01 março 2017

e então, Heleninha, como correu o ensaio com o compositor?

Correu bem. Quer dizer, exceptuando a parte de eu ter ficado em frente ao compositor e ao lado da mãe do nosso maestro, duplamente entalada, correu bem. O compositor é simpático e muito, muito estóico. Ouviu-nos com um sorriso enquanto nós lhe estraçalhávamos a composição, explicou com muito bons modos o que tinha pensado que aquela música ia ser. Pediu-nos para dar tensão e rumo às frases, especialmente aquelas em que se repete várias vezes a mesma nota (o que me fez pensar no samba de uma nota só, que vou ter de começar a ensaiar melhor no duche porque - e foi preciso cantar uma peça contemporânea em frente ao seu compositor berlinense para perceber o meu erro de sempre - resolvo esse tipo de sequências alterando o ritmo às notas com tal desplante que uma vez comentaram que canto os salmos como quem dança o vira, "canto" é como quem diz "cantava" no tempo em que salmodiava, entretanto ganhei juízo) (se calhar já dividia o parêntesis anterior em várias frases e explicações...).
Numa passagem em crescendo, o compositor - sempre a sorrir - pediu aos naipes femininos que não respirassem entre duas frases longas. Ah, malandro, desconfiei logo que se queria ir armar depois com os amigos: "as mulheres, oh, à minha frente: desmaiam todas!"
Pouco faltou.


Na segunda peça que lhe mostramos pediu mais velocidade. Já viram uma locomotiva a vapor a tentar fazer de TGV? Fomos nós, ontem. Mas ele gostou, e explicou que queria ter naquela música uma cacofonia de feira e festa popular, queria que nós cantássemos desirmanados e estridentes. Ora, já podia ter dito antes, veio falar com as pessoas certas! E tinha-nos poupado boas horas de ensaio no fim-de-semana do coro. O que nós nos esforçámos para cantar bem, e afinal ele queria era uma demonstração do que fazemos facilmente e com a maior das naturalidades!? O maestro deu o pontapé de partida, e nós largámos à desfilada, a ver quem chegava primeiro ao fim.
O compositor sorriu.
(Qual será a marca do calmante que toma?)

Em casa, contei ao Joachim. Que agora quer um bilhete para o nosso concerto. Disse-lhe que é muito caro, 25 euros, e até estão esgotados, mas ele insiste. Não sei se é sadismo, se é masoquismo, se é amor. Às tantas é por saber do que a casa gasta, e de como gosto de fantasiar quando falo do que me enche o coração.

Ponho-me a brincar com estas coisas, mas estou certa que o concerto vai ser bom. E para o meu coro, esta é uma oportunidade única de aprender com os melhores e de fazer caminho. Eu, por exemplo: mais 400 anos disto, e vou parecer o Farinelli. Tiques e tudo. 



1 comentário:

felicidade Lourenço disse...

Só posso dizer: MUITO BOM!!!