20 novembro 2015

Paris e nós



Em Paris, na noite do 13 de Novembro, havia um homem a varrer o passeio da rua onde encontrei abrigo. Visto da segurança do apartamento no quarto andar, um homem a varrer um passeio parecia algo profundamente errado - e era, afinal, o pilar da normalidade.

Eram duas da manhã, estávamos em frente à televisão a consumir avidamente as notícias, e a amiga que nos recebeu desmontava algumas das frases à medida que iam surgindo. Por exemplo, se um nacionalista dizia que é impossível controlar mais de quatro mil extremistas em França, ela cortava: "oh, mais de metade deles já estão na cadeia, outros estão na Síria". Que não nos falhem a inteligência e a ética, mesmo sob uma ameaça de cúpida brutalidade.

Confesso que a inteligência me falhou bastante no momento em que soubemos que Paris estava a ser atacada, e tivemos de decidir se passávamos a noite no restaurante, tentávamos ir de carro para casa ou corríamos para casa de uma amiga. Entrei em modo automático. Por mais que me dissessem que as ruas estavam fechadas, e que ninguém sabia o que estava a acontecer em Paris, queria fazer a única coisa que conheço: entrar no carro e ir para casa.

Também me falhou a ética. Nos dez minutos que durou a caminhada até à nossa casa-abrigo, fui vítima desse medo que envenena o olhar: cada pessoa na rua era um inimigo potencial. Um simples carro parado com o semáforo verde fazia-nos fugir cheias de temor. Foi isso o pior que me aconteceu no dia 13 de Novembro em Paris: dez minutos inglórios de desconfiança e de blackout cerebral, eu transformada em rato a fugir de um perigo que nem estava ali.

O medo pode ser mais destruidor que o Daesh: este pode roubar a vida a uns quantos, mas o medo rouba a humanidade a muitos mais.

Na manhã do dia 14 as pessoas que vi na rua - as que levavam uma baguete para casa, as que passeavam o cão, o homem que lavava graffiti de uma fachada - pareceram-me tão individualistas como sempre. A habitual cara de poucos amigos: outro pilar de normalidade.

Não vimos televisão nem ouvimos rádio durante o fim-de-semana. Foram dias muito tranquilos. Talvez também por essa tranquilidade que vivíamos (em casa, nas lojas, nos cafés) tenha sentido com enorme estranheza a agitação no facebook, as pessoas a milhares de quilómetros de Paris que pareciam muito mais assustadas e chocadas que eu.
Nunca como nesses dias em Paris tive tanta consciência da artificialidade do facebook: fogo-fátuo.

No domingo voltámos ao centro de Paris. Esplanadas, claro, e nem sequer como acto de resistência. O dia estava lindo, apenas isso. É certo que tínhamos combinado evitar cafés em ruas movimentadas, mas rapidamente esquecemos os cuidados, e sentámo-nos onde apeteceu e calhou: almoçámos no passeio do Boulevard Saint Germain.

Bem sei que Paris é uma cidade que representa imenso para o mundo ocidental, e que nos sentimos especialmente tocados por este ataque a sítios que são, ou podiam facilmente ser, lugares da nossa geografia pessoal. Bem sei que Paris é - como foi Madrid, como foi Londres - um sinal assustador da nossa vulnerabilidade perante terroristas que já vivem entre nós. Mas sinto um triplo embaraço em chorar alto estes que me são tão desconhecidos como as vítimas da mesma violência na Síria e no Iraque. Embaraço porque, ao chorar com tanto alarde os que morreram em Paris, estamos a traçar uma linha entre "nós" e "eles", quando afinal todos são vítimas da mesma lógica de terror. Embaraço porque, em nome da nossa segurança, são mortos noutros países muitos civis sem culpa, a quem damos o vergonhoso nome de "danos colaterais" - como se (lá está!) a nossa vida valesse mais que a deles. Embaraço porque estamos a fazer o jogo do Daesh: eles querem ver-nos chorar, querem ver-nos tolhidos de medo. A onda de bleu blanc rouge que varreu o facebook deve dar-lhes um prazer imenso. É o feed back de que precisam para conhecerem o impacto da sua acção, para saberem que valeu a pena.

Não seria muito mais inteligente reduzir o ruído mediático e recusar o jogo do espectáculo que alimenta o terror e os nossos medos? Quanto do barulho à volta deste ataque é informação, quanto dele é manipulação, quanto é negócio? Que candura é a nossa, e em nome de quê escolhemos oferecer ao Daesh as cenas de consternação e medo que lhe dão mais força e material de propaganda?

Também me embaraça o que os muçulmanos têm andado a fazer para se demarcarem do terror do Daesh (e mais ainda: o que a nossa sociedade lhes tem pedido) e a nossa comoção perante essas manifestações. Então nós não sabemos distinguir entre muçulmano e terrorista?!
O hashtag #Wearemuslimsnotterrorists, apesar das suas boas intenções, põe a nu a ignorância e o preconceito do mundo ocidental. Porque exigimos dos muçulmanos que se demarquem do terrorismo, se não exigimos das pessoas de direita que se demarquem do ataque de Utøya, nem exigimos dos cristãos que se demarquem dos fanáticos que assassinam médicos que fazem abortos?

Este ataque mostra a nossa vulnerabilidade perante este inimigo, mas também a sede de protagonismo, o egoísmo e a ignorância que há em nós. Ainda temos de fazer algum caminho para nos tornarmos a Europa que pensamos ser.

Para mim, decidi que os dias continuarão iguais aos anteriores a 13 de Novembro. Não deixarei que o medo dos terroristas faça de mim uma semimorta em vida. É bastante provável que Berlim esteja entre os próximos alvos, mas nem essa suspeita me impedirá de viver a vida normalmente.
Enquanto estou viva, vivo.
Ivre de vie.









 







7 comentários:

André Pereira Matos disse...

Cara Helena,
Obrigado por esta partilha e pela excelente reflexão. Fui convidado para falar numa conferência sobre os refugiados e os ataques de Paris na Universidade do Porto e gostaria de saber se me dava autorização para utilizar algumas das suas frases - claro que com a devida autoria atribuída.
Obrigado.

André Pereira Matos

Helena disse...

Com certeza que pode usar, André.

André Pereira Matos disse...

Muito obrigado!

Petrus Monte Real disse...

Helena,

É a terceira vez que leio a sua mensagem,
cuja divulgação lhe agradeço.
É muito cristalina e profunda na análise dos factos "a quente": ajuda-nos a aclarar as ideias, que, perante o negrume dos momentos trágicos, naturalmente ficam confusas.
Hoje de manhã, ao ouvir a notícia, via rádio, de que os belgas procuraram "fintar" os terroristas, abstendo-se de divulgar imagens no Facebook sobre detalhes das operações policiais em Bruxelas, recordei imediatamente a sua mensagem: parece que a adoptaram.

Obrigado

Helena disse...

Obrigada!
Ninguém adoptou mensagem nenhuma. Isto é mero bom senso. :)

Júlio de Matos disse...



D'accord. C'est justement ça que je fais...

nat. disse...

Concordo... O amanhã não sei como vai ser... Assim como não sei como vai ser o meu próximo minuto...
Beijinho