29 outubro 2016

haja quem entenda isto

Sei de uma rapariga que mora em Berlim, e não ignora que essa cidade tem um risco mais alto de sofrer um ataque terrorista mas faz a sua vidinha normalmente e sem se preocupar com isso, e depois dá consigo parada uma hora no aeroporto de Bruxelas e começa a fazer contas de cabeça.

Vou é comprar trufas.

28 outubro 2016

terras conhecidas



O Fox, esse autêntico português, adora desbravar terras novas. Um descampado que não conhece, uma floresta que ainda não percorreu, e é vê-lo feliz da vida, aos saltos e às corridas. Mas logo depois se desinteressa. Com o tempo, a alegria vai dando lugar a uma indiferença de quotidiano.

Por estes dias, ao passear com ele no lago, dou-me conta de que me está a acontecer o mesmo. Já nem levo a máquina fotográfica. Para quê? Tenho a sensação que a paisagem das minhas redondezas já deu todas as fotografias que tinha para dar. Mais nenhuma folha de Outono será novidade, nem mesmo se estiver debruada a gelo. Mais nenhuma ondulação no lago conseguirá surpreender ou encantar mais do que já surpreendeu e encantou.

Daqui a umas horas saio para os habituais quatro dias de Outono junto aos Alpes franceses, e levo a máquina fotográfica. Mas algo me diz que não a vou usar. Não sei que mais tirar daqueles montes e da luz das suas madrugadas.

Tanto melhor. Mais tempo sobra para as conversas com os amigos. Essas sempre novas, sempre renovadoras. 

Até já.

 

problemas intestinais



Deve andar por aí alguma cadelinha no cio, porque quando saio com o Fox para o levar a fazer as necessidades (ele é muito fino, decidiu que o nosso jardim é só para lazer) o bicho vai por ali fora a farejar e a refarejar, e até se esquece do ao que ia.

E assim se me faz luz: a necessidade de separar as casas de banho públicas em "para homens" e "para mulheres" é uma questão de saúde pública, para as pessoas não arranjarem problemas intestinais e urinários...

Curiosamente, no Verão passado estive num centro de encontros católico que tinha uma casa de banho unissexo. De onde se prova que, ao contrário do Fox, os católicos se sabem controlar, e não se confundem facilmente com essas coisas dos instintos...

(Quantos smileys de piscadela de olho devo meter aqui para perceberem que esta dos católicos é uma provocação brincalhona? E quantos smileys devo apagar, para afirmar que pessoas civilizadas podem perfeitamente viver numa sociedade em que as casas de banho são divididas não entre "para homens" e "para mulheres" mas, no máximo, entre "com urinol" e "com sanita"?)


27 outubro 2016

o tempo que passa

Lembra-me o facebook que há dois anos tinha algumas dúvidas sobre ir a um certo concerto.
Estava neste ponto:




Estes simpáticos vêm a Berlim em Março. Estou aqui a pensar se os vou ver, em memória do tempo perdido e assim, correndo o risco de encontrar a sala cheia de velhotes de cinquenta anos em busca do tempo perdido, ou se, em vez de voltar aos lugares onde fui feliz experimento outros concertos, como a ZAZ e a Lord (por acaso, esta vi outro dia, e foi um belíssimo concerto), com a vantagem que os miúdos que lá aparecem são bonitos e amorosos e com certeza me vão oferecer algum lugar que haja para (uma velhota como eu se) sentar.

(A verdade é que ainda não recuperei do choque, daquela vez que o facebook me estava a oferecer um clube de acasalamentos, e para me atrair escolheram uma fotografia de um velhote sorridente)

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Dois anos depois, mantém-se a dúvida, e a resposta é a mesma: não é só o tempo que passa, acontece o mesmo ao dinheiro. Estes figurões cobram por um bilhete o equivalente a cinco ou oito lugares do coro na Filarmonia. Não há condições.


26 outubro 2016

terramoto em Perugia

Caso queiram saber se não aconteceu nada à minha filha: não. Ufff.

Estava a cantar com o seu coro num palácio antiquíssimo. Diz que o edifício abanou muito e fez uns ruídos um bocado assustadores, mas não aconteceu nada. Pelos vistos aquele palácio já tem muitos anos a virar terramotos.

Ela ainda não sabe se houve vítimas e danos graves.

(Eu não sabia de nada, que estou aqui desesperada a fazer uma tradução. O vizinho viu no noticiário da noite e telefonou-nos, a perguntar se estava tudo bem com a Christina. Corri-lhe para o telemóvel, e ela não atendeu. Mãe sofre...
Ligou logo a seguir, e ficou impressionada com a rapidez das notícias - parece que o terramoto tinha sido cerca de uma hora antes.)


25 outubro 2016

autumn leaves

Aqui a artista confundiu as cores da época com a doença da ferrugem nas rosas, e largou uma bela demão de químicos contra o outono.

Sou o Charlot da jardinagem.


24 outubro 2016

recital

Esta manhã dei um recital, e correu muito bem. O programa incluiu bossa nova, algumas peças populares portuguesas, um Lopes Graça - tudo a cappella. Terminei com o Grândola, obviamente.

A voz estava segura e solta, a acústica era perfeita. Em suma: um belo recital.


Agora só estou um bocadinho preocupada com a conta da água que vamos receber no fim do mês.


20 outubro 2016

não percam estes filmes!

Bem sei que ainda só estamos em Outubro, mas faz de conta que é Natal e estou a oferecer filmes.

Mais concretamente: esta semana decorreu em Berlim o Prix Europa, o festival europeu mais importante de televisão, rádio e media online. Estive lá dois dias, cheia de pena por não poder estar mais. Até amanhã às 23:00 (hora portuguesa) é possível ver estes filmes online. Quem estiver interessado entre no site do festival (http://prixeuropa.eu/home) e registe-se para o "Heimkino", ou então envie-me uma mensagem privada. 

Alguns dos filmes que estão disponíveis que recomendo:

- Les Sauteurs (those who jump)

Desculpem, mas até tenho de escrever em maiúsculas: NÃO PERCAM ESTE FILME!
O acampamento junto a Melilla, filmado por pessoas que lá vivem.
Já falei dele aqui, quando o vi na Berlinale.






- Watani: My homeland

Um documentário tocante sobre uma família de Aleppo. Melhor dizendo: NÃO PERCAM ESTE FILME!
Começa por mostrar a vida da família na cidade em guerra. Em algum momento, o pai é capturado pelo Daesh e mãe vem para a Alemanha com os quatro filhos. O modo como as crianças vão reagindo às mudanças na sua vida, e falando sobre elas, é imperdível.






- The White Rabbit

Filme de ficção alemão sobre os perigos de, na internet, adolescentes serem apanhados em redes de abuso sexual de menores. O filme passou recentemente na tv alemã em horário nobre, e foi seguido de um debate. Filme e debate tiraram-me o sono durante vários dias. O filme mostra os riscos com enorme crueza. No debate que se seguiu, com especialistas e várias vítimas, a mãe de uma miúda de 12 anos que fugiu com um homem de 53 explicava que a partir do momento em que se cria uma ligação emocional e uma confiança com o amigo virtual, a realidade deixa de ser importante; uma mulher dizia que entrou num chat dizendo que tinha 14 anos e em meia dúzia de minutos tinha gajos a querer saber se ela era virgem e se se masturbava; um homem a contar que foi vítima de chantagem por ter acreditado que do lado de lá estava uma rapariga a flirtar com ele)



- The Magnitsky Act - Behind the scenes

Documentário construído como um filme policial, muito polémico. A acusação é grave: as repercussões enormes do caso Manitsky nos EUA terão sido resultado de uma manipulação pela sua própria empresa para esconder uma falcatrua de centenas de milhões.






No conjunto dos filmes disponíveis até amanhã à noite, os refugiados são um tema central, mas há também vários filmes sobre a vida dos ciganos na Europa, prostituição forçada, redes pedófilas, etc. Dois que ainda vou tentar ver:

- Herr Abass and the Stolen Land, um investidor africano invade as terras de agricultores alemães e explica-lhes que vai haver ali uma plantação nova e uma fábrica; a terra será usada durante 50 anos contra uma renda de valor mínimo. Parece impossível na Alemanha, mas aconteceu em Sierra Leone.
- In the Name of Morals and Order, sobre perseguição a jovens suíços por terem um comportamento que ameaçava uma sociedade obcecada pela ordem e conformidade. Até aos anos 80, estes jovens eram postos na prisão, forçados a viver em famílias de acolhimento ou instituições, e alguns foram até esterilizados.


19 outubro 2016

é assim que...

Amanhã o "meu mais novo" faz 20 anos.

Hoje, no autocarro, uma senhora ofereceu-me o lugar dela. E desconfio que era mais velha que eu.


selfie com Hitler

(foto)

Diz o Spiegel online que a casa onde Hitler nasceu, em Braunau am Inn, vai ser arrasada. No seu lugar vão fazer um edifício novo, sem qualquer relação com o anterior, destinado a serviços estatais ou a uma instituição de apoio social.

A casa, desabitada, estava a tornar-se local de peregrinação para neonazis vindos de toda a Europa para se fotografar  junto à fachada.


18 outubro 2016

feliz o povo que tais políticos tem

A 3 de Outubro a Alemanha comemora a sua reunificação. Este ano os festejos decorreram em Dresden, no coração de uma região que tem dado algumas dores de cabeça ao país, e foram ensombrados por arruaças de enorme violência verbal.

Norbert Lammert, o presidente do Parlamento alemão, fez um discurso histórico: simples, claro e incisivo, lembra a História e aponta as dificuldades e as conquistas do nosso tempo, indica os valores fundamentais nos quais se alicerça o futuro.

Em certos momentos, especialmente no final, faz alguma troça do povo alemão, e os alemães riem-se com ele. Feliz o povo que tem à frente do seu país um político capaz de fazer rir quando critica e indica caminhos.

É um pouco longo, mas vale bem a pena para ter uma ideia da Alemanha neste 26º ano da graça da sua reunificação.

(Podem ler aqui em alemão, e aqui em francês.) 





Speech by the President of the German Bundestag, Professor Norbert Lammert, on the Day of German Unity 2016, Dresden

President of the Bundesrat, our host Minister-President Stanislaw Tillich,
Federal President,  
Madam Chancellor,
President of the Federal Constitutional Court,
Excellencies, distinguished representatives of the Churches and faith communities,
Honoured colleagues from the European Parliament, the German Bundestag and the Land parliaments, Mr Mayor, guests, ladies and gentlemen,

Now that more than a quarter of a century has passed since the restoration of German unity, we no longer have to feel excited that the celebrations are taking place – for the second time – here in Dresden. But we can certainly be happy that we are now able to take for granted a situation which, for decades, seemed far beyond our reach: unity in freedom.
And of course, people are quite within their rights to voice their opposition. But those who are here today, shouting and blowing their whistles the loudest and giving vent to their astonishing levels of indignation at no cost to themselves, plainly have the most faded memories of the state that this city and this country were in before German unity was possible.
I should like to express my profound respect for all those people in Dresden, Saxony and Thuringia, in Saxony-Anhalt and Brandenburg, in Mecklenburg-Western Pomerania and Berlin, who know what they achieved during those years and who have not forgotten the support they received from others.
The first celebrations of German unity here in Dresden in 2000 were described by one of Germany’s leading newspapers, in an article entitled “Bratwurst and Baroque”, as an event “at which, in this 10th anniversary year, the Germans are less than successful in joyfully celebrating their regained unity.” Since then, much has changed – in this respect, but also in others. Yet joyful in every sense is not how I would describe Dresden this year, and the same applies to Germany as well.
This year, 2016, has clearly revealed some of the interconnections, but also the tensions, that Europe and its neighbours have to deal with in the 21st century.
In a referendum in the United Kingdom, voters opted by a narrow margin to leave the European Union. The young generation, who will have to live with the consequences of this decision for the longest time, was least likely to turn out to vote, resulting in a majority that is detrimental to their interests.
In Turkey, factions within the army staged a coup in an attempt to forcibly overthrow the democratically elected government, but failed due to the resistance of the public, who are now faced with the bitter realisation that it is not only the military challenging the constitutional order.
In Syria and neighbouring regions, for the fifth year in succession, people are experiencing the ruthless application of brutal military force, which has claimed hundreds of thousands of lives and forced millions out of their ruined towns and villages. At the weekend, the only hospital still in service in Aleppo was bombed in an air strike.
On Europe’s eastern border, too, the military clashes between Russia and Ukraine are continuing, as is the annexation of Crimea in violation of international law.
These conflicts alone clearly show that the European peace order to which the European CSCE members, the US, Canada, the Soviet Union and Turkey made a formal commitment in the 1990 Charter of Paris cannot be taken for granted; nor is it secure for all time.
At the time, the signatories expressly stated that they recognised the right to national self-determination, the principle of non-intervention in other states’ internal affairs, and the inviolability of existing borders. It was a promise of a positive future – and it was addressed to a continent whose history was one of conflict, a continent which, like our own country, had long been divided and where – again, like in Germany – unity and democracy were now to be made permanent.
The triumph of democracy across Europe was not “the end of history”, as some overhasty observers claimed. History was open-ended – as it is today. We Germans were given a new opportunity and we made use of it – with the energetic support of our neighbours and friends. We built bridges, at home and abroad. All have helped to shape our country in the awareness of our specific German history.
Ladies and gentlemen,
One hundred years ago, in December 1916, in the midst of the First World War, the main entrance to our Parliament in Berlin was enhanced with a striking new inscription – a dedication “Dem Deutschen Volke” (“To the German People”). By then, the Reichstag building was already 22 years old.
In the German Empire, however, the process of reaching agreement on the inscription was beset with conflict, much like Parliament itself. The inscription proposed to the Kaiser – who would have happily dispensed with Parliament and its purpose-built Reichstag altogether – was “To the German Empire”. Kaiser Wilhelm II preferred “To German Unity”. He distrusted Parliament, seeing it as a place of conflicting opinions and interests, and invoked the principle of national unity.
But that’s just history – or is it? The dedication “To the German People”, agreed one hundred years ago, reflected the initially heightened self-confidence of most parliamentarians of the day as the war progressed. The inscription was mounted just before Christmas 1916. It was the year of brutal battles between Germany and France at Verdun and the Somme, which ended with the front lines largely unchanged and no territorial gains but left more than a hundred thousand dead on each side. The letters of the inscription were cast from French cannonballs, captured during the Wars of Liberation against Napoleon and melted down.
The lettering for the inscription was manufactured by the Loevy Bronze Foundry, owned by a German-Jewish family, whose son had renounced Judaism. He was baptised and, in 1918, underwent adoption, taking the new name of Erich Gloeden in the belief that this would ensure his safety. Such optimism proved to be false: Gloeden was arrested by the National Socialists for assisting the persecuted, including a general involved in the 20 July plot to assassinate Hitler. Gloeden’s wife, his mother-in-law and he himself were guillotined at Plötzensee in November 1944.
History. The national history of any country is the sum of the countless personal stories of ordinary people, which often go unnoticed or are soon forgotten. Stories like Erich Gloeden’s are part of our heritage. His story is an example of how, only a few generations ago, people in our country were excluded from the nation to which they belonged as a matter of course, and were stripped of their rights and protection, leaving them exposed – at a time when the Weimar Republic had collapsed, the Reichstag was a burnt-out shell, Parliament had been deprived of its powers, and the lives and physical integrity of members of the political opposition were in jeopardy.
These lessons of history create an obligation, particularly on this Day of German Unity, to reflect on all that has changed, has changed for the better, over the past one hundred years and how these changes have come about. They oblige us to reflect on who and what is German and who is encompassed by the German legal order today – in other words, to consider for whose benefit the elected Members of the German Bundestag debate and enact laws beneath the dedication “To the German People”.
In view of the many changes that have taken place, the objective difficulties and the “mountains” of problems complained of - sometimes without good reason - which preoccupy us today, there is no doubt in my mind that the task which presents itself “to the German people” is this: we must ask ourselves what kind of country we want Germany to be, and what kind of Germany is appropriate, for the 21st century. At the moment, we do not seem to know the exact answer to these questions. It is a contentious issue which can and must be discussed. But in that debate, anyone wishing to defend the West against actual or supposed threats must also adhere to the minimum standards that our Western civilisation requires. They must show respect and tolerance, with proper regard for freedom of opinion and freedom of speech, freedom of religion and the rule of law.
Today, Germany is different from how it was a century ago, thankfully, and different again from the Germany of 26 years ago. Germany is changing, not only because of the transformation taking place in the wider world and in our own neighbourhood, but also because the people of Germany are changing. Our diverse life stories tell who we are and where we come from, what shapes us and what we expect from the values and rules that apply here, whose purpose, incidentally, is to enable everyone living in Germany to seek and, I would hope, find personal happiness and fulfilment here. And wherever immigrants’ customary patterns of behaviour conflict with the laws of the land, it is, of course, our rules which apply – to everyone, without exception.
The following comes from a letter about displacement and expulsion, seemingly a recurrent experience:
“Our boat is hopelessly overloaded. The basket has already swung out over the sea but I seize the man’s arm and pull it back towards me. I lift out my daughter. I lay her on my breast and bind her to me. She’s only two days old. I gave birth to her at the waterfront, and the very next day, we set out on the boat. She rarely cries. (…) As for myself, I am completely numb. The sense of relief doesn’t come until later, as we sit in the barracks which are our makeshift accommodation. We have escaped with our lives, but we still have a long way to go before we reach our destination." Escaped; reach our destination – the text might be describing the fate of a refugee from the Middle East. In fact, it is the story of a young woman who fled Königsberg with her family in 1945.
This year, once again, we are repeatedly confronted with events, images and reports that we would never have imagined were possible in the 21st century.
“A quarter of an hour after we cast off, the engine failed. Everyone started screaming. (…). My sister jumped into the water and started pulling the boat. After a while, I jumped in after her. At that moment, I couldn’t think. I just saw my life passing before my eyes.”
This young woman escaped across the water as well. Yusra Mardini, born in Syria, has been living with her family in Germany for just over a year. In summer, the 18-year-old swimmer took part in the Olympic Games in Brazil, competing as a member of the Refugee Olympic Team. “Sometimes, life throws you opportunities when you least expect it,” she says.
Our country, whose unity we are celebrating today, and our society can and will offer opportunities to live in peace and freedom – to the German people, to those born here and to immigrants, to young and old, to women and men, to Christians, Muslims and Jews, to rich and poor. Diversity is not empty rhetoric. Saxony, where we are celebrating today, has long been home to people born in Swabia, but also to Czechs and Poles. Women from Brandenburg have married men from Bremen with Turkish roots, and Berliners whose freedom was once bought from the GDR and who went to live in the Rhineland have now moved back to their home city on the River Spree. Westphalians have found happiness in Mecklenburg-Western Pomerania, and people from Lower Saxony have made a life for themselves in Thuringia – the Minister-President is an example. And for years, an actor from Dresden has kept millions of viewers on the edge of their seats in the TV crime show “Tatort” set in Münster.
Germany is a vibrant country – a good place to do business, with a diverse and colorful society and public figures who embody the successful blending of tradition with innovation.
In Germany, a Lieutenant-Colonel who was born in Bangkok leads the Bundeswehr’s Big Band. A Chinese woman is the Vice-President of a Bavarian university. A Syrian was crowned this year’s Wine Queen in Trier. A Muslim of Turkish origin was the champion marksman in a traditional Catholic shooting club in Werl, Westphalia. And a TV anchorwoman whose family comes from Iraq defends freedom and the rights and responsibilities of the German media against attacks on democracy. Germany’s football, Olympic and Paralympic teams are successful not least because, regardless of their origins or the colour of their skin, their members aim for the same goals and compete together – under one flag.
Nowadays, we are in the happy position of being able to shape the unity that we are celebrating today, unlike the Germans of previous centuries. Long out of reach, the dream of “unity and justice and freedom” was first encapsulated in this phrase in 1841, 175 years ago, on the windswept cliffs of an island in the North Sea. That island was Heligoland which, at the time, belonged not to Germany, which did not yet exist as a nation-state, but to the British Empire.
The dreamer was Hoffmann von Fallersleben, a Professor of German Language and Literature at the University of Breslau. In his Lied der Deutschen [“Song of the Germans”], he gave expression to his longing for national unity and liberties. Within a year, he was dismissed from his post for writing his political poems. The law of the day was not on his side, unity was a long way off and freedom was still very much a work in progress.
Like the Reichstag inscription, this song’s story mirrors the turbulent events of German history. During the First World War, the German troops would sing the first verse – “Deutschland, Deutschland über alles” – of this same song with emphatic and aggressive nationalism. With diabolical simplicity, the National Socialist leaders then twisted the meaning of this first verse for their own propaganda purposes, first against their own and later against other nations. So it was only logical that the same regime should ban the second and third verses, for justice and freedom had become alien concepts in that Germany, and national unity did not survive the ensuing war.
Today, we take for granted the rights which were denied to Hoffmann von Fallersleben and his contemporaries. We live in a unified state, in justice and freedom. We live in peace with our neighbours. Germany is a democratic country, by no means perfect, but certainly in a better state than ever before. It is not paradise on Earth, but for many desperate people, that paradise is assumed to be here rather than anywhere else. And if that is so, we have all the more reason to insist that in terms of its basic direction, this country should stay as it is.
In a survey of 16,000 global citizens – opinion leaders from business, academia and government – unveiled at the World Economic Forum in Davos earlier this year, Germany was ranked the “best country” on Earth in terms of political stability, economic prosperity, social welfare, education, science and infrastructure.
That might be overstating the case, but it does show that we are succeeding in many areas – more so, evidently, than other countries. And yet compared with other countries, we do not stand out for our high levels of satisfaction. In the virtual Happiness Atlas compiled by the US company Gallup, which measures perceptions in 138 countries, the Germans are ranked 46th – between Senegal and Kenya. In a new survey, we have worked our way up; we now rank right behind Vietnam. I am not convinced that this is purely down to the proverbial German modesty.
In my view, we can and should show rather more optimism and self-confidence. Arthur Schopenhauer was born in Danzig (now Gdańsk) and died in Frankfurt am Main, so he never experienced the first united Germany in 1871 nor the second in 1990. But he lived in many German and European cities, Dresden among them, and gained a wealth of experience. One of his observations still seems apposite today: “The problem with Germans is that they look in the clouds for what lies at their feet.” It’s a talent that all Germans seem to have in common, where “Ossis” and “Wessis” have long been of one heart and mind.
We live in circumstances which are the envy of almost the entire world. And, partly as a consequence, we are faced with challenges which we can and must overcome, if we are so minded.
German unity makes demands of all of us, the satisfied and the dissatisfied alike, but today of all days, despite all the setbacks, the obstacles and the fears for the future, we should allow ourselves a measure of satisfaction and perhaps even a moment of joy. We are one people and we are now living together in a way which entire generations before us could only dream of: in unity and justice and freedom.
So we have three good reasons at once to celebrate – at least three. In that spirit, let me conclude by wishing everyone here in Dresden and across the country a pleasant and peaceful Day of German Unity.

13 outubro 2016

Bierruhe


(fonte: Tagesspiegel)


Há algumas semanas li numa revista um artigo muito interessante sobre o que aconteceu em Munique no dia do amok, quando o mundo inteiro achou que o 13 de Novembro de Paris se estava a repetir na Alemanha. Guardei a revista para falar aqui desse artigo, e fi-lo tão bem que não sei onde está, e já nem me lembro se era a Spiegel ou a Stern. De modo que vou ter de referir de memória:

A partir dos factos (um iraniano tresloucado e tomado de ódio por turcos começa por armar uma cilada para os atrair a um restaurante, e tenta matar o maior número possível de pessoas nessa zona; duas horas e meia depois suicida-se em frente a alguns agentes da polícia), o artigo vai dando exemplos do pânico que se espalhou em toda a cidade e rapidamente chegou ao outro lado do planeta, levando o Obama a solidarizar-se com o povo de Munique, enquanto este corria assarapantado, em fugas desnorteadas e perigosas, pressentindo em qualquer ruído mais forte um ataque terrorista. Fala-se de uma miúda de 14 anos que vem passar o fim-de-semana com o pai, e acaba escondida várias horas numa cave sem rede de telemóvel, a muitos quilómetros de distância do local dos ataques. Fala-se de uma mulher (libanesa? tunisina?) que está no cinema com a filha, quando alguém entra pela sala a anunciar que Munique está a ser alvo de um ataque terrorista; a primeira reacção da mulher é um terrível medo dos terroristas islâmicos, e a segunda é medo por se dar conta de que, naquela sala, aos olhos dos outros a "terrorista islâmica" é ela; a fuga decorre sem incidentes, particularmente devido à calma da filha de sete anos que diz que já treinaram aquilo na escola, e sabe perfeitamente o que é preciso fazer. E fala-se de uma cervejaria no centro, em cujo pátio está a decorrer uma grande festa, cujo dono se vê obrigado a muitas mentiras e muito bluff para levar as pessoas para um lugar mais seguro sem criar uma onda de pânico. Ao fim da noite, quando vai fechar a cervejaria depois de as pessoas terem conseguido fugir todas, dá com uns 10 clientes que ainda estão calmamente a acabar de beber a sua cerveja, e manda-os para casa.
Depois de mostrar a irracionalidade da cadeia de reacções provocadas pelo amok, o autor termina com votos de que, numa eventual tragédia idêntica, sejamos capazes de fazer como os últimos clientes da cervejaria: ter "Bierruhe" (literalmente: tranquilidade da cerveja, com o sentido de tranquilidade inabalável).

Esta semana deflagrou um incêndio num dos edifícios mais icónicos de Berlim. O prédio de 21 andares foi evacuado serenamente. As ruas foram fechadas ao trânsito, os peões desviados para o passeio da frente. Foi chamado o corpo de intervenção especial da polícia federal. Praticamente não se ouviram sirenes da polícia e dos bombeiros. O incêndio foi rapidamente dominado, mas uma mochila sem dono provocou alguma preocupação e um reforço das medidas de segurança. O ambiente era de tal modo calmo que numa das ruas cortadas ao trânsito vi um casal parado à chuva, em frente ao semáforo, porque estava vermelho para peões.

A polícia aprendeu depressa com o exemplo de Munique: três meses depois, perante uma crise de imagem facilmente associável a atentados terroristas, soube enfrentar a situação sem alarmar as pessoas. Com polícia assim é muito fácil manter a Bierruhe.

A verdade é que é muito mais provável morrer na próxima vaga de gripe ou num acidente na estrada do que num atentado terrorista. E nem a hipótese de uma gripe ou de um acidente na estrada nos tiram o sono e o gosto de beber calmamente a cerveja até ao fim.
Que é como deve ser.


sequência lógica

Depois da poesia, do teatro, da novela, do conto, do jornalismo e da poesia para música, o que faz sentido é que da próxima vez atribuam o Nobel da Literatura ou a crónicas de jornal (Lobo Antunes! Lobo Antunes! Lobo Antunes!) ou a blogues.

Pelo sim pelo não, vou pôr na agenda uma ida ao cabeleireiro daqui a um ano menos um dia (sim, enquanto há vida há esperança).





outras verdades que se revelam (ou não) no vestiário masculino

Nada como ter informadores que frequentam vestiários masculinos para ficar a saber o que lá se passa. Contaram-me há dias que há muçulmanos (depreende-se que são muçulmanos) que usam 3 calções de banho sobrepostos, e que nunca tiram o terceiro, nem no duche.

Uma pessoa ouve isto e pensa logo naquele comentário "ah, pois, as mulheres têm de andar todas tapadas na praia, mas os homens podem ir muito lampeiros nos seus confortáveis calções de banho, não é?"

Parece que não. Parece que alguns deles também tomam precauções para disfarçar o mais possível a região genital, e não deixar que nenhum estranho veja certas partes do seu corpo. O que suscita algumas questões:

E se não fosse apenas uma questão de poder dos homens sobre as mulheres?
E se fosse também uma questão de pudor deles e delas em relação ao seu próprio corpo?
E se fosse impossível de destrinçar onde acaba o pudor e começa a dominação machista?
E se o nosso gesto de - pretensamente - libertar as mulheres muçulmanas da dominação machista fosse afinal uma violação do seu pudor?


PS. Alguém faça o favor de explicar a diferença entre vestiário e vestuário aos estudantes estrangeiros que estão a fazer estágios em alguns meios de comunicação social, e escrevem as notícias online. E dê também os parabéns a esses meios de comunicação social por aceitarem correr riscos para oferecerem um desafio tão aliciante a jovens estrangeiros sem conhecimento da língua portuguesa.
(Esses artigos são escritos por jovens estrangeiros, não é? Erasmus, e assim, não é?)


10 outubro 2016

cá se fazem, cá se pagam

Vocês desculpem a palermice que vou dizer, mas o que tem de ser tem muita força: os nossos muçulmanos são melhores que os vossos!

Conta-se depressa: a polícia alemã suspeitava de um sírio, foi à casa dele, o gajo conseguiu fugir; a polícia encontrou na sua casa um explosivo extremamente potente. Entretanto o fugitivo pediu a um compatriota seu se o deixava ficar na sua casa, o outro deixou, mas quando viu que a polícia andava à procura do seu hóspede dirigiu-se à esquadra mais próxima. O bombista foi apanhado. Sem militares nas ruas, sem fechar o metro, sem pôr nenhum bairro a ferro e fogo.

Depois desenvolvo, mas por agora queria dizer que se confirma: cá se fazem, cá se pagam. O modo como grande parte da sociedade alemã aderiu ao gesto de solidariedade da Angela Merkel resulta numa coisa tão simples como isso: muçulmanos que se vêem reconhecidos como pessoas de bem, e se portam como o que são - pessoas de bem.

Obrigada, ó Merkel. Obrigada, ó justos do povo alemão.



09 outubro 2016

um hijab, meu reino por um hijab...



O que mais raiva me dá neste vídeo é ver a figura triste que a mulher involuntariamente faz no meio daqueles dois asquerosos. Sabemos o que estiveram a dizer sobre ela - embora não seja propriamente ela, porque não repararam na pessoa, só lhe viram as pernas, só previram o beijo imposto, a "pussy" ali à mão de semear - e percebemos a intenção no que lhe dizem.
 
"Então e um abraço ao Donald?", impõe o Billy Bush (já agora, um pouco de contexto: o Billy Bush é primo direito do então presidente dos EUA). Sabemos o que está a pensar, esse escumalho, sabemos a infâmia dos dois homens sob aquela máscara de pessoas simpáticas. Mas a mulher não sabe, e sorri, e abraça, e tenta responder com humor ao cerco traiçoeiro e cúmplice que lhe fazem. Avança no seu vestido sexy, preparou-se mais ou menos voluntariamente para ser servida no altar destes dois machos, num sacrifício que desconhece estar a decorrer.

--

Da próxima vez que mandarem polícias obrigar mulheres a despir-se numa praia, melhor seria poderem dar garantias de não haver nas redondezas pessoas com este olhar despudorado, desrespeitador e invasivo, e este discurso que reduz as mulheres a objectos.
O vídeo da conversa entre o Trump e o Bush é apenas mais uma confirmação de que o mundo ocidental não tem autoridade moral para impor códigos de vestuário às mulheres.

(Sim, eu sei que não são as mulheres que devem tapar o corpo para se protegerem do mau olhado, são esses predadores que deviam usar óculos de desfocar, se não se conseguem refrear. Mas enquanto alguns não se souberem controlar, e enquanto continuar a tendência para relativizar e desculpar esse comportamento, que seja dada a cada uma a liberdade de se proteger como quiser - sem prejuízo de um trabalho que a sociedade tem de fazer como um todo para que as mulheres não se sintam ameaçadas e devassadas no espaço público.)
 

mais uma corrida, mais uma viagem...



O meu coro tem um projecto extremamente ambicioso para este ano: um concerto em conjunto com o Rundfunkchor Berlin. Eh, valentes! Até me lembra aquela anedota da formiga a caminhar ao lado do elefante, toda contente com a poeira que estavam a levantar.

(Se os meus colegas do coro lerem isto, estou tramada)

Uma das peças que vamos tocar são os Liebeslieder do Brahms. O homem sabia o que fazia: a linha melódica de cada naipe é harmoniosa e equilibrada, dá imenso gosto cantar. Vou adorar fazer o meu playbackzinho ao lado do Rundfunkchor Berlin.

(Se os meus colegas do coro lerem isto, estou retramada)


08 outubro 2016

para mais tarde recordar

Bem sei que o debate Trump x Clinton já foi há uns tempos, mas na altura não tive tempo para isto, e quero guardar algumas reacções aqui neste meu blogue-despensa.


1.



2.
Let me summarize this night for you so far.





Havia mais, mas perdi-as na vertigem do tempo, triste vida.

party like a russian

Sabem aquelas perguntas parvas para encher revistas? Falaram-me há dias de uma delas, "quais são as músicas favoritas dos russos?", e de uma resposta possível: Valsa das Flores, de Tchaikowsky, Dança dos Cavaleiros, de Prokovief, e La Cumparsita. Não me perguntem o porquê da escolha, que estou a vender o peixe ao preço a que o comprei.

O Robbie Williams também comprou, e tratou logo de misturar a Dança dos Cavaleiros no seu Party Like a Russian:



A dança, propriamente dita (desculpem, não encontrei melhor coreografia - esta aqui parece inventada a uma segunda-feira de manhã, é só serviços mínimos; coitada da música, não merecia):



Esta interpretação de Tugan Sokhiew tem uma força extraordinária (no vídeo, a "Dança dos Cavaleiros" é precedida por "Montéquios e Capuletos"):



07 outubro 2016

Nobel da Paz


(fonte: Spiegel)


Aqui pela Alemanha falava-se de:
- Snowden,
- Swetlana Gannuschkina (rede de apoio a refugiados na Rússia),
- Denis Mukwege (ajuda a mulheres vítimas de violência sexual no Congo),
- Ernest Moniz e Ali Akbar Salehi (acordo sobre energia nuclear no Irão),
- capacetes brancos (ajuda a civis na Síria),
- Raif Badawi (o blogger saudita que foi condenado a 10 anos de prisão e 1000 chicotadas),
- Juan Manuel Santos e Timoleon Jimenez (negociações para a paz na Colômbia),
- papa Francisco,
- um pescador grego que ajudou refugiados,
- Angela Merkel (pela decisão histórica - e cada vez mais criticada nos países ricos - de ajudar refugiados),
- Helmut Kohl (uma espécie de Lobo Antunes alemão).

A maior vantagem da atribuição deste prémio é que por uns momentos nos damos conta da existência de tantas pessoas que, à medida do poder que têm (e às vezes é o mero poder de serem fiéis aos seus valores), se entregam destemidamente ao imenso trabalho da paz. Mesmo que a maior parte destas pessoas não ganhem o prémio, o mundo ganha muito com todas elas, e com o seu exemplo  - que cada um de nós é convidado a seguir.


04 outubro 2016

o que interessa realmente saber sobre a verdadeira identidade da Elena Ferrante



O que interessa realmente saber sobre a verdadeira identidade da Elena Ferrante é que o cusco que ganhou dinheiro a devassar a privacidade de uma pessoa que queria simplesmente escrever livros de ficção sob anonimato, o cusco, dizia, chama-se Claudio Gatti. Parece que teve alturas em que foi um bom jornalista.