20 janeiro 2015

post onde se fala de economia paralela, solidariedade, receitas de bolos e o que mais calhou

Daqui a uma semana o Matthias sai para a Costa Rica, para um ano de trabalho voluntário numa escola. Ultimamente tenho-me lembrado muito da frase "os ricos que paguem a crise": para estes jovens alemães poderem ir trabalhar de graça durante um ano em bairros pobres, têm de juntar os 3.800 euros que o ano custa à organização, mais o dinheiro para a passagem de avião. Triste vida.
(E podem criticar, e dizer que mais valia dar logo os quase cinco mil euros ao bairro pobre. Têm razão, mas perdia-se o valor acrescentado de haver jovens a sair deste continente para conhecer outras realidades e fazer amigos entre outros povos e culturas.)

Para pagar o bilhete do avião resolvemos vender muitos dos livros infantis e uma parte do Lego que fomos juntando nos últimos vinte anos. O Matthias fez convites e andou a espalhá-los na vizinhança (foi um dia maravilhoso para o Fox: iam à rua, tocavam às campainhas, falavam, os vizinhos faziam festinhas ao Fox, voltavam para casa para vir buscar os convites que entretanto a impressora já tinha despachado, o Matthias chamava o Fox para saírem de novo, ele arrebitava as orelhas como quem não acredita no que está a ouvir e lá ia aos saltos, feliz da vida). Depois escolheu o Lego. Eu escolhi os livros, caixas e caixas deles, todos os que imagino que não vão interessar aos netos. A Christina e o Matthias fartaram-se de protestar quando viram o monte dos que eu estava disposta a vender ("este livro?! mas este livro é fantástico! e este foi durante muito tempo o meu favorito! ai, e aquele é tão engraçado, ria-me sempre quando o lia! e estes dois foram tão importantes para eu perceber como é que as máquinas funcionam!") (fiquei a ouvi-los enquanto percorriam os livros e por eles a sua infância - parece que os livros lhes foram bons amigos). Só sobrou metade do meu monte para vender, e mesmo assim dava para abrir uma pequena livraria. Pusemos os livros no quarto dos turistas, divididos por temas e línguas (alemão, inglês, português, francês) e cobrimos a cama com o Lego. Na cozinha ao lado os bolos foram enchendo a mesa: brownies, fiadone de Corse, tarte de grão de bico, bolo barranquenho, tarte de maçã, bolo de natas. E bolachas, por especial insistência do Matthias, que dizia que os miúdos iam gostar.


Os vizinhos começaram a chegar. Apesar dos nossos protestos, descalçaram-se todos e deixaram os sapatos no terraço gelado, e desataram aos "ah" e "oh", e que boa ideia tivemos!, e que bom termos esta oportunidade de conhecer os vizinhos!, e que maravilhosos os bolos!, e havemos de fazer uma festa de rua quando chegar o verão!


Os miúdos mergulharam no Lego e só pararam um bocadinho para se irem encher de bolachas.

Os bolos foram um sucesso, tal como daquela vez que fizemos uma garage sale em San Francisco para vender os móveis e tralha restante antes de regressar à Alemanha, e aproveitámos para nos despedirmos dos amigos com uma festinha no jardim da frente, junto à garagem. Os bolos desapareciam que era uma maravilha, os móveis nem por isso, de tal maneira que uma das nossas amigas sugeriu que eu vendesse os bolos e desse os móveis.

Desta vez correu melhor: o Matthias juntou metade do preço da passagem de avião. E nós aproximámo-nos bastante de alguns dos novos vizinhos. Gostei da pinta deles. Estávamos todos um bocado patetas, sem saber se nos havemos de tratar por tu ou por você. Desconfio que seja uma questão geracional: quando chegarem à nossa idade, os nossos filhos já não vão ter estas dúvidas.

Só uma família estragou um bocadinho a fotografia. Encheram um saco enorme de peças de Lego, e deram 13 euros. Fiquei a olhar para eles, estupefacta. "É pouco?", perguntaram. "Bem, cada um dá o que entende, mas estamos a vender isto para pagar a viagem do Matthias à Costa Rica..."
Treze euros. Devia ter dito "Claro que é pouquíssimo! Só as vinte figurinhas do castelo medieval valem isso e muito mais!"
Agora estou a pensar nesta minha maneira de ser, este engolir em seco quando alguém abusa. Para meu bem, e da saúde nas relações de vizinhança, devia ter sido bem mais directa. Tenho de aprender. E a ver se aprendo também: quantas vezes não fui já a concertos da Filarmonia "gratuitos", a favor da UNICEF, e me esqueci de deixar um donativo na caixa, ou deixei apenas uma notinha de cinco euros...

Para os mais curiosos: seguem imagens e algumas receitas dos bolos.
(As bolachas - para os ainda mais curiosos - eram Leibniz.)





(o bocadinho que falta foi o meu controlo de qualidade, e despachei-me a tirar a fotografia para continuar o controle, sem mais delongas e até à última fatia - foi o meu favorito do dia)



(como não arranjo broccio, faço com ricotta)




(uma velha conhecida deste blogue)





10 comentários:

Teresa disse...

Como não haviam os teus filhos de ser especiais, tendo-te por mãe?
Nem digo mais nada.

Helena disse...

Mas o que é que eu fiz agora?! Estava aqui tão sossegadinha a aviar o que sobrou dos bolos, e acontece-me um elogio assim?...
Obrigada, Teresa. :)

calita disse...

Eu não consigo recuperar daquela foto dos legos. Aquilo é um mundo!
P.S Posso ser tua vizinha?

Gi disse...

Eu queria *tanto* fazer uma venda de garagem!

Helena disse...

Calita, era um prazer ter-te como vizinha!
Não me digas que também queres um saco de legos? Queres que te arranje uns 20 euritos deles?

Helena disse...

Gi, porque é que querias fazer uma venda de garagem? Tens coisas para despachar, ou querias ficar à conversa com os compradores? As nossas experiências em San Francisco foram um bocadinho frustrantes. Apareciam mexicanos a querer comprar por tuta e meia coisas que valiam muito mais.
A única venda de garagem que foi realmente gira foi a última, porque estavam lá os amigos.

calita disse...

Dá-me o NIB, que eu faço já a transferência e não precisa de ser um saco deles. Eu paguei recentemente 17€ por um carro, um semáforo e o mecânico do mesmo.

mar disse...

Hoje à tarde haverá bolo de natas cá em casa. Li o post da Helena ontem à noite e até sonhei com ele...

E a receita dessa tarte de maçã tão bonita (e diferente das pobrezinhas que costumo tirar do forno)? Também há link que possa ser partilhado?

Gi disse...

Helena, embora não goste de casas vazias, tenho montes de coisas que não uso, de que não preciso, mas que me custa deitar fora ou simplesmente dar, e que no entanto não valem o suficiente para as pôr num leilão a sério.
Só participei num garage sale, quando vivi em Miami. Até vendi uma ou duas coisas, por dois tostões, claro.

Sandra disse...

Pena nao ser tua vizinha, os meus filhotes devoram livros!