05 fevereiro 2015

Um comentário no Spiegel: como é que Schäuble e Varoufakis podem resolver o problema da crise grega

Ultimamente a História acelerou tanto que desconfio que quando chegar ao fim da tradução (rapidíssima) deste artigo ele já vai estar desactualizado. Mesmo assim, aqui fica, como registo de um momento:


Visita a Berlim: como é que Schäuble e Varoufakis podem resolver o problema da crise grega

Um comentário de 

(Spiegel Online, 5.2.2015)


Ministro das Finanças grego: também pode rir


Schäuble, o general da austeridade, encontra-se com Varoufakis, o marxista. Soa complicado. Mas se ambos fizessem algumas concessões, seria possível encontrar uma solução sensata. Já preparámos previamente as declarações finais - fictícias - do encontro.

Os ministros das Finanças da Grécia e da Alemanha reunem-se hoje em Berlim, e depois com os jornalistas que os esperam. Ao fim de uma semana a relação já é muito tensa. Que devem dizer agora? Se ambos fossem razoáveis, estariam de acordo em fazer uma declaração como a seguinte:

1. A Alemanha deixa de se armar em mestre-escola - e começa por dar o bom exemplo, prescindindo da sua parte dos pacotes de salvação do euro. Os 53,3 mil milhões de euros já estão perdidos - seja com o nome de Haircut ou de Empréstimo sem juros e prazo infinito.

2. A Grécia começa a olhar para o exemplo da Alemanha e do seu ministro das Finanças. Ou seja: mesmo sem fazer cortes destrutivos, é possível apresentar um orçamento equilibrado. É necessário ter juros baixos (a Grécia já os tem) e cuidar de ter receitas suficientes. Por isso, a Grécia cria imediatamente um imposto sobre a propriedade.

3. Criar significa não apenas "decidir", mas também "levar a cabo".

4. A Grécia emprega de novo, como prometeu, 9.500 antigos funcionários do Estado. Metade deles vão ser imediatamente transferidos para a investigação fiscal.

5. A Grécia precisa urgentemente de dinheiro - entre outros, para pagar os empréstimos do FMI. A Alemanha ajuda a resolver este problema de curto prazo. Empenha-se para que a última prestação do do segundo pacote de ajuda dos Estados da zona euro seja paga até fins de Fevereiro, e que o fundo ESM se responsabilize pelo pagamento do crédito ao FMI. O pagamento destes empréstimos vai ser fixado para o dia de São Nunca.

6. Já que estamos a falar no FMI: a Troika vai ser desfeita. O FMI sai da Grécia, o BCE de qualquer modo nunca lá devia ter entrado. Em vez de uma tropa de funcionários estatais escolhidos aleatoriamente, a partir de agora as discussões com a Grécia decorrem entre representantes democraticamente eleitos dos países da zona euro ou da UE.

7. O governo grego obriga-se a ajustar o seu comportamento à situação financeira do país, e de futuro será menos perdulário. "Gauleiter Schäuble", "servidão por dívida", "Holocausto social" - não é aceitável e vai deixar de ser dito. O ministro das Finanças Varoufakis, em particular, promete fazer um desarmamento verbal. E aceita ter um comportamento mais diplomático e previsível perante potenciais investidores - afinal de contas, a Grécia em algum momento vai querer receber de novo dinheiro deles.

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Os comentários dos leitores são de dois tipos:
1. A parte da Alemanha vai ser cumprida, a da Grécia não. Coitadinhos dos alemães, estão a ser chantageados por um país de 10 milhões de habitantes cuja mentalidade impede as necessárias mudanças.
2. Isto não resolve o problema, porque o problema central não é este. O problema é que uma moeda única não funciona em economias tão diferentes, e os salários alemães estão demasiado baixos. Enquanto a Alemanha não aumentar os seus custos de produção, os outros países do euro vão ter sempre problemas.

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Agora é esperar para ver como vão ser as declarações finais verdadeiras deste encontro.


5 comentários:

Rita Maria disse...

Vão ser assim: Varoufakis dz que foi uma reunião de trabalho interessante e importante, mais coisa menos coisa, Schäuble não diz nada. Aposto o nosso primeiro jantar da tua estadia próxima.

Rita Maria disse...

Bolas, esta aposto foi como a pescada, antes de publicada já estava perdida!

Júlio de Matos disse...

Não percebo: então é preciso obrigar o marxista a criar e implementar um imposto sobre a propriedade?

Dito de outra forma, se ele não cria nem implementa um imposto sobre a propriedade, por que continua a ser considerado marxista?

É assim a Economia? Ou então eu sou estúpido?...

Helena disse...

Rita, hehehehe
(eu gostei da conferência de imprensa - cada um defendeu a sua posição com civismo, e o grego brilhou mais - algo me diz que gota a gota ainda vai conseguir levar a água ao seu moinho)

Júlio,
também pensei nisso. Estão aqui a ensinar o pai nosso ao vigário.

Rita Maria disse...

Está previsto um imposto sobre as grandes propriedades imóveis. Sobre a restante propriedade não sei nada...