31 julho 2018

a dieta que vou começar depois de amanhã...


A famosa dieta que eu ia começar amanhã sem falta vai ter de esperar mais um bocadinho. É que puseram online o acervo completo da Maria de Lurdes Modesto, e não sei que me parece eu começar agora uma relação platónica com aqueles petiscos, quando o que me apetecia mesmo era comê-los todos.

"avião"

Esta pergunta é só para os (as?) maiores de 50 anos (pronto, já me desgracei): quem se lembra daquela história da Fagulha (pronto, já me desgracei outra vez) do miúdo que fez a sua primeira viagem de #avião, mas levava a irmã bebé, que se fartou de berrar, e ele foi o tempo todo a tentar acalmá-la e o raio da miúda só adormeceu quando o avião aterrou?

 (lembro-me de cada coisa! )
(escusam de responder - assim como assim, ninguém deste grupo lia a Fagulha)

Depois a hospedeira deu um grande elogio ao miúdo, e ele percebeu que cumprir o seu dever é mais importante que saborear a primeira viagem de avião.

Li a Fagulha, mas não aprendi nada daquelas histórias tão edificantes. E foi justamente num avião que se passou uma das histórias de que mais me envergonho na vida. Estava a fazer a minha primeira viagem em business, no tempo em que a minha empresa dava esses luxos até a simples tradutores, e vi entrar no avião um senhor muito debilitado, que praticamente era carregado em braços por duas familiares. Estas pediram à hospedeira se ele podia sentar-se logo ali, porque não tinha forças para ir até atrás, e a hospedeira, no meio da secção business com muitas cadeiras vazias, respondeu: "comprou económica, é lá que se vai sentar".

"Oferece-lhe o teu lugar!", ordenou-me o tal maldito inquilino (estou a citar não sei quem da Mafadinha). Mas eu, ai e tal, tenho vergonha de armar aqui uma cena destas, só de pensar nisso já corei, e depois estava tão contentinha por experimentar como é em business, e entretanto o senhor já estava quase a chegar ao seu lugar e era demasiado tarde.

O tal maldito inquilino está de mal comigo desde então.

30 julho 2018

já é mania de se armar em especial... (2)

(fonte)

Há dias contei que os bombeiros da área de Berlim se depararam com uma dificuldade inesperada ao tentar controlar o incêndio de uma floresta: explosivos que ali estavam esquecidos desde a segunda guerra mundial começaram a rebentar.

Hoje a newsletter do Spiegel voltou ao tema:

O horror das alterações climáticas

Para além dos furacões, das inundações e da actual onda de calor, os cientistas identificaram mais uma consequência ameaçadora das alterações climáticas: as fases de calor tropical no verão  provocam um tal aumento da temperatura que as munições militares esquecidas nas florestas desde a segunda guerra mundial podem explodir de forma espontânea. O calor que também hoje se fará sentir implica um altíssimo risco de incêndios florestais e explosões. Que perspectiva assustadora: as alterações climáticas que estão a derreter os glaciares e a provocar a subida do nível do mar trazem também de volta alguns horrores da segunda guerra mundial.

28 julho 2018

o interrogatório que fizeram ao Matthias à chegada aos EUA

"Já tinha passado o custom control e estava a chegar à última porta quando dois agentes de segurança repararam em mim e disseram "oh yeaaah lets check this one".
Primeiro tive de abrir a mala e a mochila e mostrar tudo o que lá estava - comentaram cada uma das coisas que viram. O tamanho das minhas camisas, porque é que tinha vinho do Porto, porque é que tinha Haribo, porque é que tinha tabaco e filtros (no pacote dos filtros lia-se "slim filter" e eles: "slim filter, slim guy?! Hahah"). A seguir, quiseram saber o que é que eu tinha comido nas últimas 16 horas.
- Respondi: airplane food.
- What exactly?
 

- Chicken and rice.
- Where did the chicken come from? You know, it can come from dangerous places and be intoxicated.
Eu a pensar: estão a gozar comigo, ou quê? É a porcaria da comida do avião, sei lá eu onde é que foi comprada!
Só perguntas parvas, umas atrás das outras sem parar, lançadas de forma agressiva para eu não ter tempo de pensar.
"How old are you? 26? What did he say? 25?"
Não consigo descrever bem - só sei que se tratava de pessoas que tinham realmente prazer em fazer terror psicológico. Depois perguntaram quais são as minhas origens, e qual dos meus progenitores não era alemão. Ridicularizam o meu nome português e riram-se muito.
Sentes-te exposto e embaraçado, apesar de não teres feito nada, e não podes fazer nada contra eles.
A mulher que escolheram a seguir a mim fez-me ainda mais pena: só a escolheram por a acharem muito atraente.

(...)
Eu sozinho contra dois agentes que se revezavam a fazer perguntas, a um ritmo extremamente rápido e sem me dar tempo para responder. Um sem-número de perguntas, a maior parte delas sem importância, para ver como eu reagia sob pressão. Podia mostrar-te o que havia na minha mala e dizer-te o que perguntaram sobre cada uma daquelas coisas, tão invasivas foram as perguntas que me fizeram."


++

O Matthias tem 21 anos, é branco, alemão, mora em Berlim, e viajava com visto e documentação para trabalhar durante dois meses em Harvard.
Se é assim que tratam uma pessoa que pertence ao grupo de privilegiados absolutos do planeta, como será com os mais frágeis?

++

Há quase trinta anos, ao regressar de Cuba, o Joachim assistiu a uma cena semelhante com uma jovem estrangeira. Os guardas alemães em Frankfurt tiveram um gozo danado em inspeccionar-lhe a lingerie. O Joachim interpelou-os, disse-lhes abertamente que não podiam abusar assim da sua autoridade, anotou os nomes, e fez uma queixa por escrito. Passadas algumas semanas recebeu uma carta onde o informavam de que tinha sido aberto um processo contra esses dois agentes.

É uma grande vantagem ser cidadão de um país cuja Constituição começa com a frase "A dignidade humana é inviolável". E é sobretudo uma responsabilidade.

viva! está a chover!

 

 
Há semanas que não chove. Nos últimos dias a temperatura tem andado acima dos 30 graus.
A relva do jardim - que resolvi deixar de regar, porque não aguento ver tanta água a ir pela areia berlinense abaixo - já está para lá de palha. E eu com isso? O meu jardim é uma experiência darwinística em versão terceiro milénio: ando a ver quais são as espécies mais aptas à sobrevivência no clima do futuro.

Mas há pouco começou uma ventania das fortes, e agora mesmo rebentou a trovoada: relâmpagos e trovões praticamente em simultâneo, e eu aqui: toda contente com o vento, o fresquinho, a chuva, e este show estrondoso da Natureza.


hoje o dia já me começou impecável


Hoje o dia já me começou impecável:

1. Mensagem do Matthias a dizer que já chegou (e que a poucos metros da saída foi tirado para o lado para interrogatório por dois homens especialistas em intimidação psicológica, que acabaram por autorizar a sua entrada no país) (se fazem isto a um tipo com visto e documentos de Harvard, como será com os outros?) (ia dizer: mais um motivo para não querer voltar aos EUA, mas depois ocorreu-me que, por pertencer ao espaço Schengen, não sei o que custará entrar na Europa - e a história trágica do Aquarius, do Lifeline e de todos os que se seguiram e seguirão não me autoriza qualquer sentimento de superioridade europeu em relação aos EUA)

2. Um pedido para entrar na Enciclopédia Ilustrada, com respostas adequadas às perguntas que são feitas a todos os interessados. Geralmente recebo pedidos de pessoas que não se dão ao trabalho ode responder a essas perguntas, ou então dão respostas tão patetas que me obrigam a decidir se recuso liminarmente ou se gasto o meu rico tempo a ir investigar quem será o engraçadinho, e se terá perfil para fazer parte deste grupo. Uma resposta directa e concisa como a que recebi hoje é um caso tão raro que o meu coraçãozinho de gestora da casa se alegra: afinal há vida inteligente e educada do lado de lá desta coisa dos grupos no facebook!

3. Isto: Maria João Pires + Carlos do Carmo + Vasco Graça Moura + António Vitorino d'Almeida



Vou sempre a jogo quando me convidas
E apenas sei que perco sempre a mão
Há no baralho amor e solidão
E atraiçoa-me o tempo às escondidas

As coisas sendo assim são o que são:
Com gaivotas de sombra repetidas
E as cartas já todas distribuídas
Eu apostei a alma e o coração

As ilusões passaram das medidas
E em noites tresloucadas de paixão
Trazes um cheiro a fado e a perdição
E dás cabo de mim e não duvidas

Nessas linhas que tens na tua mão
Há estrelas cadentes esquecidas
E é na sina febril das nossas vidas
Que eu vou morrer da tua ingratidão

27 julho 2018

e lá foi ele outra vez



Mais uma despedida no aeroporto: o Matthias vai fazer um estágio numa universidade dos EUA.
Mais um jantar de despedida: ontem, na casa dele. Convidou os amigos, eu fiz carradas de comida vegetariana e levei para comermos juntos. Uma das coisas que me dá prazer em ser mãe destes filhos é a naturalidade com que juntam relações e gerações diferentes.

O Fox voltou para a nossa casa. Coitadinho.

E como de costume quando o Matthias voa, há problemas na sua rota. O avião saiu de Berlim com mais de uma hora de atraso devido a um temporal algures. Espero que ainda dê tempo para mudar em Londres (e comprar uma garrafinha de vinho do Porto para a família onde vai morar - sim, que o rapaz está a sair para dois meses, mas leva apenas bagagem de mão). E que não se esqueça de olhar pela janela à hora da eclipse da lua.

E que corra tudo bem.

já é mania de se armar em especial...



Os bombeiros continuam a lutar contra um incêndio que deflagrou ontem perto de Berlim, e atingiu cerca de noventa hectares de floresta. Durante algumas horas as auto-estradas estiveram fechadas, e pensaram até evacuar toda a população de uma localidade. De momento a situação parece estar controlada.

Até aqui nada de muito especial - excepto a absoluta anormalidade deste mapa de risco de incêndios florestais na Alemanha:


Apesar de 30% do território deste país ser floresta, o clima até agora garantia níveis de humidade que impediam fogos de grande vulto.

O que foi diferente neste incêndio às portas de Berlim: os bombeiros tiveram de interromper durante algum tempo o trabalho porque começaram a ouvir explosões na floresta. Suspeita-se que sejam bombas da Segunda Guerra Mundial.



26 julho 2018

"vinho"

Um dos mitos fundadores dos arménios reza que, depois de a arca de Noé ter pousado no monte Ararat, os filhos deste desceram ao vale e começaram a plantar videiras na encosta da montanha. Foi assim que surgiu o primeiro #vinho do mundo. Infelizmente os georgianos não podem ver um pobre de camisa lavada, e desataram a espalhar por aí que o primeiro vinho do mundo foram eles que o fizeram. Um dia destes o Juncker terá de ir lá conversar com uns e outros a ver se fazem as pazes no que diz respeito a este assunto. Dir-lhes-á: "meus amigos, que interessa o passado? Olhemos antes para o futuro: o que interessa é que os vinhos da Arménia e os da Geórgia não deixem de correr para o meu copo!" Isto é uma metáfora, claro (ou o que é que vocês pensaram, hã?), e os arménios hão-de perceber que o que ele está realmente a sugerir é que a Arménia escape à esfera de influência da Rússia e se aproxime mais da União Europeia, e por isso lhe responderão: "Está tudo muito bem, amigo, mas antes arranje de passar para o lado de cá as nossas vinhas que crescem há muitos mil anos na encosta do Ararat". É que nos cortes e recortes do fim do império otomano alguém com poder esqueceu-se de fazer o trabalhinho de casa e deixou o monte Ararat (mais o que sobrou da arca de Noé, das primeiras vinhas do mundo, e das milenares igrejas arménias) (estas últimas não são uma questão simbólica) do lado da Turquia.

Na Arménia, quem vai de Yerevan para Nagorno-Karabakh, a meio do caminho, virando à direita, há uma estradinha sinuosa ao longo de escarpas rochosas com grutas onde encontraram vasilhas de barro com vinho velho de vários milénios (e logo a seguir uma cidadezinha que tem um restaurante onde servem umas batatas com carne iguaizinhas às que se comiam na casa da minha avó) (estou com muita vontade de voltar a esse restaurante, mas não sei se é boa ideia regressar a um lugar onde já fui tão feliz).

Entretanto, não sei que terá acontecido à tradição milenar do vinho arménio, que só me gabaram muito o seu Ararat: um vinho de uvas brancas semelhante ao cognac.

Na Geórgia, por seu lado, ainda há quem produza o vinho segundo as tradições mais arcaicas e carregadas de simbolismo: os kvevri (enormes ânforas onde se faz a fermentação, em locais subterrâneos) demoram sete dias a fazer, "tantos quantos Deus usou para criar o mundo". Muitas das vinhas espalham-se livremente pelas árvores (como as de enforcado, no Norte de Portugal), por arbustos ou simplesmente pelo chão dos campos. Para quem está habituado à matemática regularidade dos vinhedos europeus, aquelas paisagens de videiras todas desmazeladas são um espectáculo estranho e que faz desconfiar da qualidade do vinho.

Mas não, os vinhos da Geórgia têm cada vez mais fama - de tal modo, que um dos filmes que passaram no Culinary Cinema da Berlinale de 2018 (trata-se de sessões especiais, ligadas a um jantar preparado pelos melhores cozinheiros de Berlim) foi o documentário "Our blood is wine". Trata-se de um filme feito com i-phone, para permitir mais proximidade e naturalidade, descrevendo a viagem de um sommelier dos EUA ao encontro dos produtores de vinho na Geórgia.



Mais informações sobre o filme (e um teaser): Berlinale 2018.

25 julho 2018

quem o mandou andar por aí com o pescoço à mostra?...

A primeira imagem desta série é a notícia de uma tragédia enorme (caso estejam interessados em saber mais, este vídeo conta a história de forma mais completa; atenção: tem cenas muito pesadas).

As imagens seguintes são um conjunto de reacções à notícia, hilariante desforra dos comentários a que tantas mulheres são sujeitadas quando denunciam a violência de que são vítimas.






segurança pública


Há alguns meses, os bombeiros de uma cidade alemã alertaram para a sua incapacidade de fazer face à força da Natureza. No caso, falavam das inundações numa área de tal modo vasta que eles não conseguiam acudir a todas as necessidades. Semanas mais tarde, comecei a ouvir falar no risco altíssimo de incêndio nas florestas à volta de Berlim, vi imagens de campos de cereais a arder e li notícias sobre a dificuldade de controlar esses incêndios - não me lembro de alguma vez isto ter sido tema na Alemanha. Nas últimas semanas temos visto imagens das florestas suecas a arder (a Suécia costumava ser aquele país onde se fazia férias de Verão em galochas e impermeável) - e agora a tragédia de tantas vítimas mortais na Grécia.

Os bombeiros não estão - nem podem estar - preparados para isto. As alterações climáticas colocam-nos perante situações em que
um gesto inadvertido pode ter consequências mortais para muitas pessoas, e os Estados não se estão a mostrar capazes de garantir a segurança dos cidadãos.

A um nível micro, vamos sentindo os esforços de adaptação a esta mudança. Por exemplo, este fim-de-semana há um festival regional da rede Burning Man na Dinamarca (outro dos países onde galochas faziam parte do guarda-roupa de Verão), e as regras são tão estritas que nem permitem pequenos fogões a gás, só eléctricos (ou os tais fogões a gás em locais especialmente designados e controlados). Os próprios organizadores fiscalizam o cumprimento das regras, em regime de tolerância zero e com duras penalizações (conheço uma pessoa que está impedida de participar em qualquer festival dessa rede por ter desrespeitado a proibição absoluta de fazer fogueiras no Nowhere espanhol, numa época em que o risco de incêndio era demasiado alto).

Não sei se ainda vamos a tempo de inverter a tendência à escala planetária. Mas sei que temos de estar todos muitíssimo mais atentos às consequências dos nossos actos, e também dos dos outros. Temo que venha por aí uma espécie de clima de faroeste: perante Estados incapazes de garantir a segurança, cada cidadão tornar-se-á agente de segurança pública, controlando não apenas o seu comportamento mas também o dos outros. Está longe de ser o ideal, mas é provavelmente o cenário que se vai impor. E não será apenas no que diz respeito à protecção contra incêndios. O #metoo é outro exemplo de apropriação das funções do Estado quando se sente que este não as desempenha adequadamente.

Tempos estranhos para o ideal de Estado Democrático de Direito.

24 julho 2018

identidade e nacionalidade

Aquela conversa do Trevor Noah sobre os africanos se orgulharem dos feitos de outros africanos continua a dar-me que pensar. Deixando de lado o problema original que suscitou a resposta do embaixador (a ideia de que ser francês é uma questão de melanina), e passando para a questão das identidades e da cidadania, trago um comentário e dois artigos que partilharam no meu mural de facebook, a propósito do meu post anterior sobre este tema:

Só acrescento que tenho uma conhecida americana que odeia ser chamada african-american. A família que ela conhece (ou seja, provavelmente até aos avós) era americana, e ela não tinha desejo nenhum de se identificar como africana, quando a família era americana há algumas gerações. 
E um comentário que li por outra rede: não há uma caixinha para "caribean-american", se calhar porque no fundo o que se está a classificar é a cor da pele e não a origem/cultura/nacionalidade.


VOX:
Trevor Noah’s feud with France over race, identity, and Africa, explained
This history means that traditional French liberals — the camp in which Araud is best situated — have a very particular approach to race and racism.


They believe that the best way to convince French citizens to accept diversity is to convince French whites that Muslims and people of African descent are every bit as French as they are. Playing up their ethnoreligious differences, they believe, only serves to distance them from their essential Frenchness. What’s worse, they argue, it fuels a narrative on the French far right that people who aren’t European by blood can never truly become “French.”
(...)
Trevor Noah is, of course, coming from a different perspective. A black South African man working in the United States, he’s steeped in the culture of two countries whose entire existences were defined by race and racial oppression. Both nations have, in different and distinct ways, developed official cultures of multiculturalism — a celebration and accommodation of racial differences, rather than an erasure of them — as a means of trying to reconcile racial tensions.

Noah’s response video is essentially an extended defense of this model and a head-on critique of traditional French assimilationism. For one thing, Noah argues, the French model erases the positive pride that Africans, both on the continent and in the diaspora, feel in their common heritage.

É aqui que a questão do Brasil se torna muito interessante: tanto quanto sei, o sucesso deste país ao nível da política de integração das diferentes nacionalidades e culturas não lhe merece críticas por parte de outros países. 


The Guardian: How America's identity politics went from inclusion to division - não copio para aqui um excerto. Este artigo é para ser todo lido, atentamente.


23 julho 2018

campeonato mundial de futebol: quem ganhou, afinal?



Provavelmente já todos sabem a história (e até já estarão dois ou três escândalos mais à frente) mas faço um resumo para a meia dúzia de leitores deste blogue que não têm facebook: Trevor Noah, o actual apresentador do programa The Daily Show, fez uma piadinha a propósito da vitória da França, dizendo que o campeonato mundial de futebol foi ganho por África. E acrescentou: "I get it, they have to say it’s the French team. But look at those guys. You don’t get that tan by hanging out in the South of France, my friends". O embaixador da França enviou-lhe uma carta de protesto, e Trevor respondeu-lhe no seu programa. A resposta foi muito aplaudida nas redes sociais, especialmente nos meios de esquerda e anti-racismo. O que me surpreendeu, porque várias coisas me desagradam nesta resposta, e muitas outras me deixam intrigada. Seguindo a ordem da resposta de Trevor Noah:

0. A piadinha inicial não era muito boa - especialmente a parte em que explica porque é que eles não podem ser franceses. A Marine Le Pen não teria conseguido sintetizar melhor. Sai uma colher de sopa para Trevor Noah, "esta por dar argumentos ao inimigo". Além disso, aqueles jogadores não ganharam sozinhos. Há toda uma máquina envolvente: o treinador, os médicos e fisioterapeutas e os meios financeiros, por exemplo. Se entramos numa lógica de dividir segundo a cor da pele, acabaremos a perguntar se estes jogadores teriam o mesmo sucesso numa equipa e máquina exclusivamente de africanos. E logo aí se nota o efeito perverso desta conversa: ainda agora começámos, e já estamos a dividir entre "eles" e "nós". Obrigadinha, Trevor.

1. Admito que Trevor Noah tenha feito uma piada para o público dos EUA sem pensar no modo como seria entendida em França, onde as questões e tensões da identidade e da nacionalidade são tratadas de modo diferente. O embaixador reagiu como era seu dever de representante do Estado francês: afirmou que a nacionalidade francesa não é uma questão de melanina e recusou o racismo subjacente ao discurso de Trevor. Este podia ter dito "ó excelência, era só uma piadinha para o meu pessoal, cá na minha terra a gente ri-se muito" ou "tem razão, excelência, de facto a gracinha é um golo na minha própria baliza, porque estou a repetir os argumentos dos franceses racistas que infernizam a vida dos negros em França". Mas não. Resolveu dar uma lição ao embaixador, omitindo propositadamente a parte mais grave do seu próprio discurso e hostilizando quem, no cumprimento do seu dever, estava a lutar pelos direitos dos negros franceses.

2. Ler a carta do embaixador com sotaque francês é uma artimanha de ridicularização do oponente. Não é a melhor atitude para estar num debate sério.

3. Diz o embaixador: "The rich and background of these players is a reflection of France's diversity" - e Trevor corrige: "não é diversidade, é colonialismo". Não entendeu que o embaixador estava a lutar contra os vícios da herança colonial defendendo uma ideia de sociedade onde há lugar para todos em situação de absoluta igualdade, e optou por atacar jogando a carta da culpabilização. Um luta pela condição de iguais, o outro prefere sublinhar a condição de vítimas - não porque ela seja importante naquele contexto, mas porque lhe permite vexar aquele que escolheu ver como opositor. Qual dos dois serve melhor os interesses dos cidadãos franceses negros?

4. E chegamos a uma questão muito importante: segundo o embaixador, "France is indeed a cosmopolitan country, but every citizen is part of the French identity and together they belong to the nation of France. Unlike in the United States of America, France does not refer to its citizens based on their race, religion, or origin. To us, there is no hyphenated identity, roots are an individual reality". Trevor Noah pergunta: "porque é que não podem ter as duas identidades?"
A pergunta é muito boa, e a resposta dá e dará muito trabalho à Europa. Mas Trevor já tinha dado a resposta errada na piada inicial: não foi a França que ganhou, foi a África, tanto mais que aqueles jogadores não podem ser franceses, porque nem no Sul da França se apanha tal bronzeado. Se esses jogadores fossem simultaneamente franceses e africanos, a piadinha adequada seria semelhante à que fez um jornal espanhol quando Saramago ganhou o Nobel ("Nobel da Literatura - primeiro para Portugal e quinto para a Espanha"). Algo como: "França campeã pela segunda vez, África pela primeira!"
Voltando à questão essencial do hífen: talvez eu esteja condicionada pelo contexto europeu, mas aquele hífen causa-me confusão. Sinto-o não como enriquecimento, mas como estigma. É verdade que os descendentes de africanos não precisam de abrir a boca para se ter uma ideia da origem geográfica dos seus antepassados, mas - em minha opinião - uma sociedade igualitária deve dar a todos o mesmo nome de pertença, e a cada um a possibilidade de aderir aos contextos culturais que entender. Chamar a alguém "African-American" apenas devido à cor da sua pele é roubar-lhe de antemão a liberdade de ser quem quer, porque se parte do princípio que a cor da pele traz automaticamente consigo uma determinada cultura.   

5. Trevor diz que uma das coisas de que mais gosta nos EUA é a possibilidade de as pessoas poderem manter as várias identidades, e dá o exemplo de os irlandeses americanos celebrarem o seu St. Patrick's Day. Confesso que não conheço a sociedade francesa assim tão bem, mas já estive num bar irlandês em Paris a celebrar o St. Pactrick's Day. E não tenho ideia que os franceses filhos de emigrantes portugueses sejam obrigados a abdicar do bacalhau com batatas, e a celebrar o 25 de Abril ou o 10 de Junho na clandestinidade. Parece-me que Trevor está a exagerar diferenças entre os dois países para poder acusar a França de promover assimilação dos outros povos.
Independentemente disso, a questão de fundo é importante: a igualdade da cidadania obriga ao apagamento total de outras identidades? Dizemos que não, mas de facto continuamos - consciente ou inconscientemente - a exigir dos descendentes de estrangeiros um comportamento exemplar a 200%. Na frase seguinte Trevor menciona esta questão, mas de forma bastante infeliz.

6. Trevor explica o que o irrita mais: "quando os emigrantes africanos cometem um crime, são africanos. Mas quando ganham o campeonato mundial, são franceses. O refugiado africano que subiu pela fachada de um prédio para salvar a criança tornou-se francês ao chegar lá acima. Se tivesse deixado cair a criança, era outra vez africano".
Bom, se isso o irrita tanto, porque é que fez o mesmo, só que no extremo oposto? "Ganharam o campeonato mundial? Ah, então não são franceses, são africanos."
Primeiro erro: confunde o discurso nacionalista racista com o Estado francês (calma, a Le Pen ainda não ganhou as eleições). E mais uma vez não percebeu que o embaixador estava do lado dele, e a lutar contra a mentalidade que discrimina e exige mais dos cidadãos descendentes dos estrangeiros que dos outros.
Segundo erro: em nenhum país do mundo se tem automaticamente direito à nacionalidade apenas por se ter entrado nesse território. Enquanto estava no passeio, aquele africano estava sujeito às regras gerais de asilo ou emigração. Mas o gesto de pôr a sua própria vida em risco para salvar uma criança justificou que se aplicassem regras de excepção ao seu caso. E sim, se tivesse deixado cair a criança propositadamente em vez de a salvar de forma tão altruísta, nunca teria conseguido a nacionalidade francesa. Por outro lado, há maneiras menos perigosas de conseguir a nacionalidade francesa - a esmagadora maioria dos negros franceses conseguiu a nacionalidade sem precisar de ser um extraordinário desportista ou de salvar crianças penduradas de uma varanda.
Nem sei porque é que é preciso explicar algo tão simples. 

7. Trevor continua: "I believe context is everything. There are certain things that you can say — like, when I say to my friends, “What’s going on, my ni**a?” And if a white person came and said the same thing, yeah, there’s a big difference."
OK, OK. Entendi quase tudo. Excepto duas coisas:
- O contexto inclui o emissor da mensagem e o seu receptor. Se ele estivesse a fazer uma gracinha para um grupo de amigos, à porta fechada, tudo bem. Mas ele fez a gracinha para o mundo inteiro. Há públicos que vivem em contextos diferentes do dele e podem apropriar-se da sua piada para reforçar um discurso racista. O mínimo que tinha a fazer era aceitar a crítica que o alertava para o problema de outros contextos para além do dele, em vez de fazer a triste figura da outra que achava que, por ter uma avó judia, já podia dar ao seu livro sobre dietas o título "A Dieta de Auschwitz".
- Têm-me ensinado que há um racismo subliminar na simplificação "África" (a África não é um país, é um continente com milhentos povos e culturas) e na associação "pele escura => a terra dele/a é África". Também me impedem de dizer "a palavra que começa com N" por respeito aos negros profundamente traumatizados por este insulto. Trevor afirma que ele pode falar assim, mas eu não posso. Percebo que ele possa falar assim à porta fechada, para uma audiência escolhida a dedo e que ele conheça bem. Mas quando fala nesses termos para uma audiência mais alargada, está a minar o esforço geral - e louvável - para erradicar do espaço público simplificações e palavras que reavivam o trauma das vítimas do racismo.
Mais grave ainda: haverá com certeza coisas que uma pessoa negra pode dizer, e uma branca não pode. Mas a frase que recusa aos jogadores o estatuto de franceses devido à cor da sua pele é racista - independentemente da cor da pele de quem a diz.

8. "When I’m saying they’re African, I’m not trying to exclude them from their Frenchness but include them in my Africanness." - Esta frase é muito boa. Muito boa mesmo. Só é pena aquela maldita frase sobre o bronzeado que não se apanha nas praias francesas.

9. Duas questões finais, ligadas à identidade africana:
- Sabendo que os descendentes de escravos terão mais dificuldade em localizar a sua origem regional mas os filhos dos emigrantes africanos em França não têm dúvidas sobre o país e a herança cultural dos seus pais, parece-me estranho olhar para um negro francês e dizer que é africano - ele provavelmente dir-se-á francês, e talvez também senegalês (ou do Congo, ou do Mali, ou de Madagáscar, ou de qualquer outro país concreto) muito antes de se identificar como africano. Ou estou completamente errada?
- Essa "identidade africana" dos negros que vivem em países de maioria branca: quanto dela é realmente herança cultural da qual naturalmente se orgulham, e quanto dela é reacção a um ambiente hostil que ofende, humilha e rejeita com base na cor da pele?
Esta segunda hipótese põe a nu um sofrimento de séculos, que nos deve envergonhar e impor respeito mesmo - e especialmente - perante aquilo que nos parece uma atitude errada por parte de algum negro. Resta-nos trabalhar para que o mundo encontre um novo equilíbrio, e no futuro nenhum Trevor Noah precise de brincar a propósito de um troféu para se desforrar de um antiquíssimo e continuado sofrimento. 

Ou seja: esteve mal, o nosso Trevor Noah. Mas o mundo está muito pior que ele. E é esse mundo que temos de criticar e melhorar.
Obama, o visionário, aponta a direcção:





21 julho 2018

"queixo" (2)


Diz que há uma regra que obriga as mulheres da família real britânica a ter o #queixo sempre paralelo ao chão.

Li isso na internet em duas páginas diferentes, e até em línguas diferentes. Portanto, só pode ser verdade. Mas então, pergunto: como é que a rainha Vitória - que não tinha queixo - fazia?

E se alguma delas tiver queixo duplo, qual deles é que conta para o ângulo de 90 graus?

"queixo"


O simpático cavalheiro desta imagem é - se a wikipedia não me engana - o queixoso rei Maximiliano I da Áustria, pai de Filipe I de Espanha e avô de Carlos V/I (respectivamente imperador romano-germânico e rei de Espanha). Queixoso, sim, porque tinha um #queixo que deusmelivre, um queixo proeminente à maneira da Paris Hilton - e com isto quero dizer: demasiado, e sem servir para nada.

Ele, e os seus príncipes herdeiros mostrados neste retrato - todos queixosos, como se pode ver -, sofriam de prognatismo, também conhecido por mandíbula de Habsburgo, mandíbula de Áustria, maxilar de Habsburgo, maxilar de Áustria, lábio de Habsburgo ou lábio de Áustria. Trata-se de (mais uma citação da wikipedia) uma desordem genética desfigurativa, que se caracteriza pela existência de uma mandíbula inferior extremamente pronunciada, deixando como tal o lábio inferior significativamente afastado do superior.
Ora, a desordem genética surgiu na casa dos Habsburgos em finais do séc. XIV, num avozinho chamado Ernesto, mas por causa da mania de casar com os primos para manter o sangue puro e assim, aquele queixo lançado para a frente foi ganhando tal dimensão ao longo das gerações que - segundo me constou na internet - quando o imperador Carlos V entrou em Espanha para ser o rei Carlos I desse país, um camponês malcriado lhe atirou: "Majestade, feche a boca, pois as moscas deste país são muito insolentes".

Não sei o que é que aconteceu a esse camponês, if any, como também não sei que aconteceria aos pintores da corte se se descaíssem nos retratos que faziam. Pobre Velásquez, entre outros. Como retratar fielmente e ao mesmo tempo ocultar o queixo no meio da sala?

E pobres Habsburgos, que não tinham culpa nenhuma das políticas de casamentos ó pra trás, e nasciam com a cara tão desfigurada que nem conseguiam unir os lábios, nem mastigar como deve ser, nem falar com boa pronúncia. E um deles, o último, por sinal, nem filhos conseguiu fazer (também, pudera: com tal boca, os beijos dele haviam de ser bons, haviam...) (ponha o dedo no ar quem agora mesmo puxou o maxilar para a frente e tentou imaginar como se dá um beijo com os lábios assim afastados).

De modo que acabou-se ali a casa dos Habsburgos no trono de Espanha, e os Bourbon tomaram conta do assunto. Mas por causa das coisas e das primas também levavam consigo a tara do queixo grande, à qual, segundo dizem, acrescentaram mais algumas. Ouvi falar em loucura e em elevado apetite sexual, mas se calhar é boato.

"Ovídio"

Post encontrado por acaso no arquivo da Enciclopédia:

Ovídio

Lembram-se do eng. Sousa Veloso que passava a vida a falar do Ovídio da videira?

(Muitos anos mais tarde descobri que era oídio e não ovídio. Mas queria aqui deixar registado que quando erro, erro para grande: por menos que os clássicos, nem me dou ao trabalho de errar.

Agora pago a cervejinha da multa e acrescento aquela vez que a minha mãe perguntou se alguém sabia das meias do bebé e eu, com 3 anos, respondi que sabia: estavam no castelo do D. Afonso Henriques.
Eram as ameias. 


No infantário brincávamos muito aos cristãos e os mouros. Mas acho que não brincávamos aos ovídios, que aquilo era um infantário católico, não havia lá nada dessas porcarias.)

20 julho 2018

o melhor lugar do mundo é aqui - e agora

Gilberto Gil & Amigos - Refavela 40, 19 de Julho de 2018 em Berlim. O gingar da Bahia mesmo ao lado da chancelaria alemã, o sol, o terraço da Haus der Kulturen der Welt com o seu espantoso edifício a fazer de cenário. E o Gilberto Gil no centro de tudo: "canta, Berlim".

O melhor lugar do mundo foi ali, durante aquele concerto.

(Excepto a barulheira do público - este pessoal não tem cafés para se encontrar e pôr a conversa em dia?)



O concerto completo:










"parque" (2)

(Isto sou eu a usar o blogue como repositório das gargalhadas que às vezes me acontecem na Enciclopédia Ilustrada)

Post de uma colega enciclopedista, a propósito de "parque":













“Lagoa tranquila no #parque de Schloss Kammer”,
pintura de GUSTAV KLIMT, 1899

Comentário de outro colega enciclopedista:
Este quadro deve ter sido inspirado nas fotos da nossa
#querida_lider. Da série: o fotógrafo que veio do frio.



(Sim, na Enciclopédia Ilustrada chamam-me "querida líder". Já não há respeitinho...)


"parque" (1)

I.



Por causa desta minha carburação lenta ainda me vou desgraçar em multas pagas em mines. Bem me digo que por causa dos fusos horários vou dormir quando os colegas estão mais activos, e depois escrevo quando todos os outros ainda estão a dormir, e portanto - tecnicamente, digamos - ainda estamos na palavra mágica do dia anterior, mas a verdade é que um dia destes me vou desgraçar em mines, e nem a alma se me aproveita.
A propósito de um post sobre um  #parque temático da Madeira lembrei-me de um parque temático em grande, feito entre Berlim e Potsdam por um Kaiser alemão que gostava de brincar às casinhas. Nada menos que uma pequena Europa: o palácio italiano de Glienicke, o palácio inglês de Babelsberg (com o seu magnífico parque à maneira inglesa, com ruínas e tudo) (aimeudeus, que acabei de me lembrar de idêntico parque feito por Goethe em Weimar, com ruínas construídas usando as pedras do palácio ducal que tinha ardido poucos anos antes, etc., e se vou por aí só acabo daqui a duas ou três palavras mágicas) e, obviamente, uma aldeia suíça entre a Itália e a Inglaterra. Esta aldeia, com os seus chalets de madeira, é Klein-Glienicke, que ficou famosa por ser um "exclave" da RDA em Berlim Ocidental. Vejam o mapa: a fronteira passava pelo meio do canal, e este separava a aldeia de Klein-Glienicke do resto da RDA. Para fugir para Berlim ocidental, bastava saltar para um dos barcos que passavam encostadinhos ao fundo do quintal.
Quem vem a Berlim não costuma ir passear para aqueles lados, mas vale bem a pena ir visitar este parque temático imperial e, em particular, a aldeia que conserva ainda alguns dos chalets suíços (outros foram arrasados porque estavam demasiado perto do muro, e bastava saltar da varanda para entrar em Berlim ocidental) mas da qual se apagou praticamente tudo o que era vestígio desse tempo de má memória que foi o do muro de Berlim.
A ponte de Glienicke, essa grande do lado esquerdo da imagem, é a famosa ponte onde se trocavam os espiões.
(Se isto fosse os EUA já tínhamos aqui um fantástico parque de diversões, com pipocas, hot dogs e entradas a 20 dólares...) (vá, aproveitem enquanto é de graça)



II.

 

Carburação lenta, take 2 - para falar das colónias berlinenses do fim do século XIX. Por exemplo: a Colonie Alsen, no Wannsee, criada na segunda metade do séc. XIX como zona de fim-de-semana e repouso das famílias mais ricas de Berlim (perto do parque temático de que falei no post anterior), ou a "Colónia dos milionários Grunewald" (https://bit.ly/2LC0mt6), criada à imagem da Alsen, mas como zona residencial bem mais próxima do centro da cidade.
Os planos que aqui partilho mostram bem que os projectos de ambas previam talhões imensos, com apenas um palacete (mais as casinhas do porteiro, do jardineiro, etc.). Ou seja: uma casa no meio de um #parque privado. O projecto de Grunewald incluiu ainda a criação de vários lagos artificiais (esses que eu agora fotografo nos passeios com o Fox).
Ao longo dos cem anos seguintes, os parques foram dando lugar a mais casas. Por um lado a pressão imobiliária, que era enorme, por outro a crise de 1929, que obrigou muitos dos proprietários a vender parte do parque para fazer frente às despesas, mais a guerra que destruiu algumas das casas, mais os herdeiros que não tinham como manter tudo e vendiam talhões do parque, tudo isso contribuiu para que a actual paisagem destas ruas pareça uma anedota urbanística de mau gosto: a um palacete de ricos burgueses segue-se uma casa dos anos 30, depois um cubículo minimalista dos anos 60, depois um horror dos anos 90, e logo a seguir outro palacete de ricos burgueses do séc. XIX, uma casa dos anos 30, e assim sucessivamente. Em alguns casos, todas essas construções de épocas diferentes aparecem unidas pelo muro original do parque privado.
Entrem no google street view, e passeiem por lá (endereços possíveis: "Am grossen Wannsee" ou as ruas que saem da estação de S-Grunewald) para ver o aspecto actual desses bairros.


III.
Carburação lenta, take 3 (e último, que eu não ganho para mines, e vocês ainda acabam todos no vício só por minha culpa): os #parques nacionais. Não sei bem em que século começou a haver essa preocupação de preservar a natureza e a paisagem natural, mas em tardia hora criaram todos esses parques que hoje procuramos em busca de uma beleza e um equilíbrio perdidos. Isto dava para muitos exemplos e parágrafos de conversa, mas deixo apenas uma pergunta: não teria sido mais inteligente definir todo o mundo como Parque Mundial, e impor necessidade de autorização e regras claras para poder ocupar e estragar? E será que ainda vamos a tempo de mudar o paradigma?
(Diz a artista que está calmamente à espera que as duas leiras que tem numa aldeia minhota passem a ser consideradas terreno de construção...) (olhem para o que eu digo, olhem para o que eu digo, porque se olham para o que faço não vamos a lado nenhum)


19 julho 2018

verde vinho

Há dias lembraram na Enciclopédia Ilustrada a canção "Verde Vinho", de Paulo Alexandre.
Agora, quando está a chegar "aquele querido mês de Agosto" com as suas vagas de portugueses da diáspora que voltam à terra para matar saudades, este quase hino do emigrante regressa à ordem do dia. A canção mostra tão bem essa saudade sentida por quem está longe da sua casa, que nunca tive dúvidas: é inteiramente portuguesa. Mas isso foi só até ter ido morar para a Alemanha, até a ouvir na rádio, cantada em alemão. A primeira reacção foi: "ai! roubaram-nos o nosso Verde Vinho!"

Nada disso. A canção original é alemã, e refere-se aos estrangeiros que nos anos sessenta e setenta chegaram à Alemanha como resultado dos acordos entre a Alemanha e outros países (
Itália em 1955, Espanha e Grécia em 1960, Turquia em 1961, Marrocos em 1963, Portugal em 1964, Tunísia em 1965 e Jugoslávia em 1967). Em 1974, data em que surgiu o álbum, havia na Alemanha Ocidental quatro milhões de emigrantes, cerca de 7% da população total. A maior parte desses estrangeiros era constituída por turcos, jugoslavos e gregos. Muitos deles tinham feito viagens de vários dias em comboios enviados pela Alemanha sem cuidar das suas necessidades mais básicas (bancos sem apoio de cabeça, sem espaço para se estenderem a dormir), e eram alojados em barracas ou prédios sem condições (e, até 1973, com os standards mínimos definidos em função do país de origem das pessoas ali alojadas). A Alemanha chamava-lhes Gastarbeiter, "trabalhadores convidados", e via-os antes de mais como factores de produção que seriam usados temporariamente e depois devolvidos ao país de origem. Não se previa que ficassem para sempre - de facto, nem sequer estava previsto que viessem com a família. O país só estava interessado em factores de produção, e naquelas pessoas via apenas mão-de-obra. Que em breve, assim se esperava, seria substituída pelas máquinas entretanto inventadas. Mas enquanto as máquinas não vinham, vinham aqueles homens de países pobres, que - tal como os jornais começaram a alertar - ganhavam menos que os alemães, faziam inúmeras horas extraordinárias para poder enviar mais dinheiro para a família, viviam em espeluncas onde mais ninguém queria viver (e também em caves, sótãos, garagens) e pagavam rendas de casa muito superiores ao que era habitual.  

É neste contexto que surge a canção "Vinho Grego", na qual um alemão conta a história do dia em que, para fugir ao frio, entrou por acaso num bar que estava cheio de "homens de olhos castanhos" e tinha uma jukebox a tocar "música do sul". Passa-se na região industrial do Ruhr, nos anos sessenta, com emigrantes gregos recém-chegados. Ao contrário da versão portuguesa, que conta na primeira pessoa apenas a perspectiva dos tais "homens de olhos castanhos", a original é sobre um encontro entre pessoas de culturas diferentes. A canção revela aos alemães que, sob a capa de "factores de produção", existem seres humanos com uma história, com sentimentos e com necessidades.
Em 1974, cerca de uma década depois de o país começar a ser confrontado com a entrada de estrangeiros do sul da Europa em grandes vagas, está lá tudo: a empatia, a capacidade de entrar na pele do outro e de se dar conta do sofrimento e das dificuldades da sua vida. 
O álbum foi um enorme sucesso.

O que me intriga é a mudança de foco na tradução para o português: porque é que Paulo Alexandre pôs de lado este extraordinário momento de encontro de culturas e de recusa da cegueira e do egoísmo nacional, e transformou a canção numa "saudadice" pegada, focando-se na identidade dos portugueses na diáspora? Não seria muito mais rico contar em português este momento em que um "deles" viu, ouviu e entendeu o sofrimento dos "nossos"?

O texto português é conhecido. Por falta de tempo para traduzir o texto alemão, passo uma tradução para inglês que encontrei na internet:
Greek Wine


It was already dark when I walked home through the streets of the suburb.

There was a pub where there was still light pouring out onto the boardwalk.
I had time and I was cold, so I stepped inside.

Men with brown eyes and black hair were sitting there
And the music coming out of the jukebox was strange and exotic.
When they saw me one of them got up and invited me.

Greek wine is like the blood of the earth,
Come, pour yourself a glass.
And when I get sad, then it is because
I always dream of home,
You've got to excuse me.

Greek wine and the well-known songs
Pour another one
Because I feel the yearning for home again, in this city
I will forever be a stranger and alone.

And then they told me about green hills, the sea and the wind.
About abandoned women and old houses.
And about the child that has never seen its father.

They kept telling themselves, one day we'll go back
And the money saved up will be enough for a small fortune at home.
And soon nobody will think about it anymore, how it has been over here.

Greek wine is like the blood of the earth,
Come, pour yourself a glass.
And when I get sad, then it is because
I always dream of home,
You've got to excuse me.

Greek wine and the well-known songs,
Pour another one
Because I feel the yearning for home again, in this city
I will forever be a stranger and alone.



https://lyricstranslate.com/de/griechischer-wein-greek-wine.html

Greek Wine

It was already dark when I walked home through the streets of the suburb.
There was a pub where there was still light pouring out onto the boardwalk.
I had time and I was cold, so I stepped inside.
Men with brown eyes and black hair were sitting there
And the music coming out of the jukebox was strange and exotic1.
When they saw me one of them got up and invited me.
Greek wine is like the blood of the earth,
Come, pour yourself a glass.
And when I get sad, then it is because
I always dream of home,
You've got to excuse me.
Greek wine and the songs known of old,
Pour another one
Because I feel the yearning for home again, in this city
I will forever be a stranger and alone.
And then they told me about green hills, the sea and the wind.
About old houses and young women who are on their own.
And about the child that has never seen its father.
They kept telling themselves, one day we'll go back
And the money saved up will be enough for a small fortune at home.
And soon nobody will think about it anymore, how it has been over here.
Greek wine is like the blood of the earth,
Come, pour yourself a glass.
And when I get sad, then it is because
I always dream of home,
You've got to excuse me.
Greek wine and the songs known of old,
Pour another one
Because I feel the yearning for home again, in this city
I will forever be a stranger and alone.







(fonte dos dados acima: https://www.boeckler.de/pdf/p_wsi_report_16_2014.pdf)

18 julho 2018

poderoso soporífero

Qual é o google-doodle que vos aparece hoje? O meu é este:


Kurt Masur faria 91 anos. Aparentemente, é este o doodle que hoje se vê nos EUA, na Islândia, na Alemanha, na Bielorrússia e no Japão.

No Paquistão, o Google assinala o 91º aniversário do músico Mehdi Assan:










E em alguns países do Sul da Europa, em Israel, Austrália e Nova Zelândia o Google doodle é sobre o 104º aniversário do ciclista Gino Bartali, que salvou vários judeus do Holocausto.



Acontece que hoje se comemora o centenário de Nelson Mandela. Será que alguém anda a dormir profundamente ali para os lados do Google?

(Mas calma: isto não é nem um apelo à revolta nas redes sociais, nem uma insinuação de uma conspiração qualquer, nem nada. É um mero apontamento.) (Já agora, se me dissessem qual é o soporífero que usam...)


"Nelson Mandela"

Hoje a Enciclopédia Ilustrada tem um especial "Nelson Mandela" - et pour cause.

Partilho o contributo do Lutz Brückelmann:



Hoje temos #Nelson_Mandela unanimamente por uma das maiores figuras do século XX, um exemplo moral.
Isto não foi sempre assim.
Para Ronald Reagan, Mandela era um terrorista, e o ANC só foi removido da lista de organizações terroristas dos EUA em 2008!
O partido conservador britânico de Margaret Thatcher, e a iron lady herself, chamaram-no o "Black Terrorist" e o ANC uma „típica organização terrorista“. Deputados defendiam que fosse fuzilado. Quem acreditava que esta organização pudesse uma vez governar, vivia em „cloud cuckoo land“, disse Thatcher. Durante muitos anos, ela bloqueou, junto com o seu amigo Reagan, sanções contra o regime de Apartheid.
Na Alemanha ocidental, este regime tinha um defensor incansável em Franz Josef Strauß, o poderoso Primeiro Ministro da Baviera. Não aceitava sequer o termo „Apartheid“. Na sua opinião, a postura de elevada responsabilidade religiosa e moral do governo da Africa do Sul era um modelo para o mundo. Assim disse nos anos 60. E no fim dos anos 80, quando a comunidade mundial finalmente aplicou sanções, disse que nunca, na sua carreira política de 40 anos, tinha visto um tratamento tão injusto dum país como a que a Africa do Sul recebeu.
O concerto na ocasião dos 70 anos de Mandela em 1988, ainda preso na altura, foi emitido em grande parte do mundo, exceto na Baviera. Aqui, por iniciativa do governo, as emissoras substituiram o programa com a reposição duma telenovela.

Estas histórias dão me vontade de dizer o que muitas vezes penso, mas normalmente não digo:
Que os conservadores, ao longo da história, têm escolhido em questões morais consistentemente o lado errado. Se tivessem sempre vencido, ainda teriamos a escravatura, a tortura, a pena da morte, a menoridade das mulheres, não teriamos democracia, nem tribunais independentes, nem liberdade de expressão, nem saúde pública, nem segurança no trabalho.

--

E depois, num comentário:

Nos casos referidos, e em inúmeros outros, pode equacionar-se a postura conservadora - aqui: a favor da conservação da discriminação racial - com um clara inferioridade moral. Mas, como aprendi com Pedro Mexia e outros, há, filosoficamente, uma defesa teórica do conservadorismo do ponto de vista moral. O argumento visa não o conteúdo, mas o procedimento. A tentativa de alterar um statu quo imperfeito pode levar, dizem, em vez de para o melhor, para uma situação muito pior. Ser conservador é, visto assim, apenas ser prudente, e isto pode ser um imperativo moral.
Salta a vista, claro, que os que empregam este argumento, sempre estão bem na vida o suficiente para que não necessitem de alteração da situação para eles. Se necessitassem, por passarem fome ou serem escravos, por exemplo, estariam certamente dispostos de tomar riscos maiores. E há ainda muitos conservadores de convicção, que acreditam piamente na desigualdade enquanto uma lei da natureza que não só é impossível de alterar mas nem sequer se deve procurar superar!
Perante estes, já não encontro terreno comum para um diálogo moral.

O tema, claro, não se esgota nisto...



n't


Podia ser uma sitcom, mas é o presidente do país mais poderoso do mundo: na presença de Putin disse que não tem motivos para acreditar na interferência da Rússia nas eleições dos EUA, uma vez que o Putin foi muito assertivo quando a negou; e de volta a casa, tenta corrigir os estragos com uma desculpa esfarrapada: onde estava "would" era para estar "wouldn't".
E corrige-se lendo atentamente o que está escrito num papel, para ter a certeza que diz o que lhe mandaram e não o que está a pensar (e mal tira os olhos do papel logo lhe cai a máscara).

Quem quer acreditar, acredita. Os outros ficam ainda mais perplexos, furiosos e tristes.

Trevor Noah, Jimmy Kimmel e Stephen Colbert alertam - mas, como numa sitcom, o mundo ri-se, e fica pronto para a cena seguinte.

Ultimamente tenho-me lembrado muito do papel fundamental do humor como válvula de escape para a tensão, que nos ajuda a aguentar por mais algum tempo situações que racionalmente temos por inaceitáveis. Será que, sem este tipo de programas, já teria deflagrado uma guerra civil nos EUA?

 








residência alternada

A propósito do excelente artigo de Luís Aguiar-Conraria, "she for he":

Uma vez - e já lá vão trinta anos - ouvi às filhas de um casal recém-divorciado esta notícia alegre: "agora temos duas casas!" 
Sem dramas. As miúdas sentiram o divórcio como um alargamento do mundo delas.

Também conheci um rapazinho que passava metade da semana na mãe e a outra metade no pai, e odiava.

E conheço um casal que teve uma ideia inovadora (e caríssima): os filhos ficavam na casa da família. Os pais tinham cada um o seu apartamento, e cada um deles passava metade da semana com os filhos, na casa da família. 
Mas depois reconciliaram-se, pelo que se perdeu uma magnífica experiência.

Embora nem tudo seja novo nesta ideia: conheço alguns casais que se divorciaram mas continuaram a usar a casa de férias alternadamente.



mostre-me um país



Dêem-me uma câmara, um objectivo (seja ele provar que o pessoal é todo muito burro, ou que o pessoal é todo muito esperto, ou que determinado grupo etário é ignorante, ou que as pessoas vestidas com uma certa cor são todas um génio), e o tempo suficiente para recolher as amostras necessárias.

Consigo provar tudo o que quiserem.
 
Primeiro truque: apanhar as pessoas na rua, desprevenidas, e pespegar-lhes um mapa diferente daquele a que estão habituadas (se bem me lembro, os mapas nos EUA são iguais aos europeus; só na China vi mapas com o Pacífico no centro, em vez do Atlântico). Gravar a primeira reacção. Ignorar o momento em que as pessoas percebem o mapa e começam a acertar.
 
 

17 julho 2018

a bola é minha, é uma bola maravilhosa, é a melhor bola do mundo, e é minha, e eu meto-a na baliza que muito bem me apetecer, todas as balizas são minhas, e são balizas maravilhosas, e sempre que meto a minha bola numa das minhas balizas marco um golo, e é um golo fantástico, acreditem em mim



Ontem um jornalista alemão perguntava-se qual será o motivo do fascínio de Trump por autocratas como Putin e Kim Jong Un. No ponto a que chegámos, é mera questão de retórica. Trump ofereceu de mão beijada a Kim Jong Un e a Putin cenas que lhes permitem reforçar o seu poder interno, sancionou o comportamento inaceitável de Putin no plano internacional e abriu brechas no bom entendimento com os antigos aliados baseado em valores democráticos comuns. Nos dias que antecederam o encontro com Putin andou feito elefante na loja de porcelana que é o projecto da União Europeia, hostilizando e humilhando os dirigentes do mundo democrático ocidental, falando da Alemanha e da Grã-Bretanha como se estes países não passassem de colónias dos EUA. E agora chegou ao ponto de atacar os seus próprios serviços de informação.

Thomas L. Friedman acusa, num artigo irado no NYT:

There is overwhelming evidence that our president, for the first time in our history, is deliberately or through gross negligence or because of his own twisted personality engaged in treasonous behavior — behavior that violates his oath of office to “preserve, protect and defend the Constitution of the United States.”
(...)

It started with the shocking tweet that Trump issued before he even sat down with Putin this morning: “Our relationship with Russia has NEVER been worse thanks to many years of U.S. foolishness and stupidity and now, the Rigged Witch Hunt!”
(...)
It only got worse when, in his joint news conference with Putin, Trump was asked explicitly if he believed the conclusion of his intelligence agencies that Russia hacked our elections. The president of the United States basically threw his entire intelligence establishment under a bus, while throwing out a cloud of dust about Hillary Clinton’s server to disguise what he was doing.
Trump actually said on the question of who hacked our election, “I don’t see any reason why it would be” Russia. And in a bit of shocking moral equivalence, Trump added of the United States and Russia: “We are all to blame … both made some mistakes.” Trump said that it was actually the American probe into the Russian hacking that has “kept us apart.”
(...)

In the past few years what has Putin done to deserve an American president sucking up to him for an “extraordinary” relationship? Putin has seized Crimea, covertly invaded Ukraine, provided the missiles that shot down a civilian Malaysian airliner over Ukraine, bombed tens of thousands of refugees out of Syria into Europe, destabilizing Europe, been involved in the death of a British woman who accidentally handled a Russian nerve agent deployed to kill ex-Russian agents in England and deployed misinformation to help tip the vote in Britain toward exiting and fracturing the European Union.
Most of all, Putin unleashed a cyberattack on America’s electoral process, aimed at both electing Trump — with or without Trump’s collusion — and sowing division among American citizens.
Our intelligence agencies have no doubt about this: Last week, America’s director of national intelligence, Dan Coats, described Putin’s cybercampaign as one designed “to exploit America’s openness in order to undermine our long-term competitive advantage.” Coats added that America’s digital infrastructure “is literally under attack,” adding that there was “no question” that Russia was the “most aggressive foreign actor.”

No Spiegel, Dirk Kurkweit explica o motivo pueril para a alta traição de Trump:

Trump tem um trauma, sobre isso não há dúvidas. Esse trauma mostrou-se mais uma vez ontem, na conferência de imprensa com Putin. Uma das consequências é ele mostrar publicamente que considera o presidente russo pelo menos tão digno de confiança como os seus serviços de informação. Estes dizem que os colegas russos intervieram na campanha eleitoral dos EUA em 2016. Putin nega essa acusação, e Trump está muito inclinado a acreditar nele.
Sendo Trump quem é, não é capaz de admitir que as eleições foram em parte manipuladas. Isso acrescentaria uma sombra à sua vitória eleitoral (teve menos votos que Hillary Clinton, e pessoas dos seus círculos próximos tiveram contactos com personagens russas obscuras). Por esse motivo, Trump sente-se permanentemente pressionado para se justificar - tal como aconteceu ontem: elogia a sua "fantástica" campanha eleitoral e faz questão de acreditar em Putin quando este diz que não houve intromissão russa.
Ao contrário do que Trump afirmou recentemente, não é a Alemanha que se deixou aprisionar por Putin. É o próprio Trump quem está preso: não tem liberdade para formar uma opinião sobre Putin, porque se sente obrigado a convencer todos de que o presidente russo é uma pessoa de confiança. Só assim mantém a imagem de grande vencedor das eleições na qual Trump quer acreditar. Para isso, Trump põe-se entre Putin e o seu próprio Estado. Bizarro


--

É um mero detalhe, mas diz muito sobre Trump: no final de um campeonato mundial que arrebatou a Rússia, Putin oferece a Trump uma bola de futebol e diz que agora está do lado dele. Trump não capta o símbolo e o momento, e responde que vai dar a bola ao seu filho de 12 anos. "Melania, toma!"