07 abril 2017

"e tudo desagua no coração"



Ontem fui à Dussmann para assistir a um pequeno concerto e a uma conversa com a Khatia Buniatishvili, para promover o seu novo CD com os concertos para piano de Rachmaninov nº 2 e nº 3.
Cheguei cedo para apanhar um bom lugar, mas não deixavam entrar. De modo que fiquei sentada no café, em frente à porta fechada. Às tantas comecei a ouvir música de piano - era a pianista a aquecer os dedos. Eu e a minha incrível sorte: ontem bebi um latte macchiato ao som de uma rapsódia húngara, tocada por uma das melhores pianistas da actualidade.

À minha mesa sentaram-se duas senhoras que seriam, com certeza, da Geórgia. Apresentaram-me a irmã gémea da Khatia, que volta e meia vinha à porta conversar com quem lá estava, e que também é pianista, e explicaram-me que Buniatishvili é um nome muito comum na Geórgia, tal como Müller e Maier na Alemanha. Ou seja: a violinista Lisa Buniatishvili - que há tempos deu um concerto memorável na Filarmonia - afinal não é irmã das pianistas, nem sequer prima. As senhoras eram simpáticas, mas na hora de entrar na sala ultrapassaram-me à traição e foram sentar-se no lugar que eu queria, mesmo em frente ao piano. Este país tem estrangeiros a mais! (espero que percebam que isto era uma piadinha) E por ter  pena das outras duas senhoras que tinham chegado ainda antes de mim, umas velhinhas que não conseguiam correr, acabei sentada na segunda fila, para lhes dar a elas os lugares bons. Segunda fila não é assim tão mau - sobretudo se tiver em conta que não estava atrás de mim própria, esticadíssima para ver tudo por cima da cabeça das georgianas da primeira fila.

O concerto foi - infelizmente - curto, e muito bom: a rapsódia húngara nº2 de Liszt, com arranjos de Horowitz, e um estudo de Rachmaninov cheio de conversas paralelas - fico sempre muito impressionada com a capacidade de alguns pianistas tocarem todas aquelas linhas melódicas simultâneas de forma tão clara.

A conversa foi uma delícia. A pianista falou em alemão, e ajudava-se com as mãos em movimentos leves, elegantes, belos. Falou da sensação de unidade com o público, de não se deixar consumir de nervos (a entrevistadora mencionou a Maria João Pires e o seu terrível mal-estar antes do concerto), da dificuldade de tocar o nº3 de Rachmaninov porque tem inúmeros labirintos (ah, a mão dela a desenhar labirintos musicais!), mas que aquela música extremamente complexa acaba sempre bem porque no fim tudo desagua no coração. A mão, que avançara no ar como uma enguia, sublinhando a forma tortuosa da música, repousava agora sobre o peito. Encantadora.

E tornou-se ainda mais encantadora no final, quando começou a autografar CDs, e punha ao colo todas as crianças que lá apareciam (mesmo as que não eram filhas de amigas dela), para os pais fotografarem. Um carinho, uma afabilidade e uma simplicidade tocantes - em particular quando mergulhava o nariz na curva do pescoço e aspirava o aroma infantil com prazer evidente.

(A maior parte das fotografias não presta para nada, mas dá para sentir o ambiente da sessão e a naturalidade da pianista.)


 

 
 


 

  




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