30 setembro 2017

"tropical"

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Na Enciclopédia Ilustrada:

Amigos, boas notícias: somos poderosos!
Por exemplo, ontem: no dia em que a palavra mágica era "tropical" fui à Filarmonia, abri o programa - e que vejo? Publicidade a uma exposição em Berlim sobre "Roberto Burle Marx: modernismo tropical". Eis portanto a contribuição da Filarmonia de Berlim para a palavrinha do dia (ahem, enquanto não põem a de hoje).

Roberto Burle Marx (1909–1994) é autor do famoso passeio de Copacabana. E de muito mais, mas comecemos pelo princípio: os artigos nos jornais alemães que li, a propósito desta exposição, dizem que era um homem da Renascença no séc. XX - arquitecto paisagista, pintor, escultor, cenógrafo, designer, ecologista e cantor. Nos seus 60 anos de actividade criou mais de dois mil jardins e descobriu em expedições quase 50 novas espécies botânicas. Filho de um judeu alemão e de uma brasileira, foi numa estadia na Berlim dos anos 20 que contactou pela primeira vez com o expressionismo alemão e descobriu o interesse pelas plantas tropicais, desprezadas num Brasil ainda sob o efeito de modelos colonialistas. Decidiu revolucionar a arte de fazer jardins no seu país, introduzindo as plantas autóctones.
Mais tarde começou a aplicar os princípios da pintura abstracta aos seus jardins. Telas abstractas enriquecidas com uma terceira dimensão (a altura) e várias outras (a luz, a textura, o passar do tempo, o crescimento e o ciclo de vida das plantas): o jardim como escultura abstracta viva.
Juntamente com os arquitectos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, criou os caminhos de modernidade que deram um rosto característico a cidades como Brasília e o Rio de Janeiro.


Um exemplo de uma inovação sua que agora se vê em inúmeros campos de futebol: ervas de cores diferentes no parque Burle Marx em São Paulo:

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Procurem no google imagens por "Roberto Burle Marx" - é um fartote de beleza e surpresa!

[Provavelmente já deu para reparar que até ontem à noite eu nem sabia que este homem existia... Shame on me, pronto, é uma triste vida. 

- Aprende-se muito na Filarmonia, é só o que vos digo ]


29 setembro 2017

depois do concerto

Depois do concerto de ontem na Filarmonia juntou-se um grupo enorme de pessoas na paragem do autocarro. Quando este chegou, apinhámo-nos lá dentro como pudemos. O condutor começou a falar pelo microfone:

- Boa noite a todos! Espero que tenham tido um belo serão. Agora vão aqui apertados - mas têm uma vantagem: não precisam de se preocupar com agarrar-se bem para não cair.

Gargalhada geral. O condutor continuou:

- Por favor, não se irritem com as condições desta viagem. Olhem à esquerda e à direita, pode ser que encontrem alguém com ar simpático que queiram vir a conhecer melhor. Aproveitem a oportunidade, sabe-se lá quando é que vão voltar a ter tanta proximidade humana...

Aplausos e risos.

- Mas estejam também atentos às carteiras. Às vezes há por aí carteiristas. 

À chegada ao zoo, avisou:

- Estamos a chegar ao nosso destino. Antes de saírem verifiquem se não esqueceram nada. Pode poupar-vos muitas correrias amanhã. Desejo a todos uma boa noite, e um bom caminho até casa, até ao hotel, ou até onde queiram ir.


Uma multidão a sair de um autocarro, e todos sorriam.


Hindemith e Brahms na Filarmonia (um post com brinde)

Ontem assisti a um concerto memorável na Filarmonia de Berlim, desculpem o pleonasmo.

E para não dizerem que sou mete-nojo, aqui deixo um brinde para quem o quiser ver em directo: a transmissão vai ser no Digital Concert Hall amanhã, sábado, às sete da tarde em Berlim (seis em Portugal). Entrem no site, inscrevam-se, e quando vos pedirem o código, escrevam BLG78X48. Assistem ao concerto e ficam com o DCH aberto durante 48 horas consecutivas.
Encontrei o voucher no programa do DCH para esta temporada. Espero que a empresa me pague a publicidade, em vez de me meter na cadeia por considerar que divulguei um segredo deles.

Vejam (e, se gostarem, considerem dar aos vossos amigos de presente de Natal um voucher para uma semana ou um mês) (isto sou eu a tentar compor mentalmente a minha defesa: "senhor juiz...") e depois digam-me se o Daniele Gatti não é um mimo. 

Na primeira parte tocaram a sinfonia "Mathis, o pintor", de Hindemith.
Aos anos que ando a dizer que não gosto de Hindemith, e zimbas: lá tive de dizer adeus a mais uma das minhas manias. O primeiro andamento desta sinfonia é sublime.
Os outros também.

Do programa do concerto: Hindemith compôs esta sinfonia a convite de Wilhelm Fürtwangler, o maestro dos Filarmónicos de Berlim, que a apresenta a 12 de Março de 1934. Ao entusiástico aplauso do público segue-se a perseguição dos nazis. Göhring transmite pessoalmente a Fürtwangler a proibição, decretada por Hitler, de tocar aquela peça. Fürtwangler protege Hindemith num artigo muito franco publicado num diário alemão, a que dá o título "O Caso Hindemith". Os argumentos são bizarros, mas eram os possíveis naqueles tempos de III Reich: o compositor de "puro sangue germânico" fez muito para impor a música alemã no mundo. Afirma que se trata de "uma questão geral de princípios. Mais ainda, e também não pode haver dúvidas a esse respeito: perante um panorama mundial de desgraçada pobreza no que diz respeito a músicos que produzem com esta qualidade, não podemos dar-nos ao luxo de renunciar a um homem como Hindemith". A resposta cínica do regime nazi não se faz esperar: proíbe a execução em público de qualquer peça de Hindemith. Este decide abandonar o ensino no conservatório berlinense, e emigra para a Suíça em Setembro de 1937.

O programa alude aos paralelos entre o contexto no qual decorrem os trabalhos criativos de Hindemith e de Mathis Gothart Nithart (que entrou na História como Matthias Grünewald), e que explicam parte do ódio dos nazis a esta obra. Da wikipedia em francês, sobre a ópera de Hindemith, com o mesmo nome e temas da sinfonia: peintre et ingénieur hydraulique allemand de la Renaissance, contemporain d'Albrecht Dürer et qui a inspiré certains peintres expressionnistes du début du XXe siècle. Le livret situe l'action durant la Révolte des Rustauds vers 1525. La lutte de Mathis pour l'expression artistique dans le climat répressif de son époque est clairement le reflet de la propre vie de Hindemith, qui a commencé à écrire le livret alors que les Nazis arrivaient au pouvoir. Ceux-ci ont qualifié Hindemith de « bolchevik musical » et Hindemith s'est alors exilé aux États-Unis d'Amérique.

Deixo-vos os três andamentos da peça, com Hindemith a dirigir os Filarmónicos de Berlim, e imagens das partes correspondentes do retábulo de Matthias Grünewald (o tal Mathis) em Isenheim. Vale a pena ouvir os andamentos contemplando as imagens - podem carregar nas fotos para ver melhor).
1. Concerto dos anjos








2.  Enterro

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3.  Tentação de S. Antão

 
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Depois do intervalo foi a vez da segunda sinfonia de Brahms.
Como este post já vai longo, ficamos assim: cada vez gosto mais de Brahms.




de que é que te queixas? vá, calma, não exageres!



Uma vez os meus irmãos andavam a brincar aos Tarzan, e um deles caiu de uma árvore e partiu o braço. Começou a chorar com dores, mas o mais velho (tinha 11 anos nesse verão) disse-lhe "porque é que estás aí a chorar e a queixar-te? o teu braço não pode estar partido - se estivesse partido, de tantas dores que tinhas estavas aí a chorar!"
Contaram-me isto uns dias depois, e riam ambos sobre a parvoíce da frase. Mas a verdade é que o pobre do miúdo de 7 anos andou a tarde toda com o grupo, cheio de dores e tentando reprimir os gemidos e as lágrimas para não dar parte de fraco, porque alguém diagnosticara que não havia motivo para ele sentir o que sentia.

Lembrei-me deste episódio a propósito do modo como mandam calar as mulheres quando elas se queixam. Particularmente interessante quando são mulheres quem desvaloriza o que lhes acontece, quem obriga as outras a fazer de conta que nada disso é importante, quem escolhe proteger e desculpar o comportamento de certos homens, quer bagatelizando o comportamento em si, quer exagerando o carácter ameaçador da reacção: "estas feministas que odeiam homens e querem abrir uma guerra contra eles". 
Não, minhas senhoras, é muito mais simples que isso: é apenas como um miúdo de sete anos que caiu, partiu o braço, está com dores, e precisa de resolver o problema em vez de ser obrigado a fazer boa cara para corresponder àquilo que outros pensam ser a ordem natural das coisas.

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Encontrei no facebook esta fotografia de uma acção que está a decorrer de momento em Nantes, e vinha com um desafio: se cada mulher marcasse da mesma forma os sítios do espaço público português onde tivesse sido assediada/agredida, este país vinha abaixo com o banho de realidade.
Acrescento uma sugestão: cores diferentes conforme o grupo etário das vítimas no momento da agressão.



28 setembro 2017

oh pá, oh pá, oh pá!



Esta miúda: 12 anos, excelente ventríloqua, excelente cantora, excelente humorista.
E a segurança dela em relação a Simon Cowell, o mais difícil membro daquele júri, o que mete medo a todos? A partida que lhe prega?
Impagável.


27 setembro 2017

segurança para as mulheres nos transportes públicos



Ontem, num S-Bahn de Berlim, ouvi dois miúdos de cerca de dez anos a conversar:
Ela: De que tipo de transportes públicos gostas mais?
Ele: S-Bahn, por ser o mais rápido. A seguir, Metro.
Ela: Eu prefiro autocarros.
Ele: Autocarros?! Odeio autocarros! São muito lentos.
Ela: Mas se precisares de ajuda tens o motorista por perto. Nos comboios, o motorista não te vê e não te pode ajudar. Sempre que é possível, prefiro ir de autocarro.

Está tudo aqui: aos 10 anos, ela já está condicionada para fazer escolhas em função da segurança, e aceita gastar cinco ou dez vezes mais tempo numa deslocação em transportes públicos; ele move-se com mais liberdade porque a sua segurança pessoal não é uma preocupação e um critério na escolha.

Essa miúda berlinense não é uma excepção. No outro lado da escala etária e do mundo, recebi no mês passado em San Francisco, de uma amiga de 65 anos, o conselho de usar o metro para ir ao centro, porque se fosse de autocarro podia ter experiências desagradáveis na zona da Market Street.

Não sei quanto deste sentimento de insegurança nos transportes públicos é subjectivo, quanto é condicionado pela educação das raparigas ou por estratégias de poder (como por exemplo o que ultimamente acontece na Alemanha: a disseminação propositada da ideia de que a insegurança aumentou devido aos refugiados), e quanto se baseia em factos e em ameaças reais. O primeiro passo para conduzir este debate com seriedade seria perguntar às mulheres que usam transportes públicos:
- se a segurança é um tema que as preocupa, e se se sentem seguras ou, pelo contrário, ameaçadas;
- que medidas tomam para se sentirem em segurança;
- quais são as horas e os locais em que sentem maior insegurança;
- quais os motivos para a sensação de insegurança;
- que casos concretos de violência ou assédio tiveram;
Não estou a inventar nada - limitei-me a copiar questões de um estudo realizado em Heidelberg em 1994, com um inquérito a 575 mulheres entre os 13 e os 86 anos sobre o seu sentimento de segurança no espaço público, que revelou que, entre as inquiridas, havia:
- 74% vítimas de assédio verbal
- 69% vítimas de olhares invasivos e desagradáveis
- 48% vítimas de perseguição na rua
- 44% que foram agarradas ou empurradas
- 39% vítimas de assédio sexual
- 23% que tiveram alguém a barrar-lhes o caminho
- 6% vítimas de violação
- 6% que foram assaltadas
- 3% que foram atacadas com uma arma

Não sei se estes números correspondem à realidade no espaço público e em particular nos transportes colectivos portugueses. Mas vejo que a PSP entende que  "as mulheres, só por o serem, correm riscos específicos", e dá uma série de conselhos às mulheres caso viajem sozinhas à noite nos transportes públicos. Admito portanto, com base nestas recomendações da PSP, que o problema da segurança das mulheres nos transportes públicos em Portugal não é apenas subjectivo e condicionado, nem invenção da extrema-direita para instalar uma agenda xenófoba. E se o problema existe, há que lhe dar resposta. 

Não li a proposta concreta da Joana Amaral Dias para a criação de espaços reservados para mulheres nos transportes públicos. Gostava de saber se propõe segregação (carruagens ou compartimentos separados), ou se se trata apenas de lugares prioritários, perto de funcionários dos transportes públicos, ou perto de um microfone com ligação para agentes de segurança. Também gostava de saber se inclui medidas para aumentar a segurança nas paragens, nos túneis do metro, e no caminho entre o transporte e a casa de destino (uma vez que muitas vezes os ataques ocorrem depois da saída do veículo).

Quanto às críticas que esta proposta suscitou, por parte de feministas, vejamos algumas das que li:

"Aonde vamos parar se são as mulheres que têm de mudar as suas rotinas?", perguntam.
Vamos parar aonde já estamos há muito tempo: aos dez anos, as miúdas já começam a escolher o transporte público em função da segurança; e aos 65 anos continuam a fazê-lo; as mulheres que têm meios para isso deslocam-se no seu próprio carro ou de táxi; durante a noite há muito menos mulheres a viajar sozinhas nos transportes públicos - no limite, preferem ficar em casa a correr o risco de serem importunadas.
As mulheres tomam decisões em função da sua segurança de forma tão rotineira que já nem reparam. E a muitas é aconselhado fazer um curso de autodefesa. Ora, haverá mudança de rotina mais violenta que essa de ter de aprender a dar um pontapé na região genital de um homem?

"Não à segregação!", protestam.
E não se dão conta de que, especialmente à noite, a segregação já existe no nosso quotidiano: quem tem meios para isso, em vez de ir nas "carruagens mistas" dos transportes públicos, vai de táxi ou no seu carro privado. Quem não tem meios fica em casa, ou então entra no pequeno grupo de mulheres que durante a noite andam nos transportes sem ser acompanhadas.

"Esta medida é um retrocesso - fere a igualdade, vitimiza as mulheres e dá delas a imagem de seres inferiores", dizem.  
Uma coisa é igualdade, outra coisa é equidade. Se há no espaço público um tipo de violência que se dirige especificamente contra as mulheres, e geralmente é exercido por homens ou grupos de homens mais fortes que elas, não faz sentido falar em igualdade. Esta só é atingida depois de dar às mulheres condições para se movimentarem no espaço público livres dos riscos que as atingem especificamente. 
Gostava muito de saber das mulheres que não têm meios para andar de táxi ou num carro seu, e que por isso se sujeitam a andar nos transportes públicos ou até a não sair à noite, o que pensam sobre haver lugares reservados para elas nos transportes junto de alguém ou de um equipamento que lhes possa proporcionar ajuda em caso de perigo: é um retrocesso ou uma melhoria importante na sua qualidade de vida?

"A solução é educar, educar, educar.", dizem também. Com certeza que sim (ou talvez não, mas não vou discutir isso neste post) - no entanto, enquanto a educação está a germinar para dar frutos, é preciso arranjar soluções exequíveis para os problemas que hoje afectam as mulheres.

"A Joana Amaral Dias lembrou-se de inventar um tema populista sem interesse nenhum a não ser conseguir publicidade.", acusam.
Não sei. A PSP considera que é um problema, eu tenho motivos concretos e pessoais para considerar que é um problema. O tal inquérito às utentes dos transportes públicos podia ajudar a fazer mais luz sobre o assunto.

"Como se não houvesse problemas mais importantes", lamentam-se.
Pois, enquanto houver fome em África não se faz mais nada...

Não tenho a menor dúvida de que uma mulher tem direito a andar no espaço público - seja numa rua escura seja num transporte público - sem ter de medir os riscos e sem ser importunada.
Não tenho a menor dúvida de que uma mulher que for vítima de violência de género ao andar numa rua escura ou entrar num veículo de transporte público sem ter medido os riscos não é culpada dessa violência. Também não tenho dúvidas sobre isso: a culpa é toda do agressor.
As mulheres não são culpadas, mas podem ser vítimas - e carregam tanto o peso de terem de estar permanentemente de sobreaviso como as consequências de terem tido o azar de apanhar um delinquente pela proa.

Finalmente: não podemos deixar que sejam as mulheres mais pobres - as tais que não têm meios para promoverem a sua segregação privada em carro privado ou táxi - quem paga o preço dos nossos princípios feministas. Sim, estou a introduzir no debate a questão das classes sociais. Estou até a insinuar que praticamente nenhuma das pessoas que critica o "retrocesso" e a "segregação" se lembraria de dizer hoje a uma filha sua de 18, 30 ou 40 anos que no fim da festa tem de regressar a casa de metro e autocarro porque não faz sentido ela, por ser mulher, querer viajar separada dos homens. 

Os termos deste debate lembram-me a canção de Brecht: "Vocês, que amam a própria pança e a nossa obediência/ Aprendam de uma vez por todas/ Como quer que virem e revirem/ Primeiro vem a barriga, depois vem a moral/ Primeiro é preciso que também os pobres/ Recebam a sua parte do pão."

Não é o pão, é a segurança: tem de ser igual para todas. E só depois vem a moral.

um motivo forte para continuar a viver na Alemanha

O telefone tocou às 7:15. Era a repartição das Finanças, a responder a um e-mail que mandei anteontem, protestando por me terem passado uma multa de 10 euros devido a um atraso no envio de um formulário. A senhora explicou-me porque é que eu não tinha razão no protesto, mas, uma vez que viu no meu historial que pago sempre sem atrasos nem complicações, sugeria que eu lhe enviasse uma mensagem a pedir para me perdoarem essa multa. A seguir escreveu-me um e-mail, para eu ter o endereço ao qual responder.


Resolvi o problema ainda em pijama, antes do primeiro café da manhã.

(Já uma vez recebi uma mensagem das Finanças às seis da manhã. Suspeito que aqueles funcionários trabalham tranquilamente de madrugada, depois atendem o público, e ao princípio da tarde vão à vida deles, tendo já terminado mais um dia inteiro de trabalho.)



é assim

Faz hoje dois anos (diz o facebook, portanto deve ser verdade) que me aconteceu esta fotografia: eu a querer fotograr o voo de um pássaro recortado contra a lua cheia, e o raio do bicho resolve fazer esta figura. 
(A minha vida é assim: eu a querer fazer uma coisa, e vem ela e faz-me outra, e muitas vezes é ainda melhor.) (Também é verdade que Deus dá as nozes a quem não as sabe comer, mas pronto, isso há-de ser depois esclarecido lá no andar de cima, e não tem pressa nenhuma.)

26 setembro 2017

a AfD e as lamúrias sobre "a ditadura do politicamente correcto"

Há tempos, Alice Weidel, uma das figuras mais importantes da AfD, disse que "o lugar do politicamente correcto é na lixeira da História", e foi muito aplaudida. (*)

Entretanto já sabemos a que é que ela se referia, e não era a lamúria já muito nossa conhecida, do género "hoje em dia já não se pode dizer nada, há sempre alguém que fique ofendido...". Ia muito mais longe: ao atacar o "politicamente correcto", o que a AfD pretende é poder alertar abertamente para "a conspiração judaica mundial", afirmar que o Holocausto é um mito resultante de uma manipulação, defender a protecção do povo alemão contra "a estratégia de miscigenação com o objectivo de o enfraquecer", e outras "banalidades" do género.

Sobre a AfD estamos conversados. A questão que me interessa agora dirige-se às pessoas que se lamuriam por causa do colete de forças da "politicamente correcto":

Que combate querem combater?
Querem mesmo retroceder nos esforços para uma comunicação consciente do poder de determinadas palavras para humilhar e reforçar preconceitos? Porquê?
E se querem lutar abertamente a favor desse retrocesso, como vão impedir a abertura dos diques que tornam um discurso de ódio como o da AfD de novo aceitável nas nossas sociedades?
Defendem que a liberdade de expressão inclui o direito de fazer discurso de ódio, do antisemitismo, de racismo?
As pessoas têm o direito de dizer tudo o que lhes apetecer, e não devem ser sequer criticadas por isso?

A propósito: nos EUA há um site que divulga fotos das pessoas que participaram na manif racista em Charlottesville, o que levou a que algumas delas perdessem o emprego. Tenho sentimentos contraditórios em relação a esta acção e às suas consequências - que me dizem vocês?

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(*) A seguir um engraçadinho de um programa satírico mostrou a passagem do discurso em que Alice Weidel dizia "o lugar do politicamente correcto é na lixeira da História", e comentou: "acho que a badalhoca nazi tem toda a razão! (espero ter sido suficientemente politicamente incorrecto)" - e ela foi-se queixar a um tribunal, o que foi motivo para chacota geral.


25 setembro 2017

síntese dos programas dos partidos com assento no Parlamento alemão

No domingo das eleições, para ajudar os indecisos a escolher em que partido votar, o jornal Bild publicou online a síntese que traduzo a seguir. Aviso que se trata de uma tradução demasiado rápida, que não explica muitas das questões e pode até ter erros - mas não tenho tempo para mais, e penso que mesmo assim vale a pena ter uma ideia dos programas dos partidos com assento no Parlamento alemão. 


CDU/CSU
- Refugiados - gestão "inteligente", por meio de uma "lei de admissão para pessoas com formação profissional"; continuar a aceitar a entrada de refugiados (a CSU quer um limite de 200.000 refugiados por ano).
- Segurança interna/Polícia - Mais 15.000 polícias, mais controle por vídeo; mais cooperação entre as secretas e a polícia; treino antiterrorismo em conjunto para polícia e exército (CSU: pulseira electrónica para terroristas potenciais).
- Reforma - nada de novo, reforma aos 67 anos segundo o esquema tradicional, e um grupo de estudo para debater as perspectivas após 2030.
- Política de família - o abono de família (192 euros por criança/mês) deve ser aumentado 25 euros; isenção de impostos em função dos filhos deve subir até ao nível da isenção para adultos; direito a ter escola primária durante todo o dia [ou seja: criação de actividades nas escolas que permitam aos pais trabalhar a tempo inteiro]. 
- Impostos/Finanças - aliviar os impostos em 15 mil milhões de euros; sem qualquer subida de impostos; o imposto de solidariedade [imposto complementar criado para pagar a reunificação] vai ser desmontado por fases a partir de 2020; o rendimento ao qual se aplica a taxa de imposto máxima (42%) deve passar de 54.000 para 60.000 euros anuais.
- Trabalho/Política social - dias de trabalho flexíveis sem mudar o número de horas de trabalho semanais; direito a trabalhar a meio tempo por um período determinado; atrair empregos com futuro (digitalização, biotécnica, ambiente, saúde). Objectivo: pleno emprego em 2025.
- Educação/Escolas - mais lugares em infantários, direito a cuidados durante o dia inteiro por parte da escola primária; os liceus continuam independentes; mais possibilidades de passar de uma via de ensino para outra [via para ensino superior e via profissionalizante]; apoio a institutos de ensino superior que promovam a inovação digital. 
- Saúde - mantém-se o sistema de caixas públicas/seguros privados; fim das propinas para a formação na área da saúde; os filhos só são obrigados a pagar o lar de cuidados continuados dos pais a partir de um rendimento anual de 100.000 euros.
- Meio ambiente - defesa do clima; implementar as normas da UE sobre poluição nas cidades até 2020; saída do nuclear até 2023; a longo prazo, substituir carvão, petróleo e gás por energias menos nocivas ao ambiente.
- Europa - fortalecer o "motor de crescimento" da Europa; linha dura contra a Turquia e os que saem da UE, como a Grã-Bretanha; proteger melhor as fronteiras exteriores da Europa; melhor cooperação na protecção contra o terrorismo e na distribuição de refugiados.

SPD

- Refugiados - socorrer os refugiados que precisam de ajuda, atrair profissionais estrangeiros segundo as necessidades; os pedidos de asilo devem ser feitos antes da entrada na UE; as pessoas que pedem asilo devem ser distribuídas de forma justa na Europa.
- Segurança interna/Polícia - mais 15.000 polícias e mais controle por vídeo, como a CDU; maior coordenação entre os serviços da Federação e os dos Estados na luta contra terrorismo, criminalidade bancária e crimes na internet.
- Reforma - reforma aos 67 anos. Nível da reforma: pelo menos 48% do salário médio pessoal; Desconto para a reforma: nunca acima dos 22% (até 2030); os trabalhadores por conta própria também devem descontar para a reforma.
- Política de família - aumentar o abono de família e o rendimento livre de impostos para pessoas com filhos, tal como a CDU; um "salário de família" de 300 euros, até no máximo dois anos, para progenitores a trabalhar a tempo parcial; além disso: infantários gratuitos, escolas primárias com actividades durante todo o dia.
- Impostos/Finanças - bónus criança: reduzir ao total dos impostos 150 euros por filho/ano; imposto sobre o rendimento: 42% a partir de 60.000 euros anuais; novo máximo do imposto sobre o rendimento: 45% a partir de 76.200 euros/ano (ou 152.400 euros para pares).
- Trabalho/Política social - Salário mínimo sem excepções; proibição de contratos a prazo ("não ao contrato a prazo sem justificação"); salários iguais para empregados fixos e empregados temporários; subsídio de desemprego especial para quem expande a sua formação.
- Educação/Escolas - por fases: gratuidade, desde o infantário até ao fim do estudo universitário ou da formação técnica; Acabar com a proibição de cooperação (Federação/Estados/Comunas) de modo a alargar o investimento na Educação.
- Saúde - "seguro geral" (também para cuidados continuados) para todos (funcionários públicos, empregados, profissionais liberais); descontos iguais para empregados e empregadores; possibilidade de passar do seguro privado para o seguro público; pagamento de salário a pessoas que se dedicam a cuidar de familiares doentes ou idosos.
- Meio ambiente - melhorar a qualidade do ar nas cidades por meio do apoio a táxis e autocarros sem efeitos para o clima; até 2050 deixar de produzir energia com consequências para o efeito de estufa; reduzir drasticamente a produção de CO2 até 2020.
- Europa -combater as fugas aos impostos; "governo económico" comum para a Europa; união europeia de defesa; corpo de paz europeu; não à entrada da Turquia na UE.

Linke
- Refugiados - facilitar a entrada dos refugiados ("sociedade solidária de acolhimento"); concretamente: direito a trabalhar, cuidados de saúde e sociais para todos os que entram (e não apenas os perseguidos) o mais tardar ao fim de 3 meses.
- Segurança interna/Polícia - protecção contra o terrorismo só deve ser feita pela polícia; acabar com todas as secretas; crachat com o nome para todos os polícias; acabar com o acompanhamento policial de pequenos delitos (entrada ilegal no país, drogas, andar sem bilhete nos transportes públicos).
- Reforma - reforma aos 65 anos (ou aos 60 para quem trabalhou 40 anos); a reforma deve subir para 53% do rendimento; reforma mínima: 1050 euros/mês; todos - mesmo os funcionários públicos - devem fazer descontos para a caixa de reformas.
- Política de família - abono de família sobe para 328 euros; cada criança recebe um rendimento mínimo de segurança de 573 euros/mês (sujeito a impostos); as crianças têm direito a infantários e escolas gratuitos, a tempo inteiro, e com muita qualidade.
- Impostos/Finanças - rendimento anual até 12.600 euros livre de impostos; nova taxa máxima sobre o rendimento de 53% a partir de 260.000 euros. Os milionários pagam 5% da sua riqueza (o primeiro milhão é livre de impostos).
- Trabalho/Política social - salário mínimo sobe para 12 euros; os salários mais altos de uma empresa não podem ser superiores a 20 vezes o salário mais baixo da mesma empresa; combate aos contratos a prazo; direito a um horário de trabalho mínimo de 22 horas semanais.
- Educação/Escolas - Educação gratuita até ao fim do ensino universitário; cantinas gratuitas em todos os infantários e escolas; escolas unificadas em vez de concorrência; possibilidade de entrar no ensino universitário mesmo sem Abi (diploma do liceu, ramo mais exigente do ensino secundário); acabar com os trabalhos de casa, o numerus clausus e os testes de admissão.
- Saúde - seguro de saúde para todos; travar a privatização dos hospitais; acabar com os pagamentos suplementares; 100.000 novos postos de trabalho nos cuidados continuados; 14,5 euros é o salário mínimo nesta área; seguro de cuidados continuados para todos sem comparticipação do próprio.
- Meio ambiente - protecção drástica do clima: redução dos gases com efeito de estufa até 2050 para a medida mínima (5% relativamente aos valores de 1990); peso da energia ecológica na electricidade sobe para 70% até 2030, e para 100% até 2040.
- Europa -salários e direitos iguais em toda a Europa, em vez de dumping de salários; BCE empresta directamente aos Estados; reestruturação da dívida grega (reparações dos crimes dos nazis); acabar com o Frontex, abrir as fronteiras da Europa.

Verdes
- Refugiados - "caminhos seguros e legais" para chegar à Alemanha; melhorar os processos para reunir as famílias; rescisão do contrato com a Turquia; atrair profissionais estrangeiros com uma lei de imigração (sistema de pontos).
- Segurança interna/Polícia - "mais pessoal, bons equipamentos" para a polícia; contra o armazenamento de dados, o reconhecimento digital do rosto, as razias online, o exército nas questões internas, os agentes infiltrados das secretas; mais controle dos serviços secretos e dos terroristas potenciais. [sobre os agentes infiltrados: houve vários escândalos ligados a infiltrados na extrema-direita, desde serem os agentes secretos eles próprios chefes dos grupos de extrema-direita, até terem encoberto acções violentas daqueles - em suma: julgando que estava a espiar, o Estado andava a subsidiar esses grupos]
- Reforma - manter os 67 anos e o nível da reforma (48%); possibilidade de reduzir o horário de trabalho a partir dos 60 anos; a reforma estatal deve ser para todos (também para profissionais liberais, políticos, donos de pequenas empresas).
- Política de família - 12 mil milhões de euros mais para crianças e famílias; apoio aos pais que trabalham; substituição do abono de família e da isenção de impostos por "rendimento básico de criança" e "bónus de abono de família" (até 364 euros).
- Impostos/Finanças - aliviar o peso fiscal das pessoas com rendimentos baixos e médios, por meio do aumento do montante de rendimento isento de impostos; esta medida é contrabalançada pelo aumento da taxa máxima sobre rendimentos a partir de 100.000 euros anuais e também de um imposto patrimonial.
- Trabalho/Política social - acabar com os contratos de trabalho a prazo se não houver motivos importantes para essa delimitação; direito de passar de trabalho com horário reduzido a trabalho a tempo inteiro; salário igual para os trabalhadores temporários; aumento do salário mínimo; o salário mínimo deve ser definido conforme o ramo económico.
- Educação/Escolas - acabar com a proibição de cooperação entre os Estados e a Federação; preços dos infantários com tarifas sociais; unificação dos currículos escolares; apoio às escolas e ao acompanhamento dos alunos durante todo o dia, em particular nos bairros com problemas sociais.
- Saúde - acabar com as propinas nas formações na área da saúde; acabar com o pagamento suplementar de medicamentos; contribuições iguais para o empregado e o empregador; preços de serviços médicos iguais para as caixas estatais e os seguros privados; apoio a pessoas que têm emprego e prestam cuidados continuados a familiares.
- Meio ambiente - até 2030 apenas carros sem emissão de gases; saída da energia ganha à custa de carvão; 100% energia ecológica; "placa azul" para proibir a circulação; poupança de CO2 obrigatória até 2050 em todos os estados da UE: 95% em relação a 1990.
- Europa -"mais Europa" e "menos armamento"; uma UE ecológica, digital, desenhada com "fairness"; combater o desemprego, os acordos comerciais (CETA), a lavagem de dinheiro e o dumping de impostos.

FDP
- Refugiados - recusa de um limite para entrada de refugiados; escolher quem entra em função das necessidades do mercado de trabalho; o pedido de asilo deve ser feito antes de entrar no país; os interessados em asilo devem esperar em "hot spots"; os países da UE que não recebem refugiados devem comparticipar nos custos.
- Segurança interna/Polícia - mais polícias, e mais bem equipados; não aumentar o controlo por vídeo e o armazenamento de dados (inclusivamente dados de voos); terroristas potenciais devem ser mais observados e bem controlados.
- Reforma - idade da reforma flexível (entre os 60 e os 70, com o respectivo montante da reforma mais baixo ou mais alto); trabalhadores independentes também têm obrigação de contribuir para a reforma básica; alargamento do sistema de reforma com módulos privados e empresariais. 
- Política de família - mais educadores de infância, e mais bem pagos; aumento do valor da isenção de impostos por filhos; abono de família escalonado segundo os rendimentos da família; cheques para ensino; a par do casamento, deve haver uma "comunhão de responsabilidade" por exemplo para pessoas idosas.
- Impostos/Finanças - alívio de impostos no valor de 30 mil milhões de euros; fim do imposto de solidariedade até fins de 2019; redução dos impostos para todos os níveis de rendimento; manutenção do sistema fiscal especial para casais (inclusivamente casais homossexuais).
- Trabalho/Política social - o trabalho deve ser mais flexível, o trabalho temporário e os contratos a prazo não devem ser ainda mais limitados; o mini-job deve subir de 450 para 530,40 euros; contas-poupança-trabalho devem ser usadas para aumentar o poder concorrencial das empresas [é a possibilidade de os empregados poderem acumular horas - ou uma conta poupança de salário - para mais tarde gozarem longos períodos de férias com pagamento de salário].
- Educação/Escolas - digitalização da escola e do mundo do trabalho ("aprender toda a vida"): 1000 euros de suplemento técnico para cada aluno; cheques de educação para crianças/alunos, para pagarem o infantário ou a escola ("concorrência").
- Saúde - mudança livre dos seguros privados para os estatais, independentemente dos rendimentos; mais pessoas a trabalhar nos cuidados continuados; liberalização do envio por correio de medicamentos sujeitos a receita médica; os doentes devem ser informados do custo do seu tratamento. 
- Meio ambiente - travar a implantação de geradores eólicos; acabar com as subvenções da lei das energias renováveis ("subvenções intermináveis"); evitar atitudes voluntaristas de protecção do clima e mudança energética se não forem acompanhadas pelos outros países; objectivo: economicismo e segurança no fornecimento.
- Europa - caminhar para uma Federação ("Europa a várias velocidades"); assegurar as fronteiras exteriores da UE; reduzir a dimensão da Comissão Europeia; criação de uma Procuradoria Europeia e uma União de Defesa Europeia.

AfD
- Refugiados - fechar as fronteiras; acabar com as entradas e repatriamento rigoroso dos refugiados, restringir a saída de pessoas com boas capacidades profissionais; proibição de burka e minaretes; não conceder asilo a ninguém sem papéis de identificação; não conceder nacionalidade alemã a filhos de imigrantes.
- Segurança interna/Polícia - facilitar o acesso a armas; mais polícia; combater a criminalidade de estrangeiros; repatriamento rigoroso mesmo no caso de delitos menores; medidas específicas para muçulmanos ("terror islâmico"); tornar o serviço militar de novo obrigatório.
- Reforma - reforma sem cortes após 45 anos de trabalho; reformados não pagam contribuições sociais e podem ter rendimentos complementares sem limites; reforço da contagem do tempo dedicado a criar filhos para efeitos de reforma; poupar nas despesas de migração/integração para gastar em reformas.
- Política de família - a alegada "diminuição da nossa população tradicional" deve ser combatida com uma "política nacional de povoamento". Além disso: mais apoios às famílias e às crianças; créditos para início da vida de casal; adopção em vez de aborto. 
- Impostos/Finanças - redução do IVA de 19% para 12%; acabar com o imposto de heranças e evitar um imposto patrimonial; alargar à família o regime tributário especial para casais (incluir o número de filhos na divisão do rendimento).
- Trabalho/Política social - desempregados obrigados a fazer trabalhos cívicos (com pagamento); subsídio do desemprego deve considerar períodos de emprego mais longos; aumentar o valor patrimonial não deduzível no caso de recebimento de apoios da Segurança Social; máximo de 15% para número de trabalhadores temporários nas empresas. 
- Educação/Escolas - pagamento a quem fica em casa a cuidar dos filhos, igual ao dos infantários ou das amas; sistema escolar em vários ramos, conforme a competência dos alunos; acabar com aulas de religião muçulmana; fim do Bolonha.
- Saúde - apoiar mais o cuidado de idosos na família (equiparado à actividade profissional); os familiares de empregados turcos que vivam no estrangeiro não devem ser abrangidos pelo seguro de saúde destes [na Alemanha, o seguro de saúde de alguém que tem um emprego é extensivo ao cônjuge e aos filhos]; apoiar cuidados de saúde alternativos.
- Meio ambiente - a AfD duvida da responsabilidade humana nas alterações climáticas; quer acabar com a protecção do ar das cidades; quer manter a energia a partir do carvão; quer acabar com os apoios à energia eólica devido aos riscos para os pássaros e as pessoas (sombra e ruído).
- Europa - a AfD entende que a Europa é um projecto falhado; exige reformas e, caso não se verifiquem, a saída da UE; quer o fim do euro (regresso ao marco); além disso: fim das sanções contra a Rússia.

na noite das eleições


Assisti aos resultados das eleições na Representação de Baden-Württemberg (uma espécie de embaixada dessa Land aqui na capital da Federação). Cheguei pouco antes das seis da tarde, hora da abertura das urnas, e fiquei retida numa enorme fila de convidados. O Joachim já estava lá dentro, e telefonou-me a dizer os primeiros resultados. "Nem queiras saber a tragédia, o pessoal aqui dentro está todo com cara de enterro. 13% para a AfD!"

Comentei os resultados com as pessoas que esperavam na fila à minha volta. Desolação geral.

- Foi um erro ter dado tanto palco à AfD, disse uma senhora. Foi uma self-fulfilling prophecy.
- O que me deixa indignada - disse eu - foi terem deixado um partido destes ir a eleições.
- Bom, isso está na Constituição: se tiverem mais de 5% dos votos entram no Parlamento.
- Também está na Constituição - retorqui - que todas as pessoas são iguais. A AfD quer criar cidadãos de segunda classe, o que é anticonstitucional.
- Oh, isso é apenas para os refugiados...

Ali estava eu, no meio de pessoas cultas e bem vestidas, convidadas a dedo para uma recepção na Representação de Baden-Württemberg, e estavam-me a dizer que os refugiados podem ser tratados como pessoas de segunda classe - sem sequer se darem conta do que tinham dito. A conversa continuou a ser orientada por elevados valores democráticos:

- Penso que a partir do momento em que um partido mostra que não respeita valores constitucionais básicos, não deve poder concorrer às eleições - disse eu. Tanto uma AfD na Alemanha, como um Trump nos EUA. 
- Proibir?! Onde vamos parar?! A Democracia tem de saber gerir estes fenómenos, e mostrar que é suficientemente forte para os anular, mas de forma democrática. A AfD entrou no Parlamento, e agora vai mostrar ao que vem. Isso vai abrir os olhos aos seus eleitores, que nas próximas eleições já estarão avisados.
- Educação, educação!, disse outra senhora (a que tinha dito "isso é apenas para os refugiados"). Só se consegue fortalecer a Democracia educando e informando o povo.

Ainda considerei dar-me ao trabalho de a informar que a AfD tem propostas muito concretas para os imigrantes turcos (não "apenas para os refugiados"), e que me sinto pessoalmente ofendida e ameaçada sempre que ouço alguém da AfD falar de "miscigenação" e da "substituição da população", porque estão a falar dos meus filhos. Mas preferi desistir. Pareceu-me que aquelas pessoas tão bem postas e autoconfiantes não estavam em condições de se deixarem interpelar por uma estrangeira. Facto é que entre os eleitores da AfD se encontram também muitas pessoas com formação superior, e da classe média alta. E mesmo quem não vota AfD e tem um elevado nível de formação pode cair inadvertidamente nos esquemas ideológicos da extrema-direita.  

Pouco depois, sentados a uma mesa em frente junto à sala onde decorria a transmissão em directo da Representação para a televisão de Baden-Württemberg, o Joachim comentava com os vizinhos que era muito mais suportável assistir a este momento na companhia de tantas pessoas, em vez da solidão do sofá da nossa casa, e todos concordaram.

O público agitou-se novamente quando apareceram os gráficos das movimentações de uns partidos para os outros: um milhão da CDU para a AfD, caramba! E uma corrida em massa dos absentistas às urnas para votar AfD, caramba!

Daqueles números, o que mais me surpreendeu e chocou foi o do êxito da AfD nos dois Estados mais ricos da Alemanha: Baviera e Baden-Württemberg. Entendo, até certo ponto, que a AfD conquiste mais votos na região da antiga RDA, devido ao ressentimento em relação ao processo de reunificação, à insegurança e à ausência de perspectivas, e ao despeito ou à inveja em relação ao que possa parecer um tratamento privilegiado dos refugiados, e devido também às sequelas provocadas por cinquenta anos de partido único. Mas os Estados mais ricos da Alemanha, com um nível de vida invejável, com segurança, com taxas de desemprego mínimas: contra o quê protestam eles? que lhes falta? 

A passagem de tantos votos do CSU (conservadores bávaros) para a AfD esclareceu-me sobre a deriva populista dos seus chefes nos últimos anos: estavam a tentar não perder eleitores para a AfD. As recusas de Angela Merkel em embarcar nessa deriva populista - que apontava os refugiados quase como um inimigo a combater - tiveram também o seu preço, expresso nos baixos resultados do seu partido, quase os mais baixos de sempre.

Na nossa mesa as opiniões eram unânimes: o deslocamento da CDU para a esquerda e do SPD para a direita fez-lhes perder eleitores. É preciso vir agora uma coligação Jamaica (CDU, Verdes e Liberais) para agitar as águas políticas e desinstalar a CDU do seu conforto e da sua dormência. O SPD tem de ficar fora do governo, para ser a maior força da oposição. E nem pensar em deixar que a AfD seja a maior força da oposição no Parlamento!

Foi muito aplaudida a representante do SPD que falou num momento histórico em que os partidos democráticos têm de compreender a gravidade da situação e ser capazes de se entenderem para travar o avanço da extrema-direita.

Assim seja.

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Na Representação havia uma exposição trabalhos de Patricia Waller. Reparei especialmente na avestruz de cabeça enfiada na areia, e na ovelha tosquiada. Vá-se lá saber porquê...


AfD

 (Poster da AfD: "O nosso país, / A nossa Heimat. / Tu, minha Alemanha.")

Para quem quer perceber melhor como é o partido que conquistou o terceiro lugar nas eleições de ontem na Alemanha, traduzo a seguir partes de um artigo de opinião do Spiegel online, de , que perguntava ontem aos eleitores que, para se verem livres da Angela Merkel, tencionavam votar AfD, se se identificam realmente com os valores desse partido. Os links do texto são para notícias em alemão.


Haverá com certeza motivos para votar AfD - mas são mesmo os seus motivos? Este teste oferece a resposta.

  • Acredita que a sua vida e a dos seus próximos vai melhorar se começarmos todos a sentir "orgulho pelos feitos dos soldados alemães nas duas guerras mundiais", como afirma Alexander Gauland? [informação complementar: durante várias décadas a sociedade alemã separou o exército das forças nazis, SS, SA e Gestapo. O exército era "limpo", os outros faziam o trabalho sujo. No início dos anos 90, uma exposição pôs a nu os crimes cometidos pelo exército. A exposição foi um duro golpe para a sociedade alemã, e foi extremamente criticada por sectores conservadores da sociedade.]
  • Ou será que acredita que a Polónia queria invadir a Alemanha em 1939, e que Hitler se limitou a antecipar-se ao inimigo? (Stefan Scheil)
  • Acredita, tal como por exemplo Wilhelm von Gottberg, que o Holocausto é tratado no nosso país como um "mito", "um dogma fora do alcance de uma investigação histórica independente"?
  • Deseja, tal como Björn Höcke, uma "viragem de 180 graus na política de Memória"?
  • Acredita, como von Gottberg e muitos dos seus colegas de partido, que neste país há um "culto com a culpa", e que pôr-lhe um fim melhoraria a sua vida e a dos seus próximos?
  • Em suma: também lhe parece que é tempo de deixar de lembrar o imenso massacre industrial cometido pelos alemães?
  • Quer ver no parlamento alemão um partido que, como diz Dubravko Mandic, candidato directo Tübingen, se distingue do NPD "sobretudo pela base de apoio, e não tanto pelos conteúdos"?
  • Alegra-se, tal como Mandic, com "o surgimento de uma rede de extrema-direita entre a AfD e o Movimento Identitário"?
  • Concorda com Petr Bystrom, candidato directo da AfD por Munique, que o chamado "Movimento Identitário" (organização vigiada pelo Verfassungsschutz - serviço de inteligência interno, porque lhe encontram "sinais de intenções contra a ordem democrática livre") é uma "organização fantástica"?
  • Parece-lhe bem que deputados do parlamento alemão tomem parte em manifestações deste "movimento", tal como o Norbert Teske, candidato por Bremen?
  • Parece-lhe que a sociedade alemã resolve o desafio da integração se assumir abertamente que pode tratar por "negro" as pessoas com pele escura (como propõe Thomas Seitz, candidato directo por Emmendingen-Lahr)? Pensa também que a melhor maneira de saudar pessoas de pele escura é atirar-lhes uma banana (Benjamin Nolte, candidato da Baviera - também conhecido como "Nolte-Banana")?
  • Acredita, à semelhança por exemplo do candidato da AfD Peter Boehringer, que tanto o governo alemão como a ONU são na realidade comandados por uma organização secreta chamada New World Order (o novo nome da conspiração judaica mundial)?
  • Acredita, tal como Boehringer e outros, que estes poderes obscuros pretendem "repovoar" a Alemanha?
  • E também que pretendem proceder à troca da população alemã com o apoio activo dos partidos estabelecidos no parlamento?
  • Teme, tal como Martin Hohmann, candidato da AfD em Hessen, uma "troca da população"?
  • Parece-lhe que há interesse em divulgar teorias como a de Marc Jongen, por vezes denominado "filósofo do partido", de que poderes obscuros querem criar uma "população mestiça" para enfraquecer a Alemanha?
  • Parece-lhe adequado chamar "parasita" a pessoas de origem estrangeira (Göbel)?
  • Parece-lhe que se devem encerrar todas as mesquitas da Alemanha (Nicolaus Fest, candidato por Berlim)?
  • Ou que o direito constitucional da liberdade religiosa não se aplica aos muçulmanos (Albrecht Glaser, candidato por Hessen)?
  • Gostaria de - tal como Maier, candidato da Saxónia, que muito provavelmente vai conseguir um lugar no parlamento - poder chamar "escumalha" aos muçulmanos?
  • Ou pura e simplesmente proibir o Islão em toda a Europa, como Nicolas Lehrke, o candidato da Baixa Saxónia?
Se respondeu sem hesitação "Sim" a várias destas questões, é com grande probabilidade um radical de direita com queda para teorias de conspiração paranóides. Neste caso, eu pessoalmente preferiria que não fosse votar. Mas se tem mesmo de votar, seja. Vote AfD - ao menos ficamos a saber quantas pessoas da sua laia existem neste país. Fazer de conta que essas pessoas não existem também não nos ajuda.

Se as questões acima lhe causam alguma repugnância, então peço-lhe que não vote AfD. Mesmo que se sinta zangado devido às injustiças sociais na Alemanha, não possa ver mais a Angela Merkel à sua frente, ou esteja muito insatisfeito com a política de refugiados do governo alemão. Há outras possibilidades de exprimir esta insatisfação, sem ser metendo por quatro anos no parlamento nacional racistas nacionalistas de direita com tendência para distorções da História e que mal disfarçam a sua simpatia pelos nazis. Dê o seu voto a outro partido, tem uma grande possibilidade de escolha.

24 setembro 2017

em dia de eleições na Alemanha

Já sabe quem vai ganhar estas eleições, só não se sabe por quanto.
A grande questão - melhor dizendo: a grande inquietação - é saber se a AfD vai ser a primeira força da Oposição. A AfD, para quem ainda não sabe, é o partido que capitaliza o ressentimento, o descontentamento, a insegurança e a xenofobia de uma parte da população alemã para passar uma agenda que vai beber aos valores nazis (nomeadamente medidas para aumentar o nascimento de alemães - não é a taxa de natalidade, é mesmo só bebés alemães que querem -, direitos diferentes para estrangeiros, militarização e paramilitarização da sociedade).

Em dia de eleições, o Spiegel tem no topo do site online um conjunto de questões para as pessoas que tencionam votar AfD verificarem se são realmente adeptas dos valores da AfD: "É mesmo isso que quer?"
E o Bild (mesmo o Bild!) tem uma síntese do programa dos partidos. Não tenho tempo de traduzir, mas deixo aqui o link: "Para os que ainda estão indecisos / Leia o programa dos partidos em menos de 8 minutos"


22 setembro 2017

nenhum lobo é tão terrível como...

 
Legenda da foto:
Placa: Nesta região há lobos em busca de comida. Os cães devem ter a trela curta e as crianças devem ser vigiadas.
Alguém acrescentou: "Temo pela minha avó. / Ass: Capuchinho Vermelho"

 
Wladimir Kaminer, a propósito das eleições de domingo na Alemanha (texto encontrado no facebook):
 
À minha volta há muita gente irritada por causa da AfD, um partido que procura alternativas para o humanismo e o bom senso. "Se esta gente chegar ao poder, para onde vamos emigrar?", queixavam-se ontem os amigos numa conversa à mesa.
Não estou tão pessimista. Todos os países europeus têm a sua quota-parte de palermas no Parlamento - porque é que a Alemanha devia ser uma excepção? É melhor tê-los sentados no plenário, que aos gritos nas ruas, a fazer uma bomba numa cave, ou a deitar fogo a um centro de refugiados. Não é preciso ter medo dos rapazes maus, continuamos em contacto. Há um ditado russo que diz: "nenhum lobo é tão terrível como o medo de ser comido por um lobo".

Li Dl Land



Ao abrir um vídeo no youtube apareceu-me uma publicidade do Lidl tão interessante que não consegui apagá-la ao fim dos 4 segundos obrigatórios. Fui procurar mais informação, e aqui deixo um pequeno apontamento (seguindo um artigo no Bento, a edição do Spiegel online para um segmento mais jovem) sobre a guerra de publicidade entre as cadeias Edeka e Lidl, cujo episódio mais recente é aquele spot.

Segundo o Bento, tudo começou com uma publicidade do Lidl, em que uma repórter entrevistava pessoas à porta do Lidl e descobria uma empregada do Edeka com o carrinho cheio:



Edeka respondeu com um filme feito discretamente dentro de uma loja Lidl, em que a mensagem é transmitida por palavras na roupa das pessoas, queixando-se que não há ninguém para atender, não há frutos exóticos, e portanto mais vale irem ao Edeka:



O Lidl respondeu no próprio dia, com um empregado a encher um carrinho de frutos exóticos para levar ao Edeka, onde "vendem a mesma qualidade pelo dobro do preço":



Agora o Lidl voltou ao ataque, desta vez com o filme Li Dl Land (dos autores de Lidl Miss Sunshine e de PS: Ich lidl dich) copiando o estilo de La La Land para contar a história da filha da família dos fundadores do Edeka, que se apaixonou por um empregado do Lidl. Incluem uma incursão por Matrix e The Notebook, e de caminho riem-se de dois outros spots do Edeka: o Eatkarus - que foi muito criticado, por ser fat shaming -, de um rapazinho que começa a fazer dieta para ser leve como os pássaros (lema: "come como aquele que queres ser" / Edeka / #comeassim), e outro, do ano passado, em que um velhinho faz de conta que morreu para conseguir juntar todos os filhos no Natal.





O filme Li Dl Land termina com a alusão a este último spot, o velhinho a dizer "de que outro modo vos podia ter juntado no Natal?" e um neto a responder "avô, tu vives aqui, nós vivemos todos aqui - vá, acalma-te".


Duvido que a empresa Edeka se acalme com este filme. Mas aqui nesta terra o pessoal ri-se muito.

21 setembro 2017

acabámos de encontrar milhões e milhões de marcos



O Joachim está neste momento a arrumar uma caixa de "diversos" que tem andado nas mudanças, de casa em casa, sem ser aberta.

Já encontrou milhões e milhões de marcos, o menu do almoço no dia do nosso casamento civil, um pin com estrela e foice e martelo comprado na URSS, a caderneta onde - depois de fazer 18 anos - escrevia as justificações das faltas para os professores assinarem (ia transcrever algumas, mas ele não deixa), e o recorte do jornal de quando ele e os amigos se encaixaram numa cabine telefónica para bater um record mundial.

Sabia da inflação galopante que se abateu sobre a Alemanha, mas ter um bocadinho de papel fino na mão onde se lê "50 milhões" é estranho. Lembrei-me de uma descrição de Erich Maria Remarque - quantos daqueles pedaços de papel seriam necessários para comprar meio quilo de pão?

E sabia daquela façanha da cabine telefónica. De facto, vi-a na televisão portuguesa - muitos anos antes de ter conhecido o Joachim. Bem se justificava aqui a abordagem clássica "tenho a sensação que já o vi algures..." e a resposta "terá sido na televisão?"
 

ah, e tal, os refugiados são todos pessoas horrorosas que não conhecem a nossa cultura e têm uma religião terrível que vai dar cabo da Europa...

Lailah, uma iraquiana de 16 anos que ia no metro berlinense (U6, para quem quer saber tudo) reparou que a velhinha cheia de sacos, que tinha estado ao seu lado, ao sair da carruagem se esquecera da mala. Pegou nela, descobriu que tinha 14.000 euros, foi para casa e entregou tudo à mãe. No dia seguinte foram ambas à polícia. A velhinha, de 78 anos, já tinha avisado a empresa do metro e a polícia, pelo que foi fácil encontrá-la, e verificar que não faltava nada.

Lailah vive há dois anos num albergue temporário para refugiados em Berlim com a mãe, um irmão mais velho e duas irmãs de 3 e 8 anos. Vinte e quatro metros quadrados para a família de cinco pessoas, sem cozinha. Lailah já fala muito bem alemão, e está num curso para ser assistente social. O pai ainda está no Iraque. O pedido de asilo para toda a família foi recusado, e estão agora à espera do resultado do recurso que apresentaram.

A lei alemã prevê a entrega obrigatória de um prémio a quem encontrar valores acima de 500 euros. No caso, Lailah teria direito a 215 euros, mas recusou aceitar o prémio. "Em momento algum pensei ficar com este dinheiro. A nossa religião não permite aceitar dinheiro que pertence a outras pessoas.", disse ela. E acrescentou: "Queríamos viver num apartamento, o que é muito melhor que ter dinheiro. Pode ser que agora alguém nos ajude a encontrar um."

(Nos sites alemães há imensas notícias sobre o caso - nomeadamente esta.)





o que é que diz uma loira quando vê uma casca de banana na rua?

Trump anunciou na sede das Nações Unidas que põe a possibilidade de "totally destroy" a Coreia do Norte.

Trump falou em destruição total. Das duas, uma: ou não sabe o que diz, não fará nunca o que ameaça, e não é para levar a sério, ou sabe perfeitamente o que está a dizer e está disposto a fazê-lo. Nesse caso, o que ele anunciou nas Nações Unidas foi algo muito parecido com a "Endlösung" de um país.

E nós a olhar.

Por estes dias penso no que aconteceu na Europa nos anos 30 e 40 do século passado, e na responsabilidade de quem leu "Mein Kampf", de quem viu o partido de Hitler a avançar pelo país, de quem assistiu à tomada do poder, de quem viu as manifestações de força e as perseguições políticas e étnicas - e não fez nada.

Nós também não fazemos.

O que é que podemos fazer?
O que é que os alemães de 1933 podiam fazer?

- O que é que diz uma loira quando vê uma casca de banana na rua?
- Oh, não! Lá vou eu escorregar outra vez.

Oh, não! Estaremos nós a escorregar outra vez?

(Ao menos, estes tempos terríveis têm uma pequena vantagem: aprendermos a ser mais humildes no julgamento dos outros, os que há cem anos viram a casca de banana na rua e não souberam evitar a queda.)


São Paulo, Rembrandt e a «cura gay»

Copio para este blogue um texto excelente do Frederico Lourenço (desculpem o pleonasmo), publicado no facebook.

Só queria acrescentar uma ideia para os cristãos: deixemos entrar a luz de Cristo. Não é a Igreja, não é a terrível História da Igreja, não é a tralha acumulada em 2000 anos de Igreja. É a essência da mensagem de Jesus Cristo.

(Escrevo isto, e fico a pensar num comunista que ouvi há dias, a dizer que a ideia de comunismo é boa, as pessoas é que não a souberam aplicar, e que devíamos tentar outra vez porque da próxima vez é que vai correr bem...)


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Frederico LourençoSão Paulo, Rembrandt e a «cura gay»



Se tivessem dito ao fervoroso adolescente católico que eu era nos anos 70, eu não teria acreditado. Se, nos anos 80, durante tantas conversas com amigos padres, nos tivessem dito - também não teríamos acreditado.

O que se passa com este século XXI, que antecipávamos esperançosamente como o triunfo do Iluminismo, como o século das Núpcias da Fé e da Razão? Porque voltámos de repente à Idade Média, neste ano em que celebramos os 500 anos da Reforma protestante, o evento que deu início à Idade Moderna?

No país da Ciência que levou o ser humano à Lua, senta-se hoje na Casa Branca um presidente apoiado por baptistas e pentecostais, eleito por 80% dos evangélicos americanos. Esta administração americana dá cobertura e apoio às versões mais retrógradas e obscurantistas do cristianismo: ao cristianismo dos bilionários (como Betsy de Vos), dos supremacistas brancos do Southern Baptist Convention. Já foi divulgado que, uma vez por semana, há uma aula de estudos bíblicos na Casa Branca, onde um pastor milionário ensina aos bilionários da administração Trump a ler a Bíblia sob o prisma da teologia da prosperidade, do criacionismo, da negação completa da Razão.

Ganha força, no século XXI, a superstição que o século XVIII (e ainda mais o século XIX) veio refutar: a de que a Bíblia nos dá a ler, sem erro, a palavra «inerrante» de Deus. Cada vez mais se produzem e distribuem Bíblias pelo mundo inteiro em que todos os avanços do estudo crítico-histórico da Bíblia são postos de lado. Voltamos, nalgumas Bíblias do século XXI (inclusive em português), a ler uma absurdeza já refutada em 1672 por John Marsham, de que o livro de Daniel foi escrito no século VI a.C. (e não, como concordam os estudiosos sérios, no século II).

Temos produzidas e distribuídas em massa edições da Bíblia que nunca dão a entender aos leitores que é impossível que São Paulo tenha escrito as 13 cartas que lhe são atribuídas no Novo Testamento: na melhor das hipóteses, terá escrito 7. E quantos católicos e protestantes sabem que é possível argumentar, como fez Bruno Bauer em 1852, que todas as cartas atribuídas a Paulo no Novo Testamento são falsificações escritas em nome de Paulo no século II, posição crítica retomada em 1995 por Hermann Detering e em 2012 por Robert Price (remeto para a Bibliografia do 2º volume da minha tradução do Novo Testamento)?

O estudo sério sobre a Bíblia que se faz nas universidades não-católicas e não-evangélicas está cada vez mais a ser apagado e afastado da consciência dos cristãos, substituído por um discurso de aterradora ignorância e de imposição de uma agenda política colada ao catolicismo na Polónia, colada ao protestantismo baptista nos EUA e colada ao protestantismo evangélico no Brasil.

A Bíblia prestou-se desde sempre a ser instrumento daquilo que o poder político e religioso lá quis projectar. A distopia teocrática por que alguns pugnam na Polónia, no Brasil e nos EUA é algo que temos de combater com os instrumentos da Razão, com o estudo da História, com o pensamento crítico. E temos de combater essa realidade distópica com o próprio estudo crítico-histórico da Bíblia. Informarmo-nos, hoje, sobre a Bíblia é verdadeiramente urgente.

Pois do mesmo modo como olhamos criticamente para o retrato fantasista de São Paulo pelo pintor seiscentista Jan Lievens (que pôs Paulo anacronicamente a escrever num livro cosido e encadernado, objecto que não existia em vida de Paulo), temos de olhar criticamente para o retrato fantasista que os movimentos políticos distópico-teocráticos nos querem impor dos textos que servem de base ao cristianismo.

Que sustentação bíblica pode haver para a «cura gay», se nós não sabemos quem escreveu, nem em que circunstâncias, nem com que intenção, os poucos versículos do Antigo Testamento (equivalentes a pouco mais de 30 palavras num universo de 600,000) que condenam a homossexualidade? Nem sabemos como foram colados os conjuntos de frases desgarradas que são tantas vezes as cartas atribuídas a Paulo?

Há um debate aceso nas grandes universidades do mundo (Harvard, Yale, etc.) sobre se as frases de Paulo podem ser interpretadas como conveio durante séculos que fossem explicadas. E continua o debate - o livro de Price de 2012 é prova disso - sobre quem escreveu as cartas atribuídas ao apóstolo.
Sabemos que o pintor neerlandês Jan Lievens fez tudo o que pôde para pintar no estilo de Rembrandt - e pode ter convencido, em tempos, algumas pessoas. Mas a História da Arte tem hoje métodos científicos que permitem distinguir Rembrandt dos falsários que pintaram de modo a se fazerem passar por ele.

Da mesma maneira, temos de dar ouvidos aos grandes estudos críticos sobre a Bíblia, à grande bibliografia produzida desde o século XIX, que nos distingue as autorias reais e imaginárias dos livros da Bíblia.

Não nos deixemos levar por esta onda neo-medieval. Não baseemos decisões sobre a vida de pessoas que vivem no século XXI, em democracias laicas cuja implantação foi um dos maiores triunfos da história da humanidade, num Livro sobre cujas autorias, cronologia e coerência interna não temos a mínima certeza.

Demos a Rembrandt o que é de Rembrandt - e a Paulo o que é de Paulo. Não voltemos, em 2017, à leitura obscurantista da Bíblia que se fazia até ao século XVII. Abramos a janela da Razão e deixemos entrar a luz.

imagem: São Paulo por Jan Lievens (século XVII)

on body and soul



Este filme está a chegar agora aos cinemas alemães.
Conselho de amiga: tentem não perder.
Foi o primeiro que vi na Berlinale deste ano, e bastaram alguns minutos para concluir que esta Berlinale já me tinha valido a pena.

(Aos amigos em Portugal: tentem conseguir que o filme seja mostrado aí.)

a luta continua

Está difícil, está difícil...

19 setembro 2017

ai! quem me acode?

Esta manhã abri uma pasta de chocolate Ritter (esta mesma, de 250 g e tudo) e desde então tenho-me estado a desgraçar em queda livre. Ou então é do calor, que está a evaporar o chocolate.

(Mas vá, podia ser pior, podia ser uma embalagem gigante de Mon Chéri, e eu chegar à hora do almoço alegrezinha e com um hálito de me envergonhar para sempre.)


campanha eleitoral na Alemanha - um vídeo de "die Partei"


"Não faças merda com a tua cruz!"


"Die Partei" ("o partido") é um não partido, surgido a partir da revista satírica Titanic, que usa as campanhas eleitorais para parodiar e criticar o processo democrático. Opta deliberadamente por temas populistas, afirmando que faz como os outros partidos: para ganhar votos, diz o que o eleitorado quer ouvir. E acrescenta: se isso ajudar a retirar votos à AfD, tanto melhor.
Fica (quase) sempre muito longe dos votos necessários para entrar nos parlamentos, mas vai agitando o ambiente, dando que rir a uma certa faixa etária, e dando que pensar a alguns.
O seu presidente, Martin Sonneborn, conseguiu ser eleito para o parlamento europeu. Não tenho a certeza que o parlamento europeu estivesse a precisar de um satírico no lugar de deputado...

Um dos vídeos que está a passar na actual campanha eleitoral lembra, a brincar, algo realmente grave: o risco de a abstenção dar muita mais força à AfD.



Tradução:

Olá, chamo-me Nico Semsrott, e este é o meu lugar.
Sou treinador de desmotivação, e por isso candidato-me pelo partido Die Partei. A Alemanha está a ser dominada por um grupo sobre o qual nenhum partido fala: os que não votam.
O parlamento actual tem este aspecto [primeiro gráfico, 0:20]
E este é o seu aspecto se contarmos com os absentistas [segundo gráfico, 0:23]
Se os absentistas tivessem representação no parlamento, teriam mais deputados que o CDU. Na Alemanha, há quase 18 milhões de pessoas que não vão votar. No entanto, desde a segunda guerra mundial perderam sempre a oportunidade de tomar lugar no parlamento. Um escândalo. Die Partei é o único partido que pode representar de forma fidedigna os interesses de quem não vota.
Caros absentistas: se vos é indiferente quem se senta no parlamento, não acham que era engraçado serem representados por alguém que não se interessa por aquele lugar?
[gráfico, 1:01] Quantos mais absentistas votarem em Die Partei, maior é a participação nas eleições, e por isso maior é a probabilidade de a AfD e o FDP não conseguirem entrar no parlamento. Com alguma sorte, até o SPD.
Se não conseguirmos alcançar este objectivo, demito-me. Nem que para isso tenha de me erguer.
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Também pensei criar um movimento, mas sou contra o movimento.


campanha eleitoral na Alemanha - "Angela Merkel, a mãe da AfD"

No próximo domingo há eleições na Alemanha. Quando um dos temas mais importantes do momento é a hipótese de a AfD se tornar o partido mais importante da oposição, traduzo partes da coluna de Jakob Augstein no Spiegel:

Quando um dia se fizer um balanço sobre a era desta chanceler, do lado do "haver" vai constar que Angela Merkel é a mãe da AfD. Era ela quem estava ao leme quando os nazis entraram no parlamento federal alemão. Só por isso já merecia perder as eleições. Mas com Merkel é como com o FC Bayern München  - vota-se, e no fim é ela quem ocupa o cargo. A quem devemos dar o nosso voto, se queremos que a chanceler pague a factura? Ou: será que vale a pena ir votar?

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[O artigo online interrompe aqui para fazer esta publicidade, com links - traduzo também, porque é um bom exemplo do que o Spiegel está a fazer para conseguir financiar-se.]

Mais sobre este tema em Spiegel, caderno 38/2017



Votar de forma mais inteligente - um manual de instruções
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- assinatura

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Nazis. Palavra pesada. Será que estamos a banalizar os assassinos de judeus e os apologistas da guerra mundial do III Reich? Não. Jens Maier, da AfD, teme a "criação de povos mestiços" e quer acabar com o "culto da culpa" dos alemães. O seu camarada Wilhelm von Gottberg citou apreciativamente um neofascista italiano com as palavras: "a verdade dos judeus sobre o Holocausto está a receber protecção jurídica em cada vez mais Estados". E todos conhecem as afirmações de um dos candidatos principais da AfD, Alexander Gauland, sobre a deputada alemã de origem turca que deve ser "removida" para a Anatólia, e sobre termos o direito de nos orgulharmos por acções dos soldados alemães na segunda guerra mundial.

Sigmar Gabriel tinha razão quando há tempos dizia que muito em breve haverá pela primeira vez desde 1945 verdadeiros nazis a usar a tribuna do Reichstag.
Agora que a colheita castanha está à vista, vale a pena pensar em todos os jornaleiros que espalharam afincadamente o adubo que deu origem a este estrume:


["castanho" é uma palavra muito usada para designar os nazis, por ser essa a cor associada ao partido; esta de adubar para produzir estrume é uma liberdade criativa, necessária dada a impossibilidade de escrever "merda"]

- Thilo Sarrazin, obviamente, o padrinho da revolução da extrema-direita, que com as suas arriscadas estatísticas deu um rosto burguês ao ódio viscoso contra os muçulmanos.
- A revista Cicero, que publicou o "discurso zangado de um desapontado", no qual o realizador Oskar Roheler acusa Angela Merkel por já não ter "raízes no meu país". (...)
- Rüdiger Safranski, que simpaticamente mostra compreensão pela "raiva do povo", de quem é a frase: "A política tomou a decisão de inundar a Alemanha" - referindo-se às pessoas que fogem a uma guerra civil. Safranski recebeu há pouco o prémio Ludwig Börne na Paulskirche em Frankfurt (um dos berços da Democracia alemã). A laudatio foi dita por Christian Berkel, um actor famoso em Berlim, muito apreciado na empresa Springer.
- Por sua vez, nas Edições Springer - que afastariam todas as acusações de proximidade da AfD - trabalha o publicista Henryk M. Broder, que com o seu blogue "o eixo do bem" criou um parque de recreio para edições de extrema-direita. Por exemplo para Vera Lengsfeld, que em tempos foi  deputada do CDU mas agora aparece em público com Frauke Petry.

(...)

Quando o país marchou em direcção à direita, a responsabilidade estava nas mãos de Angela Merkel. A ameaça à classe média, a precarização das classes de rendimentos mais baixos, a desilusão de muitos alemães a respeito da justiça da repartição e da igualdade de oportunidades - tudo isto aconteceu durante o período em que ela foi chanceler. E tudo isto faz o berço da AfD.
Merkel é a mãe do monstro. É responsável pela mais importante - e devastadora - evolução política e social dos últimos 25 anos.


terra das maravilhas (2)

Os donos da Wunderland (os do post anterior, que confiam nas pessoas que dizem que não têm dinheiro para pagar um bilhete) puseram agora no facebook um filme a apelar ao voto.

Só por ser para vocês, dei-me ao trabalho de encontrar um versão com legendas em inglês. :)

Título do filme: os absentistas do apocalipse / e as consequências




terra das maravilhas (1)


(foto)


O Spiegel contava há tempos que a "Wunderland"("terra das maravilhas", uma sala em Hamburgo com uma colecção absolutamente extraordinária de comboios e paisagens em miniatura) resolveu abrir as suas portas durante alguns dias do mês de Janeiro às pessoas sem possibilidade de pagar um bilhete. A ideia era muito simples: na bilheteira, se as pessoas dissessem que não podiam pagar o preço, deixavam-nas entrar sem pagar.

Alguém, irritado por ter visto lá refugiados, enviou uma carta ao gerente da casa dizendo que costumava visitar a Wunderland, mas que ia deixar de o fazer, uma vez que não concorda com a política da Merkel de deixar entrar no país refugiados económicos, nem com a decisão de deixar estes refugiados económicos entrar de graça naquela sala, obrigando quem paga o bilhete a suportar também os custos dos outros. Terminava com "desejo-lhe dias sem bombas".

Os dois irmãos que gerem aquele espaço, Gerrit e Frederik Braun, contaram que a primeira reacção foi pensar que se tratava de uma brincadeira. Telefonaram ao remetente, dizendo que tinham lido a carta e que estavam sem saber se era para rir ou para chorar. Resposta: Aqui só nos dá vontade de chorar, quando vemos fotografias de estrangeiros na "terra das maravilhas".

A frase "desejo-lhe dias sem bombas" foi interpretada como uma ameaça para que deixassem de receber refugiados. Leio de outra maneira: tal como simpáticos comentadores do Observador me dizem que a próxima a ser violada pelos refugiados havia de ser eu, o autor da carta teme (ou deseja o castigo?) que a sua "terra das maravilhas" seja alvo de um atentado terrorista.

Como é habitual naquela empresa, quando se tem de tomar decisões importantes, o gerente foi falar com os funcionários sobre essa hipótese de chantagem e a reacção adequada. Ao contrário do costume, desta vez houve unanimidade na resposta: os 25 funcionários com quem conversou foram todos de opinião que era preciso tornar aquela carta pública. A Wunderland publicou a carta no facebook, com este texto:

Basta! Por favor, partilhem e peçam que outros também partilhem, para que todas as pessoas de bem que até agora se têm limitado a observar nos ajudem a fazer ouvir a nossa voz.
Trata-se da nossa iniciativa em Janeiro "não posso pagar", que deixou entrar 18.000 pessoas na Wunderland. Era dirigida a TODOS os que não têm  possibilidades económicas. 25% dos visitantes eram refugiados. A iniciativa baseava-se em confiança, e correu muito bem. Sentimos a felicidade e a alegria das pessoas! Infelizmente, no meio das inúmeras cartas de agradecimento, também recebemos mensagens como a desta fotografia.
Onde é que vamos parar, se uma iniciativa como a nossa leva a que algumas pessoas movidas pelo medo nos escrevam estas mensagens de ódio? O problema da nossa época virtual é que as mensagens de conteúdo negativo se espalham rapidamente, e as respostas positivas não têm o mesmo impacto, o que permite criar ideias completamente erradas.
Que sejamos capazes de, em conjunto, tomar partido por um mundo que ponha o humanismo em primeiro lugar. 



Na entrevista, os irmãos falaram ainda sobre o risco de confiar nas pessoas e a felicidade que sentiram ao ver que não foram enganados. Apesar de terem tido mais 18.000 visitas que o habitual naquele mês, as receitas no bar e na loja não aumentaram - o que significa que aqueles pais que entraram sem pagar bilhete não tinham sequer dinheiro para pagar uma bebida ou uma pequena recordação para os seus filhos.
Conta um dos irmãos: "Assistimos a cenas encantadoras. Crianças a chorar de felicidade, pais a chorar. O único desejo de um rapazinho para o Natal era uma visita à Wunderland, e os pais não lho podiam dar. Agora estavam ali os três, e os pais choravam. Também me vieram lágrimas aos olhos. Era capaz de pagar para ter momentos como este."
E acrescentam: "Nós não perdemos dinheiro por deixar entrar quem não pode pagar. Os custos são os mesmos. Todas as empresas semelhantes a nós - jardins zoológicos, museus, etc. - podem fazer o mesmo. Não têm nada a perder, só têm a ganhar. E o mais importante é que nestes tempos em que tantos sentem desconfiança e medo, uma iniciativa como esta mostra que é possível confiar nas pessoas e ser recompensado por isso. Por isso mesmo é que esta carta nos chocou tanto."