30 janeiro 2019

"órgão"

Pela manhã, antes de sair a palavra do dia, venho em grande pressa, ufa ufa ufa, falar-vos de um #órgão sobre o qual tenho aprendido muito nos últimos dias: a vesícula. À minha vesícula devo o grande favor de não me ter deixado engordar neste Natal (nem em vários dos anteriores, se bem me lembro). A vidinha até não ia mal de todo - se não fossem os médicos à minha volta, o aiaiai-tens-de-tirar-isso, e eu a argumentar com a inviolabilidade do meu corpo, e eles que ai-e-pode-acontecer-isto-e-aquilo, e eu a dizer que já vivemos juntas há tantos anos que me afeiçoei a ela, sei lá o que será a minha vida depois desta abrupta separação, coisas assim. Só cá para nós: o argumento da inviolabilidade do meu corpo, no caso concreto deste órgão, é treta. A verdade é que temo as restrições alimentares que me sejam impostas mal me apanhem sem a vesiculazinha, e por isso teimo em manter o status quo. 

Mas este Natal não foi fácil, e por isso na semana passada fui ao hospital, o chefe do serviço explicou-me tudo, e marcou a operação: último dia deste mês. Disse-me que muitas pessoas têm pedras na vesícula e normalmente isso não é problema, mas a partir do momento em que têm dores é melhor tirar, antes que saiam e se instalem onde não devem, ou que provoquem uma infecção ou até uma ruptura que obriguem a uma operação de urgência. Depois passou-me para um colega bem mais jovem, um assistente que me explicou como é que a laparascopia vai decorrer (vão-me encher o ventre de dióxido de carbono, vou parecer um Trabi!), referiu tudo o que pode correr mal e como é que esses problemas se resolvem, e respondeu ainda às minhas perguntas:
- Mas o meu corpo não precisa desse órgão?

- Não. A vesícula era necessária no tempo em que éramos caçadores e alternávamos períodos mais longos sem comer muito com grandes refeições cheias de gordura, quando abatíamos um animal. Aí, dava jeito ter uma reserva de "diluente de gordura". Mas hoje em dia, com a alimentação regular que fazemos, a vesícula tornou-se um órgão obsoleto no nosso organismo.
- Ah, bom. E o regime alimentar que terei de fazer depois da operação?
- Oh, não se preocupe com isso! Pode continuar a comer tudo, como comia antes.

Ora bem: este foi o primeiro médico a dizer-me que a ausência da vesícula não implica restrições alimentares. O meu primeiro impulso foi desconfiar. Mas depois reparei melhor na sua idade, e decidi que na nossa sociedade é importante dar uma chance aos mais jovens.

Portanto: amanhã cá vou eu: mudar alguma coisa, para que tudo fique na mesma.


28 janeiro 2019

nevoeiro em Agosto



Ontem, dia internacional da Memória do Holocausto, o segundo canal público alemão passou o filme "Nevoeiro em Agosto", baseado numa história verídica, de um ciganito que é separado do pai e internado num hospício por ter "problemas de rebeldia". De registar: a ZDF escolheu alargar a temática do Holocausto a outros grupos que também foram vítimas da loucura nazi.

O filme expõe o contexto no qual ocorreram os assassinatos de 200.000 pessoas com doenças mentais, durante o período nazi. Se tiverem oportunidade de ver, não percam. De entre os aspectos mais bem conseguidos, destaco a referência à posição de parte da Igreja Católica, e a figura do director do hospício: um médico simpático e muito dedicado aos seus doentes, que num momento brinca com as crianças da enfermaria, e no momento seguinte está a decidir que nomes vai riscar da lista dos vivos.

Já conhecia alguns factos sobre a perseguição aos ciganos e o programa de eutanásia nazi. Mas nunca tinha ouvido a justificação da eutanásia em palavras tão simples, e numa lógica tão fácil de acompanhar, como acontece num discurso nesse filme. E choquei-me com os factos revelados no final:
- O programa de assassinato de doentes continuou várias semanas após a capitulação da Alemanha.
- O director do hospital foi condenado a um par de anos de prisão, mas não chegou a ser preso por se considerar que não estava em condições físicas de cumprir essa pena.
- A enfermeira que envenenava as crianças foi condenada a quatro anos de prisão. Após cumprir a pena, retomou o seu lugar de enfermeira num hospital de crianças.


25 janeiro 2019

reais catástrofes



Programa para hoje: além do restante trabalho, aprender de cor os textos de cinco das canções que vou cantar com o meu coro no concerto de hoje. Os bilhetes já estão todos vendidos, os figurinos experimentados, o pianista (que é o português Rui Rodrigues, yay!) a postos - a única coisa que falta é eu fazer a minha parte e aprender a cantar tudo muito bem.
("Cinco para a meia-noite" é o meu nome do meio, triste vida.)

O coro foi criado em 2016 e já tem um belo histórico de façanhas. De todas, a que mais me impressiona é a capacidade de delegar do nosso maestro: praticamente todos os membros do coro assumiram a responsabilidade por uma tarefa concreta - partituras (cópias, distribuição, direitos), gestão da página na internet, listas de mailing por temas e naipes, informações várias, abrir e fechar as salas onde ensaiamos, instalar os pianos electrónicos e arrumá-los no fim, etc.
(A mim calhou-me: aprender a cantar bem as peças cinco minutos antes do concerto...)




O nome do programa do concerto de hoje e do próximo domingo é "reais catástrofes". Todas as peças são sobre reis ou rainhas - desde "All Creatures Now", de Bennet, até "König von Deutschland", de Rio Reiser - em grande diversidade de épocas e estilos musicais. Os apresentadores prepararam textos tão divertidos quanto profundos. Por exemplo, quando chamam a atenção para a atemporalidade do desespero do rei de Ungewitter, de Schumann: "no alto deste castelo / não sou rei com espada e coroa / sou o filho impotente e apreensivo / destes tempos de cólera".
(Ou pensaram que o nome "reais catástrofes" era em minha homenagem? heinhe?) (bom, reconheço que seria merecida)



A encenação deste programa esteve a cargo de uma dramaturga de teatro musical que já conhecemos de alguns projectos da Filarmonia, e de uma das cantoras do coro, também dramaturga, mas da área do cinema. De modo que chegámos ao ponto de treinar a expressão do rosto e a direcção do olhar em determinadas passagens de uma canção. Além de concerto, é um show.
(Cantar afinadinho, alinhados à frente do maestro, é muito século XX.)  

Os figurinos, por sua vez,  são um espectáculo. Do meio dos cantores, vestidos de preto, sobressaem dois soberanos por naipe, profusamente produzidos. A minha favorita é uma das rainhas das soprano, que vem de chapéu real e blusa, mas traz sobre as calças pretas apenas uma armação de arames para saia. Sempre que olho para ela dá-me vontade de rir.
(Convém que não olhe para ela durante a parte do Ungewitter, do Schumann). 

De modo que agora cá vou eu ao trabalho: aprender de cor o texto do Bassa Selim e do König von Deutschland (logo eu, que sempre detestei a rapidez do rap!), o da Glor'würdge Königin, partes do Ungewitter e da Traurige Krönung. Ah, e treinar bem a tensão de "All creatures now", porque em certas passagens - aquelas em que me sinto mais segura - esqueço que se trata de música renascentista e espraio-me como se estivesse a cantar Schumann.
(Aprender textos alemães de cor, enquanto vou despachando as outras urgências do dia: "quadraturas do círculo" é o meu nome do meio.) (Com tantos nomes do meio, um dia destes o meu passaporte terá de vir com folhas desdobráveis.)

E além disso está a nevar. Se calhar também vai ser preciso ir limpar o passeio.
(Seria a primeira vez que alguém limpa um passeio a cantar a melodia do contralto no Bassa Selim.)



23 janeiro 2019

coisas da vida (no inverno)

Tarde e a más horas fui à varanda buscar a sopa de feijão que lá guardei (no inverno, a varanda é a minha extensão do frigorífico) e...
...estava congelada.
Tive de partir a sopa à faca.

Agora não sei se jante tarde, ou se tome o pequeno-almoço cedo.

Bach no supermercado, Bach no frigorífico


Tiro e queda: sempre que vou comprar leite, ou então já em casa, sempre que abro o frigorífico e agarro no pacote do leite onde está escrito "Weide Milch", os meus olhos param na palavra "Weide" e Bach brota em mim: "Schafe können sicher weiden".

Não o Bach da Schwarzkopf, da Kožená, mas esta interpretação tranquila da Buniatishvili, com floresta, galochas, tudo:



Aconteceu de novo há bocadinho. Fui comprar leite, e voltei para casa - pela rua escura e com seis graus negativos, que me importa? - na companhia doce de Bach e Buniatishvili.
  

(*) Weide Milch = leite de pasto (o costume: as vaquinhas tambêm têm direito à vida, e poderem pastar ao ar livre é o mínimo exigível, e assim vai a minha vida de consumista mais ou menos atenta.)


isto (também) é Berlim

Encontrei o que se segue na página "Free Advice Berlin" - um grupo berlinense de trocas de informações no facebook:

Gareth: Alrighty 55 year old mother dearest is coming for the weekend and I wanna scare the living shit out of her by taking her to party here after doing all the nice SFW family time restaurant and walks in the park stuff.
Best ideas on a postcard where she might actually also get in? Bonus points for gay parties.
I was thinking Ficken3000, my friendly neighbourhood cruising bar.
(Not Berghain obviously - c'mon you can be more creative than that fucks sake)

Algumas respostas:

A: There is a riot on Saturday.

 
B: Take her to the ausländerbehörde [serviço de estrangeiros]

C: KitKat Saturday night 'Craneball Bizzare' for full family fun!!

D: Come on.. I am 46 and do enjoy kit kat ...what if she won’t leave till 6 am. Gareth, can you cope with?
 
E: Come to Staub after KitKat if she wants to afterhour!
 
F:  You should also take into consideration the queues, waiting for 2h in the cold might not be the best for her. Schwuz is also in the hood. Not that Berlinish techno oriented, but bigger than Ficken3000.
 
Gareth: yeah exactly. I want to go to Klappe but they're much more serious about door policy and its too small and cramped for her i think

G:
Golden gate is always freaky as f(I've only been Sunday mornings though), and you could bring a dead person with you in there. You can also go to a club in the morning to avoid queues.
 
H: If Gareth takes his mother to Golden Gate on a Sunday, I will be there and witness this!
Ontopic: Try with Sameheads. Good music, ideal for warming up and adjacent to your place.
 
I: There is a new queer party starting at Sounds called Strap On. Might be a cute but sexy option for ma?
 
J:  Take her for a quiet evening at Tom's
 
K: Juwelias Galerie StSt on Sanderstr. 26 in Kreuzkölln. A wunderful and unique tranny-trashy-arty parallel-universe, where every person's always welcome. Every Fri & Sat eve from 20-24h. Just don't forget to put a couple of Eur into the pot. Die Lady ist sexy, aber arm! ["sexy, aber arm": expressão cunhada por Wowereit, sobre Berlim, que significa "sexy, mas pobre"]
  
 

L:
After Juwelia's you could drag your Mom to Roses on Oranienstrasse. She will be blinded at the end of the night.

M:
hi, I think it's a great idea! However, I beg you, don't go to places juts because of the people inside of the club or what they will be doing there. Remember it's their (our, yours) place for free expression, not for being exhibit like in a zoo.
Take your mom out, take her everywhere, but please don't do it to show "the weird" "the creep" (or simply and honestly put : the different from you or your parents) because here in Berlin how ever these people might look like to you or your mom, they are going to these places avoiding to be treated like such and gathering with people that don't judge them, just like any of us don't actually want to be judged anywhere.
Thanks and have fun with your mom
(otherwise, tell her to come back during CSD, 1rst of May, KDK, Nolendorfstrassenfest, or any other PUBLIC act where people deliberately are manifesting the fact that they want and are proud to be seeing, plus the vibes are simply great!! I have been doing that for 3 years now with mine when they visit and the shock is guaranteed ;) but they love it!!)

Gareth:
Nah I hate that exhibit shit too. I am taking her to party in all the places I go anyways. I was looking for recommendations for which place would be good this weekend, not likely to kick up a fuss that she's never been anywhere here and not too overboard for a more timid lady in her 50s and me, the offspring of that fling she must have had with Satan.
Anyways, you say that everyone's into free expression but, seriously, i'm half worried for her because of potential judgemental looks from people going to these places just to be seen. It happens, we've all done it and we all know it happens. Hell if I stand in line for Berghain it's like the fashion police giving me the twice over.
Just sayin'
Don't worry about it. She'ssafe with me and Berlin will survive this weekend of having an old lady around.  

N: The fact that she is older than you shouldn't be a problem in places where they have their regulars from the old 80-90s berlin (kit Kat, Berghain, Paranoid...)
Have fun!

O: 
*talks about not judging others, judges by preference*

Gareth:
who was judging by preference? if you mean me because I said bonus points for gay parties - that's because i am a gay man and due to personal reasons she has no interest to be hit on by randoms right now. less likely to happen at a gay party as i'm sure you'll understand

O:
not you. Im talking about the other guy who quickly jumped into concluding that you are taking your mom to those parties just to laugh and make fun of the people there, where in reality youre obviously looking for a fun place to enjoy your time with your mom. No worries i got what you mean.
 
M: .I really don't think you read the same as Gareth, since I don't even remotely think he thought I was judging him. A sing saying "please keep the toilets as you found them before using them" is not implying you cannot keep them clean, is actually just asking for a certain social standard behaviour... I still don't see the judgment in my comment or the aim it has...

P para M:
yes, I feel you. That's one of the reasons why Berlin clubs have tough, selective doormen: to "protect" the space inside, keep out the Lonely Planet tourists, and only admit people who will *contribute* to the party.

Q:
If it's the last Saturday of the month, take her to Gayhane, too, habibi !

R:
Please Lol. His mom ist only 55. And having a son like Gareth, I m sure she s cooler as much of the young tourists visiting the city.
 
S:
KitKat will work!

T:
Berghain would be great though. Specially on Sunday

U:
Skip the party and go to an after-party

V:
Silver future bar!

W:
What an ass ... is your mother show her some respect ...

X:
I was wondering last two weeks about the same. To go and dance with mom, preferably gay party and disco but to avoid showing her amounts of drugs that people do. Is it even possible?
What about Schwuz? I've never been there (I'm boring going to Berghain or other techno shit).

Y:
I brought mine in berghain. She probably will get everywhere you also can. I borrowed my mom some clothes ahah

Z:
Well I like my schmutziges Hobby in Friedrichshain, is not too big but the environment is great

--
 
Acabaram-se-me as letras do alfabeto. Mas na página do facebook continuam os contributos que reflectem bem a diversidade de Berlim. 

(Agora vou-me retirar, para digerir em sossego a parte dos comentários em que partem do princípio que uma mulher de 55 anos é uma velhinha.)


20 janeiro 2019

"Westminster"

Ontem a palavra mágica era varanda e ninguém falou das marquises, agora é #Westminster e ninguém diz que faz hoje, precisamente hoje, um ror de anos que se realizou nesse palácio a assembleia parlamentar que deu origem à Câmara dos Comuns. 
Isto é uma triste vida, só vos digo: onde outros atiram o foguete, fazem "pum!" e vão buscar a cana, eu tenho de escolher a palavra do dia e a seguir também faço o post. Por este andar, só me falta mesmo pôr likes no que escrevo. Humpf! 😉
O que se passou foi o seguinte: a Magna Carta já ia a caminho do meio centenário quando Simon de Montfort, duque de Leicester, começou a achar que não bastava. A verdade, se querem saber tudo, é que em 1258 Montfort encabeçou um grupo de nobres descontentes com o governo do rei, que conseguiu impor a criação de um conselho que reduzia o poder real – algo bem mais exigente que a Magna Carta. As provisões de Westminster escritas em 1258 determinavam que o conselho se reuniria três vezes por ano para debater as questões do reino. 
Três anos depois, o rei Henrique III começou a sentir-se suficientemente forte para recuperar o poder perdido, mas a coisa correu-lhe mal. Seguiu-se uma guerra civil, e Montfort ganhou a batalha de Lewes contra o rei, capturando este e o príncipe herdeiro, que viria a ser Eduardo I. O país passou a ser governado por Montfort, que tinha um problema grave: a falta de aliados. Para conseguir o apoio de uma franja larga da sociedade, Montfort lembrou-se de convocar um conselho no qual, para além dos habituais barões, participariam também representantes eleitos do povo – bispos, abades, pares, cavaleiros dos Condados e cidadãos dos burgos. E até lhes pagou as despesas de viagem.
As sessões começaram a 20 de Janeiro de 1265, e foram até 20 de Março. Mas rapidamente se percebeu que Montfort inventara aquela modernice democrática para impor os seus interesses ditatoriais (passe o anacronismo). E, para complicar ainda mais a situação, depois desta experiência pseudodemocrática começou a enriquecer muito rapidamente.
Ora, na Idade Média não se perdia tempo com rodriguinhos: o seu aliado mais importante afastou-se, começou uma nova guerra, e em Agosto de 1265 Monfort viria a ser morto na batalha de Evesham. "The murder of Evesham," como escreveu Robert of Gloucester, "for battle it was none."
Trinta anos depois, a 13 de Novembro de 1295, o rei Eduardo I presidiu à primeira assembleia que se pretendia realmente representativa: dois cavaleiros de cada condado, dois cidadãos de cada burgo - a maior parte dos quais escolhidos por eleição em vez de nomeação. Em 1341 deu-se a separação das Câmaras – a Câmara dos Comuns para os cavaleiros, os representantes dos burgos e os cidadãos, e a Câmara dos Lordes para os barões e os clérigos.

E Simon de Montfort entrou para a História como um dos ditadores wannabe mais incompetentes do mundo: queria reforçar o seu poder, e acabou a facilitar o caminho à Democracia.
(Fossem todos os ditadores como ele!..)


menina veste rosa e não diz palavras feias

Ontem, ia pela rua (se querem saber tudo: carregada com as caixas que comprei para começar a enrolar a minha roupa, à la Marie Kondo) (sim, converti-me) (quer dizer: sou uma Kondólica pouco praticante, mas hoje, ao fim de cinco horas a enrolar camisolas, dei-me conta do poder daquela fé) quando comecei a reparar na conversa do casal ao meu lado.

Não é que eu seja cusca - a mulher é que ia a falar altíssimo, muito afirmativa, e entremeava o discurso com um chorrilho de palavrões que até parecia do Porto (mas para o caso de estarem aqui menores, não traduzo essas partes):

- Agora querem impor o fim das diferenças entre homens e mulheres, é tudo igual! Já me viste isto? Tudo igual! Homens não podem ser diferentes das mulheres! E mulheres não podem ser diferentes dos homens! Eu passo-me com isto! Fico cá com uma fúria, nem queiras saber! Onde é que já se viu, os sexos serem iguais? Depois acabam todos a gostar de todos, uma confusão dos diabos! E quem é que faz os filhos, digam lá, quem é que faz os filhos? Dá-me cá uma vontade de lhes dizer ó meus estes meus aqueles! Vocês são burros ou fazem-se?!

O homem (suspeito que queria lulas) ia respondendo com generalidades, dizia que sim a tudo, muito submisso. E ela continuava, cada vez mais alto e com cada vez mais palavrões.

Eu ia atrapalhada demais com a minha torre de Pisa feita de caixas-Kondo para parar a explicar-lhe a diferença entre sexo e género. Além disso, tinha muita graça ver o espectáculo de uma mulher a portar-se como um homem para defender a tese de que tem de haver diferenças entre os meninos e as meninas.


estrangeiros refugiados e nacionais sem abrigo

Copio para aqui um episódio que a Helena Ferro de Gouveia contou no facebook. Com histórias destas, como não acreditar na humanidade?

"Quando eu morava em Bona, duas ruas acima da minha havia (há ) um centro de acolhimento a refugiados. Na minha paróquia havia ( há) uma equipa de voluntários, da qual fazia parte, que os apoiava e ajudava a integrar na sociedade alemã. Um dia um sem abrigo alemão, que trazia todos os seus pertences num carro de mão ( também os há na Alemanha) veio ter comigo e perguntou-me: “como posso ajudar ?”. Face à surpresa que leu na minha cara disse : “eu tenho a minha vida aqui, apontou para o carrinho, tenho uma família que não vejo mas sei que está viva, estou no meu país”. Senti-me tão pequenina naquele momento face à nobreza daquele homem. Deixou-me um cobertor limpo, agradeci-lhe e ele saiu dali com um sorriso. Isto passou-se no pico da chegada dos refugiados sírios à Alemanha.
Para ajudar não é preciso muito, basta sentir."

Pensei num episódio que aconteceu perto da minha rua: um sem-abrigo estava a tentar dar uma camisola cor-de-rosa a um refugiado. Perguntava-lhe "o senhor não tem mulher?" Eu ia a passar com o Fox, e observava a cena. O refugiado não respondia nada. Nem devia estar a entender o que o homem queria. E então o sem-abrigo deu-me a camisola a mim. Explicou-me que se tinha enganado na cor quando a tirou no armazém para os sem-abrigo, e que não queria andar de cor-de-rosa, mas também não a queria deitar fora, porque era 100% algodão.

Nesta minha história, e na da Helena Ferro de Gouveia, há um ponto comum muito importante: os sem-abrigo são muito mais do que esses "coitadinhos amorfos" dos quais nos lembramos quando precisamos de encobrir as nossas posições egoístas e xenófobas.



19 janeiro 2019

"varanda" (2)

(foto: ap - aqui)


Em Berlim há uma #varanda muito digna de menção.
E se a varanda de uma terrinha como Weimar já deu uma história tão longa, preparem-se, porque a de Berlim tem ainda mais para contar.
(O que se segue é em grande parte síntese de um artigo de Stefan Reinecke publicado no TAZ a 8.11.2018, juntamente com informações e apartes meus.)

Falo da varanda sobre o portal IV do palácio do Kaiser, virada para o Lustgarten, o conjunto dos museus e a catedral. Como toda a gente sabe, foi dessa varanda que Karl Liebknecht proclamou a República no dia 9 de Novembro de 1918. Pois: parece que toda a gente sabe, mas não é verdade. O artigo do TAZ pelo qual tentei verificar o conjunto de informações soltas que tenho sobre esse dia afirma que o 9 de Novembro não terá sido uma das horas mais brilhantes do jornalismo alemão no que diz respeito à informação factual: a acreditar nas descrições dos três maiores jornais de Berlim, nesse dia Liebknecht terá chegado ao palácio por três lados diferentes. Um jornal informa que ele fez a proclamação da República a partir da varanda sobre o portal IV, outro afirma que foi de uma janela. Por sorte, cinquenta anos mais tarde, a 9.11.1968, o jornal Neues Deutschland, do partido único da RDA, soube relatar com segurança a versão que assim entraria para a História: "Ao som dos gritos de júbilo da multidão, a bandeira vermelha é içada no mastro imperial. Da varanda do palácio, Karl Liebkencht proclama a República Socialista Alemã".

Karl Liebknecht: saído da prisão em Outubro, onde cumprira pena por se ter oposto à primeira guerra mundial (ele e Rosa Luxemburgo não tinham conseguido compreender, e muito menos aceitar, a cedência dos socialistas aos propósitos do Kaiser de declarar guerra aos primos), andava por esses dias em febril actividade revolucionária. Mas era olhado com desconfiança, e não conseguia aliados, porque o mundo pacífico que prometia não batia certo com as notícias alarmantes que vinham da Rússia: o assassinato da família do czar e os traços cada vez mais ditatoriais dos bolcheviques. A esquerda alemã estava dividida em duas grandes correntes ideológicas - a revolucionária, de Liebknecht e do seu Spartacus, e a reformadora. Esta conseguiu antecipar-se no domínio dos acontecimentos: a República foi proclamada pelo social-democrata Scheidemann no Reichstag no dia 9.11.1918 às duas da tarde.

E Liebknecht? Não se sabe sequer se ele teve conhecimento do que estava a acontecer no Reichstag. Aparentemente, andava por Schöneberg e Steglitz, a proclamar a República Socialista de cima de um carro. E em algum momento terá chegado ao palácio do Kaiser, já sem protecção depois da abdicação do monarca, e terá subido a um andar superior. Mas chegou à famosa varanda? Ou abriu uma janela e gritou daí? Ninguém sabe dizê-lo com toda a segurança, excepto o jornal Neues Deutschland, naquela sua famosa edição de 1968.

A carta que Gertrud Müller enviou em 1967 ao Instituto do Marxismo-Leninismo, contando os acontecimentos que testemunhou nesse dia, foi ignorada. Aparentemente, ninguém queria saber da descrição de um Liebknecht a chegar ao palácio ao escurecer, e a assomar a uma janela parcamente iluminada por velas - a mesma janela de onde já dois homens tinham discursado para a multidão na praça, para a acalmar e evitar pilhagens.

É que uma janela mal iluminada combina mal com um herói. Tinha de ser uma varanda. E nem podia ser uma varanda qualquer. Escolheram aquela, por estar directamente ligada ao anúncio da guerra feito pelo Kaiser - a guerra que Liebknecht recusou liminarmente. A escolha do local para a História inventada (ou retocada, pelo menos) foi também o acto simbólico de voltar à encruzilhada de 1914, quando os sociais-democratas aceitaram a senda da guerra e se afastaram dos seus irmãos socialistas.

O palácio imperial foi atacado no Natal de 1918 e bombardeado no fim da guerra, em 1945. Em 1950, o regime decidiu destruí-lo inteiramente, para criar no centro de Berlim, junto ao seu novo Palácio da República, uma praça para as grandes manifestações, e para acabar com aquele símbolo do feudalismo. Mesmo assim, guardaram em lugar seguro alguns elementos mais significativos do edifício, que foi rebentado com 13 t de dinamite. E um desses elementos era a varanda da qual se dizia que foi a escolhida por Liebknecht para anunciar a República Socialista. Nos anos sessenta do século passado, a famosa varanda seria reconstruída a um par de metros de distância do seu lugar original, e integrada na fachada do moderno edifício do Conselho de Estado da RDA - mas em versão politicamente correcta: sem a águia imperial, por exemplo.
Diz o jornalista do TAZ: "À volta do portal de Liebknecht, essa relíquia socialista, foi construída uma casa para receber visitas de Estado. A política histórica do SED era tão subtil como uma carga de dinamite."

Em 1989 o muro caiu. Após a reunificação, o Palácio da República da RDA foi destruído numa manobra tão imperdoavelmente traiçoeira quanto pouco original: repetia o que o SED fizera ao palácio do Kaiser quatro décadas antes. Em Berlim nasceu um grupo muito forte que conseguiu impor a reconstrução do antigo palácio. Um pastiche de 700 milhões de euros.
 
Este novo edifício tem uma fachada barroca e um interior muito moderno, onde se exibirão as colecções que até agora estavam nos museus de Dahlem. Apesar do local, da fachada, e até de integrar alguns dos elementos arquitectónicos que foram salvos do palácio original, não se chama palácio imperial. É o Humboldt Forum. 

E a famosa varanda do Liebknecht lá está, novinha em folha, a poucos metros da original, a tal que foi reconstruída no meio de um edifício feioso dos anos sessenta da RDA.

Moral da história: quem estiver na ilha dos Museus e vir duas varandas iguais em edifícios diferentes, não precisa de desconfiar da quantidade de cervejas que bebeu.
Quem anda a beber demais, pelos vistos, é Berlim.

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O que se segue já não é sobre a varanda do Liebknecht, mas é um apontamento digno de nota: Karl Liebknecht continuou a sua linha de "tudo ou nada", como anotou no seu diário nesse 9 de Novembro. Recusou-se a entrar num governo com os sociais-democratas, por lhe parecer demasiado reformista e pouco ambicioso. Diz o jornal: "Liebknecht representa o esplendor e a miséria do radicalismo de esquerda, a coragem inabalável e o zelo cego, a energia infinita e o arrogante moralismo. Faltava-lhe o que Ebert e Scheidemann tinham em abundância: pragmatismo". Dois meses depois - fez agora cem anos -, seria assassinado, tal como Rosa Luxemburgo, em circunstâncias até hoje não inteiramente esclarecidas. Na Potsdamer Platz (junto à entrada para o metro U2, no início da Stresemann Strasse) há um pedestal em pedra para uma estátua de Liebknecht, que foi iniciativa da RDA em 1951, para lembrar o protesto do político contra a guerra, no primeiro de Maio de 1916, que o levaria à prisão até 1918. Mas, com a construção do muro de Berlim, o pedestal ficou esquecido naquela terra de ninguém entre o Leste e o Ocidente. Depois de 1989 foi desmontado, e mais tarde reconstruído no mesmo lugar.
Diz o jornal: "Liebknecht foi uma personagem trágica da História alemã: a revolução que sonhava não passou de uma miragem, e não conseguiu entender a revolução que aconteceu realmente.
Um pedestal sem estátua é disso uma boa metáfora." 


"varanda"


Na praça principal de Weimar há uma #varanda arrepiante: foi feita de propósito para Hitler se mostrar à cidade e ser aclamado pela população que o adorava.

Comecemos pelo princípio: em finais do séc. XVII fizeram naquele lugar uma casa de hóspedes que ganhou muito boa fama. Era o "Elefante". Bach morou na casa à sua esquerda, e ali nasceram vários dos seus muitos filhos, no local onde é agora o estacionamento do hotel. O palácio ducal ficava muito perto, tal como as casas de Lucas Cranach, de Goethe, e de Schiller. Um hotel central, de grande renome, na praça mais importante da cidade. Nele se alojavam, entre tantos outros, os amigos de Goethe (ou a sua amada Charlotte Kestner, de que Thomas Mann viria a escrever o “Lotte in Weimar”), Franz Liszt, Richard Wagner, Clara Schumann, Hans Christian Andersen, Leo Tolstoi, Sigmund Freud, e também alguns dos fundadores da bauhaus, tais como Walter Gropius e Lyonel Feininger.O dramaturgo Franz Grillparzer, que se instalou no hotel em 1826, comparou-o à “sala de entrada na Valhala viva de Weimar”.

Tudo corria de feição ao antiquíssimo hotel, até que em Julho de 1926 Adolfo Hitler se alojou ali pela primeira vez. No registo consta: „escritor“ – afinal de contas, já tinha a primeira parte do Mein Kampf escrita. Weimar tornou-se uma das cidades favoritas do ditador, e o amor era correspondido. A cidade foi usada como o palco experimental de Hitler perante multidões. Em 1937 a antiga casa foi derrubada para dar lugar ao “hotel mais moderno da Europa”. Um edifício pesado, suficientemente sólido para um Reich de mil anos. Com uma varanda, uma única varanda, para Hitler. Os weimarenses reuniam-se na praça, em frente ao hotel, gritando “Querido Führer, sê gentil, vem mostrar-te ao peitoril”.

Depois da guerra, o edifício foi transformado em centro de formação de professores. Quando Thomas Mann visitou a cidade em 1955, conseguiu dois grandes feitos: fechar Buchenwald (que continuava a funcionar como campo de concentração, sob gerência soviética) e reabrir o Elefante como hotel.
Depois da queda do muro os visitantes ilustres continuaram: Gorbatschow, Putin, Merkel, Udo Lindenberg, Pink Floyd, Joe Cocker, Sting, Patti Smith...
(e eu, que jantei lá uma vez) (hihihi)

A varanda continua lá. Não é muito fácil derrubar uma varanda que foi construída para durar mil anos. O hotel tenta limpar os vestígios do horroroso passado, pondo na varanda figuras positivas da História da cidade: a actriz Lilly Palmer, que participou no filme “Lotte in Weimar”, o arquitecto Henri van de Velde, que abriu o caminho à bauhaus, o escritor Thomas Mann, etc.

É verdade que está na praça mais importante de Weimar, e que é um hotel de luxo, e que há limites para a carga da memória que se exige que uma cidade carregue. Mas, apesar dos esforços de “limpar a varanda”, espero que os fantasmas horrorosos se mantenham presentes por mil anos. Não podemos esquecer.

quinze anos!

Pensava que este blogue nasceu a 19 de Janeiro de 2004
- 2004!!!! Isso foi logo a seguir à Pré-História! -
mas fui verificar e foi assim:


janeiro 19, 2004


Dois dedos de conversa...

... ou quantos forem precisos!

Um Blog fundado pelo , pela Lena e pela Céu. O Zé é o desafiador. A Lena é a nossa correspondente no estrãogeiro. A Céu é quem os meteu nesta "encrenca"! Estamos a congeminar Ideias e a pensar em convidar outros Amigos! Até lá!
Posted by zelec at 10:48 PM | Comentários: (0)

janeiro 18, 2004


Domingo


nada de novo... mais um teste
http://conversa.blogs.sapo.pt/

Posted by zelec at 11:54 AM | Comentários: (0)

janeiro 17, 2004



aquele abraço!


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Posted by zelec at 02:33 PM | Comentários: (1)

para começar...


Temos este blog!

Posted by zelec at 02:22 PM | Comentários: (0)
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Portanto: 17, 18, 19 - três dias para arrancar, e três amigos.
Começou a sério no dia 31 de Janeiro, com um post meu sobre os países ocidentais e o terrorismo. Estávamos no décimo mês da invasão do Iraque feita pelos EUA, mas o post começava num registo de humor. O Dois Dedos de Conversa, igual a si próprio desde o princípio: ora piadinhas, ora temas muito sérios, e por vezes ambos no mesmo post.

Republico apenas a parte inicial desse texto de 31.01.2004. O resto, é melhor que fique perdido por aí, porque me sinto um pouco embaraçada com o que lá escrevi. Quinze anos mais tarde, ao reler o que escrevia no princípio, olho com gratidão para este blogue e para todos aqueles com quem aqui tenho trocado ideias: alargaram o meu horizonte e ajudaram-me a pensar mais.

Daqui a quinze anos, provavelmente escreverei um post chamado "trinta anos!", relerei o que escrevia por alturas da Idade Média do blogue (hoje), e sentirei provavelmente embaraço pelo que escrevia em 2019 e seguintes, e pensarei com gratidão em todos os comentadores que me terão ajudado a alargar horizontes e a pensar mais.

E assim vai a vida.
Obrigada por estarem aí.


a pró-actividade nas relações internacionais e o que mais se verá

Este blog está óptimo: hora após hora, dia após dia, semana após semana... não acontece nada!
É o blog mais sui generis de toda a blogosfera.

Talvez fosse boa ideia acrescentar uma musiquinha new age e uma voz suave: "olho para o monitor... sinto o vazio... apenas o espaço branco... o silêncio... a calma instala-se à minha volta... vejo de novo o ecrã vazio... a prova de que há vida fora da internet, já que ninguém tem tempo para escrever aqui!"

Tempo mudar de vida no blog, e por isso cá vai o primeiro post.

(...)