31 março 2016

viver no anonimato de Berlim

Liguei para a secretaria de um coro de música antiga, para fazer umas perguntas e comprar bilhetes para a Paixão segundo S. Mateus, na sexta-feira santa. Era sábado, a chamada foi redireccionada para a cozinha de alguém do coro, que me atendeu com toda a simpatia, e no meio do barulho das panelas, que eu bem ouvia, me ia explicando que os instrumentos usados nesse concerto não são originais barrocos mas são construídos e afinados segundo modelos históricos, e me dizia números de frequência de vibrações e coisas assim que não percebi nada mas me pareceram muito convincentes.

De modo que encomendei quatro bilhetes, e ela disse que para simplificar mos ia mandar pelo correio, com uma factura, para eu pagar quando os recebesse. Agradeci a confiança, ela disse que nunca teve más experiências com esta modalidade, e comecei a dar o nome e a morada. Também eu gosto de simplificar: em vez de soletrar o meu nome ao telefone, digo o do meu marido, muito mais fácil para os alemães. Ela comentou: "ah, que engraçado, o meu vizinho também se chama assim!"

Numa cidade de quase quatro milhões de habitantes, a senhora com quem brinco sobre a possibilidade de eu ser desonesta é vizinha de um primo do meu marido!
"Bom, sendo assim estou a ver que vou mesmo ter de pagar os bilhetes", disse eu, e despedimo-nos a rir.


24 março 2016

agora faz de conta que eu era alemã, e fazia um texto sobre os portugueses assim mais ou menos como a Maria João Marques faz textos sobre os muçulmanos


(foto: Wolfgang Haut)


A Maria João Marques tem um dom especial para falar do que não sabe como se fosse uma especialista. Estou ansiosa por ler um texto seu sobre os marcianos, tenho a certeza que vou aprender imenso sobre esse povo tão fascinante.

Antes de começar a brincadeira de hoje, um apontamento: fiz este texto trocando muçulmanos por portugueses na Alemanha, mas também podia trocar os muçulmanos por alemães em Portugal (algo como: essa gente odiosa que vem para Portugal ganhar dinheiro à nossa custa e não tem o menor respeito pela nossa cultura, que trata as mulheres de forma inacreditável, impondo-lhes que fiquem em casa a criar os filhos até estes saírem da universidade, que se organiza em seitas obscuras sem moral nem lei em montes alentejanos, etc.). Não é difícil encontrar coisas horrorosas para dizer sobre um povo qualquer. Basta querer. Tenho a certeza que os portugueses se vão sentir ofendidos por este retrato que tracei sobre o nosso povo, e isso será pedagógico: mostra bem como é que muitos muçulmanos se sentirão ao ler o texto da Maria João Marques. Penso, por exemplo, nos muçulmanos da mesquita na qual foi realizada uma cerimónia ecuménica por iniciativa da presidência da República. Que dirão eles ao ler no Observador este retrato das pessoas que partilham a sua Fé?


Ora então, parafraseando o texto "je suis já nem sei o quê":


Há tempos fui à Chancelaria e encontrei-me com a delegada dos assuntos de emigração. Perguntei-lhe que respostas tinha, se tinha algumas, para os abusos dos direitos humanos que as portuguesas residentes na Alemanha sofrem nas suas comunidades, e para os abusos que os portugueses em geral cometem no nosso país.

A violência doméstica sobre as mulheres (que quantas vezes nem sabem falar e escrever alemão) e filhas e irmãs caso estas não façam aquilo que dá na real gana aos machos da casa. O lugar de absoluta subalternidade que é imposto às mulheres na Igreja. Os piropos com que incomodam as mulheres que andam no espaço público. A vinda em massa de portugueses que querem aproveitar os benefícios do Estado Social alemão. O abuso das leis de protecção do trabalhador sem respeitar a nossa moral do trabalho. A resistência a aprender a nossa língua. E... e... e...

A minha interlocutora disse meia dúzia de banalidades sobre tolerância e liberdade. Percebeu-se que não havia resposta nem, sequer, um esboço de tentativa. O que havia era a esperança que este caldo periclitante não explodisse depressa, que a Alemanha nunca tivesse de confrontar a realidade feia que as comunidades portuguesas cá residentes criaram - com a conivência dos fracos políticos alemães que morrem de medo de usar um discurso a que os excitadinhos irresponsáveis possam dar o epíteto de xenófobo.

Mas o caldo explodiu, e temos de falar nele. Por mim, confesso que estou muito saturada do mantra que reza que os portugueses são um povo de brandos costumes e muito respeitador de tudo e de todos. Os casos de criminalidade (desde droga até homicídios, passando por violência doméstica), a sobrecarga dos fundos de Segurança Social devido à entrada destes parasitas, e o atroz panorama da violência de género que conhecemos em Portugal - tudo isso é invenção de mal-intencionados e xenófobos, mas felizmente as provocações desta má rês são ignoradas pela gente de bem e esclarecida que dedica ao assunto o que ele merece: silêncio.

Dizer que a violência de género sobre as mulheres é norma para o português médio é um desvario a raiar o racismo do KKK. Chamar a atenção que para os homens portugueses uma mulher na rua é, no mínimo, o alvo natural da expressão do poder e do desejo masculino e, no máximo, merece ser violada se não cobrir o corpo como deve, é uma heresia. Afirmar que é um tremendo risco ter uma parte crescente da população alemã com estas ideias encantadoras sobre a condição feminina é ousadia que deve ser recompensada com insultos sonoros.

Mas esta desculpabilização do machismo e do oportunismo português tem um preço: damos rédea livre para que o pior de Portugal decorra no meio das cidades alemãs.

Não tenho soluções para o machismo, o oportunismo e os maus fígados dos portugueses. Mas sei que enquanto diligentemente fizermos por ignorar este mal sob o sol que cresce nas comunidades portuguesas residentes na Alemanha, enquanto não afirmarmos com contundência (inclusivamente judicial e penal) que os valores alemães são incompatíveis com o estatuto das mulheres em Portugal (um exemplo), estaremos a apimentar o caldo periclitante. O primeiro passo para resolver um problema costuma ser perceber onde está e qual é.

[Escusado será dizer que não é isto que penso dos portugueses. Haverá alguns que correspondem ao retrato traçado, mas não podemos generalizar desta maneira. Nem com os portugueses, nem com os muçulmanos.]


eles e nós

1.


Destaco o último parágrafo:
Isis is killing more Muslims than any other group, yet Western news reporting, by highlighting only the West, tends to feed a "Muslims are against us" mentality. Until we understand that it's "Isis against the World", including Muslims, we will not be able to defeat a common enemy.


2.
Os três terroristas do ataque em Bruxelas eram belgas.
Por causa de Bruxelas, a Polónia fecha a porta a refugiados.
(devo ter faltado a alguma aula de Lógica...)


3.
Na Alemanha, o carro de um dirigente do partido neonazi NPD despistou-se e bateu contra uma árvore. Refugiados que por acaso iam a passar pelo local tiraram-no do carro e prestaram-lhe os primeiros socorros até chegar a ambulância. O NPD elogiou publicamente esses refugiados.
(imagino o homem a abrir os olhos depois daquele acidente, olhar para um grupo de moreninhos a falar árabe e pensar "não me digam que fui parar ao paraíso errado!") (e também: "será que tenho direito a virgens? afinal de contas, matei um cão alemão!")


23 março 2016

carta de Bruxelas

Quando eu for grande, quero ser capaz de explicar as coisas assim.
O texto da Marisa Matias no Aventar:



Carta de Bruxelas

10
0


12494928_1093614504029241_5663100121735996575_n
Marisa Matias*
Escrevo de Bruxelas, onde hoje ocorreram atentados terroristas hediondos. Perdoem-me a crueza das palavras, mas escrevo de Bruxelas como tenho escrito de tantos lugares onde todos os dias morrem pessoas vítimas do terrorismo. Sim, todos os dias morrem pessoas vítimas de terrorismo. E, sim, tenho estado e tenho escrito de muitos desses sítios.
Ainda no Domingo estava em Piréus, na Grécia, onde continuavam a chegar refugiados que fugiam do terrorismo e da guerra. Nesse Domingo morreram quatro crianças. Ainda há duas semanas outro destes hediondos atentados aconteceu em Bagdad, ninguém deu por isso.

Hoje foi diferente? Foi. Não o nego. Como foi diferente Paris. Mas a única diferença é ter sido em lugares onde estão pessoas que amo. Precisamos desesperadamente que elas nos digam que estão bem para aliviar o coração. Estava a sair de casa para uma reunião e precisei de saber com urgência se “os meus” estavam bem. Se a E. ainda estava em casa ou já estava no aeroporto com os miúdos, se as restantes estavam bem, se os meus amigos estavam bem. O M. usou um grupo privado do facebook para comunicarmos e assim fomos fazendo ao longo do dia. Foi também diferente porque recebi mensagens dos que amo e que estão em casa, esse imenso e enorme conforto que é sabermos que gostam de nós.
Mas não quero ser hipócrita, de cada vez que estou num lugar onde vejo morrer ou ouço falar de mortes de quem tudo perdeu, incluindo os seus, penso que também têm pessoas a quem fazem falta, também têm vida, também estavam a tentar fazer a sua vida normal até ser completamente destruída.
Estou cansada do tratamento desigual. Estou farta de sermos mais importantes do que os outros. Estes atentados não estão a acontecer só em cidades europeias. Há um mundo inteiro que está a ser apagado da fotografia e nós não podemos deixar que isso aconteça. De cada vez que deixamos vai-se um bocadinho mais da nossa humanidade.
A meio da manhã saí para ir comprar comida para podermos juntar-nos todos em casa. À tarde voltei ao Parlamento. A cidade quase deserta, as poucas pessoas cabisbaixas e um arsenal de segurança e armamento a toda a volta.
Ouvir os líderes europeus é já quase um acto de desespero. É feio usar a morte aleatória e insuportável de pessoas como nós – sejam de Bruxelas, de Bagdad ou de Beirute – para acicatar o medo, para alimentar a xenofobia, para defender uma suposta superioridade. Mistura-se terrorismo com imigração e com refugiados. Fazem de nós parvos, dizem que a resposta está numa sociedade ainda mais vigiada e ainda mais securitária. Foi isso que fizeram nos últimos anos e não evitaram um único atentado. Estou farta de que finjam que não percebem o monstro que estão a alimentar.
O comportamento recente das grandes potências mundiais face ao terrorismo é de uma dualidade atroz. Quando acontece uma tragédia como estas dizem sempre que vamos estar todos unidos no combate. Mentira, continuaremos separados. Continuaremos de olhos fechados aos milhões que alguns países lucram com o armamento, às medalhas de honra e outros prémios a príncipes sauditas, a acordos vergonhosos com líderes que continuam a fazer jogo duplo e a alimentar o terrorismo, à compra de crude extraído nos poços ocupados pelos terroristas porque o negócio vale a pena. O terrorismo não tem fronteiras, mas só existe e se expande porque está bem de saúde em termos financeiros.
Hoje em Bruxelas a solidariedade que os líderes europeus teimam em liquidar fez-se sentir nas pessoas, nos taxistas que disponibilizaram gratuitamente os táxis para quem precisou, nas mensagens, nas pessoas que correram para acudir aos feridos, nas pessoas que começaram a encher o chão de mensagens escritas a giz.
Continuar a jogar o jogo do medo nada fará para terminar com o terrorismo. É do medo que ele se alimenta. Não é de uma guerra de civilizações que estamos a falar. E, sim, repudio este ataque em Bruxelas e dói-me cada uma das mortes.
*Eurodeputada


Balada do Batráquio / Berlinale 2016 / *****

Balada de um Batráquio
Leonor Teles

Esta curta-metragem, que mereceu o urso de ouro, começa por surpreender pela simplicidade dos meios - a realizadora chegou a chamar-lhe "um filme tosco" -, e surpreende depois pela sua eficácia. A sábia combinação de materiais, e em particular o recurso a imagens da normalidade de um grupo, faz com que aqueles batráquios continuem a ressoar na nossa consciência, mesmo muito depois de termos saído da sala de cinema.






“Once upon a time, before people came along, all the creatures were free and able to be with one another”, narrates the voiceover. “All the animals danced together and were immeasurably happy. There was only one who wasn’t invited to the celebration – the frog. In his rage about the injustice, he committed suicide.” Something Romani and frogs have in common is that they will never be unseen, or stay unnoticed. In her film, young director Leonor Teles weaves the life circumstance of Romani in Portugal today with the recollections of a yesterday. Anything but a passive observer, Teles consciously decides to participate and take up position. As a third pillar, she establishes an active applied performance art that becomes integrated in the cinematic narrative. Thereby transforming “once upon a time” into “there is”. “Afterwards, nothing will be as it was and the melody of life will have changed”, explains a voice off-camera.

Fuocoammare / Berlinale 2016 / *****

Fuocoammare
Gianfranco Rosi

Vidas paralelas em Lampedusa: as tragédias dos africanos no mar, a vida quotidiana dos habitantes da ilha. Entre esse dois mundos, pessoas redentoras: o médico, os membros da polícia marítima que tentam ajudar os barcos em perigo, o homem da rádio que anima uns e informa sobre os outros.

Num espaço só seu, simultaneamente no centro e à margem, o pequeno Samuele: a inocência irresistível e intacta que atravessa o filme para nos deixar respirar.

O Samuele tem doze anos, pode viver alheado das imagens cruas do horror que acontece no mar. Mas a Europa já não tem doze anos.

O filme, que é um documentário, ganhou o urso de ouro da competição da Berlinale 2016. (também escrevi sobre ele aqui)






Do site da Berlinale:

Samuele is twelve and lives on an island in the Mediterranean, far away from the mainland. Like all boys of his age he does not always enjoy going to school. He would much rather climb the rocks by the shore, play with his slingshot or mooch about the port. But his home is not like other islands. For years, it has been the destination of men, women and children trying to make the crossing from Africa in boats that are far too small and decrepit. The island is Lampedusa which has become a metaphor for the flight of refugees to Europe, the hopes, hardship and fate of hundreds of thousands of emigrants. These people long for peace, freedom and happiness and yet so often only their dead bodies are pulled out of the water. Thus, every day the inhabitants of Lampedusa are bearing witness to the greatest humanitarian tragedy of our times.
Gianfranco Rosi’s observations of everyday life bring us closer to this place that is as real as it is symbolic, and to the emotional world of some of its inhabitants who are exposed to a permanent state of emergency. At the same time his film, which is commentary-free, describes how, even in the smallest of places, two worlds barely touch.


22 março 2016

caso me queiram criticar por não falar hoje de Bruxelas...

Caso me queiram criticar por não falar hoje de Bruxelas, critiquem-me também não ter falado há três dias de Istambul, e há duas semanas em Bagdad.
Dirão que "Bruxelas é nossa", e a discussão é antiga. Mantenho a minha posição: o único "nós" que conheço é o do mundo ameaçado pelo terror. Sinto vergonha se hoje chorar Bruxelas mais do que chorei Bagdad há duas semanas.

Não precisam de ser como eu, façam como muito bem vos aprouver. Mas não me obriguem a ser quem não sou.


20 março 2016

Les sauteurs / Berlinale 2016 / *****

Les Sauteurs

Abou Bakar Sidibé, Estephan Wagner, Moritz Siebert
Absolutamente a não perder. Absolutamente recomendável para passar na televisão em horário nobre, e para mostrar nas escolas.

O realizador alemão confiou durante vários meses uma câmara a um dos africanos que, acampados na encosta de Melilla, esperam o momento de sorte para entrar na Europa. O resultado é um filme a partir de dentro, do inferno vivido por gente que se torna "nós". O resultado é uma vergonha imensa pelo que se está ali a fazer em nome da defesa dos nossos interesses.

No debate sobre o filme, o realizador falou mais detalhadamente das batidas que a polícia de Marrocos faz quase todas as madrugadas ao acampamento, falou das pessoas a fugir pelo monte, a esconder-se em grutas, do regresso, mais tarde, para vir encontrar as suas coisas destruídas e queimadas. Falou da polícia que procura atingir as mãos dos que tentam passar o primeiro muro de sete metros, falou das quedas e das mortes. Também contou do momento em que se deram conta de que o "câmara" se estava a tornar realizador, e do prazer e do risco dessa mudança.
Abou Bakar Sidibé está neste momento na Alemanha, e o seu pedido de asilo está em estudo.




Do site da Berlinale:

Mount Gurugu overlooks the Spanish enclave of Melilla on northern Africa’s Mediterranean coast. The European Union and Africa are separated here by a high-security border facility consisting of three fences. Refugees, mostly from the sub-Saharan region, live in the tree-covered foothills, from where they try to cross the land border between Morocco and Spain. One of them is Abou Bakar Sidibé from Mali, who in Les Sauteurs is both the protagonist and the one doing the documenting. After 14 months in the informal camp and numerous failed attempts to beat the fence system, Abou starts filming – his daily routine, his surroundings, the mind-numbing wait for the next “jump”. His footage gives insights into the social organisation of the refugee community and provides a mournful look at the supposed El Dorado of Europe. 
Les Sauteurs carries out a unique shift in perspective: the abstract, anonymous thermal images of the surveillance cameras stand in contrast to the subjective gaze of an individual. After meeting Moritz Siebert and Estephan Wagner, Sidibé takes on the responsibility for their camera, tirelessly documenting his living conditions on the sidelines of an EU under lockdown.



Portugal e os refugiados no noticiário da ZDF, 19.03.2016

Gostava de saber copiar os filmes de noticiários alemães para o youtube e pôr legendas, mas enquanto não sei (alguém pode ensinar-me?) vamos pelo caminho mais difícil.

O filme está aqui. A tradução (rápida como de costume):

A Grécia tem um problema grave com os refugiados, e do outro lado da Europa há um país que os pode e quer acolher. Portugal, que se situa longe das rotas dos refugiados, preparou milhares de apartamentos para os alojar. No entanto, até agora só algumas centenas chegaram àquele país. Theo Koll esteve numa pequena cidade situada entre o Porto e Lisboa:

[imagens de crianças num infantário] Mohamed está sentado entre os seus novos amigos, mas ainda lhe faltam as palavras para os acompanhar nas cantilenas infantis. O pequeno sírio veio viver para Portugal em Novembro do ano passado. A alguns metros de distância, os seus pais aprendem a língua de um país cuja existência desconheciam até há bem poucos meses.

[mulher síria] "Ficamos muito surpreendidos com a ideia de ir para Portugal, mas pesquisamos na internet e vimos que a natureza e o clima são quase como na Síria.

[imagens de Penela e dos apartamentos] Em Penela, uma pequena cidade de seis mil habitantes, à distância de duas horas de carro ao norte de Lisboa, há muitos apartamentos disponíveis para receber os refugiados, mas a maior parte deles está vazia. Dos 10.500 refugiados previstos, só chegaram, até agora, 150.

[imagens de Lisboa] O próprio governo português tenta organizar uma distribuição mais rápida dos refugiados ao nível europeu.

[Constança Sousa, ministra da Administração Interna, a falar alemão] "Oferecemo-nos para receber muitos refugiados, e a oferta mantém-se. Temos pessoas na Grécia e na Itália a tentar acelerar o processo, de modo a poderem vir mais pessoas."

[imagens de uma família síria à janela] Até lá, Portugal continua à margem das grandes correntes de refugiados. Para a família do Mohamed, isso significa que continuarão a viver sozinhos na sua nova terra.

quase primavera







19 março 2016

desenha-me uma árvore, e a ausência dela








 
 




Adenda:
Quando faço estes posts com fotografias, penso muitas vezes no que irá dizer o jj.amarante, que costuma dar-me o gosto de os comentar. Trago para aqui o seu comentário a estas fotos (e talvez estas adendas se tornem uma tradição, a ver vamos):

Belo título e belas imagens! Gostei mais das 1,2,5,8,9. As duas primeiras são uma introdução magnífica. Porque terão cortado a árvore da 5, parecia bem. A da 8 parece ter morrido de velhice, ajudada por algum temporal, está rodeada por árvores aparentemente muito mais jovens, tratava-se duma sobrevivente.
E quando vejo fotos como a 9, com aquele espelho de água sem a mínima ruga penso sempre num alemão que vivia grandes temporadas em Lisboa e que concordava quando eu lhe dizia que o nosso clima lisboeta era perfeito, com apenas o senão de ter um pouco de vento a mais. Já o Andersen, que viajou até Portugal e escreveu um livro sobre essa viagem, gostava muito das nossas brisas que lhe faziam lembrar a Dinamarca.

  

18 março 2016

tenho-me andado a esquecer de dar notícias do Wladimir Kaminer neste blogue...

Roubado por inteiro ao blogue do Wladimir Kaminer (a tradução rápida do costume está a seguir ao texto em alemão):


Politische Nachrichten aus der Heimat: „Ein 15- Jähriger
Schuler aus Ulan Ude hat einen Putin aus Streichhölzern gebastelt.  Er spielt mit Streichhölzern seit er acht
Jahre alt ist, für Putin habe er 3800 Stück gebraucht“. Ich hoffe, wenig später
wird ein anderer Junge diese Kunst anzünden. Es wird stark nach Schwefel
riechen
Politische Nachrichten aus der Heimat: „Ein 15- Jähriger Schuler aus Ulan Ude hat einen Putin aus Streichhölzern gebastelt.  Er spielt mit Streichhölzern seit er acht Jahre alt ist, für Putin habe er 3800 Stück gebraucht“. Ich hoffe, wenig später wird ein anderer Junge diese Kunst anzünden. Es wird stark nach Schwefel riechen.
Notícias políticas da minha terra: "Um aluno de Ulan Ude, de quinze anos, fez uma imagem de Putin com fósforos. Brinca com fósforos desde que tinha oito anos, e para esta imagem de Putin precisou de 3.800". Espero que em breve um outro rapaz deite fogo a esta obra de arte. Vai cheirar muito a enxofre. 

pura e simplesmente terrorismo



Onze minutos de brutalidade e de incitação à violência. Só consegui ver metade.
O Donald Trump não vai ser presidente, mas este vídeo mostra os danos enormes que já causou, e que são dificilmente reparáveis. A violência está nos corações e na rua, as pessoas sentem-se cada vez mais livres e justificadas para fazerem um discurso racista, xenófobo e/ou islamofóbico no espaço público. E para passarem das palavras à acção.

Na Alemanha foram registados, no ano passado, mais de 800 ataques contra refugiados (ataques a casas, graffiti xenófobo, violência corporal, manifestações, etc.). Em 2014 tinham sido 198, em 2013 foram 55 e em 2012 apenas 24. É certo que a partir de determinado momento a Polícia e a população começaram a estar muito mais atentas a esta realidade, o que explica em parte o aumento dos casos registados, mas mesmo contando com números mais altos e não registados em anos anteriores, é óbvio que a Alemanha se debate com um problema gravíssimo e crescente de violência contra estes estrangeiros.

Ontem o sistema jurídico deu um sinal claro de como pretende proteger o país desta onda de ódio. Como noticia o Spiegel online: oito e sete anos para os dois homens que, a 28 de Agosto do ano passado, fizeram um cocktail molotov e o atiraram para dentro de um apartamento onde vivia uma família de refugiados, quatro anos e meio para a mulher que os conduziu ao local. O tribunal deu por provado que se tratou de um ataque "de fundo ideológico, melhor dizendo: ódio racista e xenófobo nazi", e que os três não tinham qualquer dúvida de que nesse ataque podiam morrer pessoas. Só por acaso é que a criança de quatro anos, para cujo quarto eles atiraram o explosivo, não morreu. Nessa noite estava a dormir no quarto da mãe.
O juiz Wolfgang Rosenbusch, conhecido por ser muito directo, afirmou que os dois autores do ataque se inspiravam desde há muito na ideologia nazi, difamando com base na etnia, cor de pele e religião, e aprovando o extermínio em massa conduzido por Hitler. O tribunal vê aqui um claro compromisso com a loucura racial nazi, patente nos factos - que falam por si.  
Para o Spiegel online, a assertividade do juiz não é tanto um aviso para os extremistas de Direita que queiram eventualmente fazer ataques semelhantes, mas um sinal para as pessoas que procuram abrigo na Alemanha. Como é o caso da família vítima deste ataque: uma viúva do Zimbabwe, que fugiu com os três filhos pequenos ao terror do Mugabe, depois de terem assassinado o seu marido. "Tudo aquilo de que vinha a fugir, encontrou de novo aqui", diz o juiz Rosenbusch.

A mulher que conduziu os dois atacantes ao local do crime, que tem 24 anos e cria sozinha dois filhos (e se gaba de ter ensinado o de dois anos a dizer "Sieg Heil"), também foi muito criticada pelo juiz: "a senhora concluiu a Realschule, não é propriamente idiota. Sabe perfeitamente o que acontece quando se atira uma garrafa cheia de gasolina para dentro de uma casa."
Também ela fora movida por ódio racial, como revela um chat do WhatsApp. Nessa noite, a mãe pergunta-lhe: "Que é que vocês fizeram? Molotovezinho no centro de refugiados. Na na na", e a filha responde "Portámo-nos todos muito bem. Fizemos ó-ó. Mas não faz mal nenhum."
Quatro anos e meio de prisão, quatro meses mais do que pedia a acusação.

Nem o advogado de defesa de um dos réus foi poupado. O seu esforço de esbater o extremismo de direita do seu cliente, "se pusermos numa panela de sopa todos os indícios que atiçam a suspeita de xenofobia, e mexermos, o que obtemos no fim será mesmo nacional-socialismo?", foi liminarmente rejeitado pelo juiz. "O que vemos nessa sopa é a careta monstruosa do nazismo", respondeu o juiz. E acrescentou, virado para os réus: "O que os senhores fizeram é, nada mais, nada menos, o que a SA fez a 9 de Novembro de 1938". Nesse dia, grupos organizados de atacantes deitaram fogo a casas de judeus, marcando o início oficial do maior genocídio da História. "É nesse grupo que os senhores entram. O que fizeram é pura e simplesmente terrorismo."

Quando procurava na net os números exactos de ataques a refugiados, encontrei numa das notícias um comentário com os lamentos desculpantes do costume:

"Estas coisas acontecem com cada vez maior frequência como resultado da política de boas-vindas, que uma grande parte da população alemã não quer aceitar. Os protestos são ignorados, menosprezados, ou arrumados na gaveta da extrema-direita. Por meio de mentiras, o número de opositores a esta política de refugiados é permanentemente reduzido a uma dimensão infinitamente inferior à realidade. As manifestações não resultam, as petições também não, e os nossos tribunais têm cada vez maior tendência a ver ódio racial em tudo. A única solução que nos resta é aumentar o volume e a clareza.
Não é legítimo incendiar centros de refugiados mas, quando isso acontece, os políticos, e em especial a Angela Merkel, não estão inocentes. A Pegida, a AfD e todas as organizações que protestam contra a actual política têm se ser levadas a sério, porque são parte do povo alemão.
Neste momento, os alemães parecem um animal encurralado e cheio de medo. Em tal situação, qualquer ser vivo se torna, mais tarde ou mais cedo, violento e disposto a atacar."


Ontem, um tribunal alemão deu a este tipo de queixas uma resposta clara: há uma fronteira a partir da qual o que se diz e o que se faz é considerado terrorismo, e os seus autores são chamados à responsabilidade. Quatro anos e meio por conduzir os atacantes ao local do crime, por exemplo.

17 março 2016

as glórias da nossa terra



A propósito da alegria pela descoberta da nau Esmeralda, que andou extraviada durante meio milénio, o Paulo Pinto resolveu vir confundir-nos com os factos. Malandro, quer-nos roubar a última tábua de salvação a que nos podemos agarrar para continuar o nosso curso errante?

(Uma vez fiquei um bocado chateada com uma amiga alemã que me disse, a rir, "vocês, portugueses, fizeram uma coisa gloriosa há 500 anos, e desde então só vivem disso: permanentemente no passado". Já é chato que seja assim. Mas se ainda por cima nos mancham o único momento glorioso que temos, ó!)

(Agora pergunto-me quem terá sido o inventor da cantilena que eu aprendi no tempo do Estado Novo: Vasco da Gama / cagou na cama / borrou os lençóis /e disse à mãe que foram os espanhóis) (Isto é um autêntico acto de sabotagem da nossa gloriosa História! Naquele tempo, desconfio que dava cadeia. E nós, miúdos, a cantarolar e a rir. A inocência pode ser muito perigosa.)



Adenda: para memória futura, copio para aqui o texto do Paulo Pinto no blogue Jugular.

os traques do Gama cheiravam a rosas

Não duvidem que sim. Quem sabe, às rosas produzidas pelo prof. Tournesol n'As Jóias da Castafiore, já que se trata de matérias com evidente afinidade. Nem estou a ver como não. Aliás, os mal-cheirosos só apareceram depois, muito depois. Há quem diga que foi com os Filipes, há quem afirme que foi com os liberais, e há quem jure a pés juntos que foi só em 1974. Nesses tempos gloriosos, não, nunca. A ver pelas reações da notícia que veio a lume há dois dias, a do anúncio da alegada descoberta dos destroços de uma nau portuguesa em Omã, nem outra hipótese é, sequer, de considerar. Nesses tempos, tudo o que os portugueses faziam era heroico e glorioso e enche-nos (ou deveria encher-nos) de orgulho. Como diz um comentário à notícia, "É este o Portugal que me enche de orgulho, é neste país que me revejo, é esta a Pátria de nossos valerosos antepassados que Camões tantas vezes sublimou!". Outro diz "Notável descoberta reveladora uma vez mais da nossa capacidade, enquanto Nação", há quem fale da "traição judaica que vem desta altura" e quem lamente que hoje Portugal seja "governado por um indiano". Por fim, alguém remata e sintetiza todo o fervor pátrio em poucas palavras: "O portugal Gigante. Nao havia esquerda, nem politicamente correcto, nem paneleiros. Havia HOMENS". Até o insigne deputado Carlos Abreu Amorim não contém a sua emoção patriótica e deixa escapar um "Histórias de orgulho dos povos que têm história", na sua página do Facebook. É que, pelos vistos, há povos que não a têm; só os merecedores dela, concluí eu. Mas depois, já no Twitter, emendou a mão dizendo que "há povos que têm mais história que outros" e que nós "temos muita". Aqui, confesso, esgotaram-se-me os argumentos; já quando era puto tinha dificuldade em discutir com o senhor da mercearia.

Bom. Eu cá não gosto muito de me pronunciar sobre glórias e heroísmos, mas posso dizer alguma coisa sobre orgulho. O orgulho é uma coisa magnífica: não custa nada, não precisa de ser aprendida ou treinada, não é parca nem rara e faz os seus possuidores sentirem-se no topo do mundo. Se é justificada ou não, é lá com cada um. Eu posso achar é que os faz passar por figuras ridículas, mas isso é apenas a minha opinião. Mas já agora, e se não tomar muito tempo, talvez fosse interessante olhar um bocadinho para os tais motivos de tão hiperbólico "orgulho". Na verdade, o que foi achado (assumindo que se confirma a autenticidade da atribuição dos vestígios às naus de Vicente Sodré) foram apenas vestígios de naus portuguesas. Motivo de orgulho? bem... com certeza que sim, mas as mesmas faziam parte da 4ª armada que partiu de Lisboa para a Índia, portanto, é um orgulho assim já a dar para um bocejantedéjà vu. Terá a armada realizado grandes serviços, feitos de navegação notáveis? Nem por isso, era uma armada de patrulha que Vasco da Gama deixou na Índia quando ele próprio regressou à Europa, para controlar a situação e proteger Cananor e Cochim dos ataques de Calecute. Porém, o capitão Vicente Sodré, aparentemente em desobediência ao sobrinho almirante, preferiu ir fazer razias aos navios muçulmanos que iam e vinham do Mar Vermelho. Se fossem navios árabes a fazer o mesmo no Algarve - que o faziam, não duvidemos - seriam por cá chamados de "piratas"; mas como eram portugueses no Índico, bom, nesse caso são heróis que nos enchem de "orgulho".

Vicente Sodré comandava a pequena frota e ancorou junto às ilhas de Kuria-Muria (como eram chamadas na época). Os portugueses foram alertados da aproximação de uma tempestade pelos habitantes da terra. Podiam ter procurado abrigo, tiveram tempo, oportunidade, meios e informação para isso. Não o fizeram. Ou pensaram que as âncoras e a robustez das naus seriam suficientes para resistir à tormenta, ou temeram que uma retirada os fizesse perder presas e saques. Numa palavra, ou foram estúpidos (a bazófia nacional, ao contrário do heroísmo, não esmoreceu por cá, como se vê), ou gananciosos. Vicente Sodré, enquanto comandante da armada, foi portanto incompetente e responsável pela perda de dois navios e das vidas de muitos dos  seus homens. Nada disto me suscita especial orgulho, mas isso deve ser cá defeito meu, a juntar à evidente falta de patriotismo. Adiante: o resultado - naufrágio de duas naus - era previsível e está à vista. O irmão de Vicente Sodré, Brás, que comandava a 2ª nau (S. Pedro, também afundada com a Esmeralda), apressou-se a mandar matar os pilotos árabes, aparentemente em vingança pela morte do irmão. Já então a culpa era sempre dos técnicos e nunca dos líderes, mas pronto: eis o excelente comportamento de um herói, merecedor dos maiores orgulhos, para quem assim achar.

Bem. Ok. Vá lá, Vicente Sodré e os seus homens tinham defeitos, como todos nós. Eram subalternos que aproveitaram a ausência do patrão para umas farras e a coisa correu mal, ups!, falta de calo, azar, inexperiência, a gente desculpa. E se o insigne Vasco da Gama, o tal dos traques aromáticos, estivesse presente? Ah caramba, aí tudo teria sido diferente, a glória tinha escorrido em abundância, seria uma indigestão de heroicidade. Certo? Hmmm. Se os destiladores de orgulho conhecessem os pormenores dessa estadia do Gama na Índia, antes do tal regresso a Portugal, não sei, se calhar seriam obrigados a segunda destilação, quiçá mais refinada e discreta. É que a dita estadia (a 2ª na Índia, relembre-se) foi particularmente sanguinária e brutal. Como diz o cronista Gaspar Correia, o almirante havia voltado à Índia empenhado em, antes de mais, vingar as afrontas que sofrera na primeira viagem e as que padecera Pedro Álvares Cabral. Mais adiante, o mesmo cronista descreve um episódio sintomático. Sintomático de quê? De heroísmo e glória? Eu acrescentaria: decerto (e especialmente aromáticos), mas também do espírito ecuménico e de tolerância lusitano cuja tradição o nosso PR tão bem relembrou na sua tomada de posse. Aqui vai: primeiro torturou o embaixador (um brâmane hindu) do Samorim de Calecut para lhe extorquir informações. Depois fez-lhe uma gracinha antes de o devolver ao seu senhor, como presente de despedida: "mandou cortar os beiços de cima e de baixo [...] e mandou cortar as orelhas a um cão da nau, e as mandou apegar e coser com muitos pontos ao brâmane no lugar das outras".

Já anteriormente atacara um navio carregado de peregrinos muçulmanos que vinham de Meca (sobretudo mulheres e crianças) para Calecut e recusara todas as ofertas de resgate (as riquezas do navio eram imensas) pelas respetivas vidas. Em vez disso, mandou imobilizá-lo e afundá-lo a tiros de bombarda e, depois, pegar-lhe fogo. As mulheres gritavam e mostravam dinheiro e jóias, pedindo misericórdia para resgatar as suas vidas; "algumas tomavam nos braços os seus filhinhos e os levantavam ao ar, persuadindo-o assim que tivesse piedade daqueles inocentes". O herói Vasco da Gama assistiu a tudo de uma escotilha e manteve a sua postura impassível. Não sou eu quem o diz, é o português Tomé Lopes, que estava a bordo e assistiu a tudo. O mesmo que registou que os eventos tiveram lugar a 3 de outubro de 1502, dia que, como afirma, "hei de recordar todos os dias da minha vida". Eu entendo. Quem assiste a tamanho banho de glória não se esquece e, 500 anos depois, não faz esmorecer o gorgulho a quem o relembra. Orgulho, orgulho, bolas, maldito corretor. Os traques do Gama cheiravam a rosas? Enganei-me, queria dizer cheiram.


"aqui estou eu, e não posso fazer de outro modo"






Do Spiegel Online:

Há cerca de 500 anos, Martinho Lutero afixou 95 teses na igreja de Wittenberg.

Hoje, a protestante Angela Merkel, filha de um pastor, vai-se apresentar de novo em Bruxelas perante os representantes de 27 governos da UE, e vai atirar-lhes: "Aqui estou eu, e não posso fazer de outro modo: a rota das Balcãs tem de permanecer aberta."

O problema é que, no que diz respeito a esta questão, os seus colegas vão permanecer católicos.


viagem de autocarro

(Fotos de Fevereiro, da altura da Berlinale. Como o tempo passa, é assim que nos pomos velhos, etc.)





 






 

 












 







16 março 2016

"no dia em que nas lojas não houver secção de roupa para menino e para menina..."

(Ele é a Enciclopédia Ilustrada, ele é a Destreza das Dúvidas, onde acabei de publicar o post que se segue... Esta minha vida de facadinhas no matrimónio com o Dois Dedos de Conversa é só stress.)
(A propósito: o Luís Aguiar-Conraria escreveu um texto muito pertinente sobre este tema no Observador.)


Se tivesse tempo, fazia um post sobre os melhores filmes que vi na Berlinale, outro sobre o antigo ministro do Trabalho de Helmut Kohl, Norbert Blüm, que aos oitenta anos passou uma noite numa tenda enlameada em Idomeni, e disse coisas que a Angela Merkel não se atreve a dizer (e talvez nem sequer a pensar), ou sobre o modo como os media alemães estão a reagir à deriva castanha do eleitorado de três Estados que foram às urnas no domingo passado.

Mas como não tenho tempo (tantos recursos aplicados a clonar ovelhas, como se elas não se soubessem clonar naturalmente e com todo o gosto, e ninguém se lembra de me clonar um bom par de horas por dia!) limito-me a um apontamento muito rápido ainda a propósito do tema "menino ou menina" (a introdução a este post serve apenas para explicar que este tema não é uma obsessão minha, é simplesmente o atalho mais rápido para escrever um post antes de ser corrida deste blogue por estar há vários dias em idle mode) (a culpa não é minha, é dos cientistas que não sabem estabelecer prioridades e não me clonam o tempo!).

Curto resumo: o Happy Meal usava a classificação "brinquedo de menina" ou "de menino" em vez de descrever o brinquedo, houve uma crítica, a empresa McDonald's percebeu e aceitou, e levantou-se um coro de protestos contra quem quer mudar essa ordem natural das coisas. Um dos argumentos usados era que nas lojas também se dividia a roupa em secção para meninas e secção para meninos.

Ontem, ao folhear um catálogo da Tchibo (uma empresa que vende café, e todas as semanas tem ofertas especiais temáticas - roupa de desporto, roupa para crianças, produtos de limpeza, etc.), deparei com várias páginas de roupa misturada, sem distinção clara sobre o que é para rapaz e o que é para rapariga.









Por sua vez, o maior site alemão de produtos para criança, o Jako-o, tem na sua secção de roupa para rapaz coisas assim:




E na secção das raparigas:


Sem perder muito do nosso tempo a comparar as páginas, nota-se logo que a t-shirt cor-de-rosa com uma borboleta, a azul de unicórnio e a que tem uma águia imponente repetem-se nas duas secções do catálogo. 

(Mas eu gosto é da alegria das cores da roupa infantil da Tchibo. Quase me dava vontade de ter outra vez filhos nesta idade, para comprar tudo.)