15 janeiro 2018

o amor no tempo dos neandertais







Tudo no texto assinado por Catherine Deneuve, Catherine Millet e mais 98 mulheres me deixa estupefacta:
- A transformação de um movimento de revolta contra hábitos do patriarcado, revolta essa que peca por tardia, em mais um exemplo de deriva tresloucada do "politicamente correcto", apelando subliminarmente às mulheres para que sejam comedidas e não levantem ondas desagradáveis;
- A omissão da questão fundamental da assimetria de poderes (a propósito: o comentário que tantas vezes se ouve por aí - segundo o qual estas mulheres terão aproveitado o interesse masculino para subir na carreira "à custa das outras", e agora, "que não precisam", é que se lembram de acusar os homens - é mais uma prova evidente da aceitação social dessa assimetria de poder e das respectivas regras do jogo);
- O apelo à liberdade interior da mulher, que lhe permitirá ignorar que levou um apalpão no metro ou ultrapassar uma violação sem traumas
(troque-se a mulher por um homem, e o apalpão por, por exemplo, o hipotético hábito de lhes pisar um pé - sou só eu que tenho vontade de rir ao pensar nos conselhos que estas senhoras dariam aos homens revoltados com o hábito generalizado de os pisar deliberadamente na rua ou nos transportes públicos? "Não te encerres no papel de presa / não te sintas traumatizado por causa de uma pisadela deliberada no metro, mesmo se isso for considerado delito / encara isso como expressão de uma miséria de vida do outro, faz de conta que não aconteceu /
essas pisadelas frequentes não atingem a tua dignidade e não devem fazer-te sentir como vítima perpétua / não te reduzas ao teu corpo / a tua liberdade interior é inviolável, e essa liberdade implica riscos e responsabilidades."
Quem se lembraria de argumentar assim para tentar convencer os homens a aceitar uma situação de agressão deliberada?) 


Mas o que mais me surpreende é a imagem do masculino que anda na cabeça daquelas mulheres:
"Nous défendons une liberté d'importuner, indispensable à la liberté sexuelle. Nous sommes aujourd’hui suffisamment averties pour admettre que la pulsion sexuelle est par nature offensive et sauvage, mais nous sommes aussi suffisamment clairvoyantes pour ne pas confondre drague maladroite et agression sexuelle."

"Liberdade de importunar, e uma pulsão sexual que é por natureza ofensiva e selvagem." Repito: "ofensiva e selvagem"!
Devo viver numa bolha estranha, porque nunca vi nenhum comportamento de importunação, ofensa e selvajaria ter resultados positivos.
A sério que, em termos de estratégia de acasalamento, os homens são neandertais?
Contem-me tudo, abram-me os olhos. É que os homens que eu conheço - educados e sensíveis, capazes de dar sinais do que querem sem serem invasivos, capazes de aceitar um "não" como resposta - pelos vistos são todos aberrações da natureza, uns autênticos desnaturados...




5 comentários:

Domingos Sousa disse...

Muito bem.

Manuel Rocha disse...

Sem pretender colocar em causa o essencial do texto, parece-me, no entanto, que poderá haver por aí algum problema de tradução. No francês coloquial que conheço, "importuner" tem uma carga semântica muito mais ligeira ( algo como ser interrompido por alguém que quer saber as horas...) do que "déranger" ( como quando alguém reiteradamente num convite apedsar das sucessivas recusas ). E "drague maladroite" entende-se literalmente como "engate desajeitado". Algo do género daquilo que há tempos ouvi a um conhecido quando se dirigia a uma senhora por quem tinha interesse e que naquele dia optara por vestido roxo: «Então? Hoje vem mascarada de Senhor dos Passos ?» Ora convenhamos que, por lamentável e incómoda que tenha sido a "tirada", é no minimo discutivel que se possa entender como assédio.

Cump.

MRocha

Helena Araújo disse...

Manuel Rocha,
leu o resto do texto?
"Ruwen Ogien défendait une liberté d’offenser indispensable à la création artistique. De la même manière, nous défendons une liberté d’importuner, indispensable à la liberté sexuelle. Nous sommes aujourd’hui suffisamment averties pour admettre que la pulsion sexuelle est par nature offensive et sauvage, mais nous sommes aussi suffisamment clairvoyantes pour ne pas confondre drague maladroite et agression sexuelle. Surtout, nous sommes conscientes que la personne humaine n’est pas monolithe : une femme peut, dans la même journée, diriger une équipe professionnelle et jouir d’être l’objet sexuel d’un homme, sans être une « salope » ni une vile complice du patriarcat. Elle peut veiller à ce que son salaire soit égal à celui d’un homme, mais ne pas se sentir traumatisée à jamais par un frotteur dans le métro, même si cela est considéré comme un délit. Elle peut même l’envisager comme l’expression d’une grande misère sexuelle voire comme un non-événement."

A seguir a "importuner" vem logo a história da pulsão sexual ser por natureza ofensiva e selvagem. E um pouco mais à frente sugere que as mulheres devem evitar ficar traumatizadas quando são apalpadas no metro, e ver o apalpanço como um "não-acontecimento".
Quem escreve assim, não está com certeza a falar de importunações do tipo perguntar as horas.

Quanto ao engate desajeitado e ao assédio: por um lado, a maior parte das mulheres sabe distinguir entre um e outro. Pode ter a certeza que o essencial e a força do movimento #metoo não é sobre engates desajeitados. Por outro lado, há engates desajeitados que num contexto de assimetria de poder não são inócuos.

Manuel Rocha disse...


Cara Helena Araújo,

Não me custa nada admitir que o texto em questão possa ser infeliz; do mesmo modo que também não me custa nada aceitar que possa haver nele uma tentativa de dizer que o debate sobre o problema da igualdade ( nomeadamente nas relações entre pessoas e em particular nas dinâmicas de poder) deveria ter o seu centro na cultura ( lato senso ) e não no género. Por isso questiono se a critica ao texto fica melhor feita discutindo linha a linha a semântica. Da mesma forma que tenho sérias reservas em debater os problemas do assédio segundo estereótipos de género.

Cump.

MRocha

Helena Araújo disse...

Manuel Rocha,
desde quando é que interpretar a mensagem de um texto é discutir linha a linha a semântica?
Quanto a ter reservas sobre debater os problemas do assédio segundo estereótipos de género: como e por que motivo quer pôr o patriarcado fora desta equação?