11 dezembro 2015

"jornalismo" no seu pior: "Volkswagen culpa falta de ética de trabalhadores pela fraude das emissões de gases"


(foto)

Esta semana, numa conferência de imprensa, os chefes da VW reconhecem erros graves no funcionamento da empresa e anunciam mudanças estruturais em curso, incidindo tanto nos processos como na mentalidade da empresa, mas o Jornal de Notícias não tem mais que fazer senão produzir este título: "Volkswagen culpa falta de ética de trabalhadores pela fraude das emissões de gases".

O resultado é as redes sociais infestadas de comentários sobre "quem se lixa é o mexilhão", "por este andar daqui a nada o culpado é o porteiro", "ganham milhões e nem sequer se responsabilizam pelas asneiras que fazem".

Um pequeno resumo do que está em causa: a VW fez uma trafulhice monumental. Quando se descobriu, o seu presidente executivo foi para a rua, e foi nomeado outro, escolhido entre a prata da casa (talvez fosse mais adequado dizer "a lata da casa").
Os danos calculam-se nos muitos milhares de milhões, sem contar a perda da imagem. Note-se que, se a VW falhar, não apenas a economia alemã vai ao charco, como haverá repercussões gravíssimas em muitas outras economias, nomeadamente a portuguesa.
O que foi importante na conferência de imprensa dada esta semana:
- Reconhecer que houve uma cadeia de falhas que levou a esta situação, e que ia desde a falta de comunicação à existência de uma inaceitável prática de tolerância nos processos;
- Revelar que o erro começou em 2005, com a decisão das chefias de avançar para o mercado americano, sem terem consciência de que os carros não cumpriam as normas, e sem haver nas bases da hierarquia alguém que tivesse coragem de informar sobre essa impossibilidade (não disseram, mas a gente percebe a cena nas entrelinhas: os directores completamente vidrados naquele objectivo, e ninguém a um nível mais baixo com coragem para lhes dizer que não é possível. O pessoal obedeceu à máxima "não me tragam problemas, tragam-me soluções", e arranjou maneira de cumprir os objectivos dos chefes. Mal ou bem, fizeram o que lhes era pedido: vender carros a gasóleo no mercado americano. Pode ter sido assim. Também pode ter sido feito com a conivência, ou até por sugestão, de algum chefe. O processo de investigação está em curso. A seu tempo saberemos.);
- Reconhecer que é preciso aprender com os erros do passado para tornar a empresa melhor;
- Aproveitar a crise como catalisador para fazer a mudança que é fundamental para a empresa;
- Reduzir os níveis hierárquicos e permitir que os trabalhadores critiquem algo na empresa ou apontem os próprios erros sem temerem retaliações ou castigos;
- Os investigadores devem sentir que têm liberdade para ser criativos e para falhar;
- A empresa tem de aprender a ser humilde (mas também: as práticas de toda a indústria automóvel, no que diz respeito às medições, têm de ser mudadas - e a VW, claro, hehehe, vai apontar caminhos);
- Os trabalhadores da VW querem voltar a sentir orgulho na sua empresa;

O que é novo: os directores que ganham milhões para trabalhar numa torre de marfim, virados para a bolsa e sem a menor ligação à realidade da própria empresa, deram-se conta de que este alheamento é suicida. Perceberam que, se quiserem sobreviver, é preciso mudar a mentalidade, a comunicação e a organização do trabalho na empresa. É a primeira vez que vejo isso dito com tanta clareza pelos senhores dessa casta.
Estas mudanças vão ter repercussões em todas as outras grandes empresas. Haverá um reajustamento em todas, porque o escândalo da VW já permitiu ver quais são as consequências das torres de marfim.

O problema, diga-se de passagem, existe não apenas em muitas dessas empresas gigantescas, mas também no Estado. A catástrofe do aeroporto de Berlim reside em grande parte no facto de o antigo Presidente de Berlim, o Wowereit, ter feito daquele projecto técnico um objecto de status político, e ter afastado das equipas todos os técnicos que lhe diziam que estava a sonhar o impossível. Só ficou quem lhe dizia que sim, e o resultado é um aeroporto que devia ter aberto em 2012 e ainda não se sabe quando vai abrir.

De modo que o que aconteceu na conferência de imprensa da VW, esta semana, foi um sinal de enormes mudanças nas empresas alemãs - se forem realmente levadas a cabo, parece-me uma óptima notícia. Mas o JN tira dessa conferência de imprensa uma frase secundária, e que se destina meramente a tentar limitar os estragos na imagem. Foram estas as palavras do Pötsch que deram origem àquele título: "Continuamos a acreditar que provavelmente só houve um número reduzido de trabalhadores a colaborar realmente, e de forma activa, nas manipulações."

A partir disto, o JN faz um título bombástico, provocando em Portugal uma onda de reacções sarcásticas e derrotistas. Em vez de informar sobre o que está a acontecer na VW, este jornal reforça as ideias de que os lá de cima são todos iguais, não fazem nada, só se enchem de dinheiro, e no fim a culpa é sempre dos desgraçados que não se podem defender.

O JN tenha paciência, mas isto não é jornalismo, e não tem nada de serviço público. Não é a alimentar artificialmente o derrotismo de uma população que se constrói um país saudável.


4 comentários:

jj.amarante disse...

De uma forma geral a probabilidade de uma pessoa mentir aumenta muito quando a pressão sobre ela ultrapassa um certo limiar. As organizações oscilam assim entre a complacência, quando a negligência é tolerada, e o secretismo quando a concorrência entre os trabalhadores é demasiadamente estimulada e as punições por falhas são excessivas.

Depois de ler o seu post fiquei a pensar que é realmente possível que o número de pessoas directamente envolvidas fosse relativamente pequeno. Mas a alta direcção tem uma responsabilidade imensa no que aconteceu dado que criou um ambiente que estimulou esse tipo de comportamento.

Fez-me lembrar a epidemia de SARS (Severe Acute Respiratory Syndroma) na China que assumiu grandes proporções porque os responsáveis do sistema de saúde chinês não queriam dar más notícias aos seus chefes.

Aparentemente a Alemanha estava mais protegida quando a cogestão era mais forte. Grandes desigualdades no poder de decisão e nos níveis de remuneração levam a este tipo de problemas.

Helena disse...

Parece que neste caso ocorreram os dois, simultaneamente: uma tolerância generalizada perante a negligência, e o medo de apresentar resultados aquém dos desejados pelas chefias. Por saberem que a empresa tolerava "truques", e por terem medo de dizer às chefias que era impossível fazer o que elas queriam, alguém terá decidido fazer mais um truque.
É uma versão plausível.
A outra, bastante plausível também, é a de que algum dos chefes tenha dado ordens nesse sentido.
O caso está a ser investigado por uma equipa de mais de 500 pessoas. A ver vemos que resultados dará.

Há tempos um amigo, que trabalha numa dessas empresas enormes que estão orientadas para a bolsa, contou-me que foi a uma reunião a um nível já bastante próximo da "torre de marfim", e falou abertamente sobre os problemas. Ficaram todos a olhar para ele com ar de quem não queria ouvir. Ele foi o único que teve a coragem de pôr os nomes aos bois. Mas não recebeu elogios por isso. Pelo contrário.
A outra questão, para além de as chefias não quererem saber dos problemas, é mesmo a destruição da cultura empresarial tradicional (como a cogestão, de que falou) por causa da miragem da bolsa.
Isto é tudo um desvario.
Espero que os da VW tenham aprendido a lição.E os outros também.

mov disse...

começando pelo fim, uma equipa de 500 pessoas não vai apresentar resultados qualitativos. o que vai aparecer é uma enciclopédia de boas práticas, que ninguém irá ler.
no que refere ao cumprimento de normas a assunção do erro, não seria má ideia irem ao Japão, à Toyota ou à Datsun, para aprenderem a fazer controlo de qualidade. lá, o operário menos graduado tem plenos poderes para mandar parar toda uma linha de montagem se notar algum defeito grave na montagem...
depois, como a helena refere, há, para ajudar, a doença das cotações bolsista. é para lá que vai toda a atenção do CEO. nada mais errado.
quando leio que o senhor responsável por esta história ainda vai receber, ou já recebeu, mais de 25 milhões de euro é um insulto ao bom senso e à moral. mas, infelizmente isso não é um problema alemão. infelizmente, está disseminado por muitos países.
só para que conste, não sou comunista. trata-se sim de uma questão moral.
escrevi demais, sorry!

Helena disse...

Tanto quando percebi, são duas equipas de inquérito: uma interna da empresa e outra, de uma companhia americana, externa à empresa e a trabalhar com total independência da equipa interna.
Pelo que eles dizem, o objectivo destas duas equipas é averiguar esta fraude e apontar os culpados.
Parece que querem apresentar os resultados em 21 de Abril de 2016. Já não temos de esperar muito para saber o que resultará deste trabalho.
Eles falaram mais num espírito Silicon Valley. Não vi em lado nenhum uma referência ao Japão. Mas é uma boa ideia.
Se me deixassem mandar ;) fechava as bolsas.
E sobre os 25 milhões não digo nada. O homem está a ser investigado pela Justiça alemã, de modo que está entre uma reforma milionária e um lugarzinho numa prisão. A ver vamos.
Não falou demais coisa nenhuma! Obrigada pelo comentário.