11 abril 2017

os terroristas estão a perder

Traduzo rapidissimamente (e abrevio em partes) um artigo de Christian Stöcker na sua coluna do Spiegel Online:

Londres, São Petersburgo, Estocolmo

Os terroristas estão a perder


O colunista estava em São Petersburgo na segunda-feira passada. Podemos aprender com as reacções dos habitantes da cidade como é a melhor maneira de reagir a ataques terroristas
.



Diz-se que os russos têm um talento especial para fazer poker face. Na segunda-feira passada tive a oportunidade de observar de perto a lendária impassibilidade russa. Estava em São Petersburgo com um grupo de estudantes alemães. Íamos num autocarro que nos levava do aeroporto para o metro. Durante a viagem, a estudante russa que nos devia acompanhar até ao hotel fez alguns telefonemas com um ar impassível, e depois escreveu alguns sms. Com um ar muito calmo informou-nos que o metro estava fechado, dizendo que era uma situação pouco comum mas não era um problema. Depois chamou táxis para nos levar ao hotel.

O terror lucra com os media digitais?

De facto, a estudante de 21 anos sabia perfeitamente o que se estava a passar. Cerca de 30 minutos antes da hora prevista para a nossa chegada ao metro tinha explodido uma bomba num comboio da linha que devíamos apanhar, matando 14 pessoas e ferindo 50. Havia crianças entre as vítimas.
A estudante contou-nos uns dias mais tarde que tinha telefonado a uma professora pedindo conselhos, e decidiram manter-nos longe do local do atentado sem nos sobressaltar.
Pouco depois, quando já íamos em dois grandes táxis a caminho do hotel, ficámos todos a saber o que se passava - por notícias recebidas da Alemanha. O modo como chegou até nós a informação sobre o que se passara a poucos quilómetros revela muito sobre a relação entre terror, globalização e meios de comunicação digitais. Todas as pessoas do grupo receberam telefonemas, notícias por WahtsApp ou mensagens urgentes, e algumas ficaram até bastante transtornadas. Em poucos minutos a notícia foi da Rússia até à Alemanha e regressou.
 
Dizer não ao medo

O terrorismo internacional lucra imenso desde logo com o facto de um atentado numa capital moderna ser publicitado instantaneamente no mundo inteiro. Seja em Paris, Orlando, Bruxelas, Nice, Berlim, Londres, Estocolmo ou São Petersburgo - a maior parte das pessoas que vivem nos países industrializados é praticamente obrigada a tomar conhecimento destes assassinatos. A atenção do público, que é um dos objectivos dos terroristas, é conseguida de forma muito mais fácil que há dez ou vinte anos. [O link é para um texto do mesmo autor, escrito em Junho de 2016, após o atentado de Orlando, alertando para o facto de a reacção mediática estar fazer o jogo dos terroristas.]
No entanto, no que diz respeito a outro dos seus objectivos - e provavelmente o mais importante -, que é o de espalhar a confusão e o medo, parece-me que não estão a ter tanto sucesso. O que vivi em São Petersburgo confirma essa impressão.
Mesmo no dia do atentado, a população de São Petersburgo parecia-nos tão calma como a estudante que nos acompanhara. Nos dias que se seguiram vimos as pessoas a apreciar obras de arte, a rir, a fazer festas, a discutir, a trabalhar e a passear. Falámos com os nossos anfitriões sobre política mundial, jornalismo, media, educação e temas do dia-a-dia. O atentado não estava esquecido, mas não dominava nem o quotidiano nem os pensamentos das pessoas.

Ataque a um estilo de vida global

"Os russos estão habituados a ter problemas", disseram-nos. É claro que a cidade ficou de luto pelas vítimas. E o encerramento do metro perturbou a vida de muitos. Mas as pessoas têm demasiados problemas práticos para se deixarem dominar pelo pânico. A minha impressão é que esta atitude não se deve apenas à indiferença lendária dos russos. Aconteceu o mesmo em Londres, Berlim e em todos os locais onde houve atentados: a população da cidade faz o luto dos mortos e sente-se próxima das vítimas noutras cidades - afinal de contas, os atentados tentam atingir o mesmo, ou seja, o seu estilo de vida comum, um estilo de vida global. Mas as populações dessas cidades não se deixam desorientar nem intimidar. Penso que esta recusa se torna a cada atentado ainda mais forte. E não se trata de uma decisão estratégica, mas instintiva. Mas é simultaneamente o melhor método na luta contra o terror: não se deixar aterrorizar. Porque assim os terroristas ficam a perder.


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A Fernanda Câncio escreveu ontem sobre este assunto, analisando-o por outro prisma. Pode-se ler aqui, vale muito a pena. À sua lista de actos de terror no Ocidente acrescentaria talvez os ataques armados às escolas, por alunos enlouquecidos, porque vejo neles paralelos com os ataques usando camiões ou carros. Pessoas desajustadas e ressentidas, que resolvem vingar-se usando um grupo aleatório de vítimas e a arma que encontram mais à mão - seja a pistola do pai, seja um camião roubado. 

(Por azar, li também os comentários. Caramba, o mundo está cheio de cães do Pavlov da nova geração: lêem "Câncio", desatam a babar. Coitados.)

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