu a um amigo que tratasse das obras enquanto ele ia com o patrão à guerra contra a França. O amigo mandou desfazer as escadas originais e deitar umas paredes abaixo para ter o espaço necessário àquela escadaria, e cuidou de realizar o sonho de Goethe. Que, segundo dizem, ao voltar da guerra entrou em casa, foi direito à dita escada e... nunca mais disse uma palavra sobre o assunto. Mas admito que tenha pensado no Rei Midas, e naquele dito dos antigos gregos: "quando os deuses se querem rir das pessoas, tornam os sonhos delas realidade".
A última fotografia que partilho não é da casa de Goethe - é do palácio do grão-duque, a quem eu chamava "o meu vizinho da frente". É verdade que o palácio ficava numa ponta da rua e a minha casa na outra, mas à noite, quando acendiam as luzes do candeeiro histórico na escadaria, eu acendia também as da minha sala, e até parecia Goethe na sua casa do parque a deixar uma vela à janela para fazer par com a que a Frau von Stein deixava na janela dela.
(Eu avisei que isto era a Hola)
A guerra na França correu mal, depois umas guerras engataram-se noutras e às tantas Napoleão entrou em Weimar e andou pelas escadas do meu vizinho da frente como se fosse o dono da casa. Mas nas escadas de Goethe é que não passeou. Que a casa era de fachada, mas o dono tinha conteúdos. No entanto, algo mudou em Goethe devido à invasão francesa e ao susto de ver a sua casa cercada pelo exército inimigo. Em meia dúzia de dias meteu os papéis e casou com a Christiane Vulpius, com quem vivia há mais de vinte anos.
Acho que se chama a isto "esprit d'escalier": quando a resposta certa vem com demasiado atraso...
Quando Goethe foi morar para Weimar (aviso já que vos vou levar de passeio por uma espécie de revista Hola do passado) começou por viver aqui e ali (pelo menos a acreditar nas placas que se vêem por todo o lado, porta sim, porta não), e às tantas recebeu do grão-duque uma casinha no meio do parque fora da cidade. A casa até nem era má, mas já se sabe como é que são as mães, e a do Goethe devia ser fresca, porque escreveu ao grão-duque a dizer que até parecia mal, um rapaz de tão boas famílias, a viver naquela espelunca...
Foi assim que Goethe recebeu a sua segunda casa em Weimar, numa praça importante da cidade (enfim, hoje é importante porque tem lá a casa-museu de Goethe, e também porque ficou muito maior depois das bombas de Fevereiro de 1945, destinadas a destruir a casa do escritor mas que acertaram em cheio nos prédios do outro lado da rua). Esta casa tem uma particularidade interessante: são duas. Da rua vê-se a - literalmente - casa de fachada, que servia para receber, mostrar a arte trazida de Itália e outras peças de colecção, e também servia para esconder o edifício de trás, que dava para o jardim com um muro alto, onde Goethe trabalhava e escondia a Christiane Vulpius, sua - digamos - barregã (como se murmurava ruidosamente na cidade).
Na casa de fachada existe (ena, ena, consegui chegar ao assunto em menos de 30 linhas!...) uma #escada muito estranha. Tudo nela parece falso e fora de proporção: a dimensão exagerada para o espaço, a largura do corrimão, as portas e os patamares demasiado pequenos para aqueles degraus tão largos e profundos. O próprio acto de subir as escadas parece estranho: não é bem subir degraus, é mais "passear até ao primeiro andar".
Conta-se que Goethe quis substituir a antiga escada curva barroca por uma à maneira da Itália antiga, que tanto lhe agradava. Fez ele próprio o desenho, inspirado nuns modelitos clássicos que tinha visto durante a sua viagem àquele país, e pediu a um amigo que tratasse das obras enquanto ele ia com o patrão à guerra contra a França. O amigo mandou desfazer as escadas originais e deitar umas paredes abaixo para ter o espaço necessário àquela escadaria, e cuidou de realizar o sonho de Goethe. Que, segundo dizem, ao voltar da guerra entrou em casa, foi direito à dita escada e... nunca mais disse uma palavra sobre o assunto. Mas admito que tenha pensado no Rei Midas, e naquele dito dos antigos gregos: "quando os deuses se querem rir das pessoas, tornam os sonhos delas realidade".
A última fotografia que partilho não é da casa de Goethe - é do palácio do grão-duque, a quem eu chamava "o meu vizinho da frente". É verdade que o palácio ficava numa ponta da rua e a minha casa na outra, mas à noite, quando acendiam as luzes do candeeiro histórico na escadaria, eu acendia também as da minha sala, e até parecia Goethe na sua casa do parque a deixar uma vela à janela para fazer par com a que a Frau von Stein deixava na janela dela.
(Eu avisei que isto era a Hola)
A guerra na França correu mal, depois umas guerras engataram-se noutras e às tantas Napoleão entrou em Weimar e andou pelas escadas do meu vizinho da frente como se fosse o dono da casa. Mas nas escadas de Goethe é que não passeou. Que a casa era de fachada, mas o dono tinha conteúdos. No entanto, algo mudou em Goethe devido à invasão francesa e ao susto de ver a sua casa cercada pelo exército inimigo. Em meia dúzia de dias meteu os papéis e casou com a Christiane Vulpius, com quem vivia há mais de vinte anos.
Acho que se chama a isto "esprit d'escalier": quando a resposta certa vem com demasiado atraso...
14 junho 2019
empatia e ética
Já tinha visto um excerto desta intervenção de Jon Stewart no Congresso. Hoje vi o seu discurso completo. Foram os melhores 8 minutos e 52 segundos desta semana (talvez do mês, talvez de 2019 inteiro).
ADENDA: aqui está a sessão completa - https://youtu.be/FXtFUfobbNc
Se puderem, vejam o polícia que fala antes de Jon Stewart, a 1:23’ 12”.
12 junho 2019
oh pá, estou capaz de rebentar de alegria - se calhar o melhor é ir plantar finalmente as minhas dálias, a ver se acalmo
O caso é o seguinte: ontem à noite avisaram-me que é proibido fazer churrascos no parque Monbijou, onde queremos fazer no próximo domingo a tradicional sardinhada dos portugueses que moram em Berlim.
Telefonei agora aos serviços municipais responsáveis pelos espaços verdes. Atenderam logo. Perguntei se já é permitido grelhar, ou não.
- Está proibido, por causa do calor.
- Mas esta noite choveu tanto, será que podem considerar levantar a proibição?
- Espere um momento, por favor.
- Com certeza.
(passa um momento)
- Espere mais um bocadinho, por favor.
- Sim, sim.
(passa mais um momento, e eu aproveito para espreitar a previsão do tempo: hoje acima de 30 graus, mas até domingo vai baixar para os 21 graus)
- Está? Ouça, hoje e amanhã ainda continua proibido, mas no fim-de-semana podem fazer.
- Oh, obrigada! Pode enviar-me isso por escrito?
- Não. Estamos a preparar uma comunicação para a imprensa, isso basta.
- Óptimo, óptimo. Desejo-lhe um bom dia, nem sabe a alegria que me deu!
Ela riu-se, e desligou.
O caso é o seguinte: tenho aí algumas centenas de portugueses a preparar-se para o enorme piquenique da comunidade do próximo domingo, e estava a ficar realmente aflita com a possibilidade de ter de cancelar tudo. Mas não: tudo se resolveu com um telefonema breve. Ao enorme alívio junta-se a satisfação de viver num país onde se resolvem coisas destas tão facilmente ao telefone.
(Vou plantar as dálias: sempre é melhor que ficar aqui sentada com a sensação de rebentar de alegria.)
(Não vou nada: já me disfarcei mais ou menos de senhora para ir ali ao lado a uma sessão oficial do Dia da Língua Portuguesa, e já estou atrasada, e lá vou eu, e lá terei de ir com esta minha cara muito alegre.)
Telefonei agora aos serviços municipais responsáveis pelos espaços verdes. Atenderam logo. Perguntei se já é permitido grelhar, ou não.
- Está proibido, por causa do calor.
- Mas esta noite choveu tanto, será que podem considerar levantar a proibição?
- Espere um momento, por favor.
- Com certeza.
(passa um momento)
- Espere mais um bocadinho, por favor.
- Sim, sim.
(passa mais um momento, e eu aproveito para espreitar a previsão do tempo: hoje acima de 30 graus, mas até domingo vai baixar para os 21 graus)
- Está? Ouça, hoje e amanhã ainda continua proibido, mas no fim-de-semana podem fazer.
- Oh, obrigada! Pode enviar-me isso por escrito?
- Não. Estamos a preparar uma comunicação para a imprensa, isso basta.
- Óptimo, óptimo. Desejo-lhe um bom dia, nem sabe a alegria que me deu!
Ela riu-se, e desligou.
O caso é o seguinte: tenho aí algumas centenas de portugueses a preparar-se para o enorme piquenique da comunidade do próximo domingo, e estava a ficar realmente aflita com a possibilidade de ter de cancelar tudo. Mas não: tudo se resolveu com um telefonema breve. Ao enorme alívio junta-se a satisfação de viver num país onde se resolvem coisas destas tão facilmente ao telefone.
(Vou plantar as dálias: sempre é melhor que ficar aqui sentada com a sensação de rebentar de alegria.)
(Não vou nada: já me disfarcei mais ou menos de senhora para ir ali ao lado a uma sessão oficial do Dia da Língua Portuguesa, e já estou atrasada, e lá vou eu, e lá terei de ir com esta minha cara muito alegre.)
já que na "minha bolha" andam todos a falar do discurso do João Miguel Tavares no 10 de Junho...
A Helena Ferro de Gouveia andou a perguntar às pessoas com quem se cruzou na vida real o que pensam do discurso do João Miguel Tavares, e ninguém sabia do que é que ela estava a falar. Pelo que concluiu que estas coisas só acontecem na "bolha". Conclusão que me parece precipitada, porque ainda é preciso saber o que responderiam as mesmas pessoas à pergunta "e que lhe parece o discurso do presidente da República?". Estava capaz de apostar que a resposta delas seria: "que discurso?"
Talvez a conclusão certa seja: as pessoas que se interessam e se informam sobre o que acontece no país encontraram na "bolha" - na minha, pelo menos - um espaço de debate que vai bastante além da conversa de café.
Conversa de café foi, em minha opinião, o que o João Miguel Tavares fez no 10 de Junho. Um café melhorado, com pau de canela para misturar o açúcar, mas o café do costume: uma visão pessimista e ressentida, estrategicamente enviesada para permitir justificar o populismo.
Vejamos:
I.
"Os portugueses lutaram pela liberdade em 1974. Lutaram pela democracia em 1975. Lutaram pela integração na Comunidade Europeia nos anos 80. Lutaram pela entrada na moeda única durante a década de 90.
Não é fácil saber porque é que estamos a lutar hoje em dia."
Conversa de café, chavão 1 - dantes é que era bom, agora está tudo uma desgraça.
Sinceramente, não me dei conta de os portugueses terem lutado pela integração na CEE, nem pela entrada na moeda única. Os políticos decidiram, a coisa fez-se, e nos primeiros tempos foi o festim do costume na nossa longa tradição de enriquecimentos tão pontuais quanto exógenos: depois de ciclos como o das especiarias, do comércio de escravos, do ouro e da prata do Brasil ou, já no século XX, das remessas de emigrantes, vieram primeiro os dinheiros do FEDER e dos outros fundos europeus, e a seguir os empréstimos obtidos facilmente por estarmos na moeda comum. As lutas que o João Miguel Tavares considera positivas e esteios da esperança dos portugueses foram uma fase de decisões políticas (1), digamos, precipitadas, com as consequências desastrosas que hoje sofremos, e foram um regabofe épico para quem pôde (lembram-se de quando chamávamos IFADAP aos Jeep caros?).
Não compreendo porque é que João Miguel Tavares diz que falta agora aos portugueses "um objectivo claro para as suas vidas e um caminho para trilhar na sociedade portuguesa", e que "não é fácil saber porque é que estamos a lutar hoje em dia". Só um olhar profundamente enviesado consegue ignorar os nossos filhos a fazer manifestações para exigir - implorar! - que ponhamos fim à destruição do planeta. Os desafios estão aí, mais prementes que nunca: reconversão energética, reestruturação económica tendo em conta que a proximidade geográfica é de novo um factor importante, aproveitamento dos potenciais da nossa extensa costa marítima, redução da poluição, redução do risco de incêndio nas áreas florestais num contexto de condições climáticas cada vez mais extremas, aposta nas ligações ferroviárias. Mais ainda: o desafio da digitalização, para o qual os portugueses têm reconhecidas competências. Muito importante também: o desafio de continuar a defender os Direitos Humanos no actual contexto de aproveitamento oportunista e generalizado dos impulsos xenófobos para conquistar poder político - e no qual Portugal tem conseguido manter um lugar de honrosa excepção, o que muito nos deve orgulhar.
(Pequeno aparte: energias alternativas, aposta na ligação ferroviária internacional e digitalização eram as visões de Sócrates para o país, e tempos houve em que muitos portugueses acreditaram que essas eram lutas que mereciam ser travadas. Mas João Miguel Tavares adora reduzir esse político aos seus piores defeitos (que os tem, sem dúvida), usando largamente o palco que tem e o respectivo poder para condicionar o olhar dos portugueses para o ressentimento e o derrotismo, em vez de os ajudar a separar sabiamente o trigo do joio.)
II.
"Boa parte de nós, talvez julgue mesmo que a política é somente um cenário longínquo, distante da vida que nos importa, que é aquela que está mais próxima de nós. Daí o chamado “desinteresse pela política”. Mas creio que este sentimento é já uma consequência dos nossos próprios fracassos."
Que fracassos são esses?
"Ficámos a um passo da bancarrota. Três vezes – três vezes já – tivemos de pedir auxílio externo em 45 anos de democracia. É demasiado."
Convinha reler o ponto I do discurso, na parte sobre a vida dos portugueses ter melhorado imenso no espaço de uma geração, e consultar alguns dados do Pordata sobre mortalidade infantil, escolaridade, acesso ao ensino superior, esperança média de vida, etc., para concluir o óbvio: a extraordinária mudança para melhor em tantos indicadores da qualidade de vida dos portugueses custou dinheiro - muito dinheiro. Além disso, um desses três pedidos foi em grande parte consequência daquele "maravilhoso" desafio da moeda única (ver ponto I), pelo qual alegadamente tanto lutamos naquele tempo mítico em que sabíamos o que queríamos e por que lutávamos...
Logo a seguir, dá-se um curto-circuito no discurso: parece que os três pedidos de auxílio externo foram directamente canalizados para a corrupção. Já as estradas, os hospitais e o SNS, o alargamento da escolaridade obrigatória, as universidades e até os concertos nas regiões do interior devem ter caído do céu sem passar pelo erário público...
Ou seja: conversa de café, chavão 2 - eles não fazem nada, e são todos uns corruptos.
Da corrupção passamos à questão do mérito versus cunha:
"O sonho de amanhã ser-se mais do que se é hoje vai-se desvanecendo, porque cada família, cada pai, cada adolescente, convence-se de que o jogo está viciado. Que não é pelo talento e pelo trabalho que se ascende na vida. Que o mérito não chega. Que é preciso conhecer as pessoas certas. Que é preciso ter os amigos certos. Que é preciso nascer na família certa. (...) No nosso país instalou-se esta convicção perigosa: um jovem talentoso que queira singrar na carreira exclusivamente através do seu mérito, a melhor solução que tem ao seu alcance é emigrar. Isto é uma tragédia portuguesa."
João Miguel Tavares fala deste fenómeno como se fosse um problema apenas de hoje, e como se fosse apenas uma questão portuguesa. Nada disso: o movimento de êxodo rural que levou a geração dos meus pais do interior para o litoral deu agora lugar à internacionalização num contexto de liberdade de movimentos no espaço europeu. O novo "litoral" dos portugueses são as regiões mais dinâmicas e apelativas da União Europeia. E nem sequer vão para mais longe do que foram os nossos pais: eu demoro menos tempo a ir de Berlim a Lisboa do que muitas vezes demorava aos meus pais a ir de Braga ao Porto.
Esta situação não é propriamente uma tragédia, e muito menos uma tragédia portuguesa. O mérito, hoje em dia, tem uma forte componente de internacionalização. As melhores carreiras, ou as carreiras dos jovens com mais capacidades - sejam eles portugueses, alemães ou húngaros - passam quase sempre por experiências profissionais no estrangeiro. E nunca foi tão fácil para os portugueses conseguir singrar fora dessa anomalia serôdia que são as cunhas e as "boas famílias".
"A falta de esperança e a desigualdade de oportunidades podem dar origem a uma geração de adultos desencantados, incapazes de acreditar num país meritocrático."
Provavelmente João Miguel Tavares não se deu conta de que as consequências terríveis da crise do euro começam a ser revertidas, e que a desigualdade social se tem vindo a reduzir nos últimos três anos. Também não deve ter reparado que a Europa começa a olhar para o Euro como um problema com consequências fatais para as economias mais frágeis, problema esse que tem de ser resolvido. Afinal de contas, numa conversa de café nada disso importa realmente. O que interessa é arranjar uma desculpa qualquer para meter o chavão 3 das conversas de café (e até já estava a demorar): "nós", o bom povo, e "eles", os políticos que são uns estes e uns aqueles.
João Miguel Tavares remata, lapidar:
"Entre o “nós” e o “eles” há uma distância atlântica, com raríssimas pontes pelo meio.
“Eles” não têm nada a ver connosco. “Nós” não temos nada a ver com eles."
Assim sem pensar muito, ocorre-me a proximidade do omnipresente presidente da República, ou a lei para impedir despejos da habitação familiar por dívidas ao fisco que já salvou tantas famílias da desgraça, ou os esforços para preparar a polícia para saber lidar melhor com as queixas de violência doméstica, ou a enorme dificuldade do governo em fazer uma política eficiente de segurança florestal sem ofender os donos dos terrenos que estão ao abandono, ou as manifestações de tantos alunos contra o aquecimento climático, ou a preocupação do ministério da Educação com o bullying contra os alunos queer (preocupação essa que tantos portugueses criticam, acusando o ministério de ter uma "agenda gay"). A lista é interminável, e reflecte políticos que estão a dar o seu melhor para melhorar a vida dos portugueses, e que são diariamente confrontados com críticas por parte de pessoas que se sentem atingidas nos seus interesses ou ideologias. "Distância atlântica"?! Os jornais e as redes sociais mostram diariamente os pontos de contacto e fricção entre uns e outros.
Das duas, uma: ou João Miguel Tavares é um populista, e conduziu o seu discurso de modo a poder justificar o que pensa, ou escolheu descrever o país pelo olhar enviesado do populismo de modo a poder explicá-lo, mas esqueceu-se de sublinhar o aspecto patológico do fenómeno. Seja como for, este discurso banaliza a lógica populista e coloca-a no centro do Dia de Portugal. O que é lamentável.
III.
O discurso chega agora a uma questão central num discurso do Dia de Portugal: quem somos, de onde vimos?
Começa pelo lugar-comum ("Partilhamos uma língua, um país com uma estabilidade de séculos, sem divisões") e depois descarrila: "e é uma pena que por vezes pareçamos cansados de nós próprios. Tivemos História a mais; agora temos História a menos. Passámos da exaltação heróica e primária do nosso passado, no tempo do Estado Novo, para acabarmos com receio de usar a palavra “Descobrimentos”. Simplificamos a História de forma infantil." Cansados de nós próprios?! História a menos?! Onde está o cansaço e a fuga à História quando tentamos passar "da exaltação heróica e primária do nosso passado, no tempo do Estado Novo," para um trabalho sério de confronto com os termos que usamos e a carga ideológica que transportam? O trabalho do historiador da História de Portugal liberta-se das amarras nacionalistas e torna-se muito mais complexo. A pouco e pouco a herança ideológica salazarista vai saindo das nossas cabeças, e olhamos para a História com um olhar que está a ser desinstalado pelas exigências do século XXI. O que é, já agora, mais um interessante desafio para os portugueses (os tais que, a acreditar no que se diz no princípio deste discurso, de momento não sabem de nada por que valha a pena lutar).
IV.
E para onde vamos?
Começo pelo que é realmente positivo, e escapa à lógica da conversa de café: um país com espaço para todos, que tem de dar a todos um forte sentimento de pertença, e que se enriquece pelo contributo de cada um de nós. Muito bem.
Só é pena que pelo meio o pé lhe escorregue para a infantilização dos portugueses: "A política não falha apenas quando conduz o país à bancarrota. A política falha quando deixa o país sem rumo e permite que se quebre a aliança entre o indivíduo e o cidadão.
Aquilo que melhor distingue as pessoas não é serem de esquerda ou de direita, mas a firmeza do seu carácter e a força dos seus princípios. Aquilo que se pede aos políticos, sejam eles de esquerda ou de direita, é que nos dêem alguma coisa em que acreditar. Que alimentem um sentimento comum de pertença. Que ofereçam um objectivo claro à comunidade que lideram.
Nós precisamos de sentir que contamos para alguma coisa. (Além de pagar impostos.)"
O João Miguel Tavares que me perdoe, mas já muito fazem os políticos. "Dar alguma coisa em que acreditar" é tarefa de padres. "Alimentar um sentimento comum de pertença" quando as sociedades estão cada vez mais entrincheiradas é pedir o impossível a um político - a não ser que queiramos ter um ditador, juntamente com a sua máquina de propaganda e perseguição policial que têm o milagroso dom de homogeneizar a sociedade.
Este é o tempo em que os cidadãos europeus se podem unir e dirigir directamente ao Parlamento da União para exigir mudanças. Este é o tempo da Greta Thunberg, este é o tempo de um jornalista suíço que se cansou de alertar para o problema do aquecimento climático e do desaparecimento acelerado dos glaciares alpinos e está a juntar assinaturas para obrigar a Suíça a acabar com as emissões de dióxido de carbono até 2050. Este é o tempo dos jovens berlinenses que compraram um barco para salvar refugiados no Mediterrâneo. Este é o tempo dos activistas que há dias tentaram impedir um cruzeiro turístico de partir em viagem.
Este é o tempo da cidadania. Uma Democracia madura faz-se com o contributo de todos, com o entusiasmo de todos. E quem, como João Miguel Tavares, ganha a sua vida a dar opiniões no espaço público, tem a responsabilidade acrescida de sugerir caminhos, em vez de ir pagando as suas contas com textos que insistem obsessivamente no copo meio vazio e contribuem para a ascensão do populismo em Portugal.
Em vez de fazer um discurso que transforma Portugal num enorme infantário e exige aos políticos que assumam o papel de paizinhos.
---
ADENDA:
(1) Refiro-me em particular às decisões relativas aos sectores da Agricultura e das Pescas, e aos termos em que foi feita a adesão à moeda única.
Talvez a conclusão certa seja: as pessoas que se interessam e se informam sobre o que acontece no país encontraram na "bolha" - na minha, pelo menos - um espaço de debate que vai bastante além da conversa de café.
Conversa de café foi, em minha opinião, o que o João Miguel Tavares fez no 10 de Junho. Um café melhorado, com pau de canela para misturar o açúcar, mas o café do costume: uma visão pessimista e ressentida, estrategicamente enviesada para permitir justificar o populismo.
Vejamos:
I.
"Os portugueses lutaram pela liberdade em 1974. Lutaram pela democracia em 1975. Lutaram pela integração na Comunidade Europeia nos anos 80. Lutaram pela entrada na moeda única durante a década de 90.
Não é fácil saber porque é que estamos a lutar hoje em dia."
Conversa de café, chavão 1 - dantes é que era bom, agora está tudo uma desgraça.
Sinceramente, não me dei conta de os portugueses terem lutado pela integração na CEE, nem pela entrada na moeda única. Os políticos decidiram, a coisa fez-se, e nos primeiros tempos foi o festim do costume na nossa longa tradição de enriquecimentos tão pontuais quanto exógenos: depois de ciclos como o das especiarias, do comércio de escravos, do ouro e da prata do Brasil ou, já no século XX, das remessas de emigrantes, vieram primeiro os dinheiros do FEDER e dos outros fundos europeus, e a seguir os empréstimos obtidos facilmente por estarmos na moeda comum. As lutas que o João Miguel Tavares considera positivas e esteios da esperança dos portugueses foram uma fase de decisões políticas (1), digamos, precipitadas, com as consequências desastrosas que hoje sofremos, e foram um regabofe épico para quem pôde (lembram-se de quando chamávamos IFADAP aos Jeep caros?).
Não compreendo porque é que João Miguel Tavares diz que falta agora aos portugueses "um objectivo claro para as suas vidas e um caminho para trilhar na sociedade portuguesa", e que "não é fácil saber porque é que estamos a lutar hoje em dia". Só um olhar profundamente enviesado consegue ignorar os nossos filhos a fazer manifestações para exigir - implorar! - que ponhamos fim à destruição do planeta. Os desafios estão aí, mais prementes que nunca: reconversão energética, reestruturação económica tendo em conta que a proximidade geográfica é de novo um factor importante, aproveitamento dos potenciais da nossa extensa costa marítima, redução da poluição, redução do risco de incêndio nas áreas florestais num contexto de condições climáticas cada vez mais extremas, aposta nas ligações ferroviárias. Mais ainda: o desafio da digitalização, para o qual os portugueses têm reconhecidas competências. Muito importante também: o desafio de continuar a defender os Direitos Humanos no actual contexto de aproveitamento oportunista e generalizado dos impulsos xenófobos para conquistar poder político - e no qual Portugal tem conseguido manter um lugar de honrosa excepção, o que muito nos deve orgulhar.
(Pequeno aparte: energias alternativas, aposta na ligação ferroviária internacional e digitalização eram as visões de Sócrates para o país, e tempos houve em que muitos portugueses acreditaram que essas eram lutas que mereciam ser travadas. Mas João Miguel Tavares adora reduzir esse político aos seus piores defeitos (que os tem, sem dúvida), usando largamente o palco que tem e o respectivo poder para condicionar o olhar dos portugueses para o ressentimento e o derrotismo, em vez de os ajudar a separar sabiamente o trigo do joio.)
II.
"Boa parte de nós, talvez julgue mesmo que a política é somente um cenário longínquo, distante da vida que nos importa, que é aquela que está mais próxima de nós. Daí o chamado “desinteresse pela política”. Mas creio que este sentimento é já uma consequência dos nossos próprios fracassos."
Que fracassos são esses?
"Ficámos a um passo da bancarrota. Três vezes – três vezes já – tivemos de pedir auxílio externo em 45 anos de democracia. É demasiado."
Convinha reler o ponto I do discurso, na parte sobre a vida dos portugueses ter melhorado imenso no espaço de uma geração, e consultar alguns dados do Pordata sobre mortalidade infantil, escolaridade, acesso ao ensino superior, esperança média de vida, etc., para concluir o óbvio: a extraordinária mudança para melhor em tantos indicadores da qualidade de vida dos portugueses custou dinheiro - muito dinheiro. Além disso, um desses três pedidos foi em grande parte consequência daquele "maravilhoso" desafio da moeda única (ver ponto I), pelo qual alegadamente tanto lutamos naquele tempo mítico em que sabíamos o que queríamos e por que lutávamos...
Logo a seguir, dá-se um curto-circuito no discurso: parece que os três pedidos de auxílio externo foram directamente canalizados para a corrupção. Já as estradas, os hospitais e o SNS, o alargamento da escolaridade obrigatória, as universidades e até os concertos nas regiões do interior devem ter caído do céu sem passar pelo erário público...
Ou seja: conversa de café, chavão 2 - eles não fazem nada, e são todos uns corruptos.
Da corrupção passamos à questão do mérito versus cunha:
"O sonho de amanhã ser-se mais do que se é hoje vai-se desvanecendo, porque cada família, cada pai, cada adolescente, convence-se de que o jogo está viciado. Que não é pelo talento e pelo trabalho que se ascende na vida. Que o mérito não chega. Que é preciso conhecer as pessoas certas. Que é preciso ter os amigos certos. Que é preciso nascer na família certa. (...) No nosso país instalou-se esta convicção perigosa: um jovem talentoso que queira singrar na carreira exclusivamente através do seu mérito, a melhor solução que tem ao seu alcance é emigrar. Isto é uma tragédia portuguesa."
João Miguel Tavares fala deste fenómeno como se fosse um problema apenas de hoje, e como se fosse apenas uma questão portuguesa. Nada disso: o movimento de êxodo rural que levou a geração dos meus pais do interior para o litoral deu agora lugar à internacionalização num contexto de liberdade de movimentos no espaço europeu. O novo "litoral" dos portugueses são as regiões mais dinâmicas e apelativas da União Europeia. E nem sequer vão para mais longe do que foram os nossos pais: eu demoro menos tempo a ir de Berlim a Lisboa do que muitas vezes demorava aos meus pais a ir de Braga ao Porto.
Esta situação não é propriamente uma tragédia, e muito menos uma tragédia portuguesa. O mérito, hoje em dia, tem uma forte componente de internacionalização. As melhores carreiras, ou as carreiras dos jovens com mais capacidades - sejam eles portugueses, alemães ou húngaros - passam quase sempre por experiências profissionais no estrangeiro. E nunca foi tão fácil para os portugueses conseguir singrar fora dessa anomalia serôdia que são as cunhas e as "boas famílias".
"A falta de esperança e a desigualdade de oportunidades podem dar origem a uma geração de adultos desencantados, incapazes de acreditar num país meritocrático."
Provavelmente João Miguel Tavares não se deu conta de que as consequências terríveis da crise do euro começam a ser revertidas, e que a desigualdade social se tem vindo a reduzir nos últimos três anos. Também não deve ter reparado que a Europa começa a olhar para o Euro como um problema com consequências fatais para as economias mais frágeis, problema esse que tem de ser resolvido. Afinal de contas, numa conversa de café nada disso importa realmente. O que interessa é arranjar uma desculpa qualquer para meter o chavão 3 das conversas de café (e até já estava a demorar): "nós", o bom povo, e "eles", os políticos que são uns estes e uns aqueles.
João Miguel Tavares remata, lapidar:
"Entre o “nós” e o “eles” há uma distância atlântica, com raríssimas pontes pelo meio.
“Eles” não têm nada a ver connosco. “Nós” não temos nada a ver com eles."
Assim sem pensar muito, ocorre-me a proximidade do omnipresente presidente da República, ou a lei para impedir despejos da habitação familiar por dívidas ao fisco que já salvou tantas famílias da desgraça, ou os esforços para preparar a polícia para saber lidar melhor com as queixas de violência doméstica, ou a enorme dificuldade do governo em fazer uma política eficiente de segurança florestal sem ofender os donos dos terrenos que estão ao abandono, ou as manifestações de tantos alunos contra o aquecimento climático, ou a preocupação do ministério da Educação com o bullying contra os alunos queer (preocupação essa que tantos portugueses criticam, acusando o ministério de ter uma "agenda gay"). A lista é interminável, e reflecte políticos que estão a dar o seu melhor para melhorar a vida dos portugueses, e que são diariamente confrontados com críticas por parte de pessoas que se sentem atingidas nos seus interesses ou ideologias. "Distância atlântica"?! Os jornais e as redes sociais mostram diariamente os pontos de contacto e fricção entre uns e outros.
Das duas, uma: ou João Miguel Tavares é um populista, e conduziu o seu discurso de modo a poder justificar o que pensa, ou escolheu descrever o país pelo olhar enviesado do populismo de modo a poder explicá-lo, mas esqueceu-se de sublinhar o aspecto patológico do fenómeno. Seja como for, este discurso banaliza a lógica populista e coloca-a no centro do Dia de Portugal. O que é lamentável.
III.
O discurso chega agora a uma questão central num discurso do Dia de Portugal: quem somos, de onde vimos?
Começa pelo lugar-comum ("Partilhamos uma língua, um país com uma estabilidade de séculos, sem divisões") e depois descarrila: "e é uma pena que por vezes pareçamos cansados de nós próprios. Tivemos História a mais; agora temos História a menos. Passámos da exaltação heróica e primária do nosso passado, no tempo do Estado Novo, para acabarmos com receio de usar a palavra “Descobrimentos”. Simplificamos a História de forma infantil." Cansados de nós próprios?! História a menos?! Onde está o cansaço e a fuga à História quando tentamos passar "da exaltação heróica e primária do nosso passado, no tempo do Estado Novo," para um trabalho sério de confronto com os termos que usamos e a carga ideológica que transportam? O trabalho do historiador da História de Portugal liberta-se das amarras nacionalistas e torna-se muito mais complexo. A pouco e pouco a herança ideológica salazarista vai saindo das nossas cabeças, e olhamos para a História com um olhar que está a ser desinstalado pelas exigências do século XXI. O que é, já agora, mais um interessante desafio para os portugueses (os tais que, a acreditar no que se diz no princípio deste discurso, de momento não sabem de nada por que valha a pena lutar).
IV.
E para onde vamos?
Começo pelo que é realmente positivo, e escapa à lógica da conversa de café: um país com espaço para todos, que tem de dar a todos um forte sentimento de pertença, e que se enriquece pelo contributo de cada um de nós. Muito bem.
Só é pena que pelo meio o pé lhe escorregue para a infantilização dos portugueses: "A política não falha apenas quando conduz o país à bancarrota. A política falha quando deixa o país sem rumo e permite que se quebre a aliança entre o indivíduo e o cidadão.
Aquilo que melhor distingue as pessoas não é serem de esquerda ou de direita, mas a firmeza do seu carácter e a força dos seus princípios. Aquilo que se pede aos políticos, sejam eles de esquerda ou de direita, é que nos dêem alguma coisa em que acreditar. Que alimentem um sentimento comum de pertença. Que ofereçam um objectivo claro à comunidade que lideram.
Nós precisamos de sentir que contamos para alguma coisa. (Além de pagar impostos.)"
O João Miguel Tavares que me perdoe, mas já muito fazem os políticos. "Dar alguma coisa em que acreditar" é tarefa de padres. "Alimentar um sentimento comum de pertença" quando as sociedades estão cada vez mais entrincheiradas é pedir o impossível a um político - a não ser que queiramos ter um ditador, juntamente com a sua máquina de propaganda e perseguição policial que têm o milagroso dom de homogeneizar a sociedade.
Este é o tempo em que os cidadãos europeus se podem unir e dirigir directamente ao Parlamento da União para exigir mudanças. Este é o tempo da Greta Thunberg, este é o tempo de um jornalista suíço que se cansou de alertar para o problema do aquecimento climático e do desaparecimento acelerado dos glaciares alpinos e está a juntar assinaturas para obrigar a Suíça a acabar com as emissões de dióxido de carbono até 2050. Este é o tempo dos jovens berlinenses que compraram um barco para salvar refugiados no Mediterrâneo. Este é o tempo dos activistas que há dias tentaram impedir um cruzeiro turístico de partir em viagem.
Este é o tempo da cidadania. Uma Democracia madura faz-se com o contributo de todos, com o entusiasmo de todos. E quem, como João Miguel Tavares, ganha a sua vida a dar opiniões no espaço público, tem a responsabilidade acrescida de sugerir caminhos, em vez de ir pagando as suas contas com textos que insistem obsessivamente no copo meio vazio e contribuem para a ascensão do populismo em Portugal.
Em vez de fazer um discurso que transforma Portugal num enorme infantário e exige aos políticos que assumam o papel de paizinhos.
---
ADENDA:
(1) Refiro-me em particular às decisões relativas aos sectores da Agricultura e das Pescas, e aos termos em que foi feita a adesão à moeda única.
10 junho 2019
o temido rosto da ceifeira
(fonte)
Este gráfico não é surpresa. Mas é bom ver isto assim azul, amarelo, cinzento, laranja, verde e rosa no branco.
(E explica, por exemplo, porque é que, em nome da luta contra o terrorismo, aceitamos regressões graves - desde os Direitos Humanos à reserva da privacidade dos cidadãos -, e somos tão tolerantes com os nossos amigos e familiares que conduzem depois de terem bebido muito ou têm hábitos de condução que põem em risco a segurança de todos.)
09 junho 2019
entretanto no facebook...
Posts que publiquei há pouco no facebook (e trago para aqui, por causa dos dois ou três amigos que ainda não emigraram para esse outro espaço):
Começo a pensar que a minha bolha do facebook deve ser uma realidade paralela. Já cá estou há uma hora, e ainda ninguém informou quem ganhou o jogo!
Tive de ir ao site de um jornal para me informar.
Continuem a fazer dessas, ó amigos da bolha, e troco-vos por uma assinatura do nónio.
(é só para avisar)
---
Depois de me ter vindo aqui queixar, o facebook desatou a mostrar-me posts de amigos a comentar o jogo.
Assim também eu, ó Cambridge Analytica!
"Ai, e tal, conhecemos-te melhor que os teus próprios pais".
Pois, pois. Da próxima vez vê se acertas melhor a adivinhar quais são os meus interesses.
Começo a pensar que a minha bolha do facebook deve ser uma realidade paralela. Já cá estou há uma hora, e ainda ninguém informou quem ganhou o jogo!
Tive de ir ao site de um jornal para me informar.
Continuem a fazer dessas, ó amigos da bolha, e troco-vos por uma assinatura do nónio.
(é só para avisar)
---
Depois de me ter vindo aqui queixar, o facebook desatou a mostrar-me posts de amigos a comentar o jogo.
Assim também eu, ó Cambridge Analytica!
"Ai, e tal, conhecemos-te melhor que os teus próprios pais".
Pois, pois. Da próxima vez vê se acertas melhor a adivinhar quais são os meus interesses.
07 junho 2019
Maria João Pires, Barenboim, Beethoven
Por estes dias o maestro Barenboim comemora o cinquentenário do seu trabalho com a orquestra filarmónica de Berlim, e repete o programa do seu primeiro concerto com esta orquestra, que teve lugar no dia 15.6.1969. O pianista convidado para tocar o concerto nº4 para piano de Beethoven era Radu Lupu, mas a sua participação foi cancelada por motivos de doença (desta vez a culpa não é minha, que só comprei o bilhete depois de saber que a nossa Maria João Pires aceitou substituí-lo!). Já houve dois concertos, e a interpretação da pianista - "subtil e cheia de nuances" (como dizia a crítica numa revista da especialidade) - tem sido muito aplaudida.
Para o caso de estarem agora a maldizer a vossa insularidade, e também para que saibam quem é amiga e pensa sempre em vós: o terceiro e último destes concertos vai ser transmitido em directo pelo Digital Concert Hall amanhã, sábado, às 18:00 em Portugal, e aqui têm o voucher para o ver:
Para o caso de estarem agora a maldizer a vossa insularidade, e também para que saibam quem é amiga e pensa sempre em vós: o terceiro e último destes concertos vai ser transmitido em directo pelo Digital Concert Hall amanhã, sábado, às 18:00 em Portugal, e aqui têm o voucher para o ver:
LK1819XG
É válido durante 48 horas consecutivas (quer dizer: podem ir já para o Digital Concert Hall afiar o dente, amanhã vêem o concerto, e pouco depois, pufff, até vai parecer a carruagem da Cinderela à meia-noite).
E se tiverem tempo, aproveitem as 48 horas para espreitar também o arquivo do DCH. Está cheio de preciosidades.
(Caso não saibam o que espreitar naquele arquivo interminável, são estes os meus favoritos de todos os tempos: a Paixão segundo S. Mateus de Bach, com encenação de Peter Sellars; o filme "Violins of Hope" e o concerto com esses violinos pertencentes a judeus, que regressaram à Alemanha no 70º aniversário da libertação de Buchenwald)
Se esta mensagem parecer publicidade (e é) ficam a saber que esta vossa amiga é a influencer mais incompetente de Portugal: bem me desunho a falar das coisas e a dar presentes, mas ainda não arranjei maneira de pôr a Filarmonia a pagar-me para isto.
(Quer dizer: se calhar já me podia considerar bem paga com os Lunchkonzert gratuitos, e mais os voucher que lá dão, e já ter cantado duas óperas e mais uma missa naquela sala, e mais isto e mais aquilo) (ingrata criatura) (já cá não está quem falou)
04 junho 2019
"num Ferrari não entra poeira"
Só por achar pena este texto de Paulo Carvalho desaparecer na voragem do facebook, guardo-o aqui:
NUM FERRARI NÃO ENTRA POEIRA
«…como quando vamos a uma velocidade de cem à hora e vemos na berma da estrada um moralista empoeirado a protestar.»
O homem sem qualidades, Musil
É uma questão que qualquer pessoa criticamente insatisfeita com o curso das coisas, mais tarde ou mais cedo, tem de enfrentar: como evitar o moralismo sem cair no cinismo?
A insatisfação do moralista é acrítica, porque se funda num ideal herdado, muitas vezes divorciado da realidade. A satisfação do cínico, aos olhos do moralista, é perversa, mas radica, aos olhos do interessado, numa adaptação pragmática: «este pode não ser o melhor dos mundos, mas é nele que tenho que sobreviver».
– Num Ferrari não entra poeira, não é? – grita o moralista da berma.
– A culpa não é do pó, mas de quem se mete a jeito – pensa o cínico lá dentro.
Por isso, quando se encontram, a troca de palavras ocorre em dois circuitos fechados: o das convicções de um lado, o do status quo do outro.
O que assiste de fora, sendo insatisfeito, se não quer cair na dupla armadilha, terá de socorrer-se da serenidade.
Mas a serenidade de quem sorri soberanamente aos esquemas do pragmático não será cúmplice desses esquemas e, no fim de contas, fraqueza de um conservador consumado? Para que tal não aconteça, não é forçoso que tome posição? Ou poderá significar tal silêncio outra coisa: o estudo atento das estratégias do realismo cínico, para o desmontar ao nível da argumentação e, sobretudo, da acção. Mas como actuar com eficácia nesses campos, atingindo um ponto nevrálgico da máquina, sem cair precisamente na sua forma de funcionar?... que é nada mais, nada menos, do que a eficácia! Como introduzir uma falha a partir de fora em algo que está blindado a partir de dentro?
Esta era a questão de Kafka e de Bernardo Soares (ambos conhecedores íntimos da burocracia que oleia a máquina), esta foi também a razão de terem optado pela inacção. (Mas serão as «obras falhadas» de Kafka e Pessoa inacções ou, antes, sendo ruínas do monumental, as vias secretas de transformação, ou seja, vias da única verdadeira acção?) Mais recentemente, a análise aguda das engrenagens da Sociedade do Espectáculo ao serviço da máquina da Sociedade do Consumo levou Guy Debord a chegar à conclusão de que, uma vez que toda a voz se afoga no oceano de vozes e de imagens, já não vale a pena lutar contra a máquina: e suicidou-se. E como contestar o seu sinal? Não servem os interesses dos poderes instituídos mesmo os que radicalmente se fazem explodir ou põem bombas?
Quem escreve no Facebook estas coisas, deveria ter consciência da nulidade do que escreve, e calar-se. Escreve NO FACEBOOK, caramba!
E, contudo, talvez seja necessário manter a má consciência de um dizer inútil. Talvez não seja garantido que nos mantenhamos equidistantes entre a boa consciência do moralista e a boa consciência do cínico, pois também a má consciência resvala facilmente para a auto-satisfação. Mas sempre é possível saltar fora… ou esperar que, de fora, alguém ainda mais insatisfeito no-lo recorde. E mostre a fragilidade inerente a toda a boa intenção e linguagem...
Imagem: Obra de Anselm Kiefer
NUM FERRARI NÃO ENTRA POEIRA
«…como quando vamos a uma velocidade de cem à hora e vemos na berma da estrada um moralista empoeirado a protestar.»
O homem sem qualidades, Musil
É uma questão que qualquer pessoa criticamente insatisfeita com o curso das coisas, mais tarde ou mais cedo, tem de enfrentar: como evitar o moralismo sem cair no cinismo?
A insatisfação do moralista é acrítica, porque se funda num ideal herdado, muitas vezes divorciado da realidade. A satisfação do cínico, aos olhos do moralista, é perversa, mas radica, aos olhos do interessado, numa adaptação pragmática: «este pode não ser o melhor dos mundos, mas é nele que tenho que sobreviver».
– Num Ferrari não entra poeira, não é? – grita o moralista da berma.
– A culpa não é do pó, mas de quem se mete a jeito – pensa o cínico lá dentro.
Por isso, quando se encontram, a troca de palavras ocorre em dois circuitos fechados: o das convicções de um lado, o do status quo do outro.
O que assiste de fora, sendo insatisfeito, se não quer cair na dupla armadilha, terá de socorrer-se da serenidade.
Mas a serenidade de quem sorri soberanamente aos esquemas do pragmático não será cúmplice desses esquemas e, no fim de contas, fraqueza de um conservador consumado? Para que tal não aconteça, não é forçoso que tome posição? Ou poderá significar tal silêncio outra coisa: o estudo atento das estratégias do realismo cínico, para o desmontar ao nível da argumentação e, sobretudo, da acção. Mas como actuar com eficácia nesses campos, atingindo um ponto nevrálgico da máquina, sem cair precisamente na sua forma de funcionar?... que é nada mais, nada menos, do que a eficácia! Como introduzir uma falha a partir de fora em algo que está blindado a partir de dentro?
Esta era a questão de Kafka e de Bernardo Soares (ambos conhecedores íntimos da burocracia que oleia a máquina), esta foi também a razão de terem optado pela inacção. (Mas serão as «obras falhadas» de Kafka e Pessoa inacções ou, antes, sendo ruínas do monumental, as vias secretas de transformação, ou seja, vias da única verdadeira acção?) Mais recentemente, a análise aguda das engrenagens da Sociedade do Espectáculo ao serviço da máquina da Sociedade do Consumo levou Guy Debord a chegar à conclusão de que, uma vez que toda a voz se afoga no oceano de vozes e de imagens, já não vale a pena lutar contra a máquina: e suicidou-se. E como contestar o seu sinal? Não servem os interesses dos poderes instituídos mesmo os que radicalmente se fazem explodir ou põem bombas?
Quem escreve no Facebook estas coisas, deveria ter consciência da nulidade do que escreve, e calar-se. Escreve NO FACEBOOK, caramba!
E, contudo, talvez seja necessário manter a má consciência de um dizer inútil. Talvez não seja garantido que nos mantenhamos equidistantes entre a boa consciência do moralista e a boa consciência do cínico, pois também a má consciência resvala facilmente para a auto-satisfação. Mas sempre é possível saltar fora… ou esperar que, de fora, alguém ainda mais insatisfeito no-lo recorde. E mostre a fragilidade inerente a toda a boa intenção e linguagem...
Imagem: Obra de Anselm Kiefer
a minha vida dava um filme
Passei o domingo inteiro a tratar do jardim (pouco se nota, snif snif), tentando acabar o trabalho depressa para ir levar rosas a uma amiga que fazia anos nesse dia. Ora bem: um jardim é como uma tradução, nunca está terminado. Já passava das sete da tarde quando finalmente tomei o duche, cortei as rosas e me pus a caminho da casa dela. A ideia era dar as rosas, dar um beijinho, e pôr-me a andar. Mas o marido, que veio à porta, fez questão de me encher um copo de vinho e me mandar ter com o grupo de amigas sentadas na mesa ao fundo do jardim, junto ao lago.
(Ainda me arrisco a escrever uma autobiografia chamada "o emplastro acidental".)
Foi mais um daqueles momentos "a minha vida dava um filme": daí a nada estava a ouvir histórias incríveis àquelas mulheres. A que trabalha na televisão e ainda tem o George Clooney e o Brad Pitt na sua bucket list de maquilhagem, mas já fez a máscara do Obama (que no fim lhe deu um aperto de mão e agradeceu o trabalho). A que vejo muitas vezes com carros de colecção (tantos, que às vezes nem se lembra em que carro veio nem onde o estacionou) começou a contar que um pouco antes do Verão de 1989 tentou fugir da RDA, com o então marido e o filho bebé, pela Embaixada da RFA em Praga. Ao fim de alguns dias, os funcionários da Embaixada disseram-lhe que teria de regressar a casa, e daí a levariam para fora do país. Regressaram, reencontraram os pais que - para defesa deles - não tinham sido informados das intenções de fuga e de repente depararam com a ausência na casa muito bem arrumada e com os cestos dos papéis vazios (um clássico dos que fugiam: a casa impecável, por bem saberem que seria passada a pente fino). Passou as semanas seguintes aterrorizada, sempre à espera do momento em que a Stasi viria tirar-lhe o filho para ser educado por uma família leal ao regime. Finalmente, informaram-nos que tinham 24 horas para deixar o país, e que não podiam levar nada com eles. As poupanças, o carro, os objectos pessoais: ficou tudo. Mas puderam sair com o filho.
(Eu a ouvir, e a pensar que a RDA os tratou como os nazis trataram os judeus que conseguiram escapar do país, e a olhar para o lago lindíssimo, os cisnes que passavam, o grou na outra margem, as copas das árvores centenárias, algumas delas plantadas por famílias de judeus que não sei se conseguiram fugir a tempo: quantas realidades paralelas se juntam a uma mesa de jardim?)
Outra amiga da roda contou que o muro a separou da avó, que vivia na RFA. Os pais dela meteram os papéis para sair do país, dizendo que se queriam juntar à família no ocidente. Dois anos depois, ela e o marido fizeram o mesmo pedido, e começou um martírio: várias vezes por mês eram convocados para ir prestar declarações à Stasi. Ela bem queria ir com o marido, por temer que a mais pequena contradição lhes fosse fatal, mas estava fora de causa. Várias vezes por mês iam separadamente ao interrogatório, sem saber se conseguiam regressar a casa, ou se se iriam juntar aos outros presos políticos. Ao fim de três anos, conseguiram autorização para sair. Um alívio, e também uma preocupação: que seria dos pais dela, que esperavam já há cinco anos? A autorização para estes veio umas horas depois, um último sinal do prazer sádico que o regime saboreava até ao limite. Saíram em Agosto de 1989. Três meses depois, quando o muro caiu, a primeira sensação foi de despeito: "então sofremos nós tanto para conseguir isto que eles agora recebem de mão beijada?!"
E depois a conversa mudou. Falaram de uma academia para cabeleireiros onde se consegue pintar o cabelo de graça e "mesmo quando sai um pouco mais cor-de-rosa ou laranja não tem mal, porque a cor se esbate ao fim de algumas semanas", além de que "nunca calhou de ficar verde". E da TºKºMax de Alexanderplatz que "tem as coisas mais interessantes, porque a clientela habitual tem gostos muito conservadores e só compra o que não interessa".
Alexanderplatz foi o palco da histórica manifestação de (segundo dizem) um milhão de cidadãos da RDA, no dia 4 de Novembro de 1989. Convocada por vários teatros de Berlim Leste, foi a primeira manifestação autorizada pelo regime sem ter sido por este organizada. Exigia-se o fim da violência, a respeito pelos direitos constitucionais, a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e a liberdade de reunião. Mais Democracia, em suma. Cinco dias depois, o muro caía. Trinta anos depois, pessoas que sofreram horrores para conseguir escapar ao regime de Berlim Leste vão a Alexanderplatz comprar sapatilhas de lantejoulas de uma marca cara, vendidas a preço de pechincha. Se a minha vida dava um filme, a delas dava um bom par de livros.
(Ainda me arrisco a escrever uma autobiografia chamada "o emplastro acidental".)
Foi mais um daqueles momentos "a minha vida dava um filme": daí a nada estava a ouvir histórias incríveis àquelas mulheres. A que trabalha na televisão e ainda tem o George Clooney e o Brad Pitt na sua bucket list de maquilhagem, mas já fez a máscara do Obama (que no fim lhe deu um aperto de mão e agradeceu o trabalho). A que vejo muitas vezes com carros de colecção (tantos, que às vezes nem se lembra em que carro veio nem onde o estacionou) começou a contar que um pouco antes do Verão de 1989 tentou fugir da RDA, com o então marido e o filho bebé, pela Embaixada da RFA em Praga. Ao fim de alguns dias, os funcionários da Embaixada disseram-lhe que teria de regressar a casa, e daí a levariam para fora do país. Regressaram, reencontraram os pais que - para defesa deles - não tinham sido informados das intenções de fuga e de repente depararam com a ausência na casa muito bem arrumada e com os cestos dos papéis vazios (um clássico dos que fugiam: a casa impecável, por bem saberem que seria passada a pente fino). Passou as semanas seguintes aterrorizada, sempre à espera do momento em que a Stasi viria tirar-lhe o filho para ser educado por uma família leal ao regime. Finalmente, informaram-nos que tinham 24 horas para deixar o país, e que não podiam levar nada com eles. As poupanças, o carro, os objectos pessoais: ficou tudo. Mas puderam sair com o filho.
(Eu a ouvir, e a pensar que a RDA os tratou como os nazis trataram os judeus que conseguiram escapar do país, e a olhar para o lago lindíssimo, os cisnes que passavam, o grou na outra margem, as copas das árvores centenárias, algumas delas plantadas por famílias de judeus que não sei se conseguiram fugir a tempo: quantas realidades paralelas se juntam a uma mesa de jardim?)
Outra amiga da roda contou que o muro a separou da avó, que vivia na RFA. Os pais dela meteram os papéis para sair do país, dizendo que se queriam juntar à família no ocidente. Dois anos depois, ela e o marido fizeram o mesmo pedido, e começou um martírio: várias vezes por mês eram convocados para ir prestar declarações à Stasi. Ela bem queria ir com o marido, por temer que a mais pequena contradição lhes fosse fatal, mas estava fora de causa. Várias vezes por mês iam separadamente ao interrogatório, sem saber se conseguiam regressar a casa, ou se se iriam juntar aos outros presos políticos. Ao fim de três anos, conseguiram autorização para sair. Um alívio, e também uma preocupação: que seria dos pais dela, que esperavam já há cinco anos? A autorização para estes veio umas horas depois, um último sinal do prazer sádico que o regime saboreava até ao limite. Saíram em Agosto de 1989. Três meses depois, quando o muro caiu, a primeira sensação foi de despeito: "então sofremos nós tanto para conseguir isto que eles agora recebem de mão beijada?!"
E depois a conversa mudou. Falaram de uma academia para cabeleireiros onde se consegue pintar o cabelo de graça e "mesmo quando sai um pouco mais cor-de-rosa ou laranja não tem mal, porque a cor se esbate ao fim de algumas semanas", além de que "nunca calhou de ficar verde". E da TºKºMax de Alexanderplatz que "tem as coisas mais interessantes, porque a clientela habitual tem gostos muito conservadores e só compra o que não interessa".
Alexanderplatz foi o palco da histórica manifestação de (segundo dizem) um milhão de cidadãos da RDA, no dia 4 de Novembro de 1989. Convocada por vários teatros de Berlim Leste, foi a primeira manifestação autorizada pelo regime sem ter sido por este organizada. Exigia-se o fim da violência, a respeito pelos direitos constitucionais, a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e a liberdade de reunião. Mais Democracia, em suma. Cinco dias depois, o muro caía. Trinta anos depois, pessoas que sofreram horrores para conseguir escapar ao regime de Berlim Leste vão a Alexanderplatz comprar sapatilhas de lantejoulas de uma marca cara, vendidas a preço de pechincha. Se a minha vida dava um filme, a delas dava um bom par de livros.
01 junho 2019
oficial, e às tantas também cavalheiro...
A tentar decidir que palavra mágica propor hoje na Enciclopédia Ilustrada, fui à Wikipedia, procurei "1 de junho", e descobri que o Eichmann está assim descrito:
- 1962 — Adolf Eichmann, oficial alemão (n. 1906)
"Oficial alemão". O organizador do Holocausto é um mero "oficial alemão".
É certo que as outras personagens também só são referidas pela actividade que as celebrizou e a nacionalidade (jogador de futebol argentino / navegador português / etc.), mas "oficial" não é a actividade que melhor descreve Eichmann, e nos outros idiomas a Wikipedia não faz este branqueamento da História:
Inglês: 1962 – Adolf Eichmann is hanged in Israel.
Francês: 1962 - Adolf Eichmann, criminel nazi, est exécuté peu après minuit dans la cour de la prison de Ramla, en Israël.
Espanhol: 1962 - Adolf Eichmann, líder nazi alemán (n. 1906).
Alemão: 1962 - Adolf Eichmann, deutscher SS-Obersturmbannführer
Como comentavam há pouco no facebook: "Wiki em português é um gigantesco fracasso coletivo."
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