26 abril 2016

mais uma causa fracturante: casas de banho unissexo

Quando parecia que já não havia mais causas fracturantes para nos fazer perder o nosso rico tempo, vem a Margarete Stokowski (no Spiegel online) falar das casas de banho públicas. Ora vejam:
(em versão sintetizada e traduzida à pressa, como de costume, com links para artigos em alemão e, na parte relativa ao risco de suicídio, em inglês)

Segundo uma nova lei, no North Carolina as pessoas são obrigadas a usar a casa de banho pública correspondente ao sexo que consta na sua certidão de nascimento. Para os transexuais, isso significa que, mesmo vivendo há anos ou décadas como mulher, se deve usar a casa de banho dos homens - e vice-versa. E aceitar sujeitar-se ao sentimento de desconforto, aos insultos, às agressões físicas ou à expulsão desse local, que é o que costuma acontecer nesses casos. A alternativa é ir aguentando até encontrar uma casa de banho privada.

As casas de banho públicas são o exemplo preferido para mostrar como tudo fica incrivelmente complicado quando se trata de acomodar os interesses de todas as minorias trans-, inter- ou qualquer coisa com gender queer: essa gente é tão complicada, não é? Até nas casas de banho nos complicam a vida.

No entanto, há muito que frequentamos casas de banho públicas unissexo nos aviões e nos comboios, e nem reparamos.

Podia ser tão fácil: casas de banho para todos. Pode-se e deve-se discutir sobre muitas coisas, mas não devia ser preciso discutir sobre a necessidade de escolher tranquilamente a casa de banho que se quer usar.

E nem sequer é preciso fazer obras. Basta mudar as placas, para "em pé / sentado" ou "com urinol / sem urinol".

Mal se diz "casa de banho unissexo" ou "para todos os géneros" aparece logo um Martenstein a sugerir que as pessoas mintam. "O melhor que os transexuais e intersexuais alemães podem fazer pelo seu país  resume-se na seguinte frase: a outra casa de banho está avariada." Que a um jornalista premiado não ocorra que é muito fácil ir verificar se essa afirmação é verdadeira, e que as mentiras podem ser punidas com tareias, ilustra bem a ignorância das pessoas nestas questões de género.

A propósito de músicos famosos que cancelaram os seus concertos nesse Estado, como protesto contra esta lei, alguém comentava no facebook do Spiegel: "talvez as pessoas estejam farta de ser OBRIGADAS a seguir todas as modas idiotas? Tanto o politicamente correcto como estas manias de género surgiram nos EUA." Como este facebook, aliás. Outro escrevia: "Desculpem, mas afinal para que é preciso uma lei? Com pénis = casa de banho dos homens, sem pénis = casa de banho das mulheres."

A mensagem é a mesma - seja do Martenstein, ou dos comentadores: "se eu não tenho problemas, porque é que querem mudar?"

Como é possível pensar assim? Será que estas pessoas querem tirar das prateleiras dos supermercados os produtos que elas próprias não consomem? Querem tirar as legendas aos filmes na sua língua, porque elas entendem tudo? Querem que se poupe o dinheiro da iluminação pública nas noites em que não saem?

Em qualquer embalagem de Snickers vem escrito em grandes letras que contém amendoins. Quantas pessoas são alérgicas a amendoins? Diz-se que 0,5% a 1% das crianças alemãs. Se não nos incomoda marcar as embalagens de chocolate em função dos interesses de minorias, o que nos impede de fazer o mesmo com as casas de banho?

Será que as pessoas que se irritam com as casas de banho unissexo sabem que as pessoas transexuais são alvo muito mais frequente de ataques, e têm um risco maior de depressão e suicídio? E não é por predeterminação natural. Quanto maior o número de experiências de rejeição no seu contexto social, maior o risco de suicídio.

Sinceramente: não entendo como é que as pessoas que sabem isto, e continuam a afirmar que exigir casas de banho públicas unissexo é uma perda de tempo e uma patetice, conseguem ver-se ao espelho quando estão a lavar as mãos depois de terem usado com toda a tranquilidade a casa de banho pública.



[Nota 1: A última frase resolveu-me uma dúvida existencial antiga: porque é que há pessoas que não lavam as mãos quando usam a casa de banho? Agora sei: por algum motivo grave, não têm coragem de se ver ao espelho...]

[Nota 2: O artigo do Martenstein diz que em Kreuzberg, Berlim, vão pôr caixas à volta dos urinóis, para impedir que os outros utentes vejam o que ali se está a mostrar. O Martenstein fala nos custos desta medida, e que em vez de exigir essa despesa aos cofres do Estado era muito mais patriótico o transexual ir à casa de banho feminina desculpando-se com uma pequena mentira. Ora, essa das caixas interessa-me muito. Já ouvi muitas vezes rapazes, ou até homens mais velhos, queixarem-se de de se sentirem incomodados pelo interesse que o vizinho de urinol demonstra pelo que ali se mostra. Ora, enquanto não conseguirmos educar todo o povo para respeitar a intimidade alheia mesmo quando é exposta, talvez fosse boa ideia pensar nessas caixinhas para todos...] [Esta última sugestão  é só para provocar, claro.]


2 comentários:

Fuschia disse...

Desde que estejam limpas, não acho chocante que sejam unisexo. O problema de muitas wc's masculinas são os urinóis, que não são a coisa mais limpa e cheirosa do mundo.

jj.amarante disse...

No tempo em que os animais falavam, quando se presumia que as freiras não sabiam nada de sexo, contava-se numa anedota que uma delas ao ver um homem a fazer chi-chi no campo chamou a outra freira (também espanhola) e apontando disse: mira hermana, que práctico!

Na empresa em que trabalhei, nalguns sítios existiam casas de banho unisexo que não causaram problemas. Mesmo assim continuo a achar conveniente a existência de urinóis numa secção separada, que permitem mais velocidade, basta ver as filas que se formam na secção feminina.

Na Sorefame, sítio com muitos produtos lubrificantes que sujavam as mãos, dizia-se que para distinguir um operário dum engenheiro (de gabinete) bastava ver a sequência de lavagem de mãos e uso do urinol: os engenheiros lavavam as mãos depois do urinol enquanto os operários lavavam antes.