02 março 2015

emancipação no coração




O filme Sound of Music / Música no Coração faz cinquenta anos. A minha mãe viu-o era eu pequena, e recomendou-mo quando eu estava a entrar na adolescência. Gostei muito, encantou-me - mas senti-me irritada com alguns pormenores: o parvo do rapaz na canção "I am sixteen, going on seventeen" a tentar convencer a miúda que ela sem ele não vale nada, e ela a dar-lhe razão (aquela miúda, com aquela pedalada toda, precisa de um gajo que a proteja, a sério?!) (e ainda por cima um como aquele copinho de leite sem graça nenhuma?!); ou a cena em que a Maria se põe a cantar que deve ter feito alguma coisa boa no passado para merecer tamanha sorte (tamanha sorte?! ela arranjou um deficiente afectivo, o autêntico Grey - para usar um vocábulo da moda - da paternidade autoritarista, e acha que teve sorte?! quem devia cantar aquilo tudo era ele, a ele é que saiu a sorte grande e a terminação!).

Entre a adolescência da minha mãe e a minha houve uma Enid Blyton e uma Astrid Lindgren - e também houve a minha mãe e a sua história pessoal de emancipação. Pelo que nunca poderíamos olhar para aquele filme com os mesmos olhos.

A Enid Blyton deu-me a fantasia de miúdos fortes, com uma consciência ética muito clara, capazes de vencer os maus, apreciados pelo Senhor Inspector da Polícia, e nos quais as raparigas tinham um papel de alguma importância e desenvoltura; é certo que a Zé, para ser importante, tinha de se disfarçar de rapaz, e que a pobre da Ana passava a vida a fazer sanduiches para os outros, mas pelo menos partiam juntos para as aventuras, em vez de deixarem a Ana em casa a aprender a bordar.
Já não me lembro bem do que lá havia e li com os olhos de uma miúda de seis anos numa sociedade salazarista, mas agora que penso nisso - à distância de mais de 40 anos - parece-me que havia uma diferença interessante: os cinco eram um clã familiar, e os sete faziam a aprendizagem da democracia. Em todo o caso, a minha infância foi preenchida pela imagem de miúdos muito poderosos. O pateta do Rolf, de Música no Coração, nunca teria o topete de dizer à Ana "não percebes nada da vida, precisas de um gajo que tome conta de ti" - e se visse a Zé, provavelmente desandava a ganir, com o rabo entre as pernas.

Os livros dos cinco e dos sete tinham alguns elementos muito positivos, que contribuíram para me moldar (incluindo a parte dos sconnes...): uma imensa confiança nas capacidades das crianças (afinal de contas, era no tempo em que as crianças eram ignoradas, vítimas de abuso sexual de maior ou menor grau sem que isso fosse sequer tematizado e acusado, e despachadas para os internatos para não chatearem com a sua puberdade); a tematização - mais que uma vez - do fenómeno "maria-rapaz"; uma certa permeabilidade de classes e grupos sociais (os miúdos interagiam com "ciganitos", crianças de circo, etc.); a incrível liberdade que aqueles miúdos tinham (quem de nós deixaria os filhos ir acampar sabe-se lá para onde aos 10, 14 anos?)

A Astrid Lindgren leva este poder das crianças para um patamar elevadíssimo: a Pipi das Meias Altas é - sobretudo para as raparigas - a perfeita afirmação de auto-estima e de consciência da sua dignidade. Vive sozinha, tem imensa força, tem ideias muito claras sobre o mundo, e desafia a prepotência da autoridade e das ideias feitas. Os amiguinhos dela, o Tommy e a Anika, vivem num contexto evidente de igualdade de género.
Não é possível ler os livros da Pipi, ou ver os filmes, a aceitar passivamente o papel de subalternidade que Música no Coração dá às mulheres.

Curiosamente, os Cinco e a Pipi nasceram na mesma época: os Cinco em finais dos anos trinta, a Pipi no início dos anos quarenta. É verdade que em sociedades muito diferentes - o que se nota nos próprios livros, que parece terem uma distância entre si de mais de meio século. Em todo o caso, justamente na altura em que a Europa fazia por não ver que havia seres humanos a serem enviados em vagões de mercadorias para as câmaras de gás, as crianças liam livros sobre crianças que questionavam a autoridade dos adultos, sabiam distinguir o bem do mal, e tomavam posição. Vinte e cinco anos mais tarde, os filhos do capitão von Trapp ainda não tinham lido e aprendido nada com a Blyton e a Lindgren. Eu tive mais sorte: aprendi e interiorizei, e o resultado foi sentir alguma pena daqueles sete canários austríacos: uns patetas afinadinhos.

3 comentários:

Luís Lavoura disse...

Mas a Helena fala apenas do tempo - dos anos em que os livros foram escritos ou os filmes filmados - quando deveria ter também em conta o espaço - os países onde os livros foram escritos e os filmes filmados.
A "Música no coração" nada tem a ver com a Áustria real, mas sim com os EUA, país de onde esse filme provem. E basta ver os cursos universitários que ainda hoje as americanas tiram para se ver qual o papel extremamente subalterno que as mulheres ocupam na mentalidade e na sociedade americana.

Helena disse...

Eu falei das sociedades muito diferentes. Agora, cá para nós: se a Blyton e a Lindgren chegam ao Portugal de Salazar, não podiam também ter chegado a Los Angeles? Eles não viviam propriamente do outro lado da lua...
Claro que a Música no Coração é uma criação americana e mostra o que os americanos pensavam dos austríacos. Além disso, o filme olha para o passado, enquanto que as autoras que eu referi estão a plantar sementes no futuro.
O que eu fiz foi mostrar o resultado dessas sementes em mim.

Luís Lavoura disse...

se a Blyton e a Lindgren chegam ao Portugal de Salazar, não podiam também ter chegado a Los Angeles?

Não sei se chegaram ou não chegaram. Mas eu vivi nos EUA e posso afiançar-lhe que, ao contrário daquilo que muitos europeus pensam, aquilo é uma cultura muitíssimo diferente da nossa. (Não existe "Ocidente": existem os EUA e a Europa, que são tão diferentes um do outro quanto Portugal o é de Marrocos.) E é uma cultura virada para si mesma: para os americanos, apenas o que se passa na América interessa. Blyton e Lindgren foram autoras europeias para as quais, muito possivelmente, os americanos se terão estado totalmente nas tintas.
Você sabe que correntes culturais estão em voga em Marrocos? Não sabe, e está-se nas tintas para isso. (E eu também, claro.) A mesma atitude têm os americanos em relação às correntes culturais europeias.